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As vampiras mães: o arcano feminino e o medo masculino

A Banshee, abordada também no vídeo, era uma fada negra que mostra a dualidade do feminino.

No vídeo desta semana da série O QUE É FANTASIA, lá no canal do FANTASTICURSOS no Youtube, falei das fadas e como elas representam o mistério que cerca o ser feminino que deu forma para o gênero Fantasia.

Mas, além das fadas, o ser vampírico também tem uma estreita ligação com o feminino, reforçando o vínculo da mulher com  o mistério da natureza.

Vou falar aqui de três seres, ligados a culturas diferentes, que expressam o arcano feminino na tradição vampírica: as vampiras mães Kali, Lilith e a Lâmia.

A dualidade da Natureza  

A universalidade do mito do vampiro na cultura das civilizações certamente reflete uma busca do ser humano em representar o desconhecido para, assim, tentar racionalizá-lo dentro da sua compreensão de mundo.

E nada inspirava tanto fascínio quanto medo como a Natureza e seu ciclo de nascimento e morte que perseguia o homem primitivo e os animais e plantações que lhe serviam de alimento. 

Para garantir sua perpetuação, a família foi criada. Desta forma, o nascimento das crianças dentro de uma estrutura de proteção foi a solução para a continuidade da existência humana.

Neste contexto, a ruptura desse ciclo, como a morte inesperada de um recém-nascido, não poderia ser visto como algo da Natureza. E não foi.

O arcano feminino

Desde o início da civilização há de se destacar o papel duplo reservado ao feminino e, especificamente de rituais, tabus e crenças, a maternidade sempre foi um mistério que contribuiu para estabelecer as relações do homem com a mulher enquanto manifestação da Natureza.

Essa conexão se manifesta na ligação com o arcano, ou seja, o mistério dos dons da profecia, da cura, e, dentro da visão masculina, também do poder para prejudicar outros.

Como conseqüência, com o tempo, o homem foi associado ao solar, ao racional enquanto a mulher era irracional, instintiva, ligada ao sonho e a Lua.

Mulheres de fase

A lua promoveu a relação da mulher com a noite e ao desconhecido da morte. O paradoxo do ser feminino é justamente a contradição de um ser ligado tanto a vida quanto a morte.

A ameaça do sexo feminino estava representado, por exemplo na menstruação. O sangue expelido ciclicamente pela mulher a marcava ritualmente como impura. Essa condição a levava a ser vista como possível portadora de males para a comunidade.

No próprio folclore brasileiro, conforme aponta o folclorista Luis Câmara Cascudo, há diversos tabus relacionados à mulher nessa fase, como a crença de que a menstruada não pode tocar dar o primeiro leite ou banho em uma criança, tocar em frutos verdes, fazer a cama de recém-casados, assistir a batizado, em suma, ela é um poder maléfico a tudo quanto representa ou constitua início de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo menstruação e maternidade estão ligadas no folclore do campo onde se crê que se deve plantar e semear somente na lua crescente, pelo fato de que os lavradores acreditarem que os partos e as menstruações são mais freqüentes em determinadas fases da lua.

E ai chegamos as vampiras mãe.

As vampiras mães

Essa dupla natureza da mulher que dá a vida, mas que pode trazer a morte, é especialmente expressa nas culturas antigas no culto das deusas-mãe.

Afinal de contas, a terra nutre a vida mas também é o reino dos mortos sob o solo.

Não é por acaso, portanto, que em muitas culturas as mulheres eram as responsáveis pelos cuidados reservados aos mortos por estarem mais ligadas ao ciclo da vida. Elas criam e destroem.

Kali, a destruidora do mundo

Essa dupla face está presente na deusa hindu Kali. A representação mais significativa que os homens criaram do ser feminino tanto destruidor quanto criador. Uma deusa cuja natureza de mulher fomentou as primeiras representações físicas dos vampiros.

Talvez a característica mais marcante dessa que é uma das mais importantes divindades da mitologia da Índia seja a sua sede de sangue. Suas primeiras aparições datam do século seis em textos religiosos de invocações.

Nestes registros ela foi descrita como tendo presas, usando um colar de cabeças humanas e morando perto de lugares de cremações.

História

Ela fez a sua aparição mais famosa no Devi-mahatmya, onde lutou ao lado da deusa Durga contra o espírito demoníaco Raktabija, que tinha o poder de se reproduzir com cada gota de sangue derramado.

Quando Durga estava sendo sobrepujada pelo inimigo Kali
apareceu e vampirizou não apenas as duplicatas de Raktabija, mas o próprio demônio.

Como outras divindades femininas semelhantes, Kali simboliza a desordem que aparece continuamente entre todas as tentativas de se criar a ordem, porque a vida é imprevisível.

É o princípio materno cego que impulsiona o ciclo da renovação. Mas, ao mesmo tempo, traz a peste, a doença e a morte.

Como as pesquisas antropológicas apontam, essa associação da mulher com a maternidade, o sangue, a vida e a morte aparecem sobremaneira entre os povos antigos em problemas relacionados com o parto, e serviram de matéria prima para as primeiras narrativas sobre vampiros.

Narrativas como as lendas de Lilith e da Lâmia.

Lilith, a primeira mulher

 

Falei dessa personagem em um dos primeiros vídeos do Canal FANTASTICURSOS no Youtube dentro da série “Lendas Medievais”. Para assistir, clique aqui.

A primeira aparição de Lilith aconteceu no épico babilônico Gilgamesh (2000 a. C.) como uma prostituta estéril e com seios secos. Seu rosto era belo, mas possuía pés de coruja (indicativos de sua vida noturna).

Lilith entrou na demonologia judaica a partir das fontes babilônicas e suméricas, e então migrou também para o folclore cristão e islâmico. No folclore islâmico, por exemplo, ela é a mãe dos djin, um tipo de demônio.

História

Mas é no Talmude hebraico (6 a.C.) que sua história se torna mais interessante ao ser apresentada como a primeira mulher de Adão. Na narrativa registrada no Talmude, Lilith se desentendeu com Adão sobre quem deveria ficar na posição dominante na hora do sexo (ou seja, esta foi a primeira discussão de casal que se teve notícia).

Ela então abandonou o marido e se refugiou em uma caverna no Mar Vermelho. Deus enviou três anjos ao nosso plano com a missão de mandar Lilith retornar para o marido. Neste ponto as versões variam.

Em uma delas Lilith teria desobedecido às ordens de Deus e, como conseqüência, foi amaldiçoada com a morte de seus filhos. Na outra versão, Lilith teria seduzido os anjos enviados para levá-la de volta e gerou a raça de demônios que atormentam a humanidade desde então.

As narrativas, no entanto, convergem em um mesmo ponto: Para se vingar de Deus e de Adão, Lilith passou a sugar o sangue e a estrangular todos os descendentes de Adão enquanto eles ainda são crianças.

Na Idade Média em particular todas as complicações relacionadas à maternidade, tais como, aborto, dores e sangramentos, eram atribuídos a Lilith e seus demônios. Também se acreditava que caso um homem recém-casado tivesse emissões noturnas isso seria um sinal da presença da vampira.

Para se defender dela os judeus medievais costumavam usar amuletos nos quais se escreviam os nomes dos três anjos enviados por Deus: SanviSansanvi e Semangelaf

Lâmia, a amante de Zeus

A maternidade também está por trás de um dos primeiros relatos de vampiros da Antiguidade, representada na criatura chamada Lâmia.

Quando era uma pessoa, Lamia era uma rainha da Líbia que se envolveu com Zeus em mais um dos vários casos amorosos do senhor dos deuses gregos com as mortais. Hera, no entanto, descobriu a traição do marido e destituiu Lamia de todos os seus filhos com Zeus.

Em conseqüência desse ato ela enlouqueceu e se escondeu em uma caverna a partir de onde ela começou a atacar todas as crianças sugando-lhes o sangue e comendo-lhes a carne.

Com o tempo, e em virtude de suas ações, ela começou a se deformar em uma besta hedionda cuja metade do corpo era em forma de serpente.

A Lâmia entretanto tinha a capacidade de se transformar em uma bela donzela com o intuito de atrair e seduzir rapazes para se alimentar deles. Outros espíritos demoníacos surgiram, gerando várias lâmias.

História

No capítulo 25 do quarto livro de Vida de Apolônio, produzido por volta do fim do século 2 da nossa era, Philostratus, o Velho faz um longo e detalhado relato sobre como o filosofo Apolônio (um genuíno predecessor do personagem literário Van Helsing) advertiu seu discípulo Menipo de que a bela donzela por quem ele havia se apaixonado perdidamente e havia decidido desposar no dia seguinte era na realidade uma vampira.

Diante dos protestos de Menipo, Apolônio compareceu a cerimônia de casamento e, diante dos convidados, confrontou e desmascarou a lamia. Esta admitiu seus planos e confessou seu hábito de se alimentar “em corpos jovens e bonitos porque o seu sangue é puro e forte”.

É interessante mencionar que ainda hoje na Grécia há um ditado popular que diz que se uma criança morreu de repente de causa desconhecida é porque ela foi estrangulada por uma lamia.

Semelhante a criatura grega, a strix romana (palavra latina que significa “coruja estridente”) era uma mulher da mitologia clássica que podia se transformar em uma ave de rapina voraz e se alimentar da carne e do sangue de crianças.

Assim como no caso da lâmia, os homens também poderiam ser vítimas da sedução mortal da criatura. Com o passar dos séculos, a lenda da strix migrou da mitologia romana para as narrativas da Idade Média, a partir daí ela chegou ao mundo ibérico e foi traduzida para o Português com o nome “Bruxa”.

E se quiser ler em mais detalhes as informações deste post recomendo a Introdução que fiz para a obra Carmilla, a Vampira de Karnstein, publicado pela editora Hedra.

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FONTES UTILIZADAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1983.

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

FERREIRA, Cid Vale (Org.). Voivode: estudo sobre os vampiros. São Paulo: Pandemonium, 2002.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

IDRICEANU, Flavia, bartlett, Waine. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. Trad. Silvia Spada. São Paulo: Madras, 2007

RICHARDS, Jeffrey. Sex, Dissidence and Damnation: Minority Groups in the Middle Ages. London: Routledge, 1995.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LEFANU, Sheridan. Carmilla: a vampira de Karnstein. Trad. São Paulo: Editora Hedra, 2010.

Jogando luzes nas trevas (Parte 3): O Gótico no Brasil decadente

No primeiro post escrevi sobre como o Gótico chegou a Literatura Brasileira durante o Romantismo por meio do Gótico Colonial, quando escritores abordaram o interior do país em um processo de reconhecimento e apresentação do país aos brasileiros.

O château do local foi construído no estilo em estilo gótico-provençal
Castelo Gótico da Ilha Fiscal, no centro do Rio de Janeiro.

Já no segundo post, da semana passada, o assunto foi a chegada do Gótico aos centros urbanos brasileiros através da Ciência Gótica.

O termo "Ciência Gótica" usado pelo crítico brasileiro Bráulio Tavares.
O Romance FRANKENSTEIN (1818), de Marys Shelley é tomado como um dos primeiros casos de Ciência Gótica .

Nesta terceira e última parte dos primeiros momentos da Literatura Gótica no Brasil vou mostrar como, além da Ciência Gótica, o Gótico se manifestou nas cidades brasileiras através por Decadentismo

A decadência do moderno

Ilustração do artista simbolista e surrealista Santiago Caruso.

O termo “Decadência”, conforme o verbete no Dictionary of Literary Terms and Literary Theory (1991), descreve um período da Arte ou da Literatura que, comparado com a excelência de uma era anterior, está em declínio.

Origem

Ilustração do artista simbolista e surrealista Santiago Caruso.

Ainda que o termo já tivesse sido usado para descrever, lá na Antiguidade, o final dos períodos Alexandrino (300-30 a.C.) e do Imperador Romano Augusto (14 d.C.), ele se consagrou nos tempos modernos na França para designar o movimento simbolista de meados e fim do século XIX.

Em termos estritamente literários, segundo o crítico Orna Messer Levin em As figurações do dândi (1996), a noção de Decadência apareceu pela primeira vez na França em 1834 no estudo do crítico Desiré Nisard no qual eram analisadas as semelhanças da poesia latina com a literatura romântica.

Mas foi com a coletânea de poemas As flores do mal (1857), do poeta Charles Baudelaire, fortemente influenciado pela visão artística de Edgar Allan Poe, que a literatura decadentista encontrou o seu manifesto, ganhando força através da influência exercida sobre os artistas contrários ao status quo.

Características

Ilustração do artista simbolista e surrealista Santiago Caruso.

O Decadentismo era identificado por algumas características, tais como:

  • Autonomia da arte em relação as questões sociais;
  • Necessidade do sensacionalismo;
  • Necessidade do melodrama;
  • Foco no egocentrismo;
  • Preferência pelo bizarro;
  • Construção de um mundo interior, artificial;
  • Posição autônoma do artista em relação à sociedade, particularmente a classe média burguesa;
  • Crítica ao racionalismo científico presente no pensamento realista-naturalista.

A Bíblia do movimento

Ilustração do artista simbolista e surrealista Santiago Caruso.

Em 1884, o Decadentismo chegou à prosa com a publicação de Às avessas, de Joris-Karl Huysmans, considerado como o “breviário” do movimento.

Nele, as idéias decadentistas ganham corpo no protagonista Des Esseintes, que exemplifica a figura decadente, consumida pela maladie fin de siècle.

Ele devota sua energia, fortuna e inteligência à substituição do natural pelo não-natural e artificial em uma existência que se resume pela busca de sensações novas e bizarras, uma ânsia trágica de libertação e narcisismo.

Na Literatura Inglesa, que veio a impactar diretamente esta manifestação do Gótico no Brasil, encontramos personagens decadentes nas figuras de Dr. Jekyll/Mr. Hyde (O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde /1886) e, principalmente, o jovem Dorian Gray (O retrato de Dorian Gray / 1891). 

A cidade nova e decadente

A influência do Decadentismo como veículo para as convenções e temáticas do Gótico se manifestou no uso da cidade como principal espaço das histórias.

Como destaca Alexandra Warwick em “Urban Gothic” (1998), a alienação do homem oprimido por uma cidade negra pela fumaça das fábricas foi refletida em uma personalidade paranoica e fragmentada.

A cidade, seja a Londres vitoriana ou o Rio da Belle Époque, apareceu como um lugar de ruínas, paradoxalmente sempre novo, mas sempre decadente, um estado de morte em vida que, no romance Drácula (1897), de Bram Stoker, ajuda a explicar a atração de Londres sobre o morto-vivo da Transilvânia.

Essa dualidade também foi refletida em O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde onde a dualidade dos personagens reflete a contradição de uma cidade com comportamentos distintos de dia e de noite. 

No Brasil, escritores diversos incorporaram esse espírito decadentista/simbolista como, dentre outros, Alphonsus de Guimaraens, Rocha Pombo e, nos anos 50, Cornélio Pena, mas nenhum outro foi mais representativo das contradições das primeira décadas do século 20 que João do Rio, pseudônimo do jornalista e escritor Paulo Barreto.

O Gótico decadentista brasileiro

João do Rio foi o responsável por introduzir Oscar Wilde no Brasil.

“Oh! SIM, as ruas têm alma. Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, speenéticas, esnobes, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue…” (RIO, 1987). 

A rua, esta entidade de vida própria, reflexo da alma ambígua do escritor-jornalista, é o lugar por onde passeiam de dia a dama da sociedade, o cavalheiro, as modern girls e os chamativos automóveis.

É na noite, porém, que este local se revela plenamente na apresentação de sua atmosfera carregada de vício, medo e mistério.

Não à toa o título de seu principal livro de contos – Dentro da noite (1910) – anuncia o palco ideal para narrativas povoadas por jogadores, neuróticos, suicidas, sádicos, pervertidos, hiperistéricos e outros personagens desajustados.

Falando sobre a importância desse elemento e do desejo de modernização urgente da época, Marshall Berman destaca:

“Por toda a era de Haussmann e Baudelaire, entrando no século XX, essa fantasia urbana cristalizou-se em torno da rua, que emergiu como símbolo fundamental da vida urbana” (BERMAN, 1986).

A menção a dois ícones do período de posições e valores opostos – Haussmann e Baudelaire – enfatiza a condição ambivalente e contraditória da rua que foi assumida pela ficção de João do Rio. 

Uma característica comum de estetas como Des Esseintes, Dorian Gray e os personagens de João do Rio consiste na troca da realidade imediata pela ilusão.

Dorian Gray e PENNY DREADFUL

Esta construção visa criar um espaço dimensionado artificialmente no qual se afirme a capacidade do homem de libertar-se da natureza.

Os estetas rejeitam a paisagem natural de duas maneiras: usando cenários artificiais e recriando o espaço urbano a partir da força imaginativa. Assim, a cidade especifica um topos da literatura decadentista e também da literatura Gótica. Como salienta Levin:

“Na urbe o devaneio angustiante em busca de uma visão, uma imagem que integre o homem à vida ganha características topográficas. A ideia de que o homem se encontra subjugado ao desequilíbrio dos nervos aparece tematizada na cidade desconhecida, cheia de passagens obscuras que criam a sensação de mistério. Este espaço reproduz na forma de ruas estreitas, becos escuros, canais, pontes e avenidas a impossibilidade de a personagem decadentista reconhecer-se no tipo de vida contemporânea” (LEVIN, 1996).

Sobre bebês deformados e automóveis satânicos

Um exemplo dessa utilização do espaço urbano como pano de fundo de uma narrativa pontuada por uma atmosfera de imoralidade, erotismo, desordem e presença do sobrenatural é “O bebê de tarlatana rosa” (1910).

Carnaval carioca em 1920

Ambientada durante o Carnaval, período em que a razão, a ordem e o racionalismo são suspensos a favor do descontrole, da depravação e dos desejos bestiais, este conto de João do Rio acompanha os passos de Heitor de Alencar atrás de uma figura fantasiada de bebê com um nariz postiço.

Entre beijos e abraços, os dois personagens se afastam para uma rua escura onde em um ímpeto de tesão e curiosidade Heitor arranca a máscara da pessoa para revelar um ser que muito lembra a personificação da morte no conto e Poe “A máscara rubra da morte”:

“Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos que era alucinadamente – uma caveira com carne…” (RIO, 2001).

Seria uma figura feminina ou um homossexual? O conto deixa aberto as interpretações

A fragmentação sentida pelo homem finissecular diante das mudanças trazidas pela Revolução Industrial e pela alienação da Belle Époque deram margem a uma visão dos produtos da ciência e do progresso como elementos quase sobrenaturais, até mesmo satânicos, que se identificavam com a postura encontrada tanto no Decadentismo quanto na Ciência Gótica.

