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Século 19: A Era de Ouro da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica

Nenhum outro momento histórico da Literatura Fantástica, até hoje, foi mais rico em termos de produção e diversificação de obras e gêneros quanto no período compreendido entre a segunda metade do século 19 e o início do século 20 na Europa e nos Estados Unidos.

Nenhum outro.

Mas, por que especificamente esse período?

A Razão como promotora do Fantástico

Dentre diferentes fatores que promoveram uma verdadeira erupção do Fantástico durante a chamada Era Vitoriana (1837-1901) vou destacar aqui quatro pontos:

  • Os efeitos da Revolução Industrial;
  • O impacto de teorias científicas, com destaque para as ideias evolucionistas de Charles Darwin;
  • As pesquisas sobre o inconsciente humano e;
  • As consequências do Imperialismo europeu;

O ponto em comum a todos esses elementos é a presença do racionalismo como força motivadora da literatura fantástica em dois sentidos:

Primeiro, ao criar o cenário de curiosidade pelas novidades e promessas tecnológicas que fomentaram narrativas que celebravam, ou discutiam, o impacto da Ciência e seus produtos sobre a sociedade de fim de século.

Segundo, ao criar o cenário de rebelião a este mesmo discurso racionalista, construído  a partir da utilização do repertório mítico de natureza religiosa, sobrenatural e folclórica em histórias ambientadas no contexto finissecular.

Mas quais foram essas expressões do Fantástico alinhadas ou opositoras ao discurso racionalista? Olha aí. 

Fantasia 

No Reino Unido, Alice no País das Maravilhas (1865), A ilha do tesouro (1883) e Peter Pan e Wendy (1911); na Itália, Pinóquio (1883); na América, O maravilhoso mágico de Oz (1900) e no Brasil, A menina do narizinho arrebitado (1922).

Países diferentes cujas narrativas apresentam o mesmo padrão: diante de uma sociedade marcada pelo cientificismo, marcada pela expansão desordenada das grandes cidades com os consequentes efeitos colaterais do aumento da pobreza e da criminalidade as fadas decidem abandonar nossa realidade e se mudam para outro plano.

Afinal de contas, como essas criaturas poderiam voar em meio as nuvens de fumaça expelidas pelas centenas de fábricas da Revolução Industrial?

As crianças como protagonistas

O resultado deste fato foi o aparecimento do Romance para crianças, caracterizado por personagens infantis que se deslocam de seus lares para viverem aventuras em lugares exóticos e/ou mágicos enquanto contestam os valores do universo dos adultos.

Assim surgem reinos escondidos em tocas do coelho, em ilhas exploradas por piratas, em lugares além das nuvens, acessadas por tornados, no interior de baleias ou ainda no bucolismo do interior em sítios habitados por avós. 

Quando for ele estes romances infantis, perceba também como eles evoluíram para a forma atual.

Se antes tínhamos um herói ou heroína atuando sozinhos, hoje eles precisam dos seus amigos para a resolução dos problemas. Isso reflete a necessidade do grupo sobre o individuo.

Gótico

Carmilla (1872), O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1886), O retrato de Dorian Gray (1891), Drácula (1897) e A volta do parafuso (1898).

Mais uma vez, um curto período de tempo fomenta o aparecimento de obras de um gênero específico, hoje tidas como clássicas.

Após surgir no ano de 1764 com O Castelo de Otranto, de Horace Walpole como uma reação do sobrenatural a hegemonia do racionalismo iluminista, o gótico passou por transformações ao longo do século 19 nas mãos dos românticos que expandiu sua estrutura e temáticas.

Mas foram as últimas décadas do mesmo século 19 que testemunharam o ressurgimento do gótico em perfeito alinhamento com as grandes questões e ansiedades da sociedade vitoriana.

A decadência da evolução 

Habitando a mesma Londres que na vida real contou com a presença de Jack, o Estripador, os personagens do gótico vitoriano refletiam a postura artística do Decadentismo que, como observado no jovem Dorian Gray, refutava o discurso do progresso a favor de um comportamento marcado pela busca de sensações e a construção de universos artificiais alienados da vida urbana.

Outras duas influencias, dentre tantas, eram as ideias evolucionistas de Charles Darwin e as pesquisas sobre o inconsciente humano, incorporadas na aparência simiesca do Mr. Hyde ou em Drácula, que era capaz de subverter a cadeia evolucionária se transformando em ratos ou lobos. 

Ao ler, perceba como estes mesmos dois personagens também revelam a postura imperialista, externa e interna, das elites inglesas em relação ao estrangeiro e aos pobres da sociedade vitoriana.

Ficção Científica

Na França, Da Terra a Lua (1865) e Vinte mil léguas submarinas (1870); na Inglaterra, A máquina do tempo (1895) e Guerra dos mundos (1898), dentre tantas outras obras mais. 

Antes da Ficção Científica ser chamada de Ficção Científica haviam as Viagens Extraordinárias do francês Júlio Verne e os Romances Científicos do inglês Herbert George Wells.  

 Ao contrário da Fantasia e do Gótico, que traziam em seu discurso uma oposição ao racionalismo hegemônico do período, as obras de Verne e Wells, em sua maior parte, celebravam as possibilidades redentoras e transformadoras que a Ciência poderia trazer para a humanidade.

Isso é algo particularmente notado nos romances do escritor francês.

Já no caso de H. G. Wells, suas obras frisavam o caráter neutro da Ciência, dando ênfase ao fato que era o homem o responsável pela eventual corrupção desta na criação de produtos ou práticas que oprimiam o individuo.

Ao ler Verne e Wells, perceba como os dois escritores ora corroboram ora criticam a visão européia em relação a outros povos e culturas.

Tempos estranhos

A inclinação das últimas décadas do século 19 para o Fantástico não se restringiu apenas ao surgimento ou revitalização de expressões distintas do Fantástico.

Ela também se manifesta na subversão das fronteiras entre elas, como no caso da Weird Fiction.

Mas isso já é assunto para outro post aqui do blog FANTASTICURSOS.

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Obrigado pela leitura e até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. Trad.Carlos Moisés e Ana Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

CAUSO, Roberto de Souza. (2003). Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo: Ática, 1997.

JAMES, Edward, MENDLESON, Farah (Eds). Fantasy Literature. Cambridge University Press, 2012, p. 200-213. (The Cambridge Companion to).

RUDDICK, Nicholas. The fantastic fiction of the fin de siècle. In: MARSHALL, Gail. (Ed.). The fin de siècle. Cambridge University Press, 2007, p. 189-206. (The Cambridge Companion to).

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts on File Inc., 2005

 

H. G. Wells: Pai da Ficção Científica Brasileira no início do século vinte

Após estrear em 1818 com FRANKENSTEIN, de Mary Shelley, a Ficção Científica se consolida, na Inglaterra, a partir de A MÁQUINA DO TEMPO (1895), de H. G. Wells.

Viagem no tempo (A máquina do tempo / 1895), invisibilidade (O homem invisível / 1897), sociedades futuras distópicas (História dos tempos futuros / 1897), invasão interplanetária da Terra (A guerra dos mundos / 1898).

Alguns dos temas mais conhecidos e explorados pela Ficção Científica até os dias de hoje foram criados e desenvolvidos pela mente imaginativa de Herbert George Wells (1866-1946).

O HOMEM INVISÍVEL (1897)

Antes da FC… o Romance Científico 

O que este escritor inglês pretendia com o “Romance Científico”, o nome usado por ele para se referir a histórias que se baseavam no pensamento científico era representar e dar sentido às complexas e rápidas mudanças do seu tempo que estavam em curso na sociedade britânica em várias esferas, tendo como pano de fundo:

  • A hegemonia do poder mundial pelo Imperialismo Britânico;
  • Os produtos e efeitos da Revolução Industrial;
  • As teorias científicas de Charles Darwin (1809-1882) sobre a evolução humana;
  • A tensão entre as classes sociais.

E no Brasil?

Neste post vou mostrar como os pontos de contato entre este quadro acima da Inglaterra vitoriana (1837-1901) e do Brasil da Primeira República (1889-1930) fomentaram a disseminação dos primeiros momentos da Ficção científica, via H. G. Wells, no Brasil da Primeira República por meio de dois escritores brasileiros do período: João do Rio (1881-1921) e Gastão Cruls (1888-1959).

João do Rio, pseudônimo do jornalista e escritor carioca Paulo Barreto, foi um crítico das mudanças da Belle Époque carioca.

Para conhecer mais das mudanças na sociedade brasileira dessa época que forneceu o cenário para as obras aqui mencionadas, veja o post sobre a Ciência Gótica do blog clicando aqui

João do Rio e “A FOME NEGRA”

As ações implantadas pelo governo federal na reforma urbana da cidade do Rio, na época a Capital Federal do Brasil, como a derrubada de cortiços e abertura de avenidas e na vacinação obrigatória para controle das epidemias resultaram em uma onda crescente de insatisfação da população que refletiu o total desprezo da elite pensante do país pelas chamadas “massas”. Como destaca J. M. Carvalho:

“No Rio reformado circulava o mundo Belle-époque fascinado com a Europa, envergonhado do Brasil, em particular do Brasil pobre e do Brasil negro.”

É dentro deste quadro que João do Rio teceu sua crítica sobre as transformações da capital federal em “A fome negra” publicado em A Alma Encantadora das Ruas (1910).

Rio de Janeiro no início do século vinte

História

Nesta crônica, o escritor e jornalista carioca oferece um retrato realista da situação dos trabalhadores miseráveis que trabalham nos depósitos de manganês e carvão na Ilha da Conceição e, mais especificamente, no trecho conhecido como A Fome Negra.

“De madrugada, escuro ainda, ouviu-se o sinal de acordar. Raros ergueram-se. Tinha havido serão até a meia-noite. Então, o feitor, um homem magro, corcovado, de tamancos e beiços finos, […] entrou pelo barracão onde a manada de homens dormia com a roupa suja empanada do suor da noite passada. […] Houve um rebuliço na furna sem ar. Uns sacudiam os outros amedrontados, com os olhos só a brilhar na face cor de ferrugem; outros, prostrados, nada ouviam, com a boca aberta, babando.” 

A partir deste ponto, o leitor é apresentado à dura rotina dos homens que trabalham exaustivamente em um regime de trabalho que beira a escravidão:

“Uma vez apanhados pelo mecanismo de aços, ferros e carne humana, uma vez utensílio apropriado ao andamento da máquina, tornam-se autômatos com a teimosia de objetos movidos a vapor. Não têm nervos, têm molas; não têm cérebros, têm músculos hipertrofiados.”

A crítica de João do Rio aos valores burgueses e às péssimas condições de trabalho de milhares de trabalhadores do Rio de Janeiro da Primeira República encontrou seu paralelo na Inglaterra vitoriana de H. G. Wells com seu alerta às diferenças sociais na oposição entre a classe dirigente e os trabalhadores pobres presente no subtexto de A máquina do tempo e A ilha do Dr. Moreau.

Os pontos de contato entre o escritor inglês e o brasileiro, no entanto, são mais profundos.

Presença de H. G. Wells

Ao comentar o árduo e fatigante trabalho desempenhado pelos trabalhadores de minérios, João do Rio revela a leitura de uma obra de ficção científica cuja influência sobre a sua escrita pode ser sentida em outras crônicas:

“… esses pobres entes fizeram-me pensar num pesadelo de Wells, a realidade da História dos Tempos Futuros, o pobre a trabalhar para os sindicatos, máquina incapaz de poder viver de outro modo, aproveitada e esgotada.” 

O futuro de Wells se passa na Londres de 2180 onde trinta e três milhões de pessoas habitam a capital inglesa. O enredo centra-se no relacionamento de Denton e Elizabeth, um casal de classe média que junta forças contra a vontade do pai da moça.

Quem chega às portas da Companhia do Trabalho neste futuro já não tem mais escolha. A cidade é cara, o campo não apresenta condições para a vida, a vadiagem é proibida.

Na sala de espera, os rostos dos que deverão ser entrevistados variam da alegria por estarem à beira de um emprego ao mais absoluto desespero e fome.

Quanto aos ricos, a sociedade de História dos tempos futuros mostra que as elites são ociosas. Levam uma vida improdutiva, descansam nas vilas de prazeres e, quando acham que é o bastante, chamam a Companhia de Eutanásia, para que ela lhes dê uma boa morte.

Aqui, mais uma vez percebe-se a ligação com os trabalhadores de minérios de manganês e as classes dirigentes:

“Os seus conhecimentos reduzem-se à marreta, à pá, ao dinheiro; dinheiro que a pá levanta para o bem-estar dos capitalistas poderosos; o dinheiro, que os recurva em esforços desesperados, lavados de suor, para que os patrões tenham carros e bem-estar.”

No entanto, diferente do final feliz da obra de H. G. Wells, “A Fome Negra” fecha descrevendo o momento de desespero de um desses trabalhadores:

“… um homem de barbas ruivas, tisnado e velho, trepou pelo monte de pedras e estendeu as mãos: – Há de chegar o dia, o grande dia! E rebentou como um doido, aos soluços, diante dos companheiros atônitos.”

Demonstrando fascínio e preocupação com as mudanças em curso na Belle Époque carioca, João do Rio demonstra através de sua obra que foi capaz de promover o diálogo a respeito do impacto da ciência e do progresso sobre o homem nas esferas pública e privada no Brasil da República Velha.

Gastão Cruls e A AMAZÔNIA MISTERIOSA

O advento da Primeira Guerra Mundial impactou nos rumos da ficção especulativa brasileira, e esta passou a refletir a preocupação das elites com a constituição do povo brasileiro, cenário este que se alinhou com a postura de H. G. Wells sobre outros povos e as classes sociais.

Este é o caso de Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls.

História

Amazônia misteriosa descreve a jornada de um médico, referido no romance apenas como “Doutor”, à selva amazônica. Este personagem-narrador é acompanhado de uma equipe de ajudantes dentre os quais apenas se destaca na trama o caboclo Pacatuba, atuando como companheiro do narrador.

A equipe se perde na floresta e é encontrada por um grupo de índios que os levam à tribo de índias de grande estatura identificadas posteriormente como as lendárias Amazonas.

Através do consumo de uma bebida feita pelos silvícolas, ele empreende uma viagem onírica até a época do império Asteca e descobre a origem das Amazonas.

Neste lugar, o Doutor também encontra um cientista alemão de nome Jacob Hartmann acompanhado de sua esposa francesa, Rosina, e, de dois ajudantes também europeus.

Gradativamente o protagonista descobre que o cientista está fazendo experiências com animais e com os meninos recém-nascidos rejeitados pelas índias.

Eventualmente o médico brasileiro e Rosina se apaixonam e decidem fugir juntos da aldeia. Rosina, porém, sucumbe aos perigos da Amazônia e o romance termina com o narrador chorando a morte da amada.

Presença de H. G. Wells

Sem dúvida alguma, dentre todas as influências literárias e folclóricas presentes em A Amazônia misteriosa, foi o romance A ilha do Dr Moreau, de H. G. Wells, a principal referência de Gastão Cruls para a elaboração de uma obra de mundo perdido brasileiro no qual se pode constatar a influência direta do pai da ficção científica inglesa.

Marlon Brando interpretou o Doutor Moreau na adaptação de 1996.

O diálogo entre o romance de Cruls e o de Wells tem início quando o Doutor começa a se questionar sobre a razão da presença de um cientista alemão vivendo entre as índias na companhia de sua esposa e de poucos ajudantes.

O mistério a respeito do cientista estrangeiro vem finalmente à tona no capítulo VIII, muito pertinentemente chamado de “Revelação”.

Intrigado pelas experiências de Hartmann, o narrador decide se esgueirar para um local da aldeia cujo acesso foi proibido a ele pelo alemão.

Lá ele observa gaiolas de tamanhos avantajados dentro das quais estão criaturas que ele não consegue identificar. Olhando mais de perto uma delas ele se vê diante de um pesadelo vivo que muito se assemelha às criaturas de Moreau:

“Macaco? Preguiça? E atentei mais para o ser estranho que se rojava no chão com movimentos muito lerdos e hesitantes. Não! Era uma criança! Aquelas formas não enganavam e eram bem humanas. Mas, então, seria um monstro.” 

A consternação com o cenário ao seu redor faz com que o médico fique descuidado e ele acaba sendo descoberto por Hartmann.

Adaptação de 1996 de A ILHA DO DR. MOREAU

Diante da pergunta do cientista se ele viu todos os experimentos, o protagonista não consegue esconder a sua indignação pelas ações do cientista e faz um comentário que deixa explícita a influência direta de A ilha do Dr Moreau sobre Amazônia misteriosa:

“O senhor nunca leu A Ilha do Dr. Moreau, de Wells? Pois é um romance muito conhecido. O Dr. Moreau era um médico que se meteu na cabeça transformar bichos em gente, ao passo que o senhor quer fazer justamente o contrário.” 

O filme A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS (1932) foi a primeira adaptação do romance de Wells

A ligação de Hartmann com Moreau se torna cada vez mais estreita à medida que o cientista europeu explica as suas experiências ao Doutor:

“As minhas experiências acabaram de vez com a absurda fixação das espécies, pelo menos como a entendiam os pré-darwinianos, afirmava-me convictamente o alemão. […] Com o rosto afogueado, os olhos sempre fuzilando, e uma gesticulação desabrida, o Sr. Hartmann tinha mesmo qualquer coisa de desvairado e eu começava a ter dúvidas sobre o seu equilíbrio mental.”

Diante do quadro apresentado a sua frente, o protagonista não consegue esconder o seu espanto diante do caos da Natureza a sua frente.

Adaptação de 1977

Hartmann, todavia, enxerga as suas criações sob um outro prisma:

“– O caos, não! A ordem… porque esses cruzamentos nunca se poderão reproduzir espontaneamente. A ordem, porque assim nós temos a filogenia comprovada pela experiência”.

Percebe-se nas palavras de Hartmann a crença exacerbada na Ciência como um instrumento de controle e manipulação da natureza. Como destaca Roberto de Sousa Causo:

“Hartmann não tem presunções ou justificativas pseudodivinas para os seus atos. Como cientista estrangeiro em terras brasileiras, ele se dedica à exploração e ao abuso do material humano nativo, sem dilemas ou escrúpulos. […] Cruls, portanto, expõe – de modo talvez conradiano – a falácia do discurso humanista que mascarava o projeto colonizatório europeu.”

Ao constatar que Hartmann acredita na superioridade racial do homem branco, o protagonista teme ser usado pelo alemão para as suas experiências e decide fugir do acampamento, acompanhado de Pacatuba e de Rosina.

