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Por que o número 3 aparece tanto em Contos de Fadas?

Pois é, o número três, mais do que qualquer outro numeral, aparece com recorrência nos Contos de Fadas e na Fantasia como um todo.

Na tradição inglesa, três porquinhos tentam escapar da fome do lobo.

Na tradição francesa, são três perguntas que Chapeuzinho Vermelho faz ao lobo antes de ser devorada por ele.

Na tradição alemã, por três vezes a madrasta-bruxa tenta matar Branca de Neve.

Na tradição árabe, o gênio concede três desejos a Aladin.

E isso só para citar quatro casos, dentre centenas, que mostram a força dos números no mundo dos contos de fadas.

A mística dos números

Desde tempos ancestrais, que se perdem na memória do tempo, os números são considerados expressões da ordem cósmica. 

Para a pesquisadora Miranda Bruce-Mitford, essa tradição pode ter se iniciado na observações babilônicas dos eventos astronômicos regulares, como a noite e o dia, as fases da lua e os ciclos das estações do ano.

Já Jean Chevalier e Alain Gheerbrant destacam que a interpretação dos números é uma das mais antigas entre as ciências simbólicas.

Platão, por exemplo, considerava o estudo dos números o mais alto grau de conhecimento e a essência da harmonia cósmica e interior.

Já na China a importância dos números se faz notar desde o I-Ching

Mas, dentre tantos números, por que o três é tão simbólico especificamente para a Fantasia?

A trindade mitológica e religiosa

O primeiro lugar para se investigar a importância do três na vertente da literatura fantástica chamada Fantasia se encontra nas mitologias e religiões.

Afinal de contas, é na busca do divino criado a partir da tentativa de compreender os fenômenos da Natureza, que se encontra as bases para as narrativas que fomentaram os contos orais folclóricos e, posteriormente, os contos de fadas.

Alias, se você quer entender mais sobre Como, Quando e Onde surgiu o Conto de Fada, assista ao episódio da série O QUE É FANTASIA sobre o tema no canal do FANTASTICURSOS no Youtube, clicando aqui

Na Mitologia Clássica

Dentro da Mitologia greco-latina, o três aparece na estrutura de poder dos deuses clássicos que regem o universo: Zeus/Júpiter domina o céu e a terra; Poseidon/Netuno controla os oceanos e Hades/Plutão vive nos reinos inferiores.

 

Essa divisão aponta para um equilíbrio do universo alcançado pela partilha de poder regulada pelo três.

No Hinduísmo

Na Índia, a manifestação divina é tripla (Trimurti): Brama, Vixenu e Shiva, trazendo os aspectos da produção, da conservação e da transformação da realidade.

No Budismo

Ainda no Oriente, o Budismo tem a sua expressão perfeita na Jóia Tripla (Triratma) personificada em Buda, Dharma e Sanga que compõem o Tao.

No Cristianismo

A base teológica do Cristianismo é formada pela tríade da unidade divina, na ideia de que, como destaca Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Deus é uma em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Os Reis Magos são três e simbolizam as três funções do Rei no mundo, expressadas na figura de Cristo: Rei, Sacerdote e Profeta.

Na tradição judaica da Cabala o três tem função primordial por revelar, por trás do ato da criação:

  1. O elemento ativo, correspondente ao espírito;
  2. O elemento intermediário, correspondente a alma;
  3. O elemento passivo, correspondente ao corpo.  

A trindade da Natureza

De fato, o que as mitologias e religiões expressam por meio do número três é o padrão da Natureza que se dissemina e se reproduz em outras esferas da existência da humanidade.

A vida  humana é tripartida na sua estrutura, pois divide-se em vida material, racional e espiritual e esse padrão servia de espelho para a composição social do passado, como durante o Feudalismo.

Da mesma forma, os seres vivos obedecem a um padrão regulado pelo três: nascimento, crescimento e morte.

O feminino

Falando de padrões da Natureza, fala-se da figura da mulher e sua ligação com o número três. 

Como tive oportunidade de explicar no vídeo no episódio da série O QUE É FANTASIA sobre a diferença entre a Mitologia Grega e a Mitologia Nórdica, que você pode ver clicando aqui, essa incorporação da Natureza pela mulher é representada nas figuras das Moiras (Mitologia Grega) e da Nornas (Mitologia Nórdica).

Essa trindade feminina, que também assume a forma da Virgem, a Mulher e a Anciã, é o espelho da Natureza nos aspectos do Nascer – Amadurecer – Morrer e da Manhã – Tarde – Noite. 

Era uma vez um número…

Com base no que foi exposto acima, enquanto versões populares e simplificadas do mitológico, os Contos de Fada, se amparam no simbolismo do número três em diferentes formas, dentre as quais destaco:

  1. Personagem e;
  2. Enredo.

No caso do Personagem, além dos já citados Três Porquinhos também temos três personagens nos seguintes contos:

  • “As três princesas” (1634), do italiano Giambattista Basile; 
  • “Os três aprendizes” (1812), dos alemães Irmãos Grimm;
  • “Cachinhos Dourados e os três ursos” (1837), do inglês Robert Southey;
  • “A história dos três mendigos maravilhosos” (1855), do russo Alexander Nikolayevich Afanasyev.  

Ainda dentro do personagem, destaque para o fato que é sempre o terceiro filho ou filha, caçula, o herói da história.

Já falando do Enredo, o que se observa é que os contos de fadas usam o número três para construir a jornada do personagem ao longo da narrativa.

Essa caminhada se traduz em três tarefas, missões ou testes que o personagem precisa passar para conseguir o objetivo almejado no início do conto.

Essas ações tem o propósito de mostrar o valor e merecimento do personagem do conto de fada.

Em quais outros contos você observa a presença do número três?

E como a tradição da Fantasia contemporânea, de J. R. R. Tolkien, J. K. Rowling e Rick Riordan, dentre outros, faz uso desse simbolismo na sua opinião? 

Deixa ai nos comentários.

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

BRUCE-MITFORD, Miranda. O livro ilustrado dos signos e símbolos. São Paulo: Livros e livros, 1996.

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997,

TATAR, Maria. Contos de fada. Edição comentada e ilustrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

As vampiras mães: o arcano feminino e o medo masculino

A Banshee, abordada também no vídeo, era uma fada negra que mostra a dualidade do feminino.

No vídeo desta semana da série O QUE É FANTASIA, lá no canal do FANTASTICURSOS no Youtube, falei das fadas e como elas representam o mistério que cerca o ser feminino que deu forma para o gênero Fantasia.

Mas, além das fadas, o ser vampírico também tem uma estreita ligação com o feminino, reforçando o vínculo da mulher com  o mistério da natureza.

Vou falar aqui de três seres, ligados a culturas diferentes, que expressam o arcano feminino na tradição vampírica: as vampiras mães Kali, Lilith e a Lâmia.

A dualidade da Natureza  

A universalidade do mito do vampiro na cultura das civilizações certamente reflete uma busca do ser humano em representar o desconhecido para, assim, tentar racionalizá-lo dentro da sua compreensão de mundo.

E nada inspirava tanto fascínio quanto medo como a Natureza e seu ciclo de nascimento e morte que perseguia o homem primitivo e os animais e plantações que lhe serviam de alimento. 

Para garantir sua perpetuação, a família foi criada. Desta forma, o nascimento das crianças dentro de uma estrutura de proteção foi a solução para a continuidade da existência humana.

Neste contexto, a ruptura desse ciclo, como a morte inesperada de um recém-nascido, não poderia ser visto como algo da Natureza. E não foi.

O arcano feminino

Desde o início da civilização há de se destacar o papel duplo reservado ao feminino e, especificamente de rituais, tabus e crenças, a maternidade sempre foi um mistério que contribuiu para estabelecer as relações do homem com a mulher enquanto manifestação da Natureza.

Essa conexão se manifesta na ligação com o arcano, ou seja, o mistério dos dons da profecia, da cura, e, dentro da visão masculina, também do poder para prejudicar outros.

Como conseqüência, com o tempo, o homem foi associado ao solar, ao racional enquanto a mulher era irracional, instintiva, ligada ao sonho e a Lua.

Mulheres de fase

A lua promoveu a relação da mulher com a noite e ao desconhecido da morte. O paradoxo do ser feminino é justamente a contradição de um ser ligado tanto a vida quanto a morte.

A ameaça do sexo feminino estava representado, por exemplo na menstruação. O sangue expelido ciclicamente pela mulher a marcava ritualmente como impura. Essa condição a levava a ser vista como possível portadora de males para a comunidade.

