Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

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Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

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