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7 investigadores do oculto pré-John Constantine pra você conhecer

John Constantine, criação do mestre dos quadrinhos Alan Moore com Stephen Bissette e John Totleben.

Mesmo a pessoa mais cética não pode negar que o oculto exerce um estranho fascínio sobre a humanidade.

O Detetive do Pesadelo Dylan Dog completou 30 anos de existência em 2016.

Os limites entre o nosso mundo e o além, ou melhor, a manifestação do além em nosso mundo desperta o interesse do ser humano por tocar em um dos maiores tabus da vida: a morte.

O legionário Antonius Axia combate o sobrenatural na Bretanha

Neste quesito, destaque para o Investigador do Oculto

O Investigador do Oculto

Para este texto vou tomar aqui a definição de Sage Leslie-Mccarthy para “Detetives psiquicos”, mencionado por ele em sua Tese de Doutorado, que você pode acessar na integra a partir do link no fim deste artigo.

Para Sage Leslie-McCarthy,

“Essencialmente, a ficção de detetive psíquico envolve a investigação de eventos reportados como sobrenaturais por um personagem, ou personagens, que tentam compreender a natureza dos distúrbios e promover possíveis soluções.”

Dean e Sam contra o oculto
Os irmãos Winchester. Contra Deus e o Diabo.

Essa busca por desvendar e, por vezes, enfrentar o mundo invisível marca presença em diferentes expressões da cultura, seja na Literatura, nos Quadrinhos, no Cinema e na TV.

Esta série influenciou anos mais tarde, na década de 90, a criação da série ARQUIVOS X
Kolchak e os Demônios da Noite.

Se hoje a cultura pop conta com investigadores do oculto fictícios e reais tais como John Constantine (Hellbrazer), Dylan Dog (Bonelli Comics) Antonius Axia (Valiant Comics)*, os irmãos Winchesters Sam e Dean (Supernatural), Carl Kolchak (Kolchak e os Demônios da Noite) e o casal Lorraine e Ed Warren (Invocação do Mal) isso se deve a uma tradição literária que remonta a Antiguidade.

Veja então a seguir os 7 principais Investigadores do Oculto da Literatura que lançaram as bases para os personagens pop de hoje.

1. Atenodoro de Tarso

Ano de criação: 109 d.C.

Primeira aparição: Missivas litterae curatius
scriptae 

Criador: Plínio, o Jovem

Curiosidade: Personagem histórico que viveu nos primeiros anos da Era Cristã, o filósofo Atenodoro virou personagem de um relato escrito um século depois por Plínio, o Jovem no qual Atenodoro investiga um fantasma que assolava uma residência em Atenas.

Neste que é o primeiro relato de casa assombrada do Ocidente, Atenodoro passa um noite na casa e recebe a visita de um fantasma. Demonstrando frieza na situação o filosofo consegue descobrir que a aparição ocorria devido a falta do sepultamento apropriado dos restos mortais do fantasma, que se encontravam enterrados em um dos cômodos da casa.   

2. Doutor K

Ano de criação: 1817

Primeira aparição: Conto “A casa deserta” (“Das öde Haus”)

Criador: E. T. A. Hoffman

Curiosidade: Primeiro Doutor e investigador do oculto, o Doutor K. aparece no livro de contos  Nachtstücke (Contos Noturnos).

No conto, o personagem, que possui poderes  de clarividência, investiga um mistério sobrenatural que cerca uma casa. 

3. Dirk Ericson

O conto “The Haunted Homestead” pode ser encontrado neste ebook.

Ano de criação: 1840

Primeira aparição: Conto “The Haunted Homestead”

Criador: Henry William Herbert 

Curiosidade: Dirk Ericson aparece originalmente em um conto publicado em três partes no The Ladies’ Companion and Literary entre agosto e outubro de 1840  e que agora está disponível no ebook The Macabre Megapack: 25 Lost Tales from the Golden Age (2012).

Ele é o primeiro investigador do oculto na forma de detetive amador da Literatura e lida com um crime com elementos sobrenaturais. Para isso ele também conta com a ajuda dos personagens Asa e Enoch Allen.

4. Harry Escott

O conto “The Pot of Tulips” pode ser lido nesta coletânea

Ano de criação: 1855

Primeira aparição: Conto “The Pot of Tulips”

Criador: Fitz James O’Brien

Curiosidade: O primeiro investigador do oculto como detetive especialista no sobrenatural estreou na Harper’s New Monthly Magazine em novembro de 1855.

Quatro anos depois Harry Escott aparece novamente, desta vez no conto “What Was It? A Mystery,” publicado em março de 1859 na mesma revista.

As duas histórias foram republicadas na coletânea Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015).

Contando com a ajuda de outros personagens, Harry Escott investiga os mistérios do sobrenatural nas duas histórias.

5. Dr. Martin Hesselius

Ano de criação: 1869

Primeira aparição: Novela Green Tea

Criador: Joseph Sheridan Le Fanu

Curiosidade: Um dos principais investigadores doutores do oculto da segunda metade do século XIX e fonte direta para a criação de Abraham Van Helsing, o caçador de vampiros de Drácula, o Dr. Martin Hesselius apareceu ao longo de quatro edições do All the Year Round em outubro e novembro de 1869 enquanto durou a publicação de Green Tea.

Hesselius tinha o habito de guardar vastas anotações dos casos investigados por ele. Dentre eles, o mais famoso é o caso envolvendo Carmilla, a vampira de Karnstein.

Le Fanu usou os casos do Dr. Marin Hesselius como estrutura narrativa para o livro de contos In a Glass Darkly (1872). 

6. Dr. Abraham Van Helsing

Peter Cushing como Van Helsing nos filmes dos anos 60 produzidos pelo estúdio inglês Hammer.

Ano de criação: 1897

Primeira aparição: Romance Drácula

Criador: Bram Stoker

Curiosidade: Estima-se que o mais famoso Investigador do Oculto desta lista e da Literatura tenha sido criado a partir de diferentes fontes.

Além do Dr. Martin Hesselius, mencionado anteriormente, outras fontes apontadas como inspiração para Van Helsing foram o próprio Bram Stoker e o professor da Universidade de Budapeste Arminius Vambéry, pesquisador que ajudou Bram Stoker com informações iniciais sobre Vlad, o Impalador, modelo do vampiro Drácula. 

7. Diana Marburg

Ano de criação: 1902

Primeira aparição: Conto “The Dead Hand”

Criador: L.T. Meade e Robert Eustace

Curiosidade: A única mulher desta lista e primeira Investigadora do Oculto do século XX, Diana Marburg apareceu em uma série de contos originalmente publicados na versão americana da Pearson’s Magazine.

Na sequencia, os três contos apareceram na coleção The Oracle of Maddox Street (1904), de L.T. Meade. Atualmente estas narrativas podem ser encontradas no livro Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015)

A curiosidade maior com essa investigadora oculta de poderes místicos é a habilidade de investigar criminosos a partir da leitura da palma da mão. 

* Agradecimentos ao entusiasta de Quadrinhos Pedro Ventura pela indicação do investigador do oculto e legionário romano Antonius Axia. 

