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Por que o número 3 aparece tanto em Contos de Fadas?

Pois é, o número três, mais do que qualquer outro numeral, aparece com recorrência nos Contos de Fadas e na Fantasia como um todo.

Na tradição inglesa, três porquinhos tentam escapar da fome do lobo.

Na tradição francesa, são três perguntas que Chapeuzinho Vermelho faz ao lobo antes de ser devorada por ele.

Na tradição alemã, por três vezes a madrasta-bruxa tenta matar Branca de Neve.

Na tradição árabe, o gênio concede três desejos a Aladin.

E isso só para citar quatro casos, dentre centenas, que mostram a força dos números no mundo dos contos de fadas.

A mística dos números

Desde tempos ancestrais, que se perdem na memória do tempo, os números são considerados expressões da ordem cósmica. 

Para a pesquisadora Miranda Bruce-Mitford, essa tradição pode ter se iniciado na observações babilônicas dos eventos astronômicos regulares, como a noite e o dia, as fases da lua e os ciclos das estações do ano.

Já Jean Chevalier e Alain Gheerbrant destacam que a interpretação dos números é uma das mais antigas entre as ciências simbólicas.

Platão, por exemplo, considerava o estudo dos números o mais alto grau de conhecimento e a essência da harmonia cósmica e interior.

Já na China a importância dos números se faz notar desde o I-Ching

Mas, dentre tantos números, por que o três é tão simbólico especificamente para a Fantasia?

A trindade mitológica e religiosa

O primeiro lugar para se investigar a importância do três na vertente da literatura fantástica chamada Fantasia se encontra nas mitologias e religiões.

Afinal de contas, é na busca do divino criado a partir da tentativa de compreender os fenômenos da Natureza, que se encontra as bases para as narrativas que fomentaram os contos orais folclóricos e, posteriormente, os contos de fadas.

Alias, se você quer entender mais sobre Como, Quando e Onde surgiu o Conto de Fada, assista ao episódio da série O QUE É FANTASIA sobre o tema no canal do FANTASTICURSOS no Youtube, clicando aqui

Na Mitologia Clássica

Dentro da Mitologia greco-latina, o três aparece na estrutura de poder dos deuses clássicos que regem o universo: Zeus/Júpiter domina o céu e a terra; Poseidon/Netuno controla os oceanos e Hades/Plutão vive nos reinos inferiores.

 

Essa divisão aponta para um equilíbrio do universo alcançado pela partilha de poder regulada pelo três.

No Hinduísmo

Na Índia, a manifestação divina é tripla (Trimurti): Brama, Vixenu e Shiva, trazendo os aspectos da produção, da conservação e da transformação da realidade.

No Budismo

Ainda no Oriente, o Budismo tem a sua expressão perfeita na Jóia Tripla (Triratma) personificada em Buda, Dharma e Sanga que compõem o Tao.

No Cristianismo

A base teológica do Cristianismo é formada pela tríade da unidade divina, na ideia de que, como destaca Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Deus é uma em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Os Reis Magos são três e simbolizam as três funções do Rei no mundo, expressadas na figura de Cristo: Rei, Sacerdote e Profeta.

Na tradição judaica da Cabala o três tem função primordial por revelar, por trás do ato da criação:

  1. O elemento ativo, correspondente ao espírito;
  2. O elemento intermediário, correspondente a alma;
  3. O elemento passivo, correspondente ao corpo.  

A trindade da Natureza

De fato, o que as mitologias e religiões expressam por meio do número três é o padrão da Natureza que se dissemina e se reproduz em outras esferas da existência da humanidade.

A vida  humana é tripartida na sua estrutura, pois divide-se em vida material, racional e espiritual e esse padrão servia de espelho para a composição social do passado, como durante o Feudalismo.

Da mesma forma, os seres vivos obedecem a um padrão regulado pelo três: nascimento, crescimento e morte.

O feminino

Falando de padrões da Natureza, fala-se da figura da mulher e sua ligação com o número três. 

Como tive oportunidade de explicar no vídeo no episódio da série O QUE É FANTASIA sobre a diferença entre a Mitologia Grega e a Mitologia Nórdica, que você pode ver clicando aqui, essa incorporação da Natureza pela mulher é representada nas figuras das Moiras (Mitologia Grega) e da Nornas (Mitologia Nórdica).

Essa trindade feminina, que também assume a forma da Virgem, a Mulher e a Anciã, é o espelho da Natureza nos aspectos do Nascer – Amadurecer – Morrer e da Manhã – Tarde – Noite. 

Era uma vez um número…

Com base no que foi exposto acima, enquanto versões populares e simplificadas do mitológico, os Contos de Fada, se amparam no simbolismo do número três em diferentes formas, dentre as quais destaco:

  1. Personagem e;
  2. Enredo.

No caso do Personagem, além dos já citados Três Porquinhos também temos três personagens nos seguintes contos:

  • “As três princesas” (1634), do italiano Giambattista Basile; 
  • “Os três aprendizes” (1812), dos alemães Irmãos Grimm;
  • “Cachinhos Dourados e os três ursos” (1837), do inglês Robert Southey;
  • “A história dos três mendigos maravilhosos” (1855), do russo Alexander Nikolayevich Afanasyev.  

Ainda dentro do personagem, destaque para o fato que é sempre o terceiro filho ou filha, caçula, o herói da história.

Já falando do Enredo, o que se observa é que os contos de fadas usam o número três para construir a jornada do personagem ao longo da narrativa.

Essa caminhada se traduz em três tarefas, missões ou testes que o personagem precisa passar para conseguir o objetivo almejado no início do conto.

Essas ações tem o propósito de mostrar o valor e merecimento do personagem do conto de fada.

Em quais outros contos você observa a presença do número três?

E como a tradição da Fantasia contemporânea, de J. R. R. Tolkien, J. K. Rowling e Rick Riordan, dentre outros, faz uso desse simbolismo na sua opinião? 

Deixa ai nos comentários.

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

BRUCE-MITFORD, Miranda. O livro ilustrado dos signos e símbolos. São Paulo: Livros e livros, 1996.

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997,

TATAR, Maria. Contos de fada. Edição comentada e ilustrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

As vampiras mães: o arcano feminino e o medo masculino

A Banshee, abordada também no vídeo, era uma fada negra que mostra a dualidade do feminino.

No vídeo desta semana da série O QUE É FANTASIA, lá no canal do FANTASTICURSOS no Youtube, falei das fadas e como elas representam o mistério que cerca o ser feminino que deu forma para o gênero Fantasia.

Mas, além das fadas, o ser vampírico também tem uma estreita ligação com o feminino, reforçando o vínculo da mulher com  o mistério da natureza.

Vou falar aqui de três seres, ligados a culturas diferentes, que expressam o arcano feminino na tradição vampírica: as vampiras mães Kali, Lilith e a Lâmia.

A dualidade da Natureza  

A universalidade do mito do vampiro na cultura das civilizações certamente reflete uma busca do ser humano em representar o desconhecido para, assim, tentar racionalizá-lo dentro da sua compreensão de mundo.

E nada inspirava tanto fascínio quanto medo como a Natureza e seu ciclo de nascimento e morte que perseguia o homem primitivo e os animais e plantações que lhe serviam de alimento. 

Para garantir sua perpetuação, a família foi criada. Desta forma, o nascimento das crianças dentro de uma estrutura de proteção foi a solução para a continuidade da existência humana.

Neste contexto, a ruptura desse ciclo, como a morte inesperada de um recém-nascido, não poderia ser visto como algo da Natureza. E não foi.

O arcano feminino

Desde o início da civilização há de se destacar o papel duplo reservado ao feminino e, especificamente de rituais, tabus e crenças, a maternidade sempre foi um mistério que contribuiu para estabelecer as relações do homem com a mulher enquanto manifestação da Natureza.

Essa conexão se manifesta na ligação com o arcano, ou seja, o mistério dos dons da profecia, da cura, e, dentro da visão masculina, também do poder para prejudicar outros.

Como conseqüência, com o tempo, o homem foi associado ao solar, ao racional enquanto a mulher era irracional, instintiva, ligada ao sonho e a Lua.

Mulheres de fase

A lua promoveu a relação da mulher com a noite e ao desconhecido da morte. O paradoxo do ser feminino é justamente a contradição de um ser ligado tanto a vida quanto a morte.

A ameaça do sexo feminino estava representado, por exemplo na menstruação. O sangue expelido ciclicamente pela mulher a marcava ritualmente como impura. Essa condição a levava a ser vista como possível portadora de males para a comunidade.

No próprio folclore brasileiro, conforme aponta o folclorista Luis Câmara Cascudo, há diversos tabus relacionados à mulher nessa fase, como a crença de que a menstruada não pode tocar dar o primeiro leite ou banho em uma criança, tocar em frutos verdes, fazer a cama de recém-casados, assistir a batizado, em suma, ela é um poder maléfico a tudo quanto representa ou constitua início de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo menstruação e maternidade estão ligadas no folclore do campo onde se crê que se deve plantar e semear somente na lua crescente, pelo fato de que os lavradores acreditarem que os partos e as menstruações são mais freqüentes em determinadas fases da lua.

E ai chegamos as vampiras mãe.

