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Como nasceu a Literatura de Fantasia moderna de O HOBBIT?

Nesta semana, para ser mais preciso no dia 21 de setembro, comemorou-se 80 anos que um hobbit saiu de sua toca para mudar a Terra-Média com suas aventuras e, neste percurso, chamar a atenção para a Literatura de Fantasia moderna.

Mas o que é Fantasia moderna?

Heróis mirins da Fantasia

A publicação em 1937 do livro O Hobbit foi mais um sinal da mudança em curso na Fantasia que estava ocorrendo desde os últimos anos do século 19.

Publicado pela editora George Allen & Unwin Ltd., a tiragem inicial de 1500 exemplares se esgotou em dezembro do mesmo ano de 1937.

Como escrevei aqui no blog no post “Século 19: A Era de Ouro da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica”, as últimas décadas do século 19 e as primeiras do século 20 foi o cenário de uma diversificação de gêneros ligados a Literatura Fantástica não apenas na Europa, mas também nos Estados Unidos e mesmo no Brasil. 

O resultado deste fato foi, no terreno da Literatura Infantil, o surgimento do Romance para crianças, comumente marcado por protagonistas crianças que saem de seu mundo ordinário para vivenciarem aventuras em outros mundos marcados pelo exotismo ou pela magia.

Como exemplos dessa vertente literária, temos no Reino Unido, Alice no País das Maravilhas (1865), A ilha do tesouro (1883) e Peter Pan e Wendy (1911); na Itália, Pinóquio (1883); na América, O maravilhoso mágico de Oz (1900) e no Brasil, A menina do narizinho arrebitado (1922).

Quando as fadas foram despejadas

O mesmo momento histórico-cultural que fomentou a ascensão do Romance para Crianças e do Conto Infantil moderno (este último foi abordado no vídeo do Canal Fantasticursos no Youtube que você pode ver clicando aqui) também provocou o surgimento da Fantasia Moderna

“A pequena vendedora de fósforos” (1845), de Hans Christian Andersen reflete a mudança da Literatura Infantil no fim do século 19.

Afinal de contas, em um contexto em que as grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos estavam sendo alteradas pela industrialização não havia mais lugar para a fadas habitarem. 

Solução? Mudar de mundo.

Histórias do outro mundo

A mudança do espaço da trama é uma das características mais representativas das narrativas que deram forma a Fantasia Moderna.

A Terra-Média, de Tolkien

Essa é a opinião do crítico Robert Scholes, que no livro Intersections: Fantasy and Science Fiction (1987) afirma, ao falar das obras do gênero do escritor George MacDonald, que “o mundo inventado, com leis de outros tipos” é a chave para a Fantasia Moderna.

Assim, a marca da Literatura de Fantasia hoje, na qual O Hobbit se insere, é, dentre outros elementos, a apresentação de um mundo imaginário coerente internamente a ponto dos eventos ali apresentados se tornarem possíveis.    

Nárnia, de C. S. Lewis

Desta forma, diferente, por exemplo, dos contos de fadas cujas histórias se passam na Europa dos mesmos camponeses que contavam essas histórias, a Fantasia moderna leva o leitor para outras regiões do imaginário.

Os desbravadores do Maravilhoso

O escocês George MacDonald e o inglês William Morris são os precursores da Fantasia Moderna com suas obras escritas durante a Inglaterra Vitoriana (1837-1901).

George MacDonald

George MacDonald

Antes da Terra-Média no qual Tolkien ambientava suas histórias havia a Terra das Fadas de George MacDonald.

Esse mundo surge no romance de estreia Phantastes (1858), em que somos apresentados ao jovem Anodos, que em seu aniversário de vinte e um anos é transportado em sonho para outro mundo e quando acorda vê seu quarto transformado em uma floresta onde ele vive sua aventuras.

Nos livros seguintes, como At the Back of the North Wind (1871), The Princess and the Goblin (1872) e Lilith (1895), George MacDonald desenvolveu ideias e temas que seriam incorporados a tradição da Fantasia desenvolvida no século vinte.

William Morris

William Morris

Coube ao escritor William Morris apontar os caminhos da Fantasia moderna em obras repletas de buscas e aventuras criadas pela imaginação do autor.

Essa carreira teve início em seu primeiro romance do gênero – The Wood Beyond the World, publicado em 1894, em que o herói Golden Walter, após se pego em uma tempestade em alto mar acaba aportando em uma região no qual encontra o castelo de uma feiticeira.

Refletindo a tradição dos romances de cavalaria, a obra foca no percurso de Golden Walter junto com uma jovem encontrada cativa no castelo pela terra mágica ocupada por mini-gigantes e outras criaturas. 

Influencias diretas sobre J. R. R. Tolkien (O Hobbit, O Senhor dos Anéis) e C. S. Lewis (As crônicas de Nárnia), George MacDonald e William Morris foram os primeiros bardos modernos que desbravaram os reinos mágicos que depois seriam plenamente explorados por Bilbo Bolseiro, Gandalf e os anões de O Hobbit

E se você quer conhecer o percurso da Fantasia, desde suas raízes mitológicas, assista a série O QUE É FANTASIA no canal do Fantasticursos no Youtube.

Veja o panorama da série clicando aqui.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. Trad.Carlos Moisés e Ana Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

CARTER, Lin. “Beyond the Gates of Dream”. In: MacDONALD, George. Phantastes. New York, Ballantine, 1970.

CAUSO, Roberto de Souza. (2003). Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo: Ática, 1997.

CLUTE, John, GRANT, John (Eds.). The Encyclopedia of Fantasy. New York: St. Martin ‘s Griffin, 1999.

JAMES, Edward, MENDLESON, Farah (Eds). Fantasy Literature. Cambridge University Press, 2012, p. 200-213. (The Cambridge Companion to).

OLSEN, Corey. Explorando o universo do Hobbit. Trad. Carlos Szlak. São Paulo: Lafonte, 2012.

RUDDICK, Nicholas. The fantastic fiction of the fin de siècle. In: MARSHALL, Gail. (Ed.). The fin de siècle. Cambridge University Press, 2007, p. 189-206. (The Cambridge Companion to).

SLUSSER, George E., RABKIN, Eric S. Intersections: Fantasy and Science Fiction. Riverside, Ca: SIU Press, 1987. 

Por que o número 3 aparece tanto em Contos de Fadas?

Pois é, o número três, mais do que qualquer outro numeral, aparece com recorrência nos Contos de Fadas e na Fantasia como um todo.

Na tradição inglesa, três porquinhos tentam escapar da fome do lobo.

Na tradição francesa, são três perguntas que Chapeuzinho Vermelho faz ao lobo antes de ser devorada por ele.

Na tradição alemã, por três vezes a madrasta-bruxa tenta matar Branca de Neve.

Na tradição árabe, o gênio concede três desejos a Aladin.

E isso só para citar quatro casos, dentre centenas, que mostram a força dos números no mundo dos contos de fadas.

A mística dos números

Desde tempos ancestrais, que se perdem na memória do tempo, os números são considerados expressões da ordem cósmica. 

Para a pesquisadora Miranda Bruce-Mitford, essa tradição pode ter se iniciado na observações babilônicas dos eventos astronômicos regulares, como a noite e o dia, as fases da lua e os ciclos das estações do ano.

Já Jean Chevalier e Alain Gheerbrant destacam que a interpretação dos números é uma das mais antigas entre as ciências simbólicas.

Platão, por exemplo, considerava o estudo dos números o mais alto grau de conhecimento e a essência da harmonia cósmica e interior.

Já na China a importância dos números se faz notar desde o I-Ching

Mas, dentre tantos números, por que o três é tão simbólico especificamente para a Fantasia?

A trindade mitológica e religiosa

O primeiro lugar para se investigar a importância do três na vertente da literatura fantástica chamada Fantasia se encontra nas mitologias e religiões.

Afinal de contas, é na busca do divino criado a partir da tentativa de compreender os fenômenos da Natureza, que se encontra as bases para as narrativas que fomentaram os contos orais folclóricos e, posteriormente, os contos de fadas.

Alias, se você quer entender mais sobre Como, Quando e Onde surgiu o Conto de Fada, assista ao episódio da série O QUE É FANTASIA sobre o tema no canal do FANTASTICURSOS no Youtube, clicando aqui

Na Mitologia Clássica

Dentro da Mitologia greco-latina, o três aparece na estrutura de poder dos deuses clássicos que regem o universo: Zeus/Júpiter domina o céu e a terra; Poseidon/Netuno controla os oceanos e Hades/Plutão vive nos reinos inferiores.

 

Essa divisão aponta para um equilíbrio do universo alcançado pela partilha de poder regulada pelo três.

No Hinduísmo

Na Índia, a manifestação divina é tripla (Trimurti): Brama, Vixenu e Shiva, trazendo os aspectos da produção, da conservação e da transformação da realidade.

No Budismo

Ainda no Oriente, o Budismo tem a sua expressão perfeita na Jóia Tripla (Triratma) personificada em Buda, Dharma e Sanga que compõem o Tao.

No Cristianismo

A base teológica do Cristianismo é formada pela tríade da unidade divina, na ideia de que, como destaca Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Deus é uma em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Os Reis Magos são três e simbolizam as três funções do Rei no mundo, expressadas na figura de Cristo: Rei, Sacerdote e Profeta.

Na tradição judaica da Cabala o três tem função primordial por revelar, por trás do ato da criação:

  1. O elemento ativo, correspondente ao espírito;
  2. O elemento intermediário, correspondente a alma;
  3. O elemento passivo, correspondente ao corpo.  

A trindade da Natureza

De fato, o que as mitologias e religiões expressam por meio do número três é o padrão da Natureza que se dissemina e se reproduz em outras esferas da existência da humanidade.

A vida  humana é tripartida na sua estrutura, pois divide-se em vida material, racional e espiritual e esse padrão servia de espelho para a composição social do passado, como durante o Feudalismo.

Da mesma forma, os seres vivos obedecem a um padrão regulado pelo três: nascimento, crescimento e morte.

O feminino

Falando de padrões da Natureza, fala-se da figura da mulher e sua ligação com o número três. 