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

LESLIE-MCCARTHY, Sage. The Case of the Psychic Detective: Progress, Professionalisation, and the Occult in Psychic Detective Fiction from the 1880s to the 1920s. Tese de Doutorado. Queensland: Griffith University, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

NEVINS, Jess. The Encyclopedia of Fantastic Victoriana. Austin, Texas: Monkey Brain Books Publication, 2005. 

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Este texto pertence ao blog Fantasticursos

O lado pop de Lúcifer: Por que o Diabo fascina você?

 O Diabo é Pop

Lucifer from Milton's Paradise Lost by Gustave Dore
O (anti-)herói de John Milton

2017 marca os 350 anos do poema épico Paraíso Perdido (1667).

Paraíso Perdido é uma versão literária da historia encontrada no Gênesis, focando especificamente nos episódios da queda de Lúcifer, na criação do Jardim do Éden e na tentação sofrida por Eva que a levou, juntamente com seu marido Adão, a expulsão do Paraíso.

Temptation and Fall of Eve by William Blake
A tentação do fruto proibido

A obra foi o projeto maior do poeta e ensaísta inglês John Milton e que se alinhava com suas visões religiosas enquanto Puritano, ou seja, membro de um segmento radical do Protestantismo no século 17.

No entanto, o que chama a atenção em Paraíso Perdido é o fato que, quanto mais o leitor conhece o diabo de Milton, mais passa a admirá-lo.  

Isso acontece porque Lúcifer aparece sozinho no começo da obra e na tentativa de mostrá-lo como uma ser patético e arrogante que perdeu a luta contra Deus e foi atirado no inferno junto com outros de seu exército, John Milton acabou estabelecendo o Diabo como um dos primeiros anti-heróis da Literatura.

Simon Bisley's Paradise Lost (Satan’s Fall)
A queda de Satã

E é o diabo de John Milton que está por trás de dois personagens da cultura pop dos anos 90 e de hoje: O Lúcifer, da série em quadrinhos Sandman, e sua releitura na série televisiva do canal FOX de título Lúcifer

“Melhor reinar no Inferno que servir no Céu”

A frase acima mostra bem o caráter heroico impresso por John Milton em sua representação de Lúcifer.  

Corrado Giaquinto (Italian 1703–1756) [Baroque, Rococco] Saint Michael Defeats Satan, 1750. Pinacoteca Vaticana, Vatican City, Rome. – The Athenaeum
A derrota de Satã pelo anjo Miguel

Após sua fracassada tentativa de depor Deus como soberano do Céu por enxergar nele um tirano que não aceita contestações e não reconhece o grau de grandeza dos anjos, Lúcifer e seu exército é lançado ao Tártaro. 

Apesar da derrota, Lúcifer não perde sua arrogância e posição de liderança diante dos outros demônios.

“A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar. / A mente é o seu próprio lugar, e dentro de si / Pode fazer um inferno do céu, do céu um inferno.”

Ciente de sua posição como regente do Inferno, Lúcifer planeja seu plano de corromper a maior criação do Criador: O Homem. E é bem sucedido.

A queda de Adão e Eva e a expulsão do Paraíso

Os discípulos de Satã 

Durante o Romantismo, o Lúcifer de John Milton capturou a imaginação de poetas e escritores do século 19 não apenas na Europa, mas também no Brasil com o Ultraromantismo.

O personagem ajudou na criação do “herói romântico” que, como tal, mesmo em condições adversas ou prevenindo contra suas ações enfrenta crenças estabelecidas, ou o sistema dominante, em busca de mudança e paga o preço por suas ações. 

Apenas para citar um exemplo, este é o caso de Victor Frankenstein, cuja obsessão em desafiar o domínio da Natureza (e da condição feminina) em prover a vida faz uso de sua Ciência (masculina) pra criar uma criatura abominável que o faz pagar o preço pelas suas ações. 

Releitura nos Quadrinhos

O Lúcifer de John Milton foi reinterpretado no fim dos anos 80 na série quadrinista Sandman (1989-1993), escrita pelo escritor inglês Neil Gaiman.

Neil Gaiman fez a estréia de Lúcifer Estrela da Manhã na revista Sandman #4 de abril de 1989, solicitando que os artistas da revista utilizassem o cantor e ator David Bowie como referência para a aparência do regente do inferno.

Em outro arco da série (Estação das Brumas), após governar o Inferno por 10 bilhões de anos, manipular os demônios para manter seu controle e manter sua guerra contra o firmamento, Lúcifer se sente entediado de sua tarefa.  

Dentre as razões para seu tédio, estão os estereótipos que os humanos fazem sobre sua figura, atribuindo os problemas de suas vidas a ele.

Assim, Lúcifer decide passar o comando do Inferno para Morpheus, o Sandman.

Livre de seu domínio, Lúcifer passa a viver a vida terrena, primeiro na Austrália e depois, muito apropriadamente, na cidade dos Anjos, Los Angeles.

Lá, ele passa a dirigir um piano bar em companhia de outros seres sobrenaturais.  

Lúcifer ganhou uma série própria de 2000 a 2006 em 75 edições escritas por Mike Carey.

Alinhado com sua base literária na epopeia Paraíso Perdido, Lúcifer é um anti-herói arrogante e muitas vezes inconsequente em suas ações, sempre se envolvendo em conflitos.    

Releitura na Televisão

Exemplificando como uma expressão artística alimenta a outra, o personagem Lúcifer, Estrela da Manhã da série Sandman, baseado no Lúcifer miltoniano, foi reinterpretado para a série televisiva Lúcifer

O capeta é interpretado pelo ator Tom Ellis

Produzido pelo canal FOX dos Estados Unidos e tomando como base a série em quadrinhos de Mike Carey, os episódio de Lúcifer mostram as aventuras do ex-Senhor dos Infernos em Los Angeles e seu envolvimento com a Detetive da Polícia Chloe Decker.

Fascinado e intrigado pelo fato da detetive resistir aos seu charme, Lúcifer passa a se envolver nos casos da Polícia ao mesmo tempo em que é advertido por seu irmão Amenadiel a reassumir seu lugar no inferno.

A série, até o momento da escrita deste post, conta com três temporadas anunciadas.

Respondendo a pergunta do título deste post – Por que o diabo fascina? – é fácil entender o fascínio deste personagem desde 1667 até os dias de hoje na Literatura, Quadrinhos e Série de TV. 

Rebelde, charmoso, confiante, elegante, bonito, cativante e inteligente, o diabo criado por John Milton reúne todas as qualidades esperados de um personagem que desperta admiração por parte do público.

E isso não é de hoje…

Lúcifer antes de Lúcifer

Se mesmo o protestante radical John Milton não conseguiu diminuir o encanto de seu personagem Lúcifer isso se deve a toda a tradição histórica relacionada ao Lúcifer que o Cristianismo herdou do Judaísmo.

Da primeira deportação dos judeus em 609 a. C até o fim em 538 a. C., o contato dos judeus com as divindades estrangeiras durou 70 anos.

O curioso neste caso é que Lúcifer e alguns dos seres relacionados a ele, por vezes tomados como variações do mesmo ser, como Asmodeus, AstarothBelzebu não nasceram no meio do povo judeu.

