Plantando sonhos no pesadelo: Conheça as distopias pós-modernas

O final do século 19 e a primeira metade do século 20 foram marcados pela ascensão da Literatura de Distopias em relação a Utopias.

A REPÚBLICA, de Platão foi o primeiro projeto utópico da humanidade e já trazia as sementes da Distopia em sua estrutura.

Isso aconteceu por conta da fé depositada nos produtos do progresso e nas ideias científicas circulantes no período. Cenário este que acabou por influenciar também pensadores e escritores da época que contestaram a hegemonia do racionalismo como regulador da sociedade.

Características da distopia moderna

Esse foi o caso do romance Nós (1924), do escritor russo Eugene Zamiatin, obra que inaugurou a distopia moderna tendo criado uma série de convenções que seriam seguidos e ampliados por Aldous Huxley e George Orwell respectivamente em Admirável mundo novo (1932) e 1984 (1949). 

Convenções tais como:

  1. Enquanto a utopia é localizada no espaço (ilha, centro da terra, continente perdido), a distopia é localizada no tempo, sendo ambientada no futuro. Dai sua associação com a Ficção Científica; 
  2. A articulação da resistência do indivíduo a um poder opressor ou a uma realidade adversa;
  3. Narrativa em media res, ou seja, a história já começa dentro do mundo distópico e posteriormente o leitor descobre como aquela sociedade tomou o rumo da distopia;
  4. No início da narrativa o protagonista não está consciente de sua condição de oprimido, sendo que por vezes ele faz parte dos órgãos de opressão do sistema;
  5. O protagonista entra em contato com alguma força subversora, representada por outro personagem, grupo ou evento, e experimenta: a) alienação do restante do seu mundo; b) oposição ao poder totalitário e; c) a derrota pelas mãos das instituições mantenedoras da ideologia dominante.

Contestando o sistema

Outra marca das distopias, a prevalência de um discurso eurocêntrico e masculino cuja ideologia silencia mulheres e grupos minoritários de forma geral, provocou a partir da década de 1960 a contestação dessa ideologia por meio de diferentes estratégias literárias que discutem temas relacionados à problemática de raça, gênero, sexualidade e linguagem. 

Este é o denominador comum observado nas obras de, dentre outros escritores e escritoras de ficção científica, Samuel R. Delany Jr., Ursula K. Le Guin, Joanna Russ, Marge Piercy, Margaret Atwood e Octavia E. Butler.

Da esq. para a dir. – Ursula K. Le Guin, Octavia E. Butler e Margaret Atwood

Esta contestação se formaliza na criação de contra-narrativas utópicas que, por se oporem à hegemonia do discurso distópico dominante, foram definidas por críticas e críticos como Lyman Tower Sargent, Raffaella Baccolini e Tom Moylan como Distopias pós-modernas

O que são as distopias pós-modernas?

Subvertendo as convenções literárias do gênero, as distopias pós-modernas rejeitam o closure, ou seja, a falta de perspectiva de abertura do enredo distópico manifestado pela subjugação do individuo, apresentando uma contra-narrativa utópica que abre a possibilidade de contestação efetiva da ordem dominante.

Se nas distopias modernas clássicas de Zamiatin, Huxley e Orwell a única esperança oferecida parece acontecer extra-textualmente (ao considerarmos suas histórias como um aviso aos leitores), nas distopias pós-modernas essa esperança acontece dentro do texto articulando-se sob diferentes formas.

Tipos de Distopias pós-modernas 

Dependendo da teoria através da qual ela é observada ou do foco pelo qual o crítico a analisa, a contestação da negatividade da distopia literária faz com que esse texto seja denominado por diversos termos que convergem para alguma das características da literatura pós-moderna, tais como disclosure, ambiguidade textual, intertextualidade, paródia, sátira e genre blurring, este último marcado pelo atravessamento das fronteiras entre a Ficção Científica com, por exemplo, o Gótico e a Fantasia, dentre outras vertentes literárias.

Distopias pós-modernas ocidentais

Para o crítico neo-marxista M. Keith Booker, por exemplo, a principal característica do que ele chama de “distopias pós-modernas ocidentais”, dentre as quais ele inclui O Conto da Aia, de Margaret Atwood, é a falta de delimitação clara da linha entre utopia e distopia.

Distopias críticas

Denominando essa mesma tendência do gênero como “distopia crítica”, as críticas e críticos Lyman Tower Sargent, Raffaella Baccolini e Jenny Wolmark destacam em especial o disclosure e o genre blurring encontrados em distopias tais como O Conto da Aia e The Parable of the Sower, de Octavia E. Butler (romance que será lançado em 2018 no Brasil pela Editora Morro Branco), ressaltando que as distopias críticas escritas por mulheres contestam as convenções do gênero fundadas no discurso patriarcal possibilitando esperança, dentro do texto, para as mulheres.

A contra-narrativa utópica

Para o crítico Tom Moylan, que usa o termo “Contra-narrativa utópica”, romances como The Parable of the Sower  – que mostra uma comunidade fechada que vive dentro de um ecossistema distópico – tem seu dinamismo renovador da ênfase na diferença e multiplicidade de etnias de comunidades dentro da sociedade distópica. 

Formalizando-se no texto através da presença de elementos intertextuais e genre blurring, entre outras estratégias literárias, que compõem a narrativa dos membros dessas comunidades, a função da contra-narrativa utópica é transformar seu meio social colocando-se como uma alternativa à ordem distópica vigente.

É importante destacar que esta resistência ao cenário distópico não se traduz necessariamente em um confrontos diretos com o sistema opressor.

No romance O Conto da Aia, por exemplo, a resistência da protagonista Defred se dá pelo registro que ela mantém de sua vida como Aia, o que permite a ela, por meio de suas lembranças, lutar contra um meio que quer apagar as lembranças das mulheres enquanto indivíduos.

Sendo assim, a sobrevivência dela já se configura como uma vitória ao mundo distópico. 

E se você gosta do tema Distopia, leia também esse outro post aqui do blog que fiz quando Donald Trump venceu a eleição para Presidente dos Estados Unidos. Foi profético…

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Fontes utilizadas

ATWOOD, Margaret. A história da aia (The handmaid’s tale). Trad. Márcia Serra. São Paulo: Marco Zero, 1987.

BACCOLINI, Raffaella. Gender and genre in the feminist critical dystopias of Katharine Burdekin, Margaret Atwood, and Octavia Butler. In: BARR, Marleen. (org.). Future females, the next generation: new voices and velocities in science fiction. Lanham: Rowman & Littlefield Publishers, 2000, p. 13-34.

BACCOLINI, Raffaella. The feminist anglo-american critical empire strikes back. In: BACCOLINI, Raffaella. Feminist fabulation: space / postmodern fiction. Iowa City: University of Iowa Press, 1992, p. 3-18.

BOOKER, M. Keith. Introduction: utopia, dystopia, and social critique. In: BOOKER, M. Keith. The dystopian impulse in modern literature. London: Greenwood Press, 1994, p.1-23.

BOOKER, M. Keith. Dystopian literature: a theory and research guide. London: Greenwood Press, 1994.

BUTLER, Octavia E. Parable of the Sower. New York: Warner Books, 1993.

MOYLAN, Tom. Scraps of the untainted sky. Colorado: Westview Press, 2000.

 

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás - Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

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