Jogando luzes nas Trevas (Parte 1) Conheça o Gótico Colonial brasileiro.

Na escola (quando se fala disso na escola) falou de Gótico no Brasil falou de Álvares de Azevedo e Noite na Taverna (1855), certo?

A obra de Azevedo utiliza diretamente várias convenções do Gótico europeu

Mas, na verdade, o buraco é mais embaixo (além de mais profundo e assustador).

Aproveitando que lá no canal do FANTASTICURSOS no Youtube estou fazendo a série O QUE É GÓTICO, vou falar brevemente aqui no blog de como está vertente do Fantástico entrou e se manifestou no Brasil em seus primeiros momentos em dois momentos diferentes de nossa Literatura. 

Neste primeiro post, vou falar do Gótico Colonial brasileiro.

O Gótico Colonial brasileiro

Em seu primeiro momento, o Gótico literário se manifestou dentro do Romantismo, quando poetas e escritores pretenderam estabelecer as bases de uma literatura verdadeiramente nacional.

José de Alencar, Álvares de Azevedo e Castro Alves foram os principais nomes do Romantismo.

Duas características do Romantismo ajudaram neste início do Gótico em nossas terras:

  1. Resgate do passado nacional;
  2. Apresentação do país para o seu próprio povo.

José de Alencar e o índio cavaleiro

“A Canção do Velho Marinheiro” foi uma das primeiras manifestações do Romantismo na Inglaterra.

Se na Inglaterra o passado medieval do país fomentou poemas como “A Canção do Velho Marinheiro (1798), de Samuel Taylor Coleridge e nos Estados Unidos o passado puritano inspirou Nathaniel Hawthorne a escrever A Letra Escalarte (1850), no Brasil José de Alencar deixou sua marca a partir da presença dos índios com o Guarani (1857).

Como Daniel Serravalle de Sá discute em Gótico tropical (2010), ainda que não tenha sido concebido como um romance Gótico, o clássico indianista de José de Alencar possui imagens e linguagem semelhante àquelas utilizadas pelos romances góticos ingleses.

Essa presença gótica, muito evidenciada na utilização do Sublime dos espaços da Natureza e na representação do vilão Loredano, dentre outros elementos, se alinha com nosso momento literário quando a obra, ao mesmo tempo que enaltecia ideias progressistas pós-Independência, também refletia a realidade da sociedade brasileira.  

Bernardo Guimarães e o Sertão assombrado

Foi a partir de Bernardo Guimarães que o Gótico brasileiro encontrou seu principal caminho para se infiltrar no Brasil dentro da proposta romântica de apresentar os costumes e crenças do Brasil do interior para os habitantes dos centros urbanos. 

Esse fato pode ser percebido em obras como “Orgia dos duendes” (1865) em que lobisomens, bruxas, demônios e outras criaturas sobrenaturais do folclore brasileiro e europeu se encontram para um sabá ou em Escrava Isaura (1875), em que a temática gótica do século 18 do aristocrata medieval em perseguição a uma donzela é transportada para as senzalas de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.

Já no conto “A Dança dos Ossos” (1871) se pode notar como o Gótico brasileiro refletiu as mesmas preocupações do Gótico inglês no que a crítica Alexandra Warwick chamou de “Gótico Colonial”.

Lidando com a experiência do sujeito da cidade ou do centro colonizador em um espaço estrangeiro, o Gótico Colonial trata como insólitos tanto a paisagem quanto as pessoas que habitam  o lugar do estranhamento.

No conto, que usa a temática dos ossos denunciadores de um crime, um habitante da cidade viajando pela divisa de Goiás com Minas Gerais do século 19 descreve sua incredulidade ao ouvir de um habitante da região sobre a ocorrência de ossos que dançam próximo a um rio do local.

Ao considerar a possibilidade do sobrenatural como sinal do atraso e da superstição do sertão e seus habitantes em oposição a um país que se pretendia progressista, o Gótico brasileiro vai se equiparar com contos desenvolvidos durante as últimas décadas do século 19 no Gótico vitoriano que tem como ponto em comum o desprezo dos ingleses com os costumes e crenças de terras estrangeiras.

Esse posicionamento pode ser visto em contos como “A marca da besta” (1890), de Rudyard Kipling, onde o desprezo pelos lugares sagrados leva um inglês na Índia a se transformar em um lobisomem.

Outro exemplo é “O convidado de Drácula” (1914), de Bram Stoker, em que um homem a caminho da Transilvânia não dá ouvidos as advertências dos aldeões do leste europeu e paga o preço pela sua arrogância.

Monteiro lobato e o interior monstruoso

A obsessão das elites brasileiras em transformar as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo em uma nova Paris Tropical, tida como exemplo de civilização no início do século 20, intensificou essa marginalização do interior pelos olhos da cidade e reforçou a disseminação dessa leitura do Gótico colonial em outros obras como “Bocatorta” e “Velha Praga”, de Monteiro Lobato, ambos publicados em Urupês (1918).    

Neste quadro, e guardadas as devidas especificidades culturais entre Inglaterra vitoriana e Brasil da República Velha (1889-1930), o crítico Jeffrey D. Needell observa que o modo de pensar da elite brasileira nas primeiras décadas do século vinte em muito se assemelhou a ideologia imperialista inglesa:

“Com frequência a elite enxergava o Brasil de forma semelhante a dos colonizadores europeus da época, que em outras partes do mundo viam as colônias propriamente ditas como uma área de riquezas potenciais, cuja exploração era dificultada pela presença de raças e culturas inferiores.” 

Dentro deste cenário, a mentalidade neocolonial ou imperialista das elites fomentou uma produção literária marcada pelo preconceito em relação a uma parte do país e/ou a segmentos da população que, pelos parâmetros das grandes cidades do período como Rio de Janeiro e São Paulo, ainda pertenciam a um tempo medieval de atraso, superstição e barbárie; uma visão que perduraria por toda a República Velha (1889-1930). 

Mas não foi apenas por meio do Gótico Colonial brasileiro que a Literatura Gótica assombrou as letras brasileiras.

Na próxima semana, vou falar como o Decadentismo levou o Gótico para dentro das cidades brasileiras, abordando as taras, ansiedades e subversões dos centro urbanos. 

Se você gostou deste post, não se esqueça de deixar seu comentário e compartilhá-lo com seus amigos sinistros iguais a você. 

E assine o blog!

Obrigado pela leitura! Você é fantástico!

Fontes utilizadas

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 47ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

BURKE, Edmund. Uma Investigação Filosófica sobre a Origem de nossas Idéias do Sublime e do belo. Trad. Enid Abreu Dobránszky. Campinas, SP: Papirus Editora, 1993.

NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Epoque: Elite Culture and Society in Turn-of-the-century. Rio de Janeiro. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

SILVA, Alexander Meireles. O admirável mundo novo da República Velha. Rio de Janeiro, UFRJ, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Acesso em 16 fev, 2017.

SNODGRASS, Mary Ellen. “Colonial Gothic”. Mary Ellen Snodgrass. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, 2005. 61-62.

WARWICK, Alexandra. “Colonial Gothic”. Marie Mulvey-Roberts, ed. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998. 261-262.

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

Comentários estão fechados.