As vampiras mães

Essa dupla natureza da mulher que dá a vida, mas que pode trazer a morte, é especialmente expressa nas culturas antigas no culto das deusas-mãe.

Afinal de contas, a terra nutre a vida mas também é o reino dos mortos sob o solo.

Não é por acaso, portanto, que em muitas culturas as mulheres eram as responsáveis pelos cuidados reservados aos mortos por estarem mais ligadas ao ciclo da vida. Elas criam e destroem.

Kali, a destruidora do mundo

Essa dupla face está presente na deusa hindu Kali. A representação mais significativa que os homens criaram do ser feminino tanto destruidor quanto criador. Uma deusa cuja natureza de mulher fomentou as primeiras representações físicas dos vampiros.

Talvez a característica mais marcante dessa que é uma das mais importantes divindades da mitologia da Índia seja a sua sede de sangue. Suas primeiras aparições datam do século seis em textos religiosos de invocações.

Nestes registros ela foi descrita como tendo presas, usando um colar de cabeças humanas e morando perto de lugares de cremações.

História

Ela fez a sua aparição mais famosa no Devi-mahatmya, onde lutou ao lado da deusa Durga contra o espírito demoníaco Raktabija, que tinha o poder de se reproduzir com cada gota de sangue derramado.

Quando Durga estava sendo sobrepujada pelo inimigo Kali
apareceu e vampirizou não apenas as duplicatas de Raktabija, mas o próprio demônio.

Como outras divindades femininas semelhantes, Kali simboliza a desordem que aparece continuamente entre todas as tentativas de se criar a ordem, porque a vida é imprevisível.

É o princípio materno cego que impulsiona o ciclo da renovação. Mas, ao mesmo tempo, traz a peste, a doença e a morte.

Como as pesquisas antropológicas apontam, essa associação da mulher com a maternidade, o sangue, a vida e a morte aparecem sobremaneira entre os povos antigos em problemas relacionados com o parto, e serviram de matéria prima para as primeiras narrativas sobre vampiros.

Narrativas como as lendas de Lilith e da Lâmia.

Lilith, a primeira mulher

 

Falei dessa personagem em um dos primeiros vídeos do Canal FANTASTICURSOS no Youtube dentro da série “Lendas Medievais”. Para assistir, clique aqui.

A primeira aparição de Lilith aconteceu no épico babilônico Gilgamesh (2000 a. C.) como uma prostituta estéril e com seios secos. Seu rosto era belo, mas possuía pés de coruja (indicativos de sua vida noturna).

Lilith entrou na demonologia judaica a partir das fontes babilônicas e suméricas, e então migrou também para o folclore cristão e islâmico. No folclore islâmico, por exemplo, ela é a mãe dos djin, um tipo de demônio.

História

Mas é no Talmude hebraico (6 a.C.) que sua história se torna mais interessante ao ser apresentada como a primeira mulher de Adão. Na narrativa registrada no Talmude, Lilith se desentendeu com Adão sobre quem deveria ficar na posição dominante na hora do sexo (ou seja, esta foi a primeira discussão de casal que se teve notícia).

Ela então abandonou o marido e se refugiou em uma caverna no Mar Vermelho. Deus enviou três anjos ao nosso plano com a missão de mandar Lilith retornar para o marido. Neste ponto as versões variam.

Em uma delas Lilith teria desobedecido às ordens de Deus e, como conseqüência, foi amaldiçoada com a morte de seus filhos. Na outra versão, Lilith teria seduzido os anjos enviados para levá-la de volta e gerou a raça de demônios que atormentam a humanidade desde então.

As narrativas, no entanto, convergem em um mesmo ponto: Para se vingar de Deus e de Adão, Lilith passou a sugar o sangue e a estrangular todos os descendentes de Adão enquanto eles ainda são crianças.

Na Idade Média em particular todas as complicações relacionadas à maternidade, tais como, aborto, dores e sangramentos, eram atribuídos a Lilith e seus demônios. Também se acreditava que caso um homem recém-casado tivesse emissões noturnas isso seria um sinal da presença da vampira.

Para se defender dela os judeus medievais costumavam usar amuletos nos quais se escreviam os nomes dos três anjos enviados por Deus: SanviSansanvi e Semangelaf

Lâmia, a amante de Zeus

A maternidade também está por trás de um dos primeiros relatos de vampiros da Antiguidade, representada na criatura chamada Lâmia.

Quando era uma pessoa, Lamia era uma rainha da Líbia que se envolveu com Zeus em mais um dos vários casos amorosos do senhor dos deuses gregos com as mortais. Hera, no entanto, descobriu a traição do marido e destituiu Lamia de todos os seus filhos com Zeus.

Em conseqüência desse ato ela enlouqueceu e se escondeu em uma caverna a partir de onde ela começou a atacar todas as crianças sugando-lhes o sangue e comendo-lhes a carne.

Com o tempo, e em virtude de suas ações, ela começou a se deformar em uma besta hedionda cuja metade do corpo era em forma de serpente.

A Lâmia entretanto tinha a capacidade de se transformar em uma bela donzela com o intuito de atrair e seduzir rapazes para se alimentar deles. Outros espíritos demoníacos surgiram, gerando várias lâmias.

História

No capítulo 25 do quarto livro de Vida de Apolônio, produzido por volta do fim do século 2 da nossa era, Philostratus, o Velho faz um longo e detalhado relato sobre como o filosofo Apolônio (um genuíno predecessor do personagem literário Van Helsing) advertiu seu discípulo Menipo de que a bela donzela por quem ele havia se apaixonado perdidamente e havia decidido desposar no dia seguinte era na realidade uma vampira.

Diante dos protestos de Menipo, Apolônio compareceu a cerimônia de casamento e, diante dos convidados, confrontou e desmascarou a lamia. Esta admitiu seus planos e confessou seu hábito de se alimentar “em corpos jovens e bonitos porque o seu sangue é puro e forte”.

É interessante mencionar que ainda hoje na Grécia há um ditado popular que diz que se uma criança morreu de repente de causa desconhecida é porque ela foi estrangulada por uma lamia.

Semelhante a criatura grega, a strix romana (palavra latina que significa “coruja estridente”) era uma mulher da mitologia clássica que podia se transformar em uma ave de rapina voraz e se alimentar da carne e do sangue de crianças.

Assim como no caso da lâmia, os homens também poderiam ser vítimas da sedução mortal da criatura. Com o passar dos séculos, a lenda da strix migrou da mitologia romana para as narrativas da Idade Média, a partir daí ela chegou ao mundo ibérico e foi traduzida para o Português com o nome “Bruxa”.

E se quiser ler em mais detalhes as informações deste post recomendo a Introdução que fiz para a obra Carmilla, a Vampira de Karnstein, publicado pela editora Hedra.

Se você gostou do post, deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos e amigas vampiros ou não.

FONTES UTILIZADAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1983.

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

FERREIRA, Cid Vale (Org.). Voivode: estudo sobre os vampiros. São Paulo: Pandemonium, 2002.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

IDRICEANU, Flavia, bartlett, Waine. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. Trad. Silvia Spada. São Paulo: Madras, 2007

RICHARDS, Jeffrey. Sex, Dissidence and Damnation: Minority Groups in the Middle Ages. London: Routledge, 1995.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LEFANU, Sheridan. Carmilla: a vampira de Karnstein. Trad. São Paulo: Editora Hedra, 2010.

O lado pop de Lúcifer: Por que o Diabo fascina você?

 O Diabo é Pop

Lucifer from Milton's Paradise Lost by Gustave Dore
O (anti-)herói de John Milton

2017 marca os 350 anos do poema épico Paraíso Perdido (1667).

Paraíso Perdido é uma versão literária da historia encontrada no Gênesis, focando especificamente nos episódios da queda de Lúcifer, na criação do Jardim do Éden e na tentação sofrida por Eva que a levou, juntamente com seu marido Adão, a expulsão do Paraíso.

Temptation and Fall of Eve by William Blake
A tentação do fruto proibido

A obra foi o projeto maior do poeta e ensaísta inglês John Milton e que se alinhava com suas visões religiosas enquanto Puritano, ou seja, membro de um segmento radical do Protestantismo no século 17.

No entanto, o que chama a atenção em Paraíso Perdido é o fato que, quanto mais o leitor conhece o diabo de Milton, mais passa a admirá-lo.  

Isso acontece porque Lúcifer aparece sozinho no começo da obra e na tentativa de mostrá-lo como uma ser patético e arrogante que perdeu a luta contra Deus e foi atirado no inferno junto com outros de seu exército, John Milton acabou estabelecendo o Diabo como um dos primeiros anti-heróis da Literatura.

Simon Bisley's Paradise Lost (Satan’s Fall)
A queda de Satã

E é o diabo de John Milton que está por trás de dois personagens da cultura pop dos anos 90 e de hoje: O Lúcifer, da série em quadrinhos Sandman, e sua releitura na série televisiva do canal FOX de título Lúcifer

“Melhor reinar no Inferno que servir no Céu”

A frase acima mostra bem o caráter heroico impresso por John Milton em sua representação de Lúcifer.  

Corrado Giaquinto (Italian 1703–1756) [Baroque, Rococco] Saint Michael Defeats Satan, 1750. Pinacoteca Vaticana, Vatican City, Rome. – The Athenaeum
A derrota de Satã pelo anjo Miguel

Após sua fracassada tentativa de depor Deus como soberano do Céu por enxergar nele um tirano que não aceita contestações e não reconhece o grau de grandeza dos anjos, Lúcifer e seu exército é lançado ao Tártaro. 