Como tive oportunidade de explicar no vídeo no episódio da série O QUE É FANTASIA sobre a diferença entre a Mitologia Grega e a Mitologia Nórdica, que você pode ver clicando aqui, essa incorporação da Natureza pela mulher é representada nas figuras das Moiras (Mitologia Grega) e da Nornas (Mitologia Nórdica).

Essa trindade feminina, que também assume a forma da Virgem, a Mulher e a Anciã, é o espelho da Natureza nos aspectos do Nascer – Amadurecer – Morrer e da Manhã – Tarde – Noite. 

Era uma vez um número…

Com base no que foi exposto acima, enquanto versões populares e simplificadas do mitológico, os Contos de Fada, se amparam no simbolismo do número três em diferentes formas, dentre as quais destaco:

  1. Personagem e;
  2. Enredo.

No caso do Personagem, além dos já citados Três Porquinhos também temos três personagens nos seguintes contos:

  • “As três princesas” (1634), do italiano Giambattista Basile; 
  • “Os três aprendizes” (1812), dos alemães Irmãos Grimm;
  • “Cachinhos Dourados e os três ursos” (1837), do inglês Robert Southey;
  • “A história dos três mendigos maravilhosos” (1855), do russo Alexander Nikolayevich Afanasyev.  

Ainda dentro do personagem, destaque para o fato que é sempre o terceiro filho ou filha, caçula, o herói da história.

Já falando do Enredo, o que se observa é que os contos de fadas usam o número três para construir a jornada do personagem ao longo da narrativa.

Essa caminhada se traduz em três tarefas, missões ou testes que o personagem precisa passar para conseguir o objetivo almejado no início do conto.

Essas ações tem o propósito de mostrar o valor e merecimento do personagem do conto de fada.

Em quais outros contos você observa a presença do número três?

E como a tradição da Fantasia contemporânea, de J. R. R. Tolkien, J. K. Rowling e Rick Riordan, dentre outros, faz uso desse simbolismo na sua opinião? 

Deixa ai nos comentários.

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

BRUCE-MITFORD, Miranda. O livro ilustrado dos signos e símbolos. São Paulo: Livros e livros, 1996.

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997,

TATAR, Maria. Contos de fada. Edição comentada e ilustrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

Você conhece seu corpo? 5 contos fantásticos sobre partes do corpo.

O século 19 e início do século 20 foram o ápice do fascínio do público e da Medicina com as aberrações do corpo.

A história do Homem Elefante já virou filme e peça de teatro.

Na Inglaterra Vitoriana, por exemplo, Joseph Merrick despertou o interesse do público e da comunidade científica da época com sua gradual deformação física, que o levou a ser conhecido como o Homem Elefante. 

Da Esq. para a Dir.: Annie Jones (“A Mulher Barbada”), Jack Earle (“O Homem mais alto do mundo”) e Myrtle Corbin (“A garota de quatro pernas do Texas”)

Já nos Estados Unidos, espetáculos freaks itinerantes tais como o do circo Ringling Bros.’ corriam o país mostrando corpos que subvertiam as convenções do normal.

Corpo Fantástico (e rebelde)

Na Literatura Fantástica, em suas diferentes vertentes, o corpo humano sempre forneceu histórias sobre partes do corpo que assumem comportamentos insólitos. 

Na Fantasia, apenas para citar um caso dentre tantos, quem não lembra do nariz de Pinóquio? Membro acusador da transgressão da honestidade do boneco de madeira.

No Gótico, o monstro de Frankenstein, composto de membros de cadáveres, denunciava a transgressão da Ciência sobre os mistérios da vida.

Na Ficção Científica, “O estranho caso dos olhos de Davidson”, de H. G. Wells, mostra como após um acidente, os olhos de um homem passam a enxergar não o mundo a sua frente, mas a realidade do outro lado do planeta.

Veja abaixo algumas outras obras em que partes do corpo ocupam papel central na construção do fantástico na Literatura.

1. Mão

Obra: “A mão encantada”

Ano de publicação: 1832

Autor: Gérard de Nerval (1808-1854)

Sinopse: Para conseguir vencer um duelo contra um militar, um comerciante de tecidos recorre a feitiçaria cigana e fica com a mão encantada. Após vencer o duelo ele não consegue controlar a mão e esta acaba agredindo o magistrado que julgaria seu caso. Após ser enforcado, a mão do morto permanece ativa, o que leva o carrasco a cortar a mão do cadáver. Após se libertar do corpo do enforcado, a mão abre caminho entre a multidão estarrecida e alcança o cigano que lhe deu vida.

Curiosidade: Conto marcado pelo simbolismo moral da agressividade que o ser humano carrega dentro de sua natureza. 

2. Nariz

Obra: “O nariz”

Ano de publicação: 1835

Autor: Nicolai Vassilievitch Gogol (1809-1852)

Sinopse: Sentado a mesa para o café da manhã junto com sua esposa o barbeiro Ivan Iákovlevitch descobre dentro de um pão o nariz de seu cliente, o major Kovaliov. Após vários incidentes tentando se livrar do nariz o barbeiro acaba jogando o mesmo em um rio. Ao mesmo tempo o militar procura incessantemente seu nariz, pensando nas consequências de sua imagem sem esta parte do corpo. Após várias ações, o major Kovaliov desperta e percebe que seu nariz está de volta em seu rosto.  

Curiosidade: Sátira feroz de Gogol a burocracia russa. Conto pertencente a fase surrealista do escritor. 

3. Pé 

Obra: “O pé da múmia”

Ano de publicação: 1840

Autor: Théophile Gautier

Sinopse: Homem compra em antiquário um pé de múmia supostamente pertencente a uma princesa egípcia para ser usado como peso de papel. Ao dormir, ele recebe a visita da princesa Heronthis, que explica ao jovem que seu pé foi roubado e o quer de volta. O homem então pede a princesa uma estatueta em troca pelo pé. Heronthis transporta o narrador até o Egito Antigo onde o rapaz pede a mão da princesa em casamento, pedido este que é negado pelo Faraó, pai de Heronthis. Ao ser despertado por um amigo, o jovem percebe que o pé da múmia desapareceu e em seu lugar há uma pequena estátua. 

Curiosidade: Conto que se apoia na recorrente estratégia do conto fantástico do século 19 do sonho como espaço do acontecimento insólito. Reflete também o fascínio da época na França com a cultura egípcia.

4. Dedo

Obra: “O dedo do meio do pé direito”

Ano de publicação: 1890

Autor: Ambrose Bierce

Sinopse: Dez anos após matar os dois filhos e a esposa, e ainda ter decepado o dedo do meio do pé direito da mulher, um homem chamado Manton retorna a sua região com nova aparência. Ele acaba sendo desafiado para um duelo de faca a ser realizado em sua antiga residência, local onde ele cometeu o crime e que tem agora a fama de ser mal assombrado. Na hora do duelo Manton é encontrado morto com o rosto retorcido de medo. A investigação do lugar revela pegadas de alguém que não possuía o dedo do meio do pé direito.

Curiosidade: Considerada umas das melhores histórias sobrenaturais de Ambrose Bierce com o tema da vingança do além.

5. Orelha

Obra: “O inexplicável caso da orelha de Lolô”

Ano de publicação: 1944

Autor: Bernardo Élis

Sinopse: Homem rejeitado pela prima e trocado por empregado negro corta a orelha deste e prende a mulher no porão da casa para lá ela falecer. Anos mais tarde, ao visitar o local com um amigo de juventude os dois testemunham a orelha decepada ganhar vida e patas e sair da caixa onde estava guardada para levar o assassino a morte pelo pavor. 

Curiosidade: Conto escrito pelo brasileiro Bernardo Élis no livro Ermos e Gerais com a intenção de homenagear o escritor norte-americano Edgar Allan Poe em “A queda da Casa de Usher”. 

Listei aqui apenas 5 contos, dentre tantos outros exemplos, desta longa tradição de partes do corpo humano que rendem histórias fantásticas na Fantasia, no Gótico e na Ficção Científica na Literatura de todo o mundo.

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Fontes utilizadas

CALVINO, Ítalo (Org.). Contos fantástico do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ÉLIS, Bernardo. Ermos e gerais. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

GONÇALO JUNIOR. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998.

PAES, José Paulo (Org.) Os buracos da máscara: Antologia de contos fantásticos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, Inc., 2005.

 

 

O que há de errado com as novas princesas da Disney?

Este post parte de uma inquietação minha, já de algum tempo, não apenas com as novas princesas da Disney, mas também com outras personagens femininas presentes nas animações e filmes ligados aos contos de fada contemporâneos.

No dia 31 de março participei de uma banca de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFG – Regional Catalão em que a aluna Fernanda Lázara de Oliveira Santos defendeu, brilhantemente, as novas configurações das mulheres em animações do estúdio Disney.

Em um dado momento, enquanto a aluna falava dos filmes Malévola (2014), Frozen (2013) e Valente (2012), eu me peguei pensando :

“Porra, mas será que todo homem em contos de fadas hoje tem de ser um FDP ruim ou então um Zé Ruela pobre pra mulher se destacar?”  

Já pensou nisso?

De fato, por trás da aparente representação de princesas que se colocam em pé de igualdade diante de personagens masculinos, o discurso da Disney esconde um desequilíbrio entre os gêneros no qual, para valorizar o feminino, atualmente se atinge o masculino.  

E isso não ajuda as mulheres a mostrar que, ao contrário do que muitos erroneamente pensam, o Feminismo não prega a superioridade das mulheres em relação aos homens, mas, sim, a defesa da igualdade entre os gêneros

Mas pra ajudar você a entender melhor o que estou falando aqui, veja abaixo o que vou chamar aqui de três fases das princesas Disney:

Primeira fase: “Salve-me ó bravo príncipe!”

Princesas:

  • Branca de Neve (1939);
  • Cinderela (1950);
  • Aurora (1959).

Presente no livro Contos da Mãe Gansa (1697), do francês Charles Perrault, livro que inaugurou o gênero conto de fada, “A Bela Adormecida” virou animação da Disney em 1959.

