10 super-heroínas que combatiam o crime antes da Mulher-Maravilha

A Mulher-Maravilha está em alta!

No post sobre a personagem aqui no blog mostrei os motivos e polêmicas que levaram a princesa amazona a ser a mais importante e representativa super-heroína da cultura de massa, mesmo após 75 anos de sua criação em 1941.

Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, ela não foi a primeira representante feminina do gênero super-heróis das Histórias em Quadrinhos.

Mas quais mulheres defendiam os fracos e oprimidos antes de seu surgimento?

Para responder a esta questão, trago hoje as 10 heroínas e super-heroínas que combatiam o crime antes da Mulher-Maravilha.

E se você que ver logo a lista, sem querer saber antes dos critérios para criá-la, clique aqui.

Mas o que é um super-herói?

Qual é o ponto em comum entre Batman e Superman? Entre Gavião Arqueiro e Homem-Aranha? Super poderes? Identidade secreta? Uso de aparatos tecnológicos? Compromisso com a justiça? Como se define um super-herói?

Para o crítico Peter Coogan, os super-heróis têm como características principais uma Missão, Poderes ou superforça e Identidade secreta (MPI).

Já para a pesquisadora Jennifer Stuller, os super-heróis não são definidos somente pelos superpoderes ou pelas fantasias que usam no intuito de preservarem sua real identidade, mas principalmente pelo compromisso com a luta em defesa dos inocentes.

Em outras palavras, são super-heróis por irem além das suas condições humanas para fazerem o bem aos outros.

Tomando então como base o conceito de Jennifer Stuller, foram selecionadas aqui personagens femininas do gênero aventura e super-heróis, com ou sem poderes, que podem ser tomadas como exemplos de super-heroínas.  

Quem entrou? Quem ficou de fora? E por que?

Entraram na lista a seguir personagens femininas que surgiram antes da primeira aparição da Mulher-Maravilha nos quadrinhos, ocorrida em All Star Comics #8, de dezembro de 1941.

A personagem fez tanto sucesso que ganhou revista própria seis meses após sua criação. Em Wonder Woman #1, de julho de 1942.

No entanto, apesar de terem sido publicadas antes da Mulher-Maravilha, ficaram de fora as seguintes personagens:

1. Heroínas que foram criadas inicialmente como interesse amoroso do super-herói

Caso de Lois Lane, que a despeito de sempre ter sido retratada como uma mulher forte, determinada e destemida, desde sua primeira aparição em 1938, acaba sendo utilizada como suporte para as ações heroicas do Superman. 

No anos 50 a personagem ganhou revista própria, mas perdeu sua força feminina para passar a ser a namorada do Superman

2. Heroínas que foram criadas como versões femininas de super-heróis masculinos

Caso da Mulher-Gavião (Hawkgirl) (Janeiro, 1940), apresentada como a namorada do Homem-Gavião, sendo coadjuvante em suas histórias. 

Exemplo semelhante é o da Bulletgirl (Abril, 1941) namorada, ajudante e esposa (nesta sequencia) do super-herói Bulletman.

Em ambos os casos, assim como ocorreu com outras super-heroínas, as personagens não tinham voz própria, sendo muitas vezes resgatadas por seus equivalentes masculinos.

3. Heroínas cuja criação e motivação estão ligadas direta e exclusivamente a Segunda Guerra Mundial

Aqui se inserem as heroínas criadas na onda da propaganda norte-americana na Segunda Guerra Mundial, tendo seu espaço de atuação regulado pelo conflito.

Estas personagens não exerceram influencia além deste contexto histórico-cultural.

São exemplos deste tipo, Pat Parker, War Nurse, Pat Patriot, Lady Satan, Miss Victory e Black Venus.

O ponto em comum a todas estas combatentes do mal foi a gradual perda de popularidade junto aos leitores e o eventual cancelamento de suas publicações após o fim da guerra.   

