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O porquê de Capitão Marvel/Shazam ser o maior super-herói das HQs

Ilustração do desenhista Alex Ross para a edição da série O REINO DO AMANHÃ (1996)Por que a figura do super-herói faz sucesso mundial independente da idade, gênero ou religião?

Semelhante as religiões do passado e mesmo nas de hoje, os super-heróis presentes em revistas e filmes atraem pessoas, inspiram e ajudam a preencher a necessidade do ser humano por algo além de sua realidade cotidiana.  

Novos deuses produzidos pela indústria cultural e que refletem o espaço e metamorfose do divino na sociedade consumista contemporânea.  

E tudo começou em Junho de 1938 com o nascimento da Era de Ouro dos Quadrinhos. 

O salvador vem do espaço

A cultura dos Super-heróis tem início na revista Action Comics #1 de Junho de 1938 que trouxe a icônica imagem na capa do Superman levantando um automóvel.

Um exemplar dessa revista quebrou o recorde de leilões no Ebay em 2014 sendo vendida por três milhões e duzentos mil dólares.

Dado a overdose de super-heróis em nossa sociedade hoje, é difícil imaginar o profundo impacto que o Superman trouxe para a cultura americana na época, pois até então, nunca antes na era moderna os leitores tinham lido uma história em que um homem pudesse fazer as coisas que o filho do planeta Kripton fazia. 

O sucesso sem precedentes do Superman, é claro, abriu os olhos dos editores da época e incontáveis heróis uniformizados mascarados ou não, com superpoderes ou habilidades especiais invadiram a América no fim dos anos 30 e toda a década de 40.

Super-heróis da Era de Ouro dos quadrinhos no traço de Alex Ross

Falei desse cenário, no caso abordando as primeiras super-heroínas, em outro post do blog que você pode ler clicando aqui.

Com maior ou menor sucesso, super-heróis e super-heroínas se estabeleceram ou sumiram tão repentinamente quanto surgiram, todos sempre tentando repetir o sucesso e, principalmente, a mística do Homem de Aço.

Super-heróis da Era de Ouro dos quadrinhos no traço de Alex Ross

Afinal de contas, sendo a criação de dois jovens judeus que tentavam ser bem sucedidos na América, Superman trazia consigo todo o simbolismo de ser um alienígena vindo de outro planeta e que, após crescer em uma fazenda, vai tentar a sorte na cidade grande de forma discreta e anônima esperando a oportunidade para usar seus talentos.

A essa imagem do imigrante que busca seu lugar no American Dream e que tinha forte apelo junto a boa parte de outros leitores também pertencentes a famílias de recém-chegados ao pais, a força simbólica do Superman vinha também de suas conexões no Judaísmo, sendo o personagem uma releitura do Messias que vem ao nosso mundo para salvar a humanidade.

Essa dimensão religiosa ganhou novos ares dentro de uma contexto em que o Superman é apresentado como uma alienígena que chega a Terra em sua nave oriundo de um planeta moribundo, algo alinhado com a crescente popularidade da Ficção Científica em meio a jovens fascinados com a promessa do progresso e da Ciência na época.    

Essa conjuntura de fatores fez do Homem de Aço um personagem imbatível dentro e fora dos quadrinhos, ou pelo menos foi assim até o início dos anos 40 quando surgiu um novo herói que não apenas rivalizou com Superman mas também o suplantou na preferência dos leitores: Capitão Marvel.

O Mortal mais Poderoso da Terra

Basta olha a capa da edição de estréia do Capitão Marvel na Whiz Comics #2 para perceber como desde o início National Comics (atual DC Comics) e a Fawcett Publications (do Capitão Marvel) se enfrentaram.

Criado em fins de 1939 e tendo sua estréia oficial na revista Whiz Comics #2 de fevereiro de 1940 o Capitão Marvel teve sua primeira aparição de fato na revista Flash Comics em uma edição preto-e-banco distribuída gratuitamente para patrocinadores (chamada de edição ashcan).

Publicação ashcan de Janeiro de 1940

Nesta publicação ele ainda tinha o nome de Capitão Trovão (Captain Thunder).  

Origem

O Mortal mais Poderoso da Terra, como ficou conhecido (e que servia para também alfinetar o alienígena Superman) foi criado pelo editor da Fawcett Publications Bill Parker a partir de uma pedido da editora, que até então só publicava histórias de humor, para entrar no lucrativo e crescente ramos dos super-heróis.

Originalmente a ideia de Parker era criar um supergrupo (o que seria inédito para a época) composto por seis jovens, cada um com o poder de um deus ou herói mitológico, mas os editores da Fawcett rejeitaram a ideia e todos os poderes foram concentrados em apenas um personagem.  

Tanto o nome Capitão Trovão quanto a ideia do supergrupo das crianças foram homenageados no arco FLASHPOINT da DC Comics, aparecendo na edição Flashpoint #4

Para a arte foi chamado o desenhista C. C. Beck que com a ajuda do seu assistente Pete Constanza moldou a imagem do Capitão Marvel a partir das feições de Fred MacMurray (imagem abaixo), grande astro do Cinema da época. 

Dentre centenas de revistas de super-heróis que inundavam as bancas de jornais e mercadinhos do período, as histórias do Capitão Marvel se destacaram pelo seu grau de inocência, apuro visual da arte de C. C. Beck e inovações editoriais e a Whiz Comics se tornou um estrondoso sucesso, principalmente junto as crianças.

Tempos depois, o veterano escritor de ficção científica Otto Binder substituiu Bill Parker nos roteiros e o personagem alcançou o seu auge nos anos da década de 1940.  

Poderes

Apesar de algumas mudanças ao longo dos anos, a origem do personagem começa de forma geral quando o órfão Bily Batson, sendo uma criança de coração puro apesar das adversidades, é escolhido pelo Mago Shazam para se tornar o campeão da justiça Capitão Marvel.

Para a transformação, acionada por meio de um relâmpago místico, bastava que Billy Batson dissesse o nome do mago, um acrônimo formado pelas letras S.H.A.Z.A.M. e que correspondia aos nomes dos seres lendários que lhe conferiam poderes. São eles:   

  • Salomão, que lhe conferia Sabedoria;
  • Hércules, que lhe conferia Força;
  • Atlas, que lhe conferia Resistência;
  • Zeus, que lhe conferia o Poder do relâmpago;
  • Aquiles, que lhe conferia Coragem e;
  • Mércurio, que lhe conferia Velocidade

Enquanto o Superman trazia o novo espírito científico das revistas da Ficção Científica para as HQs apontando para o futuro, o Capitão Marvel se alicerçava no charme do passado, apostando em uma releitura da tradição da magia e do mitológico que já produzia combatentes do crime místicos desde 1934, com o personagem Mandrake, de Lee Falk, o primeiro do tipo. 

Inovações de sucesso

A Fawcett Publications apresentou uma série de inovações em suas revistas de super-heróis que as diferenciaram das publicações de outras editoras, incluindo ai a National Comics (atual DC Comics), provocando os ânimos da até então líder do mercado. Dentre estas, cito aqui:

  • Histórias seriadas divididas em capítulos (as outras editoras apresentavam histórias fechadas em cada edição);
  • Uniforme diferenciado (até hoje considerado um dos mais elegantes do gênero e que diferenciava o herói dos demais heróis com a famigerada cueca por cima da calça, heranças das raízes circenses dos personagens);

  • Crossover entre super-heróis (Capitão Marvel encontrou os outros heróis da editora, Spy Smasher e Bulletman respectivamente nas edições Whiz Comics #15 e Master Comics #21);

  • Super grupo de vilões (A Sociedade Monstruosa do Mal foi apresentada em uma arco de 25 edições que durou entre 1942 a 1945).

  • Introdução em 1942 da primeira versão feminina independente, e não apenas uma parceira,  de um super-herói (Mary Marvel, antecedendo em quase uma década o surgimento de Supergirl).

O resultado dessas práticas inéditas foi traduzida em números, e a revista Captain Marvel Adventures vendeu em 1944 um total de 14 milhões de cópias e um milhão e trezentas mil cópias em média por edição durante o período em que foi publicada duas vezes por semana, se tornando os quadrinhos mais vendidos nos anos da década de 1940 superando, e muito, as revistas do Superman.

Além disso, o Capitão Marvel foi o primeiro super-herói adaptado para o Cinema, o que ocorreu já em 1941 no seriado em doze partes As Aventuras do Capitão Marvel, trazendo o ator Tom Tyler como o herói.

Luta de titãs

Cartum satirizando a disputa judicial entre a National Comics e a Fawcett .

Apenas um ano depois da estréia do Capitão Marvel e como reação ao enorme sucesso do personagem, a National Comics resolveu iniciar em 1941 um dos mais longos processos jurídicos da indústria dos quadrinhos até hoje contra a Fawcett Publications.

Após sete anos de litigio o caso foi a julgamento e em 1948 a Fawcett foi inocentada do crime da acusação de que o Capitão Marvel era uma cópia do Superman, mas em recurso impetrado pela National o caso foi novamente julgado e em 1953 a Fawcett perdeu.

O fim

Esgotada financeiramente pela disputa judicial e pela queda generalizada das revistas de super-heróis na década de 50, a Fawcet parou de publicar as aventuras do Capitão Marvel na Whiz Comics na edição #155 (Junho de 1953), na Captain Marvel Adventures na edição #150 (Novembro de 1953), e na The Marvel Family na edição #89 (Janeiro de 1954).

Era o fim da Família Marvel deixando milhões de fãs sem os seus super-heróis favoritos.  

Herança e retomada

Ainda nos anos 50, surgiu na Inglaterra outro super-herói em homenagem ao Capitão Marvel da Fawcett e que recebeu inicialmente o nome Marvelman, cujas publicações duraram até 1963.

Ao ser resgatado do ostracismo nos anos 80 pelo escritor Alan Moore Marvelman foi rebatizado como Miracleman, visto que a editora Marvel Comics havia criado um novo Capitão Marvel em 1967.

E o verdadeiro Capitão Marvel? 

Após comprar os direitos de publicação do super-herói no início dos anos 70 a agora DC Comics apresentou o personagem para uma nova geração na revista Shazam #1, de 1973.

Impedida de nomear a revista de Captain Marvel devido ao personagem da Marvel Comics, a DC usou o nome do personagem apenas no interior da revista.

Isso durou até a reformulação intitulada Novos 52, de 2011, quando de forma definitiva o personagem foi rebatizado de Shazam, recebendo, assim, o nome do Mago que concedeu os poderes ao jovem Billy Batson.

Ainda assim, talvez por lembranças do passado, até hoje a DC Comics nunca soube dar ao personagem o papel de destaque que ele tinha no passado. 

O segredo do Super-herói

Mas, afinal de contas, qual teria sido o segredo para o Capitão Marvel/Shazam ter alcançado durante a Era de Ouro dos Quadrinhos o status de maior super-heróis de seu tempo?

Para o crítico Christopher Knowles, o personagem é mais interessante que Superman principalmente porque ele não é uma pessoa real, mas sim uma entidade mágica no qual o jovem Billy Batson se transubstancia quando murmura o encantamento ocultista “Shazam”.

Este elemento central, apontado por Knowles, aparece mencionado por outras pessoas do mundo dos quadrinhos como  Jack Kirby, Bill Sienkiewicz, Mark Waid, Alex Ross, Jeff Smith e Geoff Johns no sentido de que o Capitão Marvel encarna o verdadeiro espírito dos quadrinhos que leva os leitores, principalmente as crianças, a lê-los: a possibilidade de se imaginar, de se transformar em um super-herói

Diferente do Superman ou do Homem-Aranha, que fingem não ter poderes para se passar por pessoas normais, ou de Batman que conta apenas com suas habilidades físicas e intelectuais, Shazam vive em dois mundos: o dos mortais e dos deuses.

Condição única explorada pelo roteirista Mark Waid em Reino do Amanhã (1996).

Em O REINO DO AMANHÃ. o Capitão Marvel é o Salvador pois se sacrifica para o bem estarde dois mundos.

Contribui para o fascínio do personagem, como dito anteriormente, a releitura de elementos do mundo do Maravilhoso e do Ocultismo, como o poder da palavra mágica e o poder de voar.

Alias, o Superman passou a voar como uma maneira de tentar competir com o Capitão Marvel, pois até então o herói de Kripton apenas dava super saltos. 

Essa ligação de Shazam com o místico, que lhe confere também o epíteto de “Campeão da Magia” se alinha com as observações da escritora Nelly Novaes Coelho em Literatura Infantil (1997) sobre o fato do infantil e do primitivo não disporem de conhecimento científico ou racionalista, o que os aproximam do Maravilhoso como uma maneira de dar sentido ao mundo.

Por esta razão, as crianças sentem mais afinidade com o mágico Shazam do que com o extraterrestre Superman. E,no fim das contas, quadrinhos é fantasia.   

Sugestões de leitura

Com o anúncio do filme do Shazam o super-herói vai voltar a ficar na moda. Para se familiar com sua história recomendo os seguintes materiais disponíveis no Brasil e que não estão esgotados até o momento em que escrevo este post:

Se você gostou do post, compartilhe com seus super amigos e super amigas e até a próxima!

Fontes utilizadas

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil. São Paulo: Editora Ática, 1997.

JONES, Gerad. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. Trad. Guilherme da Silva Braga e Beth Vieira. São Paulo: Conrada Editora do Brasil, 2006.

KIDD, Chip, SPEAR, Geoff. Shazam! The Golden Age of the world’s mightiest mortal. New York: Abrams, 2010.

KNOWLES, Christopher. Nosso deuses são super-heróis. Trad. Marcello Borges. São Paulo: Cultrix, 2008.

TEITELBAUM, Michael, BEATTY Scott, GREENBURGER, Robert. The DC Comics Illustrated Encyclopedia. New York: DK Adult, 2008. 

VIOTTE, Michel. Once upon a time the superheroes (De Superman à Spider-Man: L’aventure des superhéros). Canada/França. DVD. 2001 .

 

 

 

 

7 investigadores do oculto pré-John Constantine pra você conhecer

John Constantine, criação do mestre dos quadrinhos Alan Moore com Stephen Bissette e John Totleben.

Mesmo a pessoa mais cética não pode negar que o oculto exerce um estranho fascínio sobre a humanidade.

O Detetive do Pesadelo Dylan Dog completou 30 anos de existência em 2016.

Os limites entre o nosso mundo e o além, ou melhor, a manifestação do além em nosso mundo desperta o interesse do ser humano por tocar em um dos maiores tabus da vida: a morte.

O legionário Antonius Axia combate o sobrenatural na Bretanha

Neste quesito, destaque para o Investigador do Oculto

O Investigador do Oculto

Para este texto vou tomar aqui a definição de Sage Leslie-Mccarthy para “Detetives psiquicos”, mencionado por ele em sua Tese de Doutorado, que você pode acessar na integra a partir do link no fim deste artigo.

Para Sage Leslie-McCarthy,

“Essencialmente, a ficção de detetive psíquico envolve a investigação de eventos reportados como sobrenaturais por um personagem, ou personagens, que tentam compreender a natureza dos distúrbios e promover possíveis soluções.”

Dean e Sam contra o oculto
Os irmãos Winchester. Contra Deus e o Diabo.

Essa busca por desvendar e, por vezes, enfrentar o mundo invisível marca presença em diferentes expressões da cultura, seja na Literatura, nos Quadrinhos, no Cinema e na TV.

Esta série influenciou anos mais tarde, na década de 90, a criação da série ARQUIVOS X
Kolchak e os Demônios da Noite.

Se hoje a cultura pop conta com investigadores do oculto fictícios e reais tais como John Constantine (Hellbrazer), Dylan Dog (Bonelli Comics) Antonius Axia (Valiant Comics)*, os irmãos Winchesters Sam e Dean (Supernatural), Carl Kolchak (Kolchak e os Demônios da Noite) e o casal Lorraine e Ed Warren (Invocação do Mal) isso se deve a uma tradição literária que remonta a Antiguidade.

Veja então a seguir os 7 principais Investigadores do Oculto da Literatura que lançaram as bases para os personagens pop de hoje.

1. Atenodoro de Tarso

Ano de criação: 109 d.C.

Primeira aparição: Missivas litterae curatius
scriptae 

Criador: Plínio, o Jovem

Curiosidade: Personagem histórico que viveu nos primeiros anos da Era Cristã, o filósofo Atenodoro virou personagem de um relato escrito um século depois por Plínio, o Jovem no qual Atenodoro investiga um fantasma que assolava uma residência em Atenas.

Neste que é o primeiro relato de casa assombrada do Ocidente, Atenodoro passa um noite na casa e recebe a visita de um fantasma. Demonstrando frieza na situação o filosofo consegue descobrir que a aparição ocorria devido a falta do sepultamento apropriado dos restos mortais do fantasma, que se encontravam enterrados em um dos cômodos da casa.   

