Como nasceu a Literatura de Fantasia moderna de O HOBBIT?

Nesta semana, para ser mais preciso no dia 21 de setembro, comemorou-se 80 anos que um hobbit saiu de sua toca para mudar a Terra-Média com suas aventuras e, neste percurso, chamar a atenção para a Literatura de Fantasia moderna.

Mas o que é Fantasia moderna?

Heróis mirins da Fantasia

A publicação em 1937 do livro O Hobbit foi mais um sinal da mudança em curso na Fantasia que estava ocorrendo desde os últimos anos do século 19.

Publicado pela editora George Allen & Unwin Ltd., a tiragem inicial de 1500 exemplares se esgotou em dezembro do mesmo ano de 1937.

Como escrevei aqui no blog no post “Século 19: A Era de Ouro da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica”, as últimas décadas do século 19 e as primeiras do século 20 foi o cenário de uma diversificação de gêneros ligados a Literatura Fantástica não apenas na Europa, mas também nos Estados Unidos e mesmo no Brasil. 

O resultado deste fato foi, no terreno da Literatura Infantil, o surgimento do Romance para crianças, comumente marcado por protagonistas crianças que saem de seu mundo ordinário para vivenciarem aventuras em outros mundos marcados pelo exotismo ou pela magia.

Como exemplos dessa vertente literária, temos no Reino Unido, Alice no País das Maravilhas (1865), A ilha do tesouro (1883) e Peter Pan e Wendy (1911); na Itália, Pinóquio (1883); na América, O maravilhoso mágico de Oz (1900) e no Brasil, A menina do narizinho arrebitado (1922).

Quando as fadas foram despejadas

O mesmo momento histórico-cultural que fomentou a ascensão do Romance para Crianças e do Conto Infantil moderno (este último foi abordado no vídeo do Canal Fantasticursos no Youtube que você pode ver clicando aqui) também provocou o surgimento da Fantasia Moderna

“A pequena vendedora de fósforos” (1845), de Hans Christian Andersen reflete a mudança da Literatura Infantil no fim do século 19.

Afinal de contas, em um contexto em que as grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos estavam sendo alteradas pela industrialização não havia mais lugar para a fadas habitarem. 

Solução? Mudar de mundo.

Histórias do outro mundo

A mudança do espaço da trama é uma das características mais representativas das narrativas que deram forma a Fantasia Moderna.

A Terra-Média, de Tolkien

Essa é a opinião do crítico Robert Scholes, que no livro Intersections: Fantasy and Science Fiction (1987) afirma, ao falar das obras do gênero do escritor George MacDonald, que “o mundo inventado, com leis de outros tipos” é a chave para a Fantasia Moderna.

Assim, a marca da Literatura de Fantasia hoje, na qual O Hobbit se insere, é, dentre outros elementos, a apresentação de um mundo imaginário coerente internamente a ponto dos eventos ali apresentados se tornarem possíveis.    

Nárnia, de C. S. Lewis

Desta forma, diferente, por exemplo, dos contos de fadas cujas histórias se passam na Europa dos mesmos camponeses que contavam essas histórias, a Fantasia moderna leva o leitor para outras regiões do imaginário.

Os desbravadores do Maravilhoso

O escocês George MacDonald e o inglês William Morris são os precursores da Fantasia Moderna com suas obras escritas durante a Inglaterra Vitoriana (1837-1901).

George MacDonald

George MacDonald

Antes da Terra-Média no qual Tolkien ambientava suas histórias havia a Terra das Fadas de George MacDonald.

Esse mundo surge no romance de estreia Phantastes (1858), em que somos apresentados ao jovem Anodos, que em seu aniversário de vinte e um anos é transportado em sonho para outro mundo e quando acorda vê seu quarto transformado em uma floresta onde ele vive sua aventuras.

Nos livros seguintes, como At the Back of the North Wind (1871), The Princess and the Goblin (1872) e Lilith (1895), George MacDonald desenvolveu ideias e temas que seriam incorporados a tradição da Fantasia desenvolvida no século vinte.

William Morris

William Morris

Coube ao escritor William Morris apontar os caminhos da Fantasia moderna em obras repletas de buscas e aventuras criadas pela imaginação do autor.

Essa carreira teve início em seu primeiro romance do gênero – The Wood Beyond the World, publicado em 1894, em que o herói Golden Walter, após se pego em uma tempestade em alto mar acaba aportando em uma região no qual encontra o castelo de uma feiticeira.

Refletindo a tradição dos romances de cavalaria, a obra foca no percurso de Golden Walter junto com uma jovem encontrada cativa no castelo pela terra mágica ocupada por mini-gigantes e outras criaturas. 

Influencias diretas sobre J. R. R. Tolkien (O Hobbit, O Senhor dos Anéis) e C. S. Lewis (As crônicas de Nárnia), George MacDonald e William Morris foram os primeiros bardos modernos que desbravaram os reinos mágicos que depois seriam plenamente explorados por Bilbo Bolseiro, Gandalf e os anões de O Hobbit

E se você quer conhecer o percurso da Fantasia, desde suas raízes mitológicas, assista a série O QUE É FANTASIA no canal do Fantasticursos no Youtube.

Veja o panorama da série clicando aqui.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. Trad.Carlos Moisés e Ana Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

CARTER, Lin. “Beyond the Gates of Dream”. In: MacDONALD, George. Phantastes. New York, Ballantine, 1970.

CAUSO, Roberto de Souza. (2003). Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo: Ática, 1997.

CLUTE, John, GRANT, John (Eds.). The Encyclopedia of Fantasy. New York: St. Martin ‘s Griffin, 1999.

JAMES, Edward, MENDLESON, Farah (Eds). Fantasy Literature. Cambridge University Press, 2012, p. 200-213. (The Cambridge Companion to).

OLSEN, Corey. Explorando o universo do Hobbit. Trad. Carlos Szlak. São Paulo: Lafonte, 2012.

RUDDICK, Nicholas. The fantastic fiction of the fin de siècle. In: MARSHALL, Gail. (Ed.). The fin de siècle. Cambridge University Press, 2007, p. 189-206. (The Cambridge Companion to).

SLUSSER, George E., RABKIN, Eric S. Intersections: Fantasy and Science Fiction. Riverside, Ca: SIU Press, 1987.