No próprio folclore brasileiro, conforme aponta o folclorista Luis Câmara Cascudo, há diversos tabus relacionados à mulher nessa fase, como a crença de que a menstruada não pode tocar dar o primeiro leite ou banho em uma criança, tocar em frutos verdes, fazer a cama de recém-casados, assistir a batizado, em suma, ela é um poder maléfico a tudo quanto representa ou constitua início de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo menstruação e maternidade estão ligadas no folclore do campo onde se crê que se deve plantar e semear somente na lua crescente, pelo fato de que os lavradores acreditarem que os partos e as menstruações são mais freqüentes em determinadas fases da lua.

E ai chegamos as vampiras mãe.

As vampiras mães

Essa dupla natureza da mulher que dá a vida, mas que pode trazer a morte, é especialmente expressa nas culturas antigas no culto das deusas-mãe.

Afinal de contas, a terra nutre a vida mas também é o reino dos mortos sob o solo.

Não é por acaso, portanto, que em muitas culturas as mulheres eram as responsáveis pelos cuidados reservados aos mortos por estarem mais ligadas ao ciclo da vida. Elas criam e destroem.

Kali, a destruidora do mundo

Essa dupla face está presente na deusa hindu Kali. A representação mais significativa que os homens criaram do ser feminino tanto destruidor quanto criador. Uma deusa cuja natureza de mulher fomentou as primeiras representações físicas dos vampiros.

Talvez a característica mais marcante dessa que é uma das mais importantes divindades da mitologia da Índia seja a sua sede de sangue. Suas primeiras aparições datam do século seis em textos religiosos de invocações.

Nestes registros ela foi descrita como tendo presas, usando um colar de cabeças humanas e morando perto de lugares de cremações.

História

Ela fez a sua aparição mais famosa no Devi-mahatmya, onde lutou ao lado da deusa Durga contra o espírito demoníaco Raktabija, que tinha o poder de se reproduzir com cada gota de sangue derramado.

Quando Durga estava sendo sobrepujada pelo inimigo Kali
apareceu e vampirizou não apenas as duplicatas de Raktabija, mas o próprio demônio.

Como outras divindades femininas semelhantes, Kali simboliza a desordem que aparece continuamente entre todas as tentativas de se criar a ordem, porque a vida é imprevisível.

É o princípio materno cego que impulsiona o ciclo da renovação. Mas, ao mesmo tempo, traz a peste, a doença e a morte.

Como as pesquisas antropológicas apontam, essa associação da mulher com a maternidade, o sangue, a vida e a morte aparecem sobremaneira entre os povos antigos em problemas relacionados com o parto, e serviram de matéria prima para as primeiras narrativas sobre vampiros.

Narrativas como as lendas de Lilith e da Lâmia.

Lilith, a primeira mulher

 

Falei dessa personagem em um dos primeiros vídeos do Canal FANTASTICURSOS no Youtube dentro da série “Lendas Medievais”. Para assistir, clique aqui.

A primeira aparição de Lilith aconteceu no épico babilônico Gilgamesh (2000 a. C.) como uma prostituta estéril e com seios secos. Seu rosto era belo, mas possuía pés de coruja (indicativos de sua vida noturna).

Lilith entrou na demonologia judaica a partir das fontes babilônicas e suméricas, e então migrou também para o folclore cristão e islâmico. No folclore islâmico, por exemplo, ela é a mãe dos djin, um tipo de demônio.

História

Mas é no Talmude hebraico (6 a.C.) que sua história se torna mais interessante ao ser apresentada como a primeira mulher de Adão. Na narrativa registrada no Talmude, Lilith se desentendeu com Adão sobre quem deveria ficar na posição dominante na hora do sexo (ou seja, esta foi a primeira discussão de casal que se teve notícia).

Ela então abandonou o marido e se refugiou em uma caverna no Mar Vermelho. Deus enviou três anjos ao nosso plano com a missão de mandar Lilith retornar para o marido. Neste ponto as versões variam.

Em uma delas Lilith teria desobedecido às ordens de Deus e, como conseqüência, foi amaldiçoada com a morte de seus filhos. Na outra versão, Lilith teria seduzido os anjos enviados para levá-la de volta e gerou a raça de demônios que atormentam a humanidade desde então.

As narrativas, no entanto, convergem em um mesmo ponto: Para se vingar de Deus e de Adão, Lilith passou a sugar o sangue e a estrangular todos os descendentes de Adão enquanto eles ainda são crianças.

Na Idade Média em particular todas as complicações relacionadas à maternidade, tais como, aborto, dores e sangramentos, eram atribuídos a Lilith e seus demônios. Também se acreditava que caso um homem recém-casado tivesse emissões noturnas isso seria um sinal da presença da vampira.

Para se defender dela os judeus medievais costumavam usar amuletos nos quais se escreviam os nomes dos três anjos enviados por Deus: SanviSansanvi e Semangelaf

Lâmia, a amante de Zeus

A maternidade também está por trás de um dos primeiros relatos de vampiros da Antiguidade, representada na criatura chamada Lâmia.

Quando era uma pessoa, Lamia era uma rainha da Líbia que se envolveu com Zeus em mais um dos vários casos amorosos do senhor dos deuses gregos com as mortais. Hera, no entanto, descobriu a traição do marido e destituiu Lamia de todos os seus filhos com Zeus.

Em conseqüência desse ato ela enlouqueceu e se escondeu em uma caverna a partir de onde ela começou a atacar todas as crianças sugando-lhes o sangue e comendo-lhes a carne.

Com o tempo, e em virtude de suas ações, ela começou a se deformar em uma besta hedionda cuja metade do corpo era em forma de serpente.

A Lâmia entretanto tinha a capacidade de se transformar em uma bela donzela com o intuito de atrair e seduzir rapazes para se alimentar deles. Outros espíritos demoníacos surgiram, gerando várias lâmias.

História

No capítulo 25 do quarto livro de Vida de Apolônio, produzido por volta do fim do século 2 da nossa era, Philostratus, o Velho faz um longo e detalhado relato sobre como o filosofo Apolônio (um genuíno predecessor do personagem literário Van Helsing) advertiu seu discípulo Menipo de que a bela donzela por quem ele havia se apaixonado perdidamente e havia decidido desposar no dia seguinte era na realidade uma vampira.

Diante dos protestos de Menipo, Apolônio compareceu a cerimônia de casamento e, diante dos convidados, confrontou e desmascarou a lamia. Esta admitiu seus planos e confessou seu hábito de se alimentar “em corpos jovens e bonitos porque o seu sangue é puro e forte”.

É interessante mencionar que ainda hoje na Grécia há um ditado popular que diz que se uma criança morreu de repente de causa desconhecida é porque ela foi estrangulada por uma lamia.

Semelhante a criatura grega, a strix romana (palavra latina que significa “coruja estridente”) era uma mulher da mitologia clássica que podia se transformar em uma ave de rapina voraz e se alimentar da carne e do sangue de crianças.

Assim como no caso da lâmia, os homens também poderiam ser vítimas da sedução mortal da criatura. Com o passar dos séculos, a lenda da strix migrou da mitologia romana para as narrativas da Idade Média, a partir daí ela chegou ao mundo ibérico e foi traduzida para o Português com o nome “Bruxa”.

E se quiser ler em mais detalhes as informações deste post recomendo a Introdução que fiz para a obra Carmilla, a Vampira de Karnstein, publicado pela editora Hedra.

Se você gostou do post, deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos e amigas vampiros ou não.

FONTES UTILIZADAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1983.

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

FERREIRA, Cid Vale (Org.). Voivode: estudo sobre os vampiros. São Paulo: Pandemonium, 2002.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

IDRICEANU, Flavia, bartlett, Waine. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. Trad. Silvia Spada. São Paulo: Madras, 2007

RICHARDS, Jeffrey. Sex, Dissidence and Damnation: Minority Groups in the Middle Ages. London: Routledge, 1995.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LEFANU, Sheridan. Carmilla: a vampira de Karnstein. Trad. São Paulo: Editora Hedra, 2010.

O porquê de Capitão Marvel/Shazam ser o maior super-herói das HQs

Ilustração do desenhista Alex Ross para a edição da série O REINO DO AMANHÃ (1996)Por que a figura do super-herói faz sucesso mundial independente da idade, gênero ou religião?

Semelhante as religiões do passado e mesmo nas de hoje, os super-heróis presentes em revistas e filmes atraem pessoas, inspiram e ajudam a preencher a necessidade do ser humano por algo além de sua realidade cotidiana.  