A partir daí, Amazônia misteriosa se torna um romance de aventuras, concentrando-se nas adversidades da fuga. Rosina perece, vítima dos perigos da floresta, e o relato termina sem deixar claro ao leitor se os dois homens conseguiram escapar dos índios que os perseguiam, após sua fuga ter sido descoberta por Hartmann.

Apesar de que no fim do livro se percebe que Gastão Cruls poderia ter explorado de forma mais consistente os elementos especulativos do romance, restritos a poucos capítulos na obra, a utilização de elementos e convenções da literatura de mundo perdido e do romance de aventuras mesclado com ideias derivadas da eugenia e do discurso imperialista das elites em  relação aos pobres faz com que Amazônia misteriosa se coloque como um legítimo representante da ficção científica brasileira.

Infelizmente, como já foi discutido aqui, assim como os caminhos para os mistérios da Amazônia, Amazônia misteriosa, de Gastão Cruls, se perdeu dentro da floresta do Modernismo de onde espera ser resgatado por novos leitores.

Considerações

Neste breve recorte do que trabalhei na tese de Doutorado sobre a FC Brasileira (que você pode ler na integra nas Fontes Utilizadas abaixo) percebe-se que a obra de H. G. Wells ora denunciando ora perpetuando a postura excludente e marginalizadora do império britânico em relação às massas e povos regidos pelo seu domínio na época vitoriana dialogou intensa e decisivamente com a proposta de escritores do Brasil em retratarem as mudanças em curso na sociedade brasileira ao longo de toda a Primeira República.

Seja expondo as miseráveis condições das classes trabalhadoras (“A fome negra”), ou ratificando o preconceito das elites brasileiras contra segmentos d população brasileira (Amazônia misteriosa), o fantástico brasileiro na sua vertente da ficção científica refletiu as contradições da Belle Époque sobre os desafios da nossa então jovem república em lidar com a sua identidade desigual e miscigenada.

Se você gostou do post, deixe seu comentário e compartilhe com seus colegas fantásticos. 

Obrigado pela leitura e até a semana que vem!

Fontes utilizadas

ASSIS, Jesus de Paula (ed.) (2005). “Uma história dos tempos futuros”, in: ASSIS, Jesus de Paula. Exploradores do futuro – H. G. Wells. São Paulo: Duetto editora, pp. 46-47.

BAKER, Robert S. (1990). “The modern dystopia: Huxley, H. G. Wells, and Eugene Zamiatin”, in: BAKER, Robert S.. Brave new world – history, science and dystopia. Boston: Twayne Publishers, pp. 36-45.

BOSI, Alfredo. (2006). História concisa da literatura brasileira. 47ed. São Paulo: Cultrix.

CAREY, John. (1993). Os intelectuais e as massas – orgulho e preconceito entre a intelligentsia literária, 1880-1939. Trad. Ronald Kyrmse. São Paulo: Ars Poetica.

CARVALHO, J. M. de. (1987). Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo: Companhia das Letras.

CAUSO, Roberto de Souza. (2003). Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG.

CRULS, Gastão. (1958). A Amazônia misteriosa. in: CRULS, Gastão. Quatro romances. Rio de Janeiro: José Olympio, pp. 1–81.

CUNHA, Fausto. (1974). “A ficção científica no Brasil: um planeta quase desabitado”, in: ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, pp. 5-20.

DIWAN, Pietra. (2007). “Eugenia, a biologia como farsa”. História viva. Edição 49, ano V, São Paulo: Duetto Editorial, pp. 76-81.

DIWAN, Pietra. (2007). Raça pura: uma história da eugenia no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto.

MITTELMAN, Tânia. (2003). A revolta da vacina: vacinando contra a varíola e contra o povo. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna.

NEEDELL, Jeffrey D. (1993). Belle Époque tropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. Trad. Celso Nogueira. São Paulo: Companhia das Letras.

RIO, João do. (1987). “A fome negra”, in: RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Secretária municipal de cultura, (Biblioteca Carioca; vol. 4), pp. 113-117.

SILVA, Alexander Meireles da (2005). Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna.

SILVA, Alexander Meireles da. (2008). O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira no começo do século XX. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O que era Ficção Científica antes da Ficção Científica?

O termo “Ficção Científica” (Science Fiction), ainda na forma primária da palavra scientifiction, surge pela primeira vez na edição de abril de 1926 da revista Amazing Stories em um comentário do editor Hugo Gernsback sobre o romance A cotovia do espaço (The Skylark of Space), de E. E. Smith.

A obra também é a fundadora da temática da Ficção Científica das Space Operas.

Isso levanta  a questão: Como eram chamadas as obras de Ficção Científica antes desta vertente do Fantástico ser batizada por Hugo Gensback nas primeiras décadas do século vinte? E como era a FC do passado?

Já o nome “Science Fiction” como conhecemos hoje apareceu primeiro nesta edição de Julho de 1929 da SCIENCE WONDER STORIES.

Muitos críticos, dentre os quais o brasileiro Gilberto Schoereder no livro Ficção Científica (1986), apontam que a tentativa de se buscar raízes clássicas para a ficção científica teria como objetivo justificar literariamente o gênero, respaldando-se em alguns ancestrais ilustres que, no entanto, são totalmente estranhos a ela.

É importante mencionar, porém, que desde a aurora da humanidade o homem tenta entender o mundo ao seu redor, criando interpretações sobre o desconhecido com base no que dele é conhecido, e que a palavra “ciência” significava originalmente “conhecimento”.

Para alguns escritores de Ficção Científic, como Lester del Rey, a ÉPICA DE GILGAMESH (2000 B.C), o mais antigo texto registrado da humanidade, é um antepassado da FC pelo seu questionamento racional da imortalidade.

Assim, aqueles que hoje são considerados precursores da ficção científica tentaram, ao longo da história, responder às perguntas referentes ao que lhes estaria reservado no futuro, o que haveria além das estrelas, ou para além da vida.

A Proto Ficção Científica

Sobre esses antecessores da FC o crítico norte-americano John Clute cunhou o termo “Proto ficção científica”, assim definido por ele em Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia (1995):

“[…] a Proto FC tem de incorporar um sentido [em] que as maravilhas que ela descreve podem ser questionadas, se necessário por exemplos e analogias do mundo existente.” 

Nesse sentido, se um escritor sabe que cavalos não podem puxar uma carruagem para a Lua, mas mesmo assim escreve uma história em que eles o fazem, sabemos que isto não é Proto FC mas alguma outra coisa: uma Alegoria, uma Fantasia política, um sonho.

Mas, se o texto é escrito como se o autor acreditasse que naves espaciais puxadas a cavalo poderiam ser parte do mundo real, isto é Proto FC.

Vejamos então a seguir apenas alguns das dezenas de textos que podem ser lidos como Proto Ficção Científica.

Primeiras viagens espaciais

A História da FC mostra que no longo processo de evolução do sonho à razão, séculos antes da invenção da palavra “viagem espacial”, o homem já imaginava transformar sua realidade, descobrindo mundos ou moldando seu meio.

Entre os anos 50 e 125 d.C., por exemplo, Plutarco foi o primeiro a escrever sobre um voo espacial, no livro Na superfície do disco lunar.

Nesse livro, além de falar sobre o tamanho, a forma e a natureza da Lua, Plutarco faz uma descrição de seus habitantes como demônios que realizavam viagens à Terra.

Ainda no século 2 d.C., a História verdadeira (Vera Historia), de Luciano de Samosata, descreve as aventuras da tripulação de um barco surpreendido por uma tromba d’água e levado à Lua.

Lá os tripulantes passam por diversas aventuras e entram em contato com seres extraterrestres que estão em guerra contra os habitantes do Sol, pois ambos pretendem colonizar Vênus.

Na outra obra de Luciano, Icaromenippu o viajante planeja sua viagem, utilizando um abutre amarrado às suas costas.

Séculos depois, e já trazendo o início de uma preocupação com a descrição científica do acontecimento fantástico, Somnium (1634), de Kepler, traz o jovem Duracotus que em um sonho é transportado a lua por demônios. 

Mesmo que a viagem ocorra de uma situação onírica, Kepler, como cientista, se preocupa em descrever os efeitos da gravidade e do ar rarefeito durante a jornada. 

Vindo a exercer influencia sobre o romance Os primeiros homens na Lua (1901), de H. G. Wells, a obra de Kepler é considerada pelos escritor Isaac Asimov e o cientista Carl Sagan como uma das precursoras da FC.

O Homem na Lua

Seguindo os passos de Kepler, O homem na Lua (The Man in the Moone) (1638), do Bispo Francis Godwin, e Viagens a Lua e ao Sol (Voyages to the Moon and Sun) (1656), de Cyrano de Bergerac, são outras duas obras que mostram o fascínio do século 17 com nosso satélite natural.

Mundos utópicos e civilizações superavançadas

Muitos séculos antes dos pesadelos descritos por Aldous Huxley em Admirável mundo novo (1932) e por George Orwell em Mil novecentos e oitenta e quatro (1949), Platão descreveu em A República (367 a.C.) um modelo utópico para seu Estado onde, dentre outras coisas, o poeta e demais artistas seriam banidos por não seguirem a verdade estipulada por um grupo de eleitos e o nascimento de novos cidadãos seria controlado por princípios eugenistas.

A influência de Platão foi sentida posteriormente durante a Renascença, no século 16, quando Thomas More publicou seu Utopia (1516), descrevendo sua ilha perfeita, que estabeleceria as convenções da literatura de utopia e de sua contra-parte, a distopia.

A obra de More criou a palavra “Utopia” e gerou vários projetos utópicos semelhantes, como A CIDADE DO SOL (1602), de Tommaso Campanella.

Durante o século 17, a então emergente ciência começa a aparecer como pano de fundo nas histórias especulativas, trazendo expectativas quanto aos seus efeitos sobre a cidade e seus habitantes.

Este é o caso da ilha tecnológica de A nova Atlântida (1617), de Francis Bacon, onde até mesmo o clima é controlado.

Mas o destaque aqui vai para As viagens de Gulliver (1726), do escritor irlandês Jonathan Swift e, mais especificamente para a tradição da Proto FC, o livro III desta obra. 

O gradual ceticismo com relação ao já então hegemônico pensamento científico e seus benefícios para a humanidade marca a ficção especulativa do século 18.

No livro III de As viagens de Gulliver, por exemplo, Gulliver descreve a ilha voadora de Laputa, alimentada por um magneto gigante e habitada por matemáticos teóricos, perdidos em seus pensamentos abstratos.

Com essa descrição, Swift caçoou do conhecimento que não trazia benefício prático para a humanidade.

Na viagem seguinte, Gulliver encontra a ilha habitada pelos cavalos racionais Houyhnhnms, o que se constitui como o protótipo de um tema comum na ficção científica: o choque cultural entre um homem e um “Outro” não-humano.

Extraterrestres

Micromegas (1752), do filosofo francês Voltaire é a primeira obra a trazer a visita de extraterrestres ao nosso planeta.

Como explica Mark Hillegas em “The Literary Background to Science Fiction” (1979), Voltaire foi largamente influenciado por As viagens de Gulliver, de Swift, por quem o filosofo francês nutria grande admiração (os dois haviam-se conhecido durante o exílio de Voltaire na Inglaterra por quatro anos).

Em Micromegas temos um gigante viajante, habitante de Sirius, que viaja ao nosso sistema solar parando em Saturno e lá ganha mais um companheiro.

Juntos, estes dois cosmonautas visitam Júpiter e Marte chegando finalmente à Terra em 5 de Julho de 1737, visando entender a natureza do homem.

Produtos da Ciência

A crítica ao papel da ciência presente nos textos de Swift e Voltaire irá alcançar seu ponto máximo no século seguinte, quando os efeitos da Revolução Industrial começaram a permear a sociedade européia, trazendo preocupação para os pensadores e artistas do período sobre os rumos da ciência e da tecnologia.

Esta visão da ciência como um elemento desconhecido quanto ao seu potencial promoveu a ascensão de uma nova vertente da Ficção Científica chamada de “Ciência Gótica”, representada pela obra que os críticos de forma geral consideram o marco inicial da FC: Frankenstein (1818), de Mary Shelley.

No entanto, foi a partir da segunda metade do século 19 que as mudanças sociais trazidas pelo progresso científico começaram a despertar a curiosidade do público leitor das grandes metrópoles.

Para atender a esta demanda por informações sobre as teorias científicas e os avanços tecnológicos da sociedade européia, duas figuras que desempenhariam papel chave na criação da ficção científica como um novo subgênero do romance surgiram respectivamente na França e na Inglaterra: Júlio Verne e H. G. Wells.

Júlio Verne e as viagens extraordinárias

O século 19 era, de fato, arauto de inovações tecnológicas e o francês Júlio Verne soube aliar teses e pesquisas de seu tempo à imaginação, tendo lampejos de um visionário.

Entre suas leituras, Verne se deixou influenciar muito pelo escritor norte-americano Edgar Allan Poe, cujo estilo e argumento eram inovadores. Também confessava sua paixão por Charles Dickens e admiração pelo conterrâneo Guy de Maupassant.

Coube a Verne levar os seus personagens (e os leitores) aos lugares onde ele desejava estar, explorando assim o mundo que se descortinava no século 19.

A eletricidade não era mais um sonho; o dínamo foi inventado em 1861, a ferrovia elétrica em 1879, o elevador em 1880. Mas a eletricidade é, principalmente, energia natural, e, em seus efeitos, uma fonte par excellence da mobilidade, a negação do espaço pela velocidade.

Além da eletricidade, estradas de ferros ligavam continentes, balões dirigíveis coloriam os céus, cabos submarinos de comunicação transoceânicos trocavam informações entre a Europa e a América do Norte, enfim, a ciência e a tecnologia estavam sendo usadas para diminuir as distâncias e revelar as maravilhas do mundo.

Esse cenário levou Verne a desenvolver personagens que estavam sempre em trânsito para explorar, de forma ativa, terrenos e culturas até então desconhecidas. Como salienta Marc Angenot:

[…] todas as narrativas de Júlio Verne, ou quase todas, são narrativas de circulação […]. Praticamente todos os seus personagens são corpos em movimento; mas se pode perceber também que esta mobilidade não se aplica apenas aos atores. Outras coisas circulam também: desejos, informação, dinheiro, máquinas, corpos celestiais. Tudo circula – mobilis in mobili: o que pode ser mais adequado do que usar a própria máxima de Capitão Nemo como o leitmotif da obra como um todo? 

A fixação de Verne com esse tema teve início no final de 1862, ano em que firmou um contrato com Pierre-Jules Hetzel, um conhecido editor francês responsável também por escritores como Sthendal, Alfred de Musset, Balzac, Victor Hugo e George Sand.

Hetzel era um editor que se ocupava até mesmo do processo de criação das obras de seus autores (foi ele quem sugeriu a Balzac o título A comédia humana para a obra maior do escritor) e viu no então jovem Júlio Verne um talento para o seu projeto editorial: promover uma literatura acessível aos jovens.

O resultado dessa parceria foi a aventura Cinco semanas num balão (1863). Na época, o público estava apaixonado pelas ações dos exploradores da África. Verne usou seus mapas e relatos para colocar nos mesmos passos os heróis de suas histórias: um inglês, o doutor Samuel Fergusson, seu amigo escocês Dick Kennefy e o empregado, Joe, que se aventuravam de Zanzibar até o Níger, num périplo em balão.

Seis meses após a publicação, o fotógrafo e aeronauta Nadar capturou o interesse do público europeu com a construção de um balão que pretendia explorar o mundo. Tal empreendimento serviu para fazer de Cinco semanas num balão um enorme sucesso de vendas garantindo a Verne a assinatura de um contrato duradouro com Hetzel, no qual o escritor se comprometia a enviar ao seu editor “um mínimo de dois volumes por ano”.

Nascia, assim, As viagens extraordinárias.

Na sua busca por mostrar ao homem do século XIX que a ciência e a tecnologia do seu tempo poderiam ser utilizadas como instrumentos de exploração, Verne levou os leitores de As viagens extraordinárias a todos os cantos do planeta como o centro da terra (Viagem ao centro da terra / 1864), o Pólo Norte (Viagens e aventuras do capitão Hatteras / 1866), o fundo do mar (Vinte mil léguas submarinas / 1870), a volta pelo planeta (A volta ao mundo em 80 dias / 1873), e até mesmo o espaço, como visto em Da Terra à Lua (1865) e Ao redor da Lua (1870).

Ao todo, sessenta e duas obras compõem as Viagens extraordinárias, formando um projeto literário marcado por sucessos que estabeleceram o nome de Júlio Verne junto ao grande público não apenas na Europa, mas também na América do Norte e Sul.

H. G. Wells e o romance científico

A ficção científica é a única forma literária que possui uma “mãe” e dois “pais” como seus criadores.

Se a inglesa Mary Shelley é amplamente aceita como a fundadora da FC com Frankenstein, o papel masculino de iniciador desta vertente romanesca cabe a dois escritores:
Júlio Verne na França e Herbert George Wells na Inglaterra.

Wells começou a despontar na literatura em 1895 quando o nome de Júlio Verne já estava estabelecido na cena literária. Á medida que os seus romances e contos se sucediam, ficava mais evidente a diferença básica entre os dois escritores: a verossimilhança científica.

Enquanto o francês fazia questão de elaborar um enredo apoiado na utilização ao extremo da ciência e da tecnologia do seu tempo, Wells extrapolava esses elementos criando cenários e equipamentos não existentes no mundo do final do século XIX.

O próprio Verne demonstrou a sua insatisfação com o estilo do escritor inglês. Após ler o romance Os primeiros homens na Lua (1901), de Wells, no qual a viagem à Lua é conseguida através da invenção de um fictício elemento anti-gravidade chamado “Cavorita”, Júlio Verne declarou: “Eu faço uso da física. Ele, a inventa”.

Hoje ambos os escritores são considerados responsáveis pela criação da ficção científica como uma vertente do romance.

Cena do filme de 1960
A MÁQUINA DO TEMPO (1895) foi a primeira obra de romance científico de Wells

Viagem no tempo (A máquina do tempo / 1895), universos paralelos (“O admirável caso dos olhos de Davidson” / 1895), invisibilidade (O homem invisível / 1897), sociedades futuras distópicas (História dos tempos futuros / 1897), invasão interplanetária da Terra (guerra dos mundos / 1898): alguns dos temas mais conhecidos e explorados pela ficção científica até os dias de hoje foram criados e desenvolvidos por H. G. Wells.

O que Wells pretendia com o “Romance Científico”, o nome usado por ele para se referir a histórias que se baseavam no pensamento científico, como informa John Clute em Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia, era tentar representar e dar sentido às complexas e rápidas mudanças do seu tempo que estavam alterando a sociedade britânica em várias esferas, tendo como pano de fundo a hegemonia da Pax Britannica, a Revolução Industrial e teorias científicas polêmicas como as de Charles Darwin sobre a evolução humana.

