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O porquê de Capitão Marvel/Shazam ser o maior super-herói das HQs

Ilustração do desenhista Alex Ross para a edição da série O REINO DO AMANHÃ (1996)Por que a figura do super-herói faz sucesso mundial independente da idade, gênero ou religião?

Semelhante as religiões do passado e mesmo nas de hoje, os super-heróis presentes em revistas e filmes atraem pessoas, inspiram e ajudam a preencher a necessidade do ser humano por algo além de sua realidade cotidiana.  

Novos deuses produzidos pela indústria cultural e que refletem o espaço e metamorfose do divino na sociedade consumista contemporânea.  

E tudo começou em Junho de 1938 com o nascimento da Era de Ouro dos Quadrinhos. 

O salvador vem do espaço

A cultura dos Super-heróis tem início na revista Action Comics #1 de Junho de 1938 que trouxe a icônica imagem na capa do Superman levantando um automóvel.

Um exemplar dessa revista quebrou o recorde de leilões no Ebay em 2014 sendo vendida por três milhões e duzentos mil dólares.

Dado a overdose de super-heróis em nossa sociedade hoje, é difícil imaginar o profundo impacto que o Superman trouxe para a cultura americana na época, pois até então, nunca antes na era moderna os leitores tinham lido uma história em que um homem pudesse fazer as coisas que o filho do planeta Kripton fazia. 

O sucesso sem precedentes do Superman, é claro, abriu os olhos dos editores da época e incontáveis heróis uniformizados mascarados ou não, com superpoderes ou habilidades especiais invadiram a América no fim dos anos 30 e toda a década de 40.

Super-heróis da Era de Ouro dos quadrinhos no traço de Alex Ross

Falei desse cenário, no caso abordando as primeiras super-heroínas, em outro post do blog que você pode ler clicando aqui.

Com maior ou menor sucesso, super-heróis e super-heroínas se estabeleceram ou sumiram tão repentinamente quanto surgiram, todos sempre tentando repetir o sucesso e, principalmente, a mística do Homem de Aço.

Super-heróis da Era de Ouro dos quadrinhos no traço de Alex Ross

Afinal de contas, sendo a criação de dois jovens judeus que tentavam ser bem sucedidos na América, Superman trazia consigo todo o simbolismo de ser um alienígena vindo de outro planeta e que, após crescer em uma fazenda, vai tentar a sorte na cidade grande de forma discreta e anônima esperando a oportunidade para usar seus talentos.

A essa imagem do imigrante que busca seu lugar no American Dream e que tinha forte apelo junto a boa parte de outros leitores também pertencentes a famílias de recém-chegados ao pais, a força simbólica do Superman vinha também de suas conexões no Judaísmo, sendo o personagem uma releitura do Messias que vem ao nosso mundo para salvar a humanidade.

Essa dimensão religiosa ganhou novos ares dentro de uma contexto em que o Superman é apresentado como uma alienígena que chega a Terra em sua nave oriundo de um planeta moribundo, algo alinhado com a crescente popularidade da Ficção Científica em meio a jovens fascinados com a promessa do progresso e da Ciência na época.    

Essa conjuntura de fatores fez do Homem de Aço um personagem imbatível dentro e fora dos quadrinhos, ou pelo menos foi assim até o início dos anos 40 quando surgiu um novo herói que não apenas rivalizou com Superman mas também o suplantou na preferência dos leitores: Capitão Marvel.

O Mortal mais Poderoso da Terra

Basta olha a capa da edição de estréia do Capitão Marvel na Whiz Comics #2 para perceber como desde o início National Comics (atual DC Comics) e a Fawcett Publications (do Capitão Marvel) se enfrentaram.

Criado em fins de 1939 e tendo sua estréia oficial na revista Whiz Comics #2 de fevereiro de 1940 o Capitão Marvel teve sua primeira aparição de fato na revista Flash Comics em uma edição preto-e-banco distribuída gratuitamente para patrocinadores (chamada de edição ashcan).

Publicação ashcan de Janeiro de 1940

Nesta publicação ele ainda tinha o nome de Capitão Trovão (Captain Thunder).  

Origem

O Mortal mais Poderoso da Terra, como ficou conhecido (e que servia para também alfinetar o alienígena Superman) foi criado pelo editor da Fawcett Publications Bill Parker a partir de uma pedido da editora, que até então só publicava histórias de humor, para entrar no lucrativo e crescente ramos dos super-heróis.

Originalmente a ideia de Parker era criar um supergrupo (o que seria inédito para a época) composto por seis jovens, cada um com o poder de um deus ou herói mitológico, mas os editores da Fawcett rejeitaram a ideia e todos os poderes foram concentrados em apenas um personagem.  

Tanto o nome Capitão Trovão quanto a ideia do supergrupo das crianças foram homenageados no arco FLASHPOINT da DC Comics, aparecendo na edição Flashpoint #4

Para a arte foi chamado o desenhista C. C. Beck que com a ajuda do seu assistente Pete Constanza moldou a imagem do Capitão Marvel a partir das feições de Fred MacMurray (imagem abaixo), grande astro do Cinema da época. 

Dentre centenas de revistas de super-heróis que inundavam as bancas de jornais e mercadinhos do período, as histórias do Capitão Marvel se destacaram pelo seu grau de inocência, apuro visual da arte de C. C. Beck e inovações editoriais e a Whiz Comics se tornou um estrondoso sucesso, principalmente junto as crianças.

Tempos depois, o veterano escritor de ficção científica Otto Binder substituiu Bill Parker nos roteiros e o personagem alcançou o seu auge nos anos da década de 1940.  

Poderes

Apesar de algumas mudanças ao longo dos anos, a origem do personagem começa de forma geral quando o órfão Bily Batson, sendo uma criança de coração puro apesar das adversidades, é escolhido pelo Mago Shazam para se tornar o campeão da justiça Capitão Marvel.

Para a transformação, acionada por meio de um relâmpago místico, bastava que Billy Batson dissesse o nome do mago, um acrônimo formado pelas letras S.H.A.Z.A.M. e que correspondia aos nomes dos seres lendários que lhe conferiam poderes. São eles:   

  • Salomão, que lhe conferia Sabedoria;
  • Hércules, que lhe conferia Força;
  • Atlas, que lhe conferia Resistência;
  • Zeus, que lhe conferia o Poder do relâmpago;
  • Aquiles, que lhe conferia Coragem e;
  • Mércurio, que lhe conferia Velocidade

Enquanto o Superman trazia o novo espírito científico das revistas da Ficção Científica para as HQs apontando para o futuro, o Capitão Marvel se alicerçava no charme do passado, apostando em uma releitura da tradição da magia e do mitológico que já produzia combatentes do crime místicos desde 1934, com o personagem Mandrake, de Lee Falk, o primeiro do tipo. 

Inovações de sucesso

A Fawcett Publications apresentou uma série de inovações em suas revistas de super-heróis que as diferenciaram das publicações de outras editoras, incluindo ai a National Comics (atual DC Comics), provocando os ânimos da até então líder do mercado. Dentre estas, cito aqui:

  • Histórias seriadas divididas em capítulos (as outras editoras apresentavam histórias fechadas em cada edição);
  • Uniforme diferenciado (até hoje considerado um dos mais elegantes do gênero e que diferenciava o herói dos demais heróis com a famigerada cueca por cima da calça, heranças das raízes circenses dos personagens);

  • Crossover entre super-heróis (Capitão Marvel encontrou os outros heróis da editora, Spy Smasher e Bulletman respectivamente nas edições Whiz Comics #15 e Master Comics #21);

  • Super grupo de vilões (A Sociedade Monstruosa do Mal foi apresentada em uma arco de 25 edições que durou entre 1942 a 1945).

  • Introdução em 1942 da primeira versão feminina independente, e não apenas uma parceira,  de um super-herói (Mary Marvel, antecedendo em quase uma década o surgimento de Supergirl).

O resultado dessas práticas inéditas foi traduzida em números, e a revista Captain Marvel Adventures vendeu em 1944 um total de 14 milhões de cópias e um milhão e trezentas mil cópias em média por edição durante o período em que foi publicada duas vezes por semana, se tornando os quadrinhos mais vendidos nos anos da década de 1940 superando, e muito, as revistas do Superman.

Além disso, o Capitão Marvel foi o primeiro super-herói adaptado para o Cinema, o que ocorreu já em 1941 no seriado em doze partes As Aventuras do Capitão Marvel, trazendo o ator Tom Tyler como o herói.

Luta de titãs

Cartum satirizando a disputa judicial entre a National Comics e a Fawcett .

Apenas um ano depois da estréia do Capitão Marvel e como reação ao enorme sucesso do personagem, a National Comics resolveu iniciar em 1941 um dos mais longos processos jurídicos da indústria dos quadrinhos até hoje contra a Fawcett Publications.

Após sete anos de litigio o caso foi a julgamento e em 1948 a Fawcett foi inocentada do crime da acusação de que o Capitão Marvel era uma cópia do Superman, mas em recurso impetrado pela National o caso foi novamente julgado e em 1953 a Fawcett perdeu.

O fim

Esgotada financeiramente pela disputa judicial e pela queda generalizada das revistas de super-heróis na década de 50, a Fawcet parou de publicar as aventuras do Capitão Marvel na Whiz Comics na edição #155 (Junho de 1953), na Captain Marvel Adventures na edição #150 (Novembro de 1953), e na The Marvel Family na edição #89 (Janeiro de 1954).

Era o fim da Família Marvel deixando milhões de fãs sem os seus super-heróis favoritos.  

Herança e retomada

Ainda nos anos 50, surgiu na Inglaterra outro super-herói em homenagem ao Capitão Marvel da Fawcett e que recebeu inicialmente o nome Marvelman, cujas publicações duraram até 1963.

Ao ser resgatado do ostracismo nos anos 80 pelo escritor Alan Moore Marvelman foi rebatizado como Miracleman, visto que a editora Marvel Comics havia criado um novo Capitão Marvel em 1967.

E o verdadeiro Capitão Marvel? 

Após comprar os direitos de publicação do super-herói no início dos anos 70 a agora DC Comics apresentou o personagem para uma nova geração na revista Shazam #1, de 1973.

Impedida de nomear a revista de Captain Marvel devido ao personagem da Marvel Comics, a DC usou o nome do personagem apenas no interior da revista.

Isso durou até a reformulação intitulada Novos 52, de 2011, quando de forma definitiva o personagem foi rebatizado de Shazam, recebendo, assim, o nome do Mago que concedeu os poderes ao jovem Billy Batson.

Ainda assim, talvez por lembranças do passado, até hoje a DC Comics nunca soube dar ao personagem o papel de destaque que ele tinha no passado. 

O segredo do Super-herói

Mas, afinal de contas, qual teria sido o segredo para o Capitão Marvel/Shazam ter alcançado durante a Era de Ouro dos Quadrinhos o status de maior super-heróis de seu tempo?

Para o crítico Christopher Knowles, o personagem é mais interessante que Superman principalmente porque ele não é uma pessoa real, mas sim uma entidade mágica no qual o jovem Billy Batson se transubstancia quando murmura o encantamento ocultista “Shazam”.

Este elemento central, apontado por Knowles, aparece mencionado por outras pessoas do mundo dos quadrinhos como  Jack Kirby, Bill Sienkiewicz, Mark Waid, Alex Ross, Jeff Smith e Geoff Johns no sentido de que o Capitão Marvel encarna o verdadeiro espírito dos quadrinhos que leva os leitores, principalmente as crianças, a lê-los: a possibilidade de se imaginar, de se transformar em um super-herói

Diferente do Superman ou do Homem-Aranha, que fingem não ter poderes para se passar por pessoas normais, ou de Batman que conta apenas com suas habilidades físicas e intelectuais, Shazam vive em dois mundos: o dos mortais e dos deuses.