2. Doutor K

Ano de criação: 1817

Primeira aparição: Conto “A casa deserta” (“Das öde Haus”)

Criador: E. T. A. Hoffman

Curiosidade: Primeiro Doutor e investigador do oculto, o Doutor K. aparece no livro de contos  Nachtstücke (Contos Noturnos).

No conto, o personagem, que possui poderes  de clarividência, investiga um mistério sobrenatural que cerca uma casa. 

3. Dirk Ericson

O conto “The Haunted Homestead” pode ser encontrado neste ebook.

Ano de criação: 1840

Primeira aparição: Conto “The Haunted Homestead”

Criador: Henry William Herbert 

Curiosidade: Dirk Ericson aparece originalmente em um conto publicado em três partes no The Ladies’ Companion and Literary entre agosto e outubro de 1840  e que agora está disponível no ebook The Macabre Megapack: 25 Lost Tales from the Golden Age (2012).

Ele é o primeiro investigador do oculto na forma de detetive amador da Literatura e lida com um crime com elementos sobrenaturais. Para isso ele também conta com a ajuda dos personagens Asa e Enoch Allen.

4. Harry Escott

O conto “The Pot of Tulips” pode ser lido nesta coletânea

Ano de criação: 1855

Primeira aparição: Conto “The Pot of Tulips”

Criador: Fitz James O’Brien

Curiosidade: O primeiro investigador do oculto como detetive especialista no sobrenatural estreou na Harper’s New Monthly Magazine em novembro de 1855.

Quatro anos depois Harry Escott aparece novamente, desta vez no conto “What Was It? A Mystery,” publicado em março de 1859 na mesma revista.

As duas histórias foram republicadas na coletânea Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015).

Contando com a ajuda de outros personagens, Harry Escott investiga os mistérios do sobrenatural nas duas histórias.

5. Dr. Martin Hesselius

Ano de criação: 1869

Primeira aparição: Novela Green Tea

Criador: Joseph Sheridan Le Fanu

Curiosidade: Um dos principais investigadores doutores do oculto da segunda metade do século XIX e fonte direta para a criação de Abraham Van Helsing, o caçador de vampiros de Drácula, o Dr. Martin Hesselius apareceu ao longo de quatro edições do All the Year Round em outubro e novembro de 1869 enquanto durou a publicação de Green Tea.

Hesselius tinha o habito de guardar vastas anotações dos casos investigados por ele. Dentre eles, o mais famoso é o caso envolvendo Carmilla, a vampira de Karnstein.

Le Fanu usou os casos do Dr. Marin Hesselius como estrutura narrativa para o livro de contos In a Glass Darkly (1872). 

6. Dr. Abraham Van Helsing

Peter Cushing como Van Helsing nos filmes dos anos 60 produzidos pelo estúdio inglês Hammer.

Ano de criação: 1897

Primeira aparição: Romance Drácula

Criador: Bram Stoker

Curiosidade: Estima-se que o mais famoso Investigador do Oculto desta lista e da Literatura tenha sido criado a partir de diferentes fontes.

Além do Dr. Martin Hesselius, mencionado anteriormente, outras fontes apontadas como inspiração para Van Helsing foram o próprio Bram Stoker e o professor da Universidade de Budapeste Arminius Vambéry, pesquisador que ajudou Bram Stoker com informações iniciais sobre Vlad, o Impalador, modelo do vampiro Drácula. 

7. Diana Marburg

Ano de criação: 1902

Primeira aparição: Conto “The Dead Hand”

Criador: L.T. Meade e Robert Eustace

Curiosidade: A única mulher desta lista e primeira Investigadora do Oculto do século XX, Diana Marburg apareceu em uma série de contos originalmente publicados na versão americana da Pearson’s Magazine.

Na sequencia, os três contos apareceram na coleção The Oracle of Maddox Street (1904), de L.T. Meade. Atualmente estas narrativas podem ser encontradas no livro Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015)

A curiosidade maior com essa investigadora oculta de poderes místicos é a habilidade de investigar criminosos a partir da leitura da palma da mão. 

* Agradecimentos ao entusiasta de Quadrinhos Pedro Ventura pela indicação do investigador do oculto e legionário romano Antonius Axia. 

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

LESLIE-MCCARTHY, Sage. The Case of the Psychic Detective: Progress, Professionalisation, and the Occult in Psychic Detective Fiction from the 1880s to the 1920s. Tese de Doutorado. Queensland: Griffith University, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

NEVINS, Jess. The Encyclopedia of Fantastic Victoriana. Austin, Texas: Monkey Brain Books Publication, 2005. 

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos

Assassinas de bebês e matadoras de homens: conheça o povo da Mulher-Maravilha

O (excelente) filme da Mulher-Maravilha trouxe para o grande público a história de uma guerreira de Temiscira, local habitado apenas por mulheres que leva toda a força física e moral das Amazonas para o mundo dos homens.   

Mas, qual é a história por trás das Amazonas? 

O fato é que, aos olhos de hoje, a história dessas guerreiras chocaria o  grande público.

O nome estampado no peito

Como tudo relacionado a mitologia, há controvérsias quanto a origem do nome “Amazonas”.

Para algumas fontes, “Amazona” se refere a um povo iraniano – Há-mazan – cuja tradução é “Guerreiros”, mas para outros estudiodos a etimologia vem do prefixo alfa e a palavra mazos (“seio”), visto que, segundo alguns relatos, desde a infância elas tinha o seio  direito comprimido ou queimado para facilitar o manuseio do arco. 

Uma outra versão atribui ao “A” de “Amazonas” um valor aumentativo. Assim A + Mazos, que daria origem ao nome desse povo, seria traduzido como “As mulheres de seios grandes”. 

Por fim, alguns estudiosos localizam a origem da palavra no termo grego Amazoi, que quer dizer “sem seios”, mais uma vez fazendo menção a prática de auto-mutilação do seio direito.

História ou Lenda? 

Segundo Heródoto, o “Pai da História”, relata em 440 a.C., as Amazonas seriam as antepassadas dos Sármatas (ou Sauromatas como os romanos chamavam), povo nômade que vivia na região do Mar Cáspio entre os séculos 8 a.C. e 4 a.C..

Mulheres de respeito

Os Sármatas seriam descendentes diretos da união entre as Amazonas e o povo Cita. Nessa união os homens citas seriam usados como reprodutores para a geração de novas amazonas.

De fato, a Arqueologia já demonstrou que na sociedade sármata a mulher tinha um papel de destaque, o que indicaria a conservação dessa herança cultural.

Uma jovem sármata, por exemplo, só poderia se casar se trouxesse a cabeça de um inimigo. Outra evidência desse possível legado é o fato de que algumas sepulturas femininas sármatas ocupavam lugar de destaque no centro de cemitérios.

As matadoras de homens…

Ainda segundo Heródoto, as Amazonas eram descritas como androctonus, ou seja, “matadores de homens” e eram representadas como guerreiras que lutavam montadas em cavalos e portando espadas e machados.

A sua terra, Temiscira, ficava na região da Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia, próximo ao litoral, dai vem a ideia nas histórias em quadrinhos de que as amazonas viviam em uma ilha.

… e de bebês homens também?

Depois de Heródoto, é Hipocrátes nos anos de 400 a.C. o principal fornecedor de informações presumivelmente “históricas” sobre as Amazonas.

Como relata o “Pai da Medicina”, as Amazonas viam os homens apenas como reprodutores e os encontravam apenas uma vez por ano para uma curta estação de amores. Essa atividade também foi objeto do registro de Diodoro da Sicília no século 1 de nossa era. 

Se desse encontro saísse homens, o menino era entregue ao pai. Já as meninas eram levadas para se tornarem amazonas.

Como visto no filme da Mulher-Maravilha, essas jovens seriam instruídas no manejo do arco, do escudo, do dardo, e na arte de cavalgar em pêlo, ou sobre uma simples manta. 

Hipócrates relata que as Amazonas por vezes mantinham os bebês homens para tarefas específicas dentro de Temiscira, como o artesanato e outras atividades secundárias.

Como seu interesse era a Medicina, chamou a atenção de Hipócrates o fato de que, ainda bebês, esses meninos tinham os joelhos e a bacia deslocados para se tornarem mancos, de forma a, quando crescerem, não representarem uma ameaça as mulheres. 

O fato é que a versão de que as Amazonas matavam os bebês homens só foi surgir quase 600 anos depois do primeiro registro desse povo por Heródoto e foi feito pelo historiador galo-romano Pompeu Trogo na obra Histórias Filípicas, de cerca do século 3 de nossa era.

Mas, como mulheres guerreiras não soavam bem aos aos ouvidos cada vez mais patriarcais de Roma, essa visão das Amazonas assassinas de bebês homens ganhou força ao longo dos séculos posteriores. 

Guerreiras mitológicas contra Hércules

Na Mitologia Greco-romana destaco aqui os dois principais momentos das Amazonas, dentre tantos.

Na Ilíada, de Homero um dos 12 trabalhos impostos a Hércules era roubar o Cinturão usado pela soberana das Amazonas, a ousada Rainha Hipólita, dado a ela pelo seu pai, o Deus da Guerra Ares como mostra do poder de Hipólita sobre as guerreiras. 

Sim, se existisse na Mitologia grega a Mulher-Maravilha seria a neta de Ares. 

O herói grego e a rainha Amazona entram em um acordo e Hipólita decide entregar o Cinturão para Hércules. Esta decisão, no entanto, despertou a fúria de Hera, esposa de Zeus e inimiga jurada de Hércules. 

Hera assume a forma de uma Amazona e promove a discórdia entre os homens de Hércules e as guerreiras. Ao saber da confusão, Hércules pensa ter sido traído por Hipólita e mata a rainha das Amazonas. A soberania das mulheres guerreiras passa para a irmã da rainha assassinada, Penteseléia.

As Amazonas na Guerra de Tróia

Outro momento chave da participação das Amazonas na Mitologia Greco-romana está registrado na Eneida, de Virgílio e ocorre quando as guerreiras se aliaram ao Rei Príamo, de Troiá, contra a ofensiva grega a cidade. 

Lideradas pela Rainha Penteseléia, as Amazonas socorreram o Rei Príamo na cidade sitiada da Frígia e marcharam até a cidade de Tróia.

Como relata Virgílio, a investida Amazona só terminou quando a espada de Aquiles infligiu um ferimento mortal a Rainha das Amazonas. Ao retirar a armadura de sua adversária, o herói ficou emocionado com a beleza de Penteseléia e se apaixonou. 

Estas foram apenas duas das varias narrativas presentes na mitologia greco-romana sobre as guerreiras que inspiraram  William Moulton Marston a criar, em 1941, aquela se tornaria a maior super heroína até hoje. 

Se quiser saber mais sobre o processo de criação da Mulher-Maravilha, leia o post do blog Fantasticursos clicando aqui

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Sousa. Mitologia grega. Vol. 3. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 1987.

MAGASICH-AIROLA, Jorge, BEER, Jean-Marc de. América Mágica: quando a Europa da Renascença pensou estar conquistando o Paraíso. Trad. Regina Vasconcellos. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

SHERMAN, Josepha. (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of Mythology and Folklore. New York: M. E. Sharpe , Inc., 2008.

WILDE, Lyn Webster. On the Trail of the Women WarriorsThe Amazons in Myth and History. New York: Thomas Dunne, 2000.

DARK UNIVERSE: O que os monstros da Universal podem mostrar hoje?

Monstros dos estúdios Universal
Da esq. para dir.: Homem-invisível, Dracula, o Monstro de Frankenstein, a Múmia, o Monstro da Lagoa negra, o Fantasma da Ópera, a Noiva de Frankenstein e o Lobisomem.

Nesta semana os estúdios Universal anunciaram o longamente prometido reboot da sua franquia de monstros, popularmente conhecida como “Os Monstros da Universal”.

A iniciativa, batizada de Dark Universe, vai re-apresentar os monstros do estúdio para a geração de hoje.

Mas, o que esperar deste projeto?

Em 2014 a presidente dos Estúdios Universal falou do assunto no The Hollywood Reporter ao declarar que os novos filmes de seus monstros estariam menos ligados ao Horror e mais vinculados ao gênero Ação e Aventura, além de outros gêneros.

Na ocasião, Donna Langley disse que o propósito é “reimagina-los e reintroduzi-los para um público contemporâneo”

Esta visão pode ser percebida no ritmo do primeiro filme do Dark UniverseA Múmia – lançado em 8 de junho de 2017 nos cinemas. 

Mas, quais medos e ansiedades estes monstros podem representar hoje em relação a sua primeira encarnação entre as décadas de 1920 e 1950?

A primeira encarnação monstruosa

Na sua primeira encarnação, e com base nos planos atuais do estúdio, pode ser estabelecido que a franquia de Monstros da Universal teve seu início nos anos de 1920 com O Fantasma da Ópera (1925).

O único filme da franquia lançado ainda na era dos filmes mudos, esta adaptação do romance O Fantasma da Ópera (1910), do escritor francês Gaston Leroux foi um sucesso de público e foi relançado em versão com som em 1930.

Isso animou o estúdio a dar prosseguimento com sua franquia monstruosa, que seria continuada com Drácula (1931), dirigido por Tod Browning e trazendo Bela Lugosi no papel que o imortalizou como o conde vampiro.  

O sucesso estrondoso da adaptação do livro de Bram Stoker de 1897 consolidou o caminho para outras criaturas, refletindo neste processo o alinhando dos monstros da Universal com os fantasmas da sociedade norte-americana dos anos de 1930 até 1950.

Dentre estes fantasmas, a enorme crise econômica da América, conhecida como A Grande Depressão, que lançou o país em um ambiente de incertezas e temores.   

Desempregados na América durante os anos 30.

Em um tempo em que as pessoas perdiam seus empregos, casas e a esperança no futuro, a crença em forças sobrenaturais além da compreensão humana ganhou espaço, abrindo o terreno para o monstruoso.  

Mas e agora? O que cada monstro da Universal pode mostrar a geração Y e Z?

O que os Monstros da Universal podem mostrar hoje

Da esq. para a dir.: Russel Crowe, Javier Bardem (sentado), Tom Cruise, Johnny Depp e Sofia Boutella. Os novos rostos dos monstros da Universal.

Assim como ocorreu nos anos 40, os monstros da Universal irão se encontrar em filmes.

No entanto, diferente da época em que estes encontros ocorriam em comédias, já sinalizando o cansaço dessas criaturas como agentes do medo, o Dark Universe irá construir um universo compartilhado.

De fato, como o próprio estúdio coloca, esta será a resposta da Universal ao universo compartilhado de heróis da Marvel e da DC.

O eixo central é o personagem Dr. Henry Jekyll, vivido pelo ator Russel Crowe. Ele será o diretor da Prodigium, um local onde diversas criaturas sobrenaturais são mantidas.

Conheça a Prodigium clicando aqui.

Cabe ao Dr. Henry Jekyll, semelhante a Nick Fury na Marvel e Bruce Wayne na DC, reunir ou eliminar essas criaturas.

Até o momento da escrita deste post, seis filmes do Dark Universe foram anunciados em diferentes estágios de produção:

  • A Múmia (lançamento em junho de 2017);
  • A Noiva de Frankenstein (Em pré-produção e previsto para fevereiro de 2019);
  • O Homem Invisível (Em desenvolvimento e estimado para 2020);
  • O Monstro da Lagoa Negra (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • Van Helsing (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • O Lobisomem (Em desenvolvimento e sem data prevista em lançamento).

Ainda que seja esperado que a ação supere a reflexão no que se refere a explorar os monstros como símbolos de questões contemporâneas, fica aqui abaixo o que cada monstro pode trazer de debate com base no seu legado literário.

1. A Múmia

Origem: Cultura egípcia 

Obra de estréia: A Múmia (1932)

Melhor filme até aqui: A Múmia (1999)

LegadoA múmia já foi objeto de análise aqui no blog onde eu discuti os problemas que cercam o personagem. Para ler o post, clique aqui.

Basicamente, o personagem guarda semelhança com o vampiro enquanto criatura morta-viva e de passado nobre, mas não tem o forte simbolismo erótico do primeiro. 

Além disso, enquanto monstro que nos leva a refletir sobre a nossa mortalidade e o além-vida, a múmia perdeu seu espaço para o zumbi. 

2. A Noiva de Frankenstein

Origem: Literatura

Obra de estréia: A Noiva de Frankenstein (1935)

Melhor filme até aquiA Noiva de Frankenstein (1935)

LegadoUm dos maiores ícones femininos no Cinema, a noiva de Frankenstein tem seu nascimento no romance Frankenstein (1818), ainda que na obra ela seja apenas mencionada, mas não de fato criada. 

A força simbólica da personagem pode render excelente debate sobre o empoderamento feminino, principalmente pelo fato de ser (literalmente) um produto do discurso masculino.

