Você conhece os 7 vampiros e vampiras que criaram DRÁCULA?

No post “1732: o ano em que os vampiros dominaram a Europa” mostrei que o folclore do leste europeu é marcado pela presença de mortos-vivos que saem de seus túmulos para se alimentar da essência vital dos vivos.

Também mostrei como essas narrativas chegaram a Europa do século 18 criando um intenso debate no meio religioso e acadêmico sobre a existência ou não dos vampiros.

E a Literatura, é claro, não ficou a margem dessa discussão.

Mas diga a verdade: Quando você pensa em vampiro na Literatura, você pensa primeiro no Conde Drácula, não é?

Christopher Lee, o Drácula dos filmes do estúdio inglês Hammer nos anos 60.

Mas se hoje Drácula é sinônimo de vampiro isso é resultado de outros seres vampíricos que surgiram antes dele.

Seres que estabeleceram uma tradição literária que seria usada por Bram Stoker para escrever o romance Drácula (1897). 

Veja abaixo então quais são os sete vampiros e vampiras que criaram Drácula.

1. “O Vampiro” (“Der Vampir”)

Autor: Heinrich August Ossenfelder

Ano: 1748

Vampiro: Não aparece

Este curto poema, que inaugura a literatura vampírica, mostra um rapaz que anuncia sua vingança contra a amada pelo fato dela ter ouvido os conselhos de sua mãe para terminar o relacionamento, visto que o rapaz pertence a uma região com fama de ser infestada por vampiros.

Ainda que o vampiro não apareça aqui diretamente, os elementos de morte e desejo que surgem neste texto pela primeira vez associados ao vampiro e a importância do leste europeu como morada destes seres se tornaram parte indissociáveis nas obras seguintes.

Segue abaixo o poema completo com a tradução de Marta Chiarelli.

“Minha amada jovem crê,
Com constância firme forte,
Nos conselhos dados
Pela sempre piedosa mãe
Que como os povos do Tisza
Fielmente acredita
Em vampiros mortais.
Mas espere só, Cristina,
Tu não queres me amar;
Pois hei de me vingar,
E hoje brindo um tocai,
À saúde de um vampiro.

E, enquanto suave adormeces,
De tuas faces formosas
Sugo o púrpuro frescor.
Então tu vibrarás
Assim que eu te beijar,
e qual vampiro beijarei,
Então, quando tremeres
Tão logo sucumbas
E lânguida em meus braços,
Como morta cedas
                          Nesse instante indagarei,                           não superam minhas lições
 as de tua bondosa mãe?”

2. “Lenore” (“Lenore”)

Autor: Gottfried August Burger

Ano: 1773

Vampiro: Não aparece

Lenore percebe que seu amado não voltou vivo da guerra.

O poema narra a preocupação da jovem Lenore com a vida do seu amado William, que foi lutar na Guerra entre a Prússia e o Império Austro-Húngaro.

A aflição da moça aumenta quando vários homens, com exceção de seu William, retornam para casa.

Um noite, porém, William retorna montado em seu cavalo e chama Lenore para cavalgar com ele rumo ao seu leito de casamento.

Após uma acelerada jornada por paisagens sinistras Lenore e o cavaleiro chegam a um cemitério onde a aparência do cavaleiro se desfaz para revelar a Morte.

A entidade mostra o túmulo onde o corpo de William está e diz a Lenore que aquele será o seu leito de casamento. Neste instante o chão se abre e espíritos e demônios levam Lenore para a cova.

Apesar de não tratar diretamente de vampiros, a abordagem de dois temas caros a literatura de vampiros – o amor e a morte -, aliado eficaz construção de uma atmosfera gótica, fez com que “Lenore” exercesse um profundo impacto no gênero vampiresco.

Uma das frases mais conhecidas do romance Drácula
“Os mortos viajam depressa” – foi retirada deste poema.

3. “A Noiva do Corinto” (“Die Braut Von Korinth”)

Autor: Johann Wolfgang von Goethe

Ano: 1797

Vampiro: A noiva do Corinto

Considerado a primeira obra a usar de forma direta o personagem, neste caso, uma vampira, o poema mostra como a jovem virgem Philinnon retorna do mundo dos mortos para desfrutar dos prazeres sexuais que não teve em vida.

Ela se dirige à pousada de seus pais e seduz o corinto Machates, seu noivo quando era viva, que se encontra hospedado na casa dos pais da moça.

Desmascarada por seu pai e sua mãe, a vampira retorna para o túmulo e lá tem o seu corpo destruído.

Em “A noiva do Corinto” Goethe introduziu a ênfase no elemento sexual do vampiro.

A partir deste ponto, cria-se uma separação entre a imagem do vampiro folclórico, traduzida em um cadáver ambulante vestido farrapos, e a representação do vampiro literário, como um ser sedutor de sexualidade inquieta e aflorada.

4. “Christabel” (“Christabel”)

 Autor: Samuel Taylor Coleridge

Ano: 1816

Vampiro: Geraldine

Neste poema, o leitor conhece a história da jovem Christabel que se envolve com uma mulher chamada Geraldine.

Após ser convencida pela misteriosa personagem, a moça e Geraldine se despem e a jovem percebe a pele velha e seca da mulher e experimenta um momento de transe, que é o início de uma demorada cena homoafetiva.

Ao acordar, Christabel sente um imenso sentimento de culpa enquanto que Geraldine se levanta rejuvenescida.

Levada ao castelo do pai de Christabel, Geraldine se envolve com o pai da anfitriã e parte do castelo com ele.

“Christabel” não é apenas a obra que apresentou o vampiro pela primeira vez na Literatura Inglesa, mas também é o texto literário que criou a temática do homoerotismo vampírico.

