5 razões pelas quais você não tem medo de Múmia

Semelhante ao seu primo sobrenatural sugador de sangue, ele habita a fronteira entre os vivos e os mortos, dorme em um caixão, possui raízes nobres em terras exóticas e tem poderes sobre-humanos. Sendo assim, por que a múmia não possui o mesmo status junto ao público, escritores e roteiristas que o vampiro ou outros ícones do horror, como a criatura de Frankenstein e o lobisomem? 

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Monstros clássicos do Universal Studios

Se você quiser pular direto para as 5 razões, clique aqui.

Mas se quiser descobrir brevemente os mistérios que criaram a mítica desta criatura no Egito e sua representação na Literatura e no Cinema continue a leitura abaixo.

Terra imortal

Ainda que em todos os continentes ao longo da história da humanidade tenham existido culturas que praticaram a mumificação, foi no Egito antigo que esta técnica se aprimorou, tendo seu início no ano 2950 a. C. e alcançando seu ponto alto no ano 1100 a. C.

Empacotado para a viagem ao outro mundo
Empacotado para a viagem ao outro mundo

O propósito da múmia era a conservação do corpo em virtude da crença na imortalidade do indivíduo. A morte, para o egípcios, era passageira e a alma da pessoa poderia retornar ao corpo caso este estivesse conservado

Hórus X Jesus

Os mistérios do Egito começaram a ser moldados no século 4, quando o Cristianismo foi implantado no país por meio do Império Romano e os tempos dedicados ao deuses egípcios foram fechados por ordem do imperador Teodósio I.

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Muitos mitólogos apontam os pontos de contato entre Hórus e Jesus Cristo.

Com a morte dos sacerdotes e escribas egípcios, o conhecimento pala ler e escrever os hieróglifos (do grego, “escrita sagrada”) se perdeu e os mortos pararam de ser mumificados, dando início aos mistérios sobre seus significados.

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Apenas membros da realeza, possuidores de altos cargos, escribas e sacerdotes tinham o conhecimento para ler os hieróglifos.

Nasce a alquimia da múmia

Os árabes tiveram papel chave na criação do imaginário que temos hoje da múmia e do Egito como um todo quando a região do Nilo se tornou parte do mundo árabe na primeira invasão islâmica em 639.

Intrigados com os hieróglifos, construções e os corpos embalsamados daquela civilização, os árabes chamavam o Egito de Al Keme (“A Terra”), que fazia menção tanto ao fértil solo nas margens do Rio Nilo, quanto a magia oculta naquele local que eles não compreendiam.

Para alguns historiadores, vem dai a palavra “Alquimia”, ou seja, a utilização e manipulação de palavras específicas e elementos para a transformação de uma substância em outra. 

Além de “Alquimia”, a própria palavra “Múmia” nasceu entre os árabes através do termo mumiya (“corpo embalsamado”).

A múmia invade a Europa

Ansioso por se comparar ao grandes conquistadores do passado em suas campanhas na Ásia e na África, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito em 1798 levando junto com sua tropa centenas de biólogos, linguistas, matemáticos, químicos, botânicos, zoólogos, economistas, poetas e outros especialistas.

Napoleão diante da Esfinge
Napoleão diante da Esfinge

 O resultado foi o começo de uma Egiptomania que trouxe para a França diversos tesouros, monumentos e documentos, muitos dos quais ainda fazem parte do cenário parisiense de hoje, como o Obelisco de Luxor na Place de La Concorde, que originalmente ficava na entrada do Templo de Luxor, no Egito.   

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Até hoje o Egito cobra a devolução de suas propriedades levadas por Napoleão.

Neste clima, estava pronto o terreno para a estréia literária da múmia como criatura sobrenatural  evocadora do horror.

A múmia gótica

Para o crítico S. T. Joshi, autor de Icons of Horror and the Supernatural (2007), Mary Shelley (sempre ela), autora de Frankenstein (1818), pode ter sido a primeira escritora na ficção inglesa a evocar a múmia como uma criatura do horror.

Quanta imaginação tinha essa menina!
Quanta imaginação tinha essa menina!