Condição única explorada pelo roteirista Mark Waid em Reino do Amanhã (1996).

Em O REINO DO AMANHÃ. o Capitão Marvel é o Salvador pois se sacrifica para o bem estarde dois mundos.

Contribui para o fascínio do personagem, como dito anteriormente, a releitura de elementos do mundo do Maravilhoso e do Ocultismo, como o poder da palavra mágica e o poder de voar.

Alias, o Superman passou a voar como uma maneira de tentar competir com o Capitão Marvel, pois até então o herói de Kripton apenas dava super saltos. 

Essa ligação de Shazam com o místico, que lhe confere também o epíteto de “Campeão da Magia” se alinha com as observações da escritora Nelly Novaes Coelho em Literatura Infantil (1997) sobre o fato do infantil e do primitivo não disporem de conhecimento científico ou racionalista, o que os aproximam do Maravilhoso como uma maneira de dar sentido ao mundo.

Por esta razão, as crianças sentem mais afinidade com o mágico Shazam do que com o extraterrestre Superman. E,no fim das contas, quadrinhos é fantasia.   

Sugestões de leitura

Com o anúncio do filme do Shazam o super-herói vai voltar a ficar na moda. Para se familiar com sua história recomendo os seguintes materiais disponíveis no Brasil e que não estão esgotados até o momento em que escrevo este post:

Se você gostou do post, compartilhe com seus super amigos e super amigas e até a próxima!

Fontes utilizadas

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil. São Paulo: Editora Ática, 1997.

JONES, Gerad. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. Trad. Guilherme da Silva Braga e Beth Vieira. São Paulo: Conrada Editora do Brasil, 2006.

KIDD, Chip, SPEAR, Geoff. Shazam! The Golden Age of the world’s mightiest mortal. New York: Abrams, 2010.

KNOWLES, Christopher. Nosso deuses são super-heróis. Trad. Marcello Borges. São Paulo: Cultrix, 2008.

TEITELBAUM, Michael, BEATTY Scott, GREENBURGER, Robert. The DC Comics Illustrated Encyclopedia. New York: DK Adult, 2008. 

VIOTTE, Michel. Once upon a time the superheroes (De Superman à Spider-Man: L’aventure des superhéros). Canada/França. DVD. 2001 .

 

 

 

 

7 investigadores do oculto pré-John Constantine pra você conhecer

John Constantine, criação do mestre dos quadrinhos Alan Moore com Stephen Bissette e John Totleben.

Mesmo a pessoa mais cética não pode negar que o oculto exerce um estranho fascínio sobre a humanidade.

O Detetive do Pesadelo Dylan Dog completou 30 anos de existência em 2016.

Os limites entre o nosso mundo e o além, ou melhor, a manifestação do além em nosso mundo desperta o interesse do ser humano por tocar em um dos maiores tabus da vida: a morte.

O legionário Antonius Axia combate o sobrenatural na Bretanha

Neste quesito, destaque para o Investigador do Oculto

O Investigador do Oculto

Para este texto vou tomar aqui a definição de Sage Leslie-Mccarthy para “Detetives psiquicos”, mencionado por ele em sua Tese de Doutorado, que você pode acessar na integra a partir do link no fim deste artigo.

Para Sage Leslie-McCarthy,

“Essencialmente, a ficção de detetive psíquico envolve a investigação de eventos reportados como sobrenaturais por um personagem, ou personagens, que tentam compreender a natureza dos distúrbios e promover possíveis soluções.”

Dean e Sam contra o oculto
Os irmãos Winchester. Contra Deus e o Diabo.

Essa busca por desvendar e, por vezes, enfrentar o mundo invisível marca presença em diferentes expressões da cultura, seja na Literatura, nos Quadrinhos, no Cinema e na TV.

Esta série influenciou anos mais tarde, na década de 90, a criação da série ARQUIVOS X
Kolchak e os Demônios da Noite.

Se hoje a cultura pop conta com investigadores do oculto fictícios e reais tais como John Constantine (Hellbrazer), Dylan Dog (Bonelli Comics) Antonius Axia (Valiant Comics)*, os irmãos Winchesters Sam e Dean (Supernatural), Carl Kolchak (Kolchak e os Demônios da Noite) e o casal Lorraine e Ed Warren (Invocação do Mal) isso se deve a uma tradição literária que remonta a Antiguidade.

Veja então a seguir os 7 principais Investigadores do Oculto da Literatura que lançaram as bases para os personagens pop de hoje.

1. Atenodoro de Tarso

Ano de criação: 109 d.C.

Primeira aparição: Missivas litterae curatius
scriptae 

Criador: Plínio, o Jovem

Curiosidade: Personagem histórico que viveu nos primeiros anos da Era Cristã, o filósofo Atenodoro virou personagem de um relato escrito um século depois por Plínio, o Jovem no qual Atenodoro investiga um fantasma que assolava uma residência em Atenas.

Neste que é o primeiro relato de casa assombrada do Ocidente, Atenodoro passa um noite na casa e recebe a visita de um fantasma. Demonstrando frieza na situação o filosofo consegue descobrir que a aparição ocorria devido a falta do sepultamento apropriado dos restos mortais do fantasma, que se encontravam enterrados em um dos cômodos da casa.   

2. Doutor K

Ano de criação: 1817

Primeira aparição: Conto “A casa deserta” (“Das öde Haus”)

Criador: E. T. A. Hoffman

Curiosidade: Primeiro Doutor e investigador do oculto, o Doutor K. aparece no livro de contos  Nachtstücke (Contos Noturnos).

No conto, o personagem, que possui poderes  de clarividência, investiga um mistério sobrenatural que cerca uma casa. 

3. Dirk Ericson

O conto “The Haunted Homestead” pode ser encontrado neste ebook.

Ano de criação: 1840

Primeira aparição: Conto “The Haunted Homestead”

Criador: Henry William Herbert 

Curiosidade: Dirk Ericson aparece originalmente em um conto publicado em três partes no The Ladies’ Companion and Literary entre agosto e outubro de 1840  e que agora está disponível no ebook The Macabre Megapack: 25 Lost Tales from the Golden Age (2012).

Ele é o primeiro investigador do oculto na forma de detetive amador da Literatura e lida com um crime com elementos sobrenaturais. Para isso ele também conta com a ajuda dos personagens Asa e Enoch Allen.

4. Harry Escott

O conto “The Pot of Tulips” pode ser lido nesta coletânea

Ano de criação: 1855

Primeira aparição: Conto “The Pot of Tulips”

Criador: Fitz James O’Brien

Curiosidade: O primeiro investigador do oculto como detetive especialista no sobrenatural estreou na Harper’s New Monthly Magazine em novembro de 1855.

Quatro anos depois Harry Escott aparece novamente, desta vez no conto “What Was It? A Mystery,” publicado em março de 1859 na mesma revista.

As duas histórias foram republicadas na coletânea Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015).

Contando com a ajuda de outros personagens, Harry Escott investiga os mistérios do sobrenatural nas duas histórias.

5. Dr. Martin Hesselius

Ano de criação: 1869

Primeira aparição: Novela Green Tea

Criador: Joseph Sheridan Le Fanu

Curiosidade: Um dos principais investigadores doutores do oculto da segunda metade do século XIX e fonte direta para a criação de Abraham Van Helsing, o caçador de vampiros de Drácula, o Dr. Martin Hesselius apareceu ao longo de quatro edições do All the Year Round em outubro e novembro de 1869 enquanto durou a publicação de Green Tea.

Hesselius tinha o habito de guardar vastas anotações dos casos investigados por ele. Dentre eles, o mais famoso é o caso envolvendo Carmilla, a vampira de Karnstein.

Le Fanu usou os casos do Dr. Marin Hesselius como estrutura narrativa para o livro de contos In a Glass Darkly (1872). 

6. Dr. Abraham Van Helsing

Peter Cushing como Van Helsing nos filmes dos anos 60 produzidos pelo estúdio inglês Hammer.

Ano de criação: 1897

Primeira aparição: Romance Drácula

Criador: Bram Stoker

Curiosidade: Estima-se que o mais famoso Investigador do Oculto desta lista e da Literatura tenha sido criado a partir de diferentes fontes.

Além do Dr. Martin Hesselius, mencionado anteriormente, outras fontes apontadas como inspiração para Van Helsing foram o próprio Bram Stoker e o professor da Universidade de Budapeste Arminius Vambéry, pesquisador que ajudou Bram Stoker com informações iniciais sobre Vlad, o Impalador, modelo do vampiro Drácula. 

7. Diana Marburg

Ano de criação: 1902

Primeira aparição: Conto “The Dead Hand”

Criador: L.T. Meade e Robert Eustace

Curiosidade: A única mulher desta lista e primeira Investigadora do Oculto do século XX, Diana Marburg apareceu em uma série de contos originalmente publicados na versão americana da Pearson’s Magazine.

Na sequencia, os três contos apareceram na coleção The Oracle of Maddox Street (1904), de L.T. Meade. Atualmente estas narrativas podem ser encontradas no livro Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015)

A curiosidade maior com essa investigadora oculta de poderes místicos é a habilidade de investigar criminosos a partir da leitura da palma da mão. 

* Agradecimentos ao entusiasta de Quadrinhos Pedro Ventura pela indicação do investigador do oculto e legionário romano Antonius Axia. 

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

LESLIE-MCCARTHY, Sage. The Case of the Psychic Detective: Progress, Professionalisation, and the Occult in Psychic Detective Fiction from the 1880s to the 1920s. Tese de Doutorado. Queensland: Griffith University, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

NEVINS, Jess. The Encyclopedia of Fantastic Victoriana. Austin, Texas: Monkey Brain Books Publication, 2005. 

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos

Assassinas de bebês e matadoras de homens: conheça o povo da Mulher-Maravilha

O (excelente) filme da Mulher-Maravilha trouxe para o grande público a história de uma guerreira de Temiscira, local habitado apenas por mulheres que leva toda a força física e moral das Amazonas para o mundo dos homens.   

Mas, qual é a história por trás das Amazonas? 

O fato é que, aos olhos de hoje, a história dessas guerreiras chocaria o  grande público.

O nome estampado no peito

Como tudo relacionado a mitologia, há controvérsias quanto a origem do nome “Amazonas”.

Para algumas fontes, “Amazona” se refere a um povo iraniano – Há-mazan – cuja tradução é “Guerreiros”, mas para outros estudiodos a etimologia vem do prefixo alfa e a palavra mazos (“seio”), visto que, segundo alguns relatos, desde a infância elas tinha o seio  direito comprimido ou queimado para facilitar o manuseio do arco. 

Uma outra versão atribui ao “A” de “Amazonas” um valor aumentativo. Assim A + Mazos, que daria origem ao nome desse povo, seria traduzido como “As mulheres de seios grandes”. 

Por fim, alguns estudiosos localizam a origem da palavra no termo grego Amazoi, que quer dizer “sem seios”, mais uma vez fazendo menção a prática de auto-mutilação do seio direito.

História ou Lenda? 

Segundo Heródoto, o “Pai da História”, relata em 440 a.C., as Amazonas seriam as antepassadas dos Sármatas (ou Sauromatas como os romanos chamavam), povo nômade que vivia na região do Mar Cáspio entre os séculos 8 a.C. e 4 a.C..

Mulheres de respeito

Os Sármatas seriam descendentes diretos da união entre as Amazonas e o povo Cita. Nessa união os homens citas seriam usados como reprodutores para a geração de novas amazonas.

De fato, a Arqueologia já demonstrou que na sociedade sármata a mulher tinha um papel de destaque, o que indicaria a conservação dessa herança cultural.

