Edgar Allan Poe entre o Gótico e a Ficção Científica

19 de janeiro marca o aniversário do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, nascido em 1809. 

Comumente conhecido como um dos expoentes do Gótico nos Estados Unidos no século 19, Poe também explorou outros campos do Fantástico e subgêneros próximos, sendo o criador também do Romance de Detetives

No campo da Ficção Científica, chama a atenção como ele se alinhou com as descobertas e debates científicos da sua época sobre a mente humana e seus distúrbios.

Elementos estes que despertavam tanto o fascínio quanto o temor sobre os mistérios do próprio ser humano. 

É neste contexto que temos a Ciência Gótica.

O que é Ciência Gótica?

Uma expressão do fantástico definido pela tensão entre o racional e o irracional, a Ciência Gótica, segundo Bráulio Tavares, apresenta histórias que: 

[…] têm um pé na ficção científica, utilizando muitos dos seus aparatos exteriores (cenários, personagens, artefatos) mas que se recusam a lidar com a lógica, a verossimilhança e a plausibilidade científica que os adeptos de ficção científica usam […] Na ciência gótica, a parafernália tecnológica e a pseudo-racionalização materialista estão a serviço de situações bizarras, grotescas, impressionantes.

O exemplo clássico dessa forma literária, como aponta Tavares, é o Frankenstein, por representar um divisor de águas na Literatura Gótica ao apresentar a ciência como um elemento causador da mesma angústia e inquietação antes exclusivamente gerada pelo sobrenatural.

A Ficção Científica surge portanto, no entendimento de John Clute e Peter Nicholls expresso em The Encyclopedia of Science Fiction (1993), dentro de uma forma literária que enfatizava o mistério sobre o conhecimento, e os perigos do homem em transpassar um território exclusivo de Deus.

Mas se a Ciência Gótica nasceu na Inglaterra, seria na América do Norte que ela se estabeleceria e sofreria alterações significativas, dadas as particularidades da manifestação da literatura gótica em solo norte-americano representadas por Edgar Allan Poe.

O Gótico de cá e o Gótico de lá

Semelhante ao que ocorreu no Brasil, a Literatura Gótica nos Estados Unidos também se manifestou durante o Romantismo. As semelhanças, no entanto, param por aí.

No Brasil o Gótico se manifestou tardiamente, durante o Ultra-Romantismo, através de Álvares de Azevedo e o seu Noite na taverna (1855), mas não criou raízes devido a diferentes fatores, dentre os quais, como acredita Murilo Garcia Gabrielli em A obstrução ao fantástico como proscrição da incerteza na literatura brasileira, se destaca a hegemonia de um projeto alencariano de ficção, que, recobrindo as realidades urbana e rural, consolidava as idéias do Romantismo hegemônico acerca da identidade nacional.

Neste contexto literário, como aponta o pesquisador:

[…] a estética cosmopolita de Álvares de Azevedo, não descritiva e  promotora da incerteza, enfrentou, desde o início, o descrédito da crítica que interpretou tal projeto, até os dias atuais, ora como manifestação da natureza doentia do autor, ora como afetação byroniana descompromissada com a nossa literatura.

Dada a presença de um grande público leitor interessado em absorver a mesma literatura popular desenvolvida nas metrópoles europeias e as afinidades linguísticas e culturais entre a América do Norte e o Velho Mundo, a literatura Gótica nos Estados Unidos teve melhor sorte que no Brasil.

O Gótico norte-americano

No entanto, os malignos aristocratas, castelos e catedrais em ruínas e códigos de cavalaria que dominaram as convenções Góticas na Europa se mostraram altamente inapropriados ao novo mundo da América do Norte por não possuírem o mesmo significado ou efeitos de terror devido à inexistência desses mesmos elementos em solo norte-americano.

Como observou o escritor romântico Nathaniel Hawthorne no prefácio de seu romance O fauno de mármore (1860):

Todo autor sem exceção, pode conceber a dificuldade de escrever um romance sobre um país onde não existe nenhuma sombra, nenhum mistério, […] nada com exceção da prosperidade comum, em plena luz do dia, como é felizmente o caso da minha querida terra natal. 

Assim, no contexto norte-americano, uma geografia e história diferentes estavam disponíveis para os escritores na forma de florestas não mapeadas e do passado puritano marcado pela pesada atmosfera religiosa dos julgamentos de Salem no século XVII.

Com Edgar Allan Poe, porém, a Literatura Gótica seria levada a um novo plano.

Os temas, a ambientação e a descrição dos personagens em contos e poemas refletiram de tal forma a vida e a carreira de Edgar Allan Poe que muitos críticos questionam até que ponto um elemento influenciou o outro.