Apesar da derrota, Lúcifer não perde sua arrogância e posição de liderança diante dos outros demônios.

“A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar. / A mente é o seu próprio lugar, e dentro de si / Pode fazer um inferno do céu, do céu um inferno.”

Ciente de sua posição como regente do Inferno, Lúcifer planeja seu plano de corromper a maior criação do Criador: O Homem. E é bem sucedido.

A queda de Adão e Eva e a expulsão do Paraíso

Os discípulos de Satã 

Durante o Romantismo, o Lúcifer de John Milton capturou a imaginação de poetas e escritores do século 19 não apenas na Europa, mas também no Brasil com o Ultraromantismo.

O personagem ajudou na criação do “herói romântico” que, como tal, mesmo em condições adversas ou prevenindo contra suas ações enfrenta crenças estabelecidas, ou o sistema dominante, em busca de mudança e paga o preço por suas ações. 

Apenas para citar um exemplo, este é o caso de Victor Frankenstein, cuja obsessão em desafiar o domínio da Natureza (e da condição feminina) em prover a vida faz uso de sua Ciência (masculina) pra criar uma criatura abominável que o faz pagar o preço pelas suas ações. 

Releitura nos Quadrinhos

O Lúcifer de John Milton foi reinterpretado no fim dos anos 80 na série quadrinista Sandman (1989-1993), escrita pelo escritor inglês Neil Gaiman.

Neil Gaiman fez a estréia de Lúcifer Estrela da Manhã na revista Sandman #4 de abril de 1989, solicitando que os artistas da revista utilizassem o cantor e ator David Bowie como referência para a aparência do regente do inferno.

Em outro arco da série (Estação das Brumas), após governar o Inferno por 10 bilhões de anos, manipular os demônios para manter seu controle e manter sua guerra contra o firmamento, Lúcifer se sente entediado de sua tarefa.  

Dentre as razões para seu tédio, estão os estereótipos que os humanos fazem sobre sua figura, atribuindo os problemas de suas vidas a ele.

Assim, Lúcifer decide passar o comando do Inferno para Morpheus, o Sandman.

Livre de seu domínio, Lúcifer passa a viver a vida terrena, primeiro na Austrália e depois, muito apropriadamente, na cidade dos Anjos, Los Angeles.

Lá, ele passa a dirigir um piano bar em companhia de outros seres sobrenaturais.  

Lúcifer ganhou uma série própria de 2000 a 2006 em 75 edições escritas por Mike Carey.

Alinhado com sua base literária na epopeia Paraíso Perdido, Lúcifer é um anti-herói arrogante e muitas vezes inconsequente em suas ações, sempre se envolvendo em conflitos.    

Releitura na Televisão

Exemplificando como uma expressão artística alimenta a outra, o personagem Lúcifer, Estrela da Manhã da série Sandman, baseado no Lúcifer miltoniano, foi reinterpretado para a série televisiva Lúcifer

O capeta é interpretado pelo ator Tom Ellis

Produzido pelo canal FOX dos Estados Unidos e tomando como base a série em quadrinhos de Mike Carey, os episódio de Lúcifer mostram as aventuras do ex-Senhor dos Infernos em Los Angeles e seu envolvimento com a Detetive da Polícia Chloe Decker.

Fascinado e intrigado pelo fato da detetive resistir aos seu charme, Lúcifer passa a se envolver nos casos da Polícia ao mesmo tempo em que é advertido por seu irmão Amenadiel a reassumir seu lugar no inferno.

A série, até o momento da escrita deste post, conta com três temporadas anunciadas.

Respondendo a pergunta do título deste post – Por que o diabo fascina? – é fácil entender o fascínio deste personagem desde 1667 até os dias de hoje na Literatura, Quadrinhos e Série de TV. 

Rebelde, charmoso, confiante, elegante, bonito, cativante e inteligente, o diabo criado por John Milton reúne todas as qualidades esperados de um personagem que desperta admiração por parte do público.

E isso não é de hoje…

Lúcifer antes de Lúcifer

Se mesmo o protestante radical John Milton não conseguiu diminuir o encanto de seu personagem Lúcifer isso se deve a toda a tradição histórica relacionada ao Lúcifer que o Cristianismo herdou do Judaísmo.

Da primeira deportação dos judeus em 609 a. C até o fim em 538 a. C., o contato dos judeus com as divindades estrangeiras durou 70 anos.

O curioso neste caso é que Lúcifer e alguns dos seres relacionados a ele, por vezes tomados como variações do mesmo ser, como Asmodeus, AstarothBelzebu não nasceram no meio do povo judeu.

Esses seres tem sua origem relacionada as divindades dos opressores dos judeus, principalmente durante o período conhecido como o Cativeiro da Babilônia no século 6 a.C., quando os hebreus foram cativos na Babilônia.

Asmodeus

Associado a Luxuria, Asmodeus possui três cabeças, uma de homem, uma de Touro e outra de Carneiro, símbolos de virilidade e fertilidade. 

Asmodeus (Aeshma deva) nasceu a partir da divindade persa da tempestade.

Astaroth 

Representado como um homem nu de asas e com mãos e pés de dragão e um segundo par de asas com plumas abaixo do principal, levando uma coroa, segurando uma serpente com uma mão e cavalgando sobre um lobo ou um cachorro.

Astaroth (Ashtoreth) nasceu a partir da deusa lunar cultuada na Mesopotâmia com o nome de Ishtar.

Belzebu

Belzebu, dentro da tradição cristã, é o Príncipe dos demônios. 

Belzebu (Baal-Ze-boub), ser de etimologia complexa, nasceu a partir do deus filisteu Baal e siginifica “O Senhor das Moscas”. Antes relacionado as pestilências, na tradição dos Sete Pecados Capitais do século 6 passou a ser relacionado a Gula.

E o Estrela da Manhã? 

Assim como seus companheiros regentes do Inferno, Lúcifer também se origina entre os inimigos do povo judeu.

Neste caso específico, como bem coloca Carlos Roberto Nogueira em O Diabo no imaginário cristão (2000),  a origem do nome Lúcifer – o astro da manhã, o filho da aurora, a “estrela” Vênus – está associado a queda do rei da Caldéia.

Esta relação aparece pela primeira vez em Isaías (14:12), onde o profeta debocha  do rei após a sua queda para designar um regente caído, líder de exércitos:

“Como é que você caiu do céu, heylel, filho da aurora?”

Foi com a ambiciosa tradução da Bíblia para o inglês moderno realizada na Inglaterra do século 17, que ficou conhecida como a Bíblia do Rei James, que a palavra hebraica “heylel” foi traduzida como “Lúcifer”.

Assim, tendo sua origem ligada tanto a um personagem nobre quanto também a divindades e seres relacionados a realeza infernal, surgiu o elegante e cativante Lúcifer que dominou a imaginação de John Milton em 1667.  

E o resto é história…

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Fontes utilizadas

BENDER, Hy. The Sandman Companion. London: Titan Books, 2000.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: EdUSP, 1988.

COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro: Rosa dos ventos, 1996.

MACK, Carol K., MACK Dinah. A Field Guide to Demons, Fairies, Fallen Angels, and Other Subversive Spirits. New York: Henry Bolt and Company, 1999.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. Bauru, SP: EDUSC, 2000.

SILVA, Alexander Meireles da. Literatura Inglesa para Brasileiros: Curso completo de Literatura e Cultura Inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.  

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

Você conhece os 7 vampiros e vampiras que criaram DRÁCULA?

No post “1732: o ano em que os vampiros dominaram a Europa” mostrei que o folclore do leste europeu é marcado pela presença de mortos-vivos que saem de seus túmulos para se alimentar da essência vital dos vivos.

Também mostrei como essas narrativas chegaram a Europa do século 18 criando um intenso debate no meio religioso e acadêmico sobre a existência ou não dos vampiros.

E a Literatura, é claro, não ficou a margem dessa discussão.

Mas diga a verdade: Quando você pensa em vampiro na Literatura, você pensa primeiro no Conde Drácula, não é?

Christopher Lee, o Drácula dos filmes do estúdio inglês Hammer nos anos 60.

Mas se hoje Drácula é sinônimo de vampiro isso é resultado de outros seres vampíricos que surgiram antes dele.

Seres que estabeleceram uma tradição literária que seria usada por Bram Stoker para escrever o romance Drácula (1897). 

Veja abaixo então quais são os sete vampiros e vampiras que criaram Drácula.

1. “O Vampiro” (“Der Vampir”)

Autor: Heinrich August Ossenfelder

Ano: 1748

Vampiro: Não aparece

Este curto poema, que inaugura a literatura vampírica, mostra um rapaz que anuncia sua vingança contra a amada pelo fato dela ter ouvido os conselhos de sua mãe para terminar o relacionamento, visto que o rapaz pertence a uma região com fama de ser infestada por vampiros.

Ainda que o vampiro não apareça aqui diretamente, os elementos de morte e desejo que surgem neste texto pela primeira vez associados ao vampiro e a importância do leste europeu como morada destes seres se tornaram parte indissociáveis nas obras seguintes.