Esses seres tem sua origem relacionada as divindades dos opressores dos judeus, principalmente durante o período conhecido como o Cativeiro da Babilônia no século 6 a.C., quando os hebreus foram cativos na Babilônia.

Asmodeus

Associado a Luxuria, Asmodeus possui três cabeças, uma de homem, uma de Touro e outra de Carneiro, símbolos de virilidade e fertilidade. 

Asmodeus (Aeshma deva) nasceu a partir da divindade persa da tempestade.

Astaroth 

Representado como um homem nu de asas e com mãos e pés de dragão e um segundo par de asas com plumas abaixo do principal, levando uma coroa, segurando uma serpente com uma mão e cavalgando sobre um lobo ou um cachorro.

Astaroth (Ashtoreth) nasceu a partir da deusa lunar cultuada na Mesopotâmia com o nome de Ishtar.

Belzebu

Belzebu, dentro da tradição cristã, é o Príncipe dos demônios. 

Belzebu (Baal-Ze-boub), ser de etimologia complexa, nasceu a partir do deus filisteu Baal e siginifica “O Senhor das Moscas”. Antes relacionado as pestilências, na tradição dos Sete Pecados Capitais do século 6 passou a ser relacionado a Gula.

E o Estrela da Manhã? 

Assim como seus companheiros regentes do Inferno, Lúcifer também se origina entre os inimigos do povo judeu.

Neste caso específico, como bem coloca Carlos Roberto Nogueira em O Diabo no imaginário cristão (2000),  a origem do nome Lúcifer – o astro da manhã, o filho da aurora, a “estrela” Vênus – está associado a queda do rei da Caldéia.

Esta relação aparece pela primeira vez em Isaías (14:12), onde o profeta debocha  do rei após a sua queda para designar um regente caído, líder de exércitos:

“Como é que você caiu do céu, heylel, filho da aurora?”

Foi com a ambiciosa tradução da Bíblia para o inglês moderno realizada na Inglaterra do século 17, que ficou conhecida como a Bíblia do Rei James, que a palavra hebraica “heylel” foi traduzida como “Lúcifer”.

Assim, tendo sua origem ligada tanto a um personagem nobre quanto também a divindades e seres relacionados a realeza infernal, surgiu o elegante e cativante Lúcifer que dominou a imaginação de John Milton em 1667.  

E o resto é história…

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Fontes utilizadas

BENDER, Hy. The Sandman Companion. London: Titan Books, 2000.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: EdUSP, 1988.

COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro: Rosa dos ventos, 1996.

MACK, Carol K., MACK Dinah. A Field Guide to Demons, Fairies, Fallen Angels, and Other Subversive Spirits. New York: Henry Bolt and Company, 1999.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. Bauru, SP: EDUSC, 2000.

SILVA, Alexander Meireles da. Literatura Inglesa para Brasileiros: Curso completo de Literatura e Cultura Inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.  

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Qual é o seu super grupo favorito? Dos Argonautas aos Power Rangers

2017 é o ano dos super grupos no Cinema e nas Webséries: Power Rangers, Guardiões da Galáxia, Liga da Justiça, GuardiõesDefensores

Os heróis urbanos Punho de Ferro, Demolidor, Luke Cage e Jessica Jones formam os Defensores.

Os grupos formados por indivíduos com habilidades especiais que se unem voluntaria ou involuntariamente para servirem a um propósito maior existem desde antes da invenção das HQs, principal veículo de criação e propagação deles.

O primeiro grupo de super heróis russos, Os GUARDIÕES, mostra que os russos também querem competir com os americanos no Cinema.

Ilustrando a força do trabalho em equipe ou simplesmente representando a busca das empresas em vender mais com apenas um produto, os super grupos estão entre nós desde a Mitologia grega.

Veja abaixo um breve panorama histórico desse fenômeno que passa pela Literatura e a Cultura de Massa.

Na Mitologia

O primeiro grupo formado de personagens especiais unidos com uma missão, e se pode dizer também que é o primeiro super grupo, está na Mitologia Grega com Jasão e os Argonautas.

Jasão e os Argonautas

A fonte para esta história está na obra Argonautica de Apolônio de Rodes (século 3 a.C.), baseada em textos encontrados na Biblioteca de Alexandria.

OS ARGONAUTAS, pintura de Lorenzo Costa no Museu de Pádua, Itália

Ao reclamar o seu direito ao trono de Lolcos, usurpado por seu tio Pélias, Jasão recebeu do rei a missão de conquistar o Velocino de Ouro, objeto que conferia poder e riqueza a quem o possuísse.  

A intenção do rei Pélias era que seu sobrinho Jasão morresse na empreitada.

Ciente do perigo da tarefa, visto que o Velocino era guardado por um dragão que nunca dormia, Jasão reuniu cinquenta heróis com habilidades únicas com o propósito de ajudá-lo na missão.

Uma vez reunidos, eles embarcaram no navio Argo (daí o nome Argonautas) e partiram rumo ao Mar Negro, onde ficava a região em que o Velocino estava.  

Jasão, a esquerda, segurando Velocino.

Iniciando uma tradição que continua até hoje, os Argonautas eram compostos por heróis com suas próprias aventuras e feitos grandiosos. Dentre os quais, destaque para:  

Atalanta

Única mulher do grupo. Possuidora de grande velocidade e habilidade no arco e flecha;

Castor e Pólux

Ainda que tivessem a mesma mãe, os gêmeos tinham pais diferentes: Pólux era filho de Zeus e, portanto, imortal, Castor era filho do rei Tindaro e se tornou um mestre na arte de domesticar cavalos. 

Herácles

Também conhecido na mitologia romana como Hércules, este filho de Zeus era o homem mais forte de seu tempo e um dos mais populares heróis gregos.

Orfeu

Dono de uma voz sobrenatural, Orfeu conseguia domar os animais e criaturas sobrenaturais com a música que extraia de sua lira. 

Palemon

Hefesto era o deus responsável por criar em sua fornalha as armas e demais utensílios usados por deuses e seus filhos e filhas.

Filho do deus Hefesto, Palemon também era chamado de O Reparador, pois tinha a habilidade de consertar tudo.

Poriclimeno

Poseidon também era chamado de Netuno na mitologia romana.

Filho do deus Poseídon, Poriclimeno era capaz de se metamorfosear em qualquer animal marinho.

Teseu

Também um dos mais populares heróis gregos pela sua coragem extrema, Teseu matou o Minotauro e se tornou rei de Atenas. Em algumas versões ele derrotou as Amazonas e se casou com Hipólita, a rainha dessas mulheres guerreiras.

Após várias aventuras e perigos, os argonautas chegaram na região do Velocino de Ouro e, com a ajuda de Medeia, filha do rei Eetes de Colquida, conseguiram capturar o objeto.

Medeia é uma das personagens mais controversas da Mitologia Grega.

Na Literatura

Em um terreno onde o individuo tem papel central para a estrutura da narrativa, os grupos aparecem na Literatura em obras que, com o tempo, acabaram sendo vinculadas com o romance de aventuras, ou com a Literatura Juvenil.

Este é o caso do romance histórico Os três mosqueteiros (1844), de Alexandre Dumas. 

Os três mosqueteiros

Cena do filme de 1993 dos estúdios Disney.