Este comportamento pode ser constatado em João do Rio diante do automóvel na crônica “A Era do Automóvel”:

“E a transfiguração se fez como nas férias fulgurantes, ao tã-tã de Satanás. Ruas arrasaram-se, avenidas surgiram, […] e desabrido o automóvel entrou, arrastando desvairadamente uma catadupa de automóveis. Agora, nós vivemos positivamente nos momentos do automóvel, em que o chofer é rei, é soberano, é tirano” (RIO, 1971).

Na crônica de João do Rio o automóvel é o símbolo do grande paradoxo da modernidade: ao mesmo tempo em que ele aponta a direção para onde a civilização se encaminha, ele altera radicalmente a paisagem e a noção de tempo e, neste processo, também muda a vida dos motoristas.

Nesta contradição se descobre o dilema decadente de João do Rio: declara amor à modernidade e paradoxalmente manifesta abertamente as suas reservas quanto aos seus efeitos.

A análise deste quadro ajuda a compreender o aparente paradoxo do dândi em flertar com as duas faces da Belle Époque. Na verdade, há apenas um lado, no qual está o homem finissecular, alienado e fragmentado pelo pensamento cientifico.

E assim, seja apresentando um país estranho aos brasileiro pelo Gótico Colonial, seja pela expressão do fascínio e temor com os produtos do progresso através da Ciência Gótica, ou se posicionando de forma crítica denunciando a decadência de uma sociedade racionalista, a Literatura Gótica aportou no Brasil, criando um caminho que seria seguido por outros escritores nas décadas seguintes.

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Uma ótima semana!

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. Trad. Carlos Moisés e Ana Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

BROCA, Brito. A vida literária no Brasil: 1900. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1960.

LEVIN, Orna Messer. As figurações do dândi: um estudo sobre a obra de João do Rio. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996.

LIMA, Luiz Costa. Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1986.

MIGUEL-PEREIRA, Lucia. Prosa de ficção (1870 a 1920). 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1957. (História da Literatura Brasileira. Vol. XII)

MOISÉS, Massaud. O Simbolismo. São Paulo: Editora Cultrix, 1973. (A literatura Brasileira, vol IV).

NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Epoque: Elite Culture and Society in Turn-of-thecentury Rio de Janeiro. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

PORRU, Mauro. Prefácios do imaginário decadentista. In: COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças. (Org.). Arte e artifício: manobras de fim-de-século. Rio de Janeiro: UFRJ, 2002. p. 57-68.

RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Secretária municipal de cultura, 1987. (Biblioteca Carioca; vol. 4)

______. A era do automóvel (fragmentos). In: MARTINS, Luís. João do Rio: uma antologia. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971, p. 47-50.

______. O bebê de tarlatana rosa. In: CUNHA, Helena Parente. (Seleção). Melhores contos de João do Rio. 2 ed. São Paulo: Global, 2001. (Melhores contos; 15), p. 71-75.

SILVA, Alexander Meireles da. O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira. Rio de Janeiro, UFRJ, Faculdade de Letras, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

TAVARES, Bráulio. (Org.) Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

WARWICK, Alexandra. Urban Gothic. In: MULVEY-ROBERTS, Marie. (ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998, p. 288-289.

Jogando luzes nas trevas (Parte 2) A Ciência Gótica chega ao Brasil

No último post, falei de como a Literatura Gótica entrou na Literatura Brasileira no início da segunda metade do século 19 por meio da juventude romântica, focando muito na visão da cidade sobre o interior do país e indo muito mais além do que apenas Noite na taverna (1855), de Álvares de Azevedo.

Assim como na Inglaterra Vitoriana de Jack, o Estripador, a cidade é o espaço central da maioria das narrativas góticas no Brasil dos primeiros anos de 1900.

Hoje vou explicar como a Literatura Gótica se manifestou no cenário urbano brasileiro no início do século 20 em resposta as mesmas questões que também o fizeram ressurgir nos últimos anos da chamada Inglaterra vitoriana (1837-1901) em obras como O médico e o monstro (1886), O retrato de Dorian Gray (1891) e Drácula (1897).

Sombras de uma bela época

No Brasil o Gótico se manifestou durante o período histórico conhecido como a República Velha (1889-1930) e, mais especificamente, na época da Belle Époque carioca, quando a ciência e o progresso mudaram a face do Rio de Janeiro. 

A Belle Époque européia (1890-1914) foi o ponto alto de um processo de fins do século dezenove e início do século vinte caracterizado de um lado pela prosperidade econômica resultante da industrialização rápida e da exploração colonialista, advindas ambas da hegemonia do racionalismo científico, e de outro pela estabilidade política, derivada de uma teia complexa de alianças diplomáticas.

Na Inglaterra, a Belle Époque marcou o auge de um processo ocorrido durante o reinado de sessenta e quatro anos da rainha Vitória (1837-1901).

No entanto, a prosperidade da época contrastava com a situação das classes populares não apenas na Inglaterra, mas na Europa como um todo.

Visão das fábricas de Manchester, por volta dos anos de 1870. 

Com o aumento das fábricas e os demais avanços do progresso, aumentou também a insegurança do povo em relação ao futuro. As fábricas se tornaram cada vez maiores, as profissões cada vez mais especializadas, as máquinas cada vez mais ininteligíveis.

Paris, modelo para o mundo

Sem dúvidas, nenhuma outra cidade européia incorporou de forma tão completa o espírito de seu tempo quanto Paris.

A capital francesa viveu durante a Belle Époque um período extremamente fértil do ponto de vista artístico e cultural.

A Exposição Universal, realizada em 1900, trazia a promessa de que a tecnologia ainda podia ser considerada como um instrumento promotor do progresso social e não exclusivamente como um veículo de desestruturação do modo de vida no campo ou de alienação social para as centenas de desempregados das cidades.

Em virtude desse quadro, não foi surpresa que, como tudo mais que remetesse à França na época, a Belle Époque atravessasse o oceano para aportar na capital federal do Brasil do começo do século vinte: o Rio de Janeiro.

A Belle Époque brasileira

O Rio de Janeiro da Belle Époque

Como salienta o crítico Jeffrey Needell, apesar da influência francesa sobre o Brasil possuir raízes ainda no início da colonização, via Portugal, foi no final do século dezenove, e mais especificamente no Rio de Janeiro do começo do vinte, que ela se ampliou afetando não apenas a vida cultural da metrópole brasileira, mas também a sua própria organização social.

Esse ponto pôde ser observado durante a República Velha no período dos governos dos presidentes Campos Sales (1898-1902) e Rodrigues Alves (1902-1906), quando uma série de projetos foi colocada em prática para transformar o Rio em uma Paris tropical. 

Avenida Central: Um dos símbolos maiores da Belle Époque carioca.

Após a inauguração da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) e a Revolta da Vacina, dois eventos marcantes desta época, o governo pôde mostrar ao mundo um Rio de Janeiro urbanizado, limpo e organizado como os grandes centros europeus.

Pela primeira vez na história do Brasil, portanto, a ciência e o progresso exerceram um impacto profundo e permanente na vida individual e social tanto dos ricos quanto dos pobres.

A Revolta da Vacina de 1904

Como era de se esperar, este novo zeitgeist chamou a atenção de escritores e pensadores brasileiros da mesma forma que havia acontecido no século dezenove com os escritores europeus em relação a Revolução Industrial.

O resultado artístico desse cenário foi o desenvolvimento de duas expressões da Literatura Gótica na época no Brasil: a Ciência gótica e o Gótico decadentista.

Para não ficar coisa demais aqui, no post de hoje vou falar apenas da Ciência Gótica.

Ciência Gótica

Um subgênero do fantástico definido pela tensão entre o racional e o irracional, a Ciência Gótica, segundo Bráulio Tavares, apresenta histórias que:

“[…] têm um pé na ficção científica, utilizando muitos dos seus aparatos exteriores (cenários, personagens, artefatos) mas que se recusam a lidar com a lógica, a verossimilhança e a plausibilidade científica que os adeptos de ficção científica usam […] Na ciência gótica, a parafernália tecnológica e a pseudo-racionalização materialista estão a serviço de situações bizarras, grotescas, impressionantes.” 

O exemplo clássico dessa forma literária, como aponta Tavares, é o romance Frankenstein (1818), da escritora inglesa Mary Shelley, por representar um divisor de águas na Literatura Gótica ao apresentar a ciência como um elemento causador da mesma angústia e inquietação antes exclusivamente gerada pelo sobrenatural.

Afetada profundamente pelo racionalismo da época, a população brasileira demonstrou um misto de fascinação e temor em relação ao progresso e a ciência da Belle Époque que se tornou matéria prima para narrativas que muito se assemelharam às praticadas pela ciência gótica britânica, norte-americana e francesa de romancistas e contistas como Mary Shelley, Edgar Allan Poe, Robert Louis Stevenson, Nathaniel Hawthorne, H. G. Wells, Guy de Maupassant e Villiers de L`Isle-Adam.

Esta semelhança demonstra que os escritores nacionais estavam em consonância com as inquietações e angústias de britânicos, americanos e franceses da virada do século.

Estas preocupações se manifestaram na Literatura Gótica brasileira em escritores diversos, tais como, e apenas para citar alguns, Coelho NetoJoão do Rio, Rocha Pombo, Gastão Cruls.

Para exemplificar esse cenário, vou focar hoje aqui apenas no chamado “Príncipe dos Prosadores” e escritor mais conhecido de se tempo, maior até que Machado de Assis: Coelho Neto.

Coelho Neto foi um dos maiores escritores de seu tempo, tendo sido também um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras

Coelho Neto desenvolveu narrativas muito semelhantes às encontradas nas literaturas góticas britânica, norte-americana e francesa que tem a cidade como espaço da trama a partir de um movimento literário e de doutrina religiosa com forte ligação com o sobrenatural: o Simbolismo e o Espiritismo.

A força mística do Simbolismo

Conforme explica Massaud Moisés em O Simbolismo (1973), esta estética literária foi eclipsada, desde a sua chegada, pelas correntes literárias vigentes na virada do século – o Parnasianismo e o Naturalismo.

Simbolismo brasileiro revelava a nítida respiração dos novos ares que começavam a soprar na França em decorrência do advento de As flores do mal (1857), de Baudelaire.

Por esta razão, os postulados em voga na França prevaleceram no Brasil:

  1. a concepção mística do mundo;
  2. interesse pelo mistério e o particular;
  3. a alienação do social;
  4. a criação de neologismos;
  5. adoção de vocábulos preciosos;

Foi através destes elementos simbolistas e decadentistas também que Coelho Neto escreveu, por exemplo, o romance Esfinge (1906).

Causando nas pessoas um senso de desvio sexual e perversão moral, o personagem James Marian de Esfinge em muito lembra Jean Des Esseintes e Dorian Gray, personagens respectivamente de Às avessas (1884), de Jori-Karl Huysmans e O retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde.

Posteriormente se descobre no romance, considerado um exemplo de “Prosa simbolista”, que essa sensação vem do fato de James Marian ser o resultado de um experimento do cientista místico Arhat que, após presenciar um acidente que mutilou um casal de irmãos resolve juntar as partes de seus corpos em um ser andrógino que é trazido a vida.

Percebe-se ai a influencia do romance Frankenstein, principalmente nos experimentos que mesclam ciência e misticismo, um tema característico da Literatura Gótica.

É importante mencionar que, diferentemente da visão propagada em várias adaptações pelo cinema que sempre privilegiaram o conhecimento cientifico da personagem e suas experiências com a eletricidade, Victor Frankenstein estava mais inclinado para a Alquimia do que para o conceito de Ciência que temos hoje, algo que em fins do século dezoito (onde a trama se desenrola) não se configurava uma contradição.

De fato, não apenas Frankenstein, mas outras obras como O retrato de Dorian Gray e mesmo Drácula podem ser percebidos na leitura de A Esfinge

Sendo um livro em domínio público, fica o convite para conhece essa obra, clicando aqui.

Fé e Ciência espírita

Além da presença de um misticismo oriental característico do Simbolismo, chama a atenção também nesta passagem e em todo o romance Esfinge, a utilização de um vocabulário marcado por idéias ligadas à crença da reencarnação.

Eram idéias que, segundo Roberto de Sousa Causo, estavam em consonância com uma doutrina religiosa muito em voga no Brasil da Belle Époque e na obra de Coelho Neto: o Espiritismo.

De fato, a presença do Espiritismo no contexto cultural brasileiro no tempo de Coelho Neto pode ser observada em diferentes contos do escritor brasileiro.

Um desses casos é o conto “A conversão” (1926), que vemos as idéias espíritas sendo usadas de forma a mostrar que os produtos da ciência e do progresso tecnológico na Belle Époque poderiam, até mesmo, estreitar as fronteiras entre o nosso mundo e o sobrenatural. 

Neste conto, dois amigos conversam sobre a inesperada conversão de um deles ao Espiritismo. A conversão ocorre quando testemunha a conversa da filha Julia com a neta morta Esther através do telefone:

“Ouvi toda a conversa e compreendi que nos estamos aproximando da grande Era, que os Tempos se atraem – o finito defronta o infinito e, das fronteiras que os separam, as almas já se comunicam.” 

Percebe-se ai que a incompreensão e o fascínio dos princípios científicos por trás do telefone abrem espaço para a interpretação do sobrenatural.

Outro conto de Coelho Neto, onde os limites entre a ciência e o sobrenatural se interpõe, é “A sombra” (1926).

Nesta narrativa, estruturada da mesma forma que “O conto do coração denunciador”, de Poe, o protagonista Avella relata como o ciúme que sentia pela esposa, de nome Celuta, o levou a matá-la por envenenamento.

Porém, ao invés de terminar neste ponto, a trama do conto toma uma nova direção ao mostrar a perseguição da sombra de Celuta a Avelar até que este confesse o seu ato (mais um evidente traço da influência do Espiritismo).

Mas, o que chama a atenção na narrativa, é que, ao invés de assumir responsabilidade pelos seus atos, Avellar coloca a culpa na ciência, como se esta fosse uma entidade que fomentou a sua desconfiança em relação à esposa para, assim, poder incorporar o cientista de forma plena e exclusiva.

Esta posição presente em “A sombra” atesta a maneira como a Literatura Gótica, em sua expressão da Ciência Gótica, vem desde Frankenstein apresentando um relacionamento ambíguo em relação à ciência e aos seus produtos, e o mesmo pode ser observado no Brasil do início do século 20.

E na próxima semana, a última parte sobre os primeiros momentos do Gótico no Brasil quando vou escrever sobre a influência do Decadentismo na Belle Époque em narrativas marcadas por perversão, taras e obsessões.

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Uma ótima semana!

Fontes utilizadas

BROCA, Brito. A vida literária no Brasil: 1900. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1960.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

COELHO NETO. A sombra. In: ___. Contos da vida e da morte. Porto: Livraria Chardron, 1926, p. 201-206

_______. Conversão. In: ___. Contos da vida e da morte. Porto: Livraria Chardron, 1926, p. 19-24.

______. Esfinge. Porto: Livraria Chardron, 1906.

EL FAR, Alessandra. Páginas de sensação: literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924). São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

LEVIN, Orna Messer. As figurações do dândi: um estudo sobre a obra de João do Rio. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996.

LIMA, Luiz Costa. Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1986.

MIGUEL-PEREIRA, Lucia. Prosa de ficção (1870 a 1920). 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1957. (História da Literatura Brasileira. Vol. XII)

MOISÉS, Massaud. O Simbolismo. São Paulo: Editora Cultrix, 1973. (A literatura Brasileira, vol IV).

NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Epoque: Elite Culture and Society in Turn-of-thecentury Rio de Janeiro. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

PORRU, Mauro. Prefácios do imaginário decadentista. In: COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças. (Org.). Arte e artifício: manobras de fim-de-século. Rio de Janeiro: UFRJ, 2002. p. 57-68.

SILVA, Alexander Meireles da. O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira. Rio de Janeiro, UFRJ, Faculdade de Letras, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

TAVARES, Bráulio. (Org.) Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

WARWICK, Alexandra. Urban Gothic. In: MULVEY-ROBERTS, Marie. (ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998, p. 288-289.

Você conhece seu corpo? 5 contos fantásticos sobre partes do corpo.

O século 19 e início do século 20 foram o ápice do fascínio do público e da Medicina com as aberrações do corpo.

A história do Homem Elefante já virou filme e peça de teatro.

Na Inglaterra Vitoriana, por exemplo, Joseph Merrick despertou o interesse do público e da comunidade científica da época com sua gradual deformação física, que o levou a ser conhecido como o Homem Elefante. 

Da Esq. para a Dir.: Annie Jones (“A Mulher Barbada”), Jack Earle (“O Homem mais alto do mundo”) e Myrtle Corbin (“A garota de quatro pernas do Texas”)

Já nos Estados Unidos, espetáculos freaks itinerantes tais como o do circo Ringling Bros.’ corriam o país mostrando corpos que subvertiam as convenções do normal.

Corpo Fantástico (e rebelde)

Na Literatura Fantástica, em suas diferentes vertentes, o corpo humano sempre forneceu histórias sobre partes do corpo que assumem comportamentos insólitos. 

Na Fantasia, apenas para citar um caso dentre tantos, quem não lembra do nariz de Pinóquio? Membro acusador da transgressão da honestidade do boneco de madeira.

No Gótico, o monstro de Frankenstein, composto de membros de cadáveres, denunciava a transgressão da Ciência sobre os mistérios da vida.

Na Ficção Científica, “O estranho caso dos olhos de Davidson”, de H. G. Wells, mostra como após um acidente, os olhos de um homem passam a enxergar não o mundo a sua frente, mas a realidade do outro lado do planeta.

Veja abaixo algumas outras obras em que partes do corpo ocupam papel central na construção do fantástico na Literatura.

1. Mão

Obra: “A mão encantada”

Ano de publicação: 1832

Autor: Gérard de Nerval (1808-1854)

Sinopse: Para conseguir vencer um duelo contra um militar, um comerciante de tecidos recorre a feitiçaria cigana e fica com a mão encantada. Após vencer o duelo ele não consegue controlar a mão e esta acaba agredindo o magistrado que julgaria seu caso. Após ser enforcado, a mão do morto permanece ativa, o que leva o carrasco a cortar a mão do cadáver. Após se libertar do corpo do enforcado, a mão abre caminho entre a multidão estarrecida e alcança o cigano que lhe deu vida.

Curiosidade: Conto marcado pelo simbolismo moral da agressividade que o ser humano carrega dentro de sua natureza. 