O fato é que a sua genialidade maldita representou a capacidade crítica mais sutil de sua geração, uma genialidade dotada de uma sensibilidade poética extrema para sensações visuais e sonoras. Todavia, esta exploração introspectiva do ser humano fez Poe destoar do contexto romântico de seu tempo, ajudando-o a se isolar no seu universo artístico próprio ao mesmo tempo em que apressou a sua queda pessoal.

O Gótico de Edgar Allan Poe

Após escrever alguns contos estruturados nas convenções europeias da Literatura Gótica como “Berenice” (1835) e “Ligéia” (1838), ele decidiu aplicar na prosa os preceitos teóricos de sua poesia.

Ele reconheceu que o impacto emocional recebido pelo leitor constituía o propósito fundamental de um conto e tentou descobrir as leis internas que produzia o efeito mais vigoroso.

Partindo da consciência de que a emoção fundamental do homem era o medo, Poe buscou no sobrenatural seu material literário.

Mas este sobrenatural não se limitava às imagens convencionais do gótico europeu já saturadas no Romantismo. Poe decidiu explorar um local que ainda não havia sido visitado pelos escritores de histórias góticas: mente humana.

A partir dessa decisão, Edgar Allan Poe ajudou a sedimentar a Ciência Gótica como uma nova vertente da Literatura Gótica

A Ciência Gótica de Edgar Allan Poe

Contando com o auxilio das pseudociências de seu tempo – a Frenologia, o Mesmerismo, e outras tentativas de se entender o ser humano e o que se chama hoje de subconsciente, Poe descobriu uma região entre o sono e o despertar, entre a vida e a morte, onde os sentidos estavam mais alertas do que nunca e as emoções manifestavam-se sem inibições.

Como Fred Botting explica em Gothic, a demência, a telepatia e outros estados de espírito normais ou fora do comum tornaram-se os instrumentos da arte de Poe.

É importante frisar nesse ponto que os contos de Poe, de psicologia anormal, precedem de duas gerações qualquer interesse generalizado pela psicologia da loucura.

Nos impulsos imprevisíveis do maníaco, ele descobriu uma nova fonte de mistério e expectativa para a ficção: a consternação do narrador de “Ligéia” ao ver a amada morta animar temporariamente o corpo moribundo de Lady Rowena, a mente decadente pela loucura de Roderick Usher no momento em que ele, sua família e a própria casa em que moravam se encontram à beira do colapso em “A queda da casa de Usher” (1834).

No universo simbolista de Poe, a única certeza é de que o mundo não revela o que, efetivamente, é. Como destaca Spiller sobre o escritor:

O mundo externo com seus habitantes transforma-se num mero sistema de símbolos para as invenções de sua mente propositalmente tornada superexcitada por essas visões hediondas. 

Os fatos no caso do Sr. Valdemar

Um exemplo desta visão de Poe, dentre outros, usando o elemento macabro da Ciência do século 19 está em “Os fatos no caso do sr. Valdemar” (1845).

Neste conto representativo da Ciência Gótica, os temas científicos contemporâneos a Poe fornecem a base para uma exploração mais metafísica do horror residente na fronteira entre a vida e a morte.

Na história, o Sr. Ernest Valdemar está moribundo por conta da tuberculose e aceita tomar parte de um experimento envolvendo a Mesmerização, uma pseudociência que visava a hipnotização por meio o magnetismo.

Na experiência, Valdemar é mesmerizado à beira da morte e isso o deixa em um estado de animação suspensa. Ele morre hipnotizado, o que faz com que parte de sua essência se mantenha no plano dos vivos.

Nesta situação o corpo não se degenera, mas ele, ou algo, pode falar, murmurando as palavras impossíveis:

“… Eu estive dormindo… e agora … agora…estou morto.”

Esta declaração indica a fragilidade dos limites da natureza que são manipulados pela imaginação científica.

O horror ao redor da questão de quem ou o que está falando é seguido pela liberação do corpo do transe mesmérico e sua rápida decomposição em uma massa líquida putrefata. 

Desafiando convenções estéticas e temáticas, Edgar Allan Poe se mantém atual em seu 209° aniversário com sua narrativa de exploração dos mistérios da mente humana, mostrando que a principal matéria do gótico está em nós mesmos.

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Fontes utilizadas

BOTTING, Fred. Gothic. London: Routledge, 1997. (The New Critical Idiom)

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

POE, Edgar Allan. Os fatos no caso do sr. Valdemar. In: PAES, José Paulo. (org. e trad.). Os buracos da máscara: antologia de contos fantásticos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985, p.56-67.

SPILLER, Robert E. O ciclo da literatura norte-americana. Rio de Janeiro: Editora Forense, 1955.

TAVARES, Bráulio. (org.) Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás - Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

2 Responses

  1. Alexander Meireles da Silva

    Muito obrigado Marcio. Poe certamente é um escritor que ultrapassa as fronteiras do Horror e mostra sua genialidade em outros campos do fantástico. Obrigado pelas palavras.

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