Segue abaixo o poema completo com a tradução de Marta Chiarelli.

“Minha amada jovem crê,
Com constância firme forte,
Nos conselhos dados
Pela sempre piedosa mãe
Que como os povos do Tisza
Fielmente acredita
Em vampiros mortais.
Mas espere só, Cristina,
Tu não queres me amar;
Pois hei de me vingar,
E hoje brindo um tocai,
À saúde de um vampiro.

E, enquanto suave adormeces,
De tuas faces formosas
Sugo o púrpuro frescor.
Então tu vibrarás
Assim que eu te beijar,
e qual vampiro beijarei,
Então, quando tremeres
Tão logo sucumbas
E lânguida em meus braços,
Como morta cedas
                          Nesse instante indagarei,                           não superam minhas lições
 as de tua bondosa mãe?”

2. “Lenore” (“Lenore”)

Autor: Gottfried August Burger

Ano: 1773

Vampiro: Não aparece

Lenore percebe que seu amado não voltou vivo da guerra.

O poema narra a preocupação da jovem Lenore com a vida do seu amado William, que foi lutar na Guerra entre a Prússia e o Império Austro-Húngaro.

A aflição da moça aumenta quando vários homens, com exceção de seu William, retornam para casa.

Um noite, porém, William retorna montado em seu cavalo e chama Lenore para cavalgar com ele rumo ao seu leito de casamento.

Após uma acelerada jornada por paisagens sinistras Lenore e o cavaleiro chegam a um cemitério onde a aparência do cavaleiro se desfaz para revelar a Morte.

A entidade mostra o túmulo onde o corpo de William está e diz a Lenore que aquele será o seu leito de casamento. Neste instante o chão se abre e espíritos e demônios levam Lenore para a cova.

Apesar de não tratar diretamente de vampiros, a abordagem de dois temas caros a literatura de vampiros – o amor e a morte -, aliado eficaz construção de uma atmosfera gótica, fez com que “Lenore” exercesse um profundo impacto no gênero vampiresco.

Uma das frases mais conhecidas do romance Drácula
“Os mortos viajam depressa” – foi retirada deste poema.

3. “A Noiva do Corinto” (“Die Braut Von Korinth”)

Autor: Johann Wolfgang von Goethe

Ano: 1797

Vampiro: A noiva do Corinto

Considerado a primeira obra a usar de forma direta o personagem, neste caso, uma vampira, o poema mostra como a jovem virgem Philinnon retorna do mundo dos mortos para desfrutar dos prazeres sexuais que não teve em vida.

Ela se dirige à pousada de seus pais e seduz o corinto Machates, seu noivo quando era viva, que se encontra hospedado na casa dos pais da moça.

Desmascarada por seu pai e sua mãe, a vampira retorna para o túmulo e lá tem o seu corpo destruído.

Em “A noiva do Corinto” Goethe introduziu a ênfase no elemento sexual do vampiro.

A partir deste ponto, cria-se uma separação entre a imagem do vampiro folclórico, traduzida em um cadáver ambulante vestido farrapos, e a representação do vampiro literário, como um ser sedutor de sexualidade inquieta e aflorada.

4. “Christabel” (“Christabel”)

 Autor: Samuel Taylor Coleridge

Ano: 1816

Vampiro: Geraldine

Neste poema, o leitor conhece a história da jovem Christabel que se envolve com uma mulher chamada Geraldine.

Após ser convencida pela misteriosa personagem, a moça e Geraldine se despem e a jovem percebe a pele velha e seca da mulher e experimenta um momento de transe, que é o início de uma demorada cena homoafetiva.

Ao acordar, Christabel sente um imenso sentimento de culpa enquanto que Geraldine se levanta rejuvenescida.

Levada ao castelo do pai de Christabel, Geraldine se envolve com o pai da anfitriã e parte do castelo com ele.

“Christabel” não é apenas a obra que apresentou o vampiro pela primeira vez na Literatura Inglesa, mas também é o texto literário que criou a temática do homoerotismo vampírico.

5.  “O Vampiro” (“The Vampyre”)

Autor: John William Polidori

Ano: 1819

Vampiro: Lord Ruthven 

Filho de uma família rica, e procurando conhecer mais da sociedade inglesa, o jovem e inocente Aubrey conhece o misterioso e sedutor Lord Ruthven (pronuncia-se “rivven”) nas festas e recepções londrinas e decide acompanhá-lo em viagem pela Europa.

Aubrey, no entanto, logo se cansa do comportamento amoral de seu companheiro de viagem e o abandona, viajando para a Grécia.

Lá, ao explorar as florestas da região, ele quase morre ao tentar salvar uma bela jovem do ataque de um vampiro.

Polidori era médico pessoal do poeta maldito Lord Byron e usou a figura do poeta inglês para criar seu vampiro.

Enquanto se recupera, Aubrey reata a amizade com Lord Ruthven e, uma vez recuperado, viaja com ele pelas regiões da Grécia.

A dupla é atacada por ladrões de estrada e Ruthven é ferido mortalmente. Antes de morrer, ele exige que Aubrey prometa que guardará em segredo a noticia da morte do amigo pelo próximo ano.

Ao retornar para a Inglaterra o jovem descobre que sua irmã está envolvida por um nobre, que se descobre ser Ruthven, mas nada pode fazer por conta de sua promessa e… (vai ler o conto pra descobrir). 

Divisor de águas na literatura vampírica, este conto,

  1. introduziu o vampiro na ficção inglesa;
  2. criou a imagem do vampiro como um morto reanimado que caminha entre suas prováveis vitimas sem levantar suspeitas;
  3. estabeleceu o aspecto aristocrático da criatura;
  4. criou a imagem do vampiro como sedutor e avesso as morais sociais burguesas e;
  5. reforçou a presença do elemento erótico entre ele e sua vítima.

6. Varney o vampiro; ou O festim de sangue (Varney, the vampire; or The Feast of Blood)

Autor: James Malcolm Rymer

Ano: 1847

Vampiro: Sir Francis Varney

Quando vivo, Varney se chamava Mortimer e tinha sido um defensor da coroa inglesa no século 17 durante a guerra civil entre a monarquia e o Parlamento que resultou na decapitação do Rei Charles I em 1649.

Após matar acidentalmente seu filho em um momento de fúria, ele perde os sentidos e é despertado dois anos depois ao lado de um túmulo por uma voz que lhe diz que, por conta de seu ato, ele foi amaldiçoado e seu nome dali por diante seria Varney, o Vampiro.

Ele tinha a pele pálida, dente longos como presas, unhas compridas e olhos brilhantes. Após beber sangue ele ficava com a pele avermelhada.

Já no século 19 as aventuras de Varney giram ao redor de seu relacionamento com a família Bannerworth e seus conhecidos. 

Após muitas idas e vindas na Inglaterra, Napolês e Veneza, Varney decide dar um fim a sua existência vampírica e se atira dentro do vulcão Vesúvio.

Publicado em capítulos ao longo de 109 semanas, Varney, o vampiro é um dos mais bem sucedidos representantes do gênero penny dreadful, ou seja, histórias de enredo circulante e tom melodramático com ênfase no grotesco.

A obra foi posteriormente publicada em volume único de 800 páginas e se mostrou extremamente influente não apenas por popularizar o vampiro entre o grande público leitor, mas também por:

  1.  ser o primeiro romance de vampiros da literatura;
  2. inventar a imagem do vampiro de dentes pontiagudos;
  3. estabelecer o ataque no pescoço deixando duas marcas;
  4. criar o vampiro angustiado com sua existência sobrenatural; 

7. Carmilla, a vampira de Karnstein (Carmilla)

Autor: Sheridan Le Fanu

Ano: 1872

Vampiro: Carmilla (Condessa Mircalla de Karnstein)

A novela mostra como a jovem Laura, habitando com seu pai um pequeno castelo na região da Styria, atual estado da Áustria, se vê envolvida por uma mulher chamada Carmilla.

Carmilla entra na vida de Laura após um acidente de carruagem que a leva a se hospedar na moradia de Laura. Gradativamente elas se tornam intimas e Laura descobre que a misteriosa mulher a visitou durante a sua infância.  

A morte de outras jovens na mesma região acaba revelando que Carmilla é na verdade a vampira Mircalla, Condessa de Karnstein, que passa a ser perseguida pelas autoridades locais.

A primeira novela vampírica da Literatura Inglesa, Carmilla sedimentou a imagem do vampiro aristocrático do leste europeu que seria utilizado por Bram Stoker em Drácula. 

Dentre as convenções estabelecidas, também seguidas por Stoker, cito:

  1. A transformação em outros animais, no caso de Carmilla, um gato;
  2. Força sobre humana;
  3. Hábitos notívagos;

Nenhuma obra literária do Fantástico, e da Literatura em geral, nasce do nada da cabeça de seus autores.

Ela é resultado dos traumas, ansiedades, leituras anteriores e do mundo ao redor dos escritores e escritoras.

No caso de Drácula, muitos outros elementos contribuíram para a gênese da mais importante obra vampírica da Literatura.

Mas isso é assunto para outro post.

Já leu alguma das 7 obras mencionadas acima?

Lembre-se que se quiser ler em detalhes as informações aqui leia o texto de Introdução que eu fiz para os livros Contos clássicos de vampiros e Carmilla, ambas publicadas pela Editora Hedra.