Na obra, quando Victor Frankenstein vê sua hedionda criação, diz: “Oh! Nenhum mortal poderia suportar o pavor daquela visão. Uma múmia que voltasse a vida não seria tão assustadora.”

Frankenstein ainda pode ter exercido influencia no primeiro romance estrelado por um múmia: A múmia! Um conto do século vinte e dois (1827), da jovem Jane Loudon. Aqui, no entanto, a múmia não é apresentada de forma monstruosa, evocando empatia e não horror.  

Múmia no mundo da FC
Múmia no mundo da FC

Chama a atenção aqui o fato também que a primeira obra protagonizado por uma múmia tenha sido na verdade uma Ficção Científica.  

Aguardando um bestseller

Após sua estréia por vias tortas na Literatura Inglesa, a múmia foi personagem nos trabalhos de vários nomes do gótico francês, inglês e norte-americano ao longo do século dezenove e vinte, nunca sendo plenamente estabelecida como um ícone do horror. Dentre estas obras que ajudaram a estabelecer características das histórias da múmia destacam-se:

  • “O pé da múmia” (1840), do francês Theóphile Gautier – Introduz o elemento romântico na qual um personagem se apaixona pela múmia. Ainda que fale dos aspectos mágicos da criatura, o tratamento do tema é de comédia.  
  • “Algumas palavras com uma múmia (1845), de Edgar Allan Poe – Primeiro conto em Língua Inglesa a trazer a criatura do Egito. O tom que o mestre do gótico norte-americano imprime, todavia, é de sátira ao invés do horror;
  • O romance da múmia (1856), de Theophile Gautier – Primeiro romance a ser ambientado de forma historicamente precisa no Egito.  
  • “Lot No. 249” (1892), de Arthur Conan Doyle – Este conto do criador do detetive Sherlock Holmes traz pela primeira vez uma múmia revivida como promotora do medo, sendo utilizada como instrumento de vingança contra outras pessoas.   
  • A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker – O romance do escritor de Drácula, traz a estréia do tema da princesa egípcia revivida que tem semelhanças físicas com heroína dos tempos atuais. A mesma abordagem usada no filme A múmia (1999). 

A múmia também saiu do sarcófago nas seguintes obras literárias dignas de nota:

  • “The Nemesis of Fire” (1908), de Algernon Blackwood;
  • “Smith and the Pharaohs” (1912), de H. Rider Haggard;
  • “Imprisoned with Pharaohs” (1924) e “Out of the Aeons” (1935), de H. P. Lovecraft;  
  • “The Empire of the Necromancers” (1932), de Clark Ashton Smith;
  • The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice;

No Cinema

Antes de Drácula, o monstro de Frankenstein e o Lobisomem, a Múmia esteve lá, nos primeiros anos do Cinema, sendo esta o principal veículo no qual esta criatura vem se propagando na cultura pop. As produções mais representativas são:

Cleopatre (1899), direção de George Méliès – Foi com este filme que o pioneiro do Cinema se tornou conhecido nos EUA. Na trama, um homem (o próprio Méliès) picota a múmia de uma rainha e produz uma nova mulher no fogo.

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O pioneiro do Cinema é mais conhecido do público pelo filme Le Voyage dan la Lune (1902).

A múmia (1932), direção de Karl Freund – Clássico dos Estúdios Universal que consagrou a múmia no Cinema norte-americano ao lado de Drácula (1931) e Frankenstein (1931). Estrelado por Boris Karloff.

A múmia (1959), direção de Terence Fisher – Produção dos estúdios ingleses Hammer Films e estrelado pela dupla dinâmica Peter Cushing e Christopher Lee. 

A múmia (1999), direção de Stephen Sommers – Filme que teve o mérito de apresentar de maneira competente o monstro para as novas gerações. O sucesso rendeu duas continuações em 2001 e 2008 sem o mesmo impacto. 

A múmia (2017), direção de Alex Kurtzman – Próxima reencarnação cinematográfica do ser mumificado no Cinema. Estrelado por Tom Cruise o filme traz uma princesa múmia (para aproveitar a onda do empoderamento feminino no Cinema, será?) cujo destino lhe foi tirado injustamente. 

