BLACK MIRROR: Por que você se incomoda tanto?

A série de ficção científica Black Mirror vem despertando comentários variados do público e uma sensação de incômodo pelas possibilidades (ou ameaças?) evocadas em seus episódios. Mas por que você se incomoda tanto?  

Bem vindo ao lado negro

Pra começo de conversa, o que é o “black mirror”?

Smartphones, tablets, notebooks, televisores, computadores… todos eles possuem uma tela negra capaz de refletir coisas ou pessoas (muitas mulheres usam para dar aquela checada básica no look), mas o que a série propõe é levar o expectador a refletir o que exatamente este “espelho negro” reflete, não tanto da aparência física da pessoa, mas de sua alma e, indiretamente, do mundo ao seu redor.

E o reflexo fica cada vez mais perturbador.

Black Mirror e outros espelhos

as
As promessas da tecnologia para o início do século 20

Como você já descobriu com Black Mirror, a Ficção Científica (FC) não tem como propósito principal celebrar os avanços da Ciência e da tecnologia, como na imagem acima, mas sim promover uma crítica sobre os efeitos destes avanços na sociedade e no individuo.

frank
A representação da criatura de Frankenstein no filme FRANKENSTEIN (1931).

Isso vem desde o nascimento do gênero com Frankenstein (1818), da inglesa Mary Shelley.

Em 1816, quando teve a ideia do livro, ela era uma jovem de 19 anos que, assim como os que assistem Black Mirror hoje, também tinha sua cabeça explodida pelas várias inovações científicas da época. 

No caso de Frankenstein, a história do jovem cientista que se deixa seduzir pelo poder de criar a vida por meios artificiais, Shelley queria criticar os avanços da Revolução Industrial na Inglaterra do início do século 19, alertando que os produtos da Ciência e da tecnologia poderiam se voltar contra o ser humano.

451
Distopia Fahrenheit 451

Mais de um século depois do romance de Mary Shelley, e de várias outras obras de FC questionando o uso dado a tecnologia, o norte-americano Ray Bradbury publicou a distopia Fahrenheit 451 (1953).

Neste romance, que se passa em uma América do futuro, os bombeiros queimam livros como parte da política do sistema opressor de fazer com que as pessoas fiquem alienadas em frente a aparelhos de televisão.

tv
Cena do filme FAHRENHEIT 451 (1966), direção François Truffault.

Importante destacar que quando Ray Bradbury escreveu sua distopia a televisão ainda era uma novidade tecnológica nos lares americanos, mas ele percebeu que em pouco tempo aquele produto se tornaria o centro das atenções nas casas.

Não deu outra. Com a TV as famílias passaram a interagir menos, para ficarem hipnotizadas em frente aquele primeiro espelho negro.  

Pelo menos até a chegada da internet e de Black Mirror.  

4 motivos pelos quais você se incomoda com Black Mirror

Nosedive
“Queda livre” (1° episódio da 3° temporada )

1. Você não é feliz

Já teve a impressão que todo mundo no Facebook, no Instagram e no Snapchat é feliz? Todos viajam, todos estão amando e sendo amados, todos estão comprando coisas novas, mas e você? 

Pesquisa da Universidade do Missouri e publicado na edição de fevereiro de 2015 da revista Computer in Human Behavior mostra que as centenas de “Likes” e “Compartilhamentos” de usuários do Facebook podem provocar não apenas inveja, mas também desencadear um processo de depressão em algumas pessoas.

Semelhante ao episódio “Queda livre” (Episódio 1 da 3° temporada), em que sua posição social depende da avaliação de outros cidadãos, as redes sociais acabam fomentando a perpetuação de uma “Cultura da Felicidade” em que as pessoas  precisam mostrar (ou fingir?) que são felizes para não se sentirem marginalizados dentro de seus grupos. A pressão sobre os jovens é maior.

Isso pode explicar o resultado de outra pesquisa, a das universidades de San Diego, California e Florida Atlantic de que jovens com menos de 30 anos se declaram mais felizes do que as pessoas de outras faixas etárias.  