Ambientado na França do início do século 17, Os três mosqueteiros foi a obra que trouxe fama para Alexandre Dumas.

O romance mostrava as aventuras do jovem D’Artagnan em sua busca para se tornar um Mosqueteiro, ou seja, um membro da corporação militar vinculada a monarquia francesa famosa pelo manejo da espada.

A evolução do uniforme dos Mosqueteiros

Sendo um romance histórico, a obra de Dumas misturava fatos históricos com ficção para criticar a política da monarquia francesa da época, marcada por injustiças e abusos. 

Baseados em personagens históricos, os heróis de Alexandre Dumas eram os seguintes mosqueteiros:

Athos 

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Armand de Sillègue d’Athos d’Autevielle, Athos era descrito como uma figura paterna para d’Artagnan.

Ele também era marcado pelo relacionamento com a espiã chamada por Dumas de Milady de Winter. 

Porthos

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Isaac de Porthau, Porthos era o mais passional do grupo. 

Gostava de roupas elegantes, mulheres e jogos e era a força física do grupo.

Aramis

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro  Henri d’Aramitz, Aramis era apresentado como um elegante jovem dividido entre sua vocação religiosa e o gosto pela vida mundana.

D’Artagnan

Estátua de D’Artagnan no monumento dedicado a Alexandre Dumas em Paris.

Charles Ogier de Batz de Castelmore, Comte d’Artagnan foi Capitão dos Mosqueteiros em 1667 e base para o jovem herói de Alexandre Dumas.

Como todo jovem herói, era audacioso, arrogante e precipitado.

Nas Histórias em Quadrinhos

O universo dos Super Heróis começou na estréia da revista Action Comics em abril de 1938 trazendo a icônica primeira aparição do Superman. 

O sucesso imediato da criação de  Jerry Siegel e Joe Shuster  levou a uma explosão de outros personagens super heroicos mais ou menos duradouros de acordo com a criatividade de seus roteiristas.

Juntá-los em uma revista única não demorou muito…

DC Comics

O sucesso das revistas de super heróis despertou a atenção dos editores Sheldon Mayer e do escritor Gardner Fox, da DC Comics.

O resultado foi o lançamento da revista All-Star Comics #3 (1940), trazendo a Sociedade da Justiça da América como uma estratégia de alavancagem das vendas.

Sociedade da Justiça da América 

O primeiro super grupo das Histórias em Quadrinhos foi lançado pela DC Comics e reunia os super heróis da editora com exceção do Superman e Batman, visto que eles vendiam bem sozinhos.

Ó engraçado é que nesta primeira edição os personagens só ficavam sentados, contado suas aventuras individuais.

Nesta primeira formação, a SJA contava com os seguintes membros:

Átomo (Atom)

Doutor Destino (Doctor Fate)

Espectro (Spectre)

Flash (Flash)

Gavião Negro (Hawkman)

Homem-Hora (Hourman)

Lanterna Verde (Green Lantern)

Sandman (Sandman)

Marvel Comics

Após os anos dourados das décadas de 30 e 40, as histórias em quadrinhos passaram por um período de crise na década seguinte sendo acusada de serem um instrumento de corrupção da juventude.

Esta revista de 1954 foi usada como evidência de que as revistas lidas pelas crianças americanas dos anos de 1950 as estavam incitando ao crime.

Apenas a partir dos anos de 1960 é que os super heróis encontraram novamente o ambiente para retomarem seus vôos.  

Foi neste cenário que em 1960 a edição #28 da revista Brave and the Bold da editora DC Comics trouxe a Liga da Justiça da América.

O sucesso da revista levou o editor da Marvel Martin Goodman a incumbir o jovem Stan Lee de criar um grupo de super heróis para a editora.

O resultado foi o time de heróis que deu início ao Universo Marvel de Super-Heróis: O Quarteto Fantástico.  

Quarteto Fantástico

Bombardeados por raios cósmicos durante uma missão espacial, quatro pessoas adquirem poderes distintos que os levam a formar o grupo batizado de Quarteto Fantástico, composto por:

Senhor Fantástico 

Garota Invisível (depois rebatizada para Mulher Invisível)

Tocha Humana

Coisa    

O sucesso da Sociedade da Justiça, Liga da Justiça e Quarteto Fantástico abriram o caminho para uma infinidade de super grupos nas Histórias em Quadrinhos.

Hoje há de se lamentar que nas HQs a Marvel tenha dissolvido o grupo que a ajudou a crescer simplesmente pelo fato de não possuir os direitos cinematográficos da equipe, hoje pertencentes a FOX.

Na Televisão

Do outro lado do mundo, no Japão, o criador Shotaro Ishinomori e a produtora Toei Company deram início, em 1975, a tradição dos Super Sentai, honrada hoje pelo filme Power Rangers.

Composta pelo ideogramas: 戦 “sen” (guerra) e 隊 “tai” (grupo), essas séries mostram um grupo de cinco indivíduos que recebem super poderes, são identificados por cores diferentes e possuem robôs individuais que, uma vez combinados, criam um robô gigante. 

Himitsu Sentai Gorenger

A primeira série Sentai, e também a mais longa até hoje com 84 episódios, é a Himitsu Sentai Gorenger, traduzida em Português como Esquadrão Secreto Gorenger.

Ainda que Himitsu Sentai Gorenger tenha estabelecido o padrão inicial das séries Sentai, foi a partir da terceira série – Battle Fever J, de 1979 – que o termo Super Sentai passou a ser utilizado com a introdução do robô gigante, que se tornou uma marca representativa e recorrente nas séries futuras.

É hora de morfar! 

No início dos anos da década de 1990 a produtora norte-americana Saban resolveu reutilizar as ideias e conceitos dos Sentais e lançou a série Mighty Morphin Power Rangers, voltada para o público americano.

A enorme receptividade da série de 1993, lançada no Brasil no ano seguinte, permitiu a criação de várias outras temporadas de sucesso.

E o resto é história…  

Gostou? 

Qual é o seu grupo de super heróis favorito? 

E qual formação dos Power Rangers marcou a sua infância?

Deixe seu comentário, compartilhe o post com seus super amigos e amigas e assine o blog.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito. Mitologia grega. Vol. 3. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 1987.

JONES, Gerard. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. São Paulo: Conrad, 2006. 

MUNDO ESTRANHO. Os mosqueteiros realmente existiram na França? Disponível em http://mundoestranho.abril.com.br/historia/os-mosqueteiros-realmente-existiram-na-franca/ . Acesso em 25 março 2017. 

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Será que você é um canibal? O canibalismo no fantástico (Parte 2)

Na primeira parte do post sobre a relação entre o Canibalismo e o Fantástico, que você pode acessar clicando aqui, apresentei um breve panorama de como a prática de comer carne humana acompanha a história da humanidade antes mesmo dela surgir na mitologia grega passando pela Idade Média e chegando aos contos de fadas que conhecemos.

Cronos versus Zeus: Canibalismo mitológico.

Neste segunda parte do post, você vai ver como o canibalismo se tornou uma linha divisória entre o civilizado e o bárbaro, entre o humano e o monstruoso.

A comédia zumbi SANTA CLARITA DIET permite refletir sobre rotina e acomodação na sociedade moderna.