2. Nariz

Obra: “O nariz”

Ano de publicação: 1835

Autor: Nicolai Vassilievitch Gogol (1809-1852)

Sinopse: Sentado a mesa para o café da manhã junto com sua esposa o barbeiro Ivan Iákovlevitch descobre dentro de um pão o nariz de seu cliente, o major Kovaliov. Após vários incidentes tentando se livrar do nariz o barbeiro acaba jogando o mesmo em um rio. Ao mesmo tempo o militar procura incessantemente seu nariz, pensando nas consequências de sua imagem sem esta parte do corpo. Após várias ações, o major Kovaliov desperta e percebe que seu nariz está de volta em seu rosto.  

Curiosidade: Sátira feroz de Gogol a burocracia russa. Conto pertencente a fase surrealista do escritor. 

3. Pé 

Obra: “O pé da múmia”

Ano de publicação: 1840

Autor: Théophile Gautier

Sinopse: Homem compra em antiquário um pé de múmia supostamente pertencente a uma princesa egípcia para ser usado como peso de papel. Ao dormir, ele recebe a visita da princesa Heronthis, que explica ao jovem que seu pé foi roubado e o quer de volta. O homem então pede a princesa uma estatueta em troca pelo pé. Heronthis transporta o narrador até o Egito Antigo onde o rapaz pede a mão da princesa em casamento, pedido este que é negado pelo Faraó, pai de Heronthis. Ao ser despertado por um amigo, o jovem percebe que o pé da múmia desapareceu e em seu lugar há uma pequena estátua. 

Curiosidade: Conto que se apoia na recorrente estratégia do conto fantástico do século 19 do sonho como espaço do acontecimento insólito. Reflete também o fascínio da época na França com a cultura egípcia.

4. Dedo

Obra: “O dedo do meio do pé direito”

Ano de publicação: 1890

Autor: Ambrose Bierce

Sinopse: Dez anos após matar os dois filhos e a esposa, e ainda ter decepado o dedo do meio do pé direito da mulher, um homem chamado Manton retorna a sua região com nova aparência. Ele acaba sendo desafiado para um duelo de faca a ser realizado em sua antiga residência, local onde ele cometeu o crime e que tem agora a fama de ser mal assombrado. Na hora do duelo Manton é encontrado morto com o rosto retorcido de medo. A investigação do lugar revela pegadas de alguém que não possuía o dedo do meio do pé direito.

Curiosidade: Considerada umas das melhores histórias sobrenaturais de Ambrose Bierce com o tema da vingança do além.

5. Orelha

Obra: “O inexplicável caso da orelha de Lolô”

Ano de publicação: 1944

Autor: Bernardo Élis

Sinopse: Homem rejeitado pela prima e trocado por empregado negro corta a orelha deste e prende a mulher no porão da casa para lá ela falecer. Anos mais tarde, ao visitar o local com um amigo de juventude os dois testemunham a orelha decepada ganhar vida e patas e sair da caixa onde estava guardada para levar o assassino a morte pelo pavor. 

Curiosidade: Conto escrito pelo brasileiro Bernardo Élis no livro Ermos e Gerais com a intenção de homenagear o escritor norte-americano Edgar Allan Poe em “A queda da Casa de Usher”. 

Listei aqui apenas 5 contos, dentre tantos outros exemplos, desta longa tradição de partes do corpo humano que rendem histórias fantásticas na Fantasia, no Gótico e na Ficção Científica na Literatura de todo o mundo.

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Fontes utilizadas

CALVINO, Ítalo (Org.). Contos fantástico do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ÉLIS, Bernardo. Ermos e gerais. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

GONÇALO JUNIOR. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998.

PAES, José Paulo (Org.) Os buracos da máscara: Antologia de contos fantásticos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, Inc., 2005.

 

 

7 investigadores do oculto pré-John Constantine pra você conhecer

John Constantine, criação do mestre dos quadrinhos Alan Moore com Stephen Bissette e John Totleben.

Mesmo a pessoa mais cética não pode negar que o oculto exerce um estranho fascínio sobre a humanidade.

O Detetive do Pesadelo Dylan Dog completou 30 anos de existência em 2016.

Os limites entre o nosso mundo e o além, ou melhor, a manifestação do além em nosso mundo desperta o interesse do ser humano por tocar em um dos maiores tabus da vida: a morte.

O legionário Antonius Axia combate o sobrenatural na Bretanha

Neste quesito, destaque para o Investigador do Oculto

O Investigador do Oculto

Para este texto vou tomar aqui a definição de Sage Leslie-Mccarthy para “Detetives psiquicos”, mencionado por ele em sua Tese de Doutorado, que você pode acessar na integra a partir do link no fim deste artigo.

Para Sage Leslie-McCarthy,

“Essencialmente, a ficção de detetive psíquico envolve a investigação de eventos reportados como sobrenaturais por um personagem, ou personagens, que tentam compreender a natureza dos distúrbios e promover possíveis soluções.”

Dean e Sam contra o oculto
Os irmãos Winchester. Contra Deus e o Diabo.

Essa busca por desvendar e, por vezes, enfrentar o mundo invisível marca presença em diferentes expressões da cultura, seja na Literatura, nos Quadrinhos, no Cinema e na TV.

Esta série influenciou anos mais tarde, na década de 90, a criação da série ARQUIVOS X
Kolchak e os Demônios da Noite.

Se hoje a cultura pop conta com investigadores do oculto fictícios e reais tais como John Constantine (Hellbrazer), Dylan Dog (Bonelli Comics) Antonius Axia (Valiant Comics)*, os irmãos Winchesters Sam e Dean (Supernatural), Carl Kolchak (Kolchak e os Demônios da Noite) e o casal Lorraine e Ed Warren (Invocação do Mal) isso se deve a uma tradição literária que remonta a Antiguidade.

Veja então a seguir os 7 principais Investigadores do Oculto da Literatura que lançaram as bases para os personagens pop de hoje.

1. Atenodoro de Tarso

Ano de criação: 109 d.C.

Primeira aparição: Missivas litterae curatius
scriptae 

Criador: Plínio, o Jovem

Curiosidade: Personagem histórico que viveu nos primeiros anos da Era Cristã, o filósofo Atenodoro virou personagem de um relato escrito um século depois por Plínio, o Jovem no qual Atenodoro investiga um fantasma que assolava uma residência em Atenas.

Neste que é o primeiro relato de casa assombrada do Ocidente, Atenodoro passa um noite na casa e recebe a visita de um fantasma. Demonstrando frieza na situação o filosofo consegue descobrir que a aparição ocorria devido a falta do sepultamento apropriado dos restos mortais do fantasma, que se encontravam enterrados em um dos cômodos da casa.   

2. Doutor K

Ano de criação: 1817

Primeira aparição: Conto “A casa deserta” (“Das öde Haus”)

Criador: E. T. A. Hoffman

Curiosidade: Primeiro Doutor e investigador do oculto, o Doutor K. aparece no livro de contos  Nachtstücke (Contos Noturnos).

No conto, o personagem, que possui poderes  de clarividência, investiga um mistério sobrenatural que cerca uma casa. 

3. Dirk Ericson

O conto “The Haunted Homestead” pode ser encontrado neste ebook.

Ano de criação: 1840

Primeira aparição: Conto “The Haunted Homestead”

Criador: Henry William Herbert 

Curiosidade: Dirk Ericson aparece originalmente em um conto publicado em três partes no The Ladies’ Companion and Literary entre agosto e outubro de 1840  e que agora está disponível no ebook The Macabre Megapack: 25 Lost Tales from the Golden Age (2012).

Ele é o primeiro investigador do oculto na forma de detetive amador da Literatura e lida com um crime com elementos sobrenaturais. Para isso ele também conta com a ajuda dos personagens Asa e Enoch Allen.

4. Harry Escott

O conto “The Pot of Tulips” pode ser lido nesta coletânea

Ano de criação: 1855

Primeira aparição: Conto “The Pot of Tulips”

Criador: Fitz James O’Brien

Curiosidade: O primeiro investigador do oculto como detetive especialista no sobrenatural estreou na Harper’s New Monthly Magazine em novembro de 1855.

Quatro anos depois Harry Escott aparece novamente, desta vez no conto “What Was It? A Mystery,” publicado em março de 1859 na mesma revista.

As duas histórias foram republicadas na coletânea Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015).

Contando com a ajuda de outros personagens, Harry Escott investiga os mistérios do sobrenatural nas duas histórias.

5. Dr. Martin Hesselius

Ano de criação: 1869

Primeira aparição: Novela Green Tea

Criador: Joseph Sheridan Le Fanu

Curiosidade: Um dos principais investigadores doutores do oculto da segunda metade do século XIX e fonte direta para a criação de Abraham Van Helsing, o caçador de vampiros de Drácula, o Dr. Martin Hesselius apareceu ao longo de quatro edições do All the Year Round em outubro e novembro de 1869 enquanto durou a publicação de Green Tea.

Hesselius tinha o habito de guardar vastas anotações dos casos investigados por ele. Dentre eles, o mais famoso é o caso envolvendo Carmilla, a vampira de Karnstein.

Le Fanu usou os casos do Dr. Marin Hesselius como estrutura narrativa para o livro de contos In a Glass Darkly (1872). 

6. Dr. Abraham Van Helsing

Peter Cushing como Van Helsing nos filmes dos anos 60 produzidos pelo estúdio inglês Hammer.

Ano de criação: 1897

Primeira aparição: Romance Drácula

Criador: Bram Stoker

Curiosidade: Estima-se que o mais famoso Investigador do Oculto desta lista e da Literatura tenha sido criado a partir de diferentes fontes.

Além do Dr. Martin Hesselius, mencionado anteriormente, outras fontes apontadas como inspiração para Van Helsing foram o próprio Bram Stoker e o professor da Universidade de Budapeste Arminius Vambéry, pesquisador que ajudou Bram Stoker com informações iniciais sobre Vlad, o Impalador, modelo do vampiro Drácula. 

7. Diana Marburg

Ano de criação: 1902

Primeira aparição: Conto “The Dead Hand”

Criador: L.T. Meade e Robert Eustace

Curiosidade: A única mulher desta lista e primeira Investigadora do Oculto do século XX, Diana Marburg apareceu em uma série de contos originalmente publicados na versão americana da Pearson’s Magazine.

Na sequencia, os três contos apareceram na coleção The Oracle of Maddox Street (1904), de L.T. Meade. Atualmente estas narrativas podem ser encontradas no livro Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015)

A curiosidade maior com essa investigadora oculta de poderes místicos é a habilidade de investigar criminosos a partir da leitura da palma da mão. 

* Agradecimentos ao entusiasta de Quadrinhos Pedro Ventura pela indicação do investigador do oculto e legionário romano Antonius Axia. 

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

LESLIE-MCCARTHY, Sage. The Case of the Psychic Detective: Progress, Professionalisation, and the Occult in Psychic Detective Fiction from the 1880s to the 1920s. Tese de Doutorado. Queensland: Griffith University, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

NEVINS, Jess. The Encyclopedia of Fantastic Victoriana. Austin, Texas: Monkey Brain Books Publication, 2005. 

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos

DARK UNIVERSE: O que os monstros da Universal podem mostrar hoje?

Monstros dos estúdios Universal
Da esq. para dir.: Homem-invisível, Dracula, o Monstro de Frankenstein, a Múmia, o Monstro da Lagoa negra, o Fantasma da Ópera, a Noiva de Frankenstein e o Lobisomem.

Nesta semana os estúdios Universal anunciaram o longamente prometido reboot da sua franquia de monstros, popularmente conhecida como “Os Monstros da Universal”.

A iniciativa, batizada de Dark Universe, vai re-apresentar os monstros do estúdio para a geração de hoje.

Mas, o que esperar deste projeto?

Em 2014 a presidente dos Estúdios Universal falou do assunto no The Hollywood Reporter ao declarar que os novos filmes de seus monstros estariam menos ligados ao Horror e mais vinculados ao gênero Ação e Aventura, além de outros gêneros.

Na ocasião, Donna Langley disse que o propósito é “reimagina-los e reintroduzi-los para um público contemporâneo”

Esta visão pode ser percebida no ritmo do primeiro filme do Dark UniverseA Múmia – lançado em 8 de junho de 2017 nos cinemas. 

Mas, quais medos e ansiedades estes monstros podem representar hoje em relação a sua primeira encarnação entre as décadas de 1920 e 1950?

A primeira encarnação monstruosa

Na sua primeira encarnação, e com base nos planos atuais do estúdio, pode ser estabelecido que a franquia de Monstros da Universal teve seu início nos anos de 1920 com O Fantasma da Ópera (1925).

O único filme da franquia lançado ainda na era dos filmes mudos, esta adaptação do romance O Fantasma da Ópera (1910), do escritor francês Gaston Leroux foi um sucesso de público e foi relançado em versão com som em 1930.

Isso animou o estúdio a dar prosseguimento com sua franquia monstruosa, que seria continuada com Drácula (1931), dirigido por Tod Browning e trazendo Bela Lugosi no papel que o imortalizou como o conde vampiro.  

O sucesso estrondoso da adaptação do livro de Bram Stoker de 1897 consolidou o caminho para outras criaturas, refletindo neste processo o alinhando dos monstros da Universal com os fantasmas da sociedade norte-americana dos anos de 1930 até 1950.

Dentre estes fantasmas, a enorme crise econômica da América, conhecida como A Grande Depressão, que lançou o país em um ambiente de incertezas e temores.   

Desempregados na América durante os anos 30.

Em um tempo em que as pessoas perdiam seus empregos, casas e a esperança no futuro, a crença em forças sobrenaturais além da compreensão humana ganhou espaço, abrindo o terreno para o monstruoso.  

Mas e agora? O que cada monstro da Universal pode mostrar a geração Y e Z?

O que os Monstros da Universal podem mostrar hoje

Da esq. para a dir.: Russel Crowe, Javier Bardem (sentado), Tom Cruise, Johnny Depp e Sofia Boutella. Os novos rostos dos monstros da Universal.

Assim como ocorreu nos anos 40, os monstros da Universal irão se encontrar em filmes.

No entanto, diferente da época em que estes encontros ocorriam em comédias, já sinalizando o cansaço dessas criaturas como agentes do medo, o Dark Universe irá construir um universo compartilhado.

De fato, como o próprio estúdio coloca, esta será a resposta da Universal ao universo compartilhado de heróis da Marvel e da DC.

O eixo central é o personagem Dr. Henry Jekyll, vivido pelo ator Russel Crowe. Ele será o diretor da Prodigium, um local onde diversas criaturas sobrenaturais são mantidas.

Conheça a Prodigium clicando aqui.

Cabe ao Dr. Henry Jekyll, semelhante a Nick Fury na Marvel e Bruce Wayne na DC, reunir ou eliminar essas criaturas.

Até o momento da escrita deste post, seis filmes do Dark Universe foram anunciados em diferentes estágios de produção:

  • A Múmia (lançamento em junho de 2017);
  • A Noiva de Frankenstein (Em pré-produção e previsto para fevereiro de 2019);
  • O Homem Invisível (Em desenvolvimento e estimado para 2020);
  • O Monstro da Lagoa Negra (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • Van Helsing (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • O Lobisomem (Em desenvolvimento e sem data prevista em lançamento).

Ainda que seja esperado que a ação supere a reflexão no que se refere a explorar os monstros como símbolos de questões contemporâneas, fica aqui abaixo o que cada monstro pode trazer de debate com base no seu legado literário.

1. A Múmia

Origem: Cultura egípcia 

Obra de estréia: A Múmia (1932)

Melhor filme até aqui: A Múmia (1999)

LegadoA múmia já foi objeto de análise aqui no blog onde eu discuti os problemas que cercam o personagem. Para ler o post, clique aqui.

Basicamente, o personagem guarda semelhança com o vampiro enquanto criatura morta-viva e de passado nobre, mas não tem o forte simbolismo erótico do primeiro. 

Além disso, enquanto monstro que nos leva a refletir sobre a nossa mortalidade e o além-vida, a múmia perdeu seu espaço para o zumbi. 

2. A Noiva de Frankenstein

Origem: Literatura

Obra de estréia: A Noiva de Frankenstein (1935)

Melhor filme até aquiA Noiva de Frankenstein (1935)

LegadoUm dos maiores ícones femininos no Cinema, a noiva de Frankenstein tem seu nascimento no romance Frankenstein (1818), ainda que na obra ela seja apenas mencionada, mas não de fato criada. 

A força simbólica da personagem pode render excelente debate sobre o empoderamento feminino, principalmente pelo fato de ser (literalmente) um produto do discurso masculino.

3. O Homem invisível

Origem: Literatura

Obra de estréia: O Homem Invisível (1897), de H. G. Wells

Melhor filme até aquiO Homem Invisível (1933)

Legado: Como já também analisado aqui, desde sua gênese literária, o personagem é uma releitura do tema do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson.

O tema da invisibilidade permite a discussão sobre nossos limites éticos. O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? 

4. O Monstro da Lagoa Negra

Origem: Cinema

Obra de estréia: A Criatura da Lagoa Negra (1954)

Melhor filme até aquiA Criatura da Lagoa Negra (1954)

Legado: O caçula dos Monstros da Universal e o único sem ligação literária, folclórica ou cultural, este monstro é produto do discurso científico dos anos 50, fascinado com mutações e seres alienígenas.

Ele simboliza os mistérios e perigos escondidos da natureza e o quanto pode ser perigoso ao homem tentar desvendar esses elementos sem demonstrar respeito pelos mesmos. 

5. Van Helsing

Origem: Literatura

Obra de estréia: Drácula (1897), de Bram Stoker

Melhor filme até aqui: O Horror de Drácula (1958)

Legado: Desde sua primeira aparição o cientista e investigador do sobrenatural Abraham Van Helsing simboliza o agente responsável pela restauração da ordem em um mundo onde o caos se manifesta por meio do monstro.

Por vezes, subvertendo até mesmo a ética para alcançar esse fim.

6. O Lobisomem

Origem: Mitologia

Obra de estréia: A Lobisomem (1913) (filme perdido da Universal)

Melhor filme até aquiO Lobisomem (1941)

Legado: Assim como o próprio personagem do Dr. Jekyll (e Mr. Hyde), o lobisomem tem sua força enquanto monstro que aborda a dualidade do ser humano. O embate entre nossos impulsos e vontade individuais contra nossas obrigações e deveres sociais. 

Agora é só esperar que façam um bom trabalho com a enorme tradição cultural destes monstros atemporais, sem apelarem apenas para efeitos especiais.

E aí? Quais são as suas expectativas para o Dark Universe

Será que vão respeitar o legado dos Monstros da Universal?

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Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LEADBEATER, Alex. The Mummy Director Explains Dr. Jekyll’s Role in the Film. In: SCREENRANT. Acesso em 27 maio de 2017.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Você conhece os 7 vampiros e vampiras que criaram DRÁCULA?

No post “1732: o ano em que os vampiros dominaram a Europa” mostrei que o folclore do leste europeu é marcado pela presença de mortos-vivos que saem de seus túmulos para se alimentar da essência vital dos vivos.