Novos deuses produzidos pela indústria cultural e que refletem o espaço e metamorfose do divino na sociedade consumista contemporânea.  

E tudo começou em Junho de 1938 com o nascimento da Era de Ouro dos Quadrinhos. 

O salvador vem do espaço

A cultura dos Super-heróis tem início na revista Action Comics #1 de Junho de 1938 que trouxe a icônica imagem na capa do Superman levantando um automóvel.

Um exemplar dessa revista quebrou o recorde de leilões no Ebay em 2014 sendo vendida por três milhões e duzentos mil dólares.

Dado a overdose de super-heróis em nossa sociedade hoje, é difícil imaginar o profundo impacto que o Superman trouxe para a cultura americana na época, pois até então, nunca antes na era moderna os leitores tinham lido uma história em que um homem pudesse fazer as coisas que o filho do planeta Kripton fazia. 

O sucesso sem precedentes do Superman, é claro, abriu os olhos dos editores da época e incontáveis heróis uniformizados mascarados ou não, com superpoderes ou habilidades especiais invadiram a América no fim dos anos 30 e toda a década de 40.

Super-heróis da Era de Ouro dos quadrinhos no traço de Alex Ross

Falei desse cenário, no caso abordando as primeiras super-heroínas, em outro post do blog que você pode ler clicando aqui.

Com maior ou menor sucesso, super-heróis e super-heroínas se estabeleceram ou sumiram tão repentinamente quanto surgiram, todos sempre tentando repetir o sucesso e, principalmente, a mística do Homem de Aço.

Super-heróis da Era de Ouro dos quadrinhos no traço de Alex Ross

Afinal de contas, sendo a criação de dois jovens judeus que tentavam ser bem sucedidos na América, Superman trazia consigo todo o simbolismo de ser um alienígena vindo de outro planeta e que, após crescer em uma fazenda, vai tentar a sorte na cidade grande de forma discreta e anônima esperando a oportunidade para usar seus talentos.

A essa imagem do imigrante que busca seu lugar no American Dream e que tinha forte apelo junto a boa parte de outros leitores também pertencentes a famílias de recém-chegados ao pais, a força simbólica do Superman vinha também de suas conexões no Judaísmo, sendo o personagem uma releitura do Messias que vem ao nosso mundo para salvar a humanidade.

Essa dimensão religiosa ganhou novos ares dentro de uma contexto em que o Superman é apresentado como uma alienígena que chega a Terra em sua nave oriundo de um planeta moribundo, algo alinhado com a crescente popularidade da Ficção Científica em meio a jovens fascinados com a promessa do progresso e da Ciência na época.    

Essa conjuntura de fatores fez do Homem de Aço um personagem imbatível dentro e fora dos quadrinhos, ou pelo menos foi assim até o início dos anos 40 quando surgiu um novo herói que não apenas rivalizou com Superman mas também o suplantou na preferência dos leitores: Capitão Marvel.

O Mortal mais Poderoso da Terra

Basta olha a capa da edição de estréia do Capitão Marvel na Whiz Comics #2 para perceber como desde o início National Comics (atual DC Comics) e a Fawcett Publications (do Capitão Marvel) se enfrentaram.

Criado em fins de 1939 e tendo sua estréia oficial na revista Whiz Comics #2 de fevereiro de 1940 o Capitão Marvel teve sua primeira aparição de fato na revista Flash Comics em uma edição preto-e-banco distribuída gratuitamente para patrocinadores (chamada de edição ashcan).

Publicação ashcan de Janeiro de 1940

Nesta publicação ele ainda tinha o nome de Capitão Trovão (Captain Thunder).  

Origem

O Mortal mais Poderoso da Terra, como ficou conhecido (e que servia para também alfinetar o alienígena Superman) foi criado pelo editor da Fawcett Publications Bill Parker a partir de uma pedido da editora, que até então só publicava histórias de humor, para entrar no lucrativo e crescente ramos dos super-heróis.

Originalmente a ideia de Parker era criar um supergrupo (o que seria inédito para a época) composto por seis jovens, cada um com o poder de um deus ou herói mitológico, mas os editores da Fawcett rejeitaram a ideia e todos os poderes foram concentrados em apenas um personagem.  

Tanto o nome Capitão Trovão quanto a ideia do supergrupo das crianças foram homenageados no arco FLASHPOINT da DC Comics, aparecendo na edição Flashpoint #4

Para a arte foi chamado o desenhista C. C. Beck que com a ajuda do seu assistente Pete Constanza moldou a imagem do Capitão Marvel a partir das feições de Fred MacMurray (imagem abaixo), grande astro do Cinema da época. 

Dentre centenas de revistas de super-heróis que inundavam as bancas de jornais e mercadinhos do período, as histórias do Capitão Marvel se destacaram pelo seu grau de inocência, apuro visual da arte de C. C. Beck e inovações editoriais e a Whiz Comics se tornou um estrondoso sucesso, principalmente junto as crianças.

Tempos depois, o veterano escritor de ficção científica Otto Binder substituiu Bill Parker nos roteiros e o personagem alcançou o seu auge nos anos da década de 1940.  

Poderes

Apesar de algumas mudanças ao longo dos anos, a origem do personagem começa de forma geral quando o órfão Bily Batson, sendo uma criança de coração puro apesar das adversidades, é escolhido pelo Mago Shazam para se tornar o campeão da justiça Capitão Marvel.

Para a transformação, acionada por meio de um relâmpago místico, bastava que Billy Batson dissesse o nome do mago, um acrônimo formado pelas letras S.H.A.Z.A.M. e que correspondia aos nomes dos seres lendários que lhe conferiam poderes. São eles:   

  • Salomão, que lhe conferia Sabedoria;
  • Hércules, que lhe conferia Força;
  • Atlas, que lhe conferia Resistência;
  • Zeus, que lhe conferia o Poder do relâmpago;
  • Aquiles, que lhe conferia Coragem e;
  • Mércurio, que lhe conferia Velocidade

Enquanto o Superman trazia o novo espírito científico das revistas da Ficção Científica para as HQs apontando para o futuro, o Capitão Marvel se alicerçava no charme do passado, apostando em uma releitura da tradição da magia e do mitológico que já produzia combatentes do crime místicos desde 1934, com o personagem Mandrake, de Lee Falk, o primeiro do tipo. 

Inovações de sucesso

A Fawcett Publications apresentou uma série de inovações em suas revistas de super-heróis que as diferenciaram das publicações de outras editoras, incluindo ai a National Comics (atual DC Comics), provocando os ânimos da até então líder do mercado. Dentre estas, cito aqui:

  • Histórias seriadas divididas em capítulos (as outras editoras apresentavam histórias fechadas em cada edição);
  • Uniforme diferenciado (até hoje considerado um dos mais elegantes do gênero e que diferenciava o herói dos demais heróis com a famigerada cueca por cima da calça, heranças das raízes circenses dos personagens);

  • Crossover entre super-heróis (Capitão Marvel encontrou os outros heróis da editora, Spy Smasher e Bulletman respectivamente nas edições Whiz Comics #15 e Master Comics #21);

  • Super grupo de vilões (A Sociedade Monstruosa do Mal foi apresentada em uma arco de 25 edições que durou entre 1942 a 1945).

  • Introdução em 1942 da primeira versão feminina independente, e não apenas uma parceira,  de um super-herói (Mary Marvel, antecedendo em quase uma década o surgimento de Supergirl).

O resultado dessas práticas inéditas foi traduzida em números, e a revista Captain Marvel Adventures vendeu em 1944 um total de 14 milhões de cópias e um milhão e trezentas mil cópias em média por edição durante o período em que foi publicada duas vezes por semana, se tornando os quadrinhos mais vendidos nos anos da década de 1940 superando, e muito, as revistas do Superman.

Além disso, o Capitão Marvel foi o primeiro super-herói adaptado para o Cinema, o que ocorreu já em 1941 no seriado em doze partes As Aventuras do Capitão Marvel, trazendo o ator Tom Tyler como o herói.

Luta de titãs

Cartum satirizando a disputa judicial entre a National Comics e a Fawcett .

Apenas um ano depois da estréia do Capitão Marvel e como reação ao enorme sucesso do personagem, a National Comics resolveu iniciar em 1941 um dos mais longos processos jurídicos da indústria dos quadrinhos até hoje contra a Fawcett Publications.

Após sete anos de litigio o caso foi a julgamento e em 1948 a Fawcett foi inocentada do crime da acusação de que o Capitão Marvel era uma cópia do Superman, mas em recurso impetrado pela National o caso foi novamente julgado e em 1953 a Fawcett perdeu.