Vai ver também como ele se tornou um simbolo das ansiedades do ser humano no mundo de hoje, algo visto na série da Netflix Santa Clarita Diet e no filme Grave (Raw, no original em inglês).

A relação do individuo com o corpo nos tempos modernos aparece refletido no filme

Se você quer ler logo sobre como o fantástico interpreta o mundo por meio do canibalismo, antes de conhecer a história da prática de se comer carne humana, clique aqui

O Canibal é americano

Polifemo era filho de Poseidon com uma ninfa da água

Quando os europeus se lançaram ao mar no século 15 e 16 eles levaram em seus navios todo o imaginário herdado dos relatos da Antiguidade sobre criaturas monstruosas e canibais, como o do ciclope Polifemo, que devorou os homens de Ulisses na obra A Odisséia.   

O monstro nos confins do mundo

A Literatura de Viagens da época, seguindo essa crença, era repleta de relatos de criaturas antropofágicas que viviam em regiões da Etiópia e da Índia, como os Cinocéfalos, homens com cabeça de cães.

Os cinocéfalos se alimentavam dos viajantes incautos

A chegada dos europeus as Américas trouxe a revelação de que alguns dos povos indígenas do continente consumiam carne humana em rituais religiosos.

Representação do canibalismo da tribo brasileira dos Tupinambá em 1557, conforme descrição de Hans Staden.

Esse ritual visava adquirir a coragem dos guerreiros inimigos capturados ou como parte de oferenda para os deuses.

Canibal ou Antropófago? 

Foi neste contexto que, ao observarem os índios antropófagos das ilhas do Caribe, os exploradores criaram a palavra “Canibal”

A prática do canibalismo foi um dos motivos alegados pelos europeus para a escravidão indígena, com o pretexto de que eles não eram humanos.

Mas, qual é a diferença entre Canibalismo e Antropofagismo? 

Todo antropófago é canibal, mas nem todo canibal é antropófago.

Explico.

O Canibalismo ocorre quando um individuo de uma espécie come outro representante da mesma espécie. Não é exclusivo do universo humano.

No caso do Louva-a-deus o canibalismo é cometido pela fêmea, que devora o macho depois do ato sexual.

Já a Antropofagia (do grego anthropos, “homem” e phagein, “comer”) ocorre especificamente quando um individuo humano come a carne de outro ser humano.

Canibais brancos e cristãos

Ainda que após o contato entre europeus e os povos indígenas, estes últimos tenham sido associados a antropofagia, os colonos brancos (e cristãos) também não ficaram de fora.

Durante o ano de 1609 na cidade de Jamestown, uma das primeiras experiências colonizadoras na América, os colonos ingleses precisaram recorrer ao canibalismo como forma de sobreviverem ao rigoroso inverno que se abateu sobre o assentamento. 

O canibal é o outro

Sendo um dos principais tabus da humanidade, o canibalismo sempre é associado a alguém pertencente a alguém de outro grupo. Nunca a nós.

O Kindilfresser é um comedor de crianças da Suíça cujas origens podem estar relacionadas ao preconceito contra os judeus.

Judeus, muçulmanos, índios, negros… todos os que não pertenciam ao padrão branco, cristão e europeu eram enxergados como canibais em potencial.

O Papa figo é um negro leproso que coloca as crianças no saco para depois comer o figado delas.

No folclore do Brasil, esse preconceito está expresso em criaturas canibais ligadas ao medo infantil, tais como o Papa figo e o Quibungo.

O Quibungo é negro e tem uma bocarra nas costas por onde ele enfia as crianças que pega.

Para saber mais sobre essas e outra criaturas, leia o post aqui do blog “Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?”

O canibalismo no Cinema

Depois de passar pela Mitologia e pela História, o canibal encontrou no Cinema o espaço ideal para mostrar seu apetite.  

Os pais dos canibais cinematográficos

Dois filmes da década de 1960 foram os responsáveis por promover uma verdadeira invasão de comedores de carne humana no Cinema dos anos setenta.

Para assistir ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

  1. Mondo Cane (1962)

Produção italiana que inaugurou o gênero Shockumentary, este filme traz vários costumes e práticas de povos e comunidades ao redor do mundo, dentre os quais, o canibalismo.

2. A noite dos mortos-vivos (1968) 

Filme que reinventou o personagem folclórico do zumbi no cinema e introduziu o tema do canibalismo no fantástico. O primeiro zumbi canibal está aqui

Se quiser saber mais sobre zumbi, veja o vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 curiosidades monstruosas: Zumbi”.

Os anos de fartura para o canibal

Os anos setenta foram os anos dourados do canibalismo no Cinema dado o grande número de produções na Itália e nos Estados Unidos com esta temática.

Estes filmes podem ser encontrados no YouTube e para assistir abaixo ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

Cito abaixo as produções mais relevantes para a Ficção Científica e o Horror:

  1. No mundo de 2020 (Soylent Green / 1973) 

Se A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells é o primeiro romance de ficção cientifica a tratar do canibalismo, No mundo de 2020 é a primeira distopia a tratar do tema no Cinema. 

Vivendo em um mundo onde a ração Soylent Green é distribuída a população faminta, o policial vivido por Charlton Heston inicia uma investigação sobre a morte de um executivo que o leva a descobrir do que a ração é feita.

2. O massacre da serra elétrica (The Texas Chain Saw Massacre / 1974)

Clássico do Horror, o filme de Tobe Hooper ganhou uma refilmagem em 2013 para celebrar os 40 anos do original. 

O filme introduziu o canibal Leatherface, considerado um dos maiores vilões de todos os tempos e que antecipou outros assassinos de adolescentes nos anos seguintes em filmes como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

3. A montanha dos canibais (La montagna del dio cannibale / 1978)

Trazendo a bela Ursula Andress como protagonista, este filme se insere nas produções do ciclo canibal italiano iniciada em 1972 com The Man from the Deep River e apela para a temática da Literatura de Raças Perdidas como pretexto para cenas de nudez, violência extrema e até zoofilia, por conta da cena de um canibal transando com uma porca!

O canibal no espelho

As últimas décadas do século vinte e o início do século vinte e um forneceram o contexto para uma renovação do canibalismo no Cinema ao subverter a fronteira entre o civilizado e o selvagem, entre o Eu e o Outro. 

A modernidade faz do ser humano um canibal.

Este é o caso dos filmes abaixo. Para assistir aos trailers, basta clicar nas imagens.

1. Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust / 1980)

Ao contrário do que se pode pensar, Bruxa de Blair (1999) não foi o primeiro filme de horror do gênero Found footage e Mockumentary, isto é, produção que simula a descoberta de material de filmagem de um equipe cinematográfica desaparecida durante a realização de pretenso documentário.

Na frente das câmeras, documentaristas idealistas, por trás das câmeras, sádicos urbanos

Este mérito cabe a Holocausto canibal, conhecido como “O filme mais polêmico e controvertido de todos os tempos”.  

Banido de vários países, esta produção italiana levou o diretor Ruggero Deodato aos tribunais por ser acusado de realizar um Snuff Movie, ou seja, um filme em que um assassinato real é realizado para fins lucrativos e de entretenimento.

Na ocasião ele teve de provar que todos os atores estavam vivos e bem.