3. O Homem invisível

Origem: Literatura

Obra de estréia: O Homem Invisível (1897), de H. G. Wells

Melhor filme até aquiO Homem Invisível (1933)

Legado: Como já também analisado aqui, desde sua gênese literária, o personagem é uma releitura do tema do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson.

O tema da invisibilidade permite a discussão sobre nossos limites éticos. O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? 

4. O Monstro da Lagoa Negra

Origem: Cinema

Obra de estréia: A Criatura da Lagoa Negra (1954)

Melhor filme até aquiA Criatura da Lagoa Negra (1954)

Legado: O caçula dos Monstros da Universal e o único sem ligação literária, folclórica ou cultural, este monstro é produto do discurso científico dos anos 50, fascinado com mutações e seres alienígenas.

Ele simboliza os mistérios e perigos escondidos da natureza e o quanto pode ser perigoso ao homem tentar desvendar esses elementos sem demonstrar respeito pelos mesmos. 

5. Van Helsing

Origem: Literatura

Obra de estréia: Drácula (1897), de Bram Stoker

Melhor filme até aqui: O Horror de Drácula (1958)

Legado: Desde sua primeira aparição o cientista e investigador do sobrenatural Abraham Van Helsing simboliza o agente responsável pela restauração da ordem em um mundo onde o caos se manifesta por meio do monstro.

Por vezes, subvertendo até mesmo a ética para alcançar esse fim.

6. O Lobisomem

Origem: Mitologia

Obra de estréia: A Lobisomem (1913) (filme perdido da Universal)

Melhor filme até aquiO Lobisomem (1941)

Legado: Assim como o próprio personagem do Dr. Jekyll (e Mr. Hyde), o lobisomem tem sua força enquanto monstro que aborda a dualidade do ser humano. O embate entre nossos impulsos e vontade individuais contra nossas obrigações e deveres sociais. 

Agora é só esperar que façam um bom trabalho com a enorme tradição cultural destes monstros atemporais, sem apelarem apenas para efeitos especiais.

E aí? Quais são as suas expectativas para o Dark Universe

Será que vão respeitar o legado dos Monstros da Universal?

Deixe seu comentário, compartilhe este post com seus amigos monstruosos e assine o blog.

Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LEADBEATER, Alex. The Mummy Director Explains Dr. Jekyll’s Role in the Film. In: SCREENRANT. Acesso em 27 maio de 2017.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

E esse Arthur ai? Conheça as faces da lenda antes de ver o filme

Maio de 2017 marca a estréia de uma nova versão da mais conhecida lenda da Cultura Inglesa: O Rei Arthur. 

Mas, que Arthur é esse ai? Antes de ir assistir ao filme, conheça aqui as diferentes faces desse herói e seu universo ao longo da História e da Literatura. 

E lembrando que no canal do Fantasticursos no Youtube também tem um vídeo que explica esta lenda medieval. Basta clicar aqui.

Já existiu um Rei Arthur?

Sim e não.

Quando falamos de Rei Arthur é importante ter em mente a diferença entre dois personagens:

Um, é o líder bretão Arthur do século 6 cujas pesquisas arqueológicas vem provando sua existência histórica.

O outro é o Rei Arthur que conhecemos desde a infância, personagem da Literatura Medieval europeia presente em várias obras.

Bretões X Saxões

A figura de Arthur nasceu como símbolo da esperança de um povo – o povo bretão (nome pelo qual os romanos chamavam os celtas, habitantes da ilha da Bretanha).

Após a retirada das legiões Romanas da Bretanha para defender Roma contra as hordas de invasores no inicio do século 5, os Bretões tiveram que se virar sozinhos contra os povos germânicos invasores – chamados genericamente pelos Bretões de “Saxões”. 

Durante mais de um século os exércitos Bretões lutaram contra os Saxões alternando vitórias e derrotas até que em 577 d.C. a conquista Germânica se completou com a batalha de Deorham.

Com a conquista, a maioria dos Bretões se mesclou com os invasores, outros porém se refugiaram na região de Gales e uma outra parte cruzou o canal para a atual província da França conhecida como Bretanha Armoricana, Britânia ou Pequena Bretanha.

Com o avanço dos povos anglo-saxônicos (vermelho), os bretões foram empurrados para as extremidades da ilha da Bretanha

Surge Arthur… ops, Ambrósio Aureliano

Apesar de terem perdido a sua ilha para os invasores, os Bretões guardaram em sua memória a lembrança de um tempo em que, através da liderança de um guerreiro Romano com sangue bretão chamado Ambrósio Aureliano eles conseguiram reagir ao invasor fazendo-o recuar, permitindo um período de quarenta e quatro anos de paz.

Essa vitória, conseguida na batalha do monte Badon em 516, mencionada pelo monge Beda em Ecclesiastical History of the English People, se incrustou na memória do povo Bretão que desde então passou a esperar a volta daquele que os havia liderado à vitória na ocasião.

A partir daqui os fatos começam a se misturar com a ficção.

As raízes culturais 

Muitos personagens e elementos que cercam as histórias do rei Arthur possuem suas origens em lendas, crenças e costumes dos povos que ocuparam a Bretanha. Vejamos alguns delas em ordem alfabética:

Arthur

“Arthur” é a forma galesa do nome romano Arthorius. O nome sugere a possibilidade de que o Arthur histórico tenha nascido quando a Bretanha ainda estava sob a influência do Império Romano.

A existência de vários “Arthures” no século 6 pode ser uma homenagem a um herói nacional cujo nome era colocado em recém-nascidos.

Outra tese liga a origem do nome “Arthur” da lenda a um oficial da cavalaria Romana do século 2 chamado de Lucius Artorius Castus que liderou os Bretões contra os invasores em diversas batalhas.

Avalon

No ano de 1998 arqueólogos encontraram em Cadbury Hill chefes militares Bretões enterrados em caixões em forma de barco.

Os povos antigos acreditavam que a alma viajava para o outro mundo, que era encontrado nos lagos e mares. Os caixões estavam apontados para a colina de Glastonbury Tor, um local religioso.

Na época das enchentes, Glanstonbury ficava isolada como uma ilha. Especula-se que este ritual esteja por detrás da lenda de que Arthur foi levado para a ilha mágica de Avalon para ser cuidado de seus ferimentos.

Camelot

Em 1542 o antiquário John Leland descobriu indícios de uma fortificação do século 6 em Cadbury Hill próximo ao rio Cam. Este rio alimentava os vilarejos de West Camel and Queen Camel.

Leland acredita que esta fortificação tenha dado origem a lendária sede de governo de Arthur. Escavações feitas por especialistas em 1966 confirmaram a sua tese.

Excalibur

Era comum até a Idade Média dar nomes as espadas.

De acordo com pesquisas recentes, a célebre cena da espada retirada da pedra é derivada do fato de que os Bretões forjavam suas espadas em moldes de pedra.

É importante esclarecer também que esta espada da pedra não era Excalibur. A famosa espada do rei Arthur, chamada nos primeiros relatos de Caladfwich (uma derivação da palavra galesa Caladbolg – “duro corte”) e posteriormente no século 12 de Caliburn, foi entregue a ele por meio de Merlin pela Dama do Lago tendo sido forjada pelas fadas.

O fato da espada ter vindo da água e retornado a ela depois da morte de Arthur se deve ao fato de que as primeiras comunidades Celtas jogavam nos lagos as espadas, escudos e outros itens dos guerreiros mortos por considerarem estes locais portais para o outro mundo.

Na cultura pop, com o tempo, as duas espadas se tornaram uma só.

Graal

A etimologia da palavra “Graal” é confusa.

A origem está comumente relacionada a palavra medieval gradalis – cálice ou prato. De fato, um tema recorrente nas lendas Celtas é a busca por um pote mágico.

A partir do século 13 este objeto se tornou associado ao ciclo Arthuriano, mas apenas como um símbolo sobrenatural sem conexão Cristã.

Por volta do século 15, ele se tornou o “Santo Graal”, cálice utilizado por Jesus na última ceia e no qual seu sangue foi colhido após a crucificação.

Merlin

O mago Merlin é a fusão de uma lenda galesa sobre um nobre Britânico de fins do século 6 famoso por ter perdido a razão em uma batalha em Cumbria e por ter vagado por todo o sul da Escócia proferindo profecias sob o nome de Myrddin, e o personagem Ambrosius Merlinus, criadp por Geoffrey de Monmouth.

Morgana

O nome da meia-irmã de Arthur vem do nome morgans, como eram chamadas as fadas da água em algumas vilas Bretãs.

Dessa mesma crença vêm as origens da Dama do Lago, que entrega Excalibur para Arthur, e de Nimue, a ninfa que captura Merlin o afastando da órbita do rei.

Em algumas versões Morgana é mostrada como uma bruxa má, tramando contra Arthur, e em outras como uma das nove irmãs sacerdotisas que levam Arthur para Avalon para cura-lo.

Estas contradições são decorrentes do papel da mulher na religião Celta e no Cristianismo.

Távola redonda

A famosa mesa circular criada pelo Mago Merlin com o propósito de assentar 150 cavaleiros era o ponto de encontro aonde Arthur e sua companhia celebrava seus feitos. O formato da mesa tem suas origens na reverência Celta pelo círculo como um símbolo da coerência e da totalidade.

De Arthur para Rei Arthur 

Segue abaixo as principais obras e autores que fundaram e difundiram o personagem histórico Arthur transformando-o no personagem literário Rei Arthur   

De Excidio et Conquestu Britanniae (Sobre a Destruição e a Lamentação da Bretanha / 545 d.C), de Gildas 

Trata da história da Bretanha da conquista romana até o século 6. Gildas – considerado o primeiro historiador da Bretanha – não menciona o nome de Arthur (o líder da vitória no monte Badon era o bretão romano Ambrósio Aureliano), mas esta é a obra que cria a figura do herói do povo Bretão, salvador este que teria seu nome modificado por Nennius para Arthur.

Historia Britonum (História dos Bretões / 954 d.C.), de Nennius

Nennius, um padre do sul de Galês, é o autor e revisor desta coletânea de notas oriundas de várias fontes como Gildas e Beda. 

Em Historia Britonum existe um capítulo intitulado “Arthuriana” na qual são mencionadas doze batalhas vencidas pelos Bretões comandadas por um guerreiro Bretão chamado Arthur. Nennius, porém, não se refere a ele como rei mas como um chefe militar (dux bellorum).

A duodécima batalha era a do monte Badon mas ao invés do Romano Ambrósio Aureliano, Nennius atribui a vitória ao Bretão Arthur. Ambrósio, no entanto ainda aparece como rei sobre todos os reis da Bretanha. Em Historia Britonum, portanto, encontramos o primeiro aparecimento do nome “Arthur” na literatura mundial.

Annales Cambriae (Anais  de Câmbria /955 d.C.)

A história de Gales de 453 a 954 que menciona a batalha do monte Badon em 516 e de Camlann em 537. A segunda batalha não é mencionada no “Arthuriana” de Nennius mas sua importância reside na menção de que foi nesta luta que Arthur e um tal de Medraut morreram.

É muito provável que esse Medraut tenha sido a base de criação para o personagem Mordred, o traiçoeiro filho (ou sobrinho, dependendo da fonte) do rei Arthur com a sua irmã Morgana.

Annales Cambriae é fundamental por introduzir aquele que viria a ser o personagem Mordred e a cena na qual ele e Arthur morrem.

Gesta Regum Anglorum (Feitos dos Reis dos Anglos / 1125), de William de Malmesbury  

Nesta história dos reis da Inglaterra de 449 a 1128 William consegue conciliar a tradição da batalha do monte Badon, vencida por Ambrósio Aureliano, com a figura do Bretão Arthur. Na visão de William, Arthur é um guerreiro a serviço do rei Ambrósio.

Em Gesta Regum Anglorum, somos apresentados pela primeira vez a um dos cavaleiros mais importantes da companhia de Arthur – seu sobrinho Walwen, nome posteriormente alterado para Gawain.

Historia Regum Britanniae (História dos Reis da Bretanha / 1135), de Geoffrey de Monmouth 

Geoffrey Monmouth foi o responsável pelo inicio do ciclo Arthuriano através da valorização do rei Arthur perante os reis Normandos.

De fato, Historia Regum Britanniae foi o primeiro best seller da Europa Medieval visto que sobreviveu em duzentos manuscritos e já era conhecido antes do fim do século 12 na França, Espanha, Itália, Polônia e Bizâncio.

Demonstrando uma enorme habilidade em contar estórias, Geoffrey de Monmouth traça a linhagem dos reis da Inglaterra. Ele fala de noventa e nove reis ao todo, e um quinto do trabalho é dedicado à história imaginária de Arthur.

Foi através deste monge Bretão que a lenda Arthuriana se estruturou da maneira que conhecemos hoje.

Em sua obra, Arthur é o rei que levou seu povo à vitória no monte Badon. Aqui, Ambrósio Aureliano não apenas aparece como rei, apesar do nome alterado para Aurélio Ambrósio, mas também ele se torna irmão de outro rei, Uther Pendragão, por sua vez, pai de Arthur.

Geoffrey de Monmouth também foi o responsável pela criação daquele que é o personagem mais famoso das lendas sobre o rei Arthur: Merlin.

Mesclando uma lenda Galesa sobre um vidente chamado de Myrddin, com outro Ambrósio apresentado por Nennius como um menino clarividente, Geoffrey criou “Ambrosius Merlinus” – o instrutor, mago e sábio conselheiro de Arthur.

Além de criar Uther Pendragão e Igraine, pais de Arthur e o mago Merlin, Historia Regum Britanniae também apresenta pela primeira vez a concepção de Arthur em Tintagel, sua coroação (sem menção a espada Excalibur), o casamento com Guinevere, a traição e morte de Mordred em Camlann, a navegação de Arthur até Avalon e a promessa da volta. 

Roman de Brut (Séc. XII), de Wace 

Desejando uma tradução e adaptação para versos Franceses da obra escrita em Latim por Geoffrey de Monmouth, o rei Henry II convocou o poeta Francês Wace.

Após terminado, Roman de Brut foi dedicado a Leonor da Aquitânia, esposa de Henry II. Foi a primeira tradução para a cultura da cavalaria. O título faz referência ao Troiano Brutus.

A contribuição de Wace para a lenda Arthuriana foi a criação da famosa Távola Redonda.

Chrétien de Troyes (Séc. XII)

Chrétien de Troyes foi o poeta que mais celebrizou os cavaleiros do rei Arthur e os romances de cavalaria. Quatro romances completos e um incompleto escritos em Francês, com destaque para o incompleto Perceval Le Conte du Graal (1182).

Neste ultimo, vemos a utilização de um elemento que denota o inicio de uma vertente religiosa dos romances de cavalaria: o Graal, aqui ainda sem uma explicação de sua origem.

Vulgata (1220), de Gautier Map 

Esta série de cinco livros em prosa escritos em Francês foca no Graal, sendo que aqui ele é transformado no Santo Graal, o cálice em que foi recolhido o sangue de Cristo.

Mort D’Arthur (1485), de Thomas Malory

O maior feito do cavaleiro Thomas Malory foi aproveitar os 20 anos de pena na prisão de Newgate para organizar as diversas versões da literatura arthuriana para criar um texto único e uma seqüência narrativa.

Quando se pensa em um texto a ser seguido para adaptações de Arthur, Mort D’Arthur é o texto a ser estudado.  

Agora que você conhece o Arthur que serviu de base para esta última adaptação para o Cinema você pode aproveitar ainda mais o filme… ou sair de lá se perguntando porque mudaram tanta coisa em um personagem cujas histórias primeiras já são tão fascinantes. 

Fontes utilizadas

ABRAMS, M. H. et al., (ed.). The Norton Anthology of English Literature. v. 1 & 2. 6 ed. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1993.

JENKINS, Elizabeth. Os Mistérios do Rei Arthur. Trad. Luiz Carlos Rodrigues de Lima. São Paulo: Melhoramentos, 1994.

McDOWALL, David. An Illustrated History of Britain. London: Longman, 1989.

SILVA, Alexander Meireles da Silva. Literatura Inglesa para Brasileiros: curso completo de literatura e cultura para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

 

1982: Os 7 filmes do Ano de Ouro do Cinema de Ficção Científica

Imagine um tempo em que os grandes estúdios de cinema não se preocupavam em acertar datas de lançamento dos filmes de forma que o filme de um estúdio não se chocasse com a produção de outro.

CONAN, O BÁRBARO (1982), foi o primeiro sucesso de Arnold Schwarzenegger no Cinema. Ele e Sylvester Stallone se tornaram os grandes nomes do Cinema de Ação a partir de então.

Ou então, um ano em que um filme ficasse em cartaz por meses porque não teve a pressão de bater recorde de bilheteria no fim de semana de sua estréia para garantir maior tempo de exibição.

Devendo seu sucesso ao nome de Steven Spielberg como produtor, POLTERGEIST (1982) ganhou fama de filme maldito e deu início a várias continuações.