O desenho foi o ponto alto dos estúdios Disney na primeira metade do século vinte. E Aurora, o símbolo maior, da primeira fase das princesas Disney iniciada em 1939 com a animação Branca de Neve e os Sete Anões.

Branca de Neve e os Sete Anões (1939), Cinderela (1950) e A Bela Adormecida (1959) compõem a Primeira Fase das Princesas Disney.

O ponto importante a ser destacado neste primeiro momento é uma maior fidelidade das animações em relação ao texto literário.

Assim como suas equivalentes literárias, as princesas dos contos de fada da Disney refletiam o espaço limitado da mulher na sociedade ocidental.

Ou seja, de fins do século 17 até o fim dos anos 50 do século 20 não houve alteração significativa na visão sobre a mulher na cultura que provocasse um outro tipo de personagem feminino diferente daquele encontrado nos contos de fadas da Disney para o Cinema. 

Como disse mais acima a princesa Aurora da animação A Bela Adormecida simboliza esse espaço de apagamento da mulher.

Afinal de contas, ela aparece apenas em 18 minutos da animação em que ela é a personagem principal e tem apenas 18 falas (!!).

Faz participação especial em seu próprio filme!

Basta olhar a imagem do DVD comemorativo dos 50 anos da animação lançado em 2009. 

Quem está protagonizando a ação? 

Esse fato mostra bem o perfil das princesas clássicas da Disney até o fim dos anos 50.  

Estrutura das histórias

  • Par romântico: Príncipes valentes e corteses.
  • Vilões: Mulheres mais velhas, reforçando a disputa entre mulheres pela atenção masculina;
  • Comportamento da princesa: passiva (a ponto de dormir).
  • Representação masculina: pais e príncipes, são objeto de obediência e devoção. 

Segunda fase: “Eu posso, Eu quero, eu consigo!”

Princesas:

  • Ariel (1989);
  • Bela (1991);
  • Jasmine (1992);
  • Pocahontas (1995);
  • Mulan (1998);
  • Tiana (2009);
  • Rapunzel (2010).

Apenas em fins dos anos 80, trinta anos depois de A Bela Adormecida, a Disney voltou as histórias de princesas com A Pequena Sereia (1989).

Mas, as princesas não podiam mais ser as mesmas.

Surge a princesa rebelde

Afinal de contas, entre 1959 e 1989 o Movimento Feminista dos anos 60 e 70 tinha conquistado visibilidade para mostrar o lugar de opressão ocupado pelas mulheres em diversas esferas, incluindo ai a Literatura.

Neste contexto, diferentes escritoras se apropriaram de formas literárias marcadas por um discurso depreciativo contra as mulheres e as usaram como uma importante ferramenta para se desconstruir a visão sobre o feminino. 

E, dado o seu histórico contra as mulheres, a Fantasia foi uma das escolhidas.

Exemplos disso são a coletânea de contos O quarto do Barba-Azul (1979), de Angela Carter, em que os contos de fadas são reapresentados por uma perspectiva feminista.

Destaque também para a quadrilogia As Brumas de Avalon (1979), de Marion Zimmer Bradley, em que o universo do Rei Arthur e reimaginado pela ponto de vistas das mulheres.

E as princesas da Disney?

Lentamente, as novas princesas foram surgindo ao mesmo tempo em que um novo perfil de relacionamento entre homem e mulher foi se estabelecendo nas animações:

O equilíbrio entre os gêneros alcançado por meio da transformação do masculino.

Vamos aos casos.

Ariel

A primeira das novas princesas da Disney, Ariel é vagamente inspirada na personagem do conto “A Pequena Sereia” (1837), de Hans Christian Andersen, Pai da Literatura Infantil. 

Alias, as mudanças começam ai.

Na Segunda fase, as animações da Disney tem mais preocupação em explorar os elementos icônicos das personagens do que necessariamente adaptar as histórias originais.

Mas, além de não seguir em linhas gerais o texto original, o que A pequena sereia apresentou que a diferenciasse de fato das princesas clássicas da Primeira fase?

Se em um primeiro momento o roteiro da animação traz um príncipe clássico e uma vilã que se interpõe como obstáculo ao triunfo do amor do casal, um olhar mais apurado revela inovações importantes na representação da princesa, tais como: 

  • A princesa quer conhecer o mundo ao seu redor, e não se satisfaz mais apenas com o seu círculo conhecido;
  • Ela contesta e subverte a autoridade paterna;
  • Ela se mostra ativa no cumprimento de seus objetivos.

Sendo a retomada da Disney ao universo das princesas, o estúdio não se arriscou demais além dos pontos mostrados acima e apostou no padrão em que o príncipe está em uma posição superior a personagem feminina.  

Bela 

Aqui começa a mudança de fato.

Animados com o sucesso de A pequena sereia os estúdios Disney foram buscar outra história em que a personagem feminina pudesse ser representada com comportamento ativo.

Eles encontraram o que queriam no conto “A Bela e a Fera”, de Madame de Beaumont (Jeanne-Marie Leprince de Beaumont), publicada na Le magasin des enfants (1756).  beaumont

Originalmente o conto tinha o propósito de ensinar as mulheres a suportarem o ambiente de violência doméstica a que eram submetidas na França do século 18, enfatizando que apenas o amor contínuo poderia transformar o comportamento do homem.

Já na animação de 1991 o conto ganhou um sub-texto que discute e subverte a construção dos gêneros masculino e feminino pela sociedade.

E é por meio dos personagens da Fera e de Gaston que começa o empoderamento do feminino pela crítica ao masculino.

Gaston e a Fera são, em essência, o mesmo personagem. A aparência física conduz seus comportamentos e ambos tem uma postura machista em relação a Bela. 

Enquanto Gaston não muda, a transformação da Fera em Príncipe, ou seja, sua evolução, só ocorre quando ele abre mão de seu comportamento bestial (“machão”).

A marca desta transformação é a forma andrógina do príncipe, sinalizando que ele se tornou mais feminino, ao enxergar em Bela uma igual.  

A Bela e a Fera é a primeira animação da Disney que investe no equilíbrio entre os gêneros, e não no detrimento de um gênero sobre o outro, como força de valorização da mulher. 

Talvez também por isso tenha sido uma das mais bem sucedidas adaptações de contos de fada já na sua primeira versão nos anos 90. O que se repetiu em sua versão live action em 2017.

Variações de “A Bela e a Fera”

Tiana

A primeira princesa negra da Disney, Tiana, repete em A princesa e o sapo (2009) o mesmo percurso de Bela.

Semelhante a protagonista de A Bela e a Fera, Tiana é pobre, nutre o desejo de encontrar o seu lugar no mundo (no caso aqui, abrir um restaurante) e se vê envolvida por uma criatura que tem sua natureza nobre escondida por trás de um feitiço. 

A inovação aqui é mostrar que não apenas o príncipe arrogante e imaturo, mas também a própria Tiana precisam crescer como indivíduos para, juntos em equilíbrio, alcançarem a transformação de volta a forma humana. 

Jasmine e Rapunzel 

As princesas de Aladdin (1992) e Enrolados (2010), seguem o padrão de A Bela e a Fera com a mudança da inversão de classes sociais entre heroína e herói. 

Tanto Jasmine (sendo filha do sultão) quanto Rapunzel (com seu super cabelo lanterna anti-envelhecimento) possuem poderes que evidenciam sua natureza real e as colocam logo no início da história em posição superior aos seus pares românticos, pobres.

Aladdin

O Aladdin da Disney, em particular, é um “Cinderela” as avessas ao mostrar uma figura órfã em situação de pobreza que deseja se encontrar com a realeza e, por meio de uma intervenção mágica, consegue os meios para tal propósito.

Essa situação permite ao personagem mostrar, por meio do relacionamento com a princesa, que é nobre de coração.

Flynn Rider

Já em Enrolados, ao invés de um príncipe como no conto “Rapunzel”, dos irmãos Grimm  o personagem Flynn Rider é um ladrão egoísta que, a medida em que se relaciona com Rapunzel após resgata-la da torre, desenvolve seu lado heroico e altruísta.  

Em ambos os casos, a abordagem utilizada é mostrar mulheres que já desfrutam de um certo empoderamento e que conseguem se tornar ainda mais empoderadas ao promover a evolução (transformação) de seus pares românticos masculinos, culminando em uma situação de equilíbrio entre os gêneros. 

Princesas lendárias  

As princesas de Pocahontas e Mulan são um caso separado por serem baseadas em personagens reais.

Matoaka, o nome real da princesa indígena, gostava de ser chamada de “Pocahontas”, que na língua nativa significava “impertinente”.

Pocahontas foi a filha do chefe indigena Wahunsenacawh, líder da nação Powhatan na América do século 17 e peça importante nos primeiros momentos da colonização da América por colonos ingleses.

Hua Mulan é uma das personagens mais famosas da China Antiga.

Hua Mulan, por sua vez, teria vivido no século 4 da era cristã e as informações sobre ela vem de uma canção folclórica da Dinastia Wei do Norte (386-557 d.C).  

Os roteiros de ambos os filmes abordam os pontos populares nas vidas das duas figuras que são, no caso de Pocahontas, seu (ficticio) relacionamento amoroso com o explorador inglês John Smith e, no caso de Hua Mulan, sua participação disfarçada como homem no exército chinês contra os invasores do país. 

Pocahontas e Mulan entraram no clube das princesas pelo seus comportamentos nobres diante dos obstáculos de suas vidas.

Nestes dois casos em particular o tamanho histórico das personagens acabou por limitar o aprofundamento do relacionamento delas com seus pares românticos.

Estrutura das histórias

  • Par romântico: Príncipes problemáticos e ladrões;
  • Vilões: Predominantemente homens ambiciosos;
  • Comportamento da princesa: Ativa. Luta para conquistar seus objetivos.
  • Representação masculina: pais e príncipes, são objeto de contestação e desconfiança. 

Terceira fase: “Unidas venceremos (os homens)”

Princesas:

  • Merida (2012);
  • Elsa e Anna (2013);
  • Malévola (2014);

Os anos da década de 2010 são o cenário para o surgimento da Terceira fase das Princesas da Disney.