Uma jovem sármata, por exemplo, só poderia se casar se trouxesse a cabeça de um inimigo. Outra evidência desse possível legado é o fato de que algumas sepulturas femininas sármatas ocupavam lugar de destaque no centro de cemitérios.

As matadoras de homens…

Ainda segundo Heródoto, as Amazonas eram descritas como androctonus, ou seja, “matadores de homens” e eram representadas como guerreiras que lutavam montadas em cavalos e portando espadas e machados.

A sua terra, Temiscira, ficava na região da Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia, próximo ao litoral, dai vem a ideia nas histórias em quadrinhos de que as amazonas viviam em uma ilha.

… e de bebês homens também?

Depois de Heródoto, é Hipocrátes nos anos de 400 a.C. o principal fornecedor de informações presumivelmente “históricas” sobre as Amazonas.

Como relata o “Pai da Medicina”, as Amazonas viam os homens apenas como reprodutores e os encontravam apenas uma vez por ano para uma curta estação de amores. Essa atividade também foi objeto do registro de Diodoro da Sicília no século 1 de nossa era. 

Se desse encontro saísse homens, o menino era entregue ao pai. Já as meninas eram levadas para se tornarem amazonas.

Como visto no filme da Mulher-Maravilha, essas jovens seriam instruídas no manejo do arco, do escudo, do dardo, e na arte de cavalgar em pêlo, ou sobre uma simples manta. 

Hipócrates relata que as Amazonas por vezes mantinham os bebês homens para tarefas específicas dentro de Temiscira, como o artesanato e outras atividades secundárias.

Como seu interesse era a Medicina, chamou a atenção de Hipócrates o fato de que, ainda bebês, esses meninos tinham os joelhos e a bacia deslocados para se tornarem mancos, de forma a, quando crescerem, não representarem uma ameaça as mulheres. 

O fato é que a versão de que as Amazonas matavam os bebês homens só foi surgir quase 600 anos depois do primeiro registro desse povo por Heródoto e foi feito pelo historiador galo-romano Pompeu Trogo na obra Histórias Filípicas, de cerca do século 3 de nossa era.

Mas, como mulheres guerreiras não soavam bem aos aos ouvidos cada vez mais patriarcais de Roma, essa visão das Amazonas assassinas de bebês homens ganhou força ao longo dos séculos posteriores. 

Guerreiras mitológicas contra Hércules

Na Mitologia Greco-romana destaco aqui os dois principais momentos das Amazonas, dentre tantos.

Na Ilíada, de Homero um dos 12 trabalhos impostos a Hércules era roubar o Cinturão usado pela soberana das Amazonas, a ousada Rainha Hipólita, dado a ela pelo seu pai, o Deus da Guerra Ares como mostra do poder de Hipólita sobre as guerreiras. 

Sim, se existisse na Mitologia grega a Mulher-Maravilha seria a neta de Ares. 

O herói grego e a rainha Amazona entram em um acordo e Hipólita decide entregar o Cinturão para Hércules. Esta decisão, no entanto, despertou a fúria de Hera, esposa de Zeus e inimiga jurada de Hércules. 

Hera assume a forma de uma Amazona e promove a discórdia entre os homens de Hércules e as guerreiras. Ao saber da confusão, Hércules pensa ter sido traído por Hipólita e mata a rainha das Amazonas. A soberania das mulheres guerreiras passa para a irmã da rainha assassinada, Penteseléia.

As Amazonas na Guerra de Tróia

Outro momento chave da participação das Amazonas na Mitologia Greco-romana está registrado na Eneida, de Virgílio e ocorre quando as guerreiras se aliaram ao Rei Príamo, de Troiá, contra a ofensiva grega a cidade. 

Lideradas pela Rainha Penteseléia, as Amazonas socorreram o Rei Príamo na cidade sitiada da Frígia e marcharam até a cidade de Tróia.

Como relata Virgílio, a investida Amazona só terminou quando a espada de Aquiles infligiu um ferimento mortal a Rainha das Amazonas. Ao retirar a armadura de sua adversária, o herói ficou emocionado com a beleza de Penteseléia e se apaixonou. 

Estas foram apenas duas das varias narrativas presentes na mitologia greco-romana sobre as guerreiras que inspiraram  William Moulton Marston a criar, em 1941, aquela se tornaria a maior super heroína até hoje. 

Se quiser saber mais sobre o processo de criação da Mulher-Maravilha, leia o post do blog Fantasticursos clicando aqui

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Sousa. Mitologia grega. Vol. 3. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 1987.

MAGASICH-AIROLA, Jorge, BEER, Jean-Marc de. América Mágica: quando a Europa da Renascença pensou estar conquistando o Paraíso. Trad. Regina Vasconcellos. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

SHERMAN, Josepha. (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of Mythology and Folklore. New York: M. E. Sharpe , Inc., 2008.

WILDE, Lyn Webster. On the Trail of the Women WarriorsThe Amazons in Myth and History. New York: Thomas Dunne, 2000.

O lado pop de Lúcifer: Por que o Diabo fascina você?

 O Diabo é Pop

Lucifer from Milton's Paradise Lost by Gustave Dore
O (anti-)herói de John Milton

2017 marca os 350 anos do poema épico Paraíso Perdido (1667).

Paraíso Perdido é uma versão literária da historia encontrada no Gênesis, focando especificamente nos episódios da queda de Lúcifer, na criação do Jardim do Éden e na tentação sofrida por Eva que a levou, juntamente com seu marido Adão, a expulsão do Paraíso.

Temptation and Fall of Eve by William Blake
A tentação do fruto proibido

A obra foi o projeto maior do poeta e ensaísta inglês John Milton e que se alinhava com suas visões religiosas enquanto Puritano, ou seja, membro de um segmento radical do Protestantismo no século 17.

No entanto, o que chama a atenção em Paraíso Perdido é o fato que, quanto mais o leitor conhece o diabo de Milton, mais passa a admirá-lo.  

Isso acontece porque Lúcifer aparece sozinho no começo da obra e na tentativa de mostrá-lo como uma ser patético e arrogante que perdeu a luta contra Deus e foi atirado no inferno junto com outros de seu exército, John Milton acabou estabelecendo o Diabo como um dos primeiros anti-heróis da Literatura.

Simon Bisley's Paradise Lost (Satan’s Fall)
A queda de Satã

E é o diabo de John Milton que está por trás de dois personagens da cultura pop dos anos 90 e de hoje: O Lúcifer, da série em quadrinhos Sandman, e sua releitura na série televisiva do canal FOX de título Lúcifer

“Melhor reinar no Inferno que servir no Céu”

A frase acima mostra bem o caráter heroico impresso por John Milton em sua representação de Lúcifer.  

Corrado Giaquinto (Italian 1703–1756) [Baroque, Rococco] Saint Michael Defeats Satan, 1750. Pinacoteca Vaticana, Vatican City, Rome. – The Athenaeum
A derrota de Satã pelo anjo Miguel

Após sua fracassada tentativa de depor Deus como soberano do Céu por enxergar nele um tirano que não aceita contestações e não reconhece o grau de grandeza dos anjos, Lúcifer e seu exército é lançado ao Tártaro. 

Apesar da derrota, Lúcifer não perde sua arrogância e posição de liderança diante dos outros demônios.

“A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar. / A mente é o seu próprio lugar, e dentro de si / Pode fazer um inferno do céu, do céu um inferno.”

Ciente de sua posição como regente do Inferno, Lúcifer planeja seu plano de corromper a maior criação do Criador: O Homem. E é bem sucedido.

A queda de Adão e Eva e a expulsão do Paraíso

Os discípulos de Satã 

Durante o Romantismo, o Lúcifer de John Milton capturou a imaginação de poetas e escritores do século 19 não apenas na Europa, mas também no Brasil com o Ultraromantismo.

O personagem ajudou na criação do “herói romântico” que, como tal, mesmo em condições adversas ou prevenindo contra suas ações enfrenta crenças estabelecidas, ou o sistema dominante, em busca de mudança e paga o preço por suas ações. 

Apenas para citar um exemplo, este é o caso de Victor Frankenstein, cuja obsessão em desafiar o domínio da Natureza (e da condição feminina) em prover a vida faz uso de sua Ciência (masculina) pra criar uma criatura abominável que o faz pagar o preço pelas suas ações. 

Releitura nos Quadrinhos

O Lúcifer de John Milton foi reinterpretado no fim dos anos 80 na série quadrinista Sandman (1989-1993), escrita pelo escritor inglês Neil Gaiman.

Neil Gaiman fez a estréia de Lúcifer Estrela da Manhã na revista Sandman #4 de abril de 1989, solicitando que os artistas da revista utilizassem o cantor e ator David Bowie como referência para a aparência do regente do inferno.

Em outro arco da série (Estação das Brumas), após governar o Inferno por 10 bilhões de anos, manipular os demônios para manter seu controle e manter sua guerra contra o firmamento, Lúcifer se sente entediado de sua tarefa.  

Dentre as razões para seu tédio, estão os estereótipos que os humanos fazem sobre sua figura, atribuindo os problemas de suas vidas a ele.

Assim, Lúcifer decide passar o comando do Inferno para Morpheus, o Sandman.

Livre de seu domínio, Lúcifer passa a viver a vida terrena, primeiro na Austrália e depois, muito apropriadamente, na cidade dos Anjos, Los Angeles.

Lá, ele passa a dirigir um piano bar em companhia de outros seres sobrenaturais.  

Lúcifer ganhou uma série própria de 2000 a 2006 em 75 edições escritas por Mike Carey.

Alinhado com sua base literária na epopeia Paraíso Perdido, Lúcifer é um anti-herói arrogante e muitas vezes inconsequente em suas ações, sempre se envolvendo em conflitos.    

Releitura na Televisão

Exemplificando como uma expressão artística alimenta a outra, o personagem Lúcifer, Estrela da Manhã da série Sandman, baseado no Lúcifer miltoniano, foi reinterpretado para a série televisiva Lúcifer

O capeta é interpretado pelo ator Tom Ellis

Produzido pelo canal FOX dos Estados Unidos e tomando como base a série em quadrinhos de Mike Carey, os episódio de Lúcifer mostram as aventuras do ex-Senhor dos Infernos em Los Angeles e seu envolvimento com a Detetive da Polícia Chloe Decker.

Fascinado e intrigado pelo fato da detetive resistir aos seu charme, Lúcifer passa a se envolver nos casos da Polícia ao mesmo tempo em que é advertido por seu irmão Amenadiel a reassumir seu lugar no inferno.

A série, até o momento da escrita deste post, conta com três temporadas anunciadas.

Respondendo a pergunta do título deste post – Por que o diabo fascina? – é fácil entender o fascínio deste personagem desde 1667 até os dias de hoje na Literatura, Quadrinhos e Série de TV. 

Rebelde, charmoso, confiante, elegante, bonito, cativante e inteligente, o diabo criado por John Milton reúne todas as qualidades esperados de um personagem que desperta admiração por parte do público.

E isso não é de hoje…

Lúcifer antes de Lúcifer

Se mesmo o protestante radical John Milton não conseguiu diminuir o encanto de seu personagem Lúcifer isso se deve a toda a tradição histórica relacionada ao Lúcifer que o Cristianismo herdou do Judaísmo.

Da primeira deportação dos judeus em 609 a. C até o fim em 538 a. C., o contato dos judeus com as divindades estrangeiras durou 70 anos.

O curioso neste caso é que Lúcifer e alguns dos seres relacionados a ele, por vezes tomados como variações do mesmo ser, como Asmodeus, AstarothBelzebu não nasceram no meio do povo judeu.