Um ano que reunisse vários filmes que marcariam toda uma geração e viriam a exercer influencia até os dias de hoje.

Após estrear 3 filmes como Rocky Balboa, Sylvester Stallone se tornou um ex-soldado em RAMBO (1982), iniciando, junto com Arnold Schwarzenegger, a era dos brutamontes no Cinema.

Assim foi o ano de 1982.

Ainda que esse ano tenha fornecido o cenário para grandes filmes de gêneros diversos, tais como a Fantasia, Horror e Ação, nenhum outro gênero se destacou tanto neste ano quanto a Ficção Científica (FC), assunto do post desta semana.

Dentre os 7 filmes de Ficção Científica de 1982 que causaram impacto quando de seu lançamento pela produção ou roteiro, ou que continuam a exercer influencia 35 anos depois, destacam-se, em ordem de lançamento:

1. Fuga de Nova York

Título original: Escape from New York  

Lançamento nos EUA: 10 de Julho de 1981 

Dados: É o único filme aqui da lista que na verdade foi lançado em 1981.

Ele está aqui por ter marcado toda uma geração no ano seguinte, principalmente no Brasil, quando foi lançado em maio de 1982 (sim, leitores mais novos, os filmes demoravam muito pra chegarem no Brasil).

Enredo: No ano de 1997 Nova York é uma cidade prisão para todos os criminosos de uma decadente América à beira de uma guerra nuclear. Após o presidente do país cair no local, o mercenário Snake Plissken é enviado para salvá-lo  em uma corrida contra o tempo.

Marcou época porque: Produção B do diretor John Carpenter com seu ator predileto – Kurt Russel – Fuga de Nova York serviu de referência para Hideo Kojima criar o personagem Solid Snake da série Metal Gear.

O diretor J. J. Abrams (Star Wars VII – O despertar da Força) é outro fã do filme de John Carpenter e usou a imagem da cabeça quebrada da Estatua da Liberdade no filme Cloverfield (2008). 

2. Mad Max 2

Direção de George Miller

Título original: Mad Max: The Road Warrior 

Lançamento nos EUA: 28 de Abril

Dados: Continuação de Mad Max (1979), Mad Max 2 ou Mad Max: O guerreiro da estrada traz novamente o policial australiano Max Rockatansky, agora conhecido apenas como “O Guerreiro da Estrada”, vivido pelo ator Mel Gibson. Direção de George Miller.

Enredo: Após perder a esposa e o filho no primeiro filme, Max se vê aqui envolvido em meio a uma disputa por gasolina entre uma comunidade no meio do deserto e uma gangue de motoristas sádicos.  

Marcou época porque: Introduziu a estética dos filmes pós-apocalipticos ambientados em desertos e com a presença de gangues degeneradas, algo que se tornaria um recorrente elementos em filmes do tipo nas décadas seguintes. 

3. Star Trek II: A Ira de Khan

Direção de Nicholas Meyer

Título original: Star Trek II: The Wrath of Khan 

Lançamento nos EUA: 04 de Junho

Dados: Como a primeira produção lançada em 1979 rendeu abaixo do esperado, este segundo filme da franquia televisiva Star Trek foi realizado com orçamento menor, mas acabou por render mais que o anterior e foi elogiado por público e crítica.

Enredo: Durante sua missão de exploração do espaço o Capitão James T. Kirk encontra um antigo inimigo cuja sede por vingança ameaça toda a tripulação da Enterprise e a Federação. 

Marcou época porque: Estabeleceu dialogo com a história da franquia ao trazer um vilão da série na TV e também por ter dado início a uma tradição de Star Trek no Cinema em que os filmes pares são excelentes enquanto que os ímpares são ruins ou irregulares. Tradição que se mantém até hoje.

4. E.T. O Extraterrestre 

Título original: E.T. The Extraterrestrial 

Lançamento nos EUA: 25 de Junho

Dados: Uma das maiores bilheterias de todos os tempos (em valores atuais é a quarta maior bilheteria mundial), o filme consagrou o diretor Steven Spielberg como o maior nome do Cinema nos anos 80. 

Enredo: Um simpático ser extraterrestre é esquecido em nosso planeta e conta com a ajuda de um menino para voltar ao seu planeta e evitar ser capturado por agentes do governo norte-americano.

Marcou época porque: O interessante aqui é justamente o fato que E.T. não exerceu impacto nas produções posteriores a ele, sendo essencialmente um filme de seu tempo. 

Isso decorre talvez do apelo maior que seres extraterrestres maléficos e ameaçadores causam junto ao grande público, algo que destoa do clima de fantasia dessa produção de Spielberg. 

5. Blade Runner: O caçador de androides 

Direção de Ridley Scott

Título original: Blade Runner 

Lançamento nos EUA: 25 de Junho

Dados: Adaptação do diretor Ridley Scott do livro Os androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick. O filme recebeu críticas mornas da crítica e do público quando de seu lançamento, mas se tornou cult com o tempo.

Enredo: Um caçador de androides é encarregado de eliminar androides (chamados no filme de Replicantes) que estão apresentando um comportamento fora do programado. Enquanto tentar separar o humano do artificial ele se envolve com uma dessas criaturas e tem sua própria identidade questionada.

Marcou época porque: Trouxe para as telas do Cinema toda a estética cyberpunk que marcariam os anos 80 no Cinema e na Literatura de FC. Ao lado de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), Blade Runner é considerado pela crítica como um dos filmes mais icônicos da Ficção Científica. 

 6. O Enigma do Outro Mundo

Direção de John Carpenter

Título original: The Thing 

Lançamento nos EUA: 25 de Junho

Dados: Refilmagem do clássico de 1951, chamado no Brasil de O monstro do Ártico

Tanto o filme de 1951, como este de 1982 e mesmo sua refilmagem em 2011, são baseados no conto “Who Goes There?” (1938), do editor e escritor de Ficção Científica John W. Campbell, O Enigma do Outro Mundo renova a parceira entre John Carpenter na direção e Kurt Russell como protagonista após Fuga de Nova York. 

Enredo: Intrigados tanto pela morte de uma equipe norueguesa de pesquisadores quanto pela destruição de sua base um grupo norte-americano na Antártida eventualmente descobre que uma criatura extraterrestre capaz de assumir a forma humana está entre eles e fará de tudo para sobreviver. 

Marcou época porque: Exemplifica como o cinema de FC dos anos 80 foi a última década em que os efeitos especiais eram obtidos por meio de maquiagem, marionetes e animatônicos, algo que mudaria a partir dos anos 90 com a computação gráfica.

7. Tron 

Título original: Tron

Lançamento nos EUA: 09 de Julho

Dados: Ao lado de Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, foi um dos primeiros filmes a utilizar efeitos especiais de computação gráfica em uma época em que poucas pessoas tinham computadores em casa. 

Enredo: Jovem engenheiro de Software cai em uma armadilha corporativa e é digitalizado para dentro de um mundo virtual onde precisa lutar por sua vida ao lado de outros programas sencientes. 

Marcou época porque: Antecipa a percepção de que os computadores iriam mudar a sociedade contemporânea em todos os seus níveis. Além de mostrar o potencial da computação gráfica para o Cinema.

O interessante é que o filme não se saiu bem de bilheteria justamente porque muitas pessoas da época não entenderam a linguagem técnica cheia de palavras como “hackers”, “sistema de dados” e “softwares”.

Já assistiu a todos esses filmes?

Qual é o que você mais gostou? 

Gostou de alguma continuação ou refilmagem deles? 

Deixe seu comentário e assine o blog. 

Obrigado pela leitura e até a semana que vem.

Fontes utilizadas 

CLUTE, John. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter; SLEIGHT, Graham (Eds). The Encyclopedia of Science Fiction. Disponível em http://www.sf-encyclopedia.com/. Acesso em 06 de maio de 2017.

Você gosta de STAR WARS e GUARDIÕES DAS GALÁXIAS? Então você curte Space Operas

A SciFi que todo mundo lembra

No momento em que escrevo este post Guardiões das Galáxias 2 está nos Cinemas de todo o mundo com a promessa de não apenas oferecer mais diversão do que no primeiro filme, mas também, indiretamente, de continuar perpetuando as Space Operas como a mais popular expressão da Ficção Científica no Cinema.

Mas que diabos é uma Space Opera

A cotovia do espaço

As Space Operas estão intimamente relacionadas ao início da Ficção Científica na América nas primeiras décadas do século 20.

De fato, o próprio nome Science Fiction, ainda na forma primária da palavra scientifiction, surge pela primeira vez na edição de abril de 1926 da revista Amazing Stories em um comentário do editor Hugo Gernsback sobre o romance A cotovia do espaço (The Skylark of Space), de E. E. Smith.

Antes de A cotovia do espaço já haviam histórias de ficção científica centradas em aventuras espaciais, mas foi a partir da obra de E. E. Smith que temos reunidos três elementos característicos das Space Operas:  

  1. Um herói inventor e aventureiro;
  2. Gadgets tecnológicos utilizados pelo herói e o vilão;
  3. Ambientação no espaço;
  4. Escala

É justamente a escala cósmica a principal contribuição de A cotovia do espaço para a criação das space operas e suas narrativas passadas em universos complexos formados por sistemas planetários habitados por raças variadas nos quais o protagonista adentra para resolver conflitos diversos.  

Pense em Star Wars, Guardiões da Galáxia, O quinto elemento ou Valerian e você terá uma exata noção de uma Space Opera.

As histórias de sabão

De Flash Gordon a Star Wars, de Buck Rogers a Guardiões das Galáxias as operas espaciais tem seu nome ligado a quando o Rádio era o principal veículo de comunicação dos Estados Unidos no começo do século vinte.

Nesta época os seriados radiofônicos diários, equivalentes as novelas televisivas de hoje, tinham nas companhias fabricantes de sabão (soap) da América os seus principais patrocinadores.

Logo, as histórias patrocinadas por marcas deste produto receberam o apelido de Soap Operas, algo traduzido como “Histórias do sabão”.

O termo se generalizou para designar qualquer história dramática de longa duração ou dimensão para os lares americanos. Assim surgiram as Horse Operas, para identificar as histórias de faroeste e, em 1941, o escritor e editor Wilson Tucker criou o termo Space Opera

O lado negro das Space Operas

Se alguém perguntar a uma pessoa comum sobre o que é Ficção Científica, dificilmente a resposta não será algo sobre “histórias com presenças de naves espaciais, extraterrestres e armas de raio”.

O QUINTO ELEMENTO (1997), exemplifica bem o lado divertido das Space Operas

Este fato atesta a força das operas espaciais na historia da FC revelando dois lados desta realidade:

Por um lado, esta vertente da Ficção Científica ajudou a popularizar esta expressão do Fantástico para o grande público pelas histórias repletas de ação, cenários coloridos e roteiros simples.

Esta situação se manteve de forma dominante na Literatura de FC até a década de 50 do século vinte, e continua a ser uma forte tendência no Cinema até hoje.

MERCENÁRIOS DAS GALAXIAS (1980), clássico das Sessões da Tarde.

Do outro lado, porém, as Space Operas foram as grandes responsáveis por criar a falsa noção de que a Ficção Científica em geral é voltada para um público juvenil ou para pessoas que buscam uma forma de escape da realidade.

A partir dos anos 60, com o chamado movimento New Wave,  a Literatura de Ficção Científica passou  a incorporar temas ligados as Ciências Humanas e Sociais, como a Linguística, a Psicologia, a História e a Antropologia, fomentando assim obras também no Cinema que vem proporcionando reflexões sobre a sociedade contemporânea.

A CHEGADA (2016) mostra que a FC pode ser inteligente sem deixar de ser atraente para o grande público

São nas superproduções do Cinema norte-americano que as Space Operas encontram seu refugio para continuarem a promover, junto ao público, a crença de que a FC pode ser resumida aos mesmos temas e imagens encontrados nas publicações das revistas pulp de até meados do século vinte. 

Assim, se você quer ler ou assistir a uma obra de Ficção Científica sem questionamentos filosóficos ou complexidade de roteiro, então embarque na nave espacial mais próxima rumo ao planeta das operas espaciais.

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Fontes utilizadas

CARNEIRO, André. Introdução ao estudo da “science fiction”. Brasópolis: /s.n./, 1997.

FIKER, Raul. Ficção científica – ficção, ciência ou uma épica da época?; Coleção universidade livre. Porto Alegre: L&PM, 1985.

ROBERTS, Adam. Science fiction: The New Critical Idiom. London: Routledge, 2000.

SCHOEREDER, Gilberto. Ficção científica. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

 

O lado pop de Lúcifer: Por que o Diabo fascina você?

 O Diabo é Pop

Lucifer from Milton's Paradise Lost by Gustave Dore
O (anti-)herói de John Milton

2017 marca os 350 anos do poema épico Paraíso Perdido (1667).

Paraíso Perdido é uma versão literária da historia encontrada no Gênesis, focando especificamente nos episódios da queda de Lúcifer, na criação do Jardim do Éden e na tentação sofrida por Eva que a levou, juntamente com seu marido Adão, a expulsão do Paraíso.

Temptation and Fall of Eve by William Blake
A tentação do fruto proibido

A obra foi o projeto maior do poeta e ensaísta inglês John Milton e que se alinhava com suas visões religiosas enquanto Puritano, ou seja, membro de um segmento radical do Protestantismo no século 17.

No entanto, o que chama a atenção em Paraíso Perdido é o fato que, quanto mais o leitor conhece o diabo de Milton, mais passa a admirá-lo.  

Isso acontece porque Lúcifer aparece sozinho no começo da obra e na tentativa de mostrá-lo como uma ser patético e arrogante que perdeu a luta contra Deus e foi atirado no inferno junto com outros de seu exército, John Milton acabou estabelecendo o Diabo como um dos primeiros anti-heróis da Literatura.

Simon Bisley's Paradise Lost (Satan’s Fall)
A queda de Satã

E é o diabo de John Milton que está por trás de dois personagens da cultura pop dos anos 90 e de hoje: O Lúcifer, da série em quadrinhos Sandman, e sua releitura na série televisiva do canal FOX de título Lúcifer

“Melhor reinar no Inferno que servir no Céu”

A frase acima mostra bem o caráter heroico impresso por John Milton em sua representação de Lúcifer.  

Corrado Giaquinto (Italian 1703–1756) [Baroque, Rococco] Saint Michael Defeats Satan, 1750. Pinacoteca Vaticana, Vatican City, Rome. – The Athenaeum
A derrota de Satã pelo anjo Miguel

Após sua fracassada tentativa de depor Deus como soberano do Céu por enxergar nele um tirano que não aceita contestações e não reconhece o grau de grandeza dos anjos, Lúcifer e seu exército é lançado ao Tártaro. 

Apesar da derrota, Lúcifer não perde sua arrogância e posição de liderança diante dos outros demônios.

“A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar. / A mente é o seu próprio lugar, e dentro de si / Pode fazer um inferno do céu, do céu um inferno.”

Ciente de sua posição como regente do Inferno, Lúcifer planeja seu plano de corromper a maior criação do Criador: O Homem. E é bem sucedido.

A queda de Adão e Eva e a expulsão do Paraíso

Os discípulos de Satã 

Durante o Romantismo, o Lúcifer de John Milton capturou a imaginação de poetas e escritores do século 19 não apenas na Europa, mas também no Brasil com o Ultraromantismo.

O personagem ajudou na criação do “herói romântico” que, como tal, mesmo em condições adversas ou prevenindo contra suas ações enfrenta crenças estabelecidas, ou o sistema dominante, em busca de mudança e paga o preço por suas ações. 

Apenas para citar um exemplo, este é o caso de Victor Frankenstein, cuja obsessão em desafiar o domínio da Natureza (e da condição feminina) em prover a vida faz uso de sua Ciência (masculina) pra criar uma criatura abominável que o faz pagar o preço pelas suas ações. 

Releitura nos Quadrinhos

O Lúcifer de John Milton foi reinterpretado no fim dos anos 80 na série quadrinista Sandman (1989-1993), escrita pelo escritor inglês Neil Gaiman.

Neil Gaiman fez a estréia de Lúcifer Estrela da Manhã na revista Sandman #4 de abril de 1989, solicitando que os artistas da revista utilizassem o cantor e ator David Bowie como referência para a aparência do regente do inferno.

Em outro arco da série (Estação das Brumas), após governar o Inferno por 10 bilhões de anos, manipular os demônios para manter seu controle e manter sua guerra contra o firmamento, Lúcifer se sente entediado de sua tarefa.  

Dentre as razões para seu tédio, estão os estereótipos que os humanos fazem sobre sua figura, atribuindo os problemas de suas vidas a ele.

Assim, Lúcifer decide passar o comando do Inferno para Morpheus, o Sandman.

Livre de seu domínio, Lúcifer passa a viver a vida terrena, primeiro na Austrália e depois, muito apropriadamente, na cidade dos Anjos, Los Angeles.