O fim

Esgotada financeiramente pela disputa judicial e pela queda generalizada das revistas de super-heróis na década de 50, a Fawcet parou de publicar as aventuras do Capitão Marvel na Whiz Comics na edição #155 (Junho de 1953), na Captain Marvel Adventures na edição #150 (Novembro de 1953), e na The Marvel Family na edição #89 (Janeiro de 1954).

Era o fim da Família Marvel deixando milhões de fãs sem os seus super-heróis favoritos.  

Herança e retomada

Ainda nos anos 50, surgiu na Inglaterra outro super-herói em homenagem ao Capitão Marvel da Fawcett e que recebeu inicialmente o nome Marvelman, cujas publicações duraram até 1963.

Ao ser resgatado do ostracismo nos anos 80 pelo escritor Alan Moore Marvelman foi rebatizado como Miracleman, visto que a editora Marvel Comics havia criado um novo Capitão Marvel em 1967.

E o verdadeiro Capitão Marvel? 

Após comprar os direitos de publicação do super-herói no início dos anos 70 a agora DC Comics apresentou o personagem para uma nova geração na revista Shazam #1, de 1973.

Impedida de nomear a revista de Captain Marvel devido ao personagem da Marvel Comics, a DC usou o nome do personagem apenas no interior da revista.

Isso durou até a reformulação intitulada Novos 52, de 2011, quando de forma definitiva o personagem foi rebatizado de Shazam, recebendo, assim, o nome do Mago que concedeu os poderes ao jovem Billy Batson.

Ainda assim, talvez por lembranças do passado, até hoje a DC Comics nunca soube dar ao personagem o papel de destaque que ele tinha no passado. 

O segredo do Super-herói

Mas, afinal de contas, qual teria sido o segredo para o Capitão Marvel/Shazam ter alcançado durante a Era de Ouro dos Quadrinhos o status de maior super-heróis de seu tempo?

Para o crítico Christopher Knowles, o personagem é mais interessante que Superman principalmente porque ele não é uma pessoa real, mas sim uma entidade mágica no qual o jovem Billy Batson se transubstancia quando murmura o encantamento ocultista “Shazam”.

Este elemento central, apontado por Knowles, aparece mencionado por outras pessoas do mundo dos quadrinhos como  Jack Kirby, Bill Sienkiewicz, Mark Waid, Alex Ross, Jeff Smith e Geoff Johns no sentido de que o Capitão Marvel encarna o verdadeiro espírito dos quadrinhos que leva os leitores, principalmente as crianças, a lê-los: a possibilidade de se imaginar, de se transformar em um super-herói

Diferente do Superman ou do Homem-Aranha, que fingem não ter poderes para se passar por pessoas normais, ou de Batman que conta apenas com suas habilidades físicas e intelectuais, Shazam vive em dois mundos: o dos mortais e dos deuses.

Condição única explorada pelo roteirista Mark Waid em Reino do Amanhã (1996).

Em O REINO DO AMANHÃ. o Capitão Marvel é o Salvador pois se sacrifica para o bem estarde dois mundos.

Contribui para o fascínio do personagem, como dito anteriormente, a releitura de elementos do mundo do Maravilhoso e do Ocultismo, como o poder da palavra mágica e o poder de voar.

Alias, o Superman passou a voar como uma maneira de tentar competir com o Capitão Marvel, pois até então o herói de Kripton apenas dava super saltos. 

Essa ligação de Shazam com o místico, que lhe confere também o epíteto de “Campeão da Magia” se alinha com as observações da escritora Nelly Novaes Coelho em Literatura Infantil (1997) sobre o fato do infantil e do primitivo não disporem de conhecimento científico ou racionalista, o que os aproximam do Maravilhoso como uma maneira de dar sentido ao mundo.

Por esta razão, as crianças sentem mais afinidade com o mágico Shazam do que com o extraterrestre Superman. E,no fim das contas, quadrinhos é fantasia.   

Sugestões de leitura

Com o anúncio do filme do Shazam o super-herói vai voltar a ficar na moda. Para se familiar com sua história recomendo os seguintes materiais disponíveis no Brasil e que não estão esgotados até o momento em que escrevo este post:

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Fontes utilizadas

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil. São Paulo: Editora Ática, 1997.

JONES, Gerad. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. Trad. Guilherme da Silva Braga e Beth Vieira. São Paulo: Conrada Editora do Brasil, 2006.

KIDD, Chip, SPEAR, Geoff. Shazam! The Golden Age of the world’s mightiest mortal. New York: Abrams, 2010.

KNOWLES, Christopher. Nosso deuses são super-heróis. Trad. Marcello Borges. São Paulo: Cultrix, 2008.

TEITELBAUM, Michael, BEATTY Scott, GREENBURGER, Robert. The DC Comics Illustrated Encyclopedia. New York: DK Adult, 2008. 

VIOTTE, Michel. Once upon a time the superheroes (De Superman à Spider-Man: L’aventure des superhéros). Canada/França. DVD. 2001 .

 

 

 

 

Você conhece os 4 deuses da Mitologia Nórdica que fazem o seu dia?

Os deuses da Mitologia Nórdica estão entre nós.

No Cinema, Thor: Ragnarok (2017), o terceiro filme do super herói da Marvel baseado no Deus do Trovão nórdico, traz para as telas o apocalipse dos deuses nórdicos.    

Na Literatura, Mitologia Nórdica (2017), de Neil Gaiman usa o seu talento como escritor do fantástico para narrar os melhores mitos nórdicos para a atualidade. 

Na Televisão, Vikings vem desde 2013 disseminando a cultura e a mitologia escandinava desse povo guerreiro em episódios semanais.

A série já tem uma quinta temporada aprovada para produção.

Nos Games, God of War 4 (2018) vai trazer as criaturas e seres fantásticos da Mitologia Nórdica para um jogo de ação que promete renovar a tradicional franquia do console Playstation. 

Jormungand, ou Jörmundgander, era também conhecida como a Serpente-lobo ou a Serpente de Midgard.

Como professor de Língua Inglesa e formador de novos professores, esse é o momento em que lembro aos alunos que Língua e Cultura sempre andam juntas, uma alimentando a outra.

Apenas para citar um caso, no caso da deusa Hella, vilã do próximo filme Thor: Ragnarok, seu nome serviu de base para a criação da palavra inglesa Hell (“Inferno”).  

Na Mitologia, Hella é filha de Loki com a gigante Angrboda
Hella tem como irmãos o lobo Fenrir e a serpente Jormungand.

Longe de ser um fenômeno recente, os deuses da Mitologia Nórdica sempre marcaram presença na cultura ocidental, a ponto de estarem presente em nosso dia a dia na forma dos dias da semana.

Mitologia do dia a dia

Segue abaixo um lembrete para que os professores de Língua Inglesa explorem o potencial desses 4 deuses nórdicos para facilitar o aprendizado de seus alunos tornando as aulas mais interessantes por meio do Fantástico.

Tyr

Dia da semana: Tuesday (Tyr’s day): Terça-feira

Atribuição: Deus do combate singular e da guerra. Era a Tyr que os guerreiros pediam proteção antes das batalhas. 

Curiosidade: Talvez o menos conhecido dentre os deuses aqui listados, Tyr possuía inicialmente a mesma importância de Odin e Thor, e é o único que possui força semelhante ao conhecido Deus do Trovão Thor.

Talvez por conta desta relevância passada ele esteja presente nos dias da semana ao invés de deuses nórdicos mais conhecidos hoje, como Balder e Heimdall.  

Associado no Império Romano ao Deus da Guerra Marte, Tyr é particularmente conhecido por ter sido o único deus com coragem suficiente para por a mão na boca do lobo Fenrir, como garantia de que o mesmo pudesse ser acorrentado. Esse sacrifício, que o fez perder a mão, faz de Tyr um símbolo da glória imortal e a principal virtude cultivada entre os nórdicos.

Segundo as profecias do Ragnarök, Tyr está destinado a morrer junto com Garm, o cão que guarda Hel, o reino dos mortos.  

Odin

Dia da semana: Wednesday (Woden day / Wodnesday): Quarta-feira

Atribuição: Senhor dos Deuses, Deus supremo do panteão nórdico. Associado a vários elementos, muitos contraditórios, como morte, cura, poesia e conhecimento.

Curiosidade: Relacionado na cultura romana ao deus Mercúrio, Odin (ou Woden, como era chamado e Inglês antigo), assim como qualquer outra divindade que possui sabedoria suprema, precisou demonstrar mérito e fazer sacrifícios para adquirir o saber.