Agora que você tem mais informações, veja as 5 razões pelas quais esta criatura sobrenatural não consegue se igualar a outros monstros do universo do Horror, e que leva você a não ter  medo da múmia:

1. A múmia existe

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

A afirmação do escritor de Horror H. P. Lovecraft em O horror sobrenatural em literatura (1927) ajuda a entender o pouco impacto da múmia como agente do medo.

As múmias existem e você pode visitá-las a qualquer momento em um museu. O conforto desta realidade se alia as pesquisas da ciência que dissecam a múmia aos olhos do público, expondo seu interior, sua humanidade e, indiretamente, eliminando sua aura sobrenatural.

Assim, diferente das outras criaturas que, assim como ela, estão ligadas ao folclore ou a crenças religiosas de um povo, como o vampiro, o lobisomem, o demônio e o fantasma, a múmia está ao alcance da nossa racionalização e, portanto, longe de nossas duvidas (e medos) sobre sua possível existência. 

2. A múmia não possui relevância literária

Pensou em vampiro, lembrou do romance Drácula, de Bram Stoker. Pensou em Duplo, lembrou da novela O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson ou no conto “William Wilson”, de Edgar Allan Poe. Pensou em homem brincando de Deus, lembrou do romance Frankenstein, de Mary Shelley. 

Diga aí uma obra literária famosa sobre a múmia

Um obra literária reflete as expectativas e angustias de seu tempo, incorporadas nos monstros citados acima. Este fato permite uma dimensão de identificação entre leitor (ou expectador) e obra conferindo a esta última uma importância validade pelo público e pelo mundo acadêmico que a leva a estar presente em diferentes mídias e veículos ao longo de anos.

O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas
O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas

A obra mais representativa sobre a múmia é o romance The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice, mas mesmo neste livro Rice não conseguiu o mesmo efeito que tinha conseguido com os vampiros e acaba incorrendo na repetida trama do amor imortal já visto em outas leituras da lenda.

Alguém pode argumentar que o lobisomem também não possui uma obra canônica que justifique sua fama nos dias de hoje, mas a resposta para isso nos leva a terceira razão.

3. A múmia não instiga nosso inconsciente

A múmia certamente chama a atenção por levar você a refletir sobre a sua própria mortalidade. Mas é só.

A fascinação pelo vampiro, por exemplo, passa pelo simbolismo do sangue enquanto elemento ligado a vida, ao sexo e ao sagrado. Inconscientemente você é fascinado e sente repulsa por uma criatura que em seu ataque carregado de tensão erótica realiza, em apenas um ato, dois impulsos básicos do ser humano: comer e copular.

Christopher Lee como Drácula
Christopher Lee como Drácula

Além disso, o estilo de vida do vampiro causa admiração pelo fato de que, na sua existência como morto-vivo, ele está além das convenções morais, religiosas e sexuais que inibem a vida dos vivos.   

Já o lobisomem e o Duplo, por sua vez, tem seu apelo junto ao imaginário sustentado pelo lado bestial e instintivo do ser humano, mantido escondido e reprimido por meio das instituições familiares, religiosas e governamentais e que, de vez em quando, quer emergir e se libertar. É o Id contra o Superego. 

Lembre-se de quando você teve o seu Dia de Fúria.

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Transformação no filme Um Lobisomem americano em Londres (1981)
Dr. Jekyll e Mr. Hyde
Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1941)

Por fim, o monstro de Frankenstein nos horroriza por ser a lembrança da transgressão maior: contra a vida. Independente de sua religião, a criatura de Mary Shelley evoca reflexões sobre a Natureza (e o feminino) ser a única responsável pela geração da vida, algo que Victor Frankenstein viola e paga o preço por isso. 

Além disso, o romance de Shelley tem raízes míticas, em narrativas sobre a violação de conhecimentos proibidos e as consequências desse ato. 

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A punição do titã Prometeus por ter entregue aos homens o fogo roubado dos deuses foi ser acorrentado em uma pedra e ter seu figado devorado eternamente por um abutre.

