7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

2017 marca os 80 anos de morte do escritor norte-americano Howard Philips Lovecraft e os 100 anos de criação de sua primeira obra na fase adulta: “Dagon”.

Stephen King e Neil Gaiman consideram H. P. Lovecraft como o Mestre do Horror moderno

Este conto é o marco inicial do conjunto de contos e romances marcados pela presença de criaturas monstruosas e aterrorizantes com origem em outros planetas e dimensões. 

“Dagon” foi publicado pela primeira vez em 1919 na revista VAGRANT e foi republicado na revista WEIRD TALES em 1923.

Conhecidos posteriormente como integrantes dos “Mitos de Cthulhu”, em menção a divindade apresentada no conto “O chamado de Cthulhu”, publicado em 1928, estes monstros são apresentados como entidades cósmicas que não apenas já estiveram em nosso plano terrestre, mas também já governaram a humanidade em tempos remotos, esquecidos pela história. 

Primeira publicação de “O chamado de Cthulhu” na edição de fevereiro de 1928 da revista WEIRD TALES.

Se nas narrativas de H. P. Lovecraft os Antigos, como são chamadas algumas destas criaturas, ainda aguardam o seu retorno a nossa realidade, na vida real eles estão prontos para invadirem, em 2017, o nosso plano como parte dos eventos, publicações e lançamentos na merecida (e tardia) celebração dos 80 anos da obra de seu criador.

“Feliz Aniversário post-mortem pai!”

Se você quer conhecer logo os 7 monstros de H. P. Lovecraft que vão te encontrar em 2017, antes de conhecer a polêmica racista e xenófoba por trás de sua criação, clique aqui.

América, pais do futuro

As primeiras décadas do século vinte na América foram marcadas por rápidas e profundas mudanças na sociedade norte-americana promovidas pela fé depositada no progresso.

Charles Chaplin em TEMPOS MODERNOS (1936).

Esta situação forneceu a base para a ascensão da Ficção Científica, como vertente do fantástico mais alinhada com os desafios postos pela modernidade, assim definida por Marshall Berman no livro Tudo que é sólido desmancha no ar (1986):

“Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. /…/ ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia”.  

É a partir deste quadro de ameaça a permanente desintegração, de mudança e angústia do sujeito moderno, também caracterizada pela crescente presença de imigrantes na sociedade americana, que Lovecraft formulou os monstros híbridos de seu panteão.

Asiáticos, Irlandeses e habitantes do leste europeu eram os principais interessados em desfrutar do “American Dream”.

O cavalheiro de Providence contra os monstros

Pertencente a uma das famílias mais tradicionais de Providence, cidade do Estado de Rhode Island fundada nos primórdios da colonização puritana na América, Lovecraft já demonstrava, em seus primeiros contos como “A tumba” e “Dagon”, sua natureza conservadora e anglófila, refletindo sua resistência ao grande número de estrangeiros na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte. 

A Estátua da Liberdade dá as boas vindas aos imigrantes.

Posição esta que, de fato, era compartilhada por setores conservadores da sociedade branca dos Estados Unidos da época.

Para Caio Alexandre Bezarias em Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft (2006), essa presença de grupos étnicos e culturais diversos e o choque com a tradição dos norte-americanos representou uma das facetas mais expressivas da modernização do país:

“A presença dos mestiços e imigrantes que tinham tomado de assalto os espaços abertos das cidades – despreparadas para recebê-los em tamanha quantidade, o que gerou inúmeras tensões e conflitos entre eles e os norte-americanos nascidos em solo local – foi uma das manifestações mais visíveis, tensas e vivas da expansão da economia industrial Estados Unidos afora…”  

Dentro da obra lovecraftiana em geral percebe-se esse temor ao estrangeiro, sua cultura e constituição física destoantes do padrão branco, anglo-saxônico e protestante vinculado à cultura norte-americana e celebrado nos heróis espaciais da FC do período.

Branco caucasiano, alto e forte. Padrão heroico nas revistas pulp do começo do século vinte.

Tudo junto e misturado

Localizando em seus corpos um espaço do diferente, os monstros híbridos de Lovecraft trazem à mente as considerações de Mary Douglas em Pureza e perigo (1966) sobre as criaturas que subvertem as suas categorias culturais ligados a Terra, a Água e o Ar.

A partir desta obra Julia Kristeva desenvolveu o conceito do Abjeto.

A partir da análise do Levítico – Livro sagrado para o Judaísmo e de caráter legislativo pelo detalhamento dos comportamentos a serem observados pelos judeus para manter sua santidade – Douglas sistematiza os seres que eram considerados puros e impuros, abrangendo animais aquáticos, terrestres até aqueles que são do ar:

“A santidade requer que os indivíduos se conformem à classe à qual pertencem. E a santidade requer que diferentes classes de coisas não se confundam”.