Em busca da onisciência, Odin passou nove dias e nove noites trespassado por sua própria lança pendurado em Yggdrasil, a Árvore da Vida. Por isso ele também era o deus dos enforcados. 

Foi durante este período que ele inventou as runas, por meio dos quais os deuses e os homens eram capazes de saber o que está alem do tempo. 

Também em busca de mais conhecimento,  Odin sacrificou um dos olhos em troca da chance de beber um gole do poço do deus Mimir, cuja água confere a quem bebe sabedoria suprema.  O olho que Odin perdeu se tornou a lua cheia.

Como arma, o Senhor dos Deuses possui a lança Gungnir, que nunca erra o alvo e sua montaria era o cavalo de oito patas Sleipnir. Ele também possui dois corvos, Hugin e Munin que deixam Asgard, a morada dos deuses a cada manhã e retornam apenas a noite para trazer as notícias dos nove reinos para Odin.

Profetizado a ser engolido vivo e inteiro pelo lobo Fenrir no Ragnarök, Odin é um dos mais complexos deuses da mitologia nórdica e possui muitos atributos, sendo por vezes descrito como uma divindade cruel.

O escritor J. R. R. Tolkien se baseou em Odin para criar o mago Gandalf, o Cinzento.  

Thor

Dia da semana: Thursday (Tor’s day): Quinta-feira

Atribuição: Deus do trovão, do clima, das plantações e protetor dos marinheiros.

Curiosidade: O mais popular dentre todos os deuses nórdicos, Thor, filho de Odin, era a divindade a quem os escandinavos pediam proteção a ponto de, antes desse povo ser convertido ao Cristianismo, usarem um pingente com a forma do martelo Mjöllnir.

Posteriormente os catequizadores aproveitaram a semelhança entre o martelo de Thor e o crucifixo cristão para evangelizar o povo. 

Na cultura romana, Thor era associado a Jupi ter, que era o Senhor dos raios e trovões.

Thor era um deus que resolvia as coisas sempre por meio da força física e não pelo uso da inteligência. Essa imagem foi trabalhada pelo escritor Neil Gaiman na série em quadrinhos Sandman nos anos 90 onde Thor era representado como um brutamontes sem cérebro. 

Descrito como possuidor de longas barbas e cabelos ruivos, Thor era casado com Sif, deusa da fertilidade como Freya e Frigga, e era pai de Magni e Modi.

Atravessando os céus em sua carruagem puxada pelos bodes Tanngrisnir e Tanngnjóstr Thor irá perecer no Ragnarök defendendo Midgard contra seu inimigo jurado, a Serpente que circunda a terra Jormungand.

Frigga

Dia da semana: Friday (Frige’s Day): Sexta-feira

Atribuição: Deusa da profecia e da fertilidade. 

Curiosidade: Esposa de Odin e associada no Império Romano a Vênus, Frigga é a mais importante deusa do panteão nórdico e se diferencia de Freya, outra deusa da fertilidade pelo fato desta última estar ligada ao sexo selvagem, a luxuria e a lascivia, enquanto que Frigga é o sexo romântico, ligado ao matrimônio. 

Frigga passa grande parte de seu tempo fiando nuvens coloridas. É ela que pinta de dourado as nuvens do poente e é a única divindade autorizada a sentar no trono de Odin. 

A carruagem de Frigga é puxada por gatos.

Assim como outras mulheres da cultura nórdica, Frigga era altiva e mantinha certa independência em relação aos homens. Em algumas narrativas ela trai Odin com os irmãos do senhor dos deuses, Vili e Ve.

Fica a dica então para quem ensina Inglês ou está aprendendo essa língua a ficar ligado na importância dos deuses da mitologia nórdica na cultura de hoje. Afinal de contas, Tyr, Odin, Thor e Frigga estão presentes em nosso dia a dia. 

Fontes utilizadas 

DAVIDSON, H. R. Ellis. Escandinávia. Trad. Luís Filipe Rizo. São Paulo: Editora Verbo, 1987. (Biblioteca dos grandes mitos e lendas universais).

LINDAHL, Carl; MCNAMARA John; LINDOW, John. Medieval Folklore: A Guide to Myths, Legends, Tales, Beliefs, and Customs. New York: Oxford, 2002. 

PHILIP, Neil. O livro ilustrado dos mitos: contos e lendas do mundo.  Trad. Felipe Lindoso. São Paulo: Marco Zero, 1996.

ROSE, Carol. Giants, Monsters & Dragons: An Encyclopedia of Folklore, Legend, and Myth. New York: W. W. Norton Company, 2001.

SHERMAN, Josepha. (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of Mythology and Folklore. New York: M. E. Sharpe , Inc., 2008.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço fantasticursos.com

Assassinas de bebês e matadoras de homens: conheça o povo da Mulher-Maravilha

O (excelente) filme da Mulher-Maravilha trouxe para o grande público a história de uma guerreira de Temiscira, local habitado apenas por mulheres que leva toda a força física e moral das Amazonas para o mundo dos homens.   

Mas, qual é a história por trás das Amazonas? 

O fato é que, aos olhos de hoje, a história dessas guerreiras chocaria o  grande público.

O nome estampado no peito

Como tudo relacionado a mitologia, há controvérsias quanto a origem do nome “Amazonas”.

Para algumas fontes, “Amazona” se refere a um povo iraniano – Há-mazan – cuja tradução é “Guerreiros”, mas para outros estudiodos a etimologia vem do prefixo alfa e a palavra mazos (“seio”), visto que, segundo alguns relatos, desde a infância elas tinha o seio  direito comprimido ou queimado para facilitar o manuseio do arco. 

Uma outra versão atribui ao “A” de “Amazonas” um valor aumentativo. Assim A + Mazos, que daria origem ao nome desse povo, seria traduzido como “As mulheres de seios grandes”. 

Por fim, alguns estudiosos localizam a origem da palavra no termo grego Amazoi, que quer dizer “sem seios”, mais uma vez fazendo menção a prática de auto-mutilação do seio direito.

História ou Lenda? 

Segundo Heródoto, o “Pai da História”, relata em 440 a.C., as Amazonas seriam as antepassadas dos Sármatas (ou Sauromatas como os romanos chamavam), povo nômade que vivia na região do Mar Cáspio entre os séculos 8 a.C. e 4 a.C..

Mulheres de respeito

Os Sármatas seriam descendentes diretos da união entre as Amazonas e o povo Cita. Nessa união os homens citas seriam usados como reprodutores para a geração de novas amazonas.

De fato, a Arqueologia já demonstrou que na sociedade sármata a mulher tinha um papel de destaque, o que indicaria a conservação dessa herança cultural.

Uma jovem sármata, por exemplo, só poderia se casar se trouxesse a cabeça de um inimigo. Outra evidência desse possível legado é o fato de que algumas sepulturas femininas sármatas ocupavam lugar de destaque no centro de cemitérios.

As matadoras de homens…

Ainda segundo Heródoto, as Amazonas eram descritas como androctonus, ou seja, “matadores de homens” e eram representadas como guerreiras que lutavam montadas em cavalos e portando espadas e machados.

A sua terra, Temiscira, ficava na região da Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia, próximo ao litoral, dai vem a ideia nas histórias em quadrinhos de que as amazonas viviam em uma ilha.

… e de bebês homens também?

Depois de Heródoto, é Hipocrátes nos anos de 400 a.C. o principal fornecedor de informações presumivelmente “históricas” sobre as Amazonas.

Como relata o “Pai da Medicina”, as Amazonas viam os homens apenas como reprodutores e os encontravam apenas uma vez por ano para uma curta estação de amores. Essa atividade também foi objeto do registro de Diodoro da Sicília no século 1 de nossa era. 

Se desse encontro saísse homens, o menino era entregue ao pai. Já as meninas eram levadas para se tornarem amazonas.

Como visto no filme da Mulher-Maravilha, essas jovens seriam instruídas no manejo do arco, do escudo, do dardo, e na arte de cavalgar em pêlo, ou sobre uma simples manta. 

Hipócrates relata que as Amazonas por vezes mantinham os bebês homens para tarefas específicas dentro de Temiscira, como o artesanato e outras atividades secundárias.

Como seu interesse era a Medicina, chamou a atenção de Hipócrates o fato de que, ainda bebês, esses meninos tinham os joelhos e a bacia deslocados para se tornarem mancos, de forma a, quando crescerem, não representarem uma ameaça as mulheres. 