Se gostou do post, assine o blog, deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos e amigas vampíricos.

Obrigado pela leitura e até a próxima! 

Fontes utilizadas

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

1732: O ano em que os vampiros dominaram a Europa

Presença constante em quase todas as culturas ao longo da História, os vampiros vem assombrando a humanidade desde a Antiguidade em mitos e lendas.

Lilith, a primeira mulher de Adão, e Lâmia, cujo filhos foram mortos por Hera, são os primeiros seres vampíricos mitológicos da humanidade.

No entanto, foi no folclore de países como a Grécia, Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Polônia, Hungria, Bulgária e Romênia que surgiu a imagem clássica do vampiro como um cadáver que sai do túmulo para tirar a vida das pessoas, como conhecemos hoje.

primeiro registro escrito do termo que daria origem a palavra “vampiro” surgiu em 1047 no eslavo antigo “Upir”. Ela apareceu na obra russa LIVRO DA PROFECIA, de Vladimir Jaroslov. Nela um padre era chamado de “Upir Lichy” (“vampiro hediondo”) dado o seu comportamento imoral.

Um ser de muitos nomes

Refletindo as diversas influencias culturais, étnicas, religiosas e linguísticas do leste europeu o vampiro folclórico se apresenta por nomes variados, tais como, Uppyr (russo moderno), Upír (bielo-russo, tcheco, eslovaco), Upirbi (ucraniano), Vampir (búlgaro), Upirina (servo-croata) e Uppier (polonês).

A força deste personagem no imaginário da região como a personificação da constante presença da morte entre os vivos, se alinha com a tradição desta conturbada parte da Europa marcada historicamente, até hoje, pela violência, pobreza, epidemias e conflitos étnicos e religiosos.

O esqueleto desta mulher polonesa de 45 e 49 anos, vítima de cólera, tinha pedras sobre ela, para que não se levantasse do túmulo e levasse seus parentes para o túmulo com ela.

Foi em um contexto de ressurgimento da Cólera e da Peste Bubônica no leste europeu do século 17 e 18, por exemplo, que ocorreu os casos de histeria coletiva atribuída a ataque de vampiros na Istra (1672), na Prússia oriental (1710 e 1725) e na Hungria (1725 a 1730).

Esta mulher polonesa entre 30 e 39 anos, vítima da cólera, tinha uma foice em seu pescoço para que cortasse sua cabeça fora ao tentar sair do túmulo.

Apesar do enorme número de relatos sobre ataques de vampiros do leste europeu, as barreiras políticas da região, dominadas na época pelo Império Otomano, impediam que estas informações chegassem de forma consistente nos centros da Europa Ocidental, como Alemanha, França, Inglaterra e Itália.  

Os mortos viajam rápido

O vampiro da Europa Oriental começou a atrair a atenção do Ocidente com o Tratado de Passarowitz de 1718.

Neste acordo político, metade da Sérvia e partes da Bósnia e da Wallachia (hoje parte da Romênia) deixaram de ser dominadas pelo Império Otomano e passaram para o controle do Império Austríaco-Húngaro.

Este novo cenário político abriu as portas de uma região que era próxima geograficamente da Europa ocidental, mas muito distante do ponto de vista cultural.

Jonathan Harker deixa suas impressões sobre a região dos Montes Cárpatos enquanto se dirige ao castelo do Conde Drácula.

Esta percepção continuou até o fim do século 19, como está bem marcado no relato de Jonathan Harker presente no início de Drácula (1897):

“Descobri que o distrito por ele [Drácula] nomeado encontrava-se no extremo leste do país, nas fronteiras entre três estados, a Transilvânia, a Moldavia, e a Bucovina, bem no meio das montanhas carpacianas, uma das mais primitivas e menos conhecidas partes da Europa”. 

Em pouco tempo Alemanha, França e o Reino Unido tomaram conhecimento de relatos repetidos sobre vampiros que aconteciam nas regiões sob o governo do Império Austríaco-Húngaro. 

Era a hora do vampiro lançar sombras sobre o Século das Luzes.

Os vampiros invadem a Europa

Em pleno Iluminismo, quando a Ciência moderna estava surgindo e o Racionalismo estava na ordem do dia, a Europa se viu tomada pelo chamado “levante vampírico” do leste europeu, disseminado e popularizado pela recém-criada imprensa.

Voltaire

Os relatos sobre ataques de vampiros chamaram a atenção de diferentes pensadores da época, como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau.

Para eles, estas histórias eram crenças supersticiosas incompatíveis com uma época de descobertas e inovações científicas e deveriam ser esquecidas.

Jean-Jacques Rosseau

Mas, como você sabe, é difícil matar um vampiro.

Devido à proximidade geográfica e cultural com o leste europeu, a Alemanha foi o primeiro país a tratar do tema dos vampiros em duas obras investigativas, ainda no plano religioso:

De Masticatione Mortuorum in Tumulus Liber (1728), de Michaël Ranft: Discute a impossibilidade dos vampiros de assumirem forma física tangível para atacarem os humanos;

Dissertatio Physica de Cadaveribus Sanguisugis (1732), de Johannes Christianus Stock: A obra aponta o Diabo como origem dos sonhos com os mortos-vivos.

O vampiro vira best-seller 

O crescente relato de casos sobre vampiros em terras sob seu controle levou os administradores austríacos a se envolverem diretamente com o caso.

Em 1731 uma comissão científica investigativa foi enviada a Sérvia com o propósito de expor a falsidade dos relatos sobre os sugadores de sangue.

Todavia, o resultado desta iniciativa, liderada pelo cirurgião de Regimento de Campo da Infantaria Austríaca Johannes Fluchinger, teve efeito contrário e chocou a Europa.

Nos relatos ouvidos por Fluchinger na região da Medvegia, Sérvia, dezessete pessoas teriam morrido no ano de 1731 em um curto espaço de tempo em decorrência de ataques de cinco anos atrás de um vampiro chamado Arnold Paole.

Paole havia sido um soldado atacado por um vampiro na Sérvia-Turca. Após a sua morte, relatos surgiram dizendo que o ex-militar havia retornado como um morto-vivo para molestar as pessoas da sua vila.

O corpo de Paole foi desenterrado quarenta dias após a sua morte e, diante das evidências físicas de vampirismo (conservação do corpo, crescimento de unhas e cabelos, e presença de sangue no canto da boca), os homens do local esfaquearam o cadáver, decapitaram a cabeça e queimaram o corpo.

As dezessete mortes ocorridas mesmo depois da destruição do vampiro foram atribuídas ao consumo de carne de gado vampirizado por Arnold Paole.

Uma vez feita a exumação dos cadáveres, Fluchinger examinou os corpos e constatou características semelhantes às registradas no corpo de Arnold Paole, ordenando na sequencia a destruição de todos os corpos.

O relatório detalhado das investigações, no qual Fluchinger registrou sua incapacidade de atribuir os casos de vampirismo como mera superstição popularfoi apresentado ao imperador austríaco em 1732 e recebeu o nome de Visum et Repertum.

1732: Os vampiros dominam a Europa

Assinada e referendada por um oficial médico austríaco, Visum et Repertum logo se espalhou pelo continente europeu transformando-se tanto em sucesso de vendas quanto alvo de ataques de pesquisadores e teólogos da época.

Por conta desta obra, 17 artigos sobre diferentes aspectos do vampirismo foram publicados nos jornais de 1732 e 22 tratados sobre o tema surgiram nos três anos seguintes a publicação do relatório de Fluchinger.

Dentre estas obras, destaque para: 

Lettres Juives (1736), do francês Jean-Baptiste de Boyer, conhecido como o Marquês d’ Argens;

Dissertazione sopra i Vampiri (1744), do italiano Monsenhor Giuseppe Davanzati;

Dissertations sur les Apparitions des Anges, des Démons e des Esprits, et sur les revenants, et Vampires de Hungrie, de Bohême, de Moravie, et de Silésie (1746), de Dom Augustin Calmet, acadêmico católico francês e o mais famoso vampirologista do início do século 18.

Como era de se esperar o intenso debate sobre os vampiros chamou a atenção de artistas e do público, levando o vampiro para uma nova região que ele logo dominaria: a Literatura.

O vampiro entra na Literatura

Seguindo o pioneirismo, já comentado, da investigação ocidental do fenômeno da criatura sugadora de sangue, a Alemanha introduziu o tema do vampiro na Literatura em 1748, dois anos depois da obra de Dom Augustin Calmet.

Abordando o personagem de forma metafórica, o curto poema “O Vampiro” (“Der Vampir”), de Heinrich August Ossenfelder inaugurou a literatura vampírica.

Na história, um rapaz deseja vingança contra a amada pelo fato dela ter seguido o conselho da mãe para abandoná-lo, devido às suas origens estarem ligadas a uma região repleta de vampiros.

A partir dai, o vampiro nunca mais cessaria de assombrar e influenciar a Literatura.

O DIABO APAIXONADO (1772), do francês Jacques Cazotte é a obra que inaugura o Gênero Fantástico.

Qual seria o impacto do “levante vampírico” do século 18 sobre o nascimento do Gênero Fantástico? E do Gótico? Quais obras moldaram e subverteram o vampiro na Literatura?