No caso dos seres lovecraftianos esta subversão categorial ocorre pelo fato destas criaturas estarem no interstício animal/humano e terrestre/aquático/aéreo.

Corpo humano, tentáculos de lula e asas de morcego. Cthulhu: um ícone da subversão das categorias.

O medo do desconhecido

A edição em Português está esgotada, mas vale a pena futucar os sebos físicos e virtuais

Para Noël Carroll em A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração (1990), esta ambiguidade cultural existente nos termos de Mary Douglas se coloca como um dos elementos constituintes do horror artístico explorado na Literatura e no Cinema:

“O que horroriza é o que fica fora das categorias sociais e é forçosamente desconhecido”.

Nesta obra o autor explora sua visão do Horror Cósmico explorado na ficção Weird e fala de suas influencias.

Dentro desta leitura, enquanto corporificação do desconhecido, os monstros de Lovecraft se tornam o medo encarnado, visto que, como afirma o escritor em O Horror Sobrenatural na Literatura:

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

Assim, além de fantasmas internos resultados de sua infância e adolescência atribuladas e de suas leituras de Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce, Lord Dunsany, Robert W. Chambers, Arthur Machen e outros, as divindades monstruosas de Lovecraft refletem o temor não apenas do escritor, mas também de setores conservadores da sociedade norte-americana quanto as profundas e rápidas mudanças levadas a cabo pela inexorável industrialização e que se refletiu, por exemplo, na entrada de imigrantes compostos por grupos étnicos e raciais não-nórdicos e não-saxões.

Imigrantes chegando na Ilha Ellis, Nova York, no início do século vinte.

É importante destacar, todavia, que H. P. Lovecraft era, antes de tudo, um homem de seu tempo alinhado com o pensamento eugenista vigente de sua época.

Críticos e leitores de hoje, que acusam o escritor de racista e xenófobo, devem enxergá-lo dentro desta perspectiva histórica.

Veja agora abaixo, em ordem alfabética, 7 monstros de H. P. Lovecraft que estão a sua espera neste ano.

7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

1. Azathoth

A mais poderosa das divindades lovecraftianas, Azathoth é o Caos Nuclear da criação, sendo retratado normalmente como uma massa amorfa de tentáculos, olhos e dentes. É também chamado de O Deus Idiota pelo fato de não ter consciência de seu inominável poder. Vive primordialmente no centro do universo.

Obras: A busca onírica por Kadath, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

2 . Cthulhu

A divindade-monstro mais conhecida dentre os leitores. Oriundo de outra dimensão, Cthulhu chegou a terra em tempos imemoriais e construiu a gigantesca cidade de R’lyeh, hoje submersa, de onde governou o mundo até que um alinhamento de estrelas o levou a um estado letárgico que dura até hoje. Vive nas profundezas de R’lyeh e se comunica com os seus adoradores por meio de sonhos. 

Obras: “O chamado de Cthulhu”

3. Dagon

Baseado diretamente em um deus da fertilidade Assírio-babilônico de mesmo nome, Dagon é a mais famosa criatura de Lovecraft depois de Cthulhu. Do tamanho de uma baleia, ele apresenta forma humanoide-aquática e é o deus de seres abissais com a aparência de homens-peixes.   

Obras: “Dagon” e “A sombra em Innsmouth”

4. Nyarlathotep

Assim como Dagon, Nyarlathotep também possui raízes em culturas antigas, neste caso aqui, a mitologia egípcia. Também apresentado como a alma de Azathoth ele pode assumir forma humana e já foi faraó do Egito. Quando caminha entre os humanos costuma disseminar pesadelos nas pessoas ao seu redor.

Obras: “O habitante das trevas”, “Sonhos na casa da bruxa”, A busca onírica por Kadath, “Nyarlathotep”

5. Shoggoths

Apresentados como a primeira espécie extraterrestre em nosso planeta, os Shoggoths são uma massa protoplásmica criada originalmente como servos de outros deuses para construírem edificações no mar ártico. Eventualmente eles se rebelaram contra seus criadores, algo surpreendente considerando que foram concebidos como seres sem inteligência.  

Obras: Nas montanhas da loucura, “A sombra em Innsmouth” 

6. Shub-Niggurath

Deusa da fertilidade, a “cabra negra de mil filhotes”, como também é conhecida, não apresenta uma descrição específica, o que provoca várias interpretações de sua figura. Sendo apresentada também como deusa da criação ela por vezes é retratada como possuidora do masculino e do feminino dentro do mesmo ser. 

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

7. Yog-Sothoth

Ainda que exista fora de nossa realidade material, Yog-Sothoth é capaz de influenciá-la diretamente, podendo inclusive, engravidar mulheres. Umas das divindades mais poderosas do Deuses Exteriores, controlador do tempo e espaço, ele habita outra dimensão de onde observa nosso planeta.    