O fato é que a versão de que as Amazonas matavam os bebês homens só foi surgir quase 600 anos depois do primeiro registro desse povo por Heródoto e foi feito pelo historiador galo-romano Pompeu Trogo na obra Histórias Filípicas, de cerca do século 3 de nossa era.

Mas, como mulheres guerreiras não soavam bem aos aos ouvidos cada vez mais patriarcais de Roma, essa visão das Amazonas assassinas de bebês homens ganhou força ao longo dos séculos posteriores. 

Guerreiras mitológicas contra Hércules

Na Mitologia Greco-romana destaco aqui os dois principais momentos das Amazonas, dentre tantos.

Na Ilíada, de Homero um dos 12 trabalhos impostos a Hércules era roubar o Cinturão usado pela soberana das Amazonas, a ousada Rainha Hipólita, dado a ela pelo seu pai, o Deus da Guerra Ares como mostra do poder de Hipólita sobre as guerreiras. 

Sim, se existisse na Mitologia grega a Mulher-Maravilha seria a neta de Ares. 

O herói grego e a rainha Amazona entram em um acordo e Hipólita decide entregar o Cinturão para Hércules. Esta decisão, no entanto, despertou a fúria de Hera, esposa de Zeus e inimiga jurada de Hércules. 

Hera assume a forma de uma Amazona e promove a discórdia entre os homens de Hércules e as guerreiras. Ao saber da confusão, Hércules pensa ter sido traído por Hipólita e mata a rainha das Amazonas. A soberania das mulheres guerreiras passa para a irmã da rainha assassinada, Penteseléia.

As Amazonas na Guerra de Tróia

Outro momento chave da participação das Amazonas na Mitologia Greco-romana está registrado na Eneida, de Virgílio e ocorre quando as guerreiras se aliaram ao Rei Príamo, de Troiá, contra a ofensiva grega a cidade. 

Lideradas pela Rainha Penteseléia, as Amazonas socorreram o Rei Príamo na cidade sitiada da Frígia e marcharam até a cidade de Tróia.

Como relata Virgílio, a investida Amazona só terminou quando a espada de Aquiles infligiu um ferimento mortal a Rainha das Amazonas. Ao retirar a armadura de sua adversária, o herói ficou emocionado com a beleza de Penteseléia e se apaixonou. 

Estas foram apenas duas das varias narrativas presentes na mitologia greco-romana sobre as guerreiras que inspiraram  William Moulton Marston a criar, em 1941, aquela se tornaria a maior super heroína até hoje. 

Se quiser saber mais sobre o processo de criação da Mulher-Maravilha, leia o post do blog Fantasticursos clicando aqui

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Sousa. Mitologia grega. Vol. 3. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 1987.

MAGASICH-AIROLA, Jorge, BEER, Jean-Marc de. América Mágica: quando a Europa da Renascença pensou estar conquistando o Paraíso. Trad. Regina Vasconcellos. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

SHERMAN, Josepha. (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of Mythology and Folklore. New York: M. E. Sharpe , Inc., 2008.

WILDE, Lyn Webster. On the Trail of the Women WarriorsThe Amazons in Myth and History. New York: Thomas Dunne, 2000.

Qual é o seu super grupo favorito? Dos Argonautas aos Power Rangers

2017 é o ano dos super grupos no Cinema e nas Webséries: Power Rangers, Guardiões da Galáxia, Liga da Justiça, GuardiõesDefensores

Os heróis urbanos Punho de Ferro, Demolidor, Luke Cage e Jessica Jones formam os Defensores.

Os grupos formados por indivíduos com habilidades especiais que se unem voluntaria ou involuntariamente para servirem a um propósito maior existem desde antes da invenção das HQs, principal veículo de criação e propagação deles.

O primeiro grupo de super heróis russos, Os GUARDIÕES, mostra que os russos também querem competir com os americanos no Cinema.

Ilustrando a força do trabalho em equipe ou simplesmente representando a busca das empresas em vender mais com apenas um produto, os super grupos estão entre nós desde a Mitologia grega.

Veja abaixo um breve panorama histórico desse fenômeno que passa pela Literatura e a Cultura de Massa.

Na Mitologia

O primeiro grupo formado de personagens especiais unidos com uma missão, e se pode dizer também que é o primeiro super grupo, está na Mitologia Grega com Jasão e os Argonautas.

Jasão e os Argonautas

A fonte para esta história está na obra Argonautica de Apolônio de Rodes (século 3 a.C.), baseada em textos encontrados na Biblioteca de Alexandria.

OS ARGONAUTAS, pintura de Lorenzo Costa no Museu de Pádua, Itália

Ao reclamar o seu direito ao trono de Lolcos, usurpado por seu tio Pélias, Jasão recebeu do rei a missão de conquistar o Velocino de Ouro, objeto que conferia poder e riqueza a quem o possuísse.  

A intenção do rei Pélias era que seu sobrinho Jasão morresse na empreitada.

Ciente do perigo da tarefa, visto que o Velocino era guardado por um dragão que nunca dormia, Jasão reuniu cinquenta heróis com habilidades únicas com o propósito de ajudá-lo na missão.

Uma vez reunidos, eles embarcaram no navio Argo (daí o nome Argonautas) e partiram rumo ao Mar Negro, onde ficava a região em que o Velocino estava.  

Jasão, a esquerda, segurando Velocino.

Iniciando uma tradição que continua até hoje, os Argonautas eram compostos por heróis com suas próprias aventuras e feitos grandiosos. Dentre os quais, destaque para:  

Atalanta

Única mulher do grupo. Possuidora de grande velocidade e habilidade no arco e flecha;

Castor e Pólux

Ainda que tivessem a mesma mãe, os gêmeos tinham pais diferentes: Pólux era filho de Zeus e, portanto, imortal, Castor era filho do rei Tindaro e se tornou um mestre na arte de domesticar cavalos. 

Herácles

Também conhecido na mitologia romana como Hércules, este filho de Zeus era o homem mais forte de seu tempo e um dos mais populares heróis gregos.

Orfeu

Dono de uma voz sobrenatural, Orfeu conseguia domar os animais e criaturas sobrenaturais com a música que extraia de sua lira. 

Palemon

Hefesto era o deus responsável por criar em sua fornalha as armas e demais utensílios usados por deuses e seus filhos e filhas.

Filho do deus Hefesto, Palemon também era chamado de O Reparador, pois tinha a habilidade de consertar tudo.

Poriclimeno

Poseidon também era chamado de Netuno na mitologia romana.

Filho do deus Poseídon, Poriclimeno era capaz de se metamorfosear em qualquer animal marinho.

Teseu

Também um dos mais populares heróis gregos pela sua coragem extrema, Teseu matou o Minotauro e se tornou rei de Atenas. Em algumas versões ele derrotou as Amazonas e se casou com Hipólita, a rainha dessas mulheres guerreiras.

Após várias aventuras e perigos, os argonautas chegaram na região do Velocino de Ouro e, com a ajuda de Medeia, filha do rei Eetes de Colquida, conseguiram capturar o objeto.

Medeia é uma das personagens mais controversas da Mitologia Grega.

Na Literatura

Em um terreno onde o individuo tem papel central para a estrutura da narrativa, os grupos aparecem na Literatura em obras que, com o tempo, acabaram sendo vinculadas com o romance de aventuras, ou com a Literatura Juvenil.

Este é o caso do romance histórico Os três mosqueteiros (1844), de Alexandre Dumas. 

Os três mosqueteiros

Cena do filme de 1993 dos estúdios Disney.

Ambientado na França do início do século 17, Os três mosqueteiros foi a obra que trouxe fama para Alexandre Dumas.

O romance mostrava as aventuras do jovem D’Artagnan em sua busca para se tornar um Mosqueteiro, ou seja, um membro da corporação militar vinculada a monarquia francesa famosa pelo manejo da espada.

A evolução do uniforme dos Mosqueteiros

Sendo um romance histórico, a obra de Dumas misturava fatos históricos com ficção para criticar a política da monarquia francesa da época, marcada por injustiças e abusos. 

Baseados em personagens históricos, os heróis de Alexandre Dumas eram os seguintes mosqueteiros:

Athos 

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Armand de Sillègue d’Athos d’Autevielle, Athos era descrito como uma figura paterna para d’Artagnan.

Ele também era marcado pelo relacionamento com a espiã chamada por Dumas de Milady de Winter. 

Porthos

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Isaac de Porthau, Porthos era o mais passional do grupo. 

Gostava de roupas elegantes, mulheres e jogos e era a força física do grupo.