Wells exerceu influencia em várias filmes e revistas vinculados a Ficção Científica na primeira metade do século vinte.

Na Inglaterra de H. G. Wells, a fundação de sociedades de conhecimento, jornais profissionais e laboratórios durante o período vitoriano conferiram à ciência uma importância que despertava no público o desejo de conhecer cada vez mais as idéias circulantes da Revolução Industrial.

O romance científico de Wells foi uma tentativa de se atender a essa demanda que representava os investimentos da classe média em seu próprio futuro.

O cientista pertencia a essa classe da sociedade que esperava ganhar poder e influência através de suas idéias. Ele era geralmente representado por Wells como um herói altruísta em vários romances científicos tais como A máquina do tempo, A guerra dos mundos e Os primeiros homens na Lua.

O próprio Wells, um ex-estudante de ciência, se via como o profeta de uma “Conspiração Aberta”, técnicos e industriais que iriam governar pacificamente o mundo. É importante mencionar aqui que Wells realmente acreditava na imparcialidade ideológica da ciência e da tecnologia.

Em todos os seus trabalhos literários, H. G. Wells culpava outros fatores, tais como a economia ou a política, pelo potencial destrutivo do poder do conhecimento.

Por fim, é importante destacar que não é correto afirmar que Wells estava consciente de que seus próprios trabalhos sustentavam e promoviam uma ideologia a favor da classe dominante.

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Fontes utilizadas

ANGENOT, Marc. Jules Verne: The Last Happy Utopianist. In: PARRINDER, Patrick (ed.). Science Fiction: A Critical Guide. London: Longman, 1979, p. 18-33.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995

SCHOEREDER, Gilberto. Ficção científica. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

SILVA, Alexander Meireles da. O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira no começo do século XX. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2008. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. 193 p.

TAVARES, Bráulio. (org.) Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Você conhece seu corpo? 5 contos fantásticos sobre partes do corpo.

O século 19 e início do século 20 foram o ápice do fascínio do público e da Medicina com as aberrações do corpo.

A história do Homem Elefante já virou filme e peça de teatro.

Na Inglaterra Vitoriana, por exemplo, Joseph Merrick despertou o interesse do público e da comunidade científica da época com sua gradual deformação física, que o levou a ser conhecido como o Homem Elefante. 

Da Esq. para a Dir.: Annie Jones (“A Mulher Barbada”), Jack Earle (“O Homem mais alto do mundo”) e Myrtle Corbin (“A garota de quatro pernas do Texas”)

Já nos Estados Unidos, espetáculos freaks itinerantes tais como o do circo Ringling Bros.’ corriam o país mostrando corpos que subvertiam as convenções do normal.

Corpo Fantástico (e rebelde)

Na Literatura Fantástica, em suas diferentes vertentes, o corpo humano sempre forneceu histórias sobre partes do corpo que assumem comportamentos insólitos. 

Na Fantasia, apenas para citar um caso dentre tantos, quem não lembra do nariz de Pinóquio? Membro acusador da transgressão da honestidade do boneco de madeira.

No Gótico, o monstro de Frankenstein, composto de membros de cadáveres, denunciava a transgressão da Ciência sobre os mistérios da vida.

Na Ficção Científica, “O estranho caso dos olhos de Davidson”, de H. G. Wells, mostra como após um acidente, os olhos de um homem passam a enxergar não o mundo a sua frente, mas a realidade do outro lado do planeta.

Veja abaixo algumas outras obras em que partes do corpo ocupam papel central na construção do fantástico na Literatura.

1. Mão

Obra: “A mão encantada”

Ano de publicação: 1832

Autor: Gérard de Nerval (1808-1854)

Sinopse: Para conseguir vencer um duelo contra um militar, um comerciante de tecidos recorre a feitiçaria cigana e fica com a mão encantada. Após vencer o duelo ele não consegue controlar a mão e esta acaba agredindo o magistrado que julgaria seu caso. Após ser enforcado, a mão do morto permanece ativa, o que leva o carrasco a cortar a mão do cadáver. Após se libertar do corpo do enforcado, a mão abre caminho entre a multidão estarrecida e alcança o cigano que lhe deu vida.

Curiosidade: Conto marcado pelo simbolismo moral da agressividade que o ser humano carrega dentro de sua natureza. 

2. Nariz

Obra: “O nariz”

Ano de publicação: 1835

Autor: Nicolai Vassilievitch Gogol (1809-1852)

Sinopse: Sentado a mesa para o café da manhã junto com sua esposa o barbeiro Ivan Iákovlevitch descobre dentro de um pão o nariz de seu cliente, o major Kovaliov. Após vários incidentes tentando se livrar do nariz o barbeiro acaba jogando o mesmo em um rio. Ao mesmo tempo o militar procura incessantemente seu nariz, pensando nas consequências de sua imagem sem esta parte do corpo. Após várias ações, o major Kovaliov desperta e percebe que seu nariz está de volta em seu rosto.  

Curiosidade: Sátira feroz de Gogol a burocracia russa. Conto pertencente a fase surrealista do escritor. 

3. Pé 

Obra: “O pé da múmia”

Ano de publicação: 1840

Autor: Théophile Gautier

Sinopse: Homem compra em antiquário um pé de múmia supostamente pertencente a uma princesa egípcia para ser usado como peso de papel. Ao dormir, ele recebe a visita da princesa Heronthis, que explica ao jovem que seu pé foi roubado e o quer de volta. O homem então pede a princesa uma estatueta em troca pelo pé. Heronthis transporta o narrador até o Egito Antigo onde o rapaz pede a mão da princesa em casamento, pedido este que é negado pelo Faraó, pai de Heronthis. Ao ser despertado por um amigo, o jovem percebe que o pé da múmia desapareceu e em seu lugar há uma pequena estátua. 

Curiosidade: Conto que se apoia na recorrente estratégia do conto fantástico do século 19 do sonho como espaço do acontecimento insólito. Reflete também o fascínio da época na França com a cultura egípcia.

4. Dedo

Obra: “O dedo do meio do pé direito”

Ano de publicação: 1890

Autor: Ambrose Bierce

Sinopse: Dez anos após matar os dois filhos e a esposa, e ainda ter decepado o dedo do meio do pé direito da mulher, um homem chamado Manton retorna a sua região com nova aparência. Ele acaba sendo desafiado para um duelo de faca a ser realizado em sua antiga residência, local onde ele cometeu o crime e que tem agora a fama de ser mal assombrado. Na hora do duelo Manton é encontrado morto com o rosto retorcido de medo. A investigação do lugar revela pegadas de alguém que não possuía o dedo do meio do pé direito.

Curiosidade: Considerada umas das melhores histórias sobrenaturais de Ambrose Bierce com o tema da vingança do além.

5. Orelha

Obra: “O inexplicável caso da orelha de Lolô”

Ano de publicação: 1944

Autor: Bernardo Élis

Sinopse: Homem rejeitado pela prima e trocado por empregado negro corta a orelha deste e prende a mulher no porão da casa para lá ela falecer. Anos mais tarde, ao visitar o local com um amigo de juventude os dois testemunham a orelha decepada ganhar vida e patas e sair da caixa onde estava guardada para levar o assassino a morte pelo pavor. 

Curiosidade: Conto escrito pelo brasileiro Bernardo Élis no livro Ermos e Gerais com a intenção de homenagear o escritor norte-americano Edgar Allan Poe em “A queda da Casa de Usher”. 

Listei aqui apenas 5 contos, dentre tantos outros exemplos, desta longa tradição de partes do corpo humano que rendem histórias fantásticas na Fantasia, no Gótico e na Ficção Científica na Literatura de todo o mundo.

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Fontes utilizadas

CALVINO, Ítalo (Org.). Contos fantástico do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ÉLIS, Bernardo. Ermos e gerais. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

GONÇALO JUNIOR. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998.

PAES, José Paulo (Org.) Os buracos da máscara: Antologia de contos fantásticos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, Inc., 2005.

 

 

DARK UNIVERSE: O que os monstros da Universal podem mostrar hoje?

Monstros dos estúdios Universal
Da esq. para dir.: Homem-invisível, Dracula, o Monstro de Frankenstein, a Múmia, o Monstro da Lagoa negra, o Fantasma da Ópera, a Noiva de Frankenstein e o Lobisomem.

Nesta semana os estúdios Universal anunciaram o longamente prometido reboot da sua franquia de monstros, popularmente conhecida como “Os Monstros da Universal”.

A iniciativa, batizada de Dark Universe, vai re-apresentar os monstros do estúdio para a geração de hoje.

Mas, o que esperar deste projeto?

Em 2014 a presidente dos Estúdios Universal falou do assunto no The Hollywood Reporter ao declarar que os novos filmes de seus monstros estariam menos ligados ao Horror e mais vinculados ao gênero Ação e Aventura, além de outros gêneros.

Na ocasião, Donna Langley disse que o propósito é “reimagina-los e reintroduzi-los para um público contemporâneo”

Esta visão pode ser percebida no ritmo do primeiro filme do Dark UniverseA Múmia – lançado em 8 de junho de 2017 nos cinemas. 

Mas, quais medos e ansiedades estes monstros podem representar hoje em relação a sua primeira encarnação entre as décadas de 1920 e 1950?

A primeira encarnação monstruosa

Na sua primeira encarnação, e com base nos planos atuais do estúdio, pode ser estabelecido que a franquia de Monstros da Universal teve seu início nos anos de 1920 com O Fantasma da Ópera (1925).

O único filme da franquia lançado ainda na era dos filmes mudos, esta adaptação do romance O Fantasma da Ópera (1910), do escritor francês Gaston Leroux foi um sucesso de público e foi relançado em versão com som em 1930.

Isso animou o estúdio a dar prosseguimento com sua franquia monstruosa, que seria continuada com Drácula (1931), dirigido por Tod Browning e trazendo Bela Lugosi no papel que o imortalizou como o conde vampiro.  

O sucesso estrondoso da adaptação do livro de Bram Stoker de 1897 consolidou o caminho para outras criaturas, refletindo neste processo o alinhando dos monstros da Universal com os fantasmas da sociedade norte-americana dos anos de 1930 até 1950.

Dentre estes fantasmas, a enorme crise econômica da América, conhecida como A Grande Depressão, que lançou o país em um ambiente de incertezas e temores.   

Desempregados na América durante os anos 30.

Em um tempo em que as pessoas perdiam seus empregos, casas e a esperança no futuro, a crença em forças sobrenaturais além da compreensão humana ganhou espaço, abrindo o terreno para o monstruoso.  

Mas e agora? O que cada monstro da Universal pode mostrar a geração Y e Z?

O que os Monstros da Universal podem mostrar hoje

Da esq. para a dir.: Russel Crowe, Javier Bardem (sentado), Tom Cruise, Johnny Depp e Sofia Boutella. Os novos rostos dos monstros da Universal.

Assim como ocorreu nos anos 40, os monstros da Universal irão se encontrar em filmes.

No entanto, diferente da época em que estes encontros ocorriam em comédias, já sinalizando o cansaço dessas criaturas como agentes do medo, o Dark Universe irá construir um universo compartilhado.

De fato, como o próprio estúdio coloca, esta será a resposta da Universal ao universo compartilhado de heróis da Marvel e da DC.

O eixo central é o personagem Dr. Henry Jekyll, vivido pelo ator Russel Crowe. Ele será o diretor da Prodigium, um local onde diversas criaturas sobrenaturais são mantidas.

Conheça a Prodigium clicando aqui.

Cabe ao Dr. Henry Jekyll, semelhante a Nick Fury na Marvel e Bruce Wayne na DC, reunir ou eliminar essas criaturas.

Até o momento da escrita deste post, seis filmes do Dark Universe foram anunciados em diferentes estágios de produção:

  • A Múmia (lançamento em junho de 2017);
  • A Noiva de Frankenstein (Em pré-produção e previsto para fevereiro de 2019);
  • O Homem Invisível (Em desenvolvimento e estimado para 2020);
  • O Monstro da Lagoa Negra (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • Van Helsing (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • O Lobisomem (Em desenvolvimento e sem data prevista em lançamento).

Ainda que seja esperado que a ação supere a reflexão no que se refere a explorar os monstros como símbolos de questões contemporâneas, fica aqui abaixo o que cada monstro pode trazer de debate com base no seu legado literário.

1. A Múmia

Origem: Cultura egípcia 

Obra de estréia: A Múmia (1932)

Melhor filme até aqui: A Múmia (1999)

LegadoA múmia já foi objeto de análise aqui no blog onde eu discuti os problemas que cercam o personagem. Para ler o post, clique aqui.

Basicamente, o personagem guarda semelhança com o vampiro enquanto criatura morta-viva e de passado nobre, mas não tem o forte simbolismo erótico do primeiro. 

Além disso, enquanto monstro que nos leva a refletir sobre a nossa mortalidade e o além-vida, a múmia perdeu seu espaço para o zumbi. 

2. A Noiva de Frankenstein

Origem: Literatura

Obra de estréia: A Noiva de Frankenstein (1935)

Melhor filme até aquiA Noiva de Frankenstein (1935)

LegadoUm dos maiores ícones femininos no Cinema, a noiva de Frankenstein tem seu nascimento no romance Frankenstein (1818), ainda que na obra ela seja apenas mencionada, mas não de fato criada. 

A força simbólica da personagem pode render excelente debate sobre o empoderamento feminino, principalmente pelo fato de ser (literalmente) um produto do discurso masculino.

3. O Homem invisível

Origem: Literatura

Obra de estréia: O Homem Invisível (1897), de H. G. Wells

Melhor filme até aquiO Homem Invisível (1933)

Legado: Como já também analisado aqui, desde sua gênese literária, o personagem é uma releitura do tema do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson.

O tema da invisibilidade permite a discussão sobre nossos limites éticos. O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? 

4. O Monstro da Lagoa Negra

Origem: Cinema

Obra de estréia: A Criatura da Lagoa Negra (1954)

Melhor filme até aquiA Criatura da Lagoa Negra (1954)

Legado: O caçula dos Monstros da Universal e o único sem ligação literária, folclórica ou cultural, este monstro é produto do discurso científico dos anos 50, fascinado com mutações e seres alienígenas.

Ele simboliza os mistérios e perigos escondidos da natureza e o quanto pode ser perigoso ao homem tentar desvendar esses elementos sem demonstrar respeito pelos mesmos. 

5. Van Helsing

Origem: Literatura

Obra de estréia: Drácula (1897), de Bram Stoker

Melhor filme até aqui: O Horror de Drácula (1958)

Legado: Desde sua primeira aparição o cientista e investigador do sobrenatural Abraham Van Helsing simboliza o agente responsável pela restauração da ordem em um mundo onde o caos se manifesta por meio do monstro.

Por vezes, subvertendo até mesmo a ética para alcançar esse fim.

6. O Lobisomem

Origem: Mitologia

Obra de estréia: A Lobisomem (1913) (filme perdido da Universal)

Melhor filme até aquiO Lobisomem (1941)

Legado: Assim como o próprio personagem do Dr. Jekyll (e Mr. Hyde), o lobisomem tem sua força enquanto monstro que aborda a dualidade do ser humano. O embate entre nossos impulsos e vontade individuais contra nossas obrigações e deveres sociais. 

Agora é só esperar que façam um bom trabalho com a enorme tradição cultural destes monstros atemporais, sem apelarem apenas para efeitos especiais.

E aí? Quais são as suas expectativas para o Dark Universe

Será que vão respeitar o legado dos Monstros da Universal?

Deixe seu comentário, compartilhe este post com seus amigos monstruosos e assine o blog.

Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LEADBEATER, Alex. The Mummy Director Explains Dr. Jekyll’s Role in the Film. In: SCREENRANT. Acesso em 27 maio de 2017.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Fantasia, Gótico e Ficção Científica: Quando elas se cruzaram?

Hoje em dia, livros, histórias em quadrinhos e séries como A Seleção, de Kiera Cass; Fábulas, de Bill Willingham e Grimm, dentre tantas outras, exploram os tênues limites entre os reinos da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica. 

Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.
Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.

Estas obras subvertem o senso comum de que a presença de personagens específicos, ou espaços determinados definem a que gênero aquela narrativa pertence.

Ou seja, não é porque a história tem zumbi, que ela tem de ser de Horror, assim como também uma história ambientada em uma nava espacial necessariamente será de Ficção Científica. 

ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.
ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.

O Fantástico nos anos de contestação 

As experimentações na Literatura, Cinema e Quadrinhos nas produções ligadas ao Fantástico de hoje podem ser traçadas até as décadas de 60 e 70 quando se percebeu o surgimento de uma nova atmosfera no campo cultural.

Esta situação foi consequência da contestação feita por grupos minoritários diversos que também promoveram o debate sobre a validade da distância entre Baixa e Alta Cultura

O interessante a se observar, no caso do Fantástico, é que no processo de contestar as divisões entre os gêneros literários, o Pós-Modernismo resgatou a estreita ligação existente entre a Fantasia, o Gótico e a Ficção Científica.

Fantasia & Gótico

A ligação primeira entre a Fantasia, na sua manifestação do Conto de Fadas, e o Gótico, ocorre justamente na Idade Média, quando a relação entre o ser humano e o mundo ao seu redor era regulado pelo sobrenatural.

De um lado, dentre tantos exemplos possíveis, as crenças e narrativas populares ligadas a criaturas fantásticas de origem pré-cristã, como as fadas celtas, o deus Pã romano e os anões e elfos teutônicos.

Apesar da hegemonia da Igreja Católica Medieval, vários rituais praticados no meio popular, principalmente relacionadas as colheitas e plantações, mantiveram estas criaturas do Maravilhoso, recorrentes na Fantasia, vivas no imaginário da Idade Média. 

Do outro lado, o discurso cristão na vinculação destas mesmas criaturas, e seus habitats, ao demoníaco e na instituição de toda uma cultura regulada pelo medo, pecado e punição.

Essa marginalização do imaginário popular medieval, e a perseguição promovida pela Igreja, contribuiu para a associação da Idade Média como uma época marcada por fanatismo, superstições, barbarismo e paganismo.

Estando associados aos povos bárbaros que, ao derrubarem o Império Romano, deram início a Idade Média, os Godos logo se tornaram sinônimo da época e Idade Média e Gótico passaram a ser termos que se confundiam.  

Contos de fadas ou Contos Góticos?

Aqui mesmo no blog e no canal do Youtube já postei artigos sobre contos de fadas cujas estruturas se assemelham as encontradas nas narrativas góticas.