2. Você é falso

Black Mirror
“Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada)

Você é um Hater? Você aproveita o sigilo da internet para insultar e destilar preconceitos? Ou simplesmente falar mal de outras pessoas? O que aconteceria se, semelhante ao protagonista do episódio “Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada), você fosse pego?

Mas e na vida real? Você tem coragem de dizer tudo o que escreveu por trás de um avatar?

O anonimato da rede incentiva o surgimento de uma persona diferente da real, caracterizada pela:

  1. Ausência da individualidade em favor da adoção do comportamento do grupo virtual ao qual a pessoa pertence. O que Michel Maffesoli chama em Tempo das tribos (1998) de “Tribalismo pós-moderno”;
  2. Surgimento de uma máscara virtual governada pelo Id, ou seja, sem controle pela moral e normas sociais e tomada pelos impulsos e desejos. Escreve o que quer contra tudo e todos sem se preocupar com repreensões reais ao seu Eu real por parte de grupos atingidos. 

O incômodo que Black Mirror causa é que a internet pode não vir a ser tão segura para sua segunda identidade quanto você pensa.

O que pensariam os seus pais e amigos se descobrissem quem você é?  

3. Você sabe que Black Mirror vai se tornar realidade (ou já é?)

É perceptível o aprofundamento da questão da tecnologia na terceira temporada da série, lançada em 2016, em relação a primeira, de 2011.

Isso se deve ao ritmo de criação e disseminação de novas tecnologias dentro do espaço que separa 2011 de 2016.

O Instagram e Snapchat, por exemplo, foram lançados respectivamente em 2010 e 2011 e hoje aparecem como rivais do Facebook, criado em 2004.

Isso mostra que a inquietação que você sente com o mundo de Black Mirror pode ser uma percepção de que, quando você menos esperar, ele se tornará real. Não é uma questão de SE, mas de QUANDO.

  1. Aplicativo que permite a você avaliar serviços e atendimento, influenciando na vida profissional da pessoa, como em “Queda livre”?  Uber. Além disso, o Governo da China vem estudando a implantação de um crédito social nos mesmos moldes do episódio da série.
  2. Transferir a consciência humana para as nuvens de informação, como em “San Junipero” (4° episódio da 3° temporada)? O cientista e engenheiro do Google Ray Kurzweil prevê essa possibilidade para 2045.
  3. Realidade alterada pela tecnologia, como em “Engenharia reversa” (5° episódio da 3° temporada)? Face Swap do Snapchat.
  4. Realidade aumentada, como em “Versão de testes” (2° episódio da 3° temporada)? Pokémon Go 

É só esperar pelos demais

4. Você não sabe como (e se quer) se opor ao mundo de Black Mirror

15
“Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada)

Comentários no YouTube sobre a série descrevem pessoas que tiveram pesadelos, passaram mal, choraram ou mesmo vomitaram por causa de alguns episódios.

Outros disseram que pensaram em apagar contas no Facebook e Snapchat. E por que não o fizeram?

O fato é as redes sociais servem como um alivio para a realidade cotidiana de todos.

Por isso você continua pedalando sua bicicleta que alimenta a sociedade da informação de hoje e recebe como recompensa pequenos e constantes consolos, utensílios e implementos. Você confia que eles permitirão a você expressar sua individualidade, mostrar seu talento, quando na realidade (que você não quer reconhecer) irá apenas alimentar o coletivo.

Episódios como “Hino nacional” (1° episódio da 1° temporada), “Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada), “Toda a sua história” (3° episódio da 1° temporada)  e “Queda livre” refletem essa dependência que o ser humano cibernético de hoje tem da tecnologia. 

Somos Victor Frankenstein e seu monstro em um único ser.

Talvez, no fundo (ou nem tão fundo assim) o incômodo de Black Mirror é uma espécie de desejo pela promessa de tecnologia da série, pois afinal de contas, as inovações tecnológicas não são boas ou más, depende apenas de quem usa. E você quer confiar nisso que está lendo. 

Já que o assunto é esse, alimente o sistema comentando seus episódios favoritos e o que impressionou você nesta série.

E compartilhe. 

Próxima quarta tem mais post. Assine o Blog para ser notificado.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

Comentários estão fechados.