5.  “O Vampiro” (“The Vampyre”)

Autor: John William Polidori

Ano: 1819

Vampiro: Lord Ruthven 

Filho de uma família rica, e procurando conhecer mais da sociedade inglesa, o jovem e inocente Aubrey conhece o misterioso e sedutor Lord Ruthven (pronuncia-se “rivven”) nas festas e recepções londrinas e decide acompanhá-lo em viagem pela Europa.

Aubrey, no entanto, logo se cansa do comportamento amoral de seu companheiro de viagem e o abandona, viajando para a Grécia.

Lá, ao explorar as florestas da região, ele quase morre ao tentar salvar uma bela jovem do ataque de um vampiro.

Polidori era médico pessoal do poeta maldito Lord Byron e usou a figura do poeta inglês para criar seu vampiro.

Enquanto se recupera, Aubrey reata a amizade com Lord Ruthven e, uma vez recuperado, viaja com ele pelas regiões da Grécia.

A dupla é atacada por ladrões de estrada e Ruthven é ferido mortalmente. Antes de morrer, ele exige que Aubrey prometa que guardará em segredo a noticia da morte do amigo pelo próximo ano.

Ao retornar para a Inglaterra o jovem descobre que sua irmã está envolvida por um nobre, que se descobre ser Ruthven, mas nada pode fazer por conta de sua promessa e… (vai ler o conto pra descobrir). 

Divisor de águas na literatura vampírica, este conto,

  1. introduziu o vampiro na ficção inglesa;
  2. criou a imagem do vampiro como um morto reanimado que caminha entre suas prováveis vitimas sem levantar suspeitas;
  3. estabeleceu o aspecto aristocrático da criatura;
  4. criou a imagem do vampiro como sedutor e avesso as morais sociais burguesas e;
  5. reforçou a presença do elemento erótico entre ele e sua vítima.

6. Varney o vampiro; ou O festim de sangue (Varney, the vampire; or The Feast of Blood)

Autor: James Malcolm Rymer

Ano: 1847

Vampiro: Sir Francis Varney

Quando vivo, Varney se chamava Mortimer e tinha sido um defensor da coroa inglesa no século 17 durante a guerra civil entre a monarquia e o Parlamento que resultou na decapitação do Rei Charles I em 1649.

Após matar acidentalmente seu filho em um momento de fúria, ele perde os sentidos e é despertado dois anos depois ao lado de um túmulo por uma voz que lhe diz que, por conta de seu ato, ele foi amaldiçoado e seu nome dali por diante seria Varney, o Vampiro.

Ele tinha a pele pálida, dente longos como presas, unhas compridas e olhos brilhantes. Após beber sangue ele ficava com a pele avermelhada.

Já no século 19 as aventuras de Varney giram ao redor de seu relacionamento com a família Bannerworth e seus conhecidos. 

Após muitas idas e vindas na Inglaterra, Napolês e Veneza, Varney decide dar um fim a sua existência vampírica e se atira dentro do vulcão Vesúvio.

Publicado em capítulos ao longo de 109 semanas, Varney, o vampiro é um dos mais bem sucedidos representantes do gênero penny dreadful, ou seja, histórias de enredo circulante e tom melodramático com ênfase no grotesco.

A obra foi posteriormente publicada em volume único de 800 páginas e se mostrou extremamente influente não apenas por popularizar o vampiro entre o grande público leitor, mas também por:

  1.  ser o primeiro romance de vampiros da literatura;
  2. inventar a imagem do vampiro de dentes pontiagudos;
  3. estabelecer o ataque no pescoço deixando duas marcas;
  4. criar o vampiro angustiado com sua existência sobrenatural; 

7. Carmilla, a vampira de Karnstein (Carmilla)

Autor: Sheridan Le Fanu

Ano: 1872

Vampiro: Carmilla (Condessa Mircalla de Karnstein)

A novela mostra como a jovem Laura, habitando com seu pai um pequeno castelo na região da Styria, atual estado da Áustria, se vê envolvida por uma mulher chamada Carmilla.

Carmilla entra na vida de Laura após um acidente de carruagem que a leva a se hospedar na moradia de Laura. Gradativamente elas se tornam intimas e Laura descobre que a misteriosa mulher a visitou durante a sua infância.  

A morte de outras jovens na mesma região acaba revelando que Carmilla é na verdade a vampira Mircalla, Condessa de Karnstein, que passa a ser perseguida pelas autoridades locais.

A primeira novela vampírica da Literatura Inglesa, Carmilla sedimentou a imagem do vampiro aristocrático do leste europeu que seria utilizado por Bram Stoker em Drácula. 

Dentre as convenções estabelecidas, também seguidas por Stoker, cito:

  1. A transformação em outros animais, no caso de Carmilla, um gato;
  2. Força sobre humana;
  3. Hábitos notívagos;

Nenhuma obra literária do Fantástico, e da Literatura em geral, nasce do nada da cabeça de seus autores.

Ela é resultado dos traumas, ansiedades, leituras anteriores e do mundo ao redor dos escritores e escritoras.

No caso de Drácula, muitos outros elementos contribuíram para a gênese da mais importante obra vampírica da Literatura.

Mas isso é assunto para outro post.

Já leu alguma das 7 obras mencionadas acima?

Lembre-se que se quiser ler em detalhes as informações aqui leia o texto de Introdução que eu fiz para os livros Contos clássicos de vampiros e Carmilla, ambas publicadas pela Editora Hedra.

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Obrigado pela leitura e até a próxima! 

Fontes utilizadas

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

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