Isso mostra que durante a Idade Média, Fantasia e Gótico dialogavam ativamente refletindo um contexto em que as criaturas maravilhosas, muito apropriadamente os vilões, eram apresentados por meio de uma visão gótica criada pelo Cristianismo. 

Citar aqui apenas três exemplos.

O lobo como disfarce do diabo

Em “Chapeuzinho Vermelho”, onde o folclore do lobisomem fornece a estrutura da narrativa, temos a criatura de origem mitológica grega e nórdica habitando o espaço da floresta, enxergado pelo Cristianismo da época como o lócus do demônio.

O pagão muçulmano

“Barba Azul” mescla o maravilho de chaves encantadas com convenções do romance gótico, como câmaras secretas, corredores estreitos, perseguição da figura feminina e vilões aristocráticos.

O diabo em pessoa

“Rumpelstiltskin” talvez seja o conto em que o vilão mais se coloca como a incorporação da convergência entre o maravilhoso da Fantasia e o demoníaco do Gótico.

Essa ligação se revela no duende, ligado ao maravilhoso teutônico, que, dentro da narrativa, realiza um pacto diabólico ao condicionar a riqueza concedida a uma moça a entrega do filho da protagonista.  

Gótico & Ficção Científica 

Nascido como gênero literário no ano de 1764 com O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, o Gótico buscou no sobrenatural ligado ao demoníaco a matéria prima para suas histórias. 

Isso pelo menos até o início do século 19 quando a Revolução Industrial, iniciada ainda nas últimas décadas do século 18, já tinha deixado claro para escritores e pensadores que ela iria mudar a percepção do ser humanos quanto ao seu lugar no mundo.

Neste contexto, mais do que o demônio e fantasmas, o que começava a causar angustia no individuo da época eram as rápidas e profundas mudanças trazidas pela Ciência.

A filha do Gótico: Nasce a Ficção Científica

Foi Frankenstein, ou O moderno Prometeus (1818), de Mary Shelley a obra que capturou esse ambiente em que a Ciência começou também a ser vista como um fenômeno sobrenatural que ameaçava a integridade humana.

De um lado, a ambientação de cemitérios e laboratórios escondidos, além da exploração do Sublime marca Frankenstein como um continuador da tradição gótica vigente desde o século 18. 

Todavia, por ser a primeira obra literária em que a Ciência exerce papel decisivo no desenvolvimento do enredo, a obra de Mary Shelley também inaugura a vertente romanesca da Ficção Científica.

Horror + FC = Horror Cósmico

O dialogo entre Gótico e Ficção Científica se desenvolveu ao longo do século 19 na Literatura Vitoriana e alcançou um novo patamar na América do início do século 20.

Foi por meio de H. P. Lovecraft e suas impressões sobre a Modernidade da América da época que o Horror Cósmico surgiu.

Como expliquei em um post específico sobre Lovecraft, a visão do autor de “O Chamado de Cthulhu” de que alguns grupos de imigrantes atraídos para a América pela Modernidade representavam um mundo de caos que o homem civilizado não podia controlar ou compreender foi traduzido em uma cosmologia monstruosa que unia o Horror e a Ficção Científica.

Percebe-se então que o medo em relação ao Outro, ao diferente, assim como também a ansiedade provocada pelas mudanças na sociedade, foram grandes motivadores para a conexão da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica e do Horror Cósmico.

E ai? Você gosta mais da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica ou de tudo junto e misturado?

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Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

SILVA, Alexander Meireles da. “O Barba Azul”: conto de fadas ou conto gótico?. Disponível em Revista de Letras do Instituto de Humanidades.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

1982: Os 7 filmes do Ano de Ouro do Cinema de Ficção Científica

Imagine um tempo em que os grandes estúdios de cinema não se preocupavam em acertar datas de lançamento dos filmes de forma que o filme de um estúdio não se chocasse com a produção de outro.

CONAN, O BÁRBARO (1982), foi o primeiro sucesso de Arnold Schwarzenegger no Cinema. Ele e Sylvester Stallone se tornaram os grandes nomes do Cinema de Ação a partir de então.

Ou então, um ano em que um filme ficasse em cartaz por meses porque não teve a pressão de bater recorde de bilheteria no fim de semana de sua estréia para garantir maior tempo de exibição.

Devendo seu sucesso ao nome de Steven Spielberg como produtor, POLTERGEIST (1982) ganhou fama de filme maldito e deu início a várias continuações.

Um ano que reunisse vários filmes que marcariam toda uma geração e viriam a exercer influencia até os dias de hoje.

Após estrear 3 filmes como Rocky Balboa, Sylvester Stallone se tornou um ex-soldado em RAMBO (1982), iniciando, junto com Arnold Schwarzenegger, a era dos brutamontes no Cinema.

Assim foi o ano de 1982.

Ainda que esse ano tenha fornecido o cenário para grandes filmes de gêneros diversos, tais como a Fantasia, Horror e Ação, nenhum outro gênero se destacou tanto neste ano quanto a Ficção Científica (FC), assunto do post desta semana.

Dentre os 7 filmes de Ficção Científica de 1982 que causaram impacto quando de seu lançamento pela produção ou roteiro, ou que continuam a exercer influencia 35 anos depois, destacam-se, em ordem de lançamento:

1. Fuga de Nova York

Título original: Escape from New York  

Lançamento nos EUA: 10 de Julho de 1981 

Dados: É o único filme aqui da lista que na verdade foi lançado em 1981.

Ele está aqui por ter marcado toda uma geração no ano seguinte, principalmente no Brasil, quando foi lançado em maio de 1982 (sim, leitores mais novos, os filmes demoravam muito pra chegarem no Brasil).

Enredo: No ano de 1997 Nova York é uma cidade prisão para todos os criminosos de uma decadente América à beira de uma guerra nuclear. Após o presidente do país cair no local, o mercenário Snake Plissken é enviado para salvá-lo  em uma corrida contra o tempo.

Marcou época porque: Produção B do diretor John Carpenter com seu ator predileto – Kurt Russel – Fuga de Nova York serviu de referência para Hideo Kojima criar o personagem Solid Snake da série Metal Gear.

O diretor J. J. Abrams (Star Wars VII – O despertar da Força) é outro fã do filme de John Carpenter e usou a imagem da cabeça quebrada da Estatua da Liberdade no filme Cloverfield (2008). 

2. Mad Max 2

Direção de George Miller

Título original: Mad Max: The Road Warrior 

Lançamento nos EUA: 28 de Abril

Dados: Continuação de Mad Max (1979), Mad Max 2 ou Mad Max: O guerreiro da estrada traz novamente o policial australiano Max Rockatansky, agora conhecido apenas como “O Guerreiro da Estrada”, vivido pelo ator Mel Gibson. Direção de George Miller.

Enredo: Após perder a esposa e o filho no primeiro filme, Max se vê aqui envolvido em meio a uma disputa por gasolina entre uma comunidade no meio do deserto e uma gangue de motoristas sádicos.  

Marcou época porque: Introduziu a estética dos filmes pós-apocalipticos ambientados em desertos e com a presença de gangues degeneradas, algo que se tornaria um recorrente elementos em filmes do tipo nas décadas seguintes. 

3. Star Trek II: A Ira de Khan

Direção de Nicholas Meyer

Título original: Star Trek II: The Wrath of Khan 

Lançamento nos EUA: 04 de Junho

Dados: Como a primeira produção lançada em 1979 rendeu abaixo do esperado, este segundo filme da franquia televisiva Star Trek foi realizado com orçamento menor, mas acabou por render mais que o anterior e foi elogiado por público e crítica.

Enredo: Durante sua missão de exploração do espaço o Capitão James T. Kirk encontra um antigo inimigo cuja sede por vingança ameaça toda a tripulação da Enterprise e a Federação. 

Marcou época porque: Estabeleceu dialogo com a história da franquia ao trazer um vilão da série na TV e também por ter dado início a uma tradição de Star Trek no Cinema em que os filmes pares são excelentes enquanto que os ímpares são ruins ou irregulares. Tradição que se mantém até hoje.

4. E.T. O Extraterrestre 

Título original: E.T. The Extraterrestrial 

Lançamento nos EUA: 25 de Junho

Dados: Uma das maiores bilheterias de todos os tempos (em valores atuais é a quarta maior bilheteria mundial), o filme consagrou o diretor Steven Spielberg como o maior nome do Cinema nos anos 80. 

Enredo: Um simpático ser extraterrestre é esquecido em nosso planeta e conta com a ajuda de um menino para voltar ao seu planeta e evitar ser capturado por agentes do governo norte-americano.

Marcou época porque: O interessante aqui é justamente o fato que E.T. não exerceu impacto nas produções posteriores a ele, sendo essencialmente um filme de seu tempo. 

Isso decorre talvez do apelo maior que seres extraterrestres maléficos e ameaçadores causam junto ao grande público, algo que destoa do clima de fantasia dessa produção de Spielberg. 

5. Blade Runner: O caçador de androides 

Direção de Ridley Scott

Título original: Blade Runner 

Lançamento nos EUA: 25 de Junho

Dados: Adaptação do diretor Ridley Scott do livro Os androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick. O filme recebeu críticas mornas da crítica e do público quando de seu lançamento, mas se tornou cult com o tempo.

Enredo: Um caçador de androides é encarregado de eliminar androides (chamados no filme de Replicantes) que estão apresentando um comportamento fora do programado. Enquanto tentar separar o humano do artificial ele se envolve com uma dessas criaturas e tem sua própria identidade questionada.

Marcou época porque: Trouxe para as telas do Cinema toda a estética cyberpunk que marcariam os anos 80 no Cinema e na Literatura de FC. Ao lado de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), Blade Runner é considerado pela crítica como um dos filmes mais icônicos da Ficção Científica. 

 6. O Enigma do Outro Mundo

Direção de John Carpenter

Título original: The Thing 

Lançamento nos EUA: 25 de Junho

Dados: Refilmagem do clássico de 1951, chamado no Brasil de O monstro do Ártico

Tanto o filme de 1951, como este de 1982 e mesmo sua refilmagem em 2011, são baseados no conto “Who Goes There?” (1938), do editor e escritor de Ficção Científica John W. Campbell, O Enigma do Outro Mundo renova a parceira entre John Carpenter na direção e Kurt Russell como protagonista após Fuga de Nova York. 

Enredo: Intrigados tanto pela morte de uma equipe norueguesa de pesquisadores quanto pela destruição de sua base um grupo norte-americano na Antártida eventualmente descobre que uma criatura extraterrestre capaz de assumir a forma humana está entre eles e fará de tudo para sobreviver. 

Marcou época porque: Exemplifica como o cinema de FC dos anos 80 foi a última década em que os efeitos especiais eram obtidos por meio de maquiagem, marionetes e animatônicos, algo que mudaria a partir dos anos 90 com a computação gráfica.

7. Tron 

Título original: Tron

Lançamento nos EUA: 09 de Julho

Dados: Ao lado de Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, foi um dos primeiros filmes a utilizar efeitos especiais de computação gráfica em uma época em que poucas pessoas tinham computadores em casa. 

Enredo: Jovem engenheiro de Software cai em uma armadilha corporativa e é digitalizado para dentro de um mundo virtual onde precisa lutar por sua vida ao lado de outros programas sencientes. 

Marcou época porque: Antecipa a percepção de que os computadores iriam mudar a sociedade contemporânea em todos os seus níveis. Além de mostrar o potencial da computação gráfica para o Cinema.

O interessante é que o filme não se saiu bem de bilheteria justamente porque muitas pessoas da época não entenderam a linguagem técnica cheia de palavras como “hackers”, “sistema de dados” e “softwares”.

Já assistiu a todos esses filmes?

Qual é o que você mais gostou? 

Gostou de alguma continuação ou refilmagem deles? 

Deixe seu comentário e assine o blog. 

Obrigado pela leitura e até a semana que vem.

Fontes utilizadas 

CLUTE, John. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter; SLEIGHT, Graham (Eds). The Encyclopedia of Science Fiction. Disponível em http://www.sf-encyclopedia.com/. Acesso em 06 de maio de 2017.

Você gosta de STAR WARS e GUARDIÕES DAS GALÁXIAS? Então você curte Space Operas

A SciFi que todo mundo lembra

No momento em que escrevo este post Guardiões das Galáxias 2 está nos Cinemas de todo o mundo com a promessa de não apenas oferecer mais diversão do que no primeiro filme, mas também, indiretamente, de continuar perpetuando as Space Operas como a mais popular expressão da Ficção Científica no Cinema.

Mas que diabos é uma Space Opera

A cotovia do espaço

As Space Operas estão intimamente relacionadas ao início da Ficção Científica na América nas primeiras décadas do século 20.

De fato, o próprio nome Science Fiction, ainda na forma primária da palavra scientifiction, surge pela primeira vez na edição de abril de 1926 da revista Amazing Stories em um comentário do editor Hugo Gernsback sobre o romance A cotovia do espaço (The Skylark of Space), de E. E. Smith.

Antes de A cotovia do espaço já haviam histórias de ficção científica centradas em aventuras espaciais, mas foi a partir da obra de E. E. Smith que temos reunidos três elementos característicos das Space Operas:  

  1. Um herói inventor e aventureiro;
  2. Gadgets tecnológicos utilizados pelo herói e o vilão;
  3. Ambientação no espaço;
  4. Escala

É justamente a escala cósmica a principal contribuição de A cotovia do espaço para a criação das space operas e suas narrativas passadas em universos complexos formados por sistemas planetários habitados por raças variadas nos quais o protagonista adentra para resolver conflitos diversos.  

Pense em Star Wars, Guardiões da Galáxia, O quinto elemento ou Valerian e você terá uma exata noção de uma Space Opera.

As histórias de sabão

De Flash Gordon a Star Wars, de Buck Rogers a Guardiões das Galáxias as operas espaciais tem seu nome ligado a quando o Rádio era o principal veículo de comunicação dos Estados Unidos no começo do século vinte.

Nesta época os seriados radiofônicos diários, equivalentes as novelas televisivas de hoje, tinham nas companhias fabricantes de sabão (soap) da América os seus principais patrocinadores.

Logo, as histórias patrocinadas por marcas deste produto receberam o apelido de Soap Operas, algo traduzido como “Histórias do sabão”.

O termo se generalizou para designar qualquer história dramática de longa duração ou dimensão para os lares americanos. Assim surgiram as Horse Operas, para identificar as histórias de faroeste e, em 1941, o escritor e editor Wilson Tucker criou o termo Space Opera

O lado negro das Space Operas

Se alguém perguntar a uma pessoa comum sobre o que é Ficção Científica, dificilmente a resposta não será algo sobre “histórias com presenças de naves espaciais, extraterrestres e armas de raio”.

O QUINTO ELEMENTO (1997), exemplifica bem o lado divertido das Space Operas

Este fato atesta a força das operas espaciais na historia da FC revelando dois lados desta realidade:

Por um lado, esta vertente da Ficção Científica ajudou a popularizar esta expressão do Fantástico para o grande público pelas histórias repletas de ação, cenários coloridos e roteiros simples.

Esta situação se manteve de forma dominante na Literatura de FC até a década de 50 do século vinte, e continua a ser uma forte tendência no Cinema até hoje.

MERCENÁRIOS DAS GALAXIAS (1980), clássico das Sessões da Tarde.

Do outro lado, porém, as Space Operas foram as grandes responsáveis por criar a falsa noção de que a Ficção Científica em geral é voltada para um público juvenil ou para pessoas que buscam uma forma de escape da realidade.

A partir dos anos 60, com o chamado movimento New Wave,  a Literatura de Ficção Científica passou  a incorporar temas ligados as Ciências Humanas e Sociais, como a Linguística, a Psicologia, a História e a Antropologia, fomentando assim obras também no Cinema que vem proporcionando reflexões sobre a sociedade contemporânea.

A CHEGADA (2016) mostra que a FC pode ser inteligente sem deixar de ser atraente para o grande público

São nas superproduções do Cinema norte-americano que as Space Operas encontram seu refugio para continuarem a promover, junto ao público, a crença de que a FC pode ser resumida aos mesmos temas e imagens encontrados nas publicações das revistas pulp de até meados do século vinte. 

Assim, se você quer ler ou assistir a uma obra de Ficção Científica sem questionamentos filosóficos ou complexidade de roteiro, então embarque na nave espacial mais próxima rumo ao planeta das operas espaciais.

Se você gostou do post, então compartilhe-o com seus amigos  terrestres e extraterrestres, deixe seu comentário e assine o blog.

Fontes utilizadas

CARNEIRO, André. Introdução ao estudo da “science fiction”. Brasópolis: /s.n./, 1997.

FIKER, Raul. Ficção científica – ficção, ciência ou uma épica da época?; Coleção universidade livre. Porto Alegre: L&PM, 1985.

ROBERTS, Adam. Science fiction: The New Critical Idiom. London: Routledge, 2000.

SCHOEREDER, Gilberto. Ficção científica. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

 

30 anos depois… você está no mundo cyberpunk dos anos 80?

Em 1987, há exatos trinta anos, Robocop: o policial do futuro estreou no Cinema norte-americano trazendo por trás de seu roteiro de ação e violência extrema um debate sobre a relação Homem x Máquina  na sociedade ocidental de fins de século vinte.

Muito melhor que a refilmagem do século 21.
ROBOCOP (1987)

Essa visão foi compartilhada por outros filmes dos anos 80, tais como Blade runner: o caçador de androides (1982) e Exterminador do futuro (1984).

O tempo só fez o filme ficar melhor
Clássico cult dos anos 80

Essa recorrência ao tema do impacto da tecnologia sobre a humanidade também se fez presente na Literatura e também no mundo das Histórias em Quadrinhos da época.

Clássico dos filmes de viagens no tempo
Exterminador modelo T-100

O ponto em comum a todas essas produções foi a percepção de que um novo subgênero da Ficção Científica ganhava força no período, demonstrando que os avanços da tecnologia não representaram avanços da sociedade como um todo.

Livro cyberpunk que influenciou Matrix (1999)
Neuromancer (1984)

30 anos depois de Robocop, e considerando o impacto da tecnologia no nosso meio, fica a pergunta:

Estaríamos em 2017 no mundo do Cyberpunk

Ghost in the Shell
Ghost in the Shell (1989)

O que é Cyberpunk?

Focando na ideia do High Tech e Low Life, ou seja, Alta Tecnologia e Baixa Qualidade de Vida, o Cyberpunk trata de narrativas onde os avanços e inovações tecnológicas convivem com a deterioração social.

Elysium (2013) mostra bem o contraste entre o High Tech e o Low Life.

Estas duas ideias estão presentes nos termos que compõem a palavra Cyberpunk.

Cyber-

Originado na palavra Cybernetics (Cibernética), Cyber- se refere a um futuro onde forças políticas e econômicas são globais em virtude da tecnologia empregada. 