Também mostrei como essas narrativas chegaram a Europa do século 18 criando um intenso debate no meio religioso e acadêmico sobre a existência ou não dos vampiros.

E a Literatura, é claro, não ficou a margem dessa discussão.

Mas diga a verdade: Quando você pensa em vampiro na Literatura, você pensa primeiro no Conde Drácula, não é?

Christopher Lee, o Drácula dos filmes do estúdio inglês Hammer nos anos 60.

Mas se hoje Drácula é sinônimo de vampiro isso é resultado de outros seres vampíricos que surgiram antes dele.

Seres que estabeleceram uma tradição literária que seria usada por Bram Stoker para escrever o romance Drácula (1897). 

Veja abaixo então quais são os sete vampiros e vampiras que criaram Drácula.

1. “O Vampiro” (“Der Vampir”)

Autor: Heinrich August Ossenfelder

Ano: 1748

Vampiro: Não aparece

Este curto poema, que inaugura a literatura vampírica, mostra um rapaz que anuncia sua vingança contra a amada pelo fato dela ter ouvido os conselhos de sua mãe para terminar o relacionamento, visto que o rapaz pertence a uma região com fama de ser infestada por vampiros.

Ainda que o vampiro não apareça aqui diretamente, os elementos de morte e desejo que surgem neste texto pela primeira vez associados ao vampiro e a importância do leste europeu como morada destes seres se tornaram parte indissociáveis nas obras seguintes.

Segue abaixo o poema completo com a tradução de Marta Chiarelli.

“Minha amada jovem crê,
Com constância firme forte,
Nos conselhos dados
Pela sempre piedosa mãe
Que como os povos do Tisza
Fielmente acredita
Em vampiros mortais.
Mas espere só, Cristina,
Tu não queres me amar;
Pois hei de me vingar,
E hoje brindo um tocai,
À saúde de um vampiro.

E, enquanto suave adormeces,
De tuas faces formosas
Sugo o púrpuro frescor.
Então tu vibrarás
Assim que eu te beijar,
e qual vampiro beijarei,
Então, quando tremeres
Tão logo sucumbas
E lânguida em meus braços,
Como morta cedas
                          Nesse instante indagarei,                           não superam minhas lições
 as de tua bondosa mãe?”

2. “Lenore” (“Lenore”)

Autor: Gottfried August Burger

Ano: 1773

Vampiro: Não aparece

Lenore percebe que seu amado não voltou vivo da guerra.

O poema narra a preocupação da jovem Lenore com a vida do seu amado William, que foi lutar na Guerra entre a Prússia e o Império Austro-Húngaro.

A aflição da moça aumenta quando vários homens, com exceção de seu William, retornam para casa.

Um noite, porém, William retorna montado em seu cavalo e chama Lenore para cavalgar com ele rumo ao seu leito de casamento.

Após uma acelerada jornada por paisagens sinistras Lenore e o cavaleiro chegam a um cemitério onde a aparência do cavaleiro se desfaz para revelar a Morte.

A entidade mostra o túmulo onde o corpo de William está e diz a Lenore que aquele será o seu leito de casamento. Neste instante o chão se abre e espíritos e demônios levam Lenore para a cova.

Apesar de não tratar diretamente de vampiros, a abordagem de dois temas caros a literatura de vampiros – o amor e a morte -, aliado eficaz construção de uma atmosfera gótica, fez com que “Lenore” exercesse um profundo impacto no gênero vampiresco.

Uma das frases mais conhecidas do romance Drácula
“Os mortos viajam depressa” – foi retirada deste poema.

3. “A Noiva do Corinto” (“Die Braut Von Korinth”)

Autor: Johann Wolfgang von Goethe

Ano: 1797

Vampiro: A noiva do Corinto

Considerado a primeira obra a usar de forma direta o personagem, neste caso, uma vampira, o poema mostra como a jovem virgem Philinnon retorna do mundo dos mortos para desfrutar dos prazeres sexuais que não teve em vida.

Ela se dirige à pousada de seus pais e seduz o corinto Machates, seu noivo quando era viva, que se encontra hospedado na casa dos pais da moça.

Desmascarada por seu pai e sua mãe, a vampira retorna para o túmulo e lá tem o seu corpo destruído.

Em “A noiva do Corinto” Goethe introduziu a ênfase no elemento sexual do vampiro.

A partir deste ponto, cria-se uma separação entre a imagem do vampiro folclórico, traduzida em um cadáver ambulante vestido farrapos, e a representação do vampiro literário, como um ser sedutor de sexualidade inquieta e aflorada.

4. “Christabel” (“Christabel”)

 Autor: Samuel Taylor Coleridge

Ano: 1816

Vampiro: Geraldine

Neste poema, o leitor conhece a história da jovem Christabel que se envolve com uma mulher chamada Geraldine.

Após ser convencida pela misteriosa personagem, a moça e Geraldine se despem e a jovem percebe a pele velha e seca da mulher e experimenta um momento de transe, que é o início de uma demorada cena homoafetiva.

Ao acordar, Christabel sente um imenso sentimento de culpa enquanto que Geraldine se levanta rejuvenescida.

Levada ao castelo do pai de Christabel, Geraldine se envolve com o pai da anfitriã e parte do castelo com ele.

“Christabel” não é apenas a obra que apresentou o vampiro pela primeira vez na Literatura Inglesa, mas também é o texto literário que criou a temática do homoerotismo vampírico.

5.  “O Vampiro” (“The Vampyre”)

Autor: John William Polidori

Ano: 1819

Vampiro: Lord Ruthven 

Filho de uma família rica, e procurando conhecer mais da sociedade inglesa, o jovem e inocente Aubrey conhece o misterioso e sedutor Lord Ruthven (pronuncia-se “rivven”) nas festas e recepções londrinas e decide acompanhá-lo em viagem pela Europa.

Aubrey, no entanto, logo se cansa do comportamento amoral de seu companheiro de viagem e o abandona, viajando para a Grécia.

Lá, ao explorar as florestas da região, ele quase morre ao tentar salvar uma bela jovem do ataque de um vampiro.

Polidori era médico pessoal do poeta maldito Lord Byron e usou a figura do poeta inglês para criar seu vampiro.

Enquanto se recupera, Aubrey reata a amizade com Lord Ruthven e, uma vez recuperado, viaja com ele pelas regiões da Grécia.

A dupla é atacada por ladrões de estrada e Ruthven é ferido mortalmente. Antes de morrer, ele exige que Aubrey prometa que guardará em segredo a noticia da morte do amigo pelo próximo ano.

Ao retornar para a Inglaterra o jovem descobre que sua irmã está envolvida por um nobre, que se descobre ser Ruthven, mas nada pode fazer por conta de sua promessa e… (vai ler o conto pra descobrir). 

Divisor de águas na literatura vampírica, este conto,

  1. introduziu o vampiro na ficção inglesa;
  2. criou a imagem do vampiro como um morto reanimado que caminha entre suas prováveis vitimas sem levantar suspeitas;
  3. estabeleceu o aspecto aristocrático da criatura;
  4. criou a imagem do vampiro como sedutor e avesso as morais sociais burguesas e;
  5. reforçou a presença do elemento erótico entre ele e sua vítima.

6. Varney o vampiro; ou O festim de sangue (Varney, the vampire; or The Feast of Blood)

Autor: James Malcolm Rymer

Ano: 1847

Vampiro: Sir Francis Varney

Quando vivo, Varney se chamava Mortimer e tinha sido um defensor da coroa inglesa no século 17 durante a guerra civil entre a monarquia e o Parlamento que resultou na decapitação do Rei Charles I em 1649.

Após matar acidentalmente seu filho em um momento de fúria, ele perde os sentidos e é despertado dois anos depois ao lado de um túmulo por uma voz que lhe diz que, por conta de seu ato, ele foi amaldiçoado e seu nome dali por diante seria Varney, o Vampiro.

Ele tinha a pele pálida, dente longos como presas, unhas compridas e olhos brilhantes. Após beber sangue ele ficava com a pele avermelhada.

Já no século 19 as aventuras de Varney giram ao redor de seu relacionamento com a família Bannerworth e seus conhecidos. 

Após muitas idas e vindas na Inglaterra, Napolês e Veneza, Varney decide dar um fim a sua existência vampírica e se atira dentro do vulcão Vesúvio.

Publicado em capítulos ao longo de 109 semanas, Varney, o vampiro é um dos mais bem sucedidos representantes do gênero penny dreadful, ou seja, histórias de enredo circulante e tom melodramático com ênfase no grotesco.

A obra foi posteriormente publicada em volume único de 800 páginas e se mostrou extremamente influente não apenas por popularizar o vampiro entre o grande público leitor, mas também por:

  1.  ser o primeiro romance de vampiros da literatura;
  2. inventar a imagem do vampiro de dentes pontiagudos;
  3. estabelecer o ataque no pescoço deixando duas marcas;
  4. criar o vampiro angustiado com sua existência sobrenatural; 

7. Carmilla, a vampira de Karnstein (Carmilla)

Autor: Sheridan Le Fanu

Ano: 1872

Vampiro: Carmilla (Condessa Mircalla de Karnstein)

A novela mostra como a jovem Laura, habitando com seu pai um pequeno castelo na região da Styria, atual estado da Áustria, se vê envolvida por uma mulher chamada Carmilla.

Carmilla entra na vida de Laura após um acidente de carruagem que a leva a se hospedar na moradia de Laura. Gradativamente elas se tornam intimas e Laura descobre que a misteriosa mulher a visitou durante a sua infância.  

A morte de outras jovens na mesma região acaba revelando que Carmilla é na verdade a vampira Mircalla, Condessa de Karnstein, que passa a ser perseguida pelas autoridades locais.

A primeira novela vampírica da Literatura Inglesa, Carmilla sedimentou a imagem do vampiro aristocrático do leste europeu que seria utilizado por Bram Stoker em Drácula. 

Dentre as convenções estabelecidas, também seguidas por Stoker, cito:

  1. A transformação em outros animais, no caso de Carmilla, um gato;
  2. Força sobre humana;
  3. Hábitos notívagos;

Nenhuma obra literária do Fantástico, e da Literatura em geral, nasce do nada da cabeça de seus autores.

Ela é resultado dos traumas, ansiedades, leituras anteriores e do mundo ao redor dos escritores e escritoras.

No caso de Drácula, muitos outros elementos contribuíram para a gênese da mais importante obra vampírica da Literatura.

Mas isso é assunto para outro post.

Já leu alguma das 7 obras mencionadas acima?

Lembre-se que se quiser ler em detalhes as informações aqui leia o texto de Introdução que eu fiz para os livros Contos clássicos de vampiros e Carmilla, ambas publicadas pela Editora Hedra.

Se gostou do post, assine o blog, deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos e amigas vampíricos.

Obrigado pela leitura e até a próxima! 

Fontes utilizadas

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

1732: O ano em que os vampiros dominaram a Europa

Presença constante em quase todas as culturas ao longo da História, os vampiros vem assombrando a humanidade desde a Antiguidade em mitos e lendas.

Lilith, a primeira mulher de Adão, e Lâmia, cujo filhos foram mortos por Hera, são os primeiros seres vampíricos mitológicos da humanidade.

No entanto, foi no folclore de países como a Grécia, Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Polônia, Hungria, Bulgária e Romênia que surgiu a imagem clássica do vampiro como um cadáver que sai do túmulo para tirar a vida das pessoas, como conhecemos hoje.

primeiro registro escrito do termo que daria origem a palavra “vampiro” surgiu em 1047 no eslavo antigo “Upir”. Ela apareceu na obra russa LIVRO DA PROFECIA, de Vladimir Jaroslov. Nela um padre era chamado de “Upir Lichy” (“vampiro hediondo”) dado o seu comportamento imoral.

Um ser de muitos nomes

Refletindo as diversas influencias culturais, étnicas, religiosas e linguísticas do leste europeu o vampiro folclórico se apresenta por nomes variados, tais como, Uppyr (russo moderno), Upír (bielo-russo, tcheco, eslovaco), Upirbi (ucraniano), Vampir (búlgaro), Upirina (servo-croata) e Uppier (polonês).

A força deste personagem no imaginário da região como a personificação da constante presença da morte entre os vivos, se alinha com a tradição desta conturbada parte da Europa marcada historicamente, até hoje, pela violência, pobreza, epidemias e conflitos étnicos e religiosos.

O esqueleto desta mulher polonesa de 45 e 49 anos, vítima de cólera, tinha pedras sobre ela, para que não se levantasse do túmulo e levasse seus parentes para o túmulo com ela.

Foi em um contexto de ressurgimento da Cólera e da Peste Bubônica no leste europeu do século 17 e 18, por exemplo, que ocorreu os casos de histeria coletiva atribuída a ataque de vampiros na Istra (1672), na Prússia oriental (1710 e 1725) e na Hungria (1725 a 1730).

Esta mulher polonesa entre 30 e 39 anos, vítima da cólera, tinha uma foice em seu pescoço para que cortasse sua cabeça fora ao tentar sair do túmulo.

Apesar do enorme número de relatos sobre ataques de vampiros do leste europeu, as barreiras políticas da região, dominadas na época pelo Império Otomano, impediam que estas informações chegassem de forma consistente nos centros da Europa Ocidental, como Alemanha, França, Inglaterra e Itália.  

Os mortos viajam rápido

O vampiro da Europa Oriental começou a atrair a atenção do Ocidente com o Tratado de Passarowitz de 1718.

Neste acordo político, metade da Sérvia e partes da Bósnia e da Wallachia (hoje parte da Romênia) deixaram de ser dominadas pelo Império Otomano e passaram para o controle do Império Austríaco-Húngaro.

Este novo cenário político abriu as portas de uma região que era próxima geograficamente da Europa ocidental, mas muito distante do ponto de vista cultural.

Jonathan Harker deixa suas impressões sobre a região dos Montes Cárpatos enquanto se dirige ao castelo do Conde Drácula.

Esta percepção continuou até o fim do século 19, como está bem marcado no relato de Jonathan Harker presente no início de Drácula (1897):

“Descobri que o distrito por ele [Drácula] nomeado encontrava-se no extremo leste do país, nas fronteiras entre três estados, a Transilvânia, a Moldavia, e a Bucovina, bem no meio das montanhas carpacianas, uma das mais primitivas e menos conhecidas partes da Europa”. 

Em pouco tempo Alemanha, França e o Reino Unido tomaram conhecimento de relatos repetidos sobre vampiros que aconteciam nas regiões sob o governo do Império Austríaco-Húngaro. 

Era a hora do vampiro lançar sombras sobre o Século das Luzes.

Os vampiros invadem a Europa

Em pleno Iluminismo, quando a Ciência moderna estava surgindo e o Racionalismo estava na ordem do dia, a Europa se viu tomada pelo chamado “levante vampírico” do leste europeu, disseminado e popularizado pela recém-criada imprensa.

Voltaire

Os relatos sobre ataques de vampiros chamaram a atenção de diferentes pensadores da época, como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau.

Para eles, estas histórias eram crenças supersticiosas incompatíveis com uma época de descobertas e inovações científicas e deveriam ser esquecidas.

Jean-Jacques Rosseau

Mas, como você sabe, é difícil matar um vampiro.

Devido à proximidade geográfica e cultural com o leste europeu, a Alemanha foi o primeiro país a tratar do tema dos vampiros em duas obras investigativas, ainda no plano religioso:

De Masticatione Mortuorum in Tumulus Liber (1728), de Michaël Ranft: Discute a impossibilidade dos vampiros de assumirem forma física tangível para atacarem os humanos;

Dissertatio Physica de Cadaveribus Sanguisugis (1732), de Johannes Christianus Stock: A obra aponta o Diabo como origem dos sonhos com os mortos-vivos.

O vampiro vira best-seller 

O crescente relato de casos sobre vampiros em terras sob seu controle levou os administradores austríacos a se envolverem diretamente com o caso.

Em 1731 uma comissão científica investigativa foi enviada a Sérvia com o propósito de expor a falsidade dos relatos sobre os sugadores de sangue.

Todavia, o resultado desta iniciativa, liderada pelo cirurgião de Regimento de Campo da Infantaria Austríaca Johannes Fluchinger, teve efeito contrário e chocou a Europa.

Nos relatos ouvidos por Fluchinger na região da Medvegia, Sérvia, dezessete pessoas teriam morrido no ano de 1731 em um curto espaço de tempo em decorrência de ataques de cinco anos atrás de um vampiro chamado Arnold Paole.

Paole havia sido um soldado atacado por um vampiro na Sérvia-Turca. Após a sua morte, relatos surgiram dizendo que o ex-militar havia retornado como um morto-vivo para molestar as pessoas da sua vila.

O corpo de Paole foi desenterrado quarenta dias após a sua morte e, diante das evidências físicas de vampirismo (conservação do corpo, crescimento de unhas e cabelos, e presença de sangue no canto da boca), os homens do local esfaquearam o cadáver, decapitaram a cabeça e queimaram o corpo.

As dezessete mortes ocorridas mesmo depois da destruição do vampiro foram atribuídas ao consumo de carne de gado vampirizado por Arnold Paole.

Uma vez feita a exumação dos cadáveres, Fluchinger examinou os corpos e constatou características semelhantes às registradas no corpo de Arnold Paole, ordenando na sequencia a destruição de todos os corpos.

O relatório detalhado das investigações, no qual Fluchinger registrou sua incapacidade de atribuir os casos de vampirismo como mera superstição popularfoi apresentado ao imperador austríaco em 1732 e recebeu o nome de Visum et Repertum.

1732: Os vampiros dominam a Europa

Assinada e referendada por um oficial médico austríaco, Visum et Repertum logo se espalhou pelo continente europeu transformando-se tanto em sucesso de vendas quanto alvo de ataques de pesquisadores e teólogos da época.

Por conta desta obra, 17 artigos sobre diferentes aspectos do vampirismo foram publicados nos jornais de 1732 e 22 tratados sobre o tema surgiram nos três anos seguintes a publicação do relatório de Fluchinger.

Dentre estas obras, destaque para: 

Lettres Juives (1736), do francês Jean-Baptiste de Boyer, conhecido como o Marquês d’ Argens;

Dissertazione sopra i Vampiri (1744), do italiano Monsenhor Giuseppe Davanzati;

Dissertations sur les Apparitions des Anges, des Démons e des Esprits, et sur les revenants, et Vampires de Hungrie, de Bohême, de Moravie, et de Silésie (1746), de Dom Augustin Calmet, acadêmico católico francês e o mais famoso vampirologista do início do século 18.

Como era de se esperar o intenso debate sobre os vampiros chamou a atenção de artistas e do público, levando o vampiro para uma nova região que ele logo dominaria: a Literatura.