Até o momento da escrita deste post, este é a fase atual dessas personagens cinematográficas.

Merida

Ela tem início no ano de 2012 na Pixar, estúdio ligado a Disney mas que sempre gozou de certa liberdade com suas criações.

A princesa Merida, de Valente (2012) é a primeira princesa que não é baseada em fontes literárias ou históricas.

Além desse fato, a principal contribuição desta produção foi a introdução de personagens femininas que se ajudam mutuamente na resolução de seus problemas e questões, sem precisar contar com o auxilio direto de homens.

Valente rompeu com a necessidade de um par romântico masculino para a princesa, além de colocar os personagens masculinos como coadjuvantes ou vilões.

No caso da história da princesa Merida, seu pai, o rei Fergus é o alívio cômico da animação, assim como também os pretendentes a mão da jovem herdeira do reino.

O roteiro é focado no relacionamento filha e mãe, expresso por Merida e a Rainha Elinor.

“BRAVE” (L-R) MERIDA and QUEEN ELINOR. ©2012 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Concebida para ser rebelde desde os cabelos, Merida abriu caminho com seu arco e flecha para as princesas Elsa e Anna.

Elsa e Anna

Vagamente inspirado no conto “A rainha da neve” (1844), de Hans Christian Andersen, Frozen (2013) começa a linha das princesas derivadas da releitura de vilãs dos contos de fada, transformado a Ranha da Neve má de Andersen em uma princesa incompreendida pelos seus poderes.

Na mesma linha, a desconstrução do perfil de princesa prossegue com a representação da princesa Anna como uma personagem cômica. quebrando a expectativa que se tem de uma figura vinculada a nobreza. 

Os homens, por sua vez, se tornam vilões, caso de Hans, que usurpa o trono das irmãs Elsa e Anna e coadjuvantes, caso de Kristoff, um homem da montanha que auxilia Anna a alcançar a irmã.

Assim como Valente, Frozen se apoia no relacionamento entre mulheres, subvertendo também o clássico “beijo do amor verdadeiro”, ao mostrar que o amor fraternal de Elsa e Anna é maior que tudo.

Malévola 

Na releitura proposta pelo filme de 2014, descobre-se que Malévola, clássica vilã da animação A Bela Adormecida, também poderia ser uma princesa da Disney, visto sua posição de realeza entre as criaturas sobrenaturais da floresta.

Nesta proposta, mais uma vez, os homens assumem o papel de antagonistas, desta vez personificado pelo pai de Aurora, o Rei Stefan.

Aprofundando o caminho aberto por Valente e Frozen, Malévola apresenta uma representação depreciativa do masculino ao longo de toda a trama, apostando na diferença como promotor do feminino.   

Entre as mulheres, depois do relacionamento entre mãe e filha e entre irmãs, aqui se tem a relação entre Fada-Madrinha e afilhada.  

E esperemos o próximo passo, ou a próxima fase.

Vale a pena a guerra dos sexos?

Voltando a questão original, até que ponto essa abordagem da representação feminina ajuda na construção do dialogo entre os gêneros?

A construção da nova representação das mulheres nos Contos de fada precisa, necessariamente, ser baseada no relacionamento entre membros de apenas um dos gêneros?

Onde estão as obras de contos de fada, literárias e cinematográficas, que apostem em personagens masculinos e femininos em pé de igualdade na busca de problemas e soluções.

Longe de trazer respostas, fica aqui a proposta de debate para que não apenas homens e mulheres, mas também o Fantástico saia ganhando na discussão dos problemas da sociedade de hoje. 

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Fontes utilizadas

BELLEI, Sergio Luiz Prado. Monstros, índios e canibais: ensaios de crítica literária e cultural. Florianópolis: Editora Insular, 2000. 

SANTOS, Fernanda Lázara de Oliveira. Do papel à tela, três histórias de princesas: reconfigurações do feminino entre Literatura e Cinema. 2017. 106 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2017.

TAPIOCA NETO, Renato Drummond. A balada de Hua Mulan – a lenda da guerreira mais famosa da China.  03 de Setembro, 2016. Acesso em 07 de abril de 2017. Disponível em https://rainhastragicas.com/2016/09/03/a-balada-de-hua-mulan/

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

TUDOR Brasil. A verdadeira e trágica história de Pocahontas. 20 de dezembro, 2015. Acesso em 07 de abril de 2017. Disponível em https://tudorbrasil.com/2015/12/20/a-verdadeira-e-tragica-historia-de-pocahontas/

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

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Weird Fiction, New Weird, Interstitial Writing e Slipstream: Os caminhos da Literatura Fantástica hoje

Você gosta de Literatura Fantástica, não é?

Se você assiste a filmes ou lê obras ligadas a Fantasia, Gótico, Horror, Ficção Científica e Realismo Mágico tenho certeza que já percebeu uma certa mistura de gêneros no Fantástico de hoje.

Veja o caso, por exemplo, na Literatura YA (Young Adults), de obras como A Seleção (2012), da escritora norte-americana Kiera Cass, onde a distopia se encontra com o conto de fadas. 

Big Brother encontra Cinderela.

No entanto, essa subversão dos limites entre as narrativas do insólito não é de hoje.

“Tudo o que é solido se desmancha no ar”

O entre-cruzamento de fronteiras literárias no fantástico se tornou mais evidente a partir do fim do século dezenove e início do início do século vinte como reflexo do impacto das ideias de pesquisadores como Charles Darwin, Albert Einstein, Karl Marx e Sigmund Freud sobre o ser humano da época.

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A frase de Karl Marx resume a situação de um mundo cujas certezas ruíam rapidamente.

Dentro de seus campos de atuação, o trabalho desses pesquisadores, e outros mais, colocou em xeque as crenças e convenções religiosas, sociais e políticas que faziam o ser humano do período a entender o mundo e o seu lugar nele.

Gênero fantástico ou Modo fantástico?

No campo da Literatura Fantástica, a forma mais visível deste cenário de profundas e irreversíveis mudanças foi a acentuação da diferença entre dois tipos de Fantástico: gênero e modo

Não é objetivo central aqui apresentar em detalhes as diferenças entre o Gênero fantástico e o Modo fantástico, isso já foi tema no canal do FANTASTICURSOS no YouTube, mas basicamente tenha em mente que:

Gênero fantástico

Refere-se a um gênero literário nascido em fins do século dezoito como resultado da tensão entre o emergente racionalismo iluminista e as crenças religiosas e sobrenaturais herdadas da Idade Média.

O ponto inicial é o romance O diabo enamorado (Le Diable amoureux / 1772), do escritor francês Jacques Cazotte. 

O jovem Alvare invoca o diabo e este se apaixona pelo jovem espanhol. Ele então assume a forma da bela Biondetta e tenta seduzi-lo.

O gênero fantástico se caracteriza por apresentar uma narrativa marcada pela incerteza do protagonista (e, por tabela, de nós leitores) diante do acontecimento fantástico. 

Biondetta assume sua forma diabólica no momento da consumação do amor com Alvare e o jovem desperta como se estivesse em um pesadelo. Foi tudo real ou mero produto da imaginação do rapaz?

O acontecimento fantástico realmente aconteceu ou foi apenas um sonho? Ou foi o resultado do uso de drogas? Ou ocorreu pelo excesso de sono? Ou por causa do sofrimento pela perda da pessoa amada? 

É nesse terreno da incerteza entre o real e o sobrenatural que o gênero fantástico habita .

A metamorfose

Para alguns críticos, o gênero fantástico sofreu uma crise no fim do século dezenove e início do vinte, em decorrência do cenário de mudanças que mencionei acima.

Afinal de contas, o elemento sobrenatural de origem religiosa ou popular não mais provocava incertezas na mente do individuo imerso no mundo da Revolução Industrial.   

Uma das marcas dessa crise é a novela A metamorfose (1915), de Franz Kafka

Por que Gregor Samsa acordou em uma manhã transformado em inseto? 

Não há nenhuma explicação ao longo de toda a história.

Não há nenhum questionamento por parte do personagem das razões que poderiam ter levado ele a sofrer tal metamorfose. 

No entanto, mais importante que a mudança, o que interessa a Kafka é mostrar as consequências da mudança sofrida pelo jovem vendedor sobre a família de Gregor Samsa.

O gênero fantástico morreu?

Não. Assim como Gregor Samsa ele se metamorfoseou em outra coisa, mas a resposta mesmo fica para outro post.

Modo fantástico

Esse é Fantástico que vem a nossa mente quando pensamos nesta palavra.

O ÉPICO DE GILGAMESH (2.700 a.C.) é a obra escrita mais antiga da humanidade e é marcada por vários elementos fantásticos usados até hoje.

Refere-se, de modo geral, a narrativas no qual o manejo e a combinação de temas e elementos da narrativa (narrador, enredo, espaço, tempo e personagens) revelam a presença e influencia do insólito dentro da história.

“Fantástico”, aqui, deve ser entendido como um grande termo guarda-chuva embaixo do qual estão vários subgêneros e vertentes do romance.

A ODISSEIA (Séc. 8 a.C.), de Homero mostra como o Fantástico está na base da literatura ocidental.

Mitos, Lendas, Fábulas, Contos de fada, Romances Góticos, Horror, Terror, Ficção Científica, Realismo Mágico, Cordel, … Tudo está no reino do Modo Fantástico.

Veja agora abaixo algumas das configurações deste Fantástico pouco faladas no Brasil, mas que, desde o início do século vinte, vem apresentando novos olhares sobre as angustias e ansiedades da sociedade contemporânea.

São elas: Weird Fiction, New Weird, Interstitial Fiction e Slipstream.

Literatura Fantástica hoje 

Weird Fiction 

Ainda que esteja muito associada a América do início do século vinte a Weird Fiction possui raízes nas últimas décadas do século 19 no Reino Unido.

As histórias de fantasmas de M. R. James exploraram o terror de elementos do cotidiano.

Lord Dunsany influenciou Lovecraft com suas narrativas marcadas por lugares e criaturas estranhas.