Lá, ele passa a dirigir um piano bar em companhia de outros seres sobrenaturais.  

Lúcifer ganhou uma série própria de 2000 a 2006 em 75 edições escritas por Mike Carey.

Alinhado com sua base literária na epopeia Paraíso Perdido, Lúcifer é um anti-herói arrogante e muitas vezes inconsequente em suas ações, sempre se envolvendo em conflitos.    

Releitura na Televisão

Exemplificando como uma expressão artística alimenta a outra, o personagem Lúcifer, Estrela da Manhã da série Sandman, baseado no Lúcifer miltoniano, foi reinterpretado para a série televisiva Lúcifer

O capeta é interpretado pelo ator Tom Ellis

Produzido pelo canal FOX dos Estados Unidos e tomando como base a série em quadrinhos de Mike Carey, os episódio de Lúcifer mostram as aventuras do ex-Senhor dos Infernos em Los Angeles e seu envolvimento com a Detetive da Polícia Chloe Decker.

Fascinado e intrigado pelo fato da detetive resistir aos seu charme, Lúcifer passa a se envolver nos casos da Polícia ao mesmo tempo em que é advertido por seu irmão Amenadiel a reassumir seu lugar no inferno.

A série, até o momento da escrita deste post, conta com três temporadas anunciadas.

Respondendo a pergunta do título deste post – Por que o diabo fascina? – é fácil entender o fascínio deste personagem desde 1667 até os dias de hoje na Literatura, Quadrinhos e Série de TV. 

Rebelde, charmoso, confiante, elegante, bonito, cativante e inteligente, o diabo criado por John Milton reúne todas as qualidades esperados de um personagem que desperta admiração por parte do público.

E isso não é de hoje…

Lúcifer antes de Lúcifer

Se mesmo o protestante radical John Milton não conseguiu diminuir o encanto de seu personagem Lúcifer isso se deve a toda a tradição histórica relacionada ao Lúcifer que o Cristianismo herdou do Judaísmo.

Da primeira deportação dos judeus em 609 a. C até o fim em 538 a. C., o contato dos judeus com as divindades estrangeiras durou 70 anos.

O curioso neste caso é que Lúcifer e alguns dos seres relacionados a ele, por vezes tomados como variações do mesmo ser, como Asmodeus, AstarothBelzebu não nasceram no meio do povo judeu.

Esses seres tem sua origem relacionada as divindades dos opressores dos judeus, principalmente durante o período conhecido como o Cativeiro da Babilônia no século 6 a.C., quando os hebreus foram cativos na Babilônia.

Asmodeus

Associado a Luxuria, Asmodeus possui três cabeças, uma de homem, uma de Touro e outra de Carneiro, símbolos de virilidade e fertilidade. 

Asmodeus (Aeshma deva) nasceu a partir da divindade persa da tempestade.

Astaroth 

Representado como um homem nu de asas e com mãos e pés de dragão e um segundo par de asas com plumas abaixo do principal, levando uma coroa, segurando uma serpente com uma mão e cavalgando sobre um lobo ou um cachorro.

Astaroth (Ashtoreth) nasceu a partir da deusa lunar cultuada na Mesopotâmia com o nome de Ishtar.

Belzebu

Belzebu, dentro da tradição cristã, é o Príncipe dos demônios. 

Belzebu (Baal-Ze-boub), ser de etimologia complexa, nasceu a partir do deus filisteu Baal e siginifica “O Senhor das Moscas”. Antes relacionado as pestilências, na tradição dos Sete Pecados Capitais do século 6 passou a ser relacionado a Gula.

E o Estrela da Manhã? 

Assim como seus companheiros regentes do Inferno, Lúcifer também se origina entre os inimigos do povo judeu.

Neste caso específico, como bem coloca Carlos Roberto Nogueira em O Diabo no imaginário cristão (2000),  a origem do nome Lúcifer – o astro da manhã, o filho da aurora, a “estrela” Vênus – está associado a queda do rei da Caldéia.

Esta relação aparece pela primeira vez em Isaías (14:12), onde o profeta debocha  do rei após a sua queda para designar um regente caído, líder de exércitos:

“Como é que você caiu do céu, heylel, filho da aurora?”

Foi com a ambiciosa tradução da Bíblia para o inglês moderno realizada na Inglaterra do século 17, que ficou conhecida como a Bíblia do Rei James, que a palavra hebraica “heylel” foi traduzida como “Lúcifer”.

Assim, tendo sua origem ligada tanto a um personagem nobre quanto também a divindades e seres relacionados a realeza infernal, surgiu o elegante e cativante Lúcifer que dominou a imaginação de John Milton em 1667.  

E o resto é história…

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Fontes utilizadas

BENDER, Hy. The Sandman Companion. London: Titan Books, 2000.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: EdUSP, 1988.

COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro: Rosa dos ventos, 1996.

MACK, Carol K., MACK Dinah. A Field Guide to Demons, Fairies, Fallen Angels, and Other Subversive Spirits. New York: Henry Bolt and Company, 1999.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. Bauru, SP: EDUSC, 2000.

SILVA, Alexander Meireles da. Literatura Inglesa para Brasileiros: Curso completo de Literatura e Cultura Inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.  

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

30 anos depois… você está no mundo cyberpunk dos anos 80?

Em 1987, há exatos trinta anos, Robocop: o policial do futuro estreou no Cinema norte-americano trazendo por trás de seu roteiro de ação e violência extrema um debate sobre a relação Homem x Máquina  na sociedade ocidental de fins de século vinte.

Muito melhor que a refilmagem do século 21.
ROBOCOP (1987)

Essa visão foi compartilhada por outros filmes dos anos 80, tais como Blade runner: o caçador de androides (1982) e Exterminador do futuro (1984).

O tempo só fez o filme ficar melhor
Clássico cult dos anos 80

Essa recorrência ao tema do impacto da tecnologia sobre a humanidade também se fez presente na Literatura e também no mundo das Histórias em Quadrinhos da época.

Clássico dos filmes de viagens no tempo
Exterminador modelo T-100

O ponto em comum a todas essas produções foi a percepção de que um novo subgênero da Ficção Científica ganhava força no período, demonstrando que os avanços da tecnologia não representaram avanços da sociedade como um todo.

Livro cyberpunk que influenciou Matrix (1999)
Neuromancer (1984)

30 anos depois de Robocop, e considerando o impacto da tecnologia no nosso meio, fica a pergunta:

Estaríamos em 2017 no mundo do Cyberpunk

Ghost in the Shell
Ghost in the Shell (1989)

O que é Cyberpunk?

Focando na ideia do High Tech e Low Life, ou seja, Alta Tecnologia e Baixa Qualidade de Vida, o Cyberpunk trata de narrativas onde os avanços e inovações tecnológicas convivem com a deterioração social.

Elysium (2013) mostra bem o contraste entre o High Tech e o Low Life.

Estas duas ideias estão presentes nos termos que compõem a palavra Cyberpunk.

Cyber-

Originado na palavra Cybernetics (Cibernética), Cyber- se refere a um futuro onde forças políticas e econômicas são globais em virtude da tecnologia empregada. 

Frequentemente estes locais de poder se apresentam separados e mesmo isoladas dos segmentos desprivilegiados do mundo cyberpunk.

Cyber- também se refere a manifestação no corpo da ligação entre homem e tecnologia.  

punk

O termo -punk tem origem no cenário musical dos anos 70, marcado pela crítica forte a cultura dominante e as instituições de poder.

O -punk, enquanto postura cultural, é antiautoritário, pessimista, anárquico e igualitário.

O Cyberpunk antes dos punks 

Ainda que o Cyberpunk tenha sua origem ligada as últimas décadas do século vinte, sua presença pode ser traçada já nas décadas de 50 e 60 do século vinte. Antes mesmo de receber esse nome.

A série ainda não foi lançada no Brasil
Capa da primeira edição de 1946

Nos anos da década de 1950 esse momento inicial está na série Gommerghast (1946-1956), de Mervyn Peake, em que Fantasia, Gótico e Ficção Científica se encontram em uma mesma obra.

O livro foi lançado em 1968 e serviu de base para o filme de 1982

Ainda na década de 50 e também ao longo dos anos de 1960, Philip K. Dick também explorou em seus contos e romances as angustias do homem moderno frente as mudanças de uma sociedade cada vez mais amparada na tecnologia e como essas mudanças afetam sua noção da realidade e de ser humano.

Bem-vindo a Matrix

A palavra Cyberpunk surgiu na edição de novembro de 1983 da revista Amazing Science Fiction com o conto “Cyberpunk”, de Bruce Bethke.

O termo foi posteriormente popularizado pelo editor Gardner Dozois para nomear as histórias de Ficção Científica de William Gibson e Bruce Sterling na década de 80, como a Trilogia do Sprawl.

Neuromancer é comumente aceito como o marco inicial deste subgênero da Ficção Científica nos anos 80 e apresenta os elementos que se tornaram padrão desta literatura:  

  • Governos opressores;
  • Mega corporações transnacionais;
  • Sistemas de Inteligência interligados;
  • Anti-heróis moralmente questionáveis e marginalizados. 

A década do Cyberpunk

Mas quais razões, afinal de contas, levaram o Cyberpunk a se tornar a principal vertente da Ficção Científica em fins do século vinte?

A crise do Petróleo nos anos 70 criou uma profunda crise econômica no Ocidente.

O Cyberpunk é o resultado de um série de eventos e fatores das décadas de 70 e 80 que se refletiram na ascensão de uma visão mais pessimista da sociedade.

Dentre estes fatores, destaco:

  • O aprofundamento da contestação do sistema por diferentes grupos sociais minoritários;  
  • A crise do Petróleo, que gerou uma profunda crise econômica ao longo da década de 70;
  • A ascensão de governos neoliberais na Inglaterra (Margaret Thatcher) e nos Estados Unidos (Ronald Reagan) que afetaram a classe trabalhadora e aprofundaram as desigualdades sociais;
Reagan e Thatcher

A Ficção Científica, como sempre, refletiu as grandes questões de seu tempo de forma crítica e esse cenário de pessimismo se aliou aos avanços na área da informática e da cibernética. O resultado desse caldeirão: o Cyberpunk.

O início dos anos 80 foi também o começo de uma era digital que rapidamente se disseminou

Mas até que ponto o mundo de hoje, se tornou o mundo de, por exemplo, Robocop?

O mundo Cyberpunk de agora

Sendo um produto hollywoodiano, vamos pensar, com base no roteiro, como Robocop reflete a realidade dos Estados Unidos de hoje e, mais próximo a nós, a realidade do Brasil.

1. Cenário

Filme: Em Robocop vemos a cidade de Detroit, de um hipotético Estados Unidos da América no futuro, deteriorada pela criminalidade, trafico de drogas e corporações empresariais corruptas e gigantescas.

Realidade: O escritor Ray Bradbury, autor da distopia Fahrenheit 451 (1953) dizia que não escrevia Ficção Científica para prever o futuro, mas sim para evitá-lo.  

Mas, como não pensar que o mundo distópico do filme marcado pela violência extrema, roubos, estupro e trafico de drogas não se assemelhe ao encontrado nas grandes metrópoles brasileiras? 

O mesmo ocorre com as corporações empresariais cyberpunks caracterizadas pela corrupção, como as envolvidas na Operação Lava Jato no Brasil, ou as companhias norte-americanas que agora tem seu raio de ação ampliado com o governo do megaempresário Donald Trump.

2. Mídia

Filme: A mídia do mundo cyberpunk de Robocop é tendenciosa, manipuladora, alienadora e conivente com o sistema opressor.

As propagandas veiculadas refletem o consumismo, a falta de atendimento de saúde para todos, as consequências da agressão ao meio ambiente (veja o vídeo acima).

Um exemplo disso, como se vê abaixo, é o apelo a violência diante da falta de confiança na polícia, como a do sistema anti-furto “Magnavolt”.

Realidade: Se é desnecessário apontar as semelhanças com o Brasil, ainda mais na atual polarização política em que está a nossa sociedade, a mídia tradicional dos Estados Unidos também não fica atrás, como bem mostra a cruzada do Wall Street Journal em minar a audiência do YouTube com a acusação de que a mesma veicula conteúdos racistas e anti-semitas.  

3. Marginalização da população

Filme: Aproveitando da situação de caos, a megacorporação OCP (Omni Consumer Products) assina um acordo com o governo para combater a violência tendo em mente, na verdade, acabar com a parte pobre de Detroit para construir um novo empreendimento, a utópica Delta City.

A OCP passa a controlar a força policial e implementa sua estratégia cibernética para combater o crime: Robocop.

Os policiais, todavia, não gostam da administração da OCP e ameaçam parar suas atividades.

Realidade: A realidade de desemprego em Robocop encontra seu paralelo no Brasil, onde a crise econômica levou até mesmo a Polícia a demonstrar seu descontentamento.

A greve da Polícia no Estado do Espírito Santo, ocorrida em fevereiro de 2017, e a situação de caos vivida pela população nesta situação evidencia o lado -punk do cyberpunk focando na parte da sociedade não agraciada com os benefícios do avanço tecnológico.

Nos Estados Unidos, por sua vez, a eleição de Donald Trump ameaça os avanços sociais da administração de Barack Obama

4. A opressão do sistema

Filme: Robocop ocupa o duplo lugar, comum nas distopias e no Cyberpunk, do agente do sistema dominante ou integrante do sistema, que sai de sua alienação e se revolta contra a opressão.

Ainda que atue contra os bandidos, é perceptível o espaço de Robocop como o lado cyber- que oprime a população -punk do filme.

Enquanto permanece como Robocop, ele a corporificação do sistema, sem emoções e guiado pela lógica fria das estatísticas.

Quando reassume o lado humano Alex Murphy, Robocop se torna o anti-herói marginalizado que usa do seu conhecimento prévio para atacar a mesma sociedade que o criou, em busca de reparar parte do desequilíbrio entre os dois lados da sociedade.     

Realidade: O mundo como um todo está tendo uma guinada para a Direita, seja no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. 

Neste processo, como se percebe mais de perto no Brasil, a lógica dos números dos políticos (Cyber-) vem suplantando o lado humano afetado pelas estatísticas e servindo de justificativa para políticas contra a população desfavorecida (-punk).

O mesmo vem ocorrendo nos Estados Unidos, com mais resistência por lá.  

E aí? Quais outros aspectos da sociedade Cyberpunk de Robocop e outras obras na Literatura e no Cinema de 30 anos atrás você percebe em nosso mundo de hoje? 

Deixe seu comentário.   

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Obrigado pela leitura e até a próxima semana! 

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este post pertente ao blog Fantasticursos.

 

 

O que há de errado com as novas princesas da Disney?

Este post parte de uma inquietação minha, já de algum tempo, não apenas com as novas princesas da Disney, mas também com outras personagens femininas presentes nas animações e filmes ligados aos contos de fada contemporâneos.

No dia 31 de março participei de uma banca de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFG – Regional Catalão em que a aluna Fernanda Lázara de Oliveira Santos defendeu, brilhantemente, as novas configurações das mulheres em animações do estúdio Disney.

Em um dado momento, enquanto a aluna falava dos filmes Malévola (2014), Frozen (2013) e Valente (2012), eu me peguei pensando :

“Porra, mas será que todo homem em contos de fadas hoje tem de ser um FDP ruim ou então um Zé Ruela pobre pra mulher se destacar?”  

Já pensou nisso?

De fato, por trás da aparente representação de princesas que se colocam em pé de igualdade diante de personagens masculinos, o discurso da Disney esconde um desequilíbrio entre os gêneros no qual, para valorizar o feminino, atualmente se atinge o masculino.  

E isso não ajuda as mulheres a mostrar que, ao contrário do que muitos erroneamente pensam, o Feminismo não prega a superioridade das mulheres em relação aos homens, mas, sim, a defesa da igualdade entre os gêneros

Mas pra ajudar você a entender melhor o que estou falando aqui, veja abaixo o que vou chamar aqui de três fases das princesas Disney:

Primeira fase: “Salve-me ó bravo príncipe!”

Princesas:

  • Branca de Neve (1939);
  • Cinderela (1950);
  • Aurora (1959).

Presente no livro Contos da Mãe Gansa (1697), do francês Charles Perrault, livro que inaugurou o gênero conto de fada, “A Bela Adormecida” virou animação da Disney em 1959.

O desenho foi o ponto alto dos estúdios Disney na primeira metade do século vinte. E Aurora, o símbolo maior, da primeira fase das princesas Disney iniciada em 1939 com a animação Branca de Neve e os Sete Anões.

Branca de Neve e os Sete Anões (1939), Cinderela (1950) e A Bela Adormecida (1959) compõem a Primeira Fase das Princesas Disney.

O ponto importante a ser destacado neste primeiro momento é uma maior fidelidade das animações em relação ao texto literário.