Frequentemente estes locais de poder se apresentam separados e mesmo isoladas dos segmentos desprivilegiados do mundo cyberpunk.

Cyber- também se refere a manifestação no corpo da ligação entre homem e tecnologia.  

punk

O termo -punk tem origem no cenário musical dos anos 70, marcado pela crítica forte a cultura dominante e as instituições de poder.

O -punk, enquanto postura cultural, é antiautoritário, pessimista, anárquico e igualitário.

O Cyberpunk antes dos punks 

Ainda que o Cyberpunk tenha sua origem ligada as últimas décadas do século vinte, sua presença pode ser traçada já nas décadas de 50 e 60 do século vinte. Antes mesmo de receber esse nome.

A série ainda não foi lançada no Brasil
Capa da primeira edição de 1946

Nos anos da década de 1950 esse momento inicial está na série Gommerghast (1946-1956), de Mervyn Peake, em que Fantasia, Gótico e Ficção Científica se encontram em uma mesma obra.

O livro foi lançado em 1968 e serviu de base para o filme de 1982

Ainda na década de 50 e também ao longo dos anos de 1960, Philip K. Dick também explorou em seus contos e romances as angustias do homem moderno frente as mudanças de uma sociedade cada vez mais amparada na tecnologia e como essas mudanças afetam sua noção da realidade e de ser humano.

Bem-vindo a Matrix

A palavra Cyberpunk surgiu na edição de novembro de 1983 da revista Amazing Science Fiction com o conto “Cyberpunk”, de Bruce Bethke.

O termo foi posteriormente popularizado pelo editor Gardner Dozois para nomear as histórias de Ficção Científica de William Gibson e Bruce Sterling na década de 80, como a Trilogia do Sprawl.

Neuromancer é comumente aceito como o marco inicial deste subgênero da Ficção Científica nos anos 80 e apresenta os elementos que se tornaram padrão desta literatura:  

  • Governos opressores;
  • Mega corporações transnacionais;
  • Sistemas de Inteligência interligados;
  • Anti-heróis moralmente questionáveis e marginalizados. 

A década do Cyberpunk

Mas quais razões, afinal de contas, levaram o Cyberpunk a se tornar a principal vertente da Ficção Científica em fins do século vinte?

A crise do Petróleo nos anos 70 criou uma profunda crise econômica no Ocidente.

O Cyberpunk é o resultado de um série de eventos e fatores das décadas de 70 e 80 que se refletiram na ascensão de uma visão mais pessimista da sociedade.

Dentre estes fatores, destaco:

  • O aprofundamento da contestação do sistema por diferentes grupos sociais minoritários;  
  • A crise do Petróleo, que gerou uma profunda crise econômica ao longo da década de 70;
  • A ascensão de governos neoliberais na Inglaterra (Margaret Thatcher) e nos Estados Unidos (Ronald Reagan) que afetaram a classe trabalhadora e aprofundaram as desigualdades sociais;
Reagan e Thatcher

A Ficção Científica, como sempre, refletiu as grandes questões de seu tempo de forma crítica e esse cenário de pessimismo se aliou aos avanços na área da informática e da cibernética. O resultado desse caldeirão: o Cyberpunk.

O início dos anos 80 foi também o começo de uma era digital que rapidamente se disseminou

Mas até que ponto o mundo de hoje, se tornou o mundo de, por exemplo, Robocop?

O mundo Cyberpunk de agora

Sendo um produto hollywoodiano, vamos pensar, com base no roteiro, como Robocop reflete a realidade dos Estados Unidos de hoje e, mais próximo a nós, a realidade do Brasil.

1. Cenário

Filme: Em Robocop vemos a cidade de Detroit, de um hipotético Estados Unidos da América no futuro, deteriorada pela criminalidade, trafico de drogas e corporações empresariais corruptas e gigantescas.

Realidade: O escritor Ray Bradbury, autor da distopia Fahrenheit 451 (1953) dizia que não escrevia Ficção Científica para prever o futuro, mas sim para evitá-lo.  

Mas, como não pensar que o mundo distópico do filme marcado pela violência extrema, roubos, estupro e trafico de drogas não se assemelhe ao encontrado nas grandes metrópoles brasileiras? 

O mesmo ocorre com as corporações empresariais cyberpunks caracterizadas pela corrupção, como as envolvidas na Operação Lava Jato no Brasil, ou as companhias norte-americanas que agora tem seu raio de ação ampliado com o governo do megaempresário Donald Trump.

2. Mídia

Filme: A mídia do mundo cyberpunk de Robocop é tendenciosa, manipuladora, alienadora e conivente com o sistema opressor.

As propagandas veiculadas refletem o consumismo, a falta de atendimento de saúde para todos, as consequências da agressão ao meio ambiente (veja o vídeo acima).

Um exemplo disso, como se vê abaixo, é o apelo a violência diante da falta de confiança na polícia, como a do sistema anti-furto “Magnavolt”.

Realidade: Se é desnecessário apontar as semelhanças com o Brasil, ainda mais na atual polarização política em que está a nossa sociedade, a mídia tradicional dos Estados Unidos também não fica atrás, como bem mostra a cruzada do Wall Street Journal em minar a audiência do YouTube com a acusação de que a mesma veicula conteúdos racistas e anti-semitas.  

3. Marginalização da população

Filme: Aproveitando da situação de caos, a megacorporação OCP (Omni Consumer Products) assina um acordo com o governo para combater a violência tendo em mente, na verdade, acabar com a parte pobre de Detroit para construir um novo empreendimento, a utópica Delta City.

A OCP passa a controlar a força policial e implementa sua estratégia cibernética para combater o crime: Robocop.

Os policiais, todavia, não gostam da administração da OCP e ameaçam parar suas atividades.

Realidade: A realidade de desemprego em Robocop encontra seu paralelo no Brasil, onde a crise econômica levou até mesmo a Polícia a demonstrar seu descontentamento.

A greve da Polícia no Estado do Espírito Santo, ocorrida em fevereiro de 2017, e a situação de caos vivida pela população nesta situação evidencia o lado -punk do cyberpunk focando na parte da sociedade não agraciada com os benefícios do avanço tecnológico.

Nos Estados Unidos, por sua vez, a eleição de Donald Trump ameaça os avanços sociais da administração de Barack Obama

4. A opressão do sistema

Filme: Robocop ocupa o duplo lugar, comum nas distopias e no Cyberpunk, do agente do sistema dominante ou integrante do sistema, que sai de sua alienação e se revolta contra a opressão.

Ainda que atue contra os bandidos, é perceptível o espaço de Robocop como o lado cyber- que oprime a população -punk do filme.

Enquanto permanece como Robocop, ele a corporificação do sistema, sem emoções e guiado pela lógica fria das estatísticas.

Quando reassume o lado humano Alex Murphy, Robocop se torna o anti-herói marginalizado que usa do seu conhecimento prévio para atacar a mesma sociedade que o criou, em busca de reparar parte do desequilíbrio entre os dois lados da sociedade.     

Realidade: O mundo como um todo está tendo uma guinada para a Direita, seja no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. 

Neste processo, como se percebe mais de perto no Brasil, a lógica dos números dos políticos (Cyber-) vem suplantando o lado humano afetado pelas estatísticas e servindo de justificativa para políticas contra a população desfavorecida (-punk).

O mesmo vem ocorrendo nos Estados Unidos, com mais resistência por lá.  

E aí? Quais outros aspectos da sociedade Cyberpunk de Robocop e outras obras na Literatura e no Cinema de 30 anos atrás você percebe em nosso mundo de hoje? 

Deixe seu comentário.   

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Obrigado pela leitura e até a próxima semana! 

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este post pertente ao blog Fantasticursos.

 

 

Weird Fiction, New Weird, Interstitial Writing e Slipstream: Os caminhos da Literatura Fantástica hoje

Você gosta de Literatura Fantástica, não é?

Se você assiste a filmes ou lê obras ligadas a Fantasia, Gótico, Horror, Ficção Científica e Realismo Mágico tenho certeza que já percebeu uma certa mistura de gêneros no Fantástico de hoje.

Veja o caso, por exemplo, na Literatura YA (Young Adults), de obras como A Seleção (2012), da escritora norte-americana Kiera Cass, onde a distopia se encontra com o conto de fadas. 

Big Brother encontra Cinderela.

No entanto, essa subversão dos limites entre as narrativas do insólito não é de hoje.

“Tudo o que é solido se desmancha no ar”

O entre-cruzamento de fronteiras literárias no fantástico se tornou mais evidente a partir do fim do século dezenove e início do início do século vinte como reflexo do impacto das ideias de pesquisadores como Charles Darwin, Albert Einstein, Karl Marx e Sigmund Freud sobre o ser humano da época.

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A frase de Karl Marx resume a situação de um mundo cujas certezas ruíam rapidamente.

Dentro de seus campos de atuação, o trabalho desses pesquisadores, e outros mais, colocou em xeque as crenças e convenções religiosas, sociais e políticas que faziam o ser humano do período a entender o mundo e o seu lugar nele.

Gênero fantástico ou Modo fantástico?

No campo da Literatura Fantástica, a forma mais visível deste cenário de profundas e irreversíveis mudanças foi a acentuação da diferença entre dois tipos de Fantástico: gênero e modo

Não é objetivo central aqui apresentar em detalhes as diferenças entre o Gênero fantástico e o Modo fantástico, isso já foi tema no canal do FANTASTICURSOS no YouTube, mas basicamente tenha em mente que:

Gênero fantástico

Refere-se a um gênero literário nascido em fins do século dezoito como resultado da tensão entre o emergente racionalismo iluminista e as crenças religiosas e sobrenaturais herdadas da Idade Média.

O ponto inicial é o romance O diabo enamorado (Le Diable amoureux / 1772), do escritor francês Jacques Cazotte. 

O jovem Alvare invoca o diabo e este se apaixona pelo jovem espanhol. Ele então assume a forma da bela Biondetta e tenta seduzi-lo.

O gênero fantástico se caracteriza por apresentar uma narrativa marcada pela incerteza do protagonista (e, por tabela, de nós leitores) diante do acontecimento fantástico. 

Biondetta assume sua forma diabólica no momento da consumação do amor com Alvare e o jovem desperta como se estivesse em um pesadelo. Foi tudo real ou mero produto da imaginação do rapaz?

O acontecimento fantástico realmente aconteceu ou foi apenas um sonho? Ou foi o resultado do uso de drogas? Ou ocorreu pelo excesso de sono? Ou por causa do sofrimento pela perda da pessoa amada? 

É nesse terreno da incerteza entre o real e o sobrenatural que o gênero fantástico habita .

A metamorfose

Para alguns críticos, o gênero fantástico sofreu uma crise no fim do século dezenove e início do vinte, em decorrência do cenário de mudanças que mencionei acima.

Afinal de contas, o elemento sobrenatural de origem religiosa ou popular não mais provocava incertezas na mente do individuo imerso no mundo da Revolução Industrial.   

Uma das marcas dessa crise é a novela A metamorfose (1915), de Franz Kafka

Por que Gregor Samsa acordou em uma manhã transformado em inseto? 

Não há nenhuma explicação ao longo de toda a história.

Não há nenhum questionamento por parte do personagem das razões que poderiam ter levado ele a sofrer tal metamorfose. 

No entanto, mais importante que a mudança, o que interessa a Kafka é mostrar as consequências da mudança sofrida pelo jovem vendedor sobre a família de Gregor Samsa.

O gênero fantástico morreu?

Não. Assim como Gregor Samsa ele se metamorfoseou em outra coisa, mas a resposta mesmo fica para outro post.

Modo fantástico

Esse é Fantástico que vem a nossa mente quando pensamos nesta palavra.

O ÉPICO DE GILGAMESH (2.700 a.C.) é a obra escrita mais antiga da humanidade e é marcada por vários elementos fantásticos usados até hoje.

Refere-se, de modo geral, a narrativas no qual o manejo e a combinação de temas e elementos da narrativa (narrador, enredo, espaço, tempo e personagens) revelam a presença e influencia do insólito dentro da história.

“Fantástico”, aqui, deve ser entendido como um grande termo guarda-chuva embaixo do qual estão vários subgêneros e vertentes do romance.

A ODISSEIA (Séc. 8 a.C.), de Homero mostra como o Fantástico está na base da literatura ocidental.

Mitos, Lendas, Fábulas, Contos de fada, Romances Góticos, Horror, Terror, Ficção Científica, Realismo Mágico, Cordel, … Tudo está no reino do Modo Fantástico.

Veja agora abaixo algumas das configurações deste Fantástico pouco faladas no Brasil, mas que, desde o início do século vinte, vem apresentando novos olhares sobre as angustias e ansiedades da sociedade contemporânea.

São elas: Weird Fiction, New Weird, Interstitial Fiction e Slipstream.

Literatura Fantástica hoje 

Weird Fiction 

Ainda que esteja muito associada a América do início do século vinte a Weird Fiction possui raízes nas últimas décadas do século 19 no Reino Unido.

As histórias de fantasmas de M. R. James exploraram o terror de elementos do cotidiano.

Lord Dunsany influenciou Lovecraft com suas narrativas marcadas por lugares e criaturas estranhas.

O criador do termo foi o escritor irlandês Sheridan Le Fanu, escritor de, dentre outras obras, Carmilla (1872), novela que influenciou Bram Stoker na criação de Drácula (1897). 

A Weird Fiction, que em uma tradução aproximada para o Português poderia ser algo como “Ficção do Estranho” ou “Ficção do Bizarro”, se caracteriza por apresentar narrativas sobrenaturais cujo elemento macabro vai além do normalmente utilizado na literatura de Horror.  

Lovecraft e o Horror Cósmico 

O escritor norte-americano H. P. Lovecraft foi o grande promotor da Weird Fiction na América, algo ressaltado ainda mais pela sua associação com a revista Weird Tales. 

Lovecraft trouxe o racionalismo científico da América do começo do século vinte para criar histórias que iam além dos fantasmas, vampiros e casas assombradas do gótico e do horror tradicional.

Esta visão está expressa na sua definição de Weird Fiction, sendo que na tradução da Editora Iluminuras de 2008 o termo “Weird Fiction” foi substituída pelo mais genérico “história fantástica”:  

“A história fantástica genuína tem algo mais que um assassinato secreto, ossos ensanguentados, ou algum vulto coberto com um lençol arrastando correntes, conforme a regra. Uma certa atmosfera inexplicável e empolgante de pavor de forças externas desconhecidas precisa estar presente; e deve haver um indício, expresso com seriedade e dignidade condizentes com o tema, daquela mais terrível concepção do cérebro humano – uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da Natureza que são nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios dos espaços insondáveis”.

Obra representativa deste Weird Fiction lovecraftiano é o conto “O Chamado de Cthulhu” (1926), que introduz a temática do “Horror Cósmico”, exemplo da subversão das fronteiras entre o Horror e a Ficção Científica. 

Após Lovecraft, outros escritores de seu círculo, como Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, August Derleth e Robert Bloch  continuaram a explorar o potencial narrativo do Horror Cósmico e da Weird Fiction

Dica de leitura:

A melhor coletânea para compreender as origens e evolução da Weird Fiction.

A Segunda Grande Guerra mostrou horrores que superavam os temas praticados na Weird Fiction da primeira metade do século vinte.

Gradativamente, a partir dos anos 50, um novo modo de ler o bizarro do mundo começou a ganhar forma no New Weird

New Weird

O New Weird busca unificar os três principais gêneros do fantástico em Língua Inglesa: o Horror, a Fantasia e a Ficção Científica.

As primeiras menções ao New Weird se encontram em meados do século passado.

A trilogia Gormenghast, composta por Titus Groan (1946), Gormenghast (1950) e Titus Alone (1959), do escritor inglês Mervyn Peake é considerada um dos marcos iniciais do New Weird.

A relevância desta obra no cenário da Literatura Fantástica nos anos 50 foi ofuscada por outra trilogia lançada na época: O SENHOR DOS ANÉIS (1954-1955).

Misturando Gótico, Fantasia e Ficção Científica (inclusive antecipando elementos do Cyberpunk), Gormenghast anuncia a obsessão do New Weird com a cidade enquanto espaço da ocorrência do insólito.

Outro nome de destaque do New Weird é o do escritor inglês Clive Barker que, no final do século vinte, lançou a coletânea de contos em seis volumes Os Livros de Sangue (1984-1985).

“O futuro do horror”, assim o escritor Stephen King classificou o trabalho de Clive Barker.

A obra de Clive Barker refletiu a ênfase do New Weird nos aspectos grotescos relacionados a transformação, decadência e mutilação do corpo humano.

Clive Barker e o cenobita Pinhead, um dos vários seres bizarros que habitam as narrativas do escritor.

O inglês China Miéville é uma das principais vozes do New Weird no século vinte e um com romances como Estação Perdido (2000) e A cidade & a cidade (2009). 

Além dele, destaque para Hal Duncan, K. J. Bishop e Michael Moorcock.

Dica de leitura:

A coletânea de 2008 traz contos e ensaios sobre esta expressão do fantástico contemporâneo

Interstitial Writing

A proposta da Interstitial Writing encontra paralelo nos Estudos Culturais do crítico Homi Bhaba sobre a liminaridade, expressas em O local da cultura (1998):

“É na emergência dos interstícios – a sobreposição e o deslocamento de domínios da diferença – que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação [nationness] [grifo do autor], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados”

Ellen Kushner, Delia Sherman, Theodora Goss, Heinz Insu Fenkl e Terri Windling são os nomes por trás do início da Interstitial Writing.

“Melancholia with Demons”
Oil on Copper, 9” x 12”

Em 2002 eles fundaram a ISIS: the Interstitial Studies Institute com o propósito de discutir formas de arte – não apenas literária, mas também visual, musical e de performance – que buscam romper limites tradicionais.

Na Literatura, a Interstitial Writing exemplifica a busca do Pós-Modernismo em debater e subverter as fronteiras entre as expressões da criatividade humana.  

Os contos de O quarto do Barba Azul (1979), de Angela Carter podem ser lidos como exemplos de Interstitial Writing.

Dica de leitura:

INTERFICTIONS (2007) é recomendado como porta de entrada para a escrita intersticial por meio dos contos e da discussão apresentada.

Slipstream

Nascido nos domínios da Ficção Científica, o Slipstream é um termo cunhado pelo escritor norte-americano Bruce Sterling em um ensaio de 1989 publicado no fanzine SF Eye,

Bruce Sterling é também um dos criadores do Cyberpunk com coletânea de contos MIRROWSAHES (1986).