Aramis

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro  Henri d’Aramitz, Aramis era apresentado como um elegante jovem dividido entre sua vocação religiosa e o gosto pela vida mundana.

D’Artagnan

Estátua de D’Artagnan no monumento dedicado a Alexandre Dumas em Paris.

Charles Ogier de Batz de Castelmore, Comte d’Artagnan foi Capitão dos Mosqueteiros em 1667 e base para o jovem herói de Alexandre Dumas.

Como todo jovem herói, era audacioso, arrogante e precipitado.

Nas Histórias em Quadrinhos

O universo dos Super Heróis começou na estréia da revista Action Comics em abril de 1938 trazendo a icônica primeira aparição do Superman. 

O sucesso imediato da criação de  Jerry Siegel e Joe Shuster  levou a uma explosão de outros personagens super heroicos mais ou menos duradouros de acordo com a criatividade de seus roteiristas.

Juntá-los em uma revista única não demorou muito…

DC Comics

O sucesso das revistas de super heróis despertou a atenção dos editores Sheldon Mayer e do escritor Gardner Fox, da DC Comics.

O resultado foi o lançamento da revista All-Star Comics #3 (1940), trazendo a Sociedade da Justiça da América como uma estratégia de alavancagem das vendas.

Sociedade da Justiça da América 

O primeiro super grupo das Histórias em Quadrinhos foi lançado pela DC Comics e reunia os super heróis da editora com exceção do Superman e Batman, visto que eles vendiam bem sozinhos.

Ó engraçado é que nesta primeira edição os personagens só ficavam sentados, contado suas aventuras individuais.

Nesta primeira formação, a SJA contava com os seguintes membros:

Átomo (Atom)

Doutor Destino (Doctor Fate)

Espectro (Spectre)

Flash (Flash)

Gavião Negro (Hawkman)

Homem-Hora (Hourman)

Lanterna Verde (Green Lantern)

Sandman (Sandman)

Marvel Comics

Após os anos dourados das décadas de 30 e 40, as histórias em quadrinhos passaram por um período de crise na década seguinte sendo acusada de serem um instrumento de corrupção da juventude.

Esta revista de 1954 foi usada como evidência de que as revistas lidas pelas crianças americanas dos anos de 1950 as estavam incitando ao crime.

Apenas a partir dos anos de 1960 é que os super heróis encontraram novamente o ambiente para retomarem seus vôos.  

Foi neste cenário que em 1960 a edição #28 da revista Brave and the Bold da editora DC Comics trouxe a Liga da Justiça da América.

O sucesso da revista levou o editor da Marvel Martin Goodman a incumbir o jovem Stan Lee de criar um grupo de super heróis para a editora.

O resultado foi o time de heróis que deu início ao Universo Marvel de Super-Heróis: O Quarteto Fantástico.  

Quarteto Fantástico

Bombardeados por raios cósmicos durante uma missão espacial, quatro pessoas adquirem poderes distintos que os levam a formar o grupo batizado de Quarteto Fantástico, composto por:

Senhor Fantástico 

Garota Invisível (depois rebatizada para Mulher Invisível)

Tocha Humana

Coisa    

O sucesso da Sociedade da Justiça, Liga da Justiça e Quarteto Fantástico abriram o caminho para uma infinidade de super grupos nas Histórias em Quadrinhos.

Hoje há de se lamentar que nas HQs a Marvel tenha dissolvido o grupo que a ajudou a crescer simplesmente pelo fato de não possuir os direitos cinematográficos da equipe, hoje pertencentes a FOX.

Na Televisão

Do outro lado do mundo, no Japão, o criador Shotaro Ishinomori e a produtora Toei Company deram início, em 1975, a tradição dos Super Sentai, honrada hoje pelo filme Power Rangers.

Composta pelo ideogramas: 戦 “sen” (guerra) e 隊 “tai” (grupo), essas séries mostram um grupo de cinco indivíduos que recebem super poderes, são identificados por cores diferentes e possuem robôs individuais que, uma vez combinados, criam um robô gigante. 

Himitsu Sentai Gorenger

A primeira série Sentai, e também a mais longa até hoje com 84 episódios, é a Himitsu Sentai Gorenger, traduzida em Português como Esquadrão Secreto Gorenger.

Ainda que Himitsu Sentai Gorenger tenha estabelecido o padrão inicial das séries Sentai, foi a partir da terceira série – Battle Fever J, de 1979 – que o termo Super Sentai passou a ser utilizado com a introdução do robô gigante, que se tornou uma marca representativa e recorrente nas séries futuras.

É hora de morfar! 

No início dos anos da década de 1990 a produtora norte-americana Saban resolveu reutilizar as ideias e conceitos dos Sentais e lançou a série Mighty Morphin Power Rangers, voltada para o público americano.

A enorme receptividade da série de 1993, lançada no Brasil no ano seguinte, permitiu a criação de várias outras temporadas de sucesso.

E o resto é história…  

Gostou? 

Qual é o seu grupo de super heróis favorito? 

E qual formação dos Power Rangers marcou a sua infância?

Deixe seu comentário, compartilhe o post com seus super amigos e amigas e assine o blog.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito. Mitologia grega. Vol. 3. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 1987.

JONES, Gerard. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. São Paulo: Conrad, 2006. 

MUNDO ESTRANHO. Os mosqueteiros realmente existiram na França? Disponível em http://mundoestranho.abril.com.br/historia/os-mosqueteiros-realmente-existiram-na-franca/ . Acesso em 25 março 2017. 

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Será que você é um canibal? O canibalismo no fantástico (Parte 2)

Na primeira parte do post sobre a relação entre o Canibalismo e o Fantástico, que você pode acessar clicando aqui, apresentei um breve panorama de como a prática de comer carne humana acompanha a história da humanidade antes mesmo dela surgir na mitologia grega passando pela Idade Média e chegando aos contos de fadas que conhecemos.

Cronos versus Zeus: Canibalismo mitológico.

Neste segunda parte do post, você vai ver como o canibalismo se tornou uma linha divisória entre o civilizado e o bárbaro, entre o humano e o monstruoso.

A comédia zumbi SANTA CLARITA DIET permite refletir sobre rotina e acomodação na sociedade moderna.

Vai ver também como ele se tornou um simbolo das ansiedades do ser humano no mundo de hoje, algo visto na série da Netflix Santa Clarita Diet e no filme Grave (Raw, no original em inglês).

A relação do individuo com o corpo nos tempos modernos aparece refletido no filme

Se você quer ler logo sobre como o fantástico interpreta o mundo por meio do canibalismo, antes de conhecer a história da prática de se comer carne humana, clique aqui

O Canibal é americano

Polifemo era filho de Poseidon com uma ninfa da água

Quando os europeus se lançaram ao mar no século 15 e 16 eles levaram em seus navios todo o imaginário herdado dos relatos da Antiguidade sobre criaturas monstruosas e canibais, como o do ciclope Polifemo, que devorou os homens de Ulisses na obra A Odisséia.   

O monstro nos confins do mundo

A Literatura de Viagens da época, seguindo essa crença, era repleta de relatos de criaturas antropofágicas que viviam em regiões da Etiópia e da Índia, como os Cinocéfalos, homens com cabeça de cães.

Os cinocéfalos se alimentavam dos viajantes incautos

A chegada dos europeus as Américas trouxe a revelação de que alguns dos povos indígenas do continente consumiam carne humana em rituais religiosos.

Representação do canibalismo da tribo brasileira dos Tupinambá em 1557, conforme descrição de Hans Staden.

Esse ritual visava adquirir a coragem dos guerreiros inimigos capturados ou como parte de oferenda para os deuses.

Canibal ou Antropófago? 

Foi neste contexto que, ao observarem os índios antropófagos das ilhas do Caribe, os exploradores criaram a palavra “Canibal”

A prática do canibalismo foi um dos motivos alegados pelos europeus para a escravidão indígena, com o pretexto de que eles não eram humanos.

Mas, qual é a diferença entre Canibalismo e Antropofagismo? 

Todo antropófago é canibal, mas nem todo canibal é antropófago.

Explico.

O Canibalismo ocorre quando um individuo de uma espécie come outro representante da mesma espécie. Não é exclusivo do universo humano.

No caso do Louva-a-deus o canibalismo é cometido pela fêmea, que devora o macho depois do ato sexual.

Já a Antropofagia (do grego anthropos, “homem” e phagein, “comer”) ocorre especificamente quando um individuo humano come a carne de outro ser humano.