Isso é assunto para outro post…

E se você quer ler em detalhes as informações que mencionei aqui recomendo a (longa) Introdução que escrevi para a coletânea Contos Clássicos de Vampiros e para a novela Carmilla: A Vampira de Karnstein, ambas publicadas pela Editora Hedra.

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Fica a dica

Se você é Doutorando(a), já completou o Doutorado e curte o Fantástico fica aqui também o convite para enviar um artigo para a Revista  Scripta Uniandrade

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 1 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua portuguesa

Submissão: até 31 de maio de 2017.

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 2 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua inglesa

Submissão: até 31 de julho de 2017.

 Para maiores informações, clique aqui.

Fontes utilizadas

BARBER, Paul. Vampires, Burial and Death. New York: Yale University Press, 1988.

FERREIRA, Cid Vale (Org.) Voivode: estudo sobre os vampiros. São Paulo: Pandemonium, 2002.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

IDRICEANU, Flavia, Bartlett, Waine. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. Trad. Silvia Spada. São Paulo: Madras, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Será que você é um canibal? O canibalismo no fantástico (Parte 2)

Na primeira parte do post sobre a relação entre o Canibalismo e o Fantástico, que você pode acessar clicando aqui, apresentei um breve panorama de como a prática de comer carne humana acompanha a história da humanidade antes mesmo dela surgir na mitologia grega passando pela Idade Média e chegando aos contos de fadas que conhecemos.

Cronos versus Zeus: Canibalismo mitológico.

Neste segunda parte do post, você vai ver como o canibalismo se tornou uma linha divisória entre o civilizado e o bárbaro, entre o humano e o monstruoso.

A comédia zumbi SANTA CLARITA DIET permite refletir sobre rotina e acomodação na sociedade moderna.

Vai ver também como ele se tornou um simbolo das ansiedades do ser humano no mundo de hoje, algo visto na série da Netflix Santa Clarita Diet e no filme Grave (Raw, no original em inglês).

A relação do individuo com o corpo nos tempos modernos aparece refletido no filme

Se você quer ler logo sobre como o fantástico interpreta o mundo por meio do canibalismo, antes de conhecer a história da prática de se comer carne humana, clique aqui

O Canibal é americano

Polifemo era filho de Poseidon com uma ninfa da água

Quando os europeus se lançaram ao mar no século 15 e 16 eles levaram em seus navios todo o imaginário herdado dos relatos da Antiguidade sobre criaturas monstruosas e canibais, como o do ciclope Polifemo, que devorou os homens de Ulisses na obra A Odisséia.   

O monstro nos confins do mundo

A Literatura de Viagens da época, seguindo essa crença, era repleta de relatos de criaturas antropofágicas que viviam em regiões da Etiópia e da Índia, como os Cinocéfalos, homens com cabeça de cães.

Os cinocéfalos se alimentavam dos viajantes incautos

A chegada dos europeus as Américas trouxe a revelação de que alguns dos povos indígenas do continente consumiam carne humana em rituais religiosos.

Representação do canibalismo da tribo brasileira dos Tupinambá em 1557, conforme descrição de Hans Staden.

Esse ritual visava adquirir a coragem dos guerreiros inimigos capturados ou como parte de oferenda para os deuses.

Canibal ou Antropófago? 

Foi neste contexto que, ao observarem os índios antropófagos das ilhas do Caribe, os exploradores criaram a palavra “Canibal”

A prática do canibalismo foi um dos motivos alegados pelos europeus para a escravidão indígena, com o pretexto de que eles não eram humanos.

Mas, qual é a diferença entre Canibalismo e Antropofagismo? 

Todo antropófago é canibal, mas nem todo canibal é antropófago.

Explico.

O Canibalismo ocorre quando um individuo de uma espécie come outro representante da mesma espécie. Não é exclusivo do universo humano.

No caso do Louva-a-deus o canibalismo é cometido pela fêmea, que devora o macho depois do ato sexual.

Já a Antropofagia (do grego anthropos, “homem” e phagein, “comer”) ocorre especificamente quando um individuo humano come a carne de outro ser humano.

Canibais brancos e cristãos

Ainda que após o contato entre europeus e os povos indígenas, estes últimos tenham sido associados a antropofagia, os colonos brancos (e cristãos) também não ficaram de fora.

Durante o ano de 1609 na cidade de Jamestown, uma das primeiras experiências colonizadoras na América, os colonos ingleses precisaram recorrer ao canibalismo como forma de sobreviverem ao rigoroso inverno que se abateu sobre o assentamento. 

O canibal é o outro

Sendo um dos principais tabus da humanidade, o canibalismo sempre é associado a alguém pertencente a alguém de outro grupo. Nunca a nós.

O Kindilfresser é um comedor de crianças da Suíça cujas origens podem estar relacionadas ao preconceito contra os judeus.

Judeus, muçulmanos, índios, negros… todos os que não pertenciam ao padrão branco, cristão e europeu eram enxergados como canibais em potencial.

O Papa figo é um negro leproso que coloca as crianças no saco para depois comer o figado delas.

No folclore do Brasil, esse preconceito está expresso em criaturas canibais ligadas ao medo infantil, tais como o Papa figo e o Quibungo.

O Quibungo é negro e tem uma bocarra nas costas por onde ele enfia as crianças que pega.

Para saber mais sobre essas e outra criaturas, leia o post aqui do blog “Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?”

O canibalismo no Cinema

Depois de passar pela Mitologia e pela História, o canibal encontrou no Cinema o espaço ideal para mostrar seu apetite.  

Os pais dos canibais cinematográficos

Dois filmes da década de 1960 foram os responsáveis por promover uma verdadeira invasão de comedores de carne humana no Cinema dos anos setenta.

Para assistir ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

  1. Mondo Cane (1962)

Produção italiana que inaugurou o gênero Shockumentary, este filme traz vários costumes e práticas de povos e comunidades ao redor do mundo, dentre os quais, o canibalismo.

2. A noite dos mortos-vivos (1968) 

Filme que reinventou o personagem folclórico do zumbi no cinema e introduziu o tema do canibalismo no fantástico. O primeiro zumbi canibal está aqui

Se quiser saber mais sobre zumbi, veja o vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 curiosidades monstruosas: Zumbi”.

Os anos de fartura para o canibal

Os anos setenta foram os anos dourados do canibalismo no Cinema dado o grande número de produções na Itália e nos Estados Unidos com esta temática.

Estes filmes podem ser encontrados no YouTube e para assistir abaixo ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

Cito abaixo as produções mais relevantes para a Ficção Científica e o Horror:

  1. No mundo de 2020 (Soylent Green / 1973) 

Se A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells é o primeiro romance de ficção cientifica a tratar do canibalismo, No mundo de 2020 é a primeira distopia a tratar do tema no Cinema. 

Vivendo em um mundo onde a ração Soylent Green é distribuída a população faminta, o policial vivido por Charlton Heston inicia uma investigação sobre a morte de um executivo que o leva a descobrir do que a ração é feita.

2. O massacre da serra elétrica (The Texas Chain Saw Massacre / 1974)

Clássico do Horror, o filme de Tobe Hooper ganhou uma refilmagem em 2013 para celebrar os 40 anos do original. 

O filme introduziu o canibal Leatherface, considerado um dos maiores vilões de todos os tempos e que antecipou outros assassinos de adolescentes nos anos seguintes em filmes como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

3. A montanha dos canibais (La montagna del dio cannibale / 1978)

Trazendo a bela Ursula Andress como protagonista, este filme se insere nas produções do ciclo canibal italiano iniciada em 1972 com The Man from the Deep River e apela para a temática da Literatura de Raças Perdidas como pretexto para cenas de nudez, violência extrema e até zoofilia, por conta da cena de um canibal transando com uma porca!

O canibal no espelho

As últimas décadas do século vinte e o início do século vinte e um forneceram o contexto para uma renovação do canibalismo no Cinema ao subverter a fronteira entre o civilizado e o selvagem, entre o Eu e o Outro. 

A modernidade faz do ser humano um canibal.

Este é o caso dos filmes abaixo. Para assistir aos trailers, basta clicar nas imagens.

1. Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust / 1980)

Ao contrário do que se pode pensar, Bruxa de Blair (1999) não foi o primeiro filme de horror do gênero Found footage e Mockumentary, isto é, produção que simula a descoberta de material de filmagem de um equipe cinematográfica desaparecida durante a realização de pretenso documentário.

Na frente das câmeras, documentaristas idealistas, por trás das câmeras, sádicos urbanos

Este mérito cabe a Holocausto canibal, conhecido como “O filme mais polêmico e controvertido de todos os tempos”.  

Banido de vários países, esta produção italiana levou o diretor Ruggero Deodato aos tribunais por ser acusado de realizar um Snuff Movie, ou seja, um filme em que um assassinato real é realizado para fins lucrativos e de entretenimento.

Na ocasião ele teve de provar que todos os atores estavam vivos e bem.

No filme, a equipe de filmagem agride os indígenas de todas as formas.

O maior impacto de Holocausto canibal foi deslocar a barbárie dos índios canibais para os jovens cineastas, que praticaram todo o tipo de crueldade com os indígenas em busca de um documentário impactante.

A cena da câmera que fica gravando depois da morte do último personagem, foi inventada neste filme.