No texto, Bruce Sterling manifestava sua percepção de que algumas obras de fins do século vinte estavam subvertendo as convenções da Ficção Científica, ao trazer elementos da Fantasia e do Horror e cunhou o termo Slipstream, sinalizando que estas narrativas escorregavam (Slip – Escorregar) entre as vertentes do fantástico.

Para ele, a ficção Slipstream é, 

“um tipo de ficção que simplesmente faz você se sentir muito estranho; do jeito que viver no século 20 faz você se sentir, se for uma pessoa de certa sensibilidade”.

O Slipstream faz uso de estratégias literárias pós-modernas tais como a Alegoria, a Metaficção e o Pastiche na sua tentativa de ampliar as possibilidades da Ficção Científica em refletir sobre o mundo de hoje.

O romance O Conto da Aia (1985), da canadense Margaret Atwood, que mescla a estrutura da Distopia com elementos de contos de fada, pode ser entendido como um exemplo de ficção Slipstream.

Ted Chiang (autor do conto que deu origem ao filme A Chegada), Bruce Sterling, Michael Chabon, George Saunders são nomes representativos do Slipstream.

Dica de leitura:

FEELING VERY STRANGE: THE SLIPSTREAM ANTHOLOGY (2006), traz uma variedade de contos que constroem um panorama do que os editores James Patrick Kelly e John Kessel chamaram de modalidade difusa.

Algumas questões:

Uma rápida leitura das expressões do fantástico aqui apresentadas pode deixar a duvida se, de fato, há diferenças substanciais entre elas.

Ao pensar nas particularidades do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream, o escritor e editor Jeff Vandermeer aponta que, diferente das duas últimas, o New Weird não se preocupa em utilizar estratégias literárias pós-modernas que subvertem a realidade do texto ficcional ou chamam a atenção para a sua artificialidade;

Mas, quais seriam os pontos de distinção entre o Slipstream e o Interstitial Writing?

Existiriam na Literatura Brasileira da virada do século dezenove para o vinte e no meio literário nacional de hoje, representantes respectivamente do Weird Fiction, do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream?

Fica o convite para os pesquisadores do Fantástico.

Gostou do post?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos fantásticos e normais.

Até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BESSIÈRE, Irène (2009). “O relato fantástico: forma mista do caso e da adivinha”. (Biagio D’Angelo, Trad.). In Revista Fronteiraz, (vol. 3, nº 3, Setembro). São Paulo: USP, pp. 185 – 202.

CESERANI, Remo (2006). O fantástico. Trad. Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR.

JOSHI, Sunand Tryambak (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, Sunand Tryambak (Eds.). (2001). The Modern Weird Tale. North Carolina: McFarland & Company.

KELLY, James Patrick; KESSEL, John. (Eds.) (2006). Feeling Very Strange: The Slipstream Anthology. Tachyon Publications. San Francisco. 2006

LOVECRAFT, Howard Phillips (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

SHERMAN, Delia; GOSS, Theodora (Eds) (2007). Interfictions: An Anthology of Interestitial Writing. Boston: Interstitial Arts Foundation.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

STERLING, Bruce. “Slipstream”. Disponível em: < https://w2.eff.org/Misc/Publications/Bruce_Sterling/Catscan_columns/catscan.05 > Acesso em: 08 mar. 2017.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2008). The New Weird. San Francisco: Tachyon Publication.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The Weird: A Compendium of Strange and Dark Stories. New York: Tor Book.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Será que você é um canibal? O canibalismo no fantástico (Parte 2)

Na primeira parte do post sobre a relação entre o Canibalismo e o Fantástico, que você pode acessar clicando aqui, apresentei um breve panorama de como a prática de comer carne humana acompanha a história da humanidade antes mesmo dela surgir na mitologia grega passando pela Idade Média e chegando aos contos de fadas que conhecemos.

Cronos versus Zeus: Canibalismo mitológico.

Neste segunda parte do post, você vai ver como o canibalismo se tornou uma linha divisória entre o civilizado e o bárbaro, entre o humano e o monstruoso.

A comédia zumbi SANTA CLARITA DIET permite refletir sobre rotina e acomodação na sociedade moderna.

Vai ver também como ele se tornou um simbolo das ansiedades do ser humano no mundo de hoje, algo visto na série da Netflix Santa Clarita Diet e no filme Grave (Raw, no original em inglês).

A relação do individuo com o corpo nos tempos modernos aparece refletido no filme

Se você quer ler logo sobre como o fantástico interpreta o mundo por meio do canibalismo, antes de conhecer a história da prática de se comer carne humana, clique aqui

O Canibal é americano

Polifemo era filho de Poseidon com uma ninfa da água

Quando os europeus se lançaram ao mar no século 15 e 16 eles levaram em seus navios todo o imaginário herdado dos relatos da Antiguidade sobre criaturas monstruosas e canibais, como o do ciclope Polifemo, que devorou os homens de Ulisses na obra A Odisséia.   

O monstro nos confins do mundo

A Literatura de Viagens da época, seguindo essa crença, era repleta de relatos de criaturas antropofágicas que viviam em regiões da Etiópia e da Índia, como os Cinocéfalos, homens com cabeça de cães.

Os cinocéfalos se alimentavam dos viajantes incautos

A chegada dos europeus as Américas trouxe a revelação de que alguns dos povos indígenas do continente consumiam carne humana em rituais religiosos.

Representação do canibalismo da tribo brasileira dos Tupinambá em 1557, conforme descrição de Hans Staden.

Esse ritual visava adquirir a coragem dos guerreiros inimigos capturados ou como parte de oferenda para os deuses.

Canibal ou Antropófago? 

Foi neste contexto que, ao observarem os índios antropófagos das ilhas do Caribe, os exploradores criaram a palavra “Canibal”

A prática do canibalismo foi um dos motivos alegados pelos europeus para a escravidão indígena, com o pretexto de que eles não eram humanos.

Mas, qual é a diferença entre Canibalismo e Antropofagismo? 

Todo antropófago é canibal, mas nem todo canibal é antropófago.

Explico.

O Canibalismo ocorre quando um individuo de uma espécie come outro representante da mesma espécie. Não é exclusivo do universo humano.

No caso do Louva-a-deus o canibalismo é cometido pela fêmea, que devora o macho depois do ato sexual.

Já a Antropofagia (do grego anthropos, “homem” e phagein, “comer”) ocorre especificamente quando um individuo humano come a carne de outro ser humano.

Canibais brancos e cristãos

Ainda que após o contato entre europeus e os povos indígenas, estes últimos tenham sido associados a antropofagia, os colonos brancos (e cristãos) também não ficaram de fora.

Durante o ano de 1609 na cidade de Jamestown, uma das primeiras experiências colonizadoras na América, os colonos ingleses precisaram recorrer ao canibalismo como forma de sobreviverem ao rigoroso inverno que se abateu sobre o assentamento. 

O canibal é o outro

Sendo um dos principais tabus da humanidade, o canibalismo sempre é associado a alguém pertencente a alguém de outro grupo. Nunca a nós.

O Kindilfresser é um comedor de crianças da Suíça cujas origens podem estar relacionadas ao preconceito contra os judeus.

Judeus, muçulmanos, índios, negros… todos os que não pertenciam ao padrão branco, cristão e europeu eram enxergados como canibais em potencial.

O Papa figo é um negro leproso que coloca as crianças no saco para depois comer o figado delas.

No folclore do Brasil, esse preconceito está expresso em criaturas canibais ligadas ao medo infantil, tais como o Papa figo e o Quibungo.

O Quibungo é negro e tem uma bocarra nas costas por onde ele enfia as crianças que pega.

Para saber mais sobre essas e outra criaturas, leia o post aqui do blog “Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?”

O canibalismo no Cinema

Depois de passar pela Mitologia e pela História, o canibal encontrou no Cinema o espaço ideal para mostrar seu apetite.  

Os pais dos canibais cinematográficos

Dois filmes da década de 1960 foram os responsáveis por promover uma verdadeira invasão de comedores de carne humana no Cinema dos anos setenta.

Para assistir ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

  1. Mondo Cane (1962)

Produção italiana que inaugurou o gênero Shockumentary, este filme traz vários costumes e práticas de povos e comunidades ao redor do mundo, dentre os quais, o canibalismo.

2. A noite dos mortos-vivos (1968) 

Filme que reinventou o personagem folclórico do zumbi no cinema e introduziu o tema do canibalismo no fantástico. O primeiro zumbi canibal está aqui

Se quiser saber mais sobre zumbi, veja o vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 curiosidades monstruosas: Zumbi”.

Os anos de fartura para o canibal

Os anos setenta foram os anos dourados do canibalismo no Cinema dado o grande número de produções na Itália e nos Estados Unidos com esta temática.

Estes filmes podem ser encontrados no YouTube e para assistir abaixo ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

Cito abaixo as produções mais relevantes para a Ficção Científica e o Horror:

  1. No mundo de 2020 (Soylent Green / 1973) 

Se A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells é o primeiro romance de ficção cientifica a tratar do canibalismo, No mundo de 2020 é a primeira distopia a tratar do tema no Cinema. 

Vivendo em um mundo onde a ração Soylent Green é distribuída a população faminta, o policial vivido por Charlton Heston inicia uma investigação sobre a morte de um executivo que o leva a descobrir do que a ração é feita.

2. O massacre da serra elétrica (The Texas Chain Saw Massacre / 1974)

Clássico do Horror, o filme de Tobe Hooper ganhou uma refilmagem em 2013 para celebrar os 40 anos do original. 

O filme introduziu o canibal Leatherface, considerado um dos maiores vilões de todos os tempos e que antecipou outros assassinos de adolescentes nos anos seguintes em filmes como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

3. A montanha dos canibais (La montagna del dio cannibale / 1978)

Trazendo a bela Ursula Andress como protagonista, este filme se insere nas produções do ciclo canibal italiano iniciada em 1972 com The Man from the Deep River e apela para a temática da Literatura de Raças Perdidas como pretexto para cenas de nudez, violência extrema e até zoofilia, por conta da cena de um canibal transando com uma porca!

O canibal no espelho

As últimas décadas do século vinte e o início do século vinte e um forneceram o contexto para uma renovação do canibalismo no Cinema ao subverter a fronteira entre o civilizado e o selvagem, entre o Eu e o Outro. 

A modernidade faz do ser humano um canibal.

Este é o caso dos filmes abaixo. Para assistir aos trailers, basta clicar nas imagens.

1. Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust / 1980)

Ao contrário do que se pode pensar, Bruxa de Blair (1999) não foi o primeiro filme de horror do gênero Found footage e Mockumentary, isto é, produção que simula a descoberta de material de filmagem de um equipe cinematográfica desaparecida durante a realização de pretenso documentário.

Na frente das câmeras, documentaristas idealistas, por trás das câmeras, sádicos urbanos

Este mérito cabe a Holocausto canibal, conhecido como “O filme mais polêmico e controvertido de todos os tempos”.  

Banido de vários países, esta produção italiana levou o diretor Ruggero Deodato aos tribunais por ser acusado de realizar um Snuff Movie, ou seja, um filme em que um assassinato real é realizado para fins lucrativos e de entretenimento.

Na ocasião ele teve de provar que todos os atores estavam vivos e bem.

No filme, a equipe de filmagem agride os indígenas de todas as formas.

O maior impacto de Holocausto canibal foi deslocar a barbárie dos índios canibais para os jovens cineastas, que praticaram todo o tipo de crueldade com os indígenas em busca de um documentário impactante.

A cena da câmera que fica gravando depois da morte do último personagem, foi inventada neste filme.

O resultado foi a vingança dos nativos contra uma nova espécie de monstro: o homem civilizado.

2. O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs / 1991)

Adaptação do segundo romance de 1988 de Thomas Harris, este filme ganhador de vários óscares apresenta no cinema o psiquiatra Hannibal Lecter.

Vencedor de vários prêmios, o filme rendeu o Oscar de Melhor Ator para Sir Anthony Hopkins.

Culto, cortês e elegante, mas também sádico, manipulador e… canibal, Hannibal Lecter é a incorporação do ambiente de fim de século, mostrando que por trás da capa superficial de civilidade do ser urbano existe um monstro pronto a emergir.     

3. Psicopata americano (American phycho / 2000)

Baseado no romance de 1991 de Bret Easton Ellis e adaptado para o cinema em 2000, a obra é ambientada nos anos oitenta e traz como protagonista um Yuppie extremamente competitivo e narcisista.

O filme traz o sempre excelente Christian Bale como o psicopata Patrick Bateman.

Assim como o livro, o filme foi cercado de polêmicas sobre os limites entre a arte e a violência gratuita.

Crítica feroz ao Capitalismo selvagem, Psicopata americano perturba por criticar uma geração que quanto mais tinha menos sentia, quanto mais subia na carreira profissional mais descia na civilidade a ponto de, em uma escalada de violência, se tornar canibal.

4. A estrada (The Road / 2009)

Nesta distopia baseada no romance de 2007 do escritor Cormac McCarthy e premiado com o Pulitzer, pai e filho precisam atravessar uma América pós-Apocalíptica rumo a um local seguro enquanto enfrentam, entre outros perigos, pessoas que aderiram a prática do canibalismo.

Os recentes casos de barbárie e vandalismo presenciados no início de 2017 tanto nos presídios brasileiros por conta da luta entre facções quanto no estado do Espírito Santo em virtude da greve da polícia não deixam duvidas sobre o canibalismo ser uma realidade a se temer quando da decadência da sociedade.  

5. Grave (Raw / 2017)

Justine é uma jovem vegetariana que acaba de ingressar na faculdade de Veterinária seguindo, assim, os passos da família.  

O problema é que, após sofrer um trote no qual precisa comer carne, a menina começa a manifestar impulsos canibais. 

Bullying, distúrbios alimentares, culto ao corpo, relacionamento amoroso nos tempos atuais, tudo passa pela temática do canibalismo neste que promete ser um dos filmes mais polêmicos do ano de 2017.

6. Santa Clarita Diet (2017)

Esta série cômica da Netflix prova que o zumbi ainda pode render boas histórias quando os roteiros ajudam a contar uma boa história.

A série não foca nos motivos que levaram a corretora de imoveis Sheila a ser tornar uma morta-viva, preferindo mostrar as consequências dessa transformação sobre sua família.

Os episódios centram na gradual adaptação da família ao nova condição da mãe e esposa, ao mesmo tempo em que mostra a personagem se sentindo mais viva do que nunca depois que morreu e passou a comer pessoas.

Vale assistir. 

Gostou? Então lembre que o vídeo desta semana do FANTASTICURSOS no YouTube também é sobre Canibalismo. 

Basta clicar aqui.

Então deixe seu comentário ai embaixo e compartilhe este post com seus amigos carnívoros, vegetarianos, veganos e canibais.

Até a próxima semana.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Todo negro quer ter o cabelo liso; Ou Yes, nós temos Ficção Científica

Imagine um futuro em que, para se casar e ter filhos, você precisasse provar antes, para uma comissão, que geraria alguém sem problemas físicos ou mentais.

“Você deve ter um Certificado Eugênico”.

Imagine um futuro em que a ordem social foi alcançada por meio da esterilização de alcoólatras, pervertidos sexuais e pessoas portadoras de necessidades especiais.

Propaganda da Alemanha Nazista incentivando a Eutanásia mostrando os custos para o pais do tratamento de deficientes mentais.

Imagine um futuro em que os negros, após terem conseguido embranquecer a pele, também ansiassem por terem os cabelos lisos e sedosos.

A propaganda da empresa de cosméticos L’Oréal causou polêmica por embranquecer o tom da pele de Beyoncé.

E se o processo de alisamento dos cabelos escondesse um segredo mortal para a população negra?

Bem vindo ao futuro de O Presidente Negro, ou O Choque das Raças (1926), de Monteiro Lobato. 

Monteiro Lobato foi o Pai da Literatura Infantil Brasileira e ardente defensor do progresso do Brasil.

Se você quer logo saber como a distopia do criador de O Sítio do Pica-Pau Amarelo exemplifica os momentos iniciais da Ficção Científica no Brasil no começo do século vinte, antes de conhecer as raízes da FC brasileira e sua dificuldade de se estabelecer no país, clique aqui

Da Europa a Hollywood

O impacto da Revolução Industrial na Inglaterra do século dezenove, representada, por exemplo, na invenção de máquinas que tiraram o emprego das pessoas no campo e criaram fábricas na cidades, promoveu o ambiente literário para o nascimento da ficção científica, através do romance gótico Frankenstein (1818), da escritora inglesa Mary Shelley.

Já na era vitoriana (1837-1901), a FC se desenvolveu em uma nova vertente romanesca nas “Viagens Extraordinárias” do francês Julio Verne e nos “Romances Científicos” do inglês H. G. Wells.

O francês Julio Verne e o inglês H. G. Wells. Pais da Ficção Científica.

Será nos Estados Unidos da América que, em 1926, o termo “Ficção Científica” será criado pelo editor tcheco naturalizado norte-americano Hugo Gernsback através das revistas pulp como, dentre outras, Amazing Stories e Science Wonder Stories.

A partir da palavra “Scientifiction” surgiu o termo “Science Fiction”.

Alinhado com o momento de avanço tecnológico e interesse pela ciência presente na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte, Hugo Gernsback, ao lado de outros editores e publicações, criaram o ambiente necessário para o desenvolvimento de uma cultura de FC.

Flash Gordon, principal representante dos heróis das Space Operas da FC da época.

Esta base permitiu que temas e ideias fossem criadas, exploradas, reinventadas e disseminadas por escritores e leitores nos anos das décadas de 1920 a 1950, levando a Ficção Científica a se estabelecer na cultura americana e se espalhar para outros veículos, como a TV e o Cinema do país.  

E a Ficção Científica Brasileira?

O Brasil não conheceu uma Pulp Era, como a dos norte-americanos, que ajudou a ficção científica a se estabelecer no mercado.

Uma das causas desse fenômeno, segundo o escritor e crítico Bráulio Tavares, foi o fato de que, diferente do observado na história do nosso país, o papel transformador desempenhado pelo progresso e a tecnologia no processo de formação da sociedade norte-americana permitiu que a ficção científica encontrasse um meio receptivo junto ao grande público daquele país.

A pintura AMERICAN PROGRESS (1872), de John Gast, retrata a importância da educação e do pensamento cientifico no crescimento do país. Por onde o Progresso passa, espalhando a eletricidade e trazendo a locomotiva, as trevas vão se retraindo.

Já para Murilo Garcia Gabrielli, nossa literatura fantástica, e incluo ai a ficção científica, tem seu início no final do século dezenove e começo do vinte via a forte influência da cultura inglesa e francesa na formação da elite literária do país.

Século dezenove: doutores e rainhas

No excelente Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (2003), Roberto de Sousa Causo, defende que a ficção científica começa no Brasil com a obra O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar.