Black Venus

4. Heroínas cujas publicações duraram menos de seis meses

Na avalanche de super-heróis e super-heroínas das décadas de 40, algumas personagens não conseguiram se estabelecer no mercado, vindo a desaparecer com menos de seis meses, não deixando influências a serem seguidas. 

Este é o caso de, dentre outras, Amazona, Madame Strange e Spider Queen. 

Para quem quer conhecer em maiores detalhes o nascimento e desenvolvimento das super-heroínas dos quadrinhos, recomendo o trabalho A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha (2016), da pesquisadora brasileira Jaqueline dos Santos Cunha, disponível gratuitamente para leitura, aqui.

Tive o prazer de orientar esta pesquisa que traz um dos mais completos e atuais panoramas da representação feminina nos quadrinhos norte-americanos da primeira metade do século vinte. 

Agora que os critérios foram explicados e sugestões de leitura foram indicadas, vamos a lista:

10 Super-heroínas das HQs que antecederam a Mulher-Maravilha

Conheça abaixo agora, por ordem de publicação, as 10 primeiras (e principais) combatentes do crime dos quadrinhos que prepararam o caminho para a chegada da Mulher-Maravilha em dezembro de 1941.

1. Sheena

Descrição: Sheena se insere em um contexto de popularidade no início do século vinte das chamadas jungle stories (histórias passadas em selvas de regiões dominadas ou influenciadas por países da Europa e Estados Unidos), e que fomentaram a criação, na época, de personagens da ficção pulp e quadrinhos como Tarzan e Fantasma.

As jungle stories refletiram a influência dos romances de aventuras de fins do século dezenove de escritores como H. Rider Haggard e Rudyard Kipling, sempre ambientadas em lugares exóticos na África e na Ásia.

É justamente a partir do romance Ela (1887), de Haggard que Will Eisner e Jerry Iger criaram Sheena, a Rainha das Selvas. O próprio nome da personagem soava como o título do livro de Haggard (She, no original).

Sheena Rivington cresceu como órfã em meio a selva, onde ela aprendeu os segredos da floresta e da comunicação com os animais.

Com o tempo, Sheena se tornou rainha de uma tribo local e, semelhante a Jane em relação a Tarzan, também teve um relacionamento amoroso com o personagem Bob Reynolds.

Em uma inversão de papeis, raras de se ver na época, Sheena costumeiramente salvava Bob de perigos.  

Primeira aparição: Wags #1 (Janeiro, 1938) (Inglaterra) e Jumbo Comics #1 (Setembro, 1938) (EUA) 

Criadores: Will Eisner e Jerry Iger

Editora: Editors Press Service (Inglaterra) e Fiction House (EUA)

Destaque: A primeira heroína dos quadrinhos. 

2. Red Tornado

Descrição: Após ver sua filha ser sequestrada e não poder contar com a ajuda da polícia ou do herói Lanterna Verde, a corpulenta Abigail Mathilda “Ma” Hunkel decide colocar um balde na cabeça, vestir uma roupa que escondia sua identidade feminina e assumir o nome de Tornado Vermelho

Ao contrário da grande maioria das personagens aqui, Abigail Mathilda “Ma” Hunkel sobreviveu até os dias de hoje, se tornando governanta da base de operações da Sociedade da Justiça da América.

Ela, no entanto, ainda não foi vista após o reboot da editora DC Comics de 2011 chamado de Os Novos 52

Primeira aparição: All-American Comics #3 (Junho, 1939), na sua identidade civil e All-American Comics #20 (Novembro, 1940), como Tornado Vermelho.

Criadores: Sheldon Mayer

Editora: All-American Publications

Destaque: A primeira heroína drag king e a primeira paródia de super-herói. 

3. Fantomah

Descrição: Uma das criações mais originais dos quadrinhos, Fantomah também bebe das influências nos romances de aventuras de Haggard, em especial a deusa branca Ayesha do livro She e sua sequencia Ayesha (1905).

Protetora da selva e seus habitantes, Fantomah era uma atraente loira que ao ativar seus poderes se tornava um ser vingativo de pele azul e face de caveira.