O criador do termo foi o escritor irlandês Sheridan Le Fanu, escritor de, dentre outras obras, Carmilla (1872), novela que influenciou Bram Stoker na criação de Drácula (1897). 

A Weird Fiction, que em uma tradução aproximada para o Português poderia ser algo como “Ficção do Estranho” ou “Ficção do Bizarro”, se caracteriza por apresentar narrativas sobrenaturais cujo elemento macabro vai além do normalmente utilizado na literatura de Horror.  

Lovecraft e o Horror Cósmico 

O escritor norte-americano H. P. Lovecraft foi o grande promotor da Weird Fiction na América, algo ressaltado ainda mais pela sua associação com a revista Weird Tales. 

Lovecraft trouxe o racionalismo científico da América do começo do século vinte para criar histórias que iam além dos fantasmas, vampiros e casas assombradas do gótico e do horror tradicional.

Esta visão está expressa na sua definição de Weird Fiction, sendo que na tradução da Editora Iluminuras de 2008 o termo “Weird Fiction” foi substituída pelo mais genérico “história fantástica”:  

“A história fantástica genuína tem algo mais que um assassinato secreto, ossos ensanguentados, ou algum vulto coberto com um lençol arrastando correntes, conforme a regra. Uma certa atmosfera inexplicável e empolgante de pavor de forças externas desconhecidas precisa estar presente; e deve haver um indício, expresso com seriedade e dignidade condizentes com o tema, daquela mais terrível concepção do cérebro humano – uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da Natureza que são nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios dos espaços insondáveis”.

Obra representativa deste Weird Fiction lovecraftiano é o conto “O Chamado de Cthulhu” (1926), que introduz a temática do “Horror Cósmico”, exemplo da subversão das fronteiras entre o Horror e a Ficção Científica. 

Após Lovecraft, outros escritores de seu círculo, como Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, August Derleth e Robert Bloch  continuaram a explorar o potencial narrativo do Horror Cósmico e da Weird Fiction

Dica de leitura:

A melhor coletânea para compreender as origens e evolução da Weird Fiction.

A Segunda Grande Guerra mostrou horrores que superavam os temas praticados na Weird Fiction da primeira metade do século vinte.

Gradativamente, a partir dos anos 50, um novo modo de ler o bizarro do mundo começou a ganhar forma no New Weird

New Weird

O New Weird busca unificar os três principais gêneros do fantástico em Língua Inglesa: o Horror, a Fantasia e a Ficção Científica.

As primeiras menções ao New Weird se encontram em meados do século passado.

A trilogia Gormenghast, composta por Titus Groan (1946), Gormenghast (1950) e Titus Alone (1959), do escritor inglês Mervyn Peake é considerada um dos marcos iniciais do New Weird.

A relevância desta obra no cenário da Literatura Fantástica nos anos 50 foi ofuscada por outra trilogia lançada na época: O SENHOR DOS ANÉIS (1954-1955).

Misturando Gótico, Fantasia e Ficção Científica (inclusive antecipando elementos do Cyberpunk), Gormenghast anuncia a obsessão do New Weird com a cidade enquanto espaço da ocorrência do insólito.

Outro nome de destaque do New Weird é o do escritor inglês Clive Barker que, no final do século vinte, lançou a coletânea de contos em seis volumes Os Livros de Sangue (1984-1985).

“O futuro do horror”, assim o escritor Stephen King classificou o trabalho de Clive Barker.

A obra de Clive Barker refletiu a ênfase do New Weird nos aspectos grotescos relacionados a transformação, decadência e mutilação do corpo humano.

Clive Barker e o cenobita Pinhead, um dos vários seres bizarros que habitam as narrativas do escritor.

O inglês China Miéville é uma das principais vozes do New Weird no século vinte e um com romances como Estação Perdido (2000) e A cidade & a cidade (2009). 

Além dele, destaque para Hal Duncan, K. J. Bishop e Michael Moorcock.

Dica de leitura:

A coletânea de 2008 traz contos e ensaios sobre esta expressão do fantástico contemporâneo

Interstitial Writing

A proposta da Interstitial Writing encontra paralelo nos Estudos Culturais do crítico Homi Bhaba sobre a liminaridade, expressas em O local da cultura (1998):

“É na emergência dos interstícios – a sobreposição e o deslocamento de domínios da diferença – que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação [nationness] [grifo do autor], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados”

Ellen Kushner, Delia Sherman, Theodora Goss, Heinz Insu Fenkl e Terri Windling são os nomes por trás do início da Interstitial Writing.

“Melancholia with Demons”
Oil on Copper, 9” x 12”

Em 2002 eles fundaram a ISIS: the Interstitial Studies Institute com o propósito de discutir formas de arte – não apenas literária, mas também visual, musical e de performance – que buscam romper limites tradicionais.

Na Literatura, a Interstitial Writing exemplifica a busca do Pós-Modernismo em debater e subverter as fronteiras entre as expressões da criatividade humana.  

Os contos de O quarto do Barba Azul (1979), de Angela Carter podem ser lidos como exemplos de Interstitial Writing.

Dica de leitura:

INTERFICTIONS (2007) é recomendado como porta de entrada para a escrita intersticial por meio dos contos e da discussão apresentada.

Slipstream

Nascido nos domínios da Ficção Científica, o Slipstream é um termo cunhado pelo escritor norte-americano Bruce Sterling em um ensaio de 1989 publicado no fanzine SF Eye,

Bruce Sterling é também um dos criadores do Cyberpunk com coletânea de contos MIRROWSAHES (1986).

No texto, Bruce Sterling manifestava sua percepção de que algumas obras de fins do século vinte estavam subvertendo as convenções da Ficção Científica, ao trazer elementos da Fantasia e do Horror e cunhou o termo Slipstream, sinalizando que estas narrativas escorregavam (Slip – Escorregar) entre as vertentes do fantástico.

Para ele, a ficção Slipstream é, 

“um tipo de ficção que simplesmente faz você se sentir muito estranho; do jeito que viver no século 20 faz você se sentir, se for uma pessoa de certa sensibilidade”.

O Slipstream faz uso de estratégias literárias pós-modernas tais como a Alegoria, a Metaficção e o Pastiche na sua tentativa de ampliar as possibilidades da Ficção Científica em refletir sobre o mundo de hoje.

O romance O Conto da Aia (1985), da canadense Margaret Atwood, que mescla a estrutura da Distopia com elementos de contos de fada, pode ser entendido como um exemplo de ficção Slipstream.

Ted Chiang (autor do conto que deu origem ao filme A Chegada), Bruce Sterling, Michael Chabon, George Saunders são nomes representativos do Slipstream.

Dica de leitura:

FEELING VERY STRANGE: THE SLIPSTREAM ANTHOLOGY (2006), traz uma variedade de contos que constroem um panorama do que os editores James Patrick Kelly e John Kessel chamaram de modalidade difusa.

Algumas questões:

Uma rápida leitura das expressões do fantástico aqui apresentadas pode deixar a duvida se, de fato, há diferenças substanciais entre elas.

Ao pensar nas particularidades do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream, o escritor e editor Jeff Vandermeer aponta que, diferente das duas últimas, o New Weird não se preocupa em utilizar estratégias literárias pós-modernas que subvertem a realidade do texto ficcional ou chamam a atenção para a sua artificialidade;

Mas, quais seriam os pontos de distinção entre o Slipstream e o Interstitial Writing?

Existiriam na Literatura Brasileira da virada do século dezenove para o vinte e no meio literário nacional de hoje, representantes respectivamente do Weird Fiction, do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream?

Fica o convite para os pesquisadores do Fantástico.

Gostou do post?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos fantásticos e normais.

Até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BESSIÈRE, Irène (2009). “O relato fantástico: forma mista do caso e da adivinha”. (Biagio D’Angelo, Trad.). In Revista Fronteiraz, (vol. 3, nº 3, Setembro). São Paulo: USP, pp. 185 – 202.

CESERANI, Remo (2006). O fantástico. Trad. Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR.

JOSHI, Sunand Tryambak (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, Sunand Tryambak (Eds.). (2001). The Modern Weird Tale. North Carolina: McFarland & Company.

KELLY, James Patrick; KESSEL, John. (Eds.) (2006). Feeling Very Strange: The Slipstream Anthology. Tachyon Publications. San Francisco. 2006

LOVECRAFT, Howard Phillips (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

SHERMAN, Delia; GOSS, Theodora (Eds) (2007). Interfictions: An Anthology of Interestitial Writing. Boston: Interstitial Arts Foundation.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

STERLING, Bruce. “Slipstream”. Disponível em: < https://w2.eff.org/Misc/Publications/Bruce_Sterling/Catscan_columns/catscan.05 > Acesso em: 08 mar. 2017.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2008). The New Weird. San Francisco: Tachyon Publication.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The Weird: A Compendium of Strange and Dark Stories. New York: Tor Book.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

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Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

5 contos de fadas dos irmãos Grimm para as crianças chorarem

Os contos de fadas dos irmãos Grimm vem encantando crianças de todo o mundo por gerações, já tendo sido traduzidos para mais de 160 línguas.

Os contos dos irmãos Grimm se tornaram Patrimônio da Humanidade em 2005 pela UNESCO, braço da ONU para a preservação da Cultura.

É importante destacar, todavia, que Jacob e Wilhelm Grimm não foram os autores de contos como “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Cinderela” e “João e Maria”. 

O livro CONTOS DA MÃE GANSA (1697), de Charles Perrault, marca o início dos contos de fadas como gênero literário.

Assim como aconteceu com Charles Perrault na França de fins do século dezessete, os irmãos Grimm desenvolveram suas histórias a partir dos registros de narrativas alemãs coletados em meio a camponeses, pequenos comerciantes e outras pessoas de origem simples no campo e na cidade.

Muitos destes contos, porém já circulavam não apenas na Alemanha, mas em toda a Europa e até mesmo em outros continentes. 

A primeira Cinderela que se tem registro, por exemplo, se encontra na história “Yeh-hsien”, datada do ano de 850 d.C. na China.

A Cinderela chinesa tinha um vestido feito de plumas de martim-pescador e pequenos sapatos de ouro.