 Visivelmente influenciado pelos romances de Julio Verne, O Doutor Benignus relata uma expedição ao Brasil Central a partir de onde o cientista do título quer provar que o Sol é habitado por criaturas vivas.  

Outra obra precursora do Fantástico brasileiro, tanto da FC na vertente das Utopias literárias quanto da Fantasia, é A Rainha do Ignoto (1899), da cearense Emília Freitas

Inovador na época por ter sido publicado por uma escritora e também por trazer uma mulher como protagonista, o romance mescla utopia e fantasia ao mostrar como a rainha de uma terra encantada habitada exclusivamente por mulheres percorre o Brasil para libertar mulheres de seu sofrimento físico e mental.

O admirável mundo novo da República Velha

Após as experiências isoladas de Augusto Emilio Zaluar e Emília Freitas, a Ficção Científica brasileira começa a ganhar corpo e regularidade ao longo da República Velha (1889-1930) em duas fases com características distintas:

  1. Durante a Belle Époque (1889-1914);
  2. Durante o período entre-guerras mundiais (1914-1930).

O lado feio da Belle Époque

As narrativas de ficção científica se desenvolvem como reflexo dos efeitos reformadores da Belle Époque (1898-1914) sobre as metrópoles brasileiras, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo. 

A Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, foi um marco da obsessiva busca das elites brasileira em se aproximar da França, modelo cultural do período.

Nesse período, em que o sujeito urbano se viu alienado e perdido em meio as profundas transformações da cidade carioca levadas a cabo pelo progresso científico, as narrativas de ficção científica brasileira se manifestaram por meio tanto da Ciência Gótica, quanto da postura artística de fim de século chamada Decadentismo.

Para um melhor entendimento da Ciência Gótica e do Decadentismo, recomendo a leitura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado clicando aqui.

Para Bráulio Tavares, a Ciência Gótica é representada por narrativas que mesclam FC e Gótico de forma que a Ciência é usada em situações bizarras, estranhas e grotescas. Como é o caso de FRANKENSTEIN.

Os escritores Coelho Neto e João do Rio são os principais representantes desta ficção científica dark brasileira. 

Dentre os vários romances e contos filiados ao fantástico, destaque em Coelho Neto para o romance Esfinge (1908), no qual Espiritismo e Ciência Gótica se unem para descrever a angústia existencial de um ser andrógino fabricado pela união de um corpo masculino e rosto feminino. 

Jornalista, escritor e cronista da Belle Époque, João do Rio foi responsável por introduzir a obra do também decadentista Oscar Wilde no Brasil.

Já nos contos e crônicas de João do Rio o que se tem são narrativas decadentistas em que o progresso e a ciência ressaltam as taras e psicoses dos habitantes urbanos.

O lugar ruim do entre-guerras

A partir dos anos da década de 1920, a Ficção Científica brasileira se alinhou com o ambiente de incertezas dominante na Europa e Estados Unidos do período entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Grande Guerra.

Este cenário levou a criação de Distopias literárias que refletiram a busca de soluções para o país por parte de pensadores e intelectuais.

NÓS (1922), de Yevgeny Zamyatin é considerada a primeira distopia moderna e serviu de referência para as distopias 1984 e ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.

No Brasil, as elites enxergaram no povo brasileiro, e mais especificamente, na constituição miscigenada do país, o responsável pelo atraso da nação.

O REINO DE KIATO (1922), de Rodolpho Theophilo, publicado pela editora de Monteiro Lobato.

Esta crença ganhou forma em utopias/distopias literárias como O reino de Kiato (1922), de Rodolpho Theophilo, A Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls, e Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500 (1929), de Adalzira Bittencourt. 

Como elemento em comum, estes romances trazem sociedades cujos problemas sociais foram eliminados pela aplicação do pensamento eugenista, ou seja, da crença da superioridade de uma raça sobre outra e o controle de tipos humanos indesejáveis por meio da ciência.

No Brasil, os indesejados eram o negro, o índio e o caboclo.

Mas, dentre todas as distopias no Brasil da época, nenhuma superou o romance O Presidente Negro, de Monteiro Lobato devido a influencia do seu autor no meio literário e intelectual da época.

O Presidente Negro, ou O Choque das Raças

Lobato achou que o livro venderia milhões nos Estados Unidos, mas os americanos se recusaram a publicar o romance.

Escrito originalmente em 1926 para o rodapé da revista A Manhã, de Mário Rodrigues, O Presidente negro ou O choque das raças (romance americano do ano 2228) se estrutura em dois planos:

No primeiro, o leitor é posto frente à narrativa do protagonista Ayrton, que é resgatado pelo professor Benson em meio aos destroços de um acidente de carro e é convidado pelo idoso a testemunhar os seus experimentos em sua casa enquanto recupera sua saúde.

Já no segundo plano, o romance mostra como, por meio de um aparelho chamado de “Porviroscópio”, Ayrton e Miss Jane, filha do Dr. Benson, conseguem ver os acontecimentos na América do futuro.

Os elementos que levaram O Presidente negro a ser considerado, na expressão de Fausto Cunha, “um precursor indesejável” da ficção científica brasileira, devido ao seu teor elitista, excludente e racista, estão presentes desde o início do enredo, ambientado no período do entre guerras.

Como reforça o Prefácio dos editores da segunda edição, de 1945, 

[…] [o romance] encerra um quadro do que realmente seria o mundo de amanhã, se fosse Lobato o reformador – e em muitos pontos havemos de concordar que sob aparências brincalhonas brilha um pensamento de grande penetração psicológica e social. O conserto do mundo pela eugenia, […]  

As ideias de reforma social de H. G. Wells, pai da FC inglesa, exerceram grande influencia sobre Monteiro Lobato.

Em O Presidente negro esse projeto social lobatiano tem um alvo direto: o negro.

Considerada um entrave ao pleno desenvolvimento dos Estados Unidos da América, a população negra, dentro do romance, passou a ser objeto de uma série de medidas que visavam controlar a sua expansão.

Para isso foi criado um “Ministério da Seleção Artificial” cujo objetivo era aplicar a Lei Owen de 2031, quando a eugenia se tornou política pública e passou a eliminar os impuros, ou seja, as pessoas com deficiência física e mental, criminosos e prostitutas.

No entanto, os negros não apenas sobreviveram como também aumentaram o seu número.

A expatriação dos negros não é um processo viável devido aos altos custos envolvidos na operação. Outro fator agravante na situação dos negros norte-americanos em O Presidente negro foi a despigmentação a que os mesmos se submeteram para eliminar a cor escura, transformando-os em albinos.

Esse procedimento aumentou o ódio dos brancos por igualar negros e brancos em termos de cor de pele, e isso mostra que o racismo se alicerça em bases invisíveis, se alimentando da intolerância em relação ao Outro.

Diante da resposta de Ayrton de que o Brasil foi mais pragmático por promover a miscigenação entre as raças como solução para o desaparecimento dos negros, a cientista retruca:

A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável peora de caráter, conseqüente a todos os cruzamentos entre raças dispares. Caráter racial é uma cristalização que ás lentas se vai operando através dos séculos. O cruzamento perturba essa cristalização (p. 206).

A tensão entre negros e brancos alcança o seu limite na octogésima oitava eleição presidencial norte-americana, que acaba na vitória do candidato negro Jim Roy.

Jim visita o Presidente Kerlog para propor um novo futuro de convivência pacífica entre brancos e negros. Kerlog, porém, surpreende o líder negro:

“Como homem admiro-te, Jim . Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar…” (p. 271).

Os brancos não tardam a agir, mesmo que desafiando a Constituição ao não legitimar o vitorioso de uma eleição livre.

O Presidente Kerlog, no entanto, tem resposta para isso:

“Acima da Constituição vejo o Sangue Ariano. O negro nos desafia. Cumpre-nos aceitar a luva e organizar a guerra” (p. 279).

A resposta para o Presidente negro vem de uma invenção do cientista Dudley.

Contando com a felicidade dos negros norte-americanos por terem eleito um Presidente dos seus e sabendo do desejo dos negros de terem os cabelos lisos, o cientista oferece uma solução para os cabelos crespos da população através da exposição aos raios Omega:

“Vir agora, e assim de chofre, o resto, o cabelo liso e sedoso, a supressão do teimoso estigma de Cam,” (p. 298).

O que os negros não sabiam, porém, era que o aguardado tratamento voltado para alisar-lhes o cabelo tinha como propósito verdadeiro a completa esterilização da raça negra

Após toda a população negra ser submetida ao tratamento, é Kerlog quem avisa ao negro Jim Roy sobe o fim dos seus semelhantes:

“Tua raça morreu, Jim, […] o branco pôs um ponto final no negro da America” (p. 317).

Jim é o único a saber da armadilha dos brancos e se suicida antes de tomar posse.

Para evitar uma revolta, o governo lança uma boneca dançarina que cativa toda a nação e abafa o debate sobre o suicídio de Jim. 

Um nova eleição é realizada e Kerlog é mais uma vez eleito Presidente.

Eventualmente os negros são informados que eles foram incluídos no rol dos indesejados da Lei Owen e, por isso, tiveram de ser eliminados.

Como vivemos em tempos de intolerância ideológica da Direita e da Esquerda, não apenas no Brasil, mas no mundo, penso ser importante enfatizar aos que sugerem que a obra de Monteiro Lobato seja proibida de circular nas escolas por conter elementos racistas que se lembrem que Monteiro Lobato era um homem de seu tempo e, portanto, inserido nas ideias de seu tempo e é sob tal perspectiva que o educador e o eventual detrator de sua obra deve analisá-lo, reconhecendo também seu talento literário na ficção.

Para e Pensa

Por fim, duas questões:

Primeiro, ainda que eu não tenha abordado a história da FC a partir da década de 30 com autores como Berilo Neves e Jerônýmo Monteiro (assunto para outro post), se pode perceber pelo o que foi mostrado aqui que a Ficção Científica brasileira possui uma significativa produção literária de qualidade.

Então a questão é: Por que a FC brasileira não decola para o infinito e além e se estabelece? 

Por que, ao contrário da Fantasia de um Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhoz e do Gótico de um André Vianco, não temos autores e obras relevante da Ficção Científica?

Falta originalidade? Falta o tratamento de temas clássicos por uma perspectiva verde e amarela? Deixe sua opinião

Segundo, destaco a dedicação de escritores e críticos que por mais de trinta anos vem incansavelmente trabalhado para demonstrar a força e valor da FC brasuca.

São eles, dentre outros: Bráulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Marcello Branco e Roberto de Sousa Causo.  

Esta iniciativa também é levada a cabo por blogs variados, dentro os quais destaco:

Fantasticontos

Mensagens do Hiperespaco

Momentum Saga

Gostou?

Deixe seu comentário estelar aí e compartilhe o post com seus amigos terrestres e extraterrestres.

Obrigado e até a semana que vem.

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CARVALHO, J. M. de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DIWAN, Pietra. Eugenia, a biologia como farsa. In: História viva. São Paulo, Edição 49, ano V, p. 76-81, 2007.

FAUSTO, Boris. O pensamento nacionalista autoritário: 1920-1940. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

GABRIELLI, Murilo Garcia. A obstrução ao fantástico como proscrição da incerteza na literatura brasileira. Rio de Janeiro, UERJ, Instituto de Letras, 2004. 157 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

LOBATO, Monteiro. O presidente negro. In: ___. A onda verde e O presidente negro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1966. (Obras completas de Monteiro Lobato – vol 5).

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

SILVA, Alexander Meireles. O admirável mundo novo da república velha. Rio de Janeiro, UFRJ, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Disponível em http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/pos/trabalhos/2008/alexandermeireles_oadmiravel.pdf . Acesso em 16 fev, 2017.

TAVARES, Bráulio. Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

2017 marca os 80 anos de morte do escritor norte-americano Howard Philips Lovecraft e os 100 anos de criação de sua primeira obra na fase adulta: “Dagon”.

Stephen King e Neil Gaiman consideram H. P. Lovecraft como o Mestre do Horror moderno

Este conto é o marco inicial do conjunto de contos e romances marcados pela presença de criaturas monstruosas e aterrorizantes com origem em outros planetas e dimensões. 

“Dagon” foi publicado pela primeira vez em 1919 na revista VAGRANT e foi republicado na revista WEIRD TALES em 1923.

Conhecidos posteriormente como integrantes dos “Mitos de Cthulhu”, em menção a divindade apresentada no conto “O chamado de Cthulhu”, publicado em 1928, estes monstros são apresentados como entidades cósmicas que não apenas já estiveram em nosso plano terrestre, mas também já governaram a humanidade em tempos remotos, esquecidos pela história. 

Primeira publicação de “O chamado de Cthulhu” na edição de fevereiro de 1928 da revista WEIRD TALES.

Se nas narrativas de H. P. Lovecraft os Antigos, como são chamadas algumas destas criaturas, ainda aguardam o seu retorno a nossa realidade, na vida real eles estão prontos para invadirem, em 2017, o nosso plano como parte dos eventos, publicações e lançamentos na merecida (e tardia) celebração dos 80 anos da obra de seu criador.

“Feliz Aniversário post-mortem pai!”

Se você quer conhecer logo os 7 monstros de H. P. Lovecraft que vão te encontrar em 2017, antes de conhecer a polêmica racista e xenófoba por trás de sua criação, clique aqui.

América, pais do futuro

As primeiras décadas do século vinte na América foram marcadas por rápidas e profundas mudanças na sociedade norte-americana promovidas pela fé depositada no progresso.

Charles Chaplin em TEMPOS MODERNOS (1936).

Esta situação forneceu a base para a ascensão da Ficção Científica, como vertente do fantástico mais alinhada com os desafios postos pela modernidade, assim definida por Marshall Berman no livro Tudo que é sólido desmancha no ar (1986):

“Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. /…/ ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia”.  

É a partir deste quadro de ameaça a permanente desintegração, de mudança e angústia do sujeito moderno, também caracterizada pela crescente presença de imigrantes na sociedade americana, que Lovecraft formulou os monstros híbridos de seu panteão.

Asiáticos, Irlandeses e habitantes do leste europeu eram os principais interessados em desfrutar do “American Dream”.

O cavalheiro de Providence contra os monstros

Pertencente a uma das famílias mais tradicionais de Providence, cidade do Estado de Rhode Island fundada nos primórdios da colonização puritana na América, Lovecraft já demonstrava, em seus primeiros contos como “A tumba” e “Dagon”, sua natureza conservadora e anglófila, refletindo sua resistência ao grande número de estrangeiros na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte. 

A Estátua da Liberdade dá as boas vindas aos imigrantes.

Posição esta que, de fato, era compartilhada por setores conservadores da sociedade branca dos Estados Unidos da época.

Para Caio Alexandre Bezarias em Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft (2006), essa presença de grupos étnicos e culturais diversos e o choque com a tradição dos norte-americanos representou uma das facetas mais expressivas da modernização do país:

“A presença dos mestiços e imigrantes que tinham tomado de assalto os espaços abertos das cidades – despreparadas para recebê-los em tamanha quantidade, o que gerou inúmeras tensões e conflitos entre eles e os norte-americanos nascidos em solo local – foi uma das manifestações mais visíveis, tensas e vivas da expansão da economia industrial Estados Unidos afora…”  

Dentro da obra lovecraftiana em geral percebe-se esse temor ao estrangeiro, sua cultura e constituição física destoantes do padrão branco, anglo-saxônico e protestante vinculado à cultura norte-americana e celebrado nos heróis espaciais da FC do período.

Branco caucasiano, alto e forte. Padrão heroico nas revistas pulp do começo do século vinte.

Tudo junto e misturado

Localizando em seus corpos um espaço do diferente, os monstros híbridos de Lovecraft trazem à mente as considerações de Mary Douglas em Pureza e perigo (1966) sobre as criaturas que subvertem as suas categorias culturais ligados a Terra, a Água e o Ar.

A partir desta obra Julia Kristeva desenvolveu o conceito do Abjeto.

A partir da análise do Levítico – Livro sagrado para o Judaísmo e de caráter legislativo pelo detalhamento dos comportamentos a serem observados pelos judeus para manter sua santidade – Douglas sistematiza os seres que eram considerados puros e impuros, abrangendo animais aquáticos, terrestres até aqueles que são do ar:

“A santidade requer que os indivíduos se conformem à classe à qual pertencem. E a santidade requer que diferentes classes de coisas não se confundam”.

No caso dos seres lovecraftianos esta subversão categorial ocorre pelo fato destas criaturas estarem no interstício animal/humano e terrestre/aquático/aéreo.

Corpo humano, tentáculos de lula e asas de morcego. Cthulhu: um ícone da subversão das categorias.

O medo do desconhecido

A edição em Português está esgotada, mas vale a pena futucar os sebos físicos e virtuais

Para Noël Carroll em A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração (1990), esta ambiguidade cultural existente nos termos de Mary Douglas se coloca como um dos elementos constituintes do horror artístico explorado na Literatura e no Cinema:

“O que horroriza é o que fica fora das categorias sociais e é forçosamente desconhecido”.

Nesta obra o autor explora sua visão do Horror Cósmico explorado na ficção Weird e fala de suas influencias.

Dentro desta leitura, enquanto corporificação do desconhecido, os monstros de Lovecraft se tornam o medo encarnado, visto que, como afirma o escritor em O Horror Sobrenatural na Literatura:

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

Assim, além de fantasmas internos resultados de sua infância e adolescência atribuladas e de suas leituras de Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce, Lord Dunsany, Robert W. Chambers, Arthur Machen e outros, as divindades monstruosas de Lovecraft refletem o temor não apenas do escritor, mas também de setores conservadores da sociedade norte-americana quanto as profundas e rápidas mudanças levadas a cabo pela inexorável industrialização e que se refletiu, por exemplo, na entrada de imigrantes compostos por grupos étnicos e raciais não-nórdicos e não-saxões.

Imigrantes chegando na Ilha Ellis, Nova York, no início do século vinte.

É importante destacar, todavia, que H. P. Lovecraft era, antes de tudo, um homem de seu tempo alinhado com o pensamento eugenista vigente de sua época.

Críticos e leitores de hoje, que acusam o escritor de racista e xenófobo, devem enxergá-lo dentro desta perspectiva histórica.

Veja agora abaixo, em ordem alfabética, 7 monstros de H. P. Lovecraft que estão a sua espera neste ano.

7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

1. Azathoth

A mais poderosa das divindades lovecraftianas, Azathoth é o Caos Nuclear da criação, sendo retratado normalmente como uma massa amorfa de tentáculos, olhos e dentes. É também chamado de O Deus Idiota pelo fato de não ter consciência de seu inominável poder. Vive primordialmente no centro do universo.