O resultado foi a vingança dos nativos contra uma nova espécie de monstro: o homem civilizado.

2. O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs / 1991)

Adaptação do segundo romance de 1988 de Thomas Harris, este filme ganhador de vários óscares apresenta no cinema o psiquiatra Hannibal Lecter.

Vencedor de vários prêmios, o filme rendeu o Oscar de Melhor Ator para Sir Anthony Hopkins.

Culto, cortês e elegante, mas também sádico, manipulador e… canibal, Hannibal Lecter é a incorporação do ambiente de fim de século, mostrando que por trás da capa superficial de civilidade do ser urbano existe um monstro pronto a emergir.     

3. Psicopata americano (American phycho / 2000)

Baseado no romance de 1991 de Bret Easton Ellis e adaptado para o cinema em 2000, a obra é ambientada nos anos oitenta e traz como protagonista um Yuppie extremamente competitivo e narcisista.

O filme traz o sempre excelente Christian Bale como o psicopata Patrick Bateman.

Assim como o livro, o filme foi cercado de polêmicas sobre os limites entre a arte e a violência gratuita.

Crítica feroz ao Capitalismo selvagem, Psicopata americano perturba por criticar uma geração que quanto mais tinha menos sentia, quanto mais subia na carreira profissional mais descia na civilidade a ponto de, em uma escalada de violência, se tornar canibal.

4. A estrada (The Road / 2009)

Nesta distopia baseada no romance de 2007 do escritor Cormac McCarthy e premiado com o Pulitzer, pai e filho precisam atravessar uma América pós-Apocalíptica rumo a um local seguro enquanto enfrentam, entre outros perigos, pessoas que aderiram a prática do canibalismo.

Os recentes casos de barbárie e vandalismo presenciados no início de 2017 tanto nos presídios brasileiros por conta da luta entre facções quanto no estado do Espírito Santo em virtude da greve da polícia não deixam duvidas sobre o canibalismo ser uma realidade a se temer quando da decadência da sociedade.  

5. Grave (Raw / 2017)

Justine é uma jovem vegetariana que acaba de ingressar na faculdade de Veterinária seguindo, assim, os passos da família.  

O problema é que, após sofrer um trote no qual precisa comer carne, a menina começa a manifestar impulsos canibais. 

Bullying, distúrbios alimentares, culto ao corpo, relacionamento amoroso nos tempos atuais, tudo passa pela temática do canibalismo neste que promete ser um dos filmes mais polêmicos do ano de 2017.

6. Santa Clarita Diet (2017)

Esta série cômica da Netflix prova que o zumbi ainda pode render boas histórias quando os roteiros ajudam a contar uma boa história.

A série não foca nos motivos que levaram a corretora de imoveis Sheila a ser tornar uma morta-viva, preferindo mostrar as consequências dessa transformação sobre sua família.

Os episódios centram na gradual adaptação da família ao nova condição da mãe e esposa, ao mesmo tempo em que mostra a personagem se sentindo mais viva do que nunca depois que morreu e passou a comer pessoas.

Vale assistir. 

Gostou? Então lembre que o vídeo desta semana do FANTASTICURSOS no YouTube também é sobre Canibalismo. 

Basta clicar aqui.

Então deixe seu comentário ai embaixo e compartilhe este post com seus amigos carnívoros, vegetarianos, veganos e canibais.

Até a próxima semana.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?

As criaturas fantásticas do folclore brasileiro trazem em seus corpos as marcas de sua origem na junção das culturas europeia, africana e indígena.

Saci de jardineira e Cuca com roupa de princesa na adaptação para a TV da obra de Monteiro Lobato

Normalmente vinculados a regiões específicas do Brasil, muitos destes seres monstruosos ultrapassaram suas fronteiras geográficas graças a obras como O Sítio do Pica-Pau AmareloA Turma do Pererê e Chico Bento.

A onça Galileu, Pererê e o índio Tininim

Todavia, se por um lado essa exposição apresentou Saci-Pererê, Cuca, Mula-sem-cabeçaCurupira e Iara, dentre outros, para os moradores das cidades, por outro ela provocou uma diluição e infantilização destes seres enquanto agentes do medo.       

Chico Bento com os 5 personagens mais lembrados do folclore brasileiro. Mas, e os outros?

O fato, porém, é que o folclore brasileiro é repleto de seres que poderiam (e deveriam) ser explorados em produções além das relacionadas ao público infantil.

Como o Terror e o Horror, por exemplo.

Se você quer conhecer logo 10 monstros do folclore brasileiro, que não fariam feio em filmes do Guillermo del Toro ou de terror asiático, antes de saber porque os monstros existem, clique aqui.

O que o monstro mostra

A origem da palavra “monstro” se encontra no latim monstrare, que quer dizer “mostrar”.

Mas o que o monstro mostra?

Esta pergunta vem sendo objeto do interesse da humanidade desde que o homem começou a explorar o mundo ao seu redor levando-o a encontrar criaturas que refletiam as suas ansiedades, medos e até mesmo desejos.

“O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS ” (1799), do espanhol Francisco de Goya, mostra o homem como fabricante dos monstros.

Maravilhas orientais

Especificamente no Ocidente, as criaturas monstruosas das mitologias greco-romana serviram de base para que, na Antiguidade, estudiosos  como Ctésias de Cnido (398 a. C.) e Plínio, o Velho (77 d. C.) desenvolvessem os primeiros registros sobre as monstruosidades que habitavam a Índia.

Já na época a Índia fascinava a mentalidade ocidental e ela passou a ser acessível a partir das campanhas de Alexandre, O Grande (326 a. C) no Oriente.

A partir dai os ocidentais passaram a ter conhecimento de criaturas que, de acordo com os relatos do período, habitavam a região.

Seres como os Blêmias, cujo rosto se localizava no peito,

Os Cinocéfalos, seres com cabeça de cão,

E ainda os Ciápodes, que se protegiam do sol com seu único pé enorme,

Essa multidão de seres sobrenaturais ganhou outra leitura quando passaram a ser objeto do interesse de Santo Agostinho (354-430 d. C), um dos principais pensadores da Igreja Católica medieval.

Criaturas de Deus

Agostinho foi o primeiro filosofo a considerar o lugar do monstro dentro dos planos de Deus.

Para ele, os monstros tinham algo a mostrar sobre tudo o que Deus anunciava realizar de forma ameaçadora no corpo dos seres humanos.

Considerados expressões da vontade de Deus, e portanto benéficos, os monstros levavam o homem a refletir como ele seria se não seguisse os preceitos de Deus. 

Após Agostinho, outros pensadores religiosos como Isidoro de Sevilha (576-636) e Thomas de Cantimpré (1201-1272) desenvolveram escritos que explicavam a anatomia e simbolismo dos monstros:

  • Os Pigmeus simbolizavam a humildade;
  • Os Gigantes, o orgulho;
  • Os Cinocéfalos, a discórdia;
  • Os Homens com beiços pendurados, a mentira;
  • Os Blêmios, a ganância.

A partir das reflexões religiosas do período, o monstro penetra nos romances medievais, se disseminando pela Europa e penetrando na memória do povo até os dias de hoje, sempre tendo algo a ensinar. 

Pedagogia dos monstros

No ensaio, “A Cultura dos Monstros: sete teses”, presente na obra Pedagogia dos monstros (2000), o crítico Jeffrey Jerome Cohen propõe sete maneiras de se entender os monstros que fascinam o homem. São elas:

  1. O corpo do monstro é um corpo cultural: As criaturas monstruosas refletem a cultura da época em que estão inseridas;
  2. O monstro sempre escapa: Os monstros se deslocam pela cultura, mantendo suas existências ao surgir em outras formas;
  3.  O monstro é o arauto da crise das categorias: O monstro existe porque ele reflete um momento de mudança de crenças, pensamentos e convenções de sua sociedade;
  4. O monstro mora nos portões da diferença: As criaturas monstruosas trazem em seu corpo o impacto que as diferenças cultural, política, racial, econômica e sexual tem sua sociedade;
  5. O monstro policia as fronteiras do possível: O monstro é um símbolo das consequências em se transgredir normas e convenções sociais, religiosas, políticas e sexuais;
  6. O medo do monstro é realmente uma espécie de desejo: O monstro desperta o medo, mas também a curiosidade, a atração pela sua forma que desafia o único e o heterogêneo;
  7. O monstro está situado no limiar… do tornar-se: Os seres monstruosos nos ensinam sobre nosso lugar no mundo. Nos força a refletirmos sobre nossas verdades, valores e nossa percepção e aceitação do diferente.

Agora que você conhece um pouco mais sobre o monstro, vamos a lista.

Como não existe nada mais assustador que o ser humano, selecionei para este post apenas as criaturas que tem forma humana, deixando de fora animais encantados como a Mula-sem-cabeça, a Onça Maneta, a Anta-Cachorro e outros.

As 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro

1. Bradador

Região:  São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina

Imagina você na madruga dormindo e de repente começa a ouvir gritos assustadores!

O Bradador é um espectro que solta gritos e uivos tenebrosos ao redor das casas ou nos caminhos frequentados por ele/ela. 

Apesar de não possuir uma forma definida, o que distingue este fantasma da noite dos demais espíritos são os berros de lamúria pela sua penitência, que deixam os ouvintes da região assombrada de cabelos em pé.