Assim como suas equivalentes literárias, as princesas dos contos de fada da Disney refletiam o espaço limitado da mulher na sociedade ocidental.

Ou seja, de fins do século 17 até o fim dos anos 50 do século 20 não houve alteração significativa na visão sobre a mulher na cultura que provocasse um outro tipo de personagem feminino diferente daquele encontrado nos contos de fadas da Disney para o Cinema. 

Como disse mais acima a princesa Aurora da animação A Bela Adormecida simboliza esse espaço de apagamento da mulher.

Afinal de contas, ela aparece apenas em 18 minutos da animação em que ela é a personagem principal e tem apenas 18 falas (!!).

Faz participação especial em seu próprio filme!

Basta olhar a imagem do DVD comemorativo dos 50 anos da animação lançado em 2009. 

Quem está protagonizando a ação? 

Esse fato mostra bem o perfil das princesas clássicas da Disney até o fim dos anos 50.  

Estrutura das histórias

  • Par romântico: Príncipes valentes e corteses.
  • Vilões: Mulheres mais velhas, reforçando a disputa entre mulheres pela atenção masculina;
  • Comportamento da princesa: passiva (a ponto de dormir).
  • Representação masculina: pais e príncipes, são objeto de obediência e devoção. 

Segunda fase: “Eu posso, Eu quero, eu consigo!”

Princesas:

  • Ariel (1989);
  • Bela (1991);
  • Jasmine (1992);
  • Pocahontas (1995);
  • Mulan (1998);
  • Tiana (2009);
  • Rapunzel (2010).

Apenas em fins dos anos 80, trinta anos depois de A Bela Adormecida, a Disney voltou as histórias de princesas com A Pequena Sereia (1989).

Mas, as princesas não podiam mais ser as mesmas.

Surge a princesa rebelde

Afinal de contas, entre 1959 e 1989 o Movimento Feminista dos anos 60 e 70 tinha conquistado visibilidade para mostrar o lugar de opressão ocupado pelas mulheres em diversas esferas, incluindo ai a Literatura.

Neste contexto, diferentes escritoras se apropriaram de formas literárias marcadas por um discurso depreciativo contra as mulheres e as usaram como uma importante ferramenta para se desconstruir a visão sobre o feminino. 

E, dado o seu histórico contra as mulheres, a Fantasia foi uma das escolhidas.

Exemplos disso são a coletânea de contos O quarto do Barba-Azul (1979), de Angela Carter, em que os contos de fadas são reapresentados por uma perspectiva feminista.

Destaque também para a quadrilogia As Brumas de Avalon (1979), de Marion Zimmer Bradley, em que o universo do Rei Arthur e reimaginado pela ponto de vistas das mulheres.

E as princesas da Disney?

Lentamente, as novas princesas foram surgindo ao mesmo tempo em que um novo perfil de relacionamento entre homem e mulher foi se estabelecendo nas animações:

O equilíbrio entre os gêneros alcançado por meio da transformação do masculino.

Vamos aos casos.

Ariel

A primeira das novas princesas da Disney, Ariel é vagamente inspirada na personagem do conto “A Pequena Sereia” (1837), de Hans Christian Andersen, Pai da Literatura Infantil. 

Alias, as mudanças começam ai.

Na Segunda fase, as animações da Disney tem mais preocupação em explorar os elementos icônicos das personagens do que necessariamente adaptar as histórias originais.

Mas, além de não seguir em linhas gerais o texto original, o que A pequena sereia apresentou que a diferenciasse de fato das princesas clássicas da Primeira fase?

Se em um primeiro momento o roteiro da animação traz um príncipe clássico e uma vilã que se interpõe como obstáculo ao triunfo do amor do casal, um olhar mais apurado revela inovações importantes na representação da princesa, tais como: 

  • A princesa quer conhecer o mundo ao seu redor, e não se satisfaz mais apenas com o seu círculo conhecido;
  • Ela contesta e subverte a autoridade paterna;
  • Ela se mostra ativa no cumprimento de seus objetivos.

Sendo a retomada da Disney ao universo das princesas, o estúdio não se arriscou demais além dos pontos mostrados acima e apostou no padrão em que o príncipe está em uma posição superior a personagem feminina.  

Bela 

Aqui começa a mudança de fato.

Animados com o sucesso de A pequena sereia os estúdios Disney foram buscar outra história em que a personagem feminina pudesse ser representada com comportamento ativo.

Eles encontraram o que queriam no conto “A Bela e a Fera”, de Madame de Beaumont (Jeanne-Marie Leprince de Beaumont), publicada na Le magasin des enfants (1756).  beaumont

Originalmente o conto tinha o propósito de ensinar as mulheres a suportarem o ambiente de violência doméstica a que eram submetidas na França do século 18, enfatizando que apenas o amor contínuo poderia transformar o comportamento do homem.

Já na animação de 1991 o conto ganhou um sub-texto que discute e subverte a construção dos gêneros masculino e feminino pela sociedade.

E é por meio dos personagens da Fera e de Gaston que começa o empoderamento do feminino pela crítica ao masculino.

Gaston e a Fera são, em essência, o mesmo personagem. A aparência física conduz seus comportamentos e ambos tem uma postura machista em relação a Bela. 

Enquanto Gaston não muda, a transformação da Fera em Príncipe, ou seja, sua evolução, só ocorre quando ele abre mão de seu comportamento bestial (“machão”).

A marca desta transformação é a forma andrógina do príncipe, sinalizando que ele se tornou mais feminino, ao enxergar em Bela uma igual.  

A Bela e a Fera é a primeira animação da Disney que investe no equilíbrio entre os gêneros, e não no detrimento de um gênero sobre o outro, como força de valorização da mulher. 

Talvez também por isso tenha sido uma das mais bem sucedidas adaptações de contos de fada já na sua primeira versão nos anos 90. O que se repetiu em sua versão live action em 2017.

Variações de “A Bela e a Fera”

Tiana

A primeira princesa negra da Disney, Tiana, repete em A princesa e o sapo (2009) o mesmo percurso de Bela.

Semelhante a protagonista de A Bela e a Fera, Tiana é pobre, nutre o desejo de encontrar o seu lugar no mundo (no caso aqui, abrir um restaurante) e se vê envolvida por uma criatura que tem sua natureza nobre escondida por trás de um feitiço. 

A inovação aqui é mostrar que não apenas o príncipe arrogante e imaturo, mas também a própria Tiana precisam crescer como indivíduos para, juntos em equilíbrio, alcançarem a transformação de volta a forma humana. 

Jasmine e Rapunzel 

As princesas de Aladdin (1992) e Enrolados (2010), seguem o padrão de A Bela e a Fera com a mudança da inversão de classes sociais entre heroína e herói. 

Tanto Jasmine (sendo filha do sultão) quanto Rapunzel (com seu super cabelo lanterna anti-envelhecimento) possuem poderes que evidenciam sua natureza real e as colocam logo no início da história em posição superior aos seus pares românticos, pobres.

Aladdin

O Aladdin da Disney, em particular, é um “Cinderela” as avessas ao mostrar uma figura órfã em situação de pobreza que deseja se encontrar com a realeza e, por meio de uma intervenção mágica, consegue os meios para tal propósito.

Essa situação permite ao personagem mostrar, por meio do relacionamento com a princesa, que é nobre de coração.

Flynn Rider

Já em Enrolados, ao invés de um príncipe como no conto “Rapunzel”, dos irmãos Grimm  o personagem Flynn Rider é um ladrão egoísta que, a medida em que se relaciona com Rapunzel após resgata-la da torre, desenvolve seu lado heroico e altruísta.  

Em ambos os casos, a abordagem utilizada é mostrar mulheres que já desfrutam de um certo empoderamento e que conseguem se tornar ainda mais empoderadas ao promover a evolução (transformação) de seus pares românticos masculinos, culminando em uma situação de equilíbrio entre os gêneros. 

Princesas lendárias  

As princesas de Pocahontas e Mulan são um caso separado por serem baseadas em personagens reais.

Matoaka, o nome real da princesa indígena, gostava de ser chamada de “Pocahontas”, que na língua nativa significava “impertinente”.

Pocahontas foi a filha do chefe indigena Wahunsenacawh, líder da nação Powhatan na América do século 17 e peça importante nos primeiros momentos da colonização da América por colonos ingleses.

Hua Mulan é uma das personagens mais famosas da China Antiga.

Hua Mulan, por sua vez, teria vivido no século 4 da era cristã e as informações sobre ela vem de uma canção folclórica da Dinastia Wei do Norte (386-557 d.C).  

Os roteiros de ambos os filmes abordam os pontos populares nas vidas das duas figuras que são, no caso de Pocahontas, seu (ficticio) relacionamento amoroso com o explorador inglês John Smith e, no caso de Hua Mulan, sua participação disfarçada como homem no exército chinês contra os invasores do país. 

Pocahontas e Mulan entraram no clube das princesas pelo seus comportamentos nobres diante dos obstáculos de suas vidas.

Nestes dois casos em particular o tamanho histórico das personagens acabou por limitar o aprofundamento do relacionamento delas com seus pares românticos.

Estrutura das histórias

  • Par romântico: Príncipes problemáticos e ladrões;
  • Vilões: Predominantemente homens ambiciosos;
  • Comportamento da princesa: Ativa. Luta para conquistar seus objetivos.
  • Representação masculina: pais e príncipes, são objeto de contestação e desconfiança. 

Terceira fase: “Unidas venceremos (os homens)”

Princesas:

  • Merida (2012);
  • Elsa e Anna (2013);
  • Malévola (2014);

Os anos da década de 2010 são o cenário para o surgimento da Terceira fase das Princesas da Disney.

Até o momento da escrita deste post, este é a fase atual dessas personagens cinematográficas.

Merida

Ela tem início no ano de 2012 na Pixar, estúdio ligado a Disney mas que sempre gozou de certa liberdade com suas criações.

A princesa Merida, de Valente (2012) é a primeira princesa que não é baseada em fontes literárias ou históricas.

Além desse fato, a principal contribuição desta produção foi a introdução de personagens femininas que se ajudam mutuamente na resolução de seus problemas e questões, sem precisar contar com o auxilio direto de homens.

Valente rompeu com a necessidade de um par romântico masculino para a princesa, além de colocar os personagens masculinos como coadjuvantes ou vilões.

No caso da história da princesa Merida, seu pai, o rei Fergus é o alívio cômico da animação, assim como também os pretendentes a mão da jovem herdeira do reino.

O roteiro é focado no relacionamento filha e mãe, expresso por Merida e a Rainha Elinor.

“BRAVE” (L-R) MERIDA and QUEEN ELINOR. ©2012 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Concebida para ser rebelde desde os cabelos, Merida abriu caminho com seu arco e flecha para as princesas Elsa e Anna.

Elsa e Anna

Vagamente inspirado no conto “A rainha da neve” (1844), de Hans Christian Andersen, Frozen (2013) começa a linha das princesas derivadas da releitura de vilãs dos contos de fada, transformado a Ranha da Neve má de Andersen em uma princesa incompreendida pelos seus poderes.

Na mesma linha, a desconstrução do perfil de princesa prossegue com a representação da princesa Anna como uma personagem cômica. quebrando a expectativa que se tem de uma figura vinculada a nobreza. 

Os homens, por sua vez, se tornam vilões, caso de Hans, que usurpa o trono das irmãs Elsa e Anna e coadjuvantes, caso de Kristoff, um homem da montanha que auxilia Anna a alcançar a irmã.

Assim como Valente, Frozen se apoia no relacionamento entre mulheres, subvertendo também o clássico “beijo do amor verdadeiro”, ao mostrar que o amor fraternal de Elsa e Anna é maior que tudo.

Malévola 

Na releitura proposta pelo filme de 2014, descobre-se que Malévola, clássica vilã da animação A Bela Adormecida, também poderia ser uma princesa da Disney, visto sua posição de realeza entre as criaturas sobrenaturais da floresta.

Nesta proposta, mais uma vez, os homens assumem o papel de antagonistas, desta vez personificado pelo pai de Aurora, o Rei Stefan.

Aprofundando o caminho aberto por Valente e Frozen, Malévola apresenta uma representação depreciativa do masculino ao longo de toda a trama, apostando na diferença como promotor do feminino.   

Entre as mulheres, depois do relacionamento entre mãe e filha e entre irmãs, aqui se tem a relação entre Fada-Madrinha e afilhada.  

E esperemos o próximo passo, ou a próxima fase.

Vale a pena a guerra dos sexos?

Voltando a questão original, até que ponto essa abordagem da representação feminina ajuda na construção do dialogo entre os gêneros?

A construção da nova representação das mulheres nos Contos de fada precisa, necessariamente, ser baseada no relacionamento entre membros de apenas um dos gêneros?

Onde estão as obras de contos de fada, literárias e cinematográficas, que apostem em personagens masculinos e femininos em pé de igualdade na busca de problemas e soluções.

Longe de trazer respostas, fica aqui a proposta de debate para que não apenas homens e mulheres, mas também o Fantástico saia ganhando na discussão dos problemas da sociedade de hoje. 

Gostou do texto? 

Então deixe seu comentário, compartilhe o post com seu círculo de príncipes, princesas e vilões e assine o blog.

Fontes utilizadas

BELLEI, Sergio Luiz Prado. Monstros, índios e canibais: ensaios de crítica literária e cultural. Florianópolis: Editora Insular, 2000. 

SANTOS, Fernanda Lázara de Oliveira. Do papel à tela, três histórias de princesas: reconfigurações do feminino entre Literatura e Cinema. 2017. 106 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2017.

TAPIOCA NETO, Renato Drummond. A balada de Hua Mulan – a lenda da guerreira mais famosa da China.  03 de Setembro, 2016. Acesso em 07 de abril de 2017. Disponível em https://rainhastragicas.com/2016/09/03/a-balada-de-hua-mulan/

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

TUDOR Brasil. A verdadeira e trágica história de Pocahontas. 20 de dezembro, 2015. Acesso em 07 de abril de 2017. Disponível em https://tudorbrasil.com/2015/12/20/a-verdadeira-e-tragica-historia-de-pocahontas/

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

 

Qual é o seu super grupo favorito? Dos Argonautas aos Power Rangers

2017 é o ano dos super grupos no Cinema e nas Webséries: Power Rangers, Guardiões da Galáxia, Liga da Justiça, GuardiõesDefensores

Os heróis urbanos Punho de Ferro, Demolidor, Luke Cage e Jessica Jones formam os Defensores.

Os grupos formados por indivíduos com habilidades especiais que se unem voluntaria ou involuntariamente para servirem a um propósito maior existem desde antes da invenção das HQs, principal veículo de criação e propagação deles.

O primeiro grupo de super heróis russos, Os GUARDIÕES, mostra que os russos também querem competir com os americanos no Cinema.

Ilustrando a força do trabalho em equipe ou simplesmente representando a busca das empresas em vender mais com apenas um produto, os super grupos estão entre nós desde a Mitologia grega.

Veja abaixo um breve panorama histórico desse fenômeno que passa pela Literatura e a Cultura de Massa.

Na Mitologia

O primeiro grupo formado de personagens especiais unidos com uma missão, e se pode dizer também que é o primeiro super grupo, está na Mitologia Grega com Jasão e os Argonautas.

Jasão e os Argonautas

A fonte para esta história está na obra Argonautica de Apolônio de Rodes (século 3 a.C.), baseada em textos encontrados na Biblioteca de Alexandria.

OS ARGONAUTAS, pintura de Lorenzo Costa no Museu de Pádua, Itália

Ao reclamar o seu direito ao trono de Lolcos, usurpado por seu tio Pélias, Jasão recebeu do rei a missão de conquistar o Velocino de Ouro, objeto que conferia poder e riqueza a quem o possuísse.  

A intenção do rei Pélias era que seu sobrinho Jasão morresse na empreitada.

Ciente do perigo da tarefa, visto que o Velocino era guardado por um dragão que nunca dormia, Jasão reuniu cinquenta heróis com habilidades únicas com o propósito de ajudá-lo na missão.

Uma vez reunidos, eles embarcaram no navio Argo (daí o nome Argonautas) e partiram rumo ao Mar Negro, onde ficava a região em que o Velocino estava.  

Jasão, a esquerda, segurando Velocino.

Iniciando uma tradição que continua até hoje, os Argonautas eram compostos por heróis com suas próprias aventuras e feitos grandiosos. Dentre os quais, destaque para:  

Atalanta

Única mulher do grupo. Possuidora de grande velocidade e habilidade no arco e flecha;

Castor e Pólux

Ainda que tivessem a mesma mãe, os gêmeos tinham pais diferentes: Pólux era filho de Zeus e, portanto, imortal, Castor era filho do rei Tindaro e se tornou um mestre na arte de domesticar cavalos. 

Herácles

Também conhecido na mitologia romana como Hércules, este filho de Zeus era o homem mais forte de seu tempo e um dos mais populares heróis gregos.