No filme, a equipe de filmagem agride os indígenas de todas as formas.

O maior impacto de Holocausto canibal foi deslocar a barbárie dos índios canibais para os jovens cineastas, que praticaram todo o tipo de crueldade com os indígenas em busca de um documentário impactante.

A cena da câmera que fica gravando depois da morte do último personagem, foi inventada neste filme.

O resultado foi a vingança dos nativos contra uma nova espécie de monstro: o homem civilizado.

2. O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs / 1991)

Adaptação do segundo romance de 1988 de Thomas Harris, este filme ganhador de vários óscares apresenta no cinema o psiquiatra Hannibal Lecter.

Vencedor de vários prêmios, o filme rendeu o Oscar de Melhor Ator para Sir Anthony Hopkins.

Culto, cortês e elegante, mas também sádico, manipulador e… canibal, Hannibal Lecter é a incorporação do ambiente de fim de século, mostrando que por trás da capa superficial de civilidade do ser urbano existe um monstro pronto a emergir.     

3. Psicopata americano (American phycho / 2000)

Baseado no romance de 1991 de Bret Easton Ellis e adaptado para o cinema em 2000, a obra é ambientada nos anos oitenta e traz como protagonista um Yuppie extremamente competitivo e narcisista.

O filme traz o sempre excelente Christian Bale como o psicopata Patrick Bateman.

Assim como o livro, o filme foi cercado de polêmicas sobre os limites entre a arte e a violência gratuita.

Crítica feroz ao Capitalismo selvagem, Psicopata americano perturba por criticar uma geração que quanto mais tinha menos sentia, quanto mais subia na carreira profissional mais descia na civilidade a ponto de, em uma escalada de violência, se tornar canibal.

4. A estrada (The Road / 2009)

Nesta distopia baseada no romance de 2007 do escritor Cormac McCarthy e premiado com o Pulitzer, pai e filho precisam atravessar uma América pós-Apocalíptica rumo a um local seguro enquanto enfrentam, entre outros perigos, pessoas que aderiram a prática do canibalismo.

Os recentes casos de barbárie e vandalismo presenciados no início de 2017 tanto nos presídios brasileiros por conta da luta entre facções quanto no estado do Espírito Santo em virtude da greve da polícia não deixam duvidas sobre o canibalismo ser uma realidade a se temer quando da decadência da sociedade.  

5. Grave (Raw / 2017)

Justine é uma jovem vegetariana que acaba de ingressar na faculdade de Veterinária seguindo, assim, os passos da família.  

O problema é que, após sofrer um trote no qual precisa comer carne, a menina começa a manifestar impulsos canibais. 

Bullying, distúrbios alimentares, culto ao corpo, relacionamento amoroso nos tempos atuais, tudo passa pela temática do canibalismo neste que promete ser um dos filmes mais polêmicos do ano de 2017.

6. Santa Clarita Diet (2017)

Esta série cômica da Netflix prova que o zumbi ainda pode render boas histórias quando os roteiros ajudam a contar uma boa história.

A série não foca nos motivos que levaram a corretora de imoveis Sheila a ser tornar uma morta-viva, preferindo mostrar as consequências dessa transformação sobre sua família.

Os episódios centram na gradual adaptação da família ao nova condição da mãe e esposa, ao mesmo tempo em que mostra a personagem se sentindo mais viva do que nunca depois que morreu e passou a comer pessoas.

Vale assistir. 

Gostou? Então lembre que o vídeo desta semana do FANTASTICURSOS no YouTube também é sobre Canibalismo. 

Basta clicar aqui.

Então deixe seu comentário ai embaixo e compartilhe este post com seus amigos carnívoros, vegetarianos, veganos e canibais.

Até a próxima semana.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

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Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

Gostou?

Então deixe o seu comentário e compartilhe com seus amigo visíveis ou invisíveis. 

Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

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WESTWORLD: robôs, androides, ciborgues ou autômatos?

Lançada em 2016 pelo canal norte-americano HBO na ambiciosa posição de sucessora de Game of Thrones, a série Westworld vem recebendo elogios de público e crítica pelos episódios sobre a relação homem X robô e, dentre outros temas, a discussão da liberdade (ou falta) de escolha na tomada de decisões dos envolvidos.  

O sucesso da série, todavia, não é resultado apenas dos roteiristas, mas sim de todo um passado literário envolvendo seres artificiais  que podem ser traçados da mitologia grega até os dias de hoje.  

Sobre gigantes, cavaleiros e escritores: os antepassados dos robôs

Talos

Como quase tudo relacionado ao Fantástico no Ocidente, é na Grécia antiga que se encontra as primeiras menções a serem artificiais criados com o propósito de auxiliar o homem com seus afazeres.

Hefesto era o construtor dos deuses e foi o responsável pela fabricação dos raios utilizados por Zeus

Segundo a mitologia grega, foi o deus Hefesto (o Vesúvio dos Romanos) o responsável pela criação do primeiro ser artificial: o gigante Talos.

Hefesto criou Talos para proteger a ilha de Creta, algo que ele fazia se colocando na entrada da cidade grega como se pode ver acima no filme Jasão e os Argonautas (1963).

O gigante de bronze possuía uma artéria interna que percorria todo o seu corpo metálico através da qual fluía o Ichor, o misterioso fluido da vida que lhe concedia vida e que também estava presente no sangue dos deuses gregos. 

Sendo estruturado como uma criação que possuía elementos orgânicos (Ichor) e não-orgânicos (corpo metálico), Talos foi um antepassado de projetos de hoje que buscam mesclar componentes vivos e artificiais e que deram origem no ano de 1960 a palavra Ciborgue (“Cybernetic organism”).

Assim sendo, o gigante de bronze Talos não foi apenas o primeiro ser mecânico que poderia ser chamado de robô, mas também foi o primeiro ciborgue da história ocidental, sendo seguido séculos depois por outros representantes do tipo, como os Borg (Star Trek), Robocop, Exterminador e o super-herói Cyborg.

O cavaleiro mecânico de Leonardo da Vinci

Antes da criação da palavra “Robô” em 1921, todos os engenhos com aparência de ser humano ou de outros animais que reproduzissem movimentos por meios mecânicos ou eletrônicos eram chamados de autômatos.

Só podia ser Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci pode ser considerado um dos pioneiros da Robótica em fins do século quinze com suas idéias sobre um cavaleiro alemão automatizado

A ideia inicial de Leonardo da Vinci

O gênio renascentista deixou vários estudos em desenho para uma estrutura que seria inserida em uma armadura medieval e que seria movimentada por meio de manivelas e cabos.  

Também conhecido como “Soldado Robô” ou “Robô de Leonardo”, estas anotações foram redescobertas no século vinte e finalizadas em 2002 por Mark Rosheim.

O autômato de Leonardo da Vinci se mostrou funcional e podia sentar, ficar de pé, virar a cabeça, cruzar os braços e até levantar o visor. 

A efetivação do projeto em 2002 atestou ainda mais a genialidade do mestre renascentista

O Escritor e Frankenstein

Como se define a vida?

 Produzidos entre 1768 e 1774 como meio de propaganda para a venda de seus relógios, os três autômatos do relojoeiro suíço Pierre Jaquet-Droz correram a Europa fascinado plateias em todas as suas apresentações.