Obras: A busca onírica por Kadath, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

2 . Cthulhu

A divindade-monstro mais conhecida dentre os leitores. Oriundo de outra dimensão, Cthulhu chegou a terra em tempos imemoriais e construiu a gigantesca cidade de R’lyeh, hoje submersa, de onde governou o mundo até que um alinhamento de estrelas o levou a um estado letárgico que dura até hoje. Vive nas profundezas de R’lyeh e se comunica com os seus adoradores por meio de sonhos. 

Obras: “O chamado de Cthulhu”

3. Dagon

Baseado diretamente em um deus da fertilidade Assírio-babilônico de mesmo nome, Dagon é a mais famosa criatura de Lovecraft depois de Cthulhu. Do tamanho de uma baleia, ele apresenta forma humanoide-aquática e é o deus de seres abissais com a aparência de homens-peixes.   

Obras: “Dagon” e “A sombra em Innsmouth”

4. Nyarlathotep

Assim como Dagon, Nyarlathotep também possui raízes em culturas antigas, neste caso aqui, a mitologia egípcia. Também apresentado como a alma de Azathoth ele pode assumir forma humana e já foi faraó do Egito. Quando caminha entre os humanos costuma disseminar pesadelos nas pessoas ao seu redor.

Obras: “O habitante das trevas”, “Sonhos na casa da bruxa”, A busca onírica por Kadath, “Nyarlathotep”

5. Shoggoths

Apresentados como a primeira espécie extraterrestre em nosso planeta, os Shoggoths são uma massa protoplásmica criada originalmente como servos de outros deuses para construírem edificações no mar ártico. Eventualmente eles se rebelaram contra seus criadores, algo surpreendente considerando que foram concebidos como seres sem inteligência.  

Obras: Nas montanhas da loucura, “A sombra em Innsmouth” 

6. Shub-Niggurath

Deusa da fertilidade, a “cabra negra de mil filhotes”, como também é conhecida, não apresenta uma descrição específica, o que provoca várias interpretações de sua figura. Sendo apresentada também como deusa da criação ela por vezes é retratada como possuidora do masculino e do feminino dentro do mesmo ser. 

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

7. Yog-Sothoth

Ainda que exista fora de nossa realidade material, Yog-Sothoth é capaz de influenciá-la diretamente, podendo inclusive, engravidar mulheres. Umas das divindades mais poderosas do Deuses Exteriores, controlador do tempo e espaço, ele habita outra dimensão de onde observa nosso planeta.    

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, O caso de Charles Dexter Ward

Celebrando o monstruoso

Eventos acadêmicos, Games, Literatura, Publicações acadêmicas e RPG.

2017 tem H. P. Lovecraft e seus monstros pra todo lado e mídia:

IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional

Em fase de planejamento na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a edição deste ano celebra os 80 anos de morte do escritor e os 100 anos de seus primeiros escritos profissionais. Acompanhe as informações favoritando o site do SePel. [ATUALIZADO 26/02/2017] O evento foi cancelado devido a crise financeira do Rio de Janeiro e a falta de repasse de verba para a UERJ 

Games

Está previsto para 2017 o lançamento de Call of Cthulhu para as plataformas Xbox One, PlayStation 4 e PC, cobrindo assim, uma lacuna de mais de uma década do último bom jogo ligado a Lovecraft – Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth (2006).

Literatura

Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico é a ousada iniciativa para este ano da Editora Ex-Machina, projeto sob a coordenação do editor Bruno Costa.

Fruto de uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo, a obra promete ser a mais completa e abrangente publicação sobre H. P. Lovecraft já lançada no Brasil.  

Outra iniciativa de financiamento coletivo para este ano ligado a Lovecraft é o livro Arthur Machen: Mestre do Oculto, da Editora Clock Tower

A editora tem se destacado pela produção de obras de qualidade e divulgação de conteúdo sobre H.P. Lovecraft e demais autores que influenciaram o escritor, como Robert W. Chambers (O Rei de Amarelo), e Arthur Machen (Arthur Machen: O Mestre do Oculto) e que foram influenciados por ele, como Robert E. Howard (O Mundo Sombrio: histórias dos Mitos de Cthulhu).

Publicações acadêmicas

A Revista Abusões, ligada a UERJ, está com chamada para publicações de artigos até o dia 05 de março de 2017 para compor a edição 4 (Janeiro/Junho 2017).

Para esta edição a revista aceita artigos que tratem da produção artística e crítica do escritor norte-americano, sobre Horror Cósmico, ou, em uma perspectiva comparatista, sobre obras ficcionais e ensaísticas que estabeleçam diálogos com a obra lovecraftiana.

RPG

A RetroPunk Publicações lançará em 2017 a edição revisada do RPG Rastro de Cthulhu, lançado inicialmente no Brasil em 2010.

Para esta nova publicação, também resultado de financiamento coletivo, a editora trará um livro com 248 páginas e tamanho 21×28 com capa dura e miolo em sépia rodado em 4 cores.

Fica a dica

Com base na qualidade do trabalho de edição e tradução e fornecimento de informações extras para leitores e pesquisadores, o FANTASTICURSOS recomenda as seguintes antologias de contos de H. P. Lovecraft publicado no Brasil:

O mundo fantástico de H. P. Lovecraft (Editora Clock Tower).

Livro esgotado no site da Editora Clock Tower, mas que vale ser pesquisado nos sebos.

Os melhores contos de H. P. Lovecraft (Editora Hedra).

A melhor antologia de contos do escritor disponível no momento no Brasil. Você pode comprar diretamente no site da Editora Hedra.

Qual outro monstro você acrescentaria a lista?

E qual é o seu conto ou romance favorito de H. P. Lovecraft? 

Deixe seu comentário, compartilhe o post com seus amigos tenebrosos e celebre o ano de Cthulhu e seus companheiros.

Tamo junto!

 Fontes consultadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BEZARIAS, Caio Alexandre (2006). Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft. Dissertação de Mestrado em Letras. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

CARROLL, Noël (1999). A filosofia do horror ou paradoxos do coração. (Roberto Leal Ferreira, Trad.). Campinas, SP: Papirus, 1999. (Coleção campo imagético).

DOUGLAS, Mary (2012). Pureza e perigo. (Mônica Siqueira Leite de Barros e Zilda Zakia Pinto, Trads.). São Paulo: Perspectiva (Debates; 120).

JOSHI, S. T (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, S. T (2001). The modern weird tale. North Carolina: McFarland & Company.

LOVECRAFT, H. P (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

RICCI, Denílson Earhart (2014). Biografia de H. P. Lovecraft. In RICCI, Denílson Earhart (Org.). O mundo fantástico de H. P. Lovecraft: Antologia – contos, poesias e ensaios. 2ed. (Mario Jorge Lailla Vargas, Trad.). Jundiaí, SP: Clock Tower, pp. xix-xxxvii. 

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The weird: A compendium of strange and dark stories. New York: Tor Book.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

Gostou?

Então deixe o seu comentário e compartilhe com seus amigo visíveis ou invisíveis. 

Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

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O que a Princesa Leia revela sobre as mulheres na Ficção Científica

Quantas vezes você já viu essa cena?: O casal corre de mãos dadas fugindo do perigo que os ameaça. De repente, a bela jovem cai indefesa e aguarda a morte iminente, mas nada tema! O herói retorna rapidamente e resgata a “mocinha”. 

Flash Gordon, um dos primeiros heróis espaciais, resgata a eterna amada Dale Arden.

Gritar, ser capturada, gritar, correr, gritar e ser resgatada. Esse era o percurso das personagens femininas nas revistas e filmes na primeira metade do século vinte em geral e na Ficção Científica (FC) não era diferente .

O que seriam delas sem eles?

Mas quando é que as mocinhas passaram a ficar com equilíbrio maior e cair menos na FC?

E quando passaram a ficar menos dependentes de heróis machões?

A morte da atriz Carrie Fisher no dia 27 de dezembro, vitima ao 60 anos das consequências de um ataque cardíaco, chocou o universo do entretenimento e em particular o mundo do Fantástico pela importância que sua personagem, a Princesa Leia Organa, tem não apenas para os fãs da série Star Wars, mas também para a representação das mulheres na Ficção Científica.

Caso já queira saber as três razões para isso, sem antes conhecer como as mulheres na FC eram gostosas em perigo, clique aqui.

Pins-up em perigo

Pin-up sendo resgatada pela pistola de raios do herói.

“As mulheres na literatura escrita por homens são na maior parte das vezes vistas como ‘outro’, como objetos, de interesse somente na medida em que elas servem aos ou destoam dos objetivos do protagonista homem” (Josephine Donovan)

A observação da crítica Josephine Donovan sobre a representação literária feminina do início do século vinte até os anos da década de 1970 na Literatura ocidental podem ser exemplificadas na Ficção Científica das revistas pulp norte-americanas do período.

A bela dependente do herói. Imagem recorrente nas capas das revistas de FC entre os anos de 1920 a 1950.

Tanto demonizadas quanto subestimadas por escritores e roteiristas homens, as mulheres das histórias de FC ficavam na maior parte das vezes deslocadas no enredo das histórias impressas e nos flimes.

Afinal de contas, as histórias eram sobre aventura, exploração e penetração no desconhecido, combate, e ciência aplicada. Era esperado, portanto, que os papéis principais pertencessem aos homens.

O explorador (homem e branco caucasiano) chega a um planeta hostil habitado por (selvagens e atrasados) alienígenas.

As ilustrações dessas publicações permitiam imaginar tanto o enredo das histórias quanto o forte apelo erótico junto aos adolescentes: existia na maior parte do tempo uma frágil pin-up que, como tal, estava seminua sendo protegida por um herói espacial caucasiano contra um monstro de olhos esbugalhados ou um robô do mal.

Philip Francis Nowlan, criador de Buck Rogers

Edgar Rice Burroughs, criador de John Carter

Escritores e desenhistas tais como Philip Francis Nowlan, Alex RaymondEdgar Rice Burroughs eram especialistas em descrever e criar mulheres sensuais que lutavam contra ou a favor de heróis como Buck Rogers, Brick Bradford, Flash Gordon e John Carter.

Audaciosamente indo onde todo homem já esteve

Durante os anos das décadas de 1960 e 1970 mudanças políticas e sociais ocorreram na Europa e principalmente na América, marcando o aparecimento de um constante e crescente questionamento das instituições sociais e de políticas de governo.

Discussões sobre política, drogas, religião e sexo foram incorporados aos temas da FC aliados com novos experimentos de linguagem e estilo.

Raça e gênero marcam o enredo do premiado romance de FC de Ursula K. Le Guin

Com as mudanças propostas pelo Feminismo, pelos movimentos por direitos civis dos negros americanos, dos homossexuais e dos jovens, escritores tais como Marion Zimmer Bradley, Ursula K. Le Guin, Joanna Russ e Samuel R. Delany, entre outros, debutaram na FC valorizando experiências de raça e gênero e subvertendo as temáticas da FC como viagens no tempo, distopias e aventuras espaciais.

E como as mulheres se viraram no espaço sideral?

De Star Trek…

Foi na Televisão e no Cinema norte-americano dos anos 60 e 70 que se pode encontrar as mais representativas, ainda que tímidas ou ambíguas, tentativas de mostrar as mulheres  na ficção científica como algo mais que “a gostosa em apuros”.

Uhura

Frequências de saudação abertas!

Lançada como uma série televisiva em 1966, Star Trek (ou como também é conhecida no Brasil, Jornada nas Estrelas) trouxe a Tenente Uhura, Oficial-chefe de Comunicações da nave exploratória U.S.S. Enterprise como uma das suas personagens principais.

A personagem vivida pela atriz Nichelle Nichols não foi apenas uma das primeiras mulheres na história da FC a ter um papel de destaque como uma oficial feminina em uma ponte de comando dominada por homens, mas também a primeira negra a ter essa posição. 

I Have a Dream

Este fato levou levou o líder negro Martin Luther King a pedir que Nichelle permanecesse no programa quando ela decidiu abandonar o papel por se achar sub aproveitada na trama. Como King argumentou:

“Você não percebe o quão importante sua presença, seu personagem é? […] Você tem o primeiro papel [negro] não estereotipado na televisão, seja masculino ou feminino. Você quebrou barreiras”. 

Felizmente, Nichelle permaneceu.

Barbarella

Direção de Roger Vadim

Produção franco-italiana de 1968 baseado nos quadrinhos franceses de mesmo nome, o filme trouxe a patrulheira espacial Barbarella, enviada em missão para capturar o criminoso Duran Duran (de onde saiu o nome da conhecida banda dos anos 80).

Misto de ficção científica e comédia erótica, a produção tinha a estonteante Jane Fonda como a personagem do título em diferentes situações eróticas nas quais seu corpo nu era exibido. 

A bela espacial

Barbarella fez de Jane Fonda um dos principais símbolos sexuais dos anos 60 e se por um lado foi mais uma obra de FC que explorou o corpo feminino, por outro inovou o gênero ao trazer uma mulher como protagonista da ação e ciente do poder de sua sensualidade.

… a Star Wars

Princesa rebelde na vida real e na ficção

“Uma das últimas mulheres míticas nas telas dos anos 70”

Assim a escritora e jornalista Jennifer K. Stuller define a princesa Leia Organa no livro Ink-stained Amazons and Cinematic Warriors: Superwomen in Modern Mythology (sem tradução para o Brasil).

A obra analisa a representação feminina nos Quadrinhos, Cinema e Televisão norte-americano.

Stuller se refere ao fato de que o fim dos anos setenta testemunhou o crescimento de um movimento conservador nos Estados Unidos que ameaçou as duras conquistas do movimento feminista na mesma década.

De fato, o que a princesa Leia revela sobre as mulheres na Ficção Científica é a necessidade, por parte das mulheres, de uma contínua vigilância sobre sua própria representatividade na ficção. 

E isso se justifica por três razões presentes na trilogia de Star Wars dos anos 70 e 80:

1. Leia começa como um modelo feminista

 

Leia, Princesa da Disney

Contrariando as expectativas do grande público acostumados com as princesas dos contos de fadas e de sua adaptações animadas pelos estúdios Disney, a Princesa Leia Organa em Star Wars IV: Uma nova esperança (1977) tem personalidade para se colocar em pé de igualdade com os homens do enredo, sem depender de um príncipe encantado para protegê-la. 

A mulher encara Darth Vader. Precisa de mais?

Ela empunha a arma (símbolo fálico do poder masculino) e exerce sua força pelo poder da liderança e não pelo uso de trajes sedutores. 

Vestida para matar

Comprometida e racional, foge do estereótipo de que mulheres são guiadas por sentimentos ao não revelar a localização da base rebelde, mesmo sob ameaça de destruição do seu planeta natal, Alderaan.

Além de Princesa, Leia também era líder militar, se mostrando uma estrategista hábil e eficiente.

Leia organizando as ações rebeldes no planeta Hoth.

2. Leia se torna interesse romântico

Love Story

A evolução de Leia Organa se alinha com os próprios desafios do Feminismo no fim dos ano 70 e início dos 80, principalmente pela criação e disseminação por parte da mídia da época do mito da super mulher.

Assobia e chupa cana ao mesmo tempo

Como explica Jennifer K. Stuller, esta ideia tinha o propósito de fazer com que as mulheres acreditassem que o que elas realmente desejavam era cobrir de forma satisfatória todos os aspectos de sua vida: carreira profissional, maternidade, sexualidade, matrimônio e cuidados com a casa e que o Feminismo estava errado ao não aceitar esta possibilidade.

Ronald Reagan governou os Estado Unidos em dois mandatos na década de 1980

Como se refletisse este avanço do pensamento conservador nos anos 80, exemplificado na vida real pelo governo do Presidente Ronald ReaganStar Wars V, muito apropriadamente chamado de O Império Contra-Ataca (1981), mostra o gradual processo de transformação da arredia e espirituosa princesa Leia em par romântico do personagem Han Solo, vivido pelo ator Harrison Ford. 

Esta suavização da personagem fica mais evidente quando descobre-se que há uma conexão entre Leia e o protagonista Luke Skywalker.

Todavia, enquanto o roteiro foca no treinamento de Luke e aprendizado de sua potencialidade como Jedi, Leia tem seu espaço de atuação no filme vinculado ao desenrolar de sua relação com Han Solo, culminando na sua declaração de amor ao herói.

Dentro da ideia da “super mulher”, Leia pode ser rebelde e também par romântico. Por que não?

3.  Leia termina como Pin-up e amiga de bichinhos

Sonho dos adolescentes nos anos 80

Líder rebelde no primeiro filme e par romântico no segundo. 

Quando Star Wars VI: O retorno de Jedi (1983) se inicia vemos que Luke Skywalker já está familiarizado com os segredos dos Jedi enquanto que Leia está empenhada em salvar seu amado Han Solo das garras de Jabba, o Hut.

Capturada por Jabba, Leia se torna sua escrava sexual e assume sua vestimenta Pin-up para a satisfação de Jabba (e da platéia adolescente do período). 

Leia e seu biquíni de metal

Eventualmente  o público descobre que Leia e Luke são irmãos e que ela também tem a conexão com a Força, mas em nenhum momento do filme este fator é explorado ou desenvolvido.

De fato, a medida em que a trilogia Star Wars avança ao longo da década de 70 e 80, percebe-se que, se no primeiro filme Leia começa empoderada e Luke se mostra um jovem frágil, no terceiro temos uma inversão de papeis e Luke se torna um confiante homem enquanto Leia se torna a namoradinha de Han Solo e, assumindo um visual mais “feminino” fica cercada por criatura fofas como os Ewoks, algo que remete as princesas dos contos de fadas cercadas por pequenos animais.

Só falta cantar

O que a Princesa Leia mostra afinal de contas sobre as mulheres na Ficção Científica é que as tentativas de mudanças na representação de personagens femininas dentro da vertente da Ficção Científica sofrem uma pressão ideológica masculina contrária que trabalha para enquadrar a mulher dentro dos estereótipos do imaginário masculino.

Cabe a sociedade como um todo a vigilância quanto a este discurso limitador e a luta para uma sociedade mais igualitária, fazendo valer, desta forma, a luta da rebelde princesa Leia iniciada há 40 anos e hoje continuada nas empoderadas Rey e Jyn Erso.

 

Fontes utilizadas

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

DONOVAN, Josephine. Beyond the net: Feminist criticism as a moral criticism. In: ___. (ed.). Feminist Literary Criticism: explorations in Theory. Kentuchy: Lexington, 1975. p. 221-225

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

STULLER, Jennifer K. Ink-stained Amazons and Cinematic Warriors: Superwomen in Modern Mythology. New York: I.B. Tauris, 2010.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com