Esses seres tem sua origem relacionada as divindades dos opressores dos judeus, principalmente durante o período conhecido como o Cativeiro da Babilônia no século 6 a.C., quando os hebreus foram cativos na Babilônia.

Asmodeus

Associado a Luxuria, Asmodeus possui três cabeças, uma de homem, uma de Touro e outra de Carneiro, símbolos de virilidade e fertilidade. 

Asmodeus (Aeshma deva) nasceu a partir da divindade persa da tempestade.

Astaroth 

Representado como um homem nu de asas e com mãos e pés de dragão e um segundo par de asas com plumas abaixo do principal, levando uma coroa, segurando uma serpente com uma mão e cavalgando sobre um lobo ou um cachorro.

Astaroth (Ashtoreth) nasceu a partir da deusa lunar cultuada na Mesopotâmia com o nome de Ishtar.

Belzebu

Belzebu, dentro da tradição cristã, é o Príncipe dos demônios. 

Belzebu (Baal-Ze-boub), ser de etimologia complexa, nasceu a partir do deus filisteu Baal e siginifica “O Senhor das Moscas”. Antes relacionado as pestilências, na tradição dos Sete Pecados Capitais do século 6 passou a ser relacionado a Gula.

E o Estrela da Manhã? 

Assim como seus companheiros regentes do Inferno, Lúcifer também se origina entre os inimigos do povo judeu.

Neste caso específico, como bem coloca Carlos Roberto Nogueira em O Diabo no imaginário cristão (2000),  a origem do nome Lúcifer – o astro da manhã, o filho da aurora, a “estrela” Vênus – está associado a queda do rei da Caldéia.

Esta relação aparece pela primeira vez em Isaías (14:12), onde o profeta debocha  do rei após a sua queda para designar um regente caído, líder de exércitos:

“Como é que você caiu do céu, heylel, filho da aurora?”

Foi com a ambiciosa tradução da Bíblia para o inglês moderno realizada na Inglaterra do século 17, que ficou conhecida como a Bíblia do Rei James, que a palavra hebraica “heylel” foi traduzida como “Lúcifer”.

Assim, tendo sua origem ligada tanto a um personagem nobre quanto também a divindades e seres relacionados a realeza infernal, surgiu o elegante e cativante Lúcifer que dominou a imaginação de John Milton em 1667.  

E o resto é história…

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Fontes utilizadas

BENDER, Hy. The Sandman Companion. London: Titan Books, 2000.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: EdUSP, 1988.

COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro: Rosa dos ventos, 1996.

MACK, Carol K., MACK Dinah. A Field Guide to Demons, Fairies, Fallen Angels, and Other Subversive Spirits. New York: Henry Bolt and Company, 1999.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. Bauru, SP: EDUSC, 2000.

SILVA, Alexander Meireles da. Literatura Inglesa para Brasileiros: Curso completo de Literatura e Cultura Inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.  

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

30 anos depois… você está no mundo cyberpunk dos anos 80?

Em 1987, há exatos trinta anos, Robocop: o policial do futuro estreou no Cinema norte-americano trazendo por trás de seu roteiro de ação e violência extrema um debate sobre a relação Homem x Máquina  na sociedade ocidental de fins de século vinte.

Muito melhor que a refilmagem do século 21.
ROBOCOP (1987)

Essa visão foi compartilhada por outros filmes dos anos 80, tais como Blade runner: o caçador de androides (1982) e Exterminador do futuro (1984).

O tempo só fez o filme ficar melhor
Clássico cult dos anos 80

Essa recorrência ao tema do impacto da tecnologia sobre a humanidade também se fez presente na Literatura e também no mundo das Histórias em Quadrinhos da época.

Clássico dos filmes de viagens no tempo
Exterminador modelo T-100

O ponto em comum a todas essas produções foi a percepção de que um novo subgênero da Ficção Científica ganhava força no período, demonstrando que os avanços da tecnologia não representaram avanços da sociedade como um todo.

Livro cyberpunk que influenciou Matrix (1999)
Neuromancer (1984)

30 anos depois de Robocop, e considerando o impacto da tecnologia no nosso meio, fica a pergunta:

Estaríamos em 2017 no mundo do Cyberpunk

Ghost in the Shell
Ghost in the Shell (1989)

O que é Cyberpunk?

Focando na ideia do High Tech e Low Life, ou seja, Alta Tecnologia e Baixa Qualidade de Vida, o Cyberpunk trata de narrativas onde os avanços e inovações tecnológicas convivem com a deterioração social.

Elysium (2013) mostra bem o contraste entre o High Tech e o Low Life.

Estas duas ideias estão presentes nos termos que compõem a palavra Cyberpunk.

Cyber-

Originado na palavra Cybernetics (Cibernética), Cyber- se refere a um futuro onde forças políticas e econômicas são globais em virtude da tecnologia empregada. 

Frequentemente estes locais de poder se apresentam separados e mesmo isoladas dos segmentos desprivilegiados do mundo cyberpunk.

Cyber- também se refere a manifestação no corpo da ligação entre homem e tecnologia.  

punk

O termo -punk tem origem no cenário musical dos anos 70, marcado pela crítica forte a cultura dominante e as instituições de poder.

O -punk, enquanto postura cultural, é antiautoritário, pessimista, anárquico e igualitário.

O Cyberpunk antes dos punks 

Ainda que o Cyberpunk tenha sua origem ligada as últimas décadas do século vinte, sua presença pode ser traçada já nas décadas de 50 e 60 do século vinte. Antes mesmo de receber esse nome.

A série ainda não foi lançada no Brasil
Capa da primeira edição de 1946

Nos anos da década de 1950 esse momento inicial está na série Gommerghast (1946-1956), de Mervyn Peake, em que Fantasia, Gótico e Ficção Científica se encontram em uma mesma obra.

O livro foi lançado em 1968 e serviu de base para o filme de 1982

Ainda na década de 50 e também ao longo dos anos de 1960, Philip K. Dick também explorou em seus contos e romances as angustias do homem moderno frente as mudanças de uma sociedade cada vez mais amparada na tecnologia e como essas mudanças afetam sua noção da realidade e de ser humano.

Bem-vindo a Matrix

A palavra Cyberpunk surgiu na edição de novembro de 1983 da revista Amazing Science Fiction com o conto “Cyberpunk”, de Bruce Bethke.

O termo foi posteriormente popularizado pelo editor Gardner Dozois para nomear as histórias de Ficção Científica de William Gibson e Bruce Sterling na década de 80, como a Trilogia do Sprawl.

Neuromancer é comumente aceito como o marco inicial deste subgênero da Ficção Científica nos anos 80 e apresenta os elementos que se tornaram padrão desta literatura:  

  • Governos opressores;
  • Mega corporações transnacionais;
  • Sistemas de Inteligência interligados;
  • Anti-heróis moralmente questionáveis e marginalizados. 

A década do Cyberpunk

Mas quais razões, afinal de contas, levaram o Cyberpunk a se tornar a principal vertente da Ficção Científica em fins do século vinte?

A crise do Petróleo nos anos 70 criou uma profunda crise econômica no Ocidente.

O Cyberpunk é o resultado de um série de eventos e fatores das décadas de 70 e 80 que se refletiram na ascensão de uma visão mais pessimista da sociedade.

Dentre estes fatores, destaco:

  • O aprofundamento da contestação do sistema por diferentes grupos sociais minoritários;  
  • A crise do Petróleo, que gerou uma profunda crise econômica ao longo da década de 70;
  • A ascensão de governos neoliberais na Inglaterra (Margaret Thatcher) e nos Estados Unidos (Ronald Reagan) que afetaram a classe trabalhadora e aprofundaram as desigualdades sociais;
Reagan e Thatcher

A Ficção Científica, como sempre, refletiu as grandes questões de seu tempo de forma crítica e esse cenário de pessimismo se aliou aos avanços na área da informática e da cibernética. O resultado desse caldeirão: o Cyberpunk.

O início dos anos 80 foi também o começo de uma era digital que rapidamente se disseminou

Mas até que ponto o mundo de hoje, se tornou o mundo de, por exemplo, Robocop?

O mundo Cyberpunk de agora

Sendo um produto hollywoodiano, vamos pensar, com base no roteiro, como Robocop reflete a realidade dos Estados Unidos de hoje e, mais próximo a nós, a realidade do Brasil.

1. Cenário

Filme: Em Robocop vemos a cidade de Detroit, de um hipotético Estados Unidos da América no futuro, deteriorada pela criminalidade, trafico de drogas e corporações empresariais corruptas e gigantescas.

Realidade: O escritor Ray Bradbury, autor da distopia Fahrenheit 451 (1953) dizia que não escrevia Ficção Científica para prever o futuro, mas sim para evitá-lo.  

Mas, como não pensar que o mundo distópico do filme marcado pela violência extrema, roubos, estupro e trafico de drogas não se assemelhe ao encontrado nas grandes metrópoles brasileiras? 

O mesmo ocorre com as corporações empresariais cyberpunks caracterizadas pela corrupção, como as envolvidas na Operação Lava Jato no Brasil, ou as companhias norte-americanas que agora tem seu raio de ação ampliado com o governo do megaempresário Donald Trump.

2. Mídia

Filme: A mídia do mundo cyberpunk de Robocop é tendenciosa, manipuladora, alienadora e conivente com o sistema opressor.

As propagandas veiculadas refletem o consumismo, a falta de atendimento de saúde para todos, as consequências da agressão ao meio ambiente (veja o vídeo acima).

Um exemplo disso, como se vê abaixo, é o apelo a violência diante da falta de confiança na polícia, como a do sistema anti-furto “Magnavolt”.

Realidade: Se é desnecessário apontar as semelhanças com o Brasil, ainda mais na atual polarização política em que está a nossa sociedade, a mídia tradicional dos Estados Unidos também não fica atrás, como bem mostra a cruzada do Wall Street Journal em minar a audiência do YouTube com a acusação de que a mesma veicula conteúdos racistas e anti-semitas.  

3. Marginalização da população

Filme: Aproveitando da situação de caos, a megacorporação OCP (Omni Consumer Products) assina um acordo com o governo para combater a violência tendo em mente, na verdade, acabar com a parte pobre de Detroit para construir um novo empreendimento, a utópica Delta City.

A OCP passa a controlar a força policial e implementa sua estratégia cibernética para combater o crime: Robocop.

Os policiais, todavia, não gostam da administração da OCP e ameaçam parar suas atividades.

Realidade: A realidade de desemprego em Robocop encontra seu paralelo no Brasil, onde a crise econômica levou até mesmo a Polícia a demonstrar seu descontentamento.

A greve da Polícia no Estado do Espírito Santo, ocorrida em fevereiro de 2017, e a situação de caos vivida pela população nesta situação evidencia o lado -punk do cyberpunk focando na parte da sociedade não agraciada com os benefícios do avanço tecnológico.

Nos Estados Unidos, por sua vez, a eleição de Donald Trump ameaça os avanços sociais da administração de Barack Obama

4. A opressão do sistema

Filme: Robocop ocupa o duplo lugar, comum nas distopias e no Cyberpunk, do agente do sistema dominante ou integrante do sistema, que sai de sua alienação e se revolta contra a opressão.

Ainda que atue contra os bandidos, é perceptível o espaço de Robocop como o lado cyber- que oprime a população -punk do filme.

Enquanto permanece como Robocop, ele a corporificação do sistema, sem emoções e guiado pela lógica fria das estatísticas.

Quando reassume o lado humano Alex Murphy, Robocop se torna o anti-herói marginalizado que usa do seu conhecimento prévio para atacar a mesma sociedade que o criou, em busca de reparar parte do desequilíbrio entre os dois lados da sociedade.     