Nesta forma ela tinha poderes quase ilimitados, através dos quais punia os invasores de sua terra.

Posteriormente ela foi reapresentada como a reencarnação de uma princesa egípcia, mas isso não salvou a personagem de cair no esquecimento já em 1942. 

Primeira aparição: Jungle Comics #2 (Fevereiro, 1940)

Criadores: Fletcher Hanks

Editora: Fiction House

Destaque: A primeira super-heroína no sentido pleno da palavra, pois tinha superpoderes.

4. The Woman in Red

Descrição: Detetive da policia Peggy Allen assume a identidade secreta da Mulher de Vermelho para combater o crime sem as limitações da lei. 

Atiradora habil e detetive brilhante, a Mulher de Vermelho não hesitava em matar os criminosos quando a situação assim exigia. Lembrando que nessa época até o Batman usava armas de fogo.

Ao lado de outros super-heróis das décadas de 30 e 40 que caíram em domínio público, a personagem foi resgatada do limbo em 2001 pelo escritor inglês Alan Moore para sua série Tom Strong

Nesta releitura, a Mulher de Vermelho possui um rubi que lhe confere superpoderes como voo e projeção de energia.

Primeira aparição: Thrilling Comics #2 (Março, 1940)

Criadores: Richard Hughes e George Mandel

Editora: Nedor Comics

Destaque: A primeira combatente do crime com uniforme e identidade secreta.

 5. Lady Luck

Descrição: Criada apenas três meses depois da Mulher de Vermelho pelo quadrinista e escritor Will Eisner para participar das publicações no jornal do famoso detetive Spirit, Lady Luck é na verdade a rica socialite Brenda Banks que decide combater o crime apenas com suas habilidades de Jiu-Jitsu. 

Perseguida pela policia e protegendo sua identidade civil sob um fino véu, Lady Luck por vezes contava com a ajuda de seu motorista Peecolo.

Nos dias de hoje a personagem teve uma participação inesperada na edição #6 da revista The Phantom Stranger (2013), mas não foi mais vista deste então.

Primeira aparição: The Spirit Section (02 de Junho, 1940).

Criadores: Will Eisner e Chuck Mazoujian

Editora: Register and Tribune Syndicate

Destaque: A primeira socialite rica a combater o crime, abrindo a tendência de personagens semelhantes nos anos seguintes como Miss Fury (1941), Spider Widow (1942) e Miss Masque (1946). 

6. Invisible Scarlet O’Neil

Descrição: 20 anos antes da Mulher-Invisível adquirir seu poder e formar o Quarteto Fantástico, uma jovem repórter encostou o dedo em um raio desenvolvido por seu pai cientista e ganhou o poder da invisibilidade: Scarlet O’Nell. 

Sendo capaz de ativar e desativar sua invisibilidade pressionando um nervo em seu pulso, Invisible Scarlet O’Nell usava seu poder não apenas para conseguir matérias jornalisticas, mas também para resolver pequenos crimes e ajudar as crianças.

Nos anos da década de 1950 a personagem ganhou um interesse amoroso – o xerife Stainless Steel – e as histórias passaram a ser mais sobre o relacionamento dela e menos sobre os seus atos heroicos.

Por fim, com a queda da popularidade, a tira de jornal em que suas histórias eram publicadas foi renomeada para Stainless Steel e a personagem se tornou secundária.  

Primeira aparição: The Chicago Times (03 de junho, 1940)

Criadores: Russell Stamm

Editora: The Chicago Times

Destaque: Ainda que não tenha identidade secreta e uniforme, Invisible Scarlet O’Neil é a primeira super-heroína urbana com super-poderes.

7. Black Widow

Descrição: Após ser vitima de assassinato, Claire Voyant retorna do inferno como uma agente do Diabo para matar criminosos e outros praticantes do mal, pois há almas, segundo o discurso da Viúva Negra, que o Diabo está ansioso por possuir.

Imune a ácido e balas, a Viúva Negra envolve suas vitimas em sua capa e o infeliz cai morto aos seus pés.