Compostos  por “O Escritor”, “A Música” e “O Desenhista” e inseridos no contexto do século dezoito de valorização da Ciência em detrimento da Religião, as criações de Jaquet-Droz eram tão sofisticadas que levantaram debates sobre o principio da vida e a definição de humano.

Segundo estudiosos, uma jovem inglesa de nome Mary Shelley teria assistido a uma das apresentações do autômato Escritor e se impressionado com a aparência de vida da criação de Jaquet-Droz.

Quanta imaginação tinha essa menina!

Anos mais tarde, ela mesmo criaria a obra definitiva sobre a tentativa do ser humano em criar vida artificial: Frankenstein (1818).  

De autômatos a replicantes: O robô literário

Além de Frankenstein, os autômatos de Pierre Jaquet-Droz também exerceram influencia em outras obras fantásticas do século dezenove, mostrando que, a partir dali e ao longo do século vinte, fantasmas e vampiros passariam a dividir a atenção dos leitores com os produtos da Ciência e do progresso.   

Dentre diversos romances, contos, peças teatrais e filmes, destaque para:

A Eva futura (1886), de Auguste Villiers de l’Isle-Adam

Romance francês que trouxe para a Literatura o termo “Androide”.

Formado pela junção do grego Andro (Homem) e o sufixo oid (tendo a forma ou semelhança de), a palavra “Androide” surgiu na enciclopédia Cyclopædia (1728), de Ephraim Chambers.   

Androides são seres artificiais fabricados para terem o comportamento e a aparência física externa semelhante a dos humanos

Androide #18. Bonita e poderosa.

Curiosamente, o androide da obra de Auguste Villiers de l’Isle-Adam é feminino e se chama Hadaly. Isto quer dizer que, na verdade, ela é uma Ginoide, do grego Gyné (Mulher) e o sufixo oid. 

Esta palavra surgiu no romance Divine Endurance (1985), de Gwyneyth Jones

“Gynoid”. Uma tentativa de se contemplar a questão dos gêneros na literatura de robôs.

Outros termos usados para designar androides femininos, são Fembot e Feminoide. Todavia, “Androide” é normalmente o termo escolhido para ambos os sexos.

É importante destacar que se Hadaly foi a primeira ginoide na Literatura, a posição de primeira autômata pertence a Olympia, da obra O homem de areia (1817), de E. T. A. Hoffmann.  

Olympia na Ópera Les Contes d’Hoffmann (2010)

“O feitiço e o feiticeiro” (1894), de Ambrose Bierce

“O Rei morreu e você também!”

Jogador de xadrez autômato se revolta contra seu criador e o mata após levar um Xeque-Mate. 

É um dos primeiros contos em Língua Inglesa a trazer a descrição de um autômato.

A fábrica de robôs (1920), de Karel Capek

Um cena da peça mostrando três robôs.

Nesta peça teatral a palavra “Robô” surgiu.

Foi o escritor e pintor Joseph Capek, irmão de Karel Capek, que sugeriu o uso da palavra tcheca robota (“servidão”, “trabalho forçado”) para dar nome aos produtos da fábrica R.U.R. (Rossum’s Universal Robots).

Ironicamente, mesmo aqui na obra que as batizou, as criações mostradas não se encaixam na visão popular de robôs da Ficção Científica como um agrupamento de partes mecânicas e eletrônicas.

Robby, um dos mais famosos robô da FC, destaque do filme O Planeta Proibido (1956).

Sendo produzidos de forma biotecnológica a partir da descoberta de um composto orgânico, os robôs de Capek se enquadram melhor na categoria de Androides

De fato, baseado nos episódios da primeira temporada de Westworld, podemos observar semelhança entre os robôs da obra de Capek e os Anfitriões da série no que se refere a sua fisiologia artificial.

Assim sendo, pode ser dito que os robôs de Westworld, apesar do nome, são na verdade androides.

A principal contribuição da peça de Karel Capek é a introdução do debate tanto sobre a exploração dos robôs pelo ser humano, resultando na rebelião do primeiro, quanto sobre a desumanização do homem diante da tecnologia. 

Metropolis (1927), direção de Fritz Lang

Se o primeiro androide na Literatura foi na verdade a ginoide Hadaly, o mesmo ocorreu com o primeiro androide no Cinema: Maria

Considerado por críticos em geral o primeiro filme de Ficção Científica, a ginoide Maria serviu de base para a criação de C-3PO, da saga Star Wars.

 Eu, Robô (1950), de Isaac Asimov

Nesta coletânea de nove contos Asimov apresenta as bases de sua História de robôs.

Listado entre as obras mais importantes do século vinte, o livro de Isaac Asimov trouxe uma nova abordagem para os robôs, afastando-os da imagem de seres ameaçadores e malignos veiculadas nas revistas de ficção científica das primeiras décadas do século vinte.

Destrua todos os humanos!

O robô de Asimov, este sim um ser metálico como a cultura pop costuma representar, tem sua existência regulada pelas chamadas Três Leis da Robótica, princípios que ultrapassaram o campo da Literatura e ainda servem de base para os estudos dos robôs atuais.

Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick

Publicação da Editora Aleph

Clássico cyberpunk de Philip K. Dick, apresenta o termo pejorativo Andys para se referir aos androides perseguidos pelo caçador de recompensas Rick Deckard.

Na adaptação para o Cinema, em 1982, o diretor Ridley Scott adotou o termo “Replicante” para reiterar a capacidade dos androides em replicar a natureza humana, levando os caçadores a aplicar um teste para identificá-los enquanto seres artificiais.   

O filme não teve bom desempenho de público e crítica nos anos oitenta, mas se tornou um clássico cult com o passar dos anos.

O romance se alinha com o efervescente contexto politico-cultural dos anos de 1960 nos Estados Unidos e traz temas recorrentes do autor, como o debate sobre os limites entre o real e o virtual, o impacto da tecnologia na relação do ser humano com seu meio, e o questionamento sobre as definições de humano. 

Gostou?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos cibernéticos.

Fontes utilizadas

ASIMOV, Isaac, GREENBERG, Martin H., WARRICK, Patricia S. (Ed.). Máquinas que pensam: Obras primas da ficção científica. Porto Alegre: L&PM Editores,1985.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

BLACK MIRROR: Por que você se incomoda tanto?

A série de ficção científica Black Mirror vem despertando comentários variados do público e uma sensação de incômodo pelas possibilidades (ou ameaças?) evocadas em seus episódios. Mas por que você se incomoda tanto?  

Bem vindo ao lado negro

Pra começo de conversa, o que é o “black mirror”?

Smartphones, tablets, notebooks, televisores, computadores… todos eles possuem uma tela negra capaz de refletir coisas ou pessoas (muitas mulheres usam para dar aquela checada básica no look), mas o que a série propõe é levar o expectador a refletir o que exatamente este “espelho negro” reflete, não tanto da aparência física da pessoa, mas de sua alma e, indiretamente, do mundo ao seu redor.

E o reflexo fica cada vez mais perturbador.