Realidade: O mundo como um todo está tendo uma guinada para a Direita, seja no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. 

Neste processo, como se percebe mais de perto no Brasil, a lógica dos números dos políticos (Cyber-) vem suplantando o lado humano afetado pelas estatísticas e servindo de justificativa para políticas contra a população desfavorecida (-punk).

O mesmo vem ocorrendo nos Estados Unidos, com mais resistência por lá.  

E aí? Quais outros aspectos da sociedade Cyberpunk de Robocop e outras obras na Literatura e no Cinema de 30 anos atrás você percebe em nosso mundo de hoje? 

Deixe seu comentário.   

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Obrigado pela leitura e até a próxima semana! 

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

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Qual é o seu super grupo favorito? Dos Argonautas aos Power Rangers

2017 é o ano dos super grupos no Cinema e nas Webséries: Power Rangers, Guardiões da Galáxia, Liga da Justiça, GuardiõesDefensores

Os heróis urbanos Punho de Ferro, Demolidor, Luke Cage e Jessica Jones formam os Defensores.

Os grupos formados por indivíduos com habilidades especiais que se unem voluntaria ou involuntariamente para servirem a um propósito maior existem desde antes da invenção das HQs, principal veículo de criação e propagação deles.

O primeiro grupo de super heróis russos, Os GUARDIÕES, mostra que os russos também querem competir com os americanos no Cinema.

Ilustrando a força do trabalho em equipe ou simplesmente representando a busca das empresas em vender mais com apenas um produto, os super grupos estão entre nós desde a Mitologia grega.

Veja abaixo um breve panorama histórico desse fenômeno que passa pela Literatura e a Cultura de Massa.

Na Mitologia

O primeiro grupo formado de personagens especiais unidos com uma missão, e se pode dizer também que é o primeiro super grupo, está na Mitologia Grega com Jasão e os Argonautas.

Jasão e os Argonautas

A fonte para esta história está na obra Argonautica de Apolônio de Rodes (século 3 a.C.), baseada em textos encontrados na Biblioteca de Alexandria.

OS ARGONAUTAS, pintura de Lorenzo Costa no Museu de Pádua, Itália

Ao reclamar o seu direito ao trono de Lolcos, usurpado por seu tio Pélias, Jasão recebeu do rei a missão de conquistar o Velocino de Ouro, objeto que conferia poder e riqueza a quem o possuísse.  

A intenção do rei Pélias era que seu sobrinho Jasão morresse na empreitada.

Ciente do perigo da tarefa, visto que o Velocino era guardado por um dragão que nunca dormia, Jasão reuniu cinquenta heróis com habilidades únicas com o propósito de ajudá-lo na missão.

Uma vez reunidos, eles embarcaram no navio Argo (daí o nome Argonautas) e partiram rumo ao Mar Negro, onde ficava a região em que o Velocino estava.  

Jasão, a esquerda, segurando Velocino.

Iniciando uma tradição que continua até hoje, os Argonautas eram compostos por heróis com suas próprias aventuras e feitos grandiosos. Dentre os quais, destaque para:  

Atalanta

Única mulher do grupo. Possuidora de grande velocidade e habilidade no arco e flecha;

Castor e Pólux

Ainda que tivessem a mesma mãe, os gêmeos tinham pais diferentes: Pólux era filho de Zeus e, portanto, imortal, Castor era filho do rei Tindaro e se tornou um mestre na arte de domesticar cavalos. 

Herácles

Também conhecido na mitologia romana como Hércules, este filho de Zeus era o homem mais forte de seu tempo e um dos mais populares heróis gregos.

Orfeu

Dono de uma voz sobrenatural, Orfeu conseguia domar os animais e criaturas sobrenaturais com a música que extraia de sua lira. 

Palemon

Hefesto era o deus responsável por criar em sua fornalha as armas e demais utensílios usados por deuses e seus filhos e filhas.

Filho do deus Hefesto, Palemon também era chamado de O Reparador, pois tinha a habilidade de consertar tudo.

Poriclimeno

Poseidon também era chamado de Netuno na mitologia romana.

Filho do deus Poseídon, Poriclimeno era capaz de se metamorfosear em qualquer animal marinho.

Teseu

Também um dos mais populares heróis gregos pela sua coragem extrema, Teseu matou o Minotauro e se tornou rei de Atenas. Em algumas versões ele derrotou as Amazonas e se casou com Hipólita, a rainha dessas mulheres guerreiras.

Após várias aventuras e perigos, os argonautas chegaram na região do Velocino de Ouro e, com a ajuda de Medeia, filha do rei Eetes de Colquida, conseguiram capturar o objeto.

Medeia é uma das personagens mais controversas da Mitologia Grega.

Na Literatura

Em um terreno onde o individuo tem papel central para a estrutura da narrativa, os grupos aparecem na Literatura em obras que, com o tempo, acabaram sendo vinculadas com o romance de aventuras, ou com a Literatura Juvenil.

Este é o caso do romance histórico Os três mosqueteiros (1844), de Alexandre Dumas. 

Os três mosqueteiros

Cena do filme de 1993 dos estúdios Disney.

Ambientado na França do início do século 17, Os três mosqueteiros foi a obra que trouxe fama para Alexandre Dumas.

O romance mostrava as aventuras do jovem D’Artagnan em sua busca para se tornar um Mosqueteiro, ou seja, um membro da corporação militar vinculada a monarquia francesa famosa pelo manejo da espada.

A evolução do uniforme dos Mosqueteiros

Sendo um romance histórico, a obra de Dumas misturava fatos históricos com ficção para criticar a política da monarquia francesa da época, marcada por injustiças e abusos. 

Baseados em personagens históricos, os heróis de Alexandre Dumas eram os seguintes mosqueteiros:

Athos 

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Armand de Sillègue d’Athos d’Autevielle, Athos era descrito como uma figura paterna para d’Artagnan.

Ele também era marcado pelo relacionamento com a espiã chamada por Dumas de Milady de Winter. 

Porthos

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Isaac de Porthau, Porthos era o mais passional do grupo. 

Gostava de roupas elegantes, mulheres e jogos e era a força física do grupo.

Aramis

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro  Henri d’Aramitz, Aramis era apresentado como um elegante jovem dividido entre sua vocação religiosa e o gosto pela vida mundana.

D’Artagnan

Estátua de D’Artagnan no monumento dedicado a Alexandre Dumas em Paris.

Charles Ogier de Batz de Castelmore, Comte d’Artagnan foi Capitão dos Mosqueteiros em 1667 e base para o jovem herói de Alexandre Dumas.

Como todo jovem herói, era audacioso, arrogante e precipitado.

Nas Histórias em Quadrinhos

O universo dos Super Heróis começou na estréia da revista Action Comics em abril de 1938 trazendo a icônica primeira aparição do Superman. 

O sucesso imediato da criação de  Jerry Siegel e Joe Shuster  levou a uma explosão de outros personagens super heroicos mais ou menos duradouros de acordo com a criatividade de seus roteiristas.

Juntá-los em uma revista única não demorou muito…

DC Comics

O sucesso das revistas de super heróis despertou a atenção dos editores Sheldon Mayer e do escritor Gardner Fox, da DC Comics.

O resultado foi o lançamento da revista All-Star Comics #3 (1940), trazendo a Sociedade da Justiça da América como uma estratégia de alavancagem das vendas.

Sociedade da Justiça da América 

O primeiro super grupo das Histórias em Quadrinhos foi lançado pela DC Comics e reunia os super heróis da editora com exceção do Superman e Batman, visto que eles vendiam bem sozinhos.

Ó engraçado é que nesta primeira edição os personagens só ficavam sentados, contado suas aventuras individuais.

Nesta primeira formação, a SJA contava com os seguintes membros:

Átomo (Atom)

Doutor Destino (Doctor Fate)

Espectro (Spectre)

Flash (Flash)

Gavião Negro (Hawkman)

Homem-Hora (Hourman)

Lanterna Verde (Green Lantern)

Sandman (Sandman)

Marvel Comics

Após os anos dourados das décadas de 30 e 40, as histórias em quadrinhos passaram por um período de crise na década seguinte sendo acusada de serem um instrumento de corrupção da juventude.

Esta revista de 1954 foi usada como evidência de que as revistas lidas pelas crianças americanas dos anos de 1950 as estavam incitando ao crime.

Apenas a partir dos anos de 1960 é que os super heróis encontraram novamente o ambiente para retomarem seus vôos.  

Foi neste cenário que em 1960 a edição #28 da revista Brave and the Bold da editora DC Comics trouxe a Liga da Justiça da América.

O sucesso da revista levou o editor da Marvel Martin Goodman a incumbir o jovem Stan Lee de criar um grupo de super heróis para a editora.

O resultado foi o time de heróis que deu início ao Universo Marvel de Super-Heróis: O Quarteto Fantástico.  

Quarteto Fantástico

Bombardeados por raios cósmicos durante uma missão espacial, quatro pessoas adquirem poderes distintos que os levam a formar o grupo batizado de Quarteto Fantástico, composto por:

Senhor Fantástico 

Garota Invisível (depois rebatizada para Mulher Invisível)

Tocha Humana

Coisa    

O sucesso da Sociedade da Justiça, Liga da Justiça e Quarteto Fantástico abriram o caminho para uma infinidade de super grupos nas Histórias em Quadrinhos.

Hoje há de se lamentar que nas HQs a Marvel tenha dissolvido o grupo que a ajudou a crescer simplesmente pelo fato de não possuir os direitos cinematográficos da equipe, hoje pertencentes a FOX.

Na Televisão

Do outro lado do mundo, no Japão, o criador Shotaro Ishinomori e a produtora Toei Company deram início, em 1975, a tradição dos Super Sentai, honrada hoje pelo filme Power Rangers.

Composta pelo ideogramas: 戦 “sen” (guerra) e 隊 “tai” (grupo), essas séries mostram um grupo de cinco indivíduos que recebem super poderes, são identificados por cores diferentes e possuem robôs individuais que, uma vez combinados, criam um robô gigante. 

Himitsu Sentai Gorenger

A primeira série Sentai, e também a mais longa até hoje com 84 episódios, é a Himitsu Sentai Gorenger, traduzida em Português como Esquadrão Secreto Gorenger.

Ainda que Himitsu Sentai Gorenger tenha estabelecido o padrão inicial das séries Sentai, foi a partir da terceira série – Battle Fever J, de 1979 – que o termo Super Sentai passou a ser utilizado com a introdução do robô gigante, que se tornou uma marca representativa e recorrente nas séries futuras.

É hora de morfar! 

No início dos anos da década de 1990 a produtora norte-americana Saban resolveu reutilizar as ideias e conceitos dos Sentais e lançou a série Mighty Morphin Power Rangers, voltada para o público americano.

A enorme receptividade da série de 1993, lançada no Brasil no ano seguinte, permitiu a criação de várias outras temporadas de sucesso.

E o resto é história…  

Gostou? 

Qual é o seu grupo de super heróis favorito? 

E qual formação dos Power Rangers marcou a sua infância?

Deixe seu comentário, compartilhe o post com seus super amigos e amigas e assine o blog.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito. Mitologia grega. Vol. 3. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 1987.

JONES, Gerard. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. São Paulo: Conrad, 2006. 

MUNDO ESTRANHO. Os mosqueteiros realmente existiram na França? Disponível em http://mundoestranho.abril.com.br/historia/os-mosqueteiros-realmente-existiram-na-franca/ . Acesso em 25 março 2017. 

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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10 super-heroínas que combatiam o crime antes da Mulher-Maravilha

A Mulher-Maravilha está em alta!

