E esse Arthur ai? Conheça as faces da lenda antes de ver o filme

Maio de 2017 marca a estréia de uma nova versão da mais conhecida lenda da Cultura Inglesa: O Rei Arthur. 

Mas, que Arthur é esse ai? Antes de ir assistir ao filme, conheça aqui as diferentes faces desse herói e seu universo ao longo da História e da Literatura. 

E lembrando que no canal do Fantasticursos no Youtube também tem um vídeo que explica esta lenda medieval. Basta clicar aqui.

Já existiu um Rei Arthur?

Sim e não.

Quando falamos de Rei Arthur é importante ter em mente a diferença entre dois personagens:

Um, é o líder bretão Arthur do século 6 cujas pesquisas arqueológicas vem provando sua existência histórica.

O outro é o Rei Arthur que conhecemos desde a infância, personagem da Literatura Medieval europeia presente em várias obras.

Bretões X Saxões

A figura de Arthur nasceu como símbolo da esperança de um povo – o povo bretão (nome pelo qual os romanos chamavam os celtas, habitantes da ilha da Bretanha).

Após a retirada das legiões Romanas da Bretanha para defender Roma contra as hordas de invasores no inicio do século 5, os Bretões tiveram que se virar sozinhos contra os povos germânicos invasores – chamados genericamente pelos Bretões de “Saxões”. 

Durante mais de um século os exércitos Bretões lutaram contra os Saxões alternando vitórias e derrotas até que em 577 d.C. a conquista Germânica se completou com a batalha de Deorham.

Com a conquista, a maioria dos Bretões se mesclou com os invasores, outros porém se refugiaram na região de Gales e uma outra parte cruzou o canal para a atual província da França conhecida como Bretanha Armoricana, Britânia ou Pequena Bretanha.

Com o avanço dos povos anglo-saxônicos (vermelho), os bretões foram empurrados para as extremidades da ilha da Bretanha

Surge Arthur… ops, Ambrósio Aureliano

Apesar de terem perdido a sua ilha para os invasores, os Bretões guardaram em sua memória a lembrança de um tempo em que, através da liderança de um guerreiro Romano com sangue bretão chamado Ambrósio Aureliano eles conseguiram reagir ao invasor fazendo-o recuar, permitindo um período de quarenta e quatro anos de paz.

Essa vitória, conseguida na batalha do monte Badon em 516, mencionada pelo monge Beda em Ecclesiastical History of the English People, se incrustou na memória do povo Bretão que desde então passou a esperar a volta daquele que os havia liderado à vitória na ocasião.

A partir daqui os fatos começam a se misturar com a ficção.

As raízes culturais 

Muitos personagens e elementos que cercam as histórias do rei Arthur possuem suas origens em lendas, crenças e costumes dos povos que ocuparam a Bretanha. Vejamos alguns delas em ordem alfabética:

Arthur

“Arthur” é a forma galesa do nome romano Arthorius. O nome sugere a possibilidade de que o Arthur histórico tenha nascido quando a Bretanha ainda estava sob a influência do Império Romano.

A existência de vários “Arthures” no século 6 pode ser uma homenagem a um herói nacional cujo nome era colocado em recém-nascidos.

Outra tese liga a origem do nome “Arthur” da lenda a um oficial da cavalaria Romana do século 2 chamado de Lucius Artorius Castus que liderou os Bretões contra os invasores em diversas batalhas.

Avalon

No ano de 1998 arqueólogos encontraram em Cadbury Hill chefes militares Bretões enterrados em caixões em forma de barco.

Os povos antigos acreditavam que a alma viajava para o outro mundo, que era encontrado nos lagos e mares. Os caixões estavam apontados para a colina de Glastonbury Tor, um local religioso.

Na época das enchentes, Glanstonbury ficava isolada como uma ilha. Especula-se que este ritual esteja por detrás da lenda de que Arthur foi levado para a ilha mágica de Avalon para ser cuidado de seus ferimentos.

Camelot

Em 1542 o antiquário John Leland descobriu indícios de uma fortificação do século 6 em Cadbury Hill próximo ao rio Cam. Este rio alimentava os vilarejos de West Camel and Queen Camel.

Leland acredita que esta fortificação tenha dado origem a lendária sede de governo de Arthur. Escavações feitas por especialistas em 1966 confirmaram a sua tese.

Excalibur

Era comum até a Idade Média dar nomes as espadas.

De acordo com pesquisas recentes, a célebre cena da espada retirada da pedra é derivada do fato de que os Bretões forjavam suas espadas em moldes de pedra.

