Fantasia, Gótico e Ficção Científica: Quando elas se cruzaram?

Hoje em dia, livros, histórias em quadrinhos e séries como A Seleção, de Kiera Cass; Fábulas, de Bill Willingham e Grimm, dentre tantas outras, exploram os tênues limites entre os reinos da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica. 

Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.
Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.

Estas obras subvertem o senso comum de que a presença de personagens específicos, ou espaços determinados definem a que gênero aquela narrativa pertence.

Ou seja, não é porque a história tem zumbi, que ela tem de ser de Horror, assim como também uma história ambientada em uma nava espacial necessariamente será de Ficção Científica. 

ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.
ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.

O Fantástico nos anos de contestação 

As experimentações na Literatura, Cinema e Quadrinhos nas produções ligadas ao Fantástico de hoje podem ser traçadas até as décadas de 60 e 70 quando se percebeu o surgimento de uma nova atmosfera no campo cultural.

Esta situação foi consequência da contestação feita por grupos minoritários diversos que também promoveram o debate sobre a validade da distância entre Baixa e Alta Cultura

O interessante a se observar, no caso do Fantástico, é que no processo de contestar as divisões entre os gêneros literários, o Pós-Modernismo resgatou a estreita ligação existente entre a Fantasia, o Gótico e a Ficção Científica.

Fantasia & Gótico

A ligação primeira entre a Fantasia, na sua manifestação do Conto de Fadas, e o Gótico, ocorre justamente na Idade Média, quando a relação entre o ser humano e o mundo ao seu redor era regulado pelo sobrenatural.

De um lado, dentre tantos exemplos possíveis, as crenças e narrativas populares ligadas a criaturas fantásticas de origem pré-cristã, como as fadas celtas, o deus Pã romano e os anões e elfos teutônicos.

Apesar da hegemonia da Igreja Católica Medieval, vários rituais praticados no meio popular, principalmente relacionadas as colheitas e plantações, mantiveram estas criaturas do Maravilhoso, recorrentes na Fantasia, vivas no imaginário da Idade Média. 

Do outro lado, o discurso cristão na vinculação destas mesmas criaturas, e seus habitats, ao demoníaco e na instituição de toda uma cultura regulada pelo medo, pecado e punição.

Essa marginalização do imaginário popular medieval, e a perseguição promovida pela Igreja, contribuiu para a associação da Idade Média como uma época marcada por fanatismo, superstições, barbarismo e paganismo.

Estando associados aos povos bárbaros que, ao derrubarem o Império Romano, deram início a Idade Média, os Godos logo se tornaram sinônimo da época e Idade Média e Gótico passaram a ser termos que se confundiam.  

Contos de fadas ou Contos Góticos?

Aqui mesmo no blog e no canal do Youtube já postei artigos sobre contos de fadas cujas estruturas se assemelham as encontradas nas narrativas góticas.

Isso mostra que durante a Idade Média, Fantasia e Gótico dialogavam ativamente refletindo um contexto em que as criaturas maravilhosas, muito apropriadamente os vilões, eram apresentados por meio de uma visão gótica criada pelo Cristianismo. 

Citar aqui apenas três exemplos.

O lobo como disfarce do diabo

Em “Chapeuzinho Vermelho”, onde o folclore do lobisomem fornece a estrutura da narrativa, temos a criatura de origem mitológica grega e nórdica habitando o espaço da floresta, enxergado pelo Cristianismo da época como o lócus do demônio.

O pagão muçulmano

“Barba Azul” mescla o maravilho de chaves encantadas com convenções do romance gótico, como câmaras secretas, corredores estreitos, perseguição da figura feminina e vilões aristocráticos.

O diabo em pessoa

“Rumpelstiltskin” talvez seja o conto em que o vilão mais se coloca como a incorporação da convergência entre o maravilhoso da Fantasia e o demoníaco do Gótico.

Essa ligação se revela no duende, ligado ao maravilhoso teutônico, que, dentro da narrativa, realiza um pacto diabólico ao condicionar a riqueza concedida a uma moça a entrega do filho da protagonista.  

Gótico & Ficção Científica 

Nascido como gênero literário no ano de 1764 com O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, o Gótico buscou no sobrenatural ligado ao demoníaco a matéria prima para suas histórias. 

Isso pelo menos até o início do século 19 quando a Revolução Industrial, iniciada ainda nas últimas décadas do século 18, já tinha deixado claro para escritores e pensadores que ela iria mudar a percepção do ser humanos quanto ao seu lugar no mundo.

Neste contexto, mais do que o demônio e fantasmas, o que começava a causar angustia no individuo da época eram as rápidas e profundas mudanças trazidas pela Ciência.

A filha do Gótico: Nasce a Ficção Científica

Foi Frankenstein, ou O moderno Prometeus (1818), de Mary Shelley a obra que capturou esse ambiente em que a Ciência começou também a ser vista como um fenômeno sobrenatural que ameaçava a integridade humana.

De um lado, a ambientação de cemitérios e laboratórios escondidos, além da exploração do Sublime marca Frankenstein como um continuador da tradição gótica vigente desde o século 18. 

Todavia, por ser a primeira obra literária em que a Ciência exerce papel decisivo no desenvolvimento do enredo, a obra de Mary Shelley também inaugura a vertente romanesca da Ficção Científica.

Horror + FC = Horror Cósmico

O dialogo entre Gótico e Ficção Científica se desenvolveu ao longo do século 19 na Literatura Vitoriana e alcançou um novo patamar na América do início do século 20.

Foi por meio de H. P. Lovecraft e suas impressões sobre a Modernidade da América da época que o Horror Cósmico surgiu.

Como expliquei em um post específico sobre Lovecraft, a visão do autor de “O Chamado de Cthulhu” de que alguns grupos de imigrantes atraídos para a América pela Modernidade representavam um mundo de caos que o homem civilizado não podia controlar ou compreender foi traduzido em uma cosmologia monstruosa que unia o Horror e a Ficção Científica.

Percebe-se então que o medo em relação ao Outro, ao diferente, assim como também a ansiedade provocada pelas mudanças na sociedade, foram grandes motivadores para a conexão da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica e do Horror Cósmico.

E ai? Você gosta mais da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica ou de tudo junto e misturado?

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Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

SILVA, Alexander Meireles da. “O Barba Azul”: conto de fadas ou conto gótico?. Disponível em Revista de Letras do Instituto de Humanidades.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

3 Responses

  1. Anônimo

    Parabéns amigo grandes explicações e esclarecimento

  2. Ulisses Mattos

    Acho muito interessante a Ficção Científica como meio de dialogar sobre espiritualidade e o Divino (Deus Ex Machina, a Verdade, o Escolhido,etc) e especialmente no cinema esse assunto gerou duas obras primas … BLADE RUNNER dialogando sobre a busca da imortalidade(replicantes buscando seus criadores para aumentarem sua “validade”) , filosofia ( o replicante Roy matando seu “criador” Tyrell evoca Nietsche ), compaixão religiosa e redenção7(“memórias irão desaparecer como lágrimas na chuva” é uma das frases mais marcantes do cinema)….. e a visão futurista, filosófica e fantasiosa sobre o messias do judaísmo em MATRIX …. enfim, a Ficção Científica noa fazendo “pensar” ….

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