O vampiro entra na Literatura

Seguindo o pioneirismo, já comentado, da investigação ocidental do fenômeno da criatura sugadora de sangue, a Alemanha introduziu o tema do vampiro na Literatura em 1748, dois anos depois da obra de Dom Augustin Calmet.

Abordando o personagem de forma metafórica, o curto poema “O Vampiro” (“Der Vampir”), de Heinrich August Ossenfelder inaugurou a literatura vampírica.

Na história, um rapaz deseja vingança contra a amada pelo fato dela ter seguido o conselho da mãe para abandoná-lo, devido às suas origens estarem ligadas a uma região repleta de vampiros.

A partir dai, o vampiro nunca mais cessaria de assombrar e influenciar a Literatura.

O DIABO APAIXONADO (1772), do francês Jacques Cazotte é a obra que inaugura o Gênero Fantástico.

Qual seria o impacto do “levante vampírico” do século 18 sobre o nascimento do Gênero Fantástico? E do Gótico? Quais obras moldaram e subverteram o vampiro na Literatura?

Isso é assunto para outro post…

E se você quer ler em detalhes as informações que mencionei aqui recomendo a (longa) Introdução que escrevi para a coletânea Contos Clássicos de Vampiros e para a novela Carmilla: A Vampira de Karnstein, ambas publicadas pela Editora Hedra.

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Fica a dica

Se você é Doutorando(a), já completou o Doutorado e curte o Fantástico fica aqui também o convite para enviar um artigo para a Revista  Scripta Uniandrade

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 1 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua portuguesa

Submissão: até 31 de maio de 2017.

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 2 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua inglesa

Submissão: até 31 de julho de 2017.

 Para maiores informações, clique aqui.

Fontes utilizadas

BARBER, Paul. Vampires, Burial and Death. New York: Yale University Press, 1988.

FERREIRA, Cid Vale (Org.) Voivode: estudo sobre os vampiros. São Paulo: Pandemonium, 2002.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

IDRICEANU, Flavia, Bartlett, Waine. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. Trad. Silvia Spada. São Paulo: Madras, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Weird Fiction, New Weird, Interstitial Writing e Slipstream: Os caminhos da Literatura Fantástica hoje

Você gosta de Literatura Fantástica, não é?

Se você assiste a filmes ou lê obras ligadas a Fantasia, Gótico, Horror, Ficção Científica e Realismo Mágico tenho certeza que já percebeu uma certa mistura de gêneros no Fantástico de hoje.

Veja o caso, por exemplo, na Literatura YA (Young Adults), de obras como A Seleção (2012), da escritora norte-americana Kiera Cass, onde a distopia se encontra com o conto de fadas. 

Big Brother encontra Cinderela.

No entanto, essa subversão dos limites entre as narrativas do insólito não é de hoje.

“Tudo o que é solido se desmancha no ar”

O entre-cruzamento de fronteiras literárias no fantástico se tornou mais evidente a partir do fim do século dezenove e início do início do século vinte como reflexo do impacto das ideias de pesquisadores como Charles Darwin, Albert Einstein, Karl Marx e Sigmund Freud sobre o ser humano da época.

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A frase de Karl Marx resume a situação de um mundo cujas certezas ruíam rapidamente.

Dentro de seus campos de atuação, o trabalho desses pesquisadores, e outros mais, colocou em xeque as crenças e convenções religiosas, sociais e políticas que faziam o ser humano do período a entender o mundo e o seu lugar nele.

Gênero fantástico ou Modo fantástico?

No campo da Literatura Fantástica, a forma mais visível deste cenário de profundas e irreversíveis mudanças foi a acentuação da diferença entre dois tipos de Fantástico: gênero e modo

Não é objetivo central aqui apresentar em detalhes as diferenças entre o Gênero fantástico e o Modo fantástico, isso já foi tema no canal do FANTASTICURSOS no YouTube, mas basicamente tenha em mente que:

Gênero fantástico

Refere-se a um gênero literário nascido em fins do século dezoito como resultado da tensão entre o emergente racionalismo iluminista e as crenças religiosas e sobrenaturais herdadas da Idade Média.

O ponto inicial é o romance O diabo enamorado (Le Diable amoureux / 1772), do escritor francês Jacques Cazotte. 

O jovem Alvare invoca o diabo e este se apaixona pelo jovem espanhol. Ele então assume a forma da bela Biondetta e tenta seduzi-lo.

O gênero fantástico se caracteriza por apresentar uma narrativa marcada pela incerteza do protagonista (e, por tabela, de nós leitores) diante do acontecimento fantástico. 

Biondetta assume sua forma diabólica no momento da consumação do amor com Alvare e o jovem desperta como se estivesse em um pesadelo. Foi tudo real ou mero produto da imaginação do rapaz?

O acontecimento fantástico realmente aconteceu ou foi apenas um sonho? Ou foi o resultado do uso de drogas? Ou ocorreu pelo excesso de sono? Ou por causa do sofrimento pela perda da pessoa amada? 

É nesse terreno da incerteza entre o real e o sobrenatural que o gênero fantástico habita .

A metamorfose

Para alguns críticos, o gênero fantástico sofreu uma crise no fim do século dezenove e início do vinte, em decorrência do cenário de mudanças que mencionei acima.

Afinal de contas, o elemento sobrenatural de origem religiosa ou popular não mais provocava incertezas na mente do individuo imerso no mundo da Revolução Industrial.   

Uma das marcas dessa crise é a novela A metamorfose (1915), de Franz Kafka

Por que Gregor Samsa acordou em uma manhã transformado em inseto? 

Não há nenhuma explicação ao longo de toda a história.

Não há nenhum questionamento por parte do personagem das razões que poderiam ter levado ele a sofrer tal metamorfose. 

No entanto, mais importante que a mudança, o que interessa a Kafka é mostrar as consequências da mudança sofrida pelo jovem vendedor sobre a família de Gregor Samsa.

O gênero fantástico morreu?

Não. Assim como Gregor Samsa ele se metamorfoseou em outra coisa, mas a resposta mesmo fica para outro post.

Modo fantástico

Esse é Fantástico que vem a nossa mente quando pensamos nesta palavra.

O ÉPICO DE GILGAMESH (2.700 a.C.) é a obra escrita mais antiga da humanidade e é marcada por vários elementos fantásticos usados até hoje.

Refere-se, de modo geral, a narrativas no qual o manejo e a combinação de temas e elementos da narrativa (narrador, enredo, espaço, tempo e personagens) revelam a presença e influencia do insólito dentro da história.

“Fantástico”, aqui, deve ser entendido como um grande termo guarda-chuva embaixo do qual estão vários subgêneros e vertentes do romance.

A ODISSEIA (Séc. 8 a.C.), de Homero mostra como o Fantástico está na base da literatura ocidental.

Mitos, Lendas, Fábulas, Contos de fada, Romances Góticos, Horror, Terror, Ficção Científica, Realismo Mágico, Cordel, … Tudo está no reino do Modo Fantástico.

Veja agora abaixo algumas das configurações deste Fantástico pouco faladas no Brasil, mas que, desde o início do século vinte, vem apresentando novos olhares sobre as angustias e ansiedades da sociedade contemporânea.

São elas: Weird Fiction, New Weird, Interstitial Fiction e Slipstream.

Literatura Fantástica hoje 

Weird Fiction 

Ainda que esteja muito associada a América do início do século vinte a Weird Fiction possui raízes nas últimas décadas do século 19 no Reino Unido.

As histórias de fantasmas de M. R. James exploraram o terror de elementos do cotidiano.

Lord Dunsany influenciou Lovecraft com suas narrativas marcadas por lugares e criaturas estranhas.

O criador do termo foi o escritor irlandês Sheridan Le Fanu, escritor de, dentre outras obras, Carmilla (1872), novela que influenciou Bram Stoker na criação de Drácula (1897). 

A Weird Fiction, que em uma tradução aproximada para o Português poderia ser algo como “Ficção do Estranho” ou “Ficção do Bizarro”, se caracteriza por apresentar narrativas sobrenaturais cujo elemento macabro vai além do normalmente utilizado na literatura de Horror.  

Lovecraft e o Horror Cósmico 

O escritor norte-americano H. P. Lovecraft foi o grande promotor da Weird Fiction na América, algo ressaltado ainda mais pela sua associação com a revista Weird Tales. 

Lovecraft trouxe o racionalismo científico da América do começo do século vinte para criar histórias que iam além dos fantasmas, vampiros e casas assombradas do gótico e do horror tradicional.

Esta visão está expressa na sua definição de Weird Fiction, sendo que na tradução da Editora Iluminuras de 2008 o termo “Weird Fiction” foi substituída pelo mais genérico “história fantástica”:  

“A história fantástica genuína tem algo mais que um assassinato secreto, ossos ensanguentados, ou algum vulto coberto com um lençol arrastando correntes, conforme a regra. Uma certa atmosfera inexplicável e empolgante de pavor de forças externas desconhecidas precisa estar presente; e deve haver um indício, expresso com seriedade e dignidade condizentes com o tema, daquela mais terrível concepção do cérebro humano – uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da Natureza que são nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios dos espaços insondáveis”.

Obra representativa deste Weird Fiction lovecraftiano é o conto “O Chamado de Cthulhu” (1926), que introduz a temática do “Horror Cósmico”, exemplo da subversão das fronteiras entre o Horror e a Ficção Científica. 

Após Lovecraft, outros escritores de seu círculo, como Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, August Derleth e Robert Bloch  continuaram a explorar o potencial narrativo do Horror Cósmico e da Weird Fiction

Dica de leitura:

A melhor coletânea para compreender as origens e evolução da Weird Fiction.

A Segunda Grande Guerra mostrou horrores que superavam os temas praticados na Weird Fiction da primeira metade do século vinte.

Gradativamente, a partir dos anos 50, um novo modo de ler o bizarro do mundo começou a ganhar forma no New Weird

New Weird

O New Weird busca unificar os três principais gêneros do fantástico em Língua Inglesa: o Horror, a Fantasia e a Ficção Científica.

As primeiras menções ao New Weird se encontram em meados do século passado.

A trilogia Gormenghast, composta por Titus Groan (1946), Gormenghast (1950) e Titus Alone (1959), do escritor inglês Mervyn Peake é considerada um dos marcos iniciais do New Weird.

A relevância desta obra no cenário da Literatura Fantástica nos anos 50 foi ofuscada por outra trilogia lançada na época: O SENHOR DOS ANÉIS (1954-1955).

Misturando Gótico, Fantasia e Ficção Científica (inclusive antecipando elementos do Cyberpunk), Gormenghast anuncia a obsessão do New Weird com a cidade enquanto espaço da ocorrência do insólito.

Outro nome de destaque do New Weird é o do escritor inglês Clive Barker que, no final do século vinte, lançou a coletânea de contos em seis volumes Os Livros de Sangue (1984-1985).

“O futuro do horror”, assim o escritor Stephen King classificou o trabalho de Clive Barker.

A obra de Clive Barker refletiu a ênfase do New Weird nos aspectos grotescos relacionados a transformação, decadência e mutilação do corpo humano.

Clive Barker e o cenobita Pinhead, um dos vários seres bizarros que habitam as narrativas do escritor.

O inglês China Miéville é uma das principais vozes do New Weird no século vinte e um com romances como Estação Perdido (2000) e A cidade & a cidade (2009). 

Além dele, destaque para Hal Duncan, K. J. Bishop e Michael Moorcock.

Dica de leitura:

A coletânea de 2008 traz contos e ensaios sobre esta expressão do fantástico contemporâneo

Interstitial Writing

A proposta da Interstitial Writing encontra paralelo nos Estudos Culturais do crítico Homi Bhaba sobre a liminaridade, expressas em O local da cultura (1998):

“É na emergência dos interstícios – a sobreposição e o deslocamento de domínios da diferença – que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação [nationness] [grifo do autor], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados”

Ellen Kushner, Delia Sherman, Theodora Goss, Heinz Insu Fenkl e Terri Windling são os nomes por trás do início da Interstitial Writing.

“Melancholia with Demons”
Oil on Copper, 9” x 12”

Em 2002 eles fundaram a ISIS: the Interstitial Studies Institute com o propósito de discutir formas de arte – não apenas literária, mas também visual, musical e de performance – que buscam romper limites tradicionais.

Na Literatura, a Interstitial Writing exemplifica a busca do Pós-Modernismo em debater e subverter as fronteiras entre as expressões da criatividade humana.  

Os contos de O quarto do Barba Azul (1979), de Angela Carter podem ser lidos como exemplos de Interstitial Writing.

Dica de leitura:

INTERFICTIONS (2007) é recomendado como porta de entrada para a escrita intersticial por meio dos contos e da discussão apresentada.

Slipstream

Nascido nos domínios da Ficção Científica, o Slipstream é um termo cunhado pelo escritor norte-americano Bruce Sterling em um ensaio de 1989 publicado no fanzine SF Eye,

Bruce Sterling é também um dos criadores do Cyberpunk com coletânea de contos MIRROWSAHES (1986).

No texto, Bruce Sterling manifestava sua percepção de que algumas obras de fins do século vinte estavam subvertendo as convenções da Ficção Científica, ao trazer elementos da Fantasia e do Horror e cunhou o termo Slipstream, sinalizando que estas narrativas escorregavam (Slip – Escorregar) entre as vertentes do fantástico.

Para ele, a ficção Slipstream é, 

“um tipo de ficção que simplesmente faz você se sentir muito estranho; do jeito que viver no século 20 faz você se sentir, se for uma pessoa de certa sensibilidade”.

O Slipstream faz uso de estratégias literárias pós-modernas tais como a Alegoria, a Metaficção e o Pastiche na sua tentativa de ampliar as possibilidades da Ficção Científica em refletir sobre o mundo de hoje.

O romance O Conto da Aia (1985), da canadense Margaret Atwood, que mescla a estrutura da Distopia com elementos de contos de fada, pode ser entendido como um exemplo de ficção Slipstream.

Ted Chiang (autor do conto que deu origem ao filme A Chegada), Bruce Sterling, Michael Chabon, George Saunders são nomes representativos do Slipstream.

Dica de leitura:

FEELING VERY STRANGE: THE SLIPSTREAM ANTHOLOGY (2006), traz uma variedade de contos que constroem um panorama do que os editores James Patrick Kelly e John Kessel chamaram de modalidade difusa.

Algumas questões:

Uma rápida leitura das expressões do fantástico aqui apresentadas pode deixar a duvida se, de fato, há diferenças substanciais entre elas.

Ao pensar nas particularidades do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream, o escritor e editor Jeff Vandermeer aponta que, diferente das duas últimas, o New Weird não se preocupa em utilizar estratégias literárias pós-modernas que subvertem a realidade do texto ficcional ou chamam a atenção para a sua artificialidade;

Mas, quais seriam os pontos de distinção entre o Slipstream e o Interstitial Writing?

Existiriam na Literatura Brasileira da virada do século dezenove para o vinte e no meio literário nacional de hoje, representantes respectivamente do Weird Fiction, do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream?

Fica o convite para os pesquisadores do Fantástico.

Gostou do post?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos fantásticos e normais.

Até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BESSIÈRE, Irène (2009). “O relato fantástico: forma mista do caso e da adivinha”. (Biagio D’Angelo, Trad.). In Revista Fronteiraz, (vol. 3, nº 3, Setembro). São Paulo: USP, pp. 185 – 202.

CESERANI, Remo (2006). O fantástico. Trad. Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR.

JOSHI, Sunand Tryambak (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, Sunand Tryambak (Eds.). (2001). The Modern Weird Tale. North Carolina: McFarland & Company.

KELLY, James Patrick; KESSEL, John. (Eds.) (2006). Feeling Very Strange: The Slipstream Anthology. Tachyon Publications. San Francisco. 2006

LOVECRAFT, Howard Phillips (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

SHERMAN, Delia; GOSS, Theodora (Eds) (2007). Interfictions: An Anthology of Interestitial Writing. Boston: Interstitial Arts Foundation.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

STERLING, Bruce. “Slipstream”. Disponível em: < https://w2.eff.org/Misc/Publications/Bruce_Sterling/Catscan_columns/catscan.05 > Acesso em: 08 mar. 2017.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2008). The New Weird. San Francisco: Tachyon Publication.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The Weird: A Compendium of Strange and Dark Stories. New York: Tor Book.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Será que você é um canibal? O canibalismo no fantástico (Parte 2)

Na primeira parte do post sobre a relação entre o Canibalismo e o Fantástico, que você pode acessar clicando aqui, apresentei um breve panorama de como a prática de comer carne humana acompanha a história da humanidade antes mesmo dela surgir na mitologia grega passando pela Idade Média e chegando aos contos de fadas que conhecemos.

Cronos versus Zeus: Canibalismo mitológico.

Neste segunda parte do post, você vai ver como o canibalismo se tornou uma linha divisória entre o civilizado e o bárbaro, entre o humano e o monstruoso.

A comédia zumbi SANTA CLARITA DIET permite refletir sobre rotina e acomodação na sociedade moderna.

Vai ver também como ele se tornou um simbolo das ansiedades do ser humano no mundo de hoje, algo visto na série da Netflix Santa Clarita Diet e no filme Grave (Raw, no original em inglês).

A relação do individuo com o corpo nos tempos modernos aparece refletido no filme

Se você quer ler logo sobre como o fantástico interpreta o mundo por meio do canibalismo, antes de conhecer a história da prática de se comer carne humana, clique aqui

O Canibal é americano

Polifemo era filho de Poseidon com uma ninfa da água

Quando os europeus se lançaram ao mar no século 15 e 16 eles levaram em seus navios todo o imaginário herdado dos relatos da Antiguidade sobre criaturas monstruosas e canibais, como o do ciclope Polifemo, que devorou os homens de Ulisses na obra A Odisséia.   

O monstro nos confins do mundo

A Literatura de Viagens da época, seguindo essa crença, era repleta de relatos de criaturas antropofágicas que viviam em regiões da Etiópia e da Índia, como os Cinocéfalos, homens com cabeça de cães.

Os cinocéfalos se alimentavam dos viajantes incautos

A chegada dos europeus as Américas trouxe a revelação de que alguns dos povos indígenas do continente consumiam carne humana em rituais religiosos.

Representação do canibalismo da tribo brasileira dos Tupinambá em 1557, conforme descrição de Hans Staden.

Esse ritual visava adquirir a coragem dos guerreiros inimigos capturados ou como parte de oferenda para os deuses.

Canibal ou Antropófago? 

Foi neste contexto que, ao observarem os índios antropófagos das ilhas do Caribe, os exploradores criaram a palavra “Canibal”

A prática do canibalismo foi um dos motivos alegados pelos europeus para a escravidão indígena, com o pretexto de que eles não eram humanos.

Mas, qual é a diferença entre Canibalismo e Antropofagismo? 