Black Mirror e outros espelhos

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As promessas da tecnologia para o início do século 20

Como você já descobriu com Black Mirror, a Ficção Científica (FC) não tem como propósito principal celebrar os avanços da Ciência e da tecnologia, como na imagem acima, mas sim promover uma crítica sobre os efeitos destes avanços na sociedade e no individuo.

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A representação da criatura de Frankenstein no filme FRANKENSTEIN (1931).

Isso vem desde o nascimento do gênero com Frankenstein (1818), da inglesa Mary Shelley.

Em 1816, quando teve a ideia do livro, ela era uma jovem de 19 anos que, assim como os que assistem Black Mirror hoje, também tinha sua cabeça explodida pelas várias inovações científicas da época. 

No caso de Frankenstein, a história do jovem cientista que se deixa seduzir pelo poder de criar a vida por meios artificiais, Shelley queria criticar os avanços da Revolução Industrial na Inglaterra do início do século 19, alertando que os produtos da Ciência e da tecnologia poderiam se voltar contra o ser humano.

451
Distopia Fahrenheit 451

Mais de um século depois do romance de Mary Shelley, e de várias outras obras de FC questionando o uso dado a tecnologia, o norte-americano Ray Bradbury publicou a distopia Fahrenheit 451 (1953).

Neste romance, que se passa em uma América do futuro, os bombeiros queimam livros como parte da política do sistema opressor de fazer com que as pessoas fiquem alienadas em frente a aparelhos de televisão.

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Cena do filme FAHRENHEIT 451 (1966), direção François Truffault.

Importante destacar que quando Ray Bradbury escreveu sua distopia a televisão ainda era uma novidade tecnológica nos lares americanos, mas ele percebeu que em pouco tempo aquele produto se tornaria o centro das atenções nas casas.

Não deu outra. Com a TV as famílias passaram a interagir menos, para ficarem hipnotizadas em frente aquele primeiro espelho negro.  

Pelo menos até a chegada da internet e de Black Mirror.  

4 motivos pelos quais você se incomoda com Black Mirror

Nosedive
“Queda livre” (1° episódio da 3° temporada )

1. Você não é feliz

Já teve a impressão que todo mundo no Facebook, no Instagram e no Snapchat é feliz? Todos viajam, todos estão amando e sendo amados, todos estão comprando coisas novas, mas e você? 

Pesquisa da Universidade do Missouri e publicado na edição de fevereiro de 2015 da revista Computer in Human Behavior mostra que as centenas de “Likes” e “Compartilhamentos” de usuários do Facebook podem provocar não apenas inveja, mas também desencadear um processo de depressão em algumas pessoas.

Semelhante ao episódio “Queda livre” (Episódio 1 da 3° temporada), em que sua posição social depende da avaliação de outros cidadãos, as redes sociais acabam fomentando a perpetuação de uma “Cultura da Felicidade” em que as pessoas  precisam mostrar (ou fingir?) que são felizes para não se sentirem marginalizados dentro de seus grupos. A pressão sobre os jovens é maior.

Isso pode explicar o resultado de outra pesquisa, a das universidades de San Diego, California e Florida Atlantic de que jovens com menos de 30 anos se declaram mais felizes do que as pessoas de outras faixas etárias.  

2. Você é falso

Black Mirror
“Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada)

Você é um Hater? Você aproveita o sigilo da internet para insultar e destilar preconceitos? Ou simplesmente falar mal de outras pessoas? O que aconteceria se, semelhante ao protagonista do episódio “Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada), você fosse pego?

Mas e na vida real? Você tem coragem de dizer tudo o que escreveu por trás de um avatar?

O anonimato da rede incentiva o surgimento de uma persona diferente da real, caracterizada pela:

  1. Ausência da individualidade em favor da adoção do comportamento do grupo virtual ao qual a pessoa pertence. O que Michel Maffesoli chama em Tempo das tribos (1998) de “Tribalismo pós-moderno”;
  2. Surgimento de uma máscara virtual governada pelo Id, ou seja, sem controle pela moral e normas sociais e tomada pelos impulsos e desejos. Escreve o que quer contra tudo e todos sem se preocupar com repreensões reais ao seu Eu real por parte de grupos atingidos. 

O incômodo que Black Mirror causa é que a internet pode não vir a ser tão segura para sua segunda identidade quanto você pensa.

O que pensariam os seus pais e amigos se descobrissem quem você é?  

3. Você sabe que Black Mirror vai se tornar realidade (ou já é?)

É perceptível o aprofundamento da questão da tecnologia na terceira temporada da série, lançada em 2016, em relação a primeira, de 2011.

Isso se deve ao ritmo de criação e disseminação de novas tecnologias dentro do espaço que separa 2011 de 2016.

O Instagram e Snapchat, por exemplo, foram lançados respectivamente em 2010 e 2011 e hoje aparecem como rivais do Facebook, criado em 2004.

Isso mostra que a inquietação que você sente com o mundo de Black Mirror pode ser uma percepção de que, quando você menos esperar, ele se tornará real. Não é uma questão de SE, mas de QUANDO.

  1. Aplicativo que permite a você avaliar serviços e atendimento, influenciando na vida profissional da pessoa, como em “Queda livre”?  Uber. Além disso, o Governo da China vem estudando a implantação de um crédito social nos mesmos moldes do episódio da série.
  2. Transferir a consciência humana para as nuvens de informação, como em “San Junipero” (4° episódio da 3° temporada)? O cientista e engenheiro do Google Ray Kurzweil prevê essa possibilidade para 2045.
  3. Realidade alterada pela tecnologia, como em “Engenharia reversa” (5° episódio da 3° temporada)? Face Swap do Snapchat.
  4. Realidade aumentada, como em “Versão de testes” (2° episódio da 3° temporada)? Pokémon Go 

É só esperar pelos demais

4. Você não sabe como (e se quer) se opor ao mundo de Black Mirror

15
“Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada)

Comentários no YouTube sobre a série descrevem pessoas que tiveram pesadelos, passaram mal, choraram ou mesmo vomitaram por causa de alguns episódios.

Outros disseram que pensaram em apagar contas no Facebook e Snapchat. E por que não o fizeram?

O fato é as redes sociais servem como um alivio para a realidade cotidiana de todos.

Por isso você continua pedalando sua bicicleta que alimenta a sociedade da informação de hoje e recebe como recompensa pequenos e constantes consolos, utensílios e implementos. Você confia que eles permitirão a você expressar sua individualidade, mostrar seu talento, quando na realidade (que você não quer reconhecer) irá apenas alimentar o coletivo.

Episódios como “Hino nacional” (1° episódio da 1° temporada), “Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada), “Toda a sua história” (3° episódio da 1° temporada)  e “Queda livre” refletem essa dependência que o ser humano cibernético de hoje tem da tecnologia. 

Somos Victor Frankenstein e seu monstro em um único ser.

Talvez, no fundo (ou nem tão fundo assim) o incômodo de Black Mirror é uma espécie de desejo pela promessa de tecnologia da série, pois afinal de contas, as inovações tecnológicas não são boas ou más, depende apenas de quem usa. E você quer confiar nisso que está lendo. 

Já que o assunto é esse, alimente o sistema comentando seus episódios favoritos e o que impressionou você nesta série.

E compartilhe. 

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Escrito por Alexander Meireles da Silva

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