No caso específico dos Grimms, enquanto pesquisadores do campo da Lingüística Histórica, os contos que conhecemos hoje foram a consequência do trabalho de investigação e análise da Língua Alemã do início do século dezenove.

A intenção era o registro e preservação da cultura alemã frente a um contexto de rápidas mudanças culturais em curso com a modernidade.    

Capa da edição de 1819

O resultado foi a publicação inicial em 1812 do volume 1 com 86 contos na obra Kinder- und Hausmärchen

Volume 1 do CONTOS MARAVILHOSOS INFANTIS E DOMÉSTICOS (2012), da editora Cosac Naify.

Em 1815, mais 70 contos foram publicados no volume 2, contabilizando 156 contos

Volume 2 do CONTOS MARAVILHOSOS INFANTIS E DOMÉSTICOS (2012), da editora Cosac Naify.

Inicialmente a obra era voltada para o público adulto em virtude da presença de elementos grotescos, violentos e de forte teor sexual, remetendo a sua origem no meio popular.

Ainda assim, o maravilhoso da obra atraiu a atenção das crianças e, nas edições seguintes, as narrativas foram adaptadas pelos irmãos para o público infantil.

Outras edições se seguiram ao longo do século dezenove culminando na edição de 1857 com 211 contos, sendo destes 11 lendas.  

Mas quanto destes contos você conhece?

Veja agora abaixo 5 contos de fadas dos irmãos Grimm que certamente fariam as crianças chorarem na hora de dormir.

1. “O judeu entre os espinhos”

Um conto que reflete bem o histórico antissemitismo alemão.

Conto n°. 24 do Volume 2 da edição de 1815.

Dono de uma rabeca mágica que obriga a todos que a ouvem a dançarem sem parar, um jovem servo força um velho judeu que cruzou por seu caminho a se embrenhar dentro de arbustos de espinhos a despeito dos pedidos desesperados do homem:

“Pelo amor de Deus”, gritou o judeu, “pare de tocar a rabeca, o que foi que eu fiz de errado?”

Liberado do encanto apenas após entregar 100 moedas para o rapaz, o judeu consegue se desvencilhar do espinheiro e, com a roupa em frangalhos e o corpo todo ensanguentado, procura as autoridades que acabam por levar o jovem a julgamento e o condenam a morte.

Músico e pilantra.

No momento da execução, porém, o servo pede como último desejo que ele possa tocar a rabeca e o juiz concede, levando a todos da corte a dançarem sem parar.

Esgotado fisicamente de tanto dançar, o juiz permite que o jovem fique com o dinheiro e culpa o judeu pela situação. O velho judeu é enforcado e o rapaz fica livre. Fim.  

2. “Quando as crianças brincaram de açougueiro”

Por razões óbvias, este conto só apareceu na edição de 1815, sendo cortada das publicações seguintes.

Conto n°. 22 do Volume 1 da edição de 1812.

Este conto possui duas versões.

Na primeira, um grupo de crianças de 6 anos de idade decidem brincar de cozinha. Um menino seria o açougueiro, um menino e uma menina seriam os cozinheiros, outra menina seria a assistente de cozinha e, por fim, um menino seria o leitão. 

O “açougueiro” então se aproximou do “leitão” e cortou sua goela e a “assistente” recolheu o sangue na vasilha para fazer salsichas.

Um senhor viu a cena e levou o menino açougueiro ao conselho da cidade, mas após intensa discussão não se sabia o que fazer, pois o assassinato tinha acontecido como uma brincadeira de crianças.

Por fim, seguindo o conselho de um velho conselheiro e afim de testar se o menino ainda era puro, uma maça foi colocada em uma das mãos do menino e na outra uma moeda reluzente. O menino, sorrindo, escolhe a maça e é inocentado. 

Na segunda versão do conto, após verem o pai matar um porco, dois irmãos decidem repetir a ação e o mais velho enfia a faca na garganta do mais novo.

Ao ouvir o grito de seu filho, a mãe larga seu bebê na banheira e, tomada pelo desespero ao ver a cena sangrenta, arranca a faca da garganta do filho e a crava no coração do mais velho.

Este caso passava fácil no programa do Datena

Retornando correndo para casa, a mãe constata que o bebê havia se afogado na banheira e, enlouquecida, se enforca. Ao retornar do campo, o marido percebe tudo o que havia acontecido e morre logo depois de depressão. Fim

3. “A mão com a faca”

Abuso infantil e inveja marcam este conto

Conto n°. 08 do Volume 1 da edição de 1812.

Uma mãe tinha uma filha e três filhos, mas demonstrava amor apenas pelos rapazes, enquanto sua filha era submetida a trabalho pesado.

Todos os dias a mãe dava uma faca cega e sem ponta para a menina com a qual ela tinha de cortar lenha para a casa.

Um elfo se apaixonou pela jovem e todos os dias lhe emprestava uma faca encantada que fazia o trabalho da menina ficar mais fácil. Assim ela conseguia realizar a pesada tarefa de forma rápida.

Na volta, ela batia duas vezes na rocha, e a mão do bondoso elfo aparecia para pegar a faca até o dia seguinte. 

Desconfiada da eficiência da filha, a mãe manda os filhos vigiarem a irmã e eles veem o elfo entregando a faca a menina.

Os irmãos tomam a faca da jovem à força e batem duas vez na rocha. Quando o elfo estende sua mão os rapazes decepam a mão da criatura com sua própria faca.

Ensanguentado e pensando ter sido traído pela sua amada, o elfo nunca mais foi visto e a menina continuou sendo explorada. Fim.

4. “As moedas roubadas”

Conto n°. 07 do Volume 1 da edição de 1812.

Um homem estava almoçando na casa do amigo quando, ao meio dia, a porta se abriu e entrou uma menina muito pálida vestida de branco

Sem nada dizer e sem olhar para o visitante, a menina se dirigiu para a sala ao lado. Após algum tempo ela retornou e saiu da casa. A mesma cena se repetiu nos dois dias seguintes no mesmo horário.

Ao indagar seu amigo e sua esposa sobre a menina o casal disse que nada vira ou ouvira. 

No dia seguinte, quando novamente surgiu, a menina foi seguida pelo homem até a sala ao lado e lá ele viu a menina sentada ao chão arranhando avidamente as frestas do assoalho e cavando algo sem ter sucesso.

O conto apela para a tradição sobrenatural do tesouro escondido.

Quando o visitante descreveu em detalhes a garota, a esposa do dono da casa a reconheceu como sendo a filha que havia morrido há quatro semanas.

Ao levantarem as tábuas do piso, eles encontraram 2 moedas que a mãe tinha pedido a menina para dar aos pobres, mas ela resolveu esconder a quantia para comprar biscoitos em outra oportunidade.

Ao falecer seu espirito não conseguiu descanso e assim, sempre ao meio dia, ela surgia para tentar pegar as moedas e cumprir o pedido da mãe.

A família então pegou as moedas, entregou a um pobre e o fantasma nunca mais apareceu.

5. “As crianças famintas”

A fome e o tema do canibalismo são temas recorrentes nos contos de fadas

Conto n°. 57 do Volume 2 da edição de 1815.

Era uma vez uma velha que se viu em tamanha pobreza e com a fome tão insuportável que ficou fora de si e decidiu comer uma de suas duas filhas.

Ela foi até a filha mais velha e disse:

“Tenho de matá-la, para que eu tenha algo para comer”.

A filha mais velha, porém, conseguiu convencê-la a tentar achar comida em algum lugar e, pouco tempo depois, a menina retornou com um pedacinho de pão que foi prontamente dividido entre as três.

Como a fome persistia ela se dirigiu a filha mais nova: 

“Então agora é a sua vez!”

Assim como sua irmã, a caçula convenceu a mãe a tentar conseguir comida em algum lugar e, logo depois, a menina retornou com dois pedacinhos de pão que foram devorados pelas três.

A realidade da família do conto reflete a situação camponesa na Idade Média na Europa.

Ainda assim, algumas horas depois a mãe se dirigiu as duas e falou: 

“Vocês terão de morrer, senão iremos morrer de fome”, ao que elas responderam:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

As crianças morreram de fome, ou a mãe as matou para não morrerem de fome? Você decide.

E aí? Qual é conto de fada, destes acima, que você vai contar para as crianças na hora de dormir hoje?

Deixe seu comentário e compartilhe o post.

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Fontes utilizadas

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São Paulo: Ática, 1998.

GRIMM, Jacob, GRIMM Wilhelm. Contos maravilhosos infantis e domésticos. Trad. Christine Röhrig. Vol. 1 & 2. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?

“A Bela Adormecida”, “Chapeuzinho Vermelho”, “O Gato de Botas”, “A Gata Borralheira”, “O Pequeno Polegar” e… “O Barba Azul”

Todos estas histórias ajudaram ao compor o Histórias ou contos do tempo passado, com suas moralidades – Contos da Mãe Gansa (1697), de Charles Perrault, livro este que deu origem ao gênero literário do “Conto de Fadas”.

Versão inglesa da obra de Charles Perrault

No entanto, por que mesmo tendo estado ao lado dos contos clássicos mencionados anteriormente “O Barba Azul” seja uma das histórias menos conhecidas e presentes em coletâneas infantis?

Você lê este conto para seu filho ou sua filha na hora de dormir? Provavelmente não. Por que?

Talvez porque ele não seja um conto de fada tradicional.

Como afirma Bruno Bettelheim em A Psicanálise dos Contos de Fadas (1992): 

“…na verdade esta estória não é um conto de fadas porque à exceção do indelével sangue na chave, /…/ não há nada de mágico ou de sobrenatural na estória.”

Então talvez “O Barba Azul” seja um conto gótico.

E se você quiser saber logo sobre os elementos tenebrosos deste conto, antes de conhecer brevemente sobre o Gótico, clique aqui.

Das sombras da razão, surge o monstro gótico

De forma geral, o surgimento do gótico durante o século dezoito, ou como você e eu aprendemos na escola, durante o Iluminismo (cujo nome vem da associação da Luz como um simbolo da Razão), tem sido associada como uma rebelião da imaginação e da necessidade humana na crença do sagrado contra a tirania do racionalismo. 