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, O caso de Charles Dexter Ward

Celebrando o monstruoso

Eventos acadêmicos, Games, Literatura, Publicações acadêmicas e RPG.

2017 tem H. P. Lovecraft e seus monstros pra todo lado e mídia:

IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional

Em fase de planejamento na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a edição deste ano celebra os 80 anos de morte do escritor e os 100 anos de seus primeiros escritos profissionais. Acompanhe as informações favoritando o site do SePel. [ATUALIZADO 26/02/2017] O evento foi cancelado devido a crise financeira do Rio de Janeiro e a falta de repasse de verba para a UERJ 

Games

Está previsto para 2017 o lançamento de Call of Cthulhu para as plataformas Xbox One, PlayStation 4 e PC, cobrindo assim, uma lacuna de mais de uma década do último bom jogo ligado a Lovecraft – Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth (2006).

Literatura

Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico é a ousada iniciativa para este ano da Editora Ex-Machina, projeto sob a coordenação do editor Bruno Costa.

Fruto de uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo, a obra promete ser a mais completa e abrangente publicação sobre H. P. Lovecraft já lançada no Brasil.  

Outra iniciativa de financiamento coletivo para este ano ligado a Lovecraft é o livro Arthur Machen: Mestre do Oculto, da Editora Clock Tower

A editora tem se destacado pela produção de obras de qualidade e divulgação de conteúdo sobre H.P. Lovecraft e demais autores que influenciaram o escritor, como Robert W. Chambers (O Rei de Amarelo), e Arthur Machen (Arthur Machen: O Mestre do Oculto) e que foram influenciados por ele, como Robert E. Howard (O Mundo Sombrio: histórias dos Mitos de Cthulhu).

Publicações acadêmicas

A Revista Abusões, ligada a UERJ, está com chamada para publicações de artigos até o dia 05 de março de 2017 para compor a edição 4 (Janeiro/Junho 2017).

Para esta edição a revista aceita artigos que tratem da produção artística e crítica do escritor norte-americano, sobre Horror Cósmico, ou, em uma perspectiva comparatista, sobre obras ficcionais e ensaísticas que estabeleçam diálogos com a obra lovecraftiana.

RPG

A RetroPunk Publicações lançará em 2017 a edição revisada do RPG Rastro de Cthulhu, lançado inicialmente no Brasil em 2010.

Para esta nova publicação, também resultado de financiamento coletivo, a editora trará um livro com 248 páginas e tamanho 21×28 com capa dura e miolo em sépia rodado em 4 cores.

Fica a dica

Com base na qualidade do trabalho de edição e tradução e fornecimento de informações extras para leitores e pesquisadores, o FANTASTICURSOS recomenda as seguintes antologias de contos de H. P. Lovecraft publicado no Brasil:

O mundo fantástico de H. P. Lovecraft (Editora Clock Tower).

Livro esgotado no site da Editora Clock Tower, mas que vale ser pesquisado nos sebos.

Os melhores contos de H. P. Lovecraft (Editora Hedra).

A melhor antologia de contos do escritor disponível no momento no Brasil. Você pode comprar diretamente no site da Editora Hedra.

Qual outro monstro você acrescentaria a lista?

E qual é o seu conto ou romance favorito de H. P. Lovecraft? 

Deixe seu comentário, compartilhe o post com seus amigos tenebrosos e celebre o ano de Cthulhu e seus companheiros.

Tamo junto!

 Fontes consultadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BEZARIAS, Caio Alexandre (2006). Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft. Dissertação de Mestrado em Letras. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

CARROLL, Noël (1999). A filosofia do horror ou paradoxos do coração. (Roberto Leal Ferreira, Trad.). Campinas, SP: Papirus, 1999. (Coleção campo imagético).

DOUGLAS, Mary (2012). Pureza e perigo. (Mônica Siqueira Leite de Barros e Zilda Zakia Pinto, Trads.). São Paulo: Perspectiva (Debates; 120).

JOSHI, S. T (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, S. T (2001). The modern weird tale. North Carolina: McFarland & Company.

LOVECRAFT, H. P (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

RICCI, Denílson Earhart (2014). Biografia de H. P. Lovecraft. In RICCI, Denílson Earhart (Org.). O mundo fantástico de H. P. Lovecraft: Antologia – contos, poesias e ensaios. 2ed. (Mario Jorge Lailla Vargas, Trad.). Jundiaí, SP: Clock Tower, pp. xix-xxxvii. 

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The weird: A compendium of strange and dark stories. New York: Tor Book.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

2 Responses

    • Alexander Meireles da Silva

      O Horror de Dunwich realmente é Lovecraft na essência mesmo. Obrigado pelo cometário Charles. Se quiser, assine o blog para ser informado dos posts semanais.

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