É importante esclarecer também que esta espada da pedra não era Excalibur. A famosa espada do rei Arthur, chamada nos primeiros relatos de Caladfwich (uma derivação da palavra galesa Caladbolg – “duro corte”) e posteriormente no século 12 de Caliburn, foi entregue a ele por meio de Merlin pela Dama do Lago tendo sido forjada pelas fadas.

O fato da espada ter vindo da água e retornado a ela depois da morte de Arthur se deve ao fato de que as primeiras comunidades Celtas jogavam nos lagos as espadas, escudos e outros itens dos guerreiros mortos por considerarem estes locais portais para o outro mundo.

Na cultura pop, com o tempo, as duas espadas se tornaram uma só.

Graal

A etimologia da palavra “Graal” é confusa.

A origem está comumente relacionada a palavra medieval gradalis – cálice ou prato. De fato, um tema recorrente nas lendas Celtas é a busca por um pote mágico.

A partir do século 13 este objeto se tornou associado ao ciclo Arthuriano, mas apenas como um símbolo sobrenatural sem conexão Cristã.

Por volta do século 15, ele se tornou o “Santo Graal”, cálice utilizado por Jesus na última ceia e no qual seu sangue foi colhido após a crucificação.

Merlin

O mago Merlin é a fusão de uma lenda galesa sobre um nobre Britânico de fins do século 6 famoso por ter perdido a razão em uma batalha em Cumbria e por ter vagado por todo o sul da Escócia proferindo profecias sob o nome de Myrddin, e o personagem Ambrosius Merlinus, criadp por Geoffrey de Monmouth.

Morgana

O nome da meia-irmã de Arthur vem do nome morgans, como eram chamadas as fadas da água em algumas vilas Bretãs.

Dessa mesma crença vêm as origens da Dama do Lago, que entrega Excalibur para Arthur, e de Nimue, a ninfa que captura Merlin o afastando da órbita do rei.

Em algumas versões Morgana é mostrada como uma bruxa má, tramando contra Arthur, e em outras como uma das nove irmãs sacerdotisas que levam Arthur para Avalon para cura-lo.

Estas contradições são decorrentes do papel da mulher na religião Celta e no Cristianismo.

Távola redonda

A famosa mesa circular criada pelo Mago Merlin com o propósito de assentar 150 cavaleiros era o ponto de encontro aonde Arthur e sua companhia celebrava seus feitos. O formato da mesa tem suas origens na reverência Celta pelo círculo como um símbolo da coerência e da totalidade.

De Arthur para Rei Arthur 

Segue abaixo as principais obras e autores que fundaram e difundiram o personagem histórico Arthur transformando-o no personagem literário Rei Arthur   

De Excidio et Conquestu Britanniae (Sobre a Destruição e a Lamentação da Bretanha / 545 d.C), de Gildas 

Trata da história da Bretanha da conquista romana até o século 6. Gildas – considerado o primeiro historiador da Bretanha – não menciona o nome de Arthur (o líder da vitória no monte Badon era o bretão romano Ambrósio Aureliano), mas esta é a obra que cria a figura do herói do povo Bretão, salvador este que teria seu nome modificado por Nennius para Arthur.

Historia Britonum (História dos Bretões / 954 d.C.), de Nennius

Nennius, um padre do sul de Galês, é o autor e revisor desta coletânea de notas oriundas de várias fontes como Gildas e Beda. 

Em Historia Britonum existe um capítulo intitulado “Arthuriana” na qual são mencionadas doze batalhas vencidas pelos Bretões comandadas por um guerreiro Bretão chamado Arthur. Nennius, porém, não se refere a ele como rei mas como um chefe militar (dux bellorum).

A duodécima batalha era a do monte Badon mas ao invés do Romano Ambrósio Aureliano, Nennius atribui a vitória ao Bretão Arthur. Ambrósio, no entanto ainda aparece como rei sobre todos os reis da Bretanha. Em Historia Britonum, portanto, encontramos o primeiro aparecimento do nome “Arthur” na literatura mundial.

Annales Cambriae (Anais  de Câmbria /955 d.C.)

A história de Gales de 453 a 954 que menciona a batalha do monte Badon em 516 e de Camlann em 537. A segunda batalha não é mencionada no “Arthuriana” de Nennius mas sua importância reside na menção de que foi nesta luta que Arthur e um tal de Medraut morreram.

É muito provável que esse Medraut tenha sido a base de criação para o personagem Mordred, o traiçoeiro filho (ou sobrinho, dependendo da fonte) do rei Arthur com a sua irmã Morgana.

Annales Cambriae é fundamental por introduzir aquele que viria a ser o personagem Mordred e a cena na qual ele e Arthur morrem.

Gesta Regum Anglorum (Feitos dos Reis dos Anglos / 1125), de William de Malmesbury  

Nesta história dos reis da Inglaterra de 449 a 1128 William consegue conciliar a tradição da batalha do monte Badon, vencida por Ambrósio Aureliano, com a figura do Bretão Arthur. Na visão de William, Arthur é um guerreiro a serviço do rei Ambrósio.