Sua origem está ligada a criatura Zorra Berradeira, que assusta os casais adormecidos com os seus gritos horríveis na região portuguesa de Trás-os-Montes.

Assim como na variante portuguesa, o Bradador é uma alma que cometeu pecados em demasia e não encontra o descanso divino.

2. Capelobo

Região: Pará, Maranhão

No Maranhão a criatura é chamada de Cupelobo.

Habitando a região do rio Xingu, o Capelobo causa muito medo nas populações indígenas. 

Possuindo forma humana coberta de pelos negros e patas redondas, esta criatura é apresentada possuindo ora cabeça de anta, ora cabeça de tamanduá. 

O Capelobo sai a noite, sempre anunciando sua chegada por meio de urros e gritos, e percorre barracões e acampamentos carregando cães, gatos e crianças recém-nascidas com ele.

O Capelobo também é chamado de “Lobisomem dos índios”.

Quando pega um homem ou animal a criatura aperta a vitima em um abraço mortal, abre um orifício em sua cabeça para enfiar a ponta de seu focinho nela e suga toda a massa encefálica do infeliz. 

Enquanto agente do medo, o Capelobo só perde em popularidade na região do Pará para o Mapinguari e, semelhante a ele, só pode ser morto com um tiro no umbigo. 

3. Corpo-seco

Região: São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Nordeste do Brasil

Esse aí nem o Diabo quis.

Quando a pessoa passa pela vida semeando o mal, principalmente contra o pai e a mãe, pratica incesto e é avarenta, ao morrer a sua alma não é acolhida nem pelo céu e nem pelo inferno, levando a terra a jogar o corpo para fora do túmulo. 

O Corpo-seco tem o corpo magro, ressequido, semelhante a uma múmia e seu corpo é um aviso da perdição da alma.

Repousando em seu tumulo de dia, esse esqueleto coberto de pele percorre, durante a noite, os lugares que frequentou em vida.

O Corpo-seco é nosso zumbi brazuca

É costume que a família da criatura tente acabar com sua penitência promovendo missas e distribuindo esmolas, além de encher o caixão com cal, na esperança de que o corpo se dissolva. 

4. Curacanga

Região: Maranhão e Pará

Este ser também é conhecido como Cumacanga

Quando qualquer mulher tem sete filhas, a última vira Curacanga, ou seja, a cabeça solta do corpo e, em forma de bola de fogo, percorre os campos e caminhos apavorando os viajantes.

Esta criatura tem sua origem na Europa medieval na crença de que a sétima filha seria uma seguidora de Satanás.

Não apenas na Europa, mas também na Ásia, há a tradição de cabeças humanas que voam destacadas do corpo espalhando o terror.

5. Labatut

Região: Rio Grande do Norte, Ceará

O Labatut é um ser enorme, de pés redondos, corpo coberto de pelos ásperos, dentes que saem da boca com aparência de presas de elefante e dono de um só olho no meio da testa.

Monstro canibal, guardando semelhança com os ciclopes da mitologia grega, ele prefere comer meninos porque são menos duros que os adultos.

Tô te vendo!

Costuma parar nas portas das casas para ouvir quem está falando alto ou cantando. Essas são as suas vitimas preferidas.

Sua origem está relacionada a um general francês do século dezenove de nome Pedro Labatut, cuja violência e crueldade deixaram marcas nas lembranças dos moradores do Ceará na década de 1830, levando-o a assumir forma monstruosa nos relatos do povo.

6. Mapinguari

Região: Acre, Amazonas, Pará

Esta é a criatura folclórica com mais registros de avistamentos na região amazônica.

O mais popular monstro da Amazônia, o Mapinguari é o terror de caçadores e trabalhadores que atuam na floresta, pois ele mata e devora quem encontrar pela frente.

É descrito por testemunhas como um homem agigantado, coberto de pelos negros, unhas em garras, apenas um olho e com uma gigantesca boca vertical que vai do nariz até o estomago.

O ponto fraco da criatura é o umbigo.

Ao pegar um homem, enfia a cabeça da pessoa na bocarra e masca a cabeça de forma lenta, depois arranca a carne da vitima em pedaços.

Diferente de outras criaturas fantásticas, o mapinguari dorme a noite e anda de dia, sempre anunciando sua chegada com gritos e uivos.

Tendo o nome derivado possivelmente de mbaé-pi-guari (a coisa que tem o pé torto) o mapinguari é considerado uma possibilidade real por alguns estudiosos.

David Oren, ornitólogo americano naturalizado brasileiro, acredita que o monstro possa ser um exemplar sobrevivente de um megatério – uma preguiça gigante que habitou a região há 10.000 anos.  

7. Mão de cabelo

Região: Minas Gerais 

Vai um mãozinha aí?

Espantalho das crianças, este espectro vai até a cama dessas para verificar se elas urinaram no leito.

Para isso, o Mão de Cabelo usa suas mãos macias, sedosas e feita de pelos para tocar o sexo dos meninos e meninas.  

Fantasma pedófilo

É um fantasma magro, de forma humana e roupa branca. 

O folclorista Luiz Camara Cascudo registra em Geografia dos mitos brasileiros que no Sul de Minas é comum a frase caipira: 

“Oia, si nêném mijá na cama, Mão de Cabelo vem ti pegá e corta a minhoquinha de nêném…”

Ainda que não tenha relação direta, o Mão de cabelo guarda semelhança com o Mãos-peludas inglês, que ataca os que passam na estrada de Datmoor, Inglaterra.

Trata-se de duas mãos sem corpo que aterrorizam a região ao atacar motoristas agarrando o volante do carro e jogando o veículo pra fora da pista.

Sem ter uma razão definida para os ataques, além da simples prática do mal, o Mãos-peludas também bate na janela dos carros parados para assustar os seus ocupantes.  

8. Papa-figo

Região: Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte

Camara Cascudo chama o Papa-figo de “O lobisomem das cidades”.

É um negro velho, alto, sujo, pálido, vestindo farrapos e com um saco nas costas no qual coloca crianças raptadas para comer-lhes o fígado ou vender o órgão para leprosos ricos. 

A imagem do Papa-figo parte de um episódio real ocorrido em Natal no ano de 1938 quando dois negros adoentados foram presos após levarem duas crianças com eles.

A repetição da ocorrência no Ceará e em Pernambuco acabou criando a imagem do ser folclórico.  

Quando crianças cristãs desapareciam na Idade Média, eram costume acusar leprosos e judeus pelo sumiço.

Percebe-se nesta lenda a sobrevivência da crença, ligada a Grécia e a Roma antiga, no simbolismo do fígado como responsável absoluto pelo equilíbrio da saúde humana. 

A partir dai, já na Idade Média, ocorriam relatos de leprosos que, para se livrarem do sofrimento da doença, matavam crianças para beber o sangue e comer o fígado.

Hoje a Hanseníase, nome que substituiu a Lepra, é uma doença perfeitamente tratável, o que ajuda a diminuir a crença nesta lenda e o preconceito contra as pessoas acometidas pela doença. 

A relação entre doenças e  o fantástico será tema de um post exclusivo aqui no blog.

9. Pisadeira

Região: São Paulo, fronteira de Minas Gerais

Criatura de presença universal que assume faces diferentes.

Ela é descrita como uma velha muito magra, cabelos compridos e secos, unhas grandes semelhantes a garras, pernas curtas, nariz fino e olhos vermelhos.

Pisadeira chegou ao Brasil via Portugal, onde a criatura ataca durante o sono descendo pelas chaminés e pisando no peito das pessoas para provocar pesadelos.

Em português e espanhol (pesadilla) deriva de “peso”, “pesado”. 

ALPDRÜCKEN, o pesadelo alemão.

Todas as culturas tem em um íncubo, demônio ou outro espírito maléfico a explicação para os pesadelos noturnos.

BAKHTAK, o pesadelo iraniano.

Em outras culturas a criatura assume formas variadas: gigante, anão, mulher ou homem horrendo que, aproveitando o sono, senta-se sobre o estomago da vitima e lhe aperta o peito, dificultando a respiração.

10. Quibungo

Região: Bahia

Ele é o Bicho Papão negro.

Devorador de crianças, o Quibungo pertence aos pavores noturnos infantis e traz elementos do Papa-figo pela cor negra do personagem e pela grande boca nas costas onde ele enfia as crianças descuidadas.

É apresentado como um ser meio homem, meio animal que tem uma cabeça muito grande e uma bocarra nas costas, que se abre quando ele abaixa a cabeça e se fecha quando ele levanta.

O monstro pode ser morto por tiro, faca e paulada.

Pertencente a tradição oral afro-brasileira, ele come as crianças abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando dentro os pequenos. 

Seu nome está ligado ao Congo e Angola, onde a palavra n’bundo significa “Lobo”. Posteriormente o termo virou qui-n’bungo.

Já ouviu histórias sobre algum desses monstros? Seus avós já viram algum deles?

Deixe seu comentário, compartilhe se gostou e assine o blog.

Obrigado. 

Fontes utilizadas

CASCUDO, Luís da Camara. Dicionário do folclore brasileiro. 6ed. São Paulo: Editora Itatiaia, 1988.

CASCUDO, Luís da Camara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com