No post sobre a personagem aqui no blog mostrei os motivos e polêmicas que levaram a princesa amazona a ser a mais importante e representativa super-heroína da cultura de massa, mesmo após 75 anos de sua criação em 1941.

Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, ela não foi a primeira representante feminina do gênero super-heróis das Histórias em Quadrinhos.

Mas quais mulheres defendiam os fracos e oprimidos antes de seu surgimento?

Para responder a esta questão, trago hoje as 10 heroínas e super-heroínas que combatiam o crime antes da Mulher-Maravilha.

E se você que ver logo a lista, sem querer saber antes dos critérios para criá-la, clique aqui.

Mas o que é um super-herói?

Qual é o ponto em comum entre Batman e Superman? Entre Gavião Arqueiro e Homem-Aranha? Super poderes? Identidade secreta? Uso de aparatos tecnológicos? Compromisso com a justiça? Como se define um super-herói?

Para o crítico Peter Coogan, os super-heróis têm como características principais uma Missão, Poderes ou superforça e Identidade secreta (MPI).

Já para a pesquisadora Jennifer Stuller, os super-heróis não são definidos somente pelos superpoderes ou pelas fantasias que usam no intuito de preservarem sua real identidade, mas principalmente pelo compromisso com a luta em defesa dos inocentes.

Em outras palavras, são super-heróis por irem além das suas condições humanas para fazerem o bem aos outros.

Tomando então como base o conceito de Jennifer Stuller, foram selecionadas aqui personagens femininas do gênero aventura e super-heróis, com ou sem poderes, que podem ser tomadas como exemplos de super-heroínas.  

Quem entrou? Quem ficou de fora? E por que?

Entraram na lista a seguir personagens femininas que surgiram antes da primeira aparição da Mulher-Maravilha nos quadrinhos, ocorrida em All Star Comics #8, de dezembro de 1941.

A personagem fez tanto sucesso que ganhou revista própria seis meses após sua criação. Em Wonder Woman #1, de julho de 1942.

No entanto, apesar de terem sido publicadas antes da Mulher-Maravilha, ficaram de fora as seguintes personagens:

1. Heroínas que foram criadas inicialmente como interesse amoroso do super-herói

Caso de Lois Lane, que a despeito de sempre ter sido retratada como uma mulher forte, determinada e destemida, desde sua primeira aparição em 1938, acaba sendo utilizada como suporte para as ações heroicas do Superman. 

No anos 50 a personagem ganhou revista própria, mas perdeu sua força feminina para passar a ser a namorada do Superman

2. Heroínas que foram criadas como versões femininas de super-heróis masculinos

Caso da Mulher-Gavião (Hawkgirl) (Janeiro, 1940), apresentada como a namorada do Homem-Gavião, sendo coadjuvante em suas histórias. 

Exemplo semelhante é o da Bulletgirl (Abril, 1941) namorada, ajudante e esposa (nesta sequencia) do super-herói Bulletman.

Em ambos os casos, assim como ocorreu com outras super-heroínas, as personagens não tinham voz própria, sendo muitas vezes resgatadas por seus equivalentes masculinos.

3. Heroínas cuja criação e motivação estão ligadas direta e exclusivamente a Segunda Guerra Mundial

Aqui se inserem as heroínas criadas na onda da propaganda norte-americana na Segunda Guerra Mundial, tendo seu espaço de atuação regulado pelo conflito.

Estas personagens não exerceram influencia além deste contexto histórico-cultural.

São exemplos deste tipo, Pat Parker, War Nurse, Pat Patriot, Lady Satan, Miss Victory e Black Venus.

O ponto em comum a todas estas combatentes do mal foi a gradual perda de popularidade junto aos leitores e o eventual cancelamento de suas publicações após o fim da guerra.   

Black Venus

4. Heroínas cujas publicações duraram menos de seis meses

Na avalanche de super-heróis e super-heroínas das décadas de 40, algumas personagens não conseguiram se estabelecer no mercado, vindo a desaparecer com menos de seis meses, não deixando influências a serem seguidas. 

Este é o caso de, dentre outras, Amazona, Madame Strange e Spider Queen. 

Para quem quer conhecer em maiores detalhes o nascimento e desenvolvimento das super-heroínas dos quadrinhos, recomendo o trabalho A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha (2016), da pesquisadora brasileira Jaqueline dos Santos Cunha, disponível gratuitamente para leitura, aqui.

Tive o prazer de orientar esta pesquisa que traz um dos mais completos e atuais panoramas da representação feminina nos quadrinhos norte-americanos da primeira metade do século vinte. 

Agora que os critérios foram explicados e sugestões de leitura foram indicadas, vamos a lista:

10 Super-heroínas das HQs que antecederam a Mulher-Maravilha

Conheça abaixo agora, por ordem de publicação, as 10 primeiras (e principais) combatentes do crime dos quadrinhos que prepararam o caminho para a chegada da Mulher-Maravilha em dezembro de 1941.

1. Sheena

Descrição: Sheena se insere em um contexto de popularidade no início do século vinte das chamadas jungle stories (histórias passadas em selvas de regiões dominadas ou influenciadas por países da Europa e Estados Unidos), e que fomentaram a criação, na época, de personagens da ficção pulp e quadrinhos como Tarzan e Fantasma.

As jungle stories refletiram a influência dos romances de aventuras de fins do século dezenove de escritores como H. Rider Haggard e Rudyard Kipling, sempre ambientadas em lugares exóticos na África e na Ásia.

É justamente a partir do romance Ela (1887), de Haggard que Will Eisner e Jerry Iger criaram Sheena, a Rainha das Selvas. O próprio nome da personagem soava como o título do livro de Haggard (She, no original).

Sheena Rivington cresceu como órfã em meio a selva, onde ela aprendeu os segredos da floresta e da comunicação com os animais.

Com o tempo, Sheena se tornou rainha de uma tribo local e, semelhante a Jane em relação a Tarzan, também teve um relacionamento amoroso com o personagem Bob Reynolds.

Em uma inversão de papeis, raras de se ver na época, Sheena costumeiramente salvava Bob de perigos.  

Primeira aparição: Wags #1 (Janeiro, 1938) (Inglaterra) e Jumbo Comics #1 (Setembro, 1938) (EUA) 

Criadores: Will Eisner e Jerry Iger

Editora: Editors Press Service (Inglaterra) e Fiction House (EUA)

Destaque: A primeira heroína dos quadrinhos. 

2. Red Tornado

Descrição: Após ver sua filha ser sequestrada e não poder contar com a ajuda da polícia ou do herói Lanterna Verde, a corpulenta Abigail Mathilda “Ma” Hunkel decide colocar um balde na cabeça, vestir uma roupa que escondia sua identidade feminina e assumir o nome de Tornado Vermelho

Ao contrário da grande maioria das personagens aqui, Abigail Mathilda “Ma” Hunkel sobreviveu até os dias de hoje, se tornando governanta da base de operações da Sociedade da Justiça da América.

Ela, no entanto, ainda não foi vista após o reboot da editora DC Comics de 2011 chamado de Os Novos 52

Primeira aparição: All-American Comics #3 (Junho, 1939), na sua identidade civil e All-American Comics #20 (Novembro, 1940), como Tornado Vermelho.

Criadores: Sheldon Mayer

Editora: All-American Publications

Destaque: A primeira heroína drag king e a primeira paródia de super-herói. 

3. Fantomah

Descrição: Uma das criações mais originais dos quadrinhos, Fantomah também bebe das influências nos romances de aventuras de Haggard, em especial a deusa branca Ayesha do livro She e sua sequencia Ayesha (1905).

Protetora da selva e seus habitantes, Fantomah era uma atraente loira que ao ativar seus poderes se tornava um ser vingativo de pele azul e face de caveira.

Nesta forma ela tinha poderes quase ilimitados, através dos quais punia os invasores de sua terra.

Posteriormente ela foi reapresentada como a reencarnação de uma princesa egípcia, mas isso não salvou a personagem de cair no esquecimento já em 1942. 

Primeira aparição: Jungle Comics #2 (Fevereiro, 1940)

Criadores: Fletcher Hanks

Editora: Fiction House

Destaque: A primeira super-heroína no sentido pleno da palavra, pois tinha superpoderes.

4. The Woman in Red

Descrição: Detetive da policia Peggy Allen assume a identidade secreta da Mulher de Vermelho para combater o crime sem as limitações da lei. 

Atiradora habil e detetive brilhante, a Mulher de Vermelho não hesitava em matar os criminosos quando a situação assim exigia. Lembrando que nessa época até o Batman usava armas de fogo.

Ao lado de outros super-heróis das décadas de 30 e 40 que caíram em domínio público, a personagem foi resgatada do limbo em 2001 pelo escritor inglês Alan Moore para sua série Tom Strong

Nesta releitura, a Mulher de Vermelho possui um rubi que lhe confere superpoderes como voo e projeção de energia.

Primeira aparição: Thrilling Comics #2 (Março, 1940)

Criadores: Richard Hughes e George Mandel

Editora: Nedor Comics

Destaque: A primeira combatente do crime com uniforme e identidade secreta.

 5. Lady Luck

Descrição: Criada apenas três meses depois da Mulher de Vermelho pelo quadrinista e escritor Will Eisner para participar das publicações no jornal do famoso detetive Spirit, Lady Luck é na verdade a rica socialite Brenda Banks que decide combater o crime apenas com suas habilidades de Jiu-Jitsu. 

Perseguida pela policia e protegendo sua identidade civil sob um fino véu, Lady Luck por vezes contava com a ajuda de seu motorista Peecolo.

Nos dias de hoje a personagem teve uma participação inesperada na edição #6 da revista The Phantom Stranger (2013), mas não foi mais vista deste então.

Primeira aparição: The Spirit Section (02 de Junho, 1940).

Criadores: Will Eisner e Chuck Mazoujian

Editora: Register and Tribune Syndicate

Destaque: A primeira socialite rica a combater o crime, abrindo a tendência de personagens semelhantes nos anos seguintes como Miss Fury (1941), Spider Widow (1942) e Miss Masque (1946). 

6. Invisible Scarlet O’Neil

Descrição: 20 anos antes da Mulher-Invisível adquirir seu poder e formar o Quarteto Fantástico, uma jovem repórter encostou o dedo em um raio desenvolvido por seu pai cientista e ganhou o poder da invisibilidade: Scarlet O’Nell. 

Sendo capaz de ativar e desativar sua invisibilidade pressionando um nervo em seu pulso, Invisible Scarlet O’Nell usava seu poder não apenas para conseguir matérias jornalisticas, mas também para resolver pequenos crimes e ajudar as crianças.

Nos anos da década de 1950 a personagem ganhou um interesse amoroso – o xerife Stainless Steel – e as histórias passaram a ser mais sobre o relacionamento dela e menos sobre os seus atos heroicos.

Por fim, com a queda da popularidade, a tira de jornal em que suas histórias eram publicadas foi renomeada para Stainless Steel e a personagem se tornou secundária.  

Primeira aparição: The Chicago Times (03 de junho, 1940)

Criadores: Russell Stamm

Editora: The Chicago Times

Destaque: Ainda que não tenha identidade secreta e uniforme, Invisible Scarlet O’Neil é a primeira super-heroína urbana com super-poderes.

7. Black Widow

Descrição: Após ser vitima de assassinato, Claire Voyant retorna do inferno como uma agente do Diabo para matar criminosos e outros praticantes do mal, pois há almas, segundo o discurso da Viúva Negra, que o Diabo está ansioso por possuir.

Imune a ácido e balas, a Viúva Negra envolve suas vitimas em sua capa e o infeliz cai morto aos seus pés.