Primeira aparição: Mystic Comics #4 (Agosto, 1940)

Criadores: George Kapitan e Harry Sahle

Editora: Timely Comics

Destaque: A primeira super-heroína (ou anti-heroína) urbana a ter uniforme, identidade secreta e superpoderes. 

8. Miss Fury

Descrição: Convidada para uma festa e informada que outra mulher usaria um vestido semelhante ao seu, a socialite Marla Drake decide vestir a pele de pantera negra deixada pelo tio e que tinha pertencido originalmente a uma feiticeira africana. No caminho para a festa, todavia, ela impede um crime e assume a identidade de Miss Fury.

As histórias de Miss Fury, traduzidas no Brasil como Mulher-Pantera, nunca afirmaram categoricamente se a habilidade e força demonstrada pela heroína vinha da pele do animal ou da própria Marla, o que acrescentava um elemento extra de curiosidade a personagem.

Ao contrário da maioria das outras combatentes do crime de vida curta, a Mulher-Pantera foi publicada nas tiras dos jornais americanos até o ano de 1952, algo incomum para personagens do período. 

Primeira aparição: Inicialmente com o nome Black Fury (06 de Abril, 1941) e como Miss Fury a partir de 14 de dezembro de 1941

Criadores: Tarpe Mills

Editora: Jornais ligados ao Bell Syndicate

Destaque: A primeira super-heroína criada, roteirizada e desenhada por uma mulher.

9. Phantom Lady

Descrição: Maior representante da chamada “Good Girl art”, um estilo de desenho focado em representar mulheres voluptuosas e sensuais, Lady Fantasma possui uma arma de luz negra com a qual ela cega momentaneamente seus inimigos.    

Apresentada como Sandra Knight, filha de um senador norte-americano, Lady Fantasma teve seu uniforme alterado em meados dos anos 40 para ficar mais sensual. 

A personagem justificou a mudança dizendo que o novo uniforme distraia seus oponentes, mas pelo visto na imagem abaixo ele também funcionava com os heróis. 

Primeira aparição: Police Comics #1 (Agosto, 1941).

Criadores: Will Eisner e Jerry Iger

Editora: Quality Comics

Destaque: A personagem foi usada como exemplo de má influencia sobre os jovens na década de 50 devido ao seu uniforme revelador, mas é a única daqui da lista que se manteve regularmente ativa até os dias de hoje, fazendo parte do universo da DC Comics. 

10. Nelvana das Luzes do Norte

Descrição: Mulher-Maravilha não é a primeira única super-heroína ligada aos deuses. Nelvana das Luzes do Norte é uma poderosa deusa da mitologia Inuit defensora dos povos do norte do Canadá.

Ela pode voar na velocidade da luz usando as luzes do norte, ficar invisível, mudar de forma e derreter metais.  

Eventualmente ela se disfarçava na identidade secreta da agente Alana North.

Primeira aparição: Triumph Adventure Comics #1 (Agosto, 1941).

Criadores: Adrian Dingle

Editora: Hillborough Studios 

Destaque: A primeira super-heroína canadense e a primeira super-heroína pertencente a um grupo minoritário (os povos indígenas do Canadá). 

 

Gostou das super combatentes do crime pré-Mulher-Maravilha?

Na sua opinião, quais delas ainda poderiam estar sendo publicadas hoje?

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Fontes utilizadas

CUNHA, Jaqueline dos Santos. A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha. 2016. 151 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2016. Disponível em https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/5890 

DON MARKSTEIN’S Toonpedia. Disponível em http://www.toonopedia.com/. Acesso em 08 fev. 2017.

MADRID, Mike. Divas, Dames and Daredevils: Lost Heroines of Golden Age Comics. New York: Exterminating Angel Press, 2013.

______. The Supergirls: fashion, feminism, fantasy and the history of comic book heroines. New York: Exterminating Angel, 2010.

ROBBINS, Trina. The Great Women Super Heroes. Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com