A luz do saber

De fato, várias descobertas e inovações da época como as leis fundamentais de Isaac Newton, a invenção da vacina, a classificação do ser humano pela Biologia e a criação da Enciclopédia criaram uma atmosfera de fé na Ciência como solucionadora dos problemas da humanidade e seus produtos que veio a influenciar profundamente a Literatura.

Buscando na Grécia e na Roma antiga um modelo de perfeição a ser seguido, os artistas iluministas criaram obras que tinham como base os padrões, métricas e estruturas consagrados por nomes da Antiguidade como Horácio, Longino e Aristóteles.

Aristóteles foi um dos nomes seguidos pelos escritores do século dezoito

Aos poucos, porém, a excessiva preocupação no atendimento a estes princípios começou a provocar uma reação de escritores, que se viam limitados no seu processo de criação.

A qualidade de uma obra muitas vezes dependia mais do quanto ela seguia os modelos clássicos do que seu conteúdo propriamente dito. Começou então a revolta da imaginação contra a razão.

Estava pronto o terreno para o  surgimento do monstro gótico.

O Gótico surgiu a partir das sombras do Iluminismo

Do castelo a casa

A obra  que deu origem a Literatura Gótica foi O Castelo de Otranto (1764) do inglês Horace Walpole.

Imagem da primeira edição

Walpole era fascinado pela Idade Média e em suas viagens pela Europa recolhia objetos e documentos sobre esta época.

Horace Walpole também era membro do Parlamento Inglês

O interesse dele pelo período medieval era tanto que ele transformou a própria residência em um mini castelo gótico batizado de Strawberry Hill.

Strawberry Hill depois da reforma em 2012

Em uma época em que a chamada Arquitetura Neoclássica dominava, como a do Museu Britânico abaixo, a residência de Horace Walpole se destacava das demais. Com o tempo ela se tornou atração turística em Londres. 

Museu Britânico, fundado em 1753.

Em Strawberry Hill, Walpole construiu uma pequena gráfica onde começou a dar vazão a sua paixão pelos tempos medievais, resultando em O Castelo de Otranto.

Apresentado como um texto que ele teria encontrado nas ruínas de uma igreja na Itália (um predecessor do famoso “Baseado em fatos reais”), O castelo de Otranto foi um enorme sucesso, o que levou Walpole a assumir a autoria na segunda edição e acrescentar o subtítulo: “Uma história Gótica”.

Saque do Império Romano pelos Visigodos em 24 de agosto de 410.

Pronto! A menção aos Godos, povo responsável pela queda do Império Romano e início da Idade Média, era o que faltava para destacar o romance dos seus pares literários do século dezoito e fundou uma nova vertente literária: o Gótico.

Gótico urbano

Da mesma forma que acontece até hoje, o sucesso de uma obra leva outras semelhantes a surgirem e nas décadas e séculos seguintes, diversos escritores e escritoras buscaram criar obras góticas que refletissem as angustias e ansiedades de seu tempo.

O símbolo maior do gótico no século dezoito: o castelo

Assim, os fantasmas, profecias, castelos medievais decadentes e vilões aristocráticos do século dezoito deram lugar no século dezenove aos medos científicos. Como explica o crítico Fred Botting:

“A lista [de convenções] cresceu, no século XIX, com a adição de cientistas, pais, maridos, loucos, criminosos e os monstruosos duplos significando duplicidade e natureza maligna.”

Em plena era da Revolução Industrial, a violência e a ameaça do castelo gótico e da floresta negra foram substituídos pelas labirínticas ruas estreitas das metrópoles europeias, enegrecidas pela fuligem das chaminés e pelas casas onde mulheres e crianças sofrem a tirania de maridos e pais opressores.

Era o tempo em que a realidade de um Jack, o Estripador se encontrava com a ficção de um Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

As ruas de Londres

Horrores modernos

O desespero do mundo de hoje

No século vinte, a velocidade e tamanho dos grandes centros urbanos, ampliados no século vinte e um, tem gerado tal angústia, ansiedade e sentimento de opressão no homem moderno que Angela Carter, uma das escritoras que mais utilizaram a linguagem dos contos de fadas e da literatura gótica em sua obra, comentou: “Nós vivemos em tempos góticos”.

Não é a toa, alias, que Angela Carter batizou sua coletânea de contos Bloody Chamber (1978) (no Brasil, O quarto do Barba Azul) em alusão a um dos contos do livro, baseado em “O Barba Azul”, de Charles Perrault.

Lançado no Brasil no ano 2000

Mas, afinal de contas, o que este conto de fada tem a ver com o gótico a ponto de ser inapropriado para as crianças?

Veja os pontos de contato do conto com a tradição gótica, quase um século antes de O castelo de Otranto

1. Origem em dois personagens reais malditos

Diferente das outras narrativas de Contos da Mãe Gansa, “Barba Azul” não tem antecedentes nas narrativas folclóricas de onde Perrault retirou seus contos. Ele tem base histórica em dois assassinos que muito se assemelham aos vilões aristocratas dos primeiros romances góticos.

Viúvo assassino

Há um certo consenso entre estudiosos de contos de fada que o personagem Barba Azul foi inspirado em duas figuras históricas da região noroeste da França conhecida como Bretanha:Be

Conomor, o Amaldiçoado

Conomor (“Cão do Mar”) no dialeto da época, se tornou governante da Bretanha em meados do século seis após depor o príncipe legitimo e se tornou o flagelo do clero local.

Por causa de seus atos ele foi excomungado pelos bispos da Bretanha. Na lenda local ele sobreviveu a todos os seus inimigos e tornou-se um bisclavret, ou lobisomem.

Sua ligação com Barba Azul ocorre devido a um episódio de sua vida registrada na obra Vita de São Gildas, publicada cinco séculos após a morte do santo bretão Gildas, o Sábio e desde então se tornou uma lenda britânica.

Reza a lenda que quando Conomor, O Amaldiçoado, se casou com a jovem Tryphine, ele já havia matado várias de suas esposas anteriores.

Um dia, a caminho de fazer suas orações na tumba de sua família, Tryphine foi avisada pelos próprios fantasmas das esposas mortas de que ela seria a próxima vitima assim que estivesse grávida.

Como já esperava uma criança de Conomor, ela foge, mas acaba sendo pega pelo marido no meio da floresta negra e é decapitada. Todavia, graças a São Gildas, Tryphine e seu bebê são trazidos de volta à vida. 

Tryphine e seu filhos foram canonizados.

Gilles de Rais, o Marechal da França

Companheiro de armas de Joana D’Arc, Gilles de Montmorency-Laval foi enforcado em 1440 por Satanismo e pelo assassinato de dezenas de crianças.

Assassino confesso, ele relatou que usava de sua posição social para levar as crianças de vilarejos próximo para o seu castelo com a promessa de lhes oferecer melhor condição de vida.

Lá ele os estuprava, pendurava em ganchos e cortava suas gargantas. 

Heróis nacional e Serial Killer

Mais de quarenta corpos nus de crianças foram encontrados em seu castelo.

A associação entre a criação de Perrault e este nobre europeu tem sido tão longamente explorada que na peça Santa Joana (1923), do dramaturgo irlandês Bernard Shaw esse personagem histórico é chamado de Barba Azul, com direito até mesmo a uma barba dessa cor.

2. O Bárbaro Louco

O Oriente exerceu profundo impacto na Literatura Gótica desde os seus primeiros momentos no século dezoito como uma região de mistérios além do conhecimento da cristandade e dona de uma cultura exótica e sensual.

Publicado em 1786 o romance de William Beckford é um exemplo do fascínio de escritores góticos pelo Oriente.

Já em 1697, todavia, o conto de fada de Perrault estabelecia esta conexão com o Oriente a partir das próprias palavras que compõem o nome do personagem.

Barba…

Perrault escreveu seu conto durante o reinado do Rei Luis XIV, chamado também de “O Rei Sol”. O fato é que este regente também poderia ser chamado de o Rei da Alta Costura, dada a importância dada a moda durante o seu reinado.   

Luís XIV – Poderoso e vaidoso

E a barba definitivamente não estava na moda durante o reinado do Rei Sol.

De fato, na França do século dezessete este adereço masculino era associado a falta de modos ou costumes civilizados, algo comumente relacionado a povos bárbaros.

Os muçulmanos usam barba para se sentirem mais próximos dos ensinamentos do profeta Maomé.

E dentro da lógica radical da Europa cristã, os muçulmanos se encaixavam perfeitamente tanto na imagem de bárbaro quanto na de adoradores do Diabo.

Por esta razão, em muitas ilustrações de “O Barba Azul” o personagem é representado como um muçulmano de posse de sua cimitarra pronto a matar a esposa.

Tais ilustrações ajudaram a criar uma imagem negativa do Islã.

Reforça esta leitura a permissão muçulmana a prática da Poligamia, vinculado dentro do conto com a prática de Barba Azul em manter guardados os cadáveres das ex-esposas penduradas em ganchos, como uma versão macabra de um harém.  

Ao entrar no quarto proibido, a jovem esposa dá de cara com os corpos das ex-esposas de seu marido pendurados em gancho.

… Azul

Associamos tanto a cor azul a paz e a tranquilidade que esquecemos de lembrar que ela também simboliza a Loucura, a Monotonia e a Depressão.

Esta leitura ganha força pelos atos do personagem principal contra as mulheres e mais uma vez reforça a imagem preconceituosa do Islamismo como um desvio da normalidade cristã. 

Dentro deste contexto, o azul se coloca como um indicativo de sua libertinagem sexual, estabelecendo uma ponte com sua origem histórica nos abusos sexuais de Gilles de Rais e sua vinculação a uma religião que permite a Poligamia.

Gravura de Gustave Dore (1862)

Afinal de contas, por que Barba Azul guarda os corpos de suas ex-esposas? A prática da necrofilia é uma possibilidade a ser considerada na interpretação do conto. 