Todo antropófago é canibal, mas nem todo canibal é antropófago.

Explico.

O Canibalismo ocorre quando um individuo de uma espécie come outro representante da mesma espécie. Não é exclusivo do universo humano.

No caso do Louva-a-deus o canibalismo é cometido pela fêmea, que devora o macho depois do ato sexual.

Já a Antropofagia (do grego anthropos, “homem” e phagein, “comer”) ocorre especificamente quando um individuo humano come a carne de outro ser humano.

Canibais brancos e cristãos

Ainda que após o contato entre europeus e os povos indígenas, estes últimos tenham sido associados a antropofagia, os colonos brancos (e cristãos) também não ficaram de fora.

Durante o ano de 1609 na cidade de Jamestown, uma das primeiras experiências colonizadoras na América, os colonos ingleses precisaram recorrer ao canibalismo como forma de sobreviverem ao rigoroso inverno que se abateu sobre o assentamento. 

O canibal é o outro

Sendo um dos principais tabus da humanidade, o canibalismo sempre é associado a alguém pertencente a alguém de outro grupo. Nunca a nós.

O Kindilfresser é um comedor de crianças da Suíça cujas origens podem estar relacionadas ao preconceito contra os judeus.

Judeus, muçulmanos, índios, negros… todos os que não pertenciam ao padrão branco, cristão e europeu eram enxergados como canibais em potencial.

O Papa figo é um negro leproso que coloca as crianças no saco para depois comer o figado delas.

No folclore do Brasil, esse preconceito está expresso em criaturas canibais ligadas ao medo infantil, tais como o Papa figo e o Quibungo.

O Quibungo é negro e tem uma bocarra nas costas por onde ele enfia as crianças que pega.

Para saber mais sobre essas e outra criaturas, leia o post aqui do blog “Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?”

O canibalismo no Cinema

Depois de passar pela Mitologia e pela História, o canibal encontrou no Cinema o espaço ideal para mostrar seu apetite.  

Os pais dos canibais cinematográficos

Dois filmes da década de 1960 foram os responsáveis por promover uma verdadeira invasão de comedores de carne humana no Cinema dos anos setenta.

Para assistir ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

  1. Mondo Cane (1962)

Produção italiana que inaugurou o gênero Shockumentary, este filme traz vários costumes e práticas de povos e comunidades ao redor do mundo, dentre os quais, o canibalismo.

2. A noite dos mortos-vivos (1968) 

Filme que reinventou o personagem folclórico do zumbi no cinema e introduziu o tema do canibalismo no fantástico. O primeiro zumbi canibal está aqui

Se quiser saber mais sobre zumbi, veja o vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 curiosidades monstruosas: Zumbi”.

Os anos de fartura para o canibal

Os anos setenta foram os anos dourados do canibalismo no Cinema dado o grande número de produções na Itália e nos Estados Unidos com esta temática.

Estes filmes podem ser encontrados no YouTube e para assistir abaixo ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

Cito abaixo as produções mais relevantes para a Ficção Científica e o Horror:

  1. No mundo de 2020 (Soylent Green / 1973) 

Se A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells é o primeiro romance de ficção cientifica a tratar do canibalismo, No mundo de 2020 é a primeira distopia a tratar do tema no Cinema. 

Vivendo em um mundo onde a ração Soylent Green é distribuída a população faminta, o policial vivido por Charlton Heston inicia uma investigação sobre a morte de um executivo que o leva a descobrir do que a ração é feita.

2. O massacre da serra elétrica (The Texas Chain Saw Massacre / 1974)

Clássico do Horror, o filme de Tobe Hooper ganhou uma refilmagem em 2013 para celebrar os 40 anos do original. 

O filme introduziu o canibal Leatherface, considerado um dos maiores vilões de todos os tempos e que antecipou outros assassinos de adolescentes nos anos seguintes em filmes como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

3. A montanha dos canibais (La montagna del dio cannibale / 1978)

Trazendo a bela Ursula Andress como protagonista, este filme se insere nas produções do ciclo canibal italiano iniciada em 1972 com The Man from the Deep River e apela para a temática da Literatura de Raças Perdidas como pretexto para cenas de nudez, violência extrema e até zoofilia, por conta da cena de um canibal transando com uma porca!

O canibal no espelho

As últimas décadas do século vinte e o início do século vinte e um forneceram o contexto para uma renovação do canibalismo no Cinema ao subverter a fronteira entre o civilizado e o selvagem, entre o Eu e o Outro. 

A modernidade faz do ser humano um canibal.

Este é o caso dos filmes abaixo. Para assistir aos trailers, basta clicar nas imagens.

1. Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust / 1980)

Ao contrário do que se pode pensar, Bruxa de Blair (1999) não foi o primeiro filme de horror do gênero Found footage e Mockumentary, isto é, produção que simula a descoberta de material de filmagem de um equipe cinematográfica desaparecida durante a realização de pretenso documentário.

Na frente das câmeras, documentaristas idealistas, por trás das câmeras, sádicos urbanos

Este mérito cabe a Holocausto canibal, conhecido como “O filme mais polêmico e controvertido de todos os tempos”.  

Banido de vários países, esta produção italiana levou o diretor Ruggero Deodato aos tribunais por ser acusado de realizar um Snuff Movie, ou seja, um filme em que um assassinato real é realizado para fins lucrativos e de entretenimento.

Na ocasião ele teve de provar que todos os atores estavam vivos e bem.

No filme, a equipe de filmagem agride os indígenas de todas as formas.

O maior impacto de Holocausto canibal foi deslocar a barbárie dos índios canibais para os jovens cineastas, que praticaram todo o tipo de crueldade com os indígenas em busca de um documentário impactante.

A cena da câmera que fica gravando depois da morte do último personagem, foi inventada neste filme.

O resultado foi a vingança dos nativos contra uma nova espécie de monstro: o homem civilizado.

2. O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs / 1991)

Adaptação do segundo romance de 1988 de Thomas Harris, este filme ganhador de vários óscares apresenta no cinema o psiquiatra Hannibal Lecter.

Vencedor de vários prêmios, o filme rendeu o Oscar de Melhor Ator para Sir Anthony Hopkins.

Culto, cortês e elegante, mas também sádico, manipulador e… canibal, Hannibal Lecter é a incorporação do ambiente de fim de século, mostrando que por trás da capa superficial de civilidade do ser urbano existe um monstro pronto a emergir.     

3. Psicopata americano (American phycho / 2000)

Baseado no romance de 1991 de Bret Easton Ellis e adaptado para o cinema em 2000, a obra é ambientada nos anos oitenta e traz como protagonista um Yuppie extremamente competitivo e narcisista.

O filme traz o sempre excelente Christian Bale como o psicopata Patrick Bateman.

Assim como o livro, o filme foi cercado de polêmicas sobre os limites entre a arte e a violência gratuita.

Crítica feroz ao Capitalismo selvagem, Psicopata americano perturba por criticar uma geração que quanto mais tinha menos sentia, quanto mais subia na carreira profissional mais descia na civilidade a ponto de, em uma escalada de violência, se tornar canibal.

4. A estrada (The Road / 2009)

Nesta distopia baseada no romance de 2007 do escritor Cormac McCarthy e premiado com o Pulitzer, pai e filho precisam atravessar uma América pós-Apocalíptica rumo a um local seguro enquanto enfrentam, entre outros perigos, pessoas que aderiram a prática do canibalismo.

Os recentes casos de barbárie e vandalismo presenciados no início de 2017 tanto nos presídios brasileiros por conta da luta entre facções quanto no estado do Espírito Santo em virtude da greve da polícia não deixam duvidas sobre o canibalismo ser uma realidade a se temer quando da decadência da sociedade.  

5. Grave (Raw / 2017)

Justine é uma jovem vegetariana que acaba de ingressar na faculdade de Veterinária seguindo, assim, os passos da família.  

O problema é que, após sofrer um trote no qual precisa comer carne, a menina começa a manifestar impulsos canibais. 

Bullying, distúrbios alimentares, culto ao corpo, relacionamento amoroso nos tempos atuais, tudo passa pela temática do canibalismo neste que promete ser um dos filmes mais polêmicos do ano de 2017.

6. Santa Clarita Diet (2017)

Esta série cômica da Netflix prova que o zumbi ainda pode render boas histórias quando os roteiros ajudam a contar uma boa história.

A série não foca nos motivos que levaram a corretora de imoveis Sheila a ser tornar uma morta-viva, preferindo mostrar as consequências dessa transformação sobre sua família.

Os episódios centram na gradual adaptação da família ao nova condição da mãe e esposa, ao mesmo tempo em que mostra a personagem se sentindo mais viva do que nunca depois que morreu e passou a comer pessoas.

Vale assistir. 

Gostou? Então lembre que o vídeo desta semana do FANTASTICURSOS no YouTube também é sobre Canibalismo. 

Basta clicar aqui.

Então deixe seu comentário ai embaixo e compartilhe este post com seus amigos carnívoros, vegetarianos, veganos e canibais.

Até a próxima semana.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

Gostou? Então assine o blog para ser o primeiro a ler o conteúdo, deixe seu comentário bem nutrido ai e compartilhe o post com seus amigos carnívoros, vegetarianos e veganos.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Epidemias, pestes e doenças: Porquê você deveria gostar delas

A história da humanidade pode ser interpretada por diversos ângulos: as guerras, as religiões, as mudanças da moda, os avanços científicos e também pela eterna presença das pestes, epidemias e doenças

Danse Macabre – Uma dança medieval em que um esqueleto, representando a morte, leva os vivos em procissão para o túmulo. Muito popular durante a epidemia da Peste Negra

Também presente desde que o ser humano começou a narrar o seu mundo, a literatura fantástica sempre teve nas pestilências e enfermidades um rico material para representar de forma simbólica os medos e ansiedades de comunidades ou grupos sociais.

The Dancing Plague. A Epidemia da Dança, de 1518, levou 400 pessoas a dançarem sem parar na região de Estrasburgo, hoje Alemanha. Muitas morreram de ataques cardíaco ou exaustão.

Por muito tempo incapazes de explicar por meios racionais os efeitos de vírus e bactérias sobre o corpo, culturas diversas buscaram no sobrenatural a resposta para as tragédias que atacavam suas comunidades.

As máscaras contra contágio usadas pelos médicos medievais ajudavam a manter o clima sinistro das epidemias.

De fato, mesmo hoje, em plena era digital, muitas doenças e pragas continuam um mistério, e outras ainda se colocam como ameaça para a humanidade, como a Gripe Aviária, a Doença da Vaca Louca e a Zika

O tamanho continental do Brasil, e o descaso do governo e da população com a prevenção, são pratos cheios para diversas doenças tropicais.

Dentro do fantástico, até hoje esta realidade vem ganhando forma nas criaturas e temas da Literatura Gótica e do Horror.

Se você quer logo saber quais pestes, epidemias e doenças influenciaram no desenvolvimento da Literatura Fantástica, antes de conhecer um pouco mais sobre elas na Mitologia grega e na História, clique aqui.

Sobre mulheres curiosas, deuses ratos e faraós

Nosoi

Ao contrário do que se pensa, Pandora abriu um jarro e não uma caixa, deixando escapar todas as pragas e doenças.

Dentro da Mitologia Grega, as moléstias que atormentam a humanidade tem seu momento inicial no mito de Pandora, a primeira mulher.

Concebida como uma punição ao homem por este ter aceitado o fogo roubado dos céus pelo titã Prometeu, Pandora foi entregue a Epimeteu, irmão de Prometeu, como um presente de Zeus pelo trabalho do titã na criação do primeiro homem.

O soberano dos deuses gregos, todavia, sabia de antemão que a mulher seria a desgraça do homem.

Ao andar pela moradia de Epimeteu, Pandora encontrou um jarro no qual o titã guardava todas as coisas ruins que ela não tinha usado na criação do homem.  

Devido a um erro de tradução no século 16, a palavra grega para “jarro” (pithos) foi traduzida como “caixa” (pyxis).

Movida pela curiosidade, a jovem abriu o jarro e todas as pestes, doenças e enfermidades fugiram.

Representante dos NOSOI, conforme interpretação do RPG PATHFINDER.

Ali terminava a Idade de Ouro da humanidade, para começar a Idade de Prata, quando o ser humano passou a ser vitima dos Nosoi, espíritos fugidos do jarro de Pandora e personificações das doenças e pestilências. 

A primeira diarreia

Ainda na mitologia grega, destaque para o primeiro relato de uma praga na Literatura Ocidental, encontrada no episódio inicial de A Ilíada (Séc. 8 a. C.), de Homero.

Na obra, motivado pela ofensa cometida pelo rei grego Agamenon contra um de seus sacerdotes, o deus Apolo lança flechas místicas nos gregos durante o cerco a Troia.

Apolo primeiro atacou os cães e cavalos com a doença e, depois, os soldados gregos.

Logo, as tropas são acometidos de febre intensa e disenteria.

Somente após realizarem sacrifícios a Apolo, também chamado de “O deus-rato” pela sua associação com doenças e pragas, é que os gregos ficaram livres da enfermidade.  

As pragas do Egito

Saindo da Mitologia, mas ainda no campo do divino como agente causador das pragas, destaque na Bíblia para as 10 pragas do Egito quando, segundo o livro do Êxodo, Deus enviou diversas pragas para forçar o faraó a libertar o judeus do cativeiro no Egito.

Tanto na Ilíada quanto na Bíblia vemos que os povos da Antiguidade relacionavam doenças, pragas e pestes como manifestações da ira divina, devido a sua falta de conhecimento dos mecanismos de contágio, disseminação e tratamento. 

Essa leitura permanece nos dias de hoje, visto que doenças ligadas ao contato sexual recebem o nome de Doenças Venéreas (Doenças de Vênus), remetendo a crença de que elas eram um castigo da deusa do Amor em virtude de alguma transgressão sexual. 

A deusa romana do amor Vênus era chamada de Afrodite na mitologia grega.

A Era Dourada das epidemias, pragas e moléstias

Invasões estrangeiras, fome, intolerância religiosa, desastres naturais e guerras: A Idade Média também poderia ser chamada de Era Dourada das epidemias, pragas e moléstias.

Passagem de cometas, ares poluídos, ira divina, alinhamento dos planetas… tudo era tomado como explicação para as epidemias.

É a partir desta época também que começa a ocorrer a vinculação entre determinadas enfermidades, principalmente a Lepra e a Peste Bubônica, e grupos específicos. 

Todo leproso é gay

“Os homens daquele tempo estavam persuadidos de que no corpo reflete-se a podridão da alma. O leproso era, só por sua aparência corporal, um pecador.”

A afirmação do historiador Georges Duby em Ano mil, ano 2000: em busca de nossos medos (1998), vai ao encontro da vinculação de judeus e homossexuais com uma das mais antigas doenças da humanidade: a Lepra.

A Igreja Católica Medieval ora pregava a compaixão para os leprosos ora os marginalizava.

Nos séculos 12 e 13, por exemplo, o termo “leproso” era usado como sinônimo tanto para homossexuais quanto para judeus.

O elo em comum era a crença de que estes três grupos eram pervertidos sexuais.

O poeta Danta colocou os homossexuais no Sétimo Círculo do inferno, na obra A DIVINA COMÉDIA (1304-1321).

Como mostra Jeffrey Richards em Sexo, desvio e danação (1993), pensadores cristãos do século 12 usavam a palavra “lepra” quase como equivalente a “pecado”.

O Papa foi um dos fundadores da Inquisição

Da mesma forma, no século 13, o Papa Gregório IX usou a palavra “lepra” para se referir a “sodomia”, termo empregado na época para designar o homossexualismo.

No mesmo período, outros escritores ligados a Igreja descreveram leprosos como sendo judeus, homossexuais e hereges. 

Judeus são a Peste

A busca por bodes expiatórios na Idade Média para justificar a desordem social provocadas pelas doenças e epidemias encontrou seu ponto alto durante a epidemia de Peste Bubônica no século 14. 

Transmitida pela picada de pulgas de ratos, a doença matava os infectados em 2 a 5 dias de forma lenta e dolorosa.

Chamada de Peste Negra em virtude das bolhas negras que apareciam na pele, a doença matou um terço da população europeia da época, não escolhendo local, classe social ou religião.

A quantidade de corpos era tanta que os cadáveres eram colocados juntos em valas.

Cidades, vilarejos e monastérios inteiros foram dizimados pela peste. A situação chegou a um ponto que faltou madeira para se fabricar caixões. 

Na busca por explicações, os cristãos buscaram culpados.

Judeus eram queimados em praça pública como forma de se parar a epidemia de Peste Negra.

Em 1321, na França, judeus, leprosos e muçulmanos foram acusados de contaminar os poços de água com a peste, o que levou vários deles a serem sentenciados a morte na fogueira. 

Acusações semelhantes contra judeus como agentes da Peste Negra surgiram em toda a Europa, reforçando a crença da ligação entre esse grupo e o Diabo.

A Peste Negra causou um profundo impacto na mentalidade européia, tanto pela sua ferocidade e disseminação quanto pela falta de conhecimento a respeito dos mecanismo de contágio e cura, o que abriu portas para a associação com o sobrenatural.

Esta ligação das epidemias e moléstias com o sobrenatural perduraria nos século seguintes, como você pode ver nas 6 principais doenças, pestes e epidemias que influenciaram a Literatura Fantástica.

As seis principais epidemias, doenças e moléstias da Literatura Fantástica

Ao ler a lista abaixo, perceba que a relação entre o Fantástico e as enfermidades foi mudando de acordo com o contexto histórico e cultural.

À medida que o conhecimento sobre uma doença especifica foi evoluindo, ou a sociedade encontrou meios para vencê-la, ela saiu dos domínios do sobrenatural, e do Fantástico, para dar espaço para outra moléstia ou temas. 

1. Catalepsia

O que é: Doença que ataca o sistema neurológico levando a pessoa a sofrer de paralisia dos músculos e redução das funções vitais. Não há, entretanto, perda dos sentidos. Pode durar de minutos a alguns dias. A Medicina ainda não consegue explicar totalmente o distúrbio.

A Catalepsia pode ser Patológica, que é a versão mais conhecida da doença e a Projetiva, quando a pessoa acorda pela manhã e não consegue momentaneamente se mexer ou esboçar qualquer som.  

A catalepsia era motivo de preocupação ao longo do século 19 e muitas pessoas vitimas de morte sem motivo aparente eram enterradas com pequenos sinos.

Associado no Fantástico a: Vampiros, Zumbis e os personagens insanos de Edgar Allan Poe. 

Principais obras: “A queda da casa de Usher” (1839), de Edgar Allan Poe.

Apontado por séculos como uma das possíveis teorias para a lenda do vampiro, e do zumbi haitiano, a catalepsia tem no mestre do gótico norte-americano Edgar Allan Poe um de seus mais hábeis utilizadores por manter em seus contos a tensão entre o racional e o sobrenatural.