Orfeu

Dono de uma voz sobrenatural, Orfeu conseguia domar os animais e criaturas sobrenaturais com a música que extraia de sua lira. 

Palemon

Hefesto era o deus responsável por criar em sua fornalha as armas e demais utensílios usados por deuses e seus filhos e filhas.

Filho do deus Hefesto, Palemon também era chamado de O Reparador, pois tinha a habilidade de consertar tudo.

Poriclimeno

Poseidon também era chamado de Netuno na mitologia romana.

Filho do deus Poseídon, Poriclimeno era capaz de se metamorfosear em qualquer animal marinho.

Teseu

Também um dos mais populares heróis gregos pela sua coragem extrema, Teseu matou o Minotauro e se tornou rei de Atenas. Em algumas versões ele derrotou as Amazonas e se casou com Hipólita, a rainha dessas mulheres guerreiras.

Após várias aventuras e perigos, os argonautas chegaram na região do Velocino de Ouro e, com a ajuda de Medeia, filha do rei Eetes de Colquida, conseguiram capturar o objeto.

Medeia é uma das personagens mais controversas da Mitologia Grega.

Na Literatura

Em um terreno onde o individuo tem papel central para a estrutura da narrativa, os grupos aparecem na Literatura em obras que, com o tempo, acabaram sendo vinculadas com o romance de aventuras, ou com a Literatura Juvenil.

Este é o caso do romance histórico Os três mosqueteiros (1844), de Alexandre Dumas. 

Os três mosqueteiros

Cena do filme de 1993 dos estúdios Disney.

Ambientado na França do início do século 17, Os três mosqueteiros foi a obra que trouxe fama para Alexandre Dumas.

O romance mostrava as aventuras do jovem D’Artagnan em sua busca para se tornar um Mosqueteiro, ou seja, um membro da corporação militar vinculada a monarquia francesa famosa pelo manejo da espada.

A evolução do uniforme dos Mosqueteiros

Sendo um romance histórico, a obra de Dumas misturava fatos históricos com ficção para criticar a política da monarquia francesa da época, marcada por injustiças e abusos. 

Baseados em personagens históricos, os heróis de Alexandre Dumas eram os seguintes mosqueteiros:

Athos 

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Armand de Sillègue d’Athos d’Autevielle, Athos era descrito como uma figura paterna para d’Artagnan.

Ele também era marcado pelo relacionamento com a espiã chamada por Dumas de Milady de Winter. 

Porthos

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Isaac de Porthau, Porthos era o mais passional do grupo. 

Gostava de roupas elegantes, mulheres e jogos e era a força física do grupo.

Aramis

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro  Henri d’Aramitz, Aramis era apresentado como um elegante jovem dividido entre sua vocação religiosa e o gosto pela vida mundana.

D’Artagnan

Estátua de D’Artagnan no monumento dedicado a Alexandre Dumas em Paris.

Charles Ogier de Batz de Castelmore, Comte d’Artagnan foi Capitão dos Mosqueteiros em 1667 e base para o jovem herói de Alexandre Dumas.

Como todo jovem herói, era audacioso, arrogante e precipitado.

Nas Histórias em Quadrinhos

O universo dos Super Heróis começou na estréia da revista Action Comics em abril de 1938 trazendo a icônica primeira aparição do Superman. 

O sucesso imediato da criação de  Jerry Siegel e Joe Shuster  levou a uma explosão de outros personagens super heroicos mais ou menos duradouros de acordo com a criatividade de seus roteiristas.

Juntá-los em uma revista única não demorou muito…

DC Comics

O sucesso das revistas de super heróis despertou a atenção dos editores Sheldon Mayer e do escritor Gardner Fox, da DC Comics.

O resultado foi o lançamento da revista All-Star Comics #3 (1940), trazendo a Sociedade da Justiça da América como uma estratégia de alavancagem das vendas.

Sociedade da Justiça da América 

O primeiro super grupo das Histórias em Quadrinhos foi lançado pela DC Comics e reunia os super heróis da editora com exceção do Superman e Batman, visto que eles vendiam bem sozinhos.

Ó engraçado é que nesta primeira edição os personagens só ficavam sentados, contado suas aventuras individuais.

Nesta primeira formação, a SJA contava com os seguintes membros:

Átomo (Atom)

Doutor Destino (Doctor Fate)

Espectro (Spectre)

Flash (Flash)

Gavião Negro (Hawkman)

Homem-Hora (Hourman)

Lanterna Verde (Green Lantern)

Sandman (Sandman)

Marvel Comics

Após os anos dourados das décadas de 30 e 40, as histórias em quadrinhos passaram por um período de crise na década seguinte sendo acusada de serem um instrumento de corrupção da juventude.

Esta revista de 1954 foi usada como evidência de que as revistas lidas pelas crianças americanas dos anos de 1950 as estavam incitando ao crime.

Apenas a partir dos anos de 1960 é que os super heróis encontraram novamente o ambiente para retomarem seus vôos.  

Foi neste cenário que em 1960 a edição #28 da revista Brave and the Bold da editora DC Comics trouxe a Liga da Justiça da América.

O sucesso da revista levou o editor da Marvel Martin Goodman a incumbir o jovem Stan Lee de criar um grupo de super heróis para a editora.

O resultado foi o time de heróis que deu início ao Universo Marvel de Super-Heróis: O Quarteto Fantástico.  

Quarteto Fantástico

Bombardeados por raios cósmicos durante uma missão espacial, quatro pessoas adquirem poderes distintos que os levam a formar o grupo batizado de Quarteto Fantástico, composto por:

Senhor Fantástico 

Garota Invisível (depois rebatizada para Mulher Invisível)

Tocha Humana

Coisa    

O sucesso da Sociedade da Justiça, Liga da Justiça e Quarteto Fantástico abriram o caminho para uma infinidade de super grupos nas Histórias em Quadrinhos.

Hoje há de se lamentar que nas HQs a Marvel tenha dissolvido o grupo que a ajudou a crescer simplesmente pelo fato de não possuir os direitos cinematográficos da equipe, hoje pertencentes a FOX.

Na Televisão

Do outro lado do mundo, no Japão, o criador Shotaro Ishinomori e a produtora Toei Company deram início, em 1975, a tradição dos Super Sentai, honrada hoje pelo filme Power Rangers.

Composta pelo ideogramas: 戦 “sen” (guerra) e 隊 “tai” (grupo), essas séries mostram um grupo de cinco indivíduos que recebem super poderes, são identificados por cores diferentes e possuem robôs individuais que, uma vez combinados, criam um robô gigante. 

Himitsu Sentai Gorenger

A primeira série Sentai, e também a mais longa até hoje com 84 episódios, é a Himitsu Sentai Gorenger, traduzida em Português como Esquadrão Secreto Gorenger.

Ainda que Himitsu Sentai Gorenger tenha estabelecido o padrão inicial das séries Sentai, foi a partir da terceira série – Battle Fever J, de 1979 – que o termo Super Sentai passou a ser utilizado com a introdução do robô gigante, que se tornou uma marca representativa e recorrente nas séries futuras.

É hora de morfar! 

No início dos anos da década de 1990 a produtora norte-americana Saban resolveu reutilizar as ideias e conceitos dos Sentais e lançou a série Mighty Morphin Power Rangers, voltada para o público americano.

A enorme receptividade da série de 1993, lançada no Brasil no ano seguinte, permitiu a criação de várias outras temporadas de sucesso.

E o resto é história…  

Gostou? 

Qual é o seu grupo de super heróis favorito? 

E qual formação dos Power Rangers marcou a sua infância?

Deixe seu comentário, compartilhe o post com seus super amigos e amigas e assine o blog.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito. Mitologia grega. Vol. 3. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 1987.

JONES, Gerard. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. São Paulo: Conrad, 2006. 

MUNDO ESTRANHO. Os mosqueteiros realmente existiram na França? Disponível em http://mundoestranho.abril.com.br/historia/os-mosqueteiros-realmente-existiram-na-franca/ . Acesso em 25 março 2017. 

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Weird Fiction, New Weird, Interstitial Writing e Slipstream: Os caminhos da Literatura Fantástica hoje

Você gosta de Literatura Fantástica, não é?

Se você assiste a filmes ou lê obras ligadas a Fantasia, Gótico, Horror, Ficção Científica e Realismo Mágico tenho certeza que já percebeu uma certa mistura de gêneros no Fantástico de hoje.

Veja o caso, por exemplo, na Literatura YA (Young Adults), de obras como A Seleção (2012), da escritora norte-americana Kiera Cass, onde a distopia se encontra com o conto de fadas. 

Big Brother encontra Cinderela.

No entanto, essa subversão dos limites entre as narrativas do insólito não é de hoje.

“Tudo o que é solido se desmancha no ar”

O entre-cruzamento de fronteiras literárias no fantástico se tornou mais evidente a partir do fim do século dezenove e início do início do século vinte como reflexo do impacto das ideias de pesquisadores como Charles Darwin, Albert Einstein, Karl Marx e Sigmund Freud sobre o ser humano da época.

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A frase de Karl Marx resume a situação de um mundo cujas certezas ruíam rapidamente.

Dentro de seus campos de atuação, o trabalho desses pesquisadores, e outros mais, colocou em xeque as crenças e convenções religiosas, sociais e políticas que faziam o ser humano do período a entender o mundo e o seu lugar nele.

Gênero fantástico ou Modo fantástico?

No campo da Literatura Fantástica, a forma mais visível deste cenário de profundas e irreversíveis mudanças foi a acentuação da diferença entre dois tipos de Fantástico: gênero e modo

Não é objetivo central aqui apresentar em detalhes as diferenças entre o Gênero fantástico e o Modo fantástico, isso já foi tema no canal do FANTASTICURSOS no YouTube, mas basicamente tenha em mente que:

Gênero fantástico

Refere-se a um gênero literário nascido em fins do século dezoito como resultado da tensão entre o emergente racionalismo iluminista e as crenças religiosas e sobrenaturais herdadas da Idade Média.

O ponto inicial é o romance O diabo enamorado (Le Diable amoureux / 1772), do escritor francês Jacques Cazotte. 

O jovem Alvare invoca o diabo e este se apaixona pelo jovem espanhol. Ele então assume a forma da bela Biondetta e tenta seduzi-lo.

O gênero fantástico se caracteriza por apresentar uma narrativa marcada pela incerteza do protagonista (e, por tabela, de nós leitores) diante do acontecimento fantástico. 

Biondetta assume sua forma diabólica no momento da consumação do amor com Alvare e o jovem desperta como se estivesse em um pesadelo. Foi tudo real ou mero produto da imaginação do rapaz?

O acontecimento fantástico realmente aconteceu ou foi apenas um sonho? Ou foi o resultado do uso de drogas? Ou ocorreu pelo excesso de sono? Ou por causa do sofrimento pela perda da pessoa amada? 

É nesse terreno da incerteza entre o real e o sobrenatural que o gênero fantástico habita .

A metamorfose

Para alguns críticos, o gênero fantástico sofreu uma crise no fim do século dezenove e início do vinte, em decorrência do cenário de mudanças que mencionei acima.

Afinal de contas, o elemento sobrenatural de origem religiosa ou popular não mais provocava incertezas na mente do individuo imerso no mundo da Revolução Industrial.   

Uma das marcas dessa crise é a novela A metamorfose (1915), de Franz Kafka

Por que Gregor Samsa acordou em uma manhã transformado em inseto? 

Não há nenhuma explicação ao longo de toda a história.

Não há nenhum questionamento por parte do personagem das razões que poderiam ter levado ele a sofrer tal metamorfose. 

No entanto, mais importante que a mudança, o que interessa a Kafka é mostrar as consequências da mudança sofrida pelo jovem vendedor sobre a família de Gregor Samsa.

O gênero fantástico morreu?

Não. Assim como Gregor Samsa ele se metamorfoseou em outra coisa, mas a resposta mesmo fica para outro post.

Modo fantástico

Esse é Fantástico que vem a nossa mente quando pensamos nesta palavra.

O ÉPICO DE GILGAMESH (2.700 a.C.) é a obra escrita mais antiga da humanidade e é marcada por vários elementos fantásticos usados até hoje.

Refere-se, de modo geral, a narrativas no qual o manejo e a combinação de temas e elementos da narrativa (narrador, enredo, espaço, tempo e personagens) revelam a presença e influencia do insólito dentro da história.

“Fantástico”, aqui, deve ser entendido como um grande termo guarda-chuva embaixo do qual estão vários subgêneros e vertentes do romance.

A ODISSEIA (Séc. 8 a.C.), de Homero mostra como o Fantástico está na base da literatura ocidental.

Mitos, Lendas, Fábulas, Contos de fada, Romances Góticos, Horror, Terror, Ficção Científica, Realismo Mágico, Cordel, … Tudo está no reino do Modo Fantástico.

Veja agora abaixo algumas das configurações deste Fantástico pouco faladas no Brasil, mas que, desde o início do século vinte, vem apresentando novos olhares sobre as angustias e ansiedades da sociedade contemporânea.

São elas: Weird Fiction, New Weird, Interstitial Fiction e Slipstream.

Literatura Fantástica hoje 

Weird Fiction 

Ainda que esteja muito associada a América do início do século vinte a Weird Fiction possui raízes nas últimas décadas do século 19 no Reino Unido.

As histórias de fantasmas de M. R. James exploraram o terror de elementos do cotidiano.

Lord Dunsany influenciou Lovecraft com suas narrativas marcadas por lugares e criaturas estranhas.

O criador do termo foi o escritor irlandês Sheridan Le Fanu, escritor de, dentre outras obras, Carmilla (1872), novela que influenciou Bram Stoker na criação de Drácula (1897). 

A Weird Fiction, que em uma tradução aproximada para o Português poderia ser algo como “Ficção do Estranho” ou “Ficção do Bizarro”, se caracteriza por apresentar narrativas sobrenaturais cujo elemento macabro vai além do normalmente utilizado na literatura de Horror.  

Lovecraft e o Horror Cósmico 

O escritor norte-americano H. P. Lovecraft foi o grande promotor da Weird Fiction na América, algo ressaltado ainda mais pela sua associação com a revista Weird Tales. 

Lovecraft trouxe o racionalismo científico da América do começo do século vinte para criar histórias que iam além dos fantasmas, vampiros e casas assombradas do gótico e do horror tradicional.

Esta visão está expressa na sua definição de Weird Fiction, sendo que na tradução da Editora Iluminuras de 2008 o termo “Weird Fiction” foi substituída pelo mais genérico “história fantástica”:  

“A história fantástica genuína tem algo mais que um assassinato secreto, ossos ensanguentados, ou algum vulto coberto com um lençol arrastando correntes, conforme a regra. Uma certa atmosfera inexplicável e empolgante de pavor de forças externas desconhecidas precisa estar presente; e deve haver um indício, expresso com seriedade e dignidade condizentes com o tema, daquela mais terrível concepção do cérebro humano – uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da Natureza que são nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios dos espaços insondáveis”.

Obra representativa deste Weird Fiction lovecraftiano é o conto “O Chamado de Cthulhu” (1926), que introduz a temática do “Horror Cósmico”, exemplo da subversão das fronteiras entre o Horror e a Ficção Científica. 

Após Lovecraft, outros escritores de seu círculo, como Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, August Derleth e Robert Bloch  continuaram a explorar o potencial narrativo do Horror Cósmico e da Weird Fiction

Dica de leitura:

A melhor coletânea para compreender as origens e evolução da Weird Fiction.

A Segunda Grande Guerra mostrou horrores que superavam os temas praticados na Weird Fiction da primeira metade do século vinte.

Gradativamente, a partir dos anos 50, um novo modo de ler o bizarro do mundo começou a ganhar forma no New Weird

New Weird

O New Weird busca unificar os três principais gêneros do fantástico em Língua Inglesa: o Horror, a Fantasia e a Ficção Científica.

As primeiras menções ao New Weird se encontram em meados do século passado.

A trilogia Gormenghast, composta por Titus Groan (1946), Gormenghast (1950) e Titus Alone (1959), do escritor inglês Mervyn Peake é considerada um dos marcos iniciais do New Weird.

A relevância desta obra no cenário da Literatura Fantástica nos anos 50 foi ofuscada por outra trilogia lançada na época: O SENHOR DOS ANÉIS (1954-1955).

Misturando Gótico, Fantasia e Ficção Científica (inclusive antecipando elementos do Cyberpunk), Gormenghast anuncia a obsessão do New Weird com a cidade enquanto espaço da ocorrência do insólito.

Outro nome de destaque do New Weird é o do escritor inglês Clive Barker que, no final do século vinte, lançou a coletânea de contos em seis volumes Os Livros de Sangue (1984-1985).

“O futuro do horror”, assim o escritor Stephen King classificou o trabalho de Clive Barker.