Canibais brancos e cristãos

Ainda que após o contato entre europeus e os povos indígenas, estes últimos tenham sido associados a antropofagia, os colonos brancos (e cristãos) também não ficaram de fora.

Durante o ano de 1609 na cidade de Jamestown, uma das primeiras experiências colonizadoras na América, os colonos ingleses precisaram recorrer ao canibalismo como forma de sobreviverem ao rigoroso inverno que se abateu sobre o assentamento. 

O canibal é o outro

Sendo um dos principais tabus da humanidade, o canibalismo sempre é associado a alguém pertencente a alguém de outro grupo. Nunca a nós.

O Kindilfresser é um comedor de crianças da Suíça cujas origens podem estar relacionadas ao preconceito contra os judeus.

Judeus, muçulmanos, índios, negros… todos os que não pertenciam ao padrão branco, cristão e europeu eram enxergados como canibais em potencial.

O Papa figo é um negro leproso que coloca as crianças no saco para depois comer o figado delas.

No folclore do Brasil, esse preconceito está expresso em criaturas canibais ligadas ao medo infantil, tais como o Papa figo e o Quibungo.

O Quibungo é negro e tem uma bocarra nas costas por onde ele enfia as crianças que pega.

Para saber mais sobre essas e outra criaturas, leia o post aqui do blog “Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?”

O canibalismo no Cinema

Depois de passar pela Mitologia e pela História, o canibal encontrou no Cinema o espaço ideal para mostrar seu apetite.  

Os pais dos canibais cinematográficos

Dois filmes da década de 1960 foram os responsáveis por promover uma verdadeira invasão de comedores de carne humana no Cinema dos anos setenta.

Para assistir ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

  1. Mondo Cane (1962)

Produção italiana que inaugurou o gênero Shockumentary, este filme traz vários costumes e práticas de povos e comunidades ao redor do mundo, dentre os quais, o canibalismo.

2. A noite dos mortos-vivos (1968) 

Filme que reinventou o personagem folclórico do zumbi no cinema e introduziu o tema do canibalismo no fantástico. O primeiro zumbi canibal está aqui

Se quiser saber mais sobre zumbi, veja o vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 curiosidades monstruosas: Zumbi”.

Os anos de fartura para o canibal

Os anos setenta foram os anos dourados do canibalismo no Cinema dado o grande número de produções na Itália e nos Estados Unidos com esta temática.

Estes filmes podem ser encontrados no YouTube e para assistir abaixo ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

Cito abaixo as produções mais relevantes para a Ficção Científica e o Horror:

  1. No mundo de 2020 (Soylent Green / 1973) 

Se A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells é o primeiro romance de ficção cientifica a tratar do canibalismo, No mundo de 2020 é a primeira distopia a tratar do tema no Cinema. 

Vivendo em um mundo onde a ração Soylent Green é distribuída a população faminta, o policial vivido por Charlton Heston inicia uma investigação sobre a morte de um executivo que o leva a descobrir do que a ração é feita.

2. O massacre da serra elétrica (The Texas Chain Saw Massacre / 1974)

Clássico do Horror, o filme de Tobe Hooper ganhou uma refilmagem em 2013 para celebrar os 40 anos do original. 

O filme introduziu o canibal Leatherface, considerado um dos maiores vilões de todos os tempos e que antecipou outros assassinos de adolescentes nos anos seguintes em filmes como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

3. A montanha dos canibais (La montagna del dio cannibale / 1978)

Trazendo a bela Ursula Andress como protagonista, este filme se insere nas produções do ciclo canibal italiano iniciada em 1972 com The Man from the Deep River e apela para a temática da Literatura de Raças Perdidas como pretexto para cenas de nudez, violência extrema e até zoofilia, por conta da cena de um canibal transando com uma porca!

O canibal no espelho

As últimas décadas do século vinte e o início do século vinte e um forneceram o contexto para uma renovação do canibalismo no Cinema ao subverter a fronteira entre o civilizado e o selvagem, entre o Eu e o Outro. 

A modernidade faz do ser humano um canibal.

Este é o caso dos filmes abaixo. Para assistir aos trailers, basta clicar nas imagens.

1. Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust / 1980)

Ao contrário do que se pode pensar, Bruxa de Blair (1999) não foi o primeiro filme de horror do gênero Found footage e Mockumentary, isto é, produção que simula a descoberta de material de filmagem de um equipe cinematográfica desaparecida durante a realização de pretenso documentário.

Na frente das câmeras, documentaristas idealistas, por trás das câmeras, sádicos urbanos

Este mérito cabe a Holocausto canibal, conhecido como “O filme mais polêmico e controvertido de todos os tempos”.  

Banido de vários países, esta produção italiana levou o diretor Ruggero Deodato aos tribunais por ser acusado de realizar um Snuff Movie, ou seja, um filme em que um assassinato real é realizado para fins lucrativos e de entretenimento.

Na ocasião ele teve de provar que todos os atores estavam vivos e bem.

No filme, a equipe de filmagem agride os indígenas de todas as formas.

O maior impacto de Holocausto canibal foi deslocar a barbárie dos índios canibais para os jovens cineastas, que praticaram todo o tipo de crueldade com os indígenas em busca de um documentário impactante.

A cena da câmera que fica gravando depois da morte do último personagem, foi inventada neste filme.

O resultado foi a vingança dos nativos contra uma nova espécie de monstro: o homem civilizado.

2. O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs / 1991)

Adaptação do segundo romance de 1988 de Thomas Harris, este filme ganhador de vários óscares apresenta no cinema o psiquiatra Hannibal Lecter.

Vencedor de vários prêmios, o filme rendeu o Oscar de Melhor Ator para Sir Anthony Hopkins.

Culto, cortês e elegante, mas também sádico, manipulador e… canibal, Hannibal Lecter é a incorporação do ambiente de fim de século, mostrando que por trás da capa superficial de civilidade do ser urbano existe um monstro pronto a emergir.     

3. Psicopata americano (American phycho / 2000)

Baseado no romance de 1991 de Bret Easton Ellis e adaptado para o cinema em 2000, a obra é ambientada nos anos oitenta e traz como protagonista um Yuppie extremamente competitivo e narcisista.

O filme traz o sempre excelente Christian Bale como o psicopata Patrick Bateman.

Assim como o livro, o filme foi cercado de polêmicas sobre os limites entre a arte e a violência gratuita.

Crítica feroz ao Capitalismo selvagem, Psicopata americano perturba por criticar uma geração que quanto mais tinha menos sentia, quanto mais subia na carreira profissional mais descia na civilidade a ponto de, em uma escalada de violência, se tornar canibal.

4. A estrada (The Road / 2009)

Nesta distopia baseada no romance de 2007 do escritor Cormac McCarthy e premiado com o Pulitzer, pai e filho precisam atravessar uma América pós-Apocalíptica rumo a um local seguro enquanto enfrentam, entre outros perigos, pessoas que aderiram a prática do canibalismo.

Os recentes casos de barbárie e vandalismo presenciados no início de 2017 tanto nos presídios brasileiros por conta da luta entre facções quanto no estado do Espírito Santo em virtude da greve da polícia não deixam duvidas sobre o canibalismo ser uma realidade a se temer quando da decadência da sociedade.  

5. Grave (Raw / 2017)

Justine é uma jovem vegetariana que acaba de ingressar na faculdade de Veterinária seguindo, assim, os passos da família.  

O problema é que, após sofrer um trote no qual precisa comer carne, a menina começa a manifestar impulsos canibais. 

Bullying, distúrbios alimentares, culto ao corpo, relacionamento amoroso nos tempos atuais, tudo passa pela temática do canibalismo neste que promete ser um dos filmes mais polêmicos do ano de 2017.

6. Santa Clarita Diet (2017)

Esta série cômica da Netflix prova que o zumbi ainda pode render boas histórias quando os roteiros ajudam a contar uma boa história.

A série não foca nos motivos que levaram a corretora de imoveis Sheila a ser tornar uma morta-viva, preferindo mostrar as consequências dessa transformação sobre sua família.

Os episódios centram na gradual adaptação da família ao nova condição da mãe e esposa, ao mesmo tempo em que mostra a personagem se sentindo mais viva do que nunca depois que morreu e passou a comer pessoas.

Vale assistir. 

Gostou? Então lembre que o vídeo desta semana do FANTASTICURSOS no YouTube também é sobre Canibalismo. 

Basta clicar aqui.

Então deixe seu comentário ai embaixo e compartilhe este post com seus amigos carnívoros, vegetarianos, veganos e canibais.

Até a próxima semana.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

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Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com