Primeira aparição: Mystic Comics #4 (Agosto, 1940)

Criadores: George Kapitan e Harry Sahle

Editora: Timely Comics

Destaque: A primeira super-heroína (ou anti-heroína) urbana a ter uniforme, identidade secreta e superpoderes. 

8. Miss Fury

Descrição: Convidada para uma festa e informada que outra mulher usaria um vestido semelhante ao seu, a socialite Marla Drake decide vestir a pele de pantera negra deixada pelo tio e que tinha pertencido originalmente a uma feiticeira africana. No caminho para a festa, todavia, ela impede um crime e assume a identidade de Miss Fury.

As histórias de Miss Fury, traduzidas no Brasil como Mulher-Pantera, nunca afirmaram categoricamente se a habilidade e força demonstrada pela heroína vinha da pele do animal ou da própria Marla, o que acrescentava um elemento extra de curiosidade a personagem.

Ao contrário da maioria das outras combatentes do crime de vida curta, a Mulher-Pantera foi publicada nas tiras dos jornais americanos até o ano de 1952, algo incomum para personagens do período. 

Primeira aparição: Inicialmente com o nome Black Fury (06 de Abril, 1941) e como Miss Fury a partir de 14 de dezembro de 1941

Criadores: Tarpe Mills

Editora: Jornais ligados ao Bell Syndicate

Destaque: A primeira super-heroína criada, roteirizada e desenhada por uma mulher.

9. Phantom Lady

Descrição: Maior representante da chamada “Good Girl art”, um estilo de desenho focado em representar mulheres voluptuosas e sensuais, Lady Fantasma possui uma arma de luz negra com a qual ela cega momentaneamente seus inimigos.    

Apresentada como Sandra Knight, filha de um senador norte-americano, Lady Fantasma teve seu uniforme alterado em meados dos anos 40 para ficar mais sensual. 

A personagem justificou a mudança dizendo que o novo uniforme distraia seus oponentes, mas pelo visto na imagem abaixo ele também funcionava com os heróis. 

Primeira aparição: Police Comics #1 (Agosto, 1941).

Criadores: Will Eisner e Jerry Iger

Editora: Quality Comics

Destaque: A personagem foi usada como exemplo de má influencia sobre os jovens na década de 50 devido ao seu uniforme revelador, mas é a única daqui da lista que se manteve regularmente ativa até os dias de hoje, fazendo parte do universo da DC Comics. 

10. Nelvana das Luzes do Norte

Descrição: Mulher-Maravilha não é a primeira única super-heroína ligada aos deuses. Nelvana das Luzes do Norte é uma poderosa deusa da mitologia Inuit defensora dos povos do norte do Canadá.

Ela pode voar na velocidade da luz usando as luzes do norte, ficar invisível, mudar de forma e derreter metais.  

Eventualmente ela se disfarçava na identidade secreta da agente Alana North.

Primeira aparição: Triumph Adventure Comics #1 (Agosto, 1941).

Criadores: Adrian Dingle

Editora: Hillborough Studios 

Destaque: A primeira super-heroína canadense e a primeira super-heroína pertencente a um grupo minoritário (os povos indígenas do Canadá). 

 

Gostou das super combatentes do crime pré-Mulher-Maravilha?

Na sua opinião, quais delas ainda poderiam estar sendo publicadas hoje?

Deixe seu super comentário, compartilhe com seus amigos e inimigos mortais e assine o blog.

Fontes utilizadas

CUNHA, Jaqueline dos Santos. A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha. 2016. 151 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2016. Disponível em https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/5890 

DON MARKSTEIN’S Toonpedia. Disponível em http://www.toonopedia.com/. Acesso em 08 fev. 2017.

MADRID, Mike. Divas, Dames and Daredevils: Lost Heroines of Golden Age Comics. New York: Exterminating Angel Press, 2013.

______. The Supergirls: fashion, feminism, fantasy and the history of comic book heroines. New York: Exterminating Angel, 2010.

ROBBINS, Trina. The Great Women Super Heroes. Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

Gostou?

Então deixe o seu comentário e compartilhe com seus amigo visíveis ou invisíveis. 

Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

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A perversão sexual da Mulher-Maravilha por trás dos quadrinhos

Você, prezada leitora, gosta de se submeter a pessoa amada a ponto de, se a ocasião surgir, ser amarrada por ela? Você concorda com a frase “tapinha não doí”?

Pois saiba que foi a crença na existência deste comportamento feminino que ajudou o psicologo norte-americano William Moulton Marston a criar, em 1941, aquela se tornaria um ícone do Feminismo e centro de polêmicas sobre uma pretensa perversão sexual feminina: Mulher-Maravilha

William Moulton Marston e sua maior criação
William Moulton Marston e sua maior criação

A princesa guerreira

Dezembro de 2016 marca os 75 anos do surgimento da Mulher-Maravilha no universo das Histórias em Quadrinhos, ocorrido por meio da editora All-American Publications na revista All Star Comics #8 de dezembro de 1941, ainda sem destaque na capa para a personagem e assinada por Charles Moulton (pseudônimo adotado por William Moulton Marston).

Primeira aparição da Mulher-Maravilha
Primeira aparição da Mulher-Maravilha

O sucesso da princesa amazona da utópica Ilha Paraíso que vem ao mundo dos homens para lutar pela paz e justiça foi tanto que já no ano seguinte ela ganhou publicação própria na revista Wonder Woman #1, de julho de 1942.   

Primeira publicação própria da guerreira da Ilha Paraíso.
Primeira publicação própria da guerreira da Ilha Paraíso.

Ainda que não tenha sido a primeira super combatente do crime das histórias em quadrinhos [ATUALIZADO: Veja o post sobre as super-heroínas anteriores a Mulher-Maravilha, clicando aqui], desde a sua criação a Mulher-Maravilha se tornou a principal representante feminina do gênero super-heróis, posição esta que mantém até hoje e a coloca ao lado dos outros dois pesos pesados da DC Comics – Superman e Batman.

A trindade da DC Comics
A trindade da DC Comics

Este status da personagem decorre, em muito, das idéias por trás de sua criação que a diferenciava, já em 1941, das outras super-heroínas da época.

Mulher-Maravilha: filha de um pai e duas mães controversas

Considerado um feminista mesmo quando a própria palavra ainda não havia se disseminado, William Moulton Marston foi contratado pelas editoras National Periodicals e All American Publication (que depois da fusão se tornariam a DC Comics) para ser o consultor educacional das editoras em virtude da crescente preocupação dos pais de crianças quanto ao conteúdo das revistas nos anos das décadas de 1930 e 1940.

Marston e os editores da All-American Publications e National Periodicals
Marston (na esquerda sentado) e os editores da All-American Publications e National Periodicals

Como resposta a esta situação e descontente com a ostensiva presença de super-heróis homens, como Superman, Batman e Lanterna Verde, Marston comentou com a esposa – Elizabeth Holloway Marston – sobre a criação de um super-herói que combatesse o crime não com o uso da violência, mas sim com o amor, ao que ela respondeu: “Ótimo, mas a faça mulher”.  

Elizabeth Holloway Marston. Essa sim a verdadeira Mulher-Maravilha
Elizabeth Holloway Marston. Essa sim a verdadeira Mulher-Maravilha

Definido o sexo da personagem, faltava moldá-la e para isso Marston usou duas referências: suas duas esposas

A origem e personalidade da Mulher-Maravilha tem inspiração tanto na admiração que Elizabeth Holloway nutria pela cultura grega, de onde saiu a ideia das lendárias Amazonas, quanto na postura da própria Elizabeth enquanto mulher a frente do seu tempo, detentora de três diplomas universitários em uma época na qual a maioria das mulheres era até mesmo proibida de estudar.

Já a aparência física da personagem foi baseada na outra esposa de Marston: sua ex-aluna e assistente Olive Byrne. Byrne também influenciou Marston na criação dos braceletes com os quais a super-heroína se defende de seus agressores.

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A ideia teria surgido pelo recorrente uso deste apetrecho por parte de Olive Byrne. 

William Moulton Marston vivia com Elizabeth e Olive no mesmo lar e teve duas crianças com cada uma. Elizabeth era responsável, junto com o marido e após sua morte em 1947, pelo sustento do lar enquanto Olive cuidava da casa e da educação das crianças.

William Moulton Marston (no centro). Olive Byrne (lado direito em pé) e Elizabeth Holloway Marston (sentada na direita)
William Moulton Marston (no centro). Olive Byrne (lado direito em pé) e Elizabeth Holloway Marston (sentada na direita)

Uma heroína pervertida sexualmente (uma mulher, afinal de contas)

Se Elizabeth e Olive contribuíram com a origem, personalidade e aparência física da Mulher-Maravilha o comportamento da super-heroína, em seus primeiros anos, refletiu as ideias de William Moulton Marston sobre o desenvolvimento do potencial feminino.

Ideias que deram margem a uma leitura da personagem (e das mulheres) como seres de um comportamento, para muitos ainda hoje, condizentes com perversão sexual.

Girl Power
Girl Power

Para ele, os problemas da humanidade só seriam resolvidos se os homens entregassem o poder as mulheres. Sua personagem, oriunda de uma sociedade governada por mulheres era, portanto, a resposta para contrabalançar o que ele via como um mundo androcêntrico.

Em entrevista sobre a Mulher-Maravilha para a revista American Scholar no ano de 1943, por exemplo, Marston defendia que:

Nem mesmo garotas vão querer ser garotas enquanto faltar força, potência, e poder ao nosso arquétipo feminino. Não querendo ser garotas, elas não querem ser meigas, submissas, pacíficas como boas mulheres são.

Isto quer dizer que, para o criador da Mulher-Maravilha, as mulheres só poderão desenvolver força, potência e poder e, consequentemente, resolverem os problemas do mundo por meio da igualdade e do amor se aprenderem a ser meigas, submissas e pacíficas 

Veja abaixo, conforme as histórias da Mulher-Maravilha ensinavam nos anos de 1940, que o processo para se tornar meiga, submissa e pacífica era a prática de técnicas semelhantes ao BDSM, ou seja,  Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo.

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Ainda que William Moulton Martston nunca tenha manifestado abertamente suas teorias nas histórias escritas por ele, o recorrente conteúdo erótico das histórias da Mulher-Maravilha (e que ajudaram a revista a se tornar um sucesso junto ao público jovem formado por meninos) não passaram despercebidos dentro da editora que as publicava.

Ao ser questionado pela sua colega Josette Frank, do Conselho Editorial Consultivo da DC, sobre a possibilidade de ataques de educadores e censores devido aos trajes da heroína e aos trechos de inspiração sado-masoquista das histórias, Marston explicou que:

As mulheres são excitantes justamente por essa razão – esse é o segredo da sedução feminina – a mulher gosta de se submeter, de ser amarrada. Trago isso à tona nas sequencias da Ilha Paraíso, em que as garotas imploram por correntes e gostam de usá-las. /…/ A única esperança de paz é ensinar àqueles que estão cheios de energia e de força a gostar de amarras. /…/ Em se tratando de relacionamentos humanos, só teremos uma sociedade mais pacífica e agradável quando o controle do eu, exercido de fora, for mais agradável que a afirmação irrestrita do eu sem amarras.

Chama a atenção neste ponto a contradição de que, ainda que tenha sido um ardente defensor da emancipação feminina, o pai da Mulher-Maravilha, enquanto psicologo, refletiu em suas crenças teorias científicas em voga no século dezenove que serviram para criminalizar o corpo da mulher.  

Ou Mãe ou Esposa ou Masoquista

Dentre várias obras na literatura médica do século dezenove duas merecem destaque por buscarem respaldar cientificamente o preconceito contra as mulheres. São elas:

The Functions and Disorders of the Reproductive Organs
(1857), de William Acton

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Psychopathia Sexualis (1886), de Richard von Krafft-Ebing.