Em Gesta Regum Anglorum, somos apresentados pela primeira vez a um dos cavaleiros mais importantes da companhia de Arthur – seu sobrinho Walwen, nome posteriormente alterado para Gawain.

Historia Regum Britanniae (História dos Reis da Bretanha / 1135), de Geoffrey de Monmouth 

Geoffrey Monmouth foi o responsável pelo inicio do ciclo Arthuriano através da valorização do rei Arthur perante os reis Normandos.

De fato, Historia Regum Britanniae foi o primeiro best seller da Europa Medieval visto que sobreviveu em duzentos manuscritos e já era conhecido antes do fim do século 12 na França, Espanha, Itália, Polônia e Bizâncio.

Demonstrando uma enorme habilidade em contar estórias, Geoffrey de Monmouth traça a linhagem dos reis da Inglaterra. Ele fala de noventa e nove reis ao todo, e um quinto do trabalho é dedicado à história imaginária de Arthur.

Foi através deste monge Bretão que a lenda Arthuriana se estruturou da maneira que conhecemos hoje.

Em sua obra, Arthur é o rei que levou seu povo à vitória no monte Badon. Aqui, Ambrósio Aureliano não apenas aparece como rei, apesar do nome alterado para Aurélio Ambrósio, mas também ele se torna irmão de outro rei, Uther Pendragão, por sua vez, pai de Arthur.

Geoffrey de Monmouth também foi o responsável pela criação daquele que é o personagem mais famoso das lendas sobre o rei Arthur: Merlin.

Mesclando uma lenda Galesa sobre um vidente chamado de Myrddin, com outro Ambrósio apresentado por Nennius como um menino clarividente, Geoffrey criou “Ambrosius Merlinus” – o instrutor, mago e sábio conselheiro de Arthur.

Além de criar Uther Pendragão e Igraine, pais de Arthur e o mago Merlin, Historia Regum Britanniae também apresenta pela primeira vez a concepção de Arthur em Tintagel, sua coroação (sem menção a espada Excalibur), o casamento com Guinevere, a traição e morte de Mordred em Camlann, a navegação de Arthur até Avalon e a promessa da volta. 

Roman de Brut (Séc. XII), de Wace 

Desejando uma tradução e adaptação para versos Franceses da obra escrita em Latim por Geoffrey de Monmouth, o rei Henry II convocou o poeta Francês Wace.

Após terminado, Roman de Brut foi dedicado a Leonor da Aquitânia, esposa de Henry II. Foi a primeira tradução para a cultura da cavalaria. O título faz referência ao Troiano Brutus.

A contribuição de Wace para a lenda Arthuriana foi a criação da famosa Távola Redonda.

Chrétien de Troyes (Séc. XII)

Chrétien de Troyes foi o poeta que mais celebrizou os cavaleiros do rei Arthur e os romances de cavalaria. Quatro romances completos e um incompleto escritos em Francês, com destaque para o incompleto Perceval Le Conte du Graal (1182).

Neste ultimo, vemos a utilização de um elemento que denota o inicio de uma vertente religiosa dos romances de cavalaria: o Graal, aqui ainda sem uma explicação de sua origem.

Vulgata (1220), de Gautier Map 

Esta série de cinco livros em prosa escritos em Francês foca no Graal, sendo que aqui ele é transformado no Santo Graal, o cálice em que foi recolhido o sangue de Cristo.

Mort D’Arthur (1485), de Thomas Malory

O maior feito do cavaleiro Thomas Malory foi aproveitar os 20 anos de pena na prisão de Newgate para organizar as diversas versões da literatura arthuriana para criar um texto único e uma seqüência narrativa.

Quando se pensa em um texto a ser seguido para adaptações de Arthur, Mort D’Arthur é o texto a ser estudado.  

Agora que você conhece o Arthur que serviu de base para esta última adaptação para o Cinema você pode aproveitar ainda mais o filme… ou sair de lá se perguntando porque mudaram tanta coisa em um personagem cujas histórias primeiras já são tão fascinantes. 

Fontes utilizadas

ABRAMS, M. H. et al., (ed.). The Norton Anthology of English Literature. v. 1 & 2. 6 ed. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1993.

JENKINS, Elizabeth. Os Mistérios do Rei Arthur. Trad. Luiz Carlos Rodrigues de Lima. São Paulo: Melhoramentos, 1994.

McDOWALL, David. An Illustrated History of Britain. London: Longman, 1989.

SILVA, Alexander Meireles da Silva. Literatura Inglesa para Brasileiros: curso completo de literatura e cultura para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.