2. Lepra

O que é: Uma das doenças contagiosas mais antigas a serem registradas. A palavra foi criada pelo médico grego Hipocrates para descrever manchas brancas na pele e no cabelo que se assemelhavam a escamas (léprêã).

A ligação deste termo médico com o universo espiritual se deu quando da passagem para o grego dos textos do Antigo Testamento por volta do século 3 a.C. Ao se realizar a tradução do hebraico tsara’ath (“ímpio”, “profano”) para o grego optou-se pela palavra léprêã. passando a designar então a pessoa com a pele de aparência estranha e impura.

É caracterizada pela gradual e profunda deformação da pele e dos membros. Hoje a doença é chamada de Hanseníase e é tratável.

O Brasil foi um dos países em que a Lepra mais demorou para ser combatida.

Associado no Fantástico a: Personagens marcados por maldição, sacerdotes e párias em geral.

Principais obras: “A marca da besta” (1890), de Rudyard Kipling / “Pelo caiapó velho” (1917), de Hugo de Carvalho Ramos / “As morféticas” (1944), de Bernardo Élis. 

Associada a lugares de atraso e superstição, a lepra no conto de Kipling surge na forma de uma maldição lançada sobre um jovem inglês por um sacerdote hindu, levando-o a sofrer uma terrível mudança animalesca.

Já nos contos de Ramos e Élis, vemos a representação do sertão brasileiro como um lugar ameaçador e cercado de mistérios, algo que um jovem perdido constatará ao entrar em uma humilde casa.

Há de se destacar também a influencia da lepra na criação da doença  Escamagris (Greyscale, no original em inglês) na série literária As Crônicas de Gelo e Fogo (2011- ), de George R. R. Martin, base para a série televisiva Game of Thrones

3. Porfiria

O que é: Na verdade a porfiria é um grupo de doenças genéticas que podem ser herdadas ou adquiridas e caracterizada pela deficiência de enzimas no organismo, que em casos mais graves podem provocar sensibilidade à luz, alterações da cor da pele, distúrbios mentais e convulsões. O nome vem do grego porphýra (“pigmento roxo”)

A doença causa uma profunda deformação em casos extremos

Associado no Fantástico a: Vampiros e Lobisomens

Principais obras: Drácula (1897), de Bram Stoker

A Porfiria foi por muito tempo apontada como uma das principais responsáveis pela crença em vampiros, em virtude das características da doença.

No entanto, no fim do século vinte, o pesquisador Paul Barber demonstrou no livro Vampires, Burial and Death (1988) que, ao ser examinada de perto, essa ligação da doença com o vampiro não se sustentava.

A origem do vampiro folclórico europeu permanece como o resultado da falta de conhecimento das populações do século 18 sobre o processo de decomposição dos cadáveres.   

4. Raiva

O que é: Doença transmitida para humanos pela saliva de algum animal infectado, geralmente por meio de mordida. O vírus no ferimento se desloca rapidamente para o cérebro provocando inchaço e inflamação aguda e letal.

Quase sempre leva a morte se a pessoa começar a demonstrar sinais da doença, tais como confusão, salivação em excesso e convulsões. Dai a importância da vacina preventiva. 

A Raiva é uma ameaça real a humanidade.

Associado no Fantástico a: Vampiros e Zumbis

Principais obras: Extermínio (2002), direção de Danny Boyle  / Guerra mundial Z (2006), de Max Brooks / trilogia Apocalipse Z (2010-2011), de Manel Loureiro

Ainda que também tenha sido apontada como uma das doenças por trás da lenda do vampiro, por conta das mordidas que os vitimados pela doença podem proferir, é com o zumbis que a Raiva encontra a maior associação hoje.

Esta ligação é reforçada pela ameaça real da doença na nossa sociedade em que há a proximidade com animais domésticos que são portadores naturais da doença.

Esta proximidade, aliada ao desequilíbrio da natureza provocada pelo homem, pode gerar uma possível mudança adaptativa na Raiva, levando a mesma a se tornar ainda mais agressiva e contagiosa para o homem.

Se outras doenças listadas aqui pertencem ao passado pelo combate as condições de higiene e fabricação de vacinas, o mesmo não aconteceu com a raiva. 

Esta ameaça paira no filme de Danny Boyle, no romance reportagem de Max Brooks e na trilogia de Manel Loureiro

5. Sífilis

O que é: Infecção sexualmente transmissível caracterizada por uma ferida indolor no local da entrada da doença que desaparece após 4 ou 5 semanas do contágio.

Também chamada de “Cancro duro” pelo eventual surgimento de gânglios em partes do corpo. É um inimigo silencioso que pode levar anos e décadas para se manifestar de forma violenta.

Possui diferentes fases, sendo a terciária e a congênita as mais agressivas, levando a lesões na pele, convulsões, danos nos órgãos internos, reflexos exagerados, perda auditiva, insônia e AVC.

A Sífilis era uma dos grandes fantasmas da rígida (e hipócrita) sociedade inglesa da segunda metade do século 19.

Associado no Fantástico a: Vampiros e Duplos 

Principais obras: O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson / O retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde / Drácula (1897), de Bram Stoker 

Vinculada a práticas sexuais proibidas pelas normas de conduta, a Sífilis é a doença que aparece nas entrelinhas dos romances góticos de fim do século 19.

Mas, não se engane: Ela está lá, nos atos indizíveis do Sr. Hyde, no retrato da imoralidade de Dorian Gray e na vinculação de Drácula com a sujeira e impureza.

6. Tuberculose

O que é: Doença até hoje cercada de mitos e preconceitos, a “TB”, como também é chamada a Tuberculose, é infecciosa, transmissível e afeta principalmente os pulmões.

A principal manifestação da doença é um tosse seca e persistente que dura meses. Outros sintomas são febre baixa, emagrecimento, palidez, suor noturno e falta de apetite.

Pode vir acompanhada de acesso de tosses e catarro com sangue. O tratamento usa antibióticos e dura cerca de seis meses.  

A TB alternava períodos de calmaria com acessos violentos.

Associado no Fantástico a: mulheres mortas

Principais obras:  Todos os contos de Edgar Allan Poe com personagens femininos / Noite na Taverna (1855), de Álvares de Azevedo.

Por vias tortas, a Tuberculose foi a principal musa inspiradora de poetas e escritores românticos na Inglaterra, Estados Unidos e Brasil no século 19.

Doença que vitimou muitos artistas em plena juventude, a TB encontrou em Edgar Allan Poe um de seus principais promotores.

Poe perdeu a mãe biológica, a mãe adotiva e a esposa para a Tuberculose.

Como consequência, as mulheres de seus contos e poemas sempre são cercadas por uma aura sobrenatural, vivendo no plano físico e espiritual. São seres além do alcance dos homens que as veneram. 

Esta mesma visão do ser feminino está retratada na obra do ultra-romântico Álvares de Azevedo, onde as mulheres complementam as taras dos personagens transviados. 

Ao responder, portanto, a pergunta que dá título a este post, lembro da frase “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

Se as epidemias, pestes e doenças são um tormento para a humanidade elas tem, como ponto positivo, o fato de proporcionarem matéria prima para grandes obras e produções ligadas ao mundo do Fantástico, na Literatura, Cinema, Quadrinhos e Games.

E por isso devemos gostar delas.

Gostou da matéria?

Então deixe seu saudável comentário ai embaixo e compartilhe o post com os amigos que você deseja bem.

Obrigado e até a semana que vem! 

Fontes utilizadas

BARBER, Paul. Vampires, Burial and Death. New York: Yale University Press, 1988.

BARING-GOULD, Sabine. Lobisomem: um tratado sobre casos de licantropia. Trad. Fernanda M. V. de Azevedo Rossi. São Paulo: Madras, 2003.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1986. 

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 3. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

FARRELL, Jeanette. A assustadora história das epidemias: pestes e epidemias. Trad. Mauro Silva. São Paulo: Ediouro, 2002.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Trad. Marco Antônio Esteves da Rocha e Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

RUSSELL, Jamie. Zumbis: o livro dos mortos. Trad. Érico Assis, Marcelo Andreani de Almeida. São Paulo: Leya Cult, 2010. 

SILVA, Alexander Meireles da. SOLETRAS. N. 27 (jan. – jun. 2014) Disponível em http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/view/1119. Acesso em 02, fev. 2017.

UJVARI, Stefan Cunha. A história e suas epidemias: a convivência do homem com os microorganismos. Rio de Janeiro: SENAC Rio, 2003.

ZUMBIS: a ciência, a história e a cultura pop por trás do fenômeno. São Paulo: Abril, 2012 (Superinteressante Coleções).

Contato: Alexander Meireles da Silva

Email: fantasticursos@gmail.com

 

  

Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?

As criaturas fantásticas do folclore brasileiro trazem em seus corpos as marcas de sua origem na junção das culturas europeia, africana e indígena.

Saci de jardineira e Cuca com roupa de princesa na adaptação para a TV da obra de Monteiro Lobato

Normalmente vinculados a regiões específicas do Brasil, muitos destes seres monstruosos ultrapassaram suas fronteiras geográficas graças a obras como O Sítio do Pica-Pau AmareloA Turma do Pererê e Chico Bento.

A onça Galileu, Pererê e o índio Tininim

Todavia, se por um lado essa exposição apresentou Saci-Pererê, Cuca, Mula-sem-cabeçaCurupira e Iara, dentre outros, para os moradores das cidades, por outro ela provocou uma diluição e infantilização destes seres enquanto agentes do medo.       

Chico Bento com os 5 personagens mais lembrados do folclore brasileiro. Mas, e os outros?

O fato, porém, é que o folclore brasileiro é repleto de seres que poderiam (e deveriam) ser explorados em produções além das relacionadas ao público infantil.

Como o Terror e o Horror, por exemplo.

Se você quer conhecer logo 10 monstros do folclore brasileiro, que não fariam feio em filmes do Guillermo del Toro ou de terror asiático, antes de saber porque os monstros existem, clique aqui.

O que o monstro mostra

A origem da palavra “monstro” se encontra no latim monstrare, que quer dizer “mostrar”.

Mas o que o monstro mostra?

Esta pergunta vem sendo objeto do interesse da humanidade desde que o homem começou a explorar o mundo ao seu redor levando-o a encontrar criaturas que refletiam as suas ansiedades, medos e até mesmo desejos.

“O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS ” (1799), do espanhol Francisco de Goya, mostra o homem como fabricante dos monstros.

Maravilhas orientais

Especificamente no Ocidente, as criaturas monstruosas das mitologias greco-romana serviram de base para que, na Antiguidade, estudiosos  como Ctésias de Cnido (398 a. C.) e Plínio, o Velho (77 d. C.) desenvolvessem os primeiros registros sobre as monstruosidades que habitavam a Índia.

Já na época a Índia fascinava a mentalidade ocidental e ela passou a ser acessível a partir das campanhas de Alexandre, O Grande (326 a. C) no Oriente.

A partir dai os ocidentais passaram a ter conhecimento de criaturas que, de acordo com os relatos do período, habitavam a região.

Seres como os Blêmias, cujo rosto se localizava no peito,

Os Cinocéfalos, seres com cabeça de cão,

E ainda os Ciápodes, que se protegiam do sol com seu único pé enorme,

Essa multidão de seres sobrenaturais ganhou outra leitura quando passaram a ser objeto do interesse de Santo Agostinho (354-430 d. C), um dos principais pensadores da Igreja Católica medieval.

Criaturas de Deus

Agostinho foi o primeiro filosofo a considerar o lugar do monstro dentro dos planos de Deus.

Para ele, os monstros tinham algo a mostrar sobre tudo o que Deus anunciava realizar de forma ameaçadora no corpo dos seres humanos.

Considerados expressões da vontade de Deus, e portanto benéficos, os monstros levavam o homem a refletir como ele seria se não seguisse os preceitos de Deus. 

Após Agostinho, outros pensadores religiosos como Isidoro de Sevilha (576-636) e Thomas de Cantimpré (1201-1272) desenvolveram escritos que explicavam a anatomia e simbolismo dos monstros:

  • Os Pigmeus simbolizavam a humildade;
  • Os Gigantes, o orgulho;
  • Os Cinocéfalos, a discórdia;
  • Os Homens com beiços pendurados, a mentira;
  • Os Blêmios, a ganância.

A partir das reflexões religiosas do período, o monstro penetra nos romances medievais, se disseminando pela Europa e penetrando na memória do povo até os dias de hoje, sempre tendo algo a ensinar. 

Pedagogia dos monstros

No ensaio, “A Cultura dos Monstros: sete teses”, presente na obra Pedagogia dos monstros (2000), o crítico Jeffrey Jerome Cohen propõe sete maneiras de se entender os monstros que fascinam o homem. São elas:

  1. O corpo do monstro é um corpo cultural: As criaturas monstruosas refletem a cultura da época em que estão inseridas;
  2. O monstro sempre escapa: Os monstros se deslocam pela cultura, mantendo suas existências ao surgir em outras formas;
  3.  O monstro é o arauto da crise das categorias: O monstro existe porque ele reflete um momento de mudança de crenças, pensamentos e convenções de sua sociedade;
  4. O monstro mora nos portões da diferença: As criaturas monstruosas trazem em seu corpo o impacto que as diferenças cultural, política, racial, econômica e sexual tem sua sociedade;
  5. O monstro policia as fronteiras do possível: O monstro é um símbolo das consequências em se transgredir normas e convenções sociais, religiosas, políticas e sexuais;
  6. O medo do monstro é realmente uma espécie de desejo: O monstro desperta o medo, mas também a curiosidade, a atração pela sua forma que desafia o único e o heterogêneo;
  7. O monstro está situado no limiar… do tornar-se: Os seres monstruosos nos ensinam sobre nosso lugar no mundo. Nos força a refletirmos sobre nossas verdades, valores e nossa percepção e aceitação do diferente.

Agora que você conhece um pouco mais sobre o monstro, vamos a lista.

Como não existe nada mais assustador que o ser humano, selecionei para este post apenas as criaturas que tem forma humana, deixando de fora animais encantados como a Mula-sem-cabeça, a Onça Maneta, a Anta-Cachorro e outros.

As 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro

1. Bradador

Região:  São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina

Imagina você na madruga dormindo e de repente começa a ouvir gritos assustadores!

O Bradador é um espectro que solta gritos e uivos tenebrosos ao redor das casas ou nos caminhos frequentados por ele/ela. 

Apesar de não possuir uma forma definida, o que distingue este fantasma da noite dos demais espíritos são os berros de lamúria pela sua penitência, que deixam os ouvintes da região assombrada de cabelos em pé.

Sua origem está ligada a criatura Zorra Berradeira, que assusta os casais adormecidos com os seus gritos horríveis na região portuguesa de Trás-os-Montes.

Assim como na variante portuguesa, o Bradador é uma alma que cometeu pecados em demasia e não encontra o descanso divino.

2. Capelobo

Região: Pará, Maranhão

No Maranhão a criatura é chamada de Cupelobo.

Habitando a região do rio Xingu, o Capelobo causa muito medo nas populações indígenas. 

Possuindo forma humana coberta de pelos negros e patas redondas, esta criatura é apresentada possuindo ora cabeça de anta, ora cabeça de tamanduá. 

O Capelobo sai a noite, sempre anunciando sua chegada por meio de urros e gritos, e percorre barracões e acampamentos carregando cães, gatos e crianças recém-nascidas com ele.

O Capelobo também é chamado de “Lobisomem dos índios”.

Quando pega um homem ou animal a criatura aperta a vitima em um abraço mortal, abre um orifício em sua cabeça para enfiar a ponta de seu focinho nela e suga toda a massa encefálica do infeliz. 

Enquanto agente do medo, o Capelobo só perde em popularidade na região do Pará para o Mapinguari e, semelhante a ele, só pode ser morto com um tiro no umbigo. 

3. Corpo-seco

Região: São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Nordeste do Brasil

Esse aí nem o Diabo quis.

Quando a pessoa passa pela vida semeando o mal, principalmente contra o pai e a mãe, pratica incesto e é avarenta, ao morrer a sua alma não é acolhida nem pelo céu e nem pelo inferno, levando a terra a jogar o corpo para fora do túmulo. 

O Corpo-seco tem o corpo magro, ressequido, semelhante a uma múmia e seu corpo é um aviso da perdição da alma.

Repousando em seu tumulo de dia, esse esqueleto coberto de pele percorre, durante a noite, os lugares que frequentou em vida.

O Corpo-seco é nosso zumbi brazuca

É costume que a família da criatura tente acabar com sua penitência promovendo missas e distribuindo esmolas, além de encher o caixão com cal, na esperança de que o corpo se dissolva. 

4. Curacanga

Região: Maranhão e Pará

Este ser também é conhecido como Cumacanga

Quando qualquer mulher tem sete filhas, a última vira Curacanga, ou seja, a cabeça solta do corpo e, em forma de bola de fogo, percorre os campos e caminhos apavorando os viajantes.

Esta criatura tem sua origem na Europa medieval na crença de que a sétima filha seria uma seguidora de Satanás.

Não apenas na Europa, mas também na Ásia, há a tradição de cabeças humanas que voam destacadas do corpo espalhando o terror.

5. Labatut

Região: Rio Grande do Norte, Ceará

O Labatut é um ser enorme, de pés redondos, corpo coberto de pelos ásperos, dentes que saem da boca com aparência de presas de elefante e dono de um só olho no meio da testa.

Monstro canibal, guardando semelhança com os ciclopes da mitologia grega, ele prefere comer meninos porque são menos duros que os adultos.

Tô te vendo!

Costuma parar nas portas das casas para ouvir quem está falando alto ou cantando. Essas são as suas vitimas preferidas.

Sua origem está relacionada a um general francês do século dezenove de nome Pedro Labatut, cuja violência e crueldade deixaram marcas nas lembranças dos moradores do Ceará na década de 1830, levando-o a assumir forma monstruosa nos relatos do povo.

6. Mapinguari

Região: Acre, Amazonas, Pará

Esta é a criatura folclórica com mais registros de avistamentos na região amazônica.

O mais popular monstro da Amazônia, o Mapinguari é o terror de caçadores e trabalhadores que atuam na floresta, pois ele mata e devora quem encontrar pela frente.

É descrito por testemunhas como um homem agigantado, coberto de pelos negros, unhas em garras, apenas um olho e com uma gigantesca boca vertical que vai do nariz até o estomago.

O ponto fraco da criatura é o umbigo.

Ao pegar um homem, enfia a cabeça da pessoa na bocarra e masca a cabeça de forma lenta, depois arranca a carne da vitima em pedaços.

Diferente de outras criaturas fantásticas, o mapinguari dorme a noite e anda de dia, sempre anunciando sua chegada com gritos e uivos.