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The Functions and Disorders of the Reproductive Organs de William Acton corroborou a ideologia predominante ao assegurar que as únicas paixões normais sentidas pelas mulheres eram pelo lar, filhos e deveres domésticos.

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Os papeis sociais das mulher no século 19 eram o matrimônio e a maternidade.

Para o médico inglês, a mulher submetia-se ao marido só para satisfazê-lo e, se não fosse pelo prazer da maternidade, preferia não ter atenção sexual. Ele foi um dos estudiosos que, ao lado de outros, incutiram na mulher a noção de que o corpo é inimigo da alma. 

A noção de que a maternidade implica em sacrifício e submissão a figura masculina se junta no fim do século dezenove a crença de que a mulher é capaz de suportar melhor sofrimentos e transtornos, transformando-os em prazer. Estava pronto o cenário para a associação da mulher com o Masoquismo, como explorado por Richard von Krafft-Ebing no Psychopathia Sexualis.

Richard Krafft-Ebing
Richard Krafft-Ebing

Krafft-Ebing parte da ideia de que a natureza delegou a mulher uma posição passiva, representado pela maternidade. Por esta razão, de acordo com esta leitura, o desejo sexual feminino é mais débil e levaria a uma necessidade da mulher ser mais amada e menos dependente do gozo.

Assim, o casamento e o amor seriam mais importantes para a mulher do que o sexo e aquelas que procuram apenas uma satisfação sexual representam um fenômeno anormal que contradiz as exigências sociais.

Krafft-Ebing cunha o termo Masoquismo a partir do nome do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch, que relatava, em sua obra A Vênus das Peles (1870), obsessões e gostos de amor bastante peculiares, entre os quais ser caçado, amarrado, castigado, humilhado e machucado.

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A partir deste quadro, o psiquiatra alemão define que a natureza feminina tenderia tanto para a perversão quanto para o sacrifício, o sofrimento e a subordinação. 

Nesta leitura, Krafft-Ebing sustenta que o Masoquismo é a perversão feminina por excelência. 

Bondage heróico
Bondage heróico

Como se vê, ainda que em uma primeira leitura as opiniões de William Moulton Marston sobre a mulher pareçam se colocar como um avanço para o espaço social da mulher na sociedade norte-americana nas primeiras décadas do século vinte, um olhar mais detalhado em sua proposta de feminino deixa exposto a mesma ideologia que norteou os estudos sobre a sexualidade da mulher ao longo da segunda metade do século dezenove. 

De namoradinha  a ícone gay

Após a morte de Marston em 1947, as histórias da princesa amazona mudaram de tom e a proposta pedagógica por trás de sua criação foi diluída pelos roteiristas que se seguiram.  

Carregada pelo amado Steve Trevor
Carregada pelo amado Steve Trevor em Sensation Comics #94 (1949).

A partir dos anos de 1970, todavia, com a intensificação do Movimento Feminista, a personagem foi alçada a condição de símbolo da mulher moderna, dona de sua vontade e de seu corpo. 

Capa da revista feminista Ms. (1972) e a comemoração dos 40 anos da revista em 2012.
Capa da revista feminista Ms. (1972) e a comemoração dos 40 anos da revista em 2012.

Pode ser dito, por fim, que ainda que tenha sido concebida dentro do jogo ideológico da indústria cultural, os debates sobre a imagem da Mulher-Maravilha adquiriram camadas e interpretações que ultrapassaram a esfera artística atestando a necessidade de se discutir o papel da mulher na contemporaneidade.

A polêmica mais recente: Mulher-Maravilha é gay?
A polêmica mais recente: Mulher-Maravilha é gay?

Louca, anormal, heroína, sado-masoquista, pervertida, gay, ícone feminista. As possibilidades de escolha da Mulher-Maravilha como um tipo ideal da mulher moderna não se encerram após a descoberta do discurso que a criou.

Fontes consultadas

CUNHA, Jaqueline dos Santos. A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha. 2016. 151 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2016. Disponível em https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/5890

JONES, Gerard. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. Trad. Guilherme da Silva Braga e Beth Vieira. São Paulo: Conrad. Editora do Brasil, 2006.

LEPORE, Jill. The secret history of wonder woman. New York: Alfred A. Knopf, 2014.

MADRID, Mike. The supergirls: fashion, feminism, fantasy and the history of comic book heroines. New York: Exterminating Angel, 2010.

NUNES, Silvia Alexim. O corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha: um estudo sobre a mulher, o masoquismo e a feminilidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. (Coleção Sujeito e História).

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Como você pode sobreviver a Distopia de Donald Trump

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Tem jeito não: Donald Trump é o 45° Presidente dos Estados Unidos da América.

E agora? Como sobreviver a Era Donald Trump? O que ela pode representar para o Fantástico?

A eleição de Trump traz a mente outro momento em que o mundo deu uma guinada para a direita com as eleições da Primeira-Ministra Margaret Thatcher na Inglaterra em 1979 e do Presidente Ronald Reagan nos EUA em 1981.

Estes dois eventos representaram o início de uma ideologia conservadora que se estenderia por toda a década de oitenta do século passado, motivando a criação de obras e produções vinculadas ao Fantástico na Literatura, Cinema e Quadrinhos, principalmente na forma das distopias.

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Na Inglaterra de 1982 e 1983, por exemplo, Alan Moore publicou na revista britânica Warrior sua crítica ao governo da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher na forma de V de Vingança, que seria depois finalizada em 1988 dentro do selo Vertigo da DC Comics

O lado negro do sonho

É interessante destacar aqui como outros termos para a palavra “Distopia”, tais como “Utopias negativa”, “Contra-utopia” e “Utopia devolucionária” reforçam a estreita relação entre as distopias e as utopias, e isso não é a toa. Afinal de contas, dependendo de qual lado você está, o sonho para uns é o pesadelo para outros.

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A sombra da distopia já estava presente, na verdade, desde o primeiro projeto utópico do Ocidente: A República (380 a. C), de Platão, visto que para o filosofo grego poetas e artistas em geral deveriam ser banidos por não considerarem a razão como seu guia de vida.

Ao longo dos séculos, a medida em que a Ciência avançou e, por tabela, o Racionalismo, as utopias deixaram transparecer cada vez mais suas contradições distópicas.  

Novas distopias, velhos pesadelos

 

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A distopia moderna nasce no início do século vinte na hoje extinta União Soviética por meio de um romance novamente escrito sob o temor da ameaça as liberdades individuais e conquistas sociais: Nós (1922), de Yevgeny Zamiatin.  

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Muito pouco lido atualmente, esta obra exerceu influencia direta sobre 1984 (1949), de George Orwell e Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, dois romances que ainda hoje são referências para outras produções do gênero.

Se você assistiu a Matrix (1999), por exemplo, saiba que a ideia de seres humanos fabricados em tubos de ensaio saiu do livro de Huxley, como mostra a imagem acima.

    

No Cinema, a Distopia tem sua origem no filme alemão Metropólis (1927), dirigida por Fritz Lang, estabelecendo muito da fotografia usada em outras produções cinematográficas sobre o tema, principalmente durante o mandato da presidência de Ronald Reagan de 1981 a 1989. 

É uma distopia se…

  • A história já começa dentro da realidade distópica (narrativa em media res);
  • A história é ambientada no futuro;
  • O(s) orgão(s) de controle se apoia(m) em um discurso que privilegia a razão em detrimento da emoção ou da imaginação;
  • Inicialmente o protagonista não tem consciência ou se aliena de sua condição de oprimido;
  • As instituições de poder controlam os meios de comunicação omitindo ou manipulando informações;
  • Há um incetivo a atividades coletivas por meio de esportes, rituais e celebrações enquanto que ações individuais, como a leitura, são marginalizadas;
  • O protagonista desperta de sua condição de alienado a partir do contato e interesse com alguém do sexo oposto;
  • Há a presença de um representante da ordem dominante que explica ao protagonista como o mundo se tornou uma distopia;

Distopias do século XX com ameaças do século XXI

Durante os anos Reagan as políticas adotadas encontraram reflexo em diversas publicações e produções distópicas da época. Cito abaixo apenas um exemplo de cada na Literatura, no Cinema e nas Histórias em Quadrinhos:

Literatura

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A História da Aia (1985), de Margaret Atwood

O romance da canadense Margaret Atwood situa-se em um futuro especulativo onde os assassinatos do Presidente e de congressistas americanos atribuídos a terroristas muçulmanos resultaram na dissolução dos Estados Unidos da América e na implantação de um Estado totalitário por militares cristãos fundamentalistas. Ou seja, é o perfil e muitos dos eleitores republicanos que votaram em Trump.

Nesta distopia as guerras quimicas, abortos e o uso indiscriminado de medicamentos levaram a maioria das mulheres a se tornarem inferteis ou gerarem crianças com malformações. Por conta disso, as que ainda são supostamente férteis e são solteiras, viúvas, divorciadas e provenientes de casamentos não legalizados foram aprisionadas pelo novo governo para exercerem a única função social de gerarem crianças saudáveis para a sociedade. 

Considerando a visão de Donald Trump sobre as mulheres… fica a dica.

Cinema

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O sobrevivente (1987), direção de Paul Michael Glaser 

Falar de distopia no Cinema norte-americano dos anos oitenta é falar de Blade Runner (1982), clássico cult do diretor Ridley Scott baseado no romance Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), do escritor Philip K. Dick. 

Mas, como Donald Trump será com certeza um presidente midiático, indico uma distopia com Arnold Schwarzenegger, e que não é O Exterminador do Futuro (1984).

O Sobrevivente é baseado no romance O concorrente (1982), de Stephen King e  mostra como no ano de 2017 (profecia?), os Estados Unidos estarão sob o comando de um governo totalitário que retirou a liberdade individual de toda a população. Livros são queimados e instituições de ensino são fechadas.

A única diversão do povo é a TV, e o programa mais popular é um reality show  em que sobreviver é a única recompensa. Neste cenário um homem é culpado de um crime que não cometeu e sua sentença é para a cadeia ou entrar para o jogo. 

Imagine uma mistura de Jogos Vorazes com Schwarzenegger e o resultado é O sobrevivente

Histórias em quadrinhos

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O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller 

Esta graphic novel, que ao lado de Watchmen (1986), de Alan Moore redefiniu o gênero de histórias em quadrinhos de super-heróis, mostra um Batman amargo e envelhecido que anos depois de ter abandonado a carreira de vigilante mascarado decide retornar ao combate ao crime em meio a uma decadente Gotham City do futuro tomada pela violência e a alienação da mídia.

Indico esta obra pela ácida crítica de Frank Miller a sociedade americana e a alienação da Mídia, tendo como pano de fundo a política de governo dos anos Reagan. Ou seja, a mesma coisa a se esperar de Donald Trump.

E agora?

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Lendo e assistindo as sugestões aqui de livros, filmes e quadrinhos você não será pego de surpresa pelas possíveis ações do novo Presidente dos Estados Unidos pelos próximos quatro anos.

Considerando a influencia norte-americana sobre a cultura e a disseminação de um pensamento de direita pelo mundo, especulo que nos próximos anos veremos uma nova onda de obras distópicas mais tradicionais, com tom mais sério que distopias adolescentes como Divergente e Jogos Vorazes e com foco no poder da mídia (algo que já se pode ver na série Black Mirror), além do questionamento de conquistas sociais de grupos minoritários.    

É esperar pra ver, mas espero que não!

Que livros, filmes e quadrinhos as promessas de governo de Donald Trump te lembra?

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E acompanhe novos posts toda quarta-feira às 9h.

Escritor por: Alexander Meireles da Silva

Contatos: fantasticursos@gmail.com