O amor nunca morre

A transgressão sexual é parte integrante da tradição gótica desde o início em O Castelo de Otranto, quando após a morte do seu filho no dia de seu casamento com a princesa Isabella, Manfred decide, ele mesmo, se casar com a jovem para assim não ver o fim de sua linhagem.

Ou então em O Monge (1796), de Matthew Lewis em que por meio de artimanhas do Diabo um religioso faz sexo com a própria irmã.    

3. O casamento acaba com a mulher (literalmente)

Qual é o final de todos os contos de fadas?

Até mesmo “A Bela e a Fera” em que a mulher sofre encarceramento, maus tratos físicos e psicológicos a mensagem no fim é de que o amor transforma e tome-lhe casamento e “Felizes para sempre”.

Felizes para sempre, ou até a chegadas das contas, crianças, sogra…

“O Barba Azul”, ao contrário, parte do casamento para mostrar, talvez, o que acontece as princesas depois do fim dos contos de fadas. Ainda mais em tempos passados.

Se muitas vezes se diz hoje que o casamento acaba com a mulher, “O Barba Azul” difere dos demais contos de fada por mostrar que isso não fica apenas no plano metafórico.

Na Literatura Gótica, além do já mencionado O Castelo de Otranto, outras obras mostram o casamento como uma instituição opressora do ser feminino, como em O Morro dos Ventos Uivantes (1847), da escritora inglesa Emily Brontë, em que a heroína se vê dividida entre o coração e sua obrigação como mulher casada.

Um dos precursores da Literatura YA (Young Adults).

Isso explica porque este conto foi por muito tempo excluído de coletâneas voltadas para as crianças. Faça você um teste: olhe ai em sua casa se em alguma coletânea de contos de fadas, voltada exclusivamente para o público infantil, tem “O Barba Azul”.

Vamos lembrar que, principalmente desde o século dezenove, os contos de fadas foram usados para educar as meninas sobre o comportamento social esperado delas: aguardar sentadas (as vezes até adormecidas) o príncipe encantado que finalmente as levaria para o único reino encantado reservado ao feminino: o casamento.

Como então incluir para as meninas um conto em que a esposa é morta e pendurada em um gancho, sabe-se lá Deus pra que, se ficar bisbilhotando as coisas do marido? 

Tenso…

Afinal de contas, por que você não lê o “Barba Azul” para as crianças?

Charles Perrault não criou os contos de fadas clássicos que conhecemos.

Ele apenas recolheu as narrativas folclóricas de seu tempo e as editou para que ficassem adequadas para serem narradas nos sofisticados salões franceses de fim do século dezessete.

Todavia, em “O Barba Azul” a violência é parte tão integrante da história que não houve como suavizar os elementos que constituem a história, resultando em um conto de horror em meio aos demais.

Uma noite tranquila

Por fim, se você quiser um conto que faça o seu filho ou filha ficar agarradinho a você a noite toda, recomendo que leia a história do excêntrico viúvo aristocrata, possuidor de uma grande barba azul, que em seu novo casamento levou a jovem esposa para um castelo isolado e lá a advertiu a não abrir um quarto específico no labiríntico lugar, mas uma vez desobedecendo ao marido ela descobriu neste aposento os cadáveres das esposas anteriores do marido pendurados em ganchos, o que quase a levou a morte por decapitação se não fosse pela providencial chegada dos irmãos.

Mais uma vez, salva pelo patriarcado

E tenha um boa noite.

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Fontes utilizadas

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. 9ed. São Paulo: Paz e Terra, 1992

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997

CARTER, Angela. Burning your boats: collected short stories. London: Vintage Random House, 1996

FRANKLIN, Michael. Orientalism. In: MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998, p. 168-171

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

SILVA, Alexander Meireles da. “O Barba Azul”: conto de fadas ou conto gótico?. Disponível em Revista de Letras do Instituto de Humanidades.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

7 curiosidades sobre “A Bela e a Fera” que você provavelmente não sabia (e a 4° pode até te chocar)

O novo filme da Disney sobre “A Bela e a Fera” para 2017 reforça a vitalidade deste conto de fadas mesmo após 260 anos de sua estréia literária como o conhecemos. Mas há curiosidades sobre esta história que você provavelmente não conhece e algumas podem até te chocar. Veja abaixo:

1. “A Bela e a Fera” não foi criado pela Disney e nem por quem você acha que foi

Quando se fala do gênero contos de fadas, 3 nomes vem a sua mente:

  • Charles Perrault (“Bela Adormecida”, “Cinderela”, “O Gato de Botas”);
  • Irmãos Grimm (“Chapeuzinho Vermelho”, “Branca de Neve”, “João e Maria”;
  • Hans Christian Andersen (“Patinho feio”, “A Pequena Sereia”, “O Soldadinho de Chumbo”

“A Bela e a Fera”, no entanto, foi criado por uma mulher, Madame de Villeneuve (Gabrielle-Suzanne Barbot), e publicado na França em 1740 no La Jeune Ameriquaine et les Contes Marins.

A versão que você conhece hoje foi elaborada por Madame de Beaumont (Jeanne-Marie Leprince de Beaumont) (Figura abaixo) para a obra francesa Le magasin des enfants (1756) e é uma versão reduzida do original de 1740.   

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Com o conto, Beaumont queria ensinar as meninas e moças a importância das boas maneiras e do bom comportamento. 

Girl Power #SQN

2. Cupido foi a primeira Fera

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Ainda que Madame de Villeneuve tenha criado o conto no século 18, praticamente todas as culturas possuem uma história em que o amor tem de superar as aparências físicas.

Neste sentido, “Eros e Psique” é mais antiga versão de “A Bela e a Fera” conhecida.

Publicada no século 2 d.C. em Metamorfoses de Lúcio (também conhecido como O asno de ouro), de Apuleio de Madaura, “Eros e Psique” mostra como a jovem Psique se envolveu com o deus Eros (Cupido, como chamavam os romanos) por várias noites em um quarto escuro sem nunca conseguir ver a forma do amado.

Convencida pelas invejosas irmãs de que Eros era um monstro que queria devorá-la, Psique iluminou o rosto do amado quando este dormia e descobriu um ser belíssimo. Eros ficou profundamente magoado com a ação da jovem e desapareceu. Somente após Psique realizar várias tarefas impostas por Afrodite (mãe de Eros) o casal se reconciliou em matrimônio.  

Mexeu com o filho, a sogra se meteu.

3. A Fera não tem uma forma definida

Diferente do personagem da Disney tanto na animação de 1991 quanto na nova versão de 2017 (e que é até simpático), a criatura do conto de fadas não tem descrição física definida.

Ele já foi representado como um javali, urso, cobra, porco-espinho, leão, touro, ou uma mistura de vários animais. Veja abaixo algumas dessas formas:

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4. “A Bela e a Fera” ensina as mulheres a suportarem a violência doméstica

Partindo de sua experiência lidando com vitimas de abuso doméstico, Laura Beres afirma no artigo “The Romanticization of Abuse in Popular Culture” (1999), que muitas mulheres enxergaram em “A Bela e a Fera”, principalmente ao assistirem a animação da Disney de 1991, um consolo romântico para sua realidade de violência em casa

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No mesmo artigo, Robin Norwood, autor de Women Who Love Too Much (1985), reforça esta ideia ao dizer que “A Bela e a Fera” parte de uma tradição histórica no qual as mulheres deveriam aceitar um homem independente de sua personalidade, amando-o a despeito de seu comportamento.  

Concordam com a ideia meninas?

5. O vilão Gaston e os objetos mágicos falantes são invenções da Disney

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Ao contrário da versão da Disney, não existe um personagem chamado Gaston no conto de fadas de Madame de Beaumont.

Da mesma forma, não há nenhuma menção a objetos encantados falantes, que seriam na verdade os serviçais humanos da Fera.  

A ausência de outros personagens dentro do castelo descrito no conto de fada tem como objetivo reforçar a solidão vivenciada pela Fera até o momento da chegada de Bela.

Por outro lado, as versões da Disney omitem as irmãs de Bela, que por terem sentindo inveja da irmã são transformadas em estátuas ao fim do conto e colocadas em frente ao palácio de Fera para assistirem, eternamente, a felicidade da irmã. 

Inveja é uma m….

6. “A Bela e a Fera” já foi Romance Policial e até Ficção Científica

Dentre as várias adaptações do conto de fadas para outras mídias, formatos e gêneros, destaque para a série de TV A Bela e a Fera (1987-1989), que apresentava o relacionamento entre a advogada Catherine, vivida por Linda Hamilton (a Sarah Connor dos filmes Exterminador do Futuro 1 e 2) e o ser do subterrâneo Vincent, interpretado por Ron Perlman (que interpretou o super herói Hellboy nos dois filmes da série).

Na série o bestial Vincent protegia Catherine dos perigos do crime na cidade de Nova York.

beauty_and_the_beast_1987_tv_seriesJá em Red as Blood, or Tales from the Sisters Grimmer (1983), ficção científica da escritora britânica Tanith Lee, “A Bela e a Fera” aparece na forma do conto “Beauty-Earth”.

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7. A Bela e a Fera e a Fera e a Bela: Releituras atuais

Na literatura de hoje, “A Bela e a Fera” aparece em releituras variadas, mas que, como ponto em comum, trazem personagens femininas que abraçam o lado selvagem e sensual da sua natureza, subvertendo os papeis sociais normalmente reservados as mulheres. Como exemplo você tem:

  • Literatura pós-moderna, como os contos “A corte do Sr. Lyon” e “A noiva do tigre”, de Angela Carter, ambos publicados na coletânea de contos O quarto do Barba Azul (1999)

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  • Romances da categoria Novos Adultos, tais como Beleza perdida (2013), de Amy Harmon;

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E ai? Já conhecia essas curiosidades? Quais são suas expectativas para o novo filme da Disney? Comente e compartilhe!

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Fontes utilizadas

TATAR, Maria. (Ed.). Contos de fadas: edição comentada e ilustrada. Trad. X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

WARNER, Marina. From the Beast to the Blonde: on Fairy Tales and Their Tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When Dreams Come True: Classical Fairy Tales and Their Tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

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