A obra de Clive Barker refletiu a ênfase do New Weird nos aspectos grotescos relacionados a transformação, decadência e mutilação do corpo humano.

Clive Barker e o cenobita Pinhead, um dos vários seres bizarros que habitam as narrativas do escritor.

O inglês China Miéville é uma das principais vozes do New Weird no século vinte e um com romances como Estação Perdido (2000) e A cidade & a cidade (2009). 

Além dele, destaque para Hal Duncan, K. J. Bishop e Michael Moorcock.

Dica de leitura:

A coletânea de 2008 traz contos e ensaios sobre esta expressão do fantástico contemporâneo

Interstitial Writing

A proposta da Interstitial Writing encontra paralelo nos Estudos Culturais do crítico Homi Bhaba sobre a liminaridade, expressas em O local da cultura (1998):

“É na emergência dos interstícios – a sobreposição e o deslocamento de domínios da diferença – que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação [nationness] [grifo do autor], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados”

Ellen Kushner, Delia Sherman, Theodora Goss, Heinz Insu Fenkl e Terri Windling são os nomes por trás do início da Interstitial Writing.

“Melancholia with Demons”
Oil on Copper, 9” x 12”

Em 2002 eles fundaram a ISIS: the Interstitial Studies Institute com o propósito de discutir formas de arte – não apenas literária, mas também visual, musical e de performance – que buscam romper limites tradicionais.

Na Literatura, a Interstitial Writing exemplifica a busca do Pós-Modernismo em debater e subverter as fronteiras entre as expressões da criatividade humana.  

Os contos de O quarto do Barba Azul (1979), de Angela Carter podem ser lidos como exemplos de Interstitial Writing.

Dica de leitura:

INTERFICTIONS (2007) é recomendado como porta de entrada para a escrita intersticial por meio dos contos e da discussão apresentada.

Slipstream

Nascido nos domínios da Ficção Científica, o Slipstream é um termo cunhado pelo escritor norte-americano Bruce Sterling em um ensaio de 1989 publicado no fanzine SF Eye,

Bruce Sterling é também um dos criadores do Cyberpunk com coletânea de contos MIRROWSAHES (1986).

No texto, Bruce Sterling manifestava sua percepção de que algumas obras de fins do século vinte estavam subvertendo as convenções da Ficção Científica, ao trazer elementos da Fantasia e do Horror e cunhou o termo Slipstream, sinalizando que estas narrativas escorregavam (Slip – Escorregar) entre as vertentes do fantástico.

Para ele, a ficção Slipstream é, 

“um tipo de ficção que simplesmente faz você se sentir muito estranho; do jeito que viver no século 20 faz você se sentir, se for uma pessoa de certa sensibilidade”.

O Slipstream faz uso de estratégias literárias pós-modernas tais como a Alegoria, a Metaficção e o Pastiche na sua tentativa de ampliar as possibilidades da Ficção Científica em refletir sobre o mundo de hoje.

O romance O Conto da Aia (1985), da canadense Margaret Atwood, que mescla a estrutura da Distopia com elementos de contos de fada, pode ser entendido como um exemplo de ficção Slipstream.

Ted Chiang (autor do conto que deu origem ao filme A Chegada), Bruce Sterling, Michael Chabon, George Saunders são nomes representativos do Slipstream.

Dica de leitura:

FEELING VERY STRANGE: THE SLIPSTREAM ANTHOLOGY (2006), traz uma variedade de contos que constroem um panorama do que os editores James Patrick Kelly e John Kessel chamaram de modalidade difusa.

Algumas questões:

Uma rápida leitura das expressões do fantástico aqui apresentadas pode deixar a duvida se, de fato, há diferenças substanciais entre elas.

Ao pensar nas particularidades do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream, o escritor e editor Jeff Vandermeer aponta que, diferente das duas últimas, o New Weird não se preocupa em utilizar estratégias literárias pós-modernas que subvertem a realidade do texto ficcional ou chamam a atenção para a sua artificialidade;

Mas, quais seriam os pontos de distinção entre o Slipstream e o Interstitial Writing?

Existiriam na Literatura Brasileira da virada do século dezenove para o vinte e no meio literário nacional de hoje, representantes respectivamente do Weird Fiction, do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream?

Fica o convite para os pesquisadores do Fantástico.

Gostou do post?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos fantásticos e normais.

Até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BESSIÈRE, Irène (2009). “O relato fantástico: forma mista do caso e da adivinha”. (Biagio D’Angelo, Trad.). In Revista Fronteiraz, (vol. 3, nº 3, Setembro). São Paulo: USP, pp. 185 – 202.

CESERANI, Remo (2006). O fantástico. Trad. Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR.

JOSHI, Sunand Tryambak (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, Sunand Tryambak (Eds.). (2001). The Modern Weird Tale. North Carolina: McFarland & Company.

KELLY, James Patrick; KESSEL, John. (Eds.) (2006). Feeling Very Strange: The Slipstream Anthology. Tachyon Publications. San Francisco. 2006

LOVECRAFT, Howard Phillips (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

SHERMAN, Delia; GOSS, Theodora (Eds) (2007). Interfictions: An Anthology of Interestitial Writing. Boston: Interstitial Arts Foundation.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

STERLING, Bruce. “Slipstream”. Disponível em: < https://w2.eff.org/Misc/Publications/Bruce_Sterling/Catscan_columns/catscan.05 > Acesso em: 08 mar. 2017.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2008). The New Weird. San Francisco: Tachyon Publication.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The Weird: A Compendium of Strange and Dark Stories. New York: Tor Book.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Será que você é um canibal? O canibalismo no fantástico (Parte 2)

Na primeira parte do post sobre a relação entre o Canibalismo e o Fantástico, que você pode acessar clicando aqui, apresentei um breve panorama de como a prática de comer carne humana acompanha a história da humanidade antes mesmo dela surgir na mitologia grega passando pela Idade Média e chegando aos contos de fadas que conhecemos.

Cronos versus Zeus: Canibalismo mitológico.

Neste segunda parte do post, você vai ver como o canibalismo se tornou uma linha divisória entre o civilizado e o bárbaro, entre o humano e o monstruoso.

A comédia zumbi SANTA CLARITA DIET permite refletir sobre rotina e acomodação na sociedade moderna.

Vai ver também como ele se tornou um simbolo das ansiedades do ser humano no mundo de hoje, algo visto na série da Netflix Santa Clarita Diet e no filme Grave (Raw, no original em inglês).

A relação do individuo com o corpo nos tempos modernos aparece refletido no filme

Se você quer ler logo sobre como o fantástico interpreta o mundo por meio do canibalismo, antes de conhecer a história da prática de se comer carne humana, clique aqui

O Canibal é americano

Polifemo era filho de Poseidon com uma ninfa da água

Quando os europeus se lançaram ao mar no século 15 e 16 eles levaram em seus navios todo o imaginário herdado dos relatos da Antiguidade sobre criaturas monstruosas e canibais, como o do ciclope Polifemo, que devorou os homens de Ulisses na obra A Odisséia.   

O monstro nos confins do mundo

A Literatura de Viagens da época, seguindo essa crença, era repleta de relatos de criaturas antropofágicas que viviam em regiões da Etiópia e da Índia, como os Cinocéfalos, homens com cabeça de cães.

Os cinocéfalos se alimentavam dos viajantes incautos

A chegada dos europeus as Américas trouxe a revelação de que alguns dos povos indígenas do continente consumiam carne humana em rituais religiosos.

Representação do canibalismo da tribo brasileira dos Tupinambá em 1557, conforme descrição de Hans Staden.

Esse ritual visava adquirir a coragem dos guerreiros inimigos capturados ou como parte de oferenda para os deuses.

Canibal ou Antropófago? 

Foi neste contexto que, ao observarem os índios antropófagos das ilhas do Caribe, os exploradores criaram a palavra “Canibal”

A prática do canibalismo foi um dos motivos alegados pelos europeus para a escravidão indígena, com o pretexto de que eles não eram humanos.

Mas, qual é a diferença entre Canibalismo e Antropofagismo? 

Todo antropófago é canibal, mas nem todo canibal é antropófago.

Explico.

O Canibalismo ocorre quando um individuo de uma espécie come outro representante da mesma espécie. Não é exclusivo do universo humano.

No caso do Louva-a-deus o canibalismo é cometido pela fêmea, que devora o macho depois do ato sexual.

Já a Antropofagia (do grego anthropos, “homem” e phagein, “comer”) ocorre especificamente quando um individuo humano come a carne de outro ser humano.

Canibais brancos e cristãos

Ainda que após o contato entre europeus e os povos indígenas, estes últimos tenham sido associados a antropofagia, os colonos brancos (e cristãos) também não ficaram de fora.

Durante o ano de 1609 na cidade de Jamestown, uma das primeiras experiências colonizadoras na América, os colonos ingleses precisaram recorrer ao canibalismo como forma de sobreviverem ao rigoroso inverno que se abateu sobre o assentamento. 

O canibal é o outro

Sendo um dos principais tabus da humanidade, o canibalismo sempre é associado a alguém pertencente a alguém de outro grupo. Nunca a nós.

O Kindilfresser é um comedor de crianças da Suíça cujas origens podem estar relacionadas ao preconceito contra os judeus.

Judeus, muçulmanos, índios, negros… todos os que não pertenciam ao padrão branco, cristão e europeu eram enxergados como canibais em potencial.

O Papa figo é um negro leproso que coloca as crianças no saco para depois comer o figado delas.

No folclore do Brasil, esse preconceito está expresso em criaturas canibais ligadas ao medo infantil, tais como o Papa figo e o Quibungo.

O Quibungo é negro e tem uma bocarra nas costas por onde ele enfia as crianças que pega.

Para saber mais sobre essas e outra criaturas, leia o post aqui do blog “Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?”

O canibalismo no Cinema

Depois de passar pela Mitologia e pela História, o canibal encontrou no Cinema o espaço ideal para mostrar seu apetite.  

Os pais dos canibais cinematográficos

Dois filmes da década de 1960 foram os responsáveis por promover uma verdadeira invasão de comedores de carne humana no Cinema dos anos setenta.

Para assistir ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

  1. Mondo Cane (1962)

Produção italiana que inaugurou o gênero Shockumentary, este filme traz vários costumes e práticas de povos e comunidades ao redor do mundo, dentre os quais, o canibalismo.

2. A noite dos mortos-vivos (1968) 

Filme que reinventou o personagem folclórico do zumbi no cinema e introduziu o tema do canibalismo no fantástico. O primeiro zumbi canibal está aqui

Se quiser saber mais sobre zumbi, veja o vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 curiosidades monstruosas: Zumbi”.

Os anos de fartura para o canibal

Os anos setenta foram os anos dourados do canibalismo no Cinema dado o grande número de produções na Itália e nos Estados Unidos com esta temática.

Estes filmes podem ser encontrados no YouTube e para assistir abaixo ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

Cito abaixo as produções mais relevantes para a Ficção Científica e o Horror:

  1. No mundo de 2020 (Soylent Green / 1973) 

Se A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells é o primeiro romance de ficção cientifica a tratar do canibalismo, No mundo de 2020 é a primeira distopia a tratar do tema no Cinema. 

Vivendo em um mundo onde a ração Soylent Green é distribuída a população faminta, o policial vivido por Charlton Heston inicia uma investigação sobre a morte de um executivo que o leva a descobrir do que a ração é feita.

2. O massacre da serra elétrica (The Texas Chain Saw Massacre / 1974)

Clássico do Horror, o filme de Tobe Hooper ganhou uma refilmagem em 2013 para celebrar os 40 anos do original. 

O filme introduziu o canibal Leatherface, considerado um dos maiores vilões de todos os tempos e que antecipou outros assassinos de adolescentes nos anos seguintes em filmes como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

3. A montanha dos canibais (La montagna del dio cannibale / 1978)

Trazendo a bela Ursula Andress como protagonista, este filme se insere nas produções do ciclo canibal italiano iniciada em 1972 com The Man from the Deep River e apela para a temática da Literatura de Raças Perdidas como pretexto para cenas de nudez, violência extrema e até zoofilia, por conta da cena de um canibal transando com uma porca!

O canibal no espelho

As últimas décadas do século vinte e o início do século vinte e um forneceram o contexto para uma renovação do canibalismo no Cinema ao subverter a fronteira entre o civilizado e o selvagem, entre o Eu e o Outro. 

A modernidade faz do ser humano um canibal.

Este é o caso dos filmes abaixo. Para assistir aos trailers, basta clicar nas imagens.

1. Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust / 1980)

Ao contrário do que se pode pensar, Bruxa de Blair (1999) não foi o primeiro filme de horror do gênero Found footage e Mockumentary, isto é, produção que simula a descoberta de material de filmagem de um equipe cinematográfica desaparecida durante a realização de pretenso documentário.

Na frente das câmeras, documentaristas idealistas, por trás das câmeras, sádicos urbanos

Este mérito cabe a Holocausto canibal, conhecido como “O filme mais polêmico e controvertido de todos os tempos”.  

Banido de vários países, esta produção italiana levou o diretor Ruggero Deodato aos tribunais por ser acusado de realizar um Snuff Movie, ou seja, um filme em que um assassinato real é realizado para fins lucrativos e de entretenimento.

Na ocasião ele teve de provar que todos os atores estavam vivos e bem.

No filme, a equipe de filmagem agride os indígenas de todas as formas.

O maior impacto de Holocausto canibal foi deslocar a barbárie dos índios canibais para os jovens cineastas, que praticaram todo o tipo de crueldade com os indígenas em busca de um documentário impactante.

A cena da câmera que fica gravando depois da morte do último personagem, foi inventada neste filme.

O resultado foi a vingança dos nativos contra uma nova espécie de monstro: o homem civilizado.

2. O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs / 1991)

Adaptação do segundo romance de 1988 de Thomas Harris, este filme ganhador de vários óscares apresenta no cinema o psiquiatra Hannibal Lecter.

Vencedor de vários prêmios, o filme rendeu o Oscar de Melhor Ator para Sir Anthony Hopkins.

Culto, cortês e elegante, mas também sádico, manipulador e… canibal, Hannibal Lecter é a incorporação do ambiente de fim de século, mostrando que por trás da capa superficial de civilidade do ser urbano existe um monstro pronto a emergir.     

3. Psicopata americano (American phycho / 2000)

Baseado no romance de 1991 de Bret Easton Ellis e adaptado para o cinema em 2000, a obra é ambientada nos anos oitenta e traz como protagonista um Yuppie extremamente competitivo e narcisista.

O filme traz o sempre excelente Christian Bale como o psicopata Patrick Bateman.

Assim como o livro, o filme foi cercado de polêmicas sobre os limites entre a arte e a violência gratuita.

Crítica feroz ao Capitalismo selvagem, Psicopata americano perturba por criticar uma geração que quanto mais tinha menos sentia, quanto mais subia na carreira profissional mais descia na civilidade a ponto de, em uma escalada de violência, se tornar canibal.

4. A estrada (The Road / 2009)

Nesta distopia baseada no romance de 2007 do escritor Cormac McCarthy e premiado com o Pulitzer, pai e filho precisam atravessar uma América pós-Apocalíptica rumo a um local seguro enquanto enfrentam, entre outros perigos, pessoas que aderiram a prática do canibalismo.

Os recentes casos de barbárie e vandalismo presenciados no início de 2017 tanto nos presídios brasileiros por conta da luta entre facções quanto no estado do Espírito Santo em virtude da greve da polícia não deixam duvidas sobre o canibalismo ser uma realidade a se temer quando da decadência da sociedade.  

5. Grave (Raw / 2017)

Justine é uma jovem vegetariana que acaba de ingressar na faculdade de Veterinária seguindo, assim, os passos da família.  

O problema é que, após sofrer um trote no qual precisa comer carne, a menina começa a manifestar impulsos canibais. 

Bullying, distúrbios alimentares, culto ao corpo, relacionamento amoroso nos tempos atuais, tudo passa pela temática do canibalismo neste que promete ser um dos filmes mais polêmicos do ano de 2017.

6. Santa Clarita Diet (2017)

Esta série cômica da Netflix prova que o zumbi ainda pode render boas histórias quando os roteiros ajudam a contar uma boa história.

A série não foca nos motivos que levaram a corretora de imoveis Sheila a ser tornar uma morta-viva, preferindo mostrar as consequências dessa transformação sobre sua família.

Os episódios centram na gradual adaptação da família ao nova condição da mãe e esposa, ao mesmo tempo em que mostra a personagem se sentindo mais viva do que nunca depois que morreu e passou a comer pessoas.

Vale assistir. 

Gostou? Então lembre que o vídeo desta semana do FANTASTICURSOS no YouTube também é sobre Canibalismo. 

Basta clicar aqui.

Então deixe seu comentário ai embaixo e compartilhe este post com seus amigos carnívoros, vegetarianos, veganos e canibais.

Até a próxima semana.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

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Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

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Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

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O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

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Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

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