4. A múmia não se sustenta enquanto imagem do medo

Desde suas primeiras aparições literárias e cinematográficas a abordagem prevalecente das histórias sobre múmias não provocam o horror, mas sim a compaixão ou empatia pela criatura. 

Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).
Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).

Isso é o resultado de enredos e roteiros que recorrentemente usam o tema da reincarnação da pessoa amada e da possessão espiritual de algum amante pelo espírito ancestral. Assim, o que era pra ser de Horror vira Amor e mesmo os assassinatos da criatura ganham a justificativa na linha do “No amor e na guerra vale tudo”. 

Se você lembrar que o significado da palavra “múmia” é “corpo embalsamado” ai terá outro problema: em muitas histórias na literatura e no cinema a múmia perde suas mortalhas e assume a aparência dos vivos mas dotado de super poderes.

É igual a um lobisomem que não se transforma em lobo ou um vampiro sem caninos salientes. 

 5. A múmia foi substituída pelo zumbi

Cadáver ambulante por cadáver ambulante, o zumbi é mais eficiente hoje na provocação do horror do que a múmia e permite maior reflexão sobre a mortalidade do ser humano. 

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Ei, me dá uma mãozinha aqui.

O zumbi supera a múmia, e vem superando outros monstros clássicos da Literatura e do Cinema, por lidar com um dos tabus da humanidade: o canibalismo.

Este canibalismo, e o comportamento dopado do zumbi tradicional (e não aqueles zumbis atletas do filme Guerra Mundial Z) reflete a alienação do ser humano na atualidade dentro da cultura do consumismo desenfreado e da dependência da tecnologia.

 

Ilustração de Steve Cutts
Ilustração de Steve Cutts

E ai? Concorda com as razões pelas quais você não tem medo de múmia, ou não?

Se gostou, deixe seu comentário e compartilhe este texto com seus amigos monstruosos.

Até a quarta que vem!

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LOVECRAFT. H. P. O horror sobrenatural na literatura. Trad. Celso M. Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2007.

   

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

  

     

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

6 Responses

  1. Mari Cenedezi

    Adorei, Alex!
    Uma pergunta: será que “As Múmias Vivas” série animada já aclamada mereceria ser inserida nesta sua análise?

    • alexmeireles

      Oi Mari. Obrigado pelo comentário.
      Na verdade tem tanta coisa que ficou de fora ai, como por exemplo, a participação da múmia em séries animadas e RPG, mas se eu colocasse o texto iria ficar maior ainda. Por isso foquei na parte do Horror.

  2. Luma

    Olá! Tenho acompanhado as postagens do blog desde sua fala na abertura do Ceninha! Sou estudante da UFU e apaixonada pelo fantástico! Obrigada pelas discussões apresentadas aqui, é muito bom encontrar um espaço com temáticas do insólito.

    Sobre as múmias, agradeço pela postagem. Nunca tinha parado para refletir sobre estas questões e não conheço muitas obras literárias com múmias. Minha principal referência sempre foi o filme de 1999 que adoro talvez por uma questão um pouco nostálgica de infância, mas também pela atmosfera maravilhosa da história. Confesso que fiquei bem desgostosa com o trailer deste novo filme com o Tom Cruise. Como você disse as múmias não causam medo, mas acredito que também não devam servir como pretexto pra mais uma “missão impossível”.

    • alexmeireles

      Oi Luma. Valeu pelos comentários.
      Meninas… também estou torcendo muito por este novo filme, mas tempo que a figura do Tom Cruise vai acabar se sobrepondo a da Múmia. Espero que não seja um Missão Impossível: a Múmia.

  3. Bruno Soares

    Alexander, muito ilustrativo o seu texto. Eu nunca havia me questionado de verdade pq a múmia não causa tanto apelo ao medo, mas vc deixou pistas bem sólidas.

    • alexmeireles

      Obrigado pelos elogios Bruno. Penso que a múmia ainda está aguardando um bom escritor ou roteirista para fazer ela sair da cova, igual ocorreu com o zumbi.
      Próxima quarta tem mais postagem

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