Tendo o nome derivado possivelmente de mbaé-pi-guari (a coisa que tem o pé torto) o mapinguari é considerado uma possibilidade real por alguns estudiosos.

David Oren, ornitólogo americano naturalizado brasileiro, acredita que o monstro possa ser um exemplar sobrevivente de um megatério – uma preguiça gigante que habitou a região há 10.000 anos.  

7. Mão de cabelo

Região: Minas Gerais 

Vai um mãozinha aí?

Espantalho das crianças, este espectro vai até a cama dessas para verificar se elas urinaram no leito.

Para isso, o Mão de Cabelo usa suas mãos macias, sedosas e feita de pelos para tocar o sexo dos meninos e meninas.  

Fantasma pedófilo

É um fantasma magro, de forma humana e roupa branca. 

O folclorista Luiz Camara Cascudo registra em Geografia dos mitos brasileiros que no Sul de Minas é comum a frase caipira: 

“Oia, si nêném mijá na cama, Mão de Cabelo vem ti pegá e corta a minhoquinha de nêném…”

Ainda que não tenha relação direta, o Mão de cabelo guarda semelhança com o Mãos-peludas inglês, que ataca os que passam na estrada de Datmoor, Inglaterra.

Trata-se de duas mãos sem corpo que aterrorizam a região ao atacar motoristas agarrando o volante do carro e jogando o veículo pra fora da pista.

Sem ter uma razão definida para os ataques, além da simples prática do mal, o Mãos-peludas também bate na janela dos carros parados para assustar os seus ocupantes.  

8. Papa-figo

Região: Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte

Camara Cascudo chama o Papa-figo de “O lobisomem das cidades”.

É um negro velho, alto, sujo, pálido, vestindo farrapos e com um saco nas costas no qual coloca crianças raptadas para comer-lhes o fígado ou vender o órgão para leprosos ricos. 

A imagem do Papa-figo parte de um episódio real ocorrido em Natal no ano de 1938 quando dois negros adoentados foram presos após levarem duas crianças com eles.

A repetição da ocorrência no Ceará e em Pernambuco acabou criando a imagem do ser folclórico.  

Quando crianças cristãs desapareciam na Idade Média, eram costume acusar leprosos e judeus pelo sumiço.

Percebe-se nesta lenda a sobrevivência da crença, ligada a Grécia e a Roma antiga, no simbolismo do fígado como responsável absoluto pelo equilíbrio da saúde humana. 

A partir dai, já na Idade Média, ocorriam relatos de leprosos que, para se livrarem do sofrimento da doença, matavam crianças para beber o sangue e comer o fígado.

Hoje a Hanseníase, nome que substituiu a Lepra, é uma doença perfeitamente tratável, o que ajuda a diminuir a crença nesta lenda e o preconceito contra as pessoas acometidas pela doença. 

A relação entre doenças e  o fantástico será tema de um post exclusivo aqui no blog.

9. Pisadeira

Região: São Paulo, fronteira de Minas Gerais

Criatura de presença universal que assume faces diferentes.

Ela é descrita como uma velha muito magra, cabelos compridos e secos, unhas grandes semelhantes a garras, pernas curtas, nariz fino e olhos vermelhos.

Pisadeira chegou ao Brasil via Portugal, onde a criatura ataca durante o sono descendo pelas chaminés e pisando no peito das pessoas para provocar pesadelos.

Em português e espanhol (pesadilla) deriva de “peso”, “pesado”. 

ALPDRÜCKEN, o pesadelo alemão.

Todas as culturas tem em um íncubo, demônio ou outro espírito maléfico a explicação para os pesadelos noturnos.

BAKHTAK, o pesadelo iraniano.

Em outras culturas a criatura assume formas variadas: gigante, anão, mulher ou homem horrendo que, aproveitando o sono, senta-se sobre o estomago da vitima e lhe aperta o peito, dificultando a respiração.

10. Quibungo

Região: Bahia

Ele é o Bicho Papão negro.

Devorador de crianças, o Quibungo pertence aos pavores noturnos infantis e traz elementos do Papa-figo pela cor negra do personagem e pela grande boca nas costas onde ele enfia as crianças descuidadas.

É apresentado como um ser meio homem, meio animal que tem uma cabeça muito grande e uma bocarra nas costas, que se abre quando ele abaixa a cabeça e se fecha quando ele levanta.

O monstro pode ser morto por tiro, faca e paulada.

Pertencente a tradição oral afro-brasileira, ele come as crianças abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando dentro os pequenos. 

Seu nome está ligado ao Congo e Angola, onde a palavra n’bundo significa “Lobo”. Posteriormente o termo virou qui-n’bungo.

Já ouviu histórias sobre algum desses monstros? Seus avós já viram algum deles?

Deixe seu comentário, compartilhe se gostou e assine o blog.

Obrigado. 

Fontes utilizadas

CASCUDO, Luís da Camara. Dicionário do folclore brasileiro. 6ed. São Paulo: Editora Itatiaia, 1988.

CASCUDO, Luís da Camara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

2017 marca os 80 anos de morte do escritor norte-americano Howard Philips Lovecraft e os 100 anos de criação de sua primeira obra na fase adulta: “Dagon”.

Stephen King e Neil Gaiman consideram H. P. Lovecraft como o Mestre do Horror moderno

Este conto é o marco inicial do conjunto de contos e romances marcados pela presença de criaturas monstruosas e aterrorizantes com origem em outros planetas e dimensões. 

“Dagon” foi publicado pela primeira vez em 1919 na revista VAGRANT e foi republicado na revista WEIRD TALES em 1923.

Conhecidos posteriormente como integrantes dos “Mitos de Cthulhu”, em menção a divindade apresentada no conto “O chamado de Cthulhu”, publicado em 1928, estes monstros são apresentados como entidades cósmicas que não apenas já estiveram em nosso plano terrestre, mas também já governaram a humanidade em tempos remotos, esquecidos pela história. 

Primeira publicação de “O chamado de Cthulhu” na edição de fevereiro de 1928 da revista WEIRD TALES.

Se nas narrativas de H. P. Lovecraft os Antigos, como são chamadas algumas destas criaturas, ainda aguardam o seu retorno a nossa realidade, na vida real eles estão prontos para invadirem, em 2017, o nosso plano como parte dos eventos, publicações e lançamentos na merecida (e tardia) celebração dos 80 anos da obra de seu criador.

“Feliz Aniversário post-mortem pai!”

Se você quer conhecer logo os 7 monstros de H. P. Lovecraft que vão te encontrar em 2017, antes de conhecer a polêmica racista e xenófoba por trás de sua criação, clique aqui.

América, pais do futuro

As primeiras décadas do século vinte na América foram marcadas por rápidas e profundas mudanças na sociedade norte-americana promovidas pela fé depositada no progresso.

Charles Chaplin em TEMPOS MODERNOS (1936).

Esta situação forneceu a base para a ascensão da Ficção Científica, como vertente do fantástico mais alinhada com os desafios postos pela modernidade, assim definida por Marshall Berman no livro Tudo que é sólido desmancha no ar (1986):

“Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. /…/ ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia”.  

É a partir deste quadro de ameaça a permanente desintegração, de mudança e angústia do sujeito moderno, também caracterizada pela crescente presença de imigrantes na sociedade americana, que Lovecraft formulou os monstros híbridos de seu panteão.

Asiáticos, Irlandeses e habitantes do leste europeu eram os principais interessados em desfrutar do “American Dream”.

O cavalheiro de Providence contra os monstros

Pertencente a uma das famílias mais tradicionais de Providence, cidade do Estado de Rhode Island fundada nos primórdios da colonização puritana na América, Lovecraft já demonstrava, em seus primeiros contos como “A tumba” e “Dagon”, sua natureza conservadora e anglófila, refletindo sua resistência ao grande número de estrangeiros na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte. 

A Estátua da Liberdade dá as boas vindas aos imigrantes.

Posição esta que, de fato, era compartilhada por setores conservadores da sociedade branca dos Estados Unidos da época.

Para Caio Alexandre Bezarias em Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft (2006), essa presença de grupos étnicos e culturais diversos e o choque com a tradição dos norte-americanos representou uma das facetas mais expressivas da modernização do país:

“A presença dos mestiços e imigrantes que tinham tomado de assalto os espaços abertos das cidades – despreparadas para recebê-los em tamanha quantidade, o que gerou inúmeras tensões e conflitos entre eles e os norte-americanos nascidos em solo local – foi uma das manifestações mais visíveis, tensas e vivas da expansão da economia industrial Estados Unidos afora…”  

Dentro da obra lovecraftiana em geral percebe-se esse temor ao estrangeiro, sua cultura e constituição física destoantes do padrão branco, anglo-saxônico e protestante vinculado à cultura norte-americana e celebrado nos heróis espaciais da FC do período.

Branco caucasiano, alto e forte. Padrão heroico nas revistas pulp do começo do século vinte.

Tudo junto e misturado

Localizando em seus corpos um espaço do diferente, os monstros híbridos de Lovecraft trazem à mente as considerações de Mary Douglas em Pureza e perigo (1966) sobre as criaturas que subvertem as suas categorias culturais ligados a Terra, a Água e o Ar.

A partir desta obra Julia Kristeva desenvolveu o conceito do Abjeto.

A partir da análise do Levítico – Livro sagrado para o Judaísmo e de caráter legislativo pelo detalhamento dos comportamentos a serem observados pelos judeus para manter sua santidade – Douglas sistematiza os seres que eram considerados puros e impuros, abrangendo animais aquáticos, terrestres até aqueles que são do ar:

“A santidade requer que os indivíduos se conformem à classe à qual pertencem. E a santidade requer que diferentes classes de coisas não se confundam”.

No caso dos seres lovecraftianos esta subversão categorial ocorre pelo fato destas criaturas estarem no interstício animal/humano e terrestre/aquático/aéreo.

Corpo humano, tentáculos de lula e asas de morcego. Cthulhu: um ícone da subversão das categorias.

O medo do desconhecido

A edição em Português está esgotada, mas vale a pena futucar os sebos físicos e virtuais

Para Noël Carroll em A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração (1990), esta ambiguidade cultural existente nos termos de Mary Douglas se coloca como um dos elementos constituintes do horror artístico explorado na Literatura e no Cinema:

“O que horroriza é o que fica fora das categorias sociais e é forçosamente desconhecido”.

Nesta obra o autor explora sua visão do Horror Cósmico explorado na ficção Weird e fala de suas influencias.

Dentro desta leitura, enquanto corporificação do desconhecido, os monstros de Lovecraft se tornam o medo encarnado, visto que, como afirma o escritor em O Horror Sobrenatural na Literatura:

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

Assim, além de fantasmas internos resultados de sua infância e adolescência atribuladas e de suas leituras de Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce, Lord Dunsany, Robert W. Chambers, Arthur Machen e outros, as divindades monstruosas de Lovecraft refletem o temor não apenas do escritor, mas também de setores conservadores da sociedade norte-americana quanto as profundas e rápidas mudanças levadas a cabo pela inexorável industrialização e que se refletiu, por exemplo, na entrada de imigrantes compostos por grupos étnicos e raciais não-nórdicos e não-saxões.

Imigrantes chegando na Ilha Ellis, Nova York, no início do século vinte.

É importante destacar, todavia, que H. P. Lovecraft era, antes de tudo, um homem de seu tempo alinhado com o pensamento eugenista vigente de sua época.

Críticos e leitores de hoje, que acusam o escritor de racista e xenófobo, devem enxergá-lo dentro desta perspectiva histórica.

Veja agora abaixo, em ordem alfabética, 7 monstros de H. P. Lovecraft que estão a sua espera neste ano.

7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

1. Azathoth

A mais poderosa das divindades lovecraftianas, Azathoth é o Caos Nuclear da criação, sendo retratado normalmente como uma massa amorfa de tentáculos, olhos e dentes. É também chamado de O Deus Idiota pelo fato de não ter consciência de seu inominável poder. Vive primordialmente no centro do universo.

Obras: A busca onírica por Kadath, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

2 . Cthulhu

A divindade-monstro mais conhecida dentre os leitores. Oriundo de outra dimensão, Cthulhu chegou a terra em tempos imemoriais e construiu a gigantesca cidade de R’lyeh, hoje submersa, de onde governou o mundo até que um alinhamento de estrelas o levou a um estado letárgico que dura até hoje. Vive nas profundezas de R’lyeh e se comunica com os seus adoradores por meio de sonhos. 

Obras: “O chamado de Cthulhu”

3. Dagon

Baseado diretamente em um deus da fertilidade Assírio-babilônico de mesmo nome, Dagon é a mais famosa criatura de Lovecraft depois de Cthulhu. Do tamanho de uma baleia, ele apresenta forma humanoide-aquática e é o deus de seres abissais com a aparência de homens-peixes.   

Obras: “Dagon” e “A sombra em Innsmouth”

4. Nyarlathotep

Assim como Dagon, Nyarlathotep também possui raízes em culturas antigas, neste caso aqui, a mitologia egípcia. Também apresentado como a alma de Azathoth ele pode assumir forma humana e já foi faraó do Egito. Quando caminha entre os humanos costuma disseminar pesadelos nas pessoas ao seu redor.

Obras: “O habitante das trevas”, “Sonhos na casa da bruxa”, A busca onírica por Kadath, “Nyarlathotep”

5. Shoggoths

Apresentados como a primeira espécie extraterrestre em nosso planeta, os Shoggoths são uma massa protoplásmica criada originalmente como servos de outros deuses para construírem edificações no mar ártico. Eventualmente eles se rebelaram contra seus criadores, algo surpreendente considerando que foram concebidos como seres sem inteligência.  

Obras: Nas montanhas da loucura, “A sombra em Innsmouth” 

6. Shub-Niggurath

Deusa da fertilidade, a “cabra negra de mil filhotes”, como também é conhecida, não apresenta uma descrição específica, o que provoca várias interpretações de sua figura. Sendo apresentada também como deusa da criação ela por vezes é retratada como possuidora do masculino e do feminino dentro do mesmo ser. 

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

7. Yog-Sothoth

Ainda que exista fora de nossa realidade material, Yog-Sothoth é capaz de influenciá-la diretamente, podendo inclusive, engravidar mulheres. Umas das divindades mais poderosas do Deuses Exteriores, controlador do tempo e espaço, ele habita outra dimensão de onde observa nosso planeta.    

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, O caso de Charles Dexter Ward

Celebrando o monstruoso

Eventos acadêmicos, Games, Literatura, Publicações acadêmicas e RPG.

2017 tem H. P. Lovecraft e seus monstros pra todo lado e mídia:

IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional

Em fase de planejamento na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a edição deste ano celebra os 80 anos de morte do escritor e os 100 anos de seus primeiros escritos profissionais. Acompanhe as informações favoritando o site do SePel. [ATUALIZADO 26/02/2017] O evento foi cancelado devido a crise financeira do Rio de Janeiro e a falta de repasse de verba para a UERJ 

Games

Está previsto para 2017 o lançamento de Call of Cthulhu para as plataformas Xbox One, PlayStation 4 e PC, cobrindo assim, uma lacuna de mais de uma década do último bom jogo ligado a Lovecraft – Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth (2006).

Literatura

Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico é a ousada iniciativa para este ano da Editora Ex-Machina, projeto sob a coordenação do editor Bruno Costa.

Fruto de uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo, a obra promete ser a mais completa e abrangente publicação sobre H. P. Lovecraft já lançada no Brasil.  

Outra iniciativa de financiamento coletivo para este ano ligado a Lovecraft é o livro Arthur Machen: Mestre do Oculto, da Editora Clock Tower

A editora tem se destacado pela produção de obras de qualidade e divulgação de conteúdo sobre H.P. Lovecraft e demais autores que influenciaram o escritor, como Robert W. Chambers (O Rei de Amarelo), e Arthur Machen (Arthur Machen: O Mestre do Oculto) e que foram influenciados por ele, como Robert E. Howard (O Mundo Sombrio: histórias dos Mitos de Cthulhu).

Publicações acadêmicas

A Revista Abusões, ligada a UERJ, está com chamada para publicações de artigos até o dia 05 de março de 2017 para compor a edição 4 (Janeiro/Junho 2017).

Para esta edição a revista aceita artigos que tratem da produção artística e crítica do escritor norte-americano, sobre Horror Cósmico, ou, em uma perspectiva comparatista, sobre obras ficcionais e ensaísticas que estabeleçam diálogos com a obra lovecraftiana.

RPG

A RetroPunk Publicações lançará em 2017 a edição revisada do RPG Rastro de Cthulhu, lançado inicialmente no Brasil em 2010.

Para esta nova publicação, também resultado de financiamento coletivo, a editora trará um livro com 248 páginas e tamanho 21×28 com capa dura e miolo em sépia rodado em 4 cores.

Fica a dica

Com base na qualidade do trabalho de edição e tradução e fornecimento de informações extras para leitores e pesquisadores, o FANTASTICURSOS recomenda as seguintes antologias de contos de H. P. Lovecraft publicado no Brasil:

O mundo fantástico de H. P. Lovecraft (Editora Clock Tower).

Livro esgotado no site da Editora Clock Tower, mas que vale ser pesquisado nos sebos.

Os melhores contos de H. P. Lovecraft (Editora Hedra).

A melhor antologia de contos do escritor disponível no momento no Brasil. Você pode comprar diretamente no site da Editora Hedra.

Qual outro monstro você acrescentaria a lista?

E qual é o seu conto ou romance favorito de H. P. Lovecraft? 

Deixe seu comentário, compartilhe o post com seus amigos tenebrosos e celebre o ano de Cthulhu e seus companheiros.

Tamo junto!

 Fontes consultadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BEZARIAS, Caio Alexandre (2006). Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft. Dissertação de Mestrado em Letras. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

CARROLL, Noël (1999). A filosofia do horror ou paradoxos do coração. (Roberto Leal Ferreira, Trad.). Campinas, SP: Papirus, 1999. (Coleção campo imagético).

DOUGLAS, Mary (2012). Pureza e perigo. (Mônica Siqueira Leite de Barros e Zilda Zakia Pinto, Trads.). São Paulo: Perspectiva (Debates; 120).

JOSHI, S. T (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, S. T (2001). The modern weird tale. North Carolina: McFarland & Company.

LOVECRAFT, H. P (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

RICCI, Denílson Earhart (2014). Biografia de H. P. Lovecraft. In RICCI, Denílson Earhart (Org.). O mundo fantástico de H. P. Lovecraft: Antologia – contos, poesias e ensaios. 2ed. (Mario Jorge Lailla Vargas, Trad.). Jundiaí, SP: Clock Tower, pp. xix-xxxvii. 

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The weird: A compendium of strange and dark stories. New York: Tor Book.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com