H. G. Wells: Pai da Ficção Científica Brasileira no início do século vinte

Após estrear em 1818 com FRANKENSTEIN, de Mary Shelley, a Ficção Científica se consolida, na Inglaterra, a partir de A MÁQUINA DO TEMPO (1895), de H. G. Wells.

Viagem no tempo (A máquina do tempo / 1895), invisibilidade (O homem invisível / 1897), sociedades futuras distópicas (História dos tempos futuros / 1897), invasão interplanetária da Terra (A guerra dos mundos / 1898).

Alguns dos temas mais conhecidos e explorados pela Ficção Científica até os dias de hoje foram criados e desenvolvidos pela mente imaginativa de Herbert George Wells (1866-1946).

O HOMEM INVISÍVEL (1897)

Antes da FC… o Romance Científico 

O que este escritor inglês pretendia com o “Romance Científico”, o nome usado por ele para se referir a histórias que se baseavam no pensamento científico era representar e dar sentido às complexas e rápidas mudanças do seu tempo que estavam em curso na sociedade britânica em várias esferas, tendo como pano de fundo:

  • A hegemonia do poder mundial pelo Imperialismo Britânico;
  • Os produtos e efeitos da Revolução Industrial;
  • As teorias científicas de Charles Darwin (1809-1882) sobre a evolução humana;
  • A tensão entre as classes sociais.

E no Brasil?

Neste post vou mostrar como os pontos de contato entre este quadro acima da Inglaterra vitoriana (1837-1901) e do Brasil da Primeira República (1889-1930) fomentaram a disseminação dos primeiros momentos da Ficção científica, via H. G. Wells, no Brasil da Primeira República por meio de dois escritores brasileiros do período: João do Rio (1881-1921) e Gastão Cruls (1888-1959).

João do Rio, pseudônimo do jornalista e escritor carioca Paulo Barreto, foi um crítico das mudanças da Belle Époque carioca.

Para conhecer mais das mudanças na sociedade brasileira dessa época que forneceu o cenário para as obras aqui mencionadas, veja o post sobre a Ciência Gótica do blog clicando aqui

João do Rio e “A FOME NEGRA”

As ações implantadas pelo governo federal na reforma urbana da cidade do Rio, na época a Capital Federal do Brasil, como a derrubada de cortiços e abertura de avenidas e na vacinação obrigatória para controle das epidemias resultaram em uma onda crescente de insatisfação da população que refletiu o total desprezo da elite pensante do país pelas chamadas “massas”. Como destaca J. M. Carvalho:

“No Rio reformado circulava o mundo Belle-époque fascinado com a Europa, envergonhado do Brasil, em particular do Brasil pobre e do Brasil negro.”

É dentro deste quadro que João do Rio teceu sua crítica sobre as transformações da capital federal em “A fome negra” publicado em A Alma Encantadora das Ruas (1910).

Rio de Janeiro no início do século vinte

História

Nesta crônica, o escritor e jornalista carioca oferece um retrato realista da situação dos trabalhadores miseráveis que trabalham nos depósitos de manganês e carvão na Ilha da Conceição e, mais especificamente, no trecho conhecido como A Fome Negra.

“De madrugada, escuro ainda, ouviu-se o sinal de acordar. Raros ergueram-se. Tinha havido serão até a meia-noite. Então, o feitor, um homem magro, corcovado, de tamancos e beiços finos, […] entrou pelo barracão onde a manada de homens dormia com a roupa suja empanada do suor da noite passada. […] Houve um rebuliço na furna sem ar. Uns sacudiam os outros amedrontados, com os olhos só a brilhar na face cor de ferrugem; outros, prostrados, nada ouviam, com a boca aberta, babando.” 

A partir deste ponto, o leitor é apresentado à dura rotina dos homens que trabalham exaustivamente em um regime de trabalho que beira a escravidão:

“Uma vez apanhados pelo mecanismo de aços, ferros e carne humana, uma vez utensílio apropriado ao andamento da máquina, tornam-se autômatos com a teimosia de objetos movidos a vapor. Não têm nervos, têm molas; não têm cérebros, têm músculos hipertrofiados.”

A crítica de João do Rio aos valores burgueses e às péssimas condições de trabalho de milhares de trabalhadores do Rio de Janeiro da Primeira República encontrou seu paralelo na Inglaterra vitoriana de H. G. Wells com seu alerta às diferenças sociais na oposição entre a classe dirigente e os trabalhadores pobres presente no subtexto de A máquina do tempo e A ilha do Dr. Moreau.

Os pontos de contato entre o escritor inglês e o brasileiro, no entanto, são mais profundos.

Presença de H. G. Wells

Ao comentar o árduo e fatigante trabalho desempenhado pelos trabalhadores de minérios, João do Rio revela a leitura de uma obra de ficção científica cuja influência sobre a sua escrita pode ser sentida em outras crônicas:

“… esses pobres entes fizeram-me pensar num pesadelo de Wells, a realidade da História dos Tempos Futuros, o pobre a trabalhar para os sindicatos, máquina incapaz de poder viver de outro modo, aproveitada e esgotada.” 

O futuro de Wells se passa na Londres de 2180 onde trinta e três milhões de pessoas habitam a capital inglesa. O enredo centra-se no relacionamento de Denton e Elizabeth, um casal de classe média que junta forças contra a vontade do pai da moça.

Quem chega às portas da Companhia do Trabalho neste futuro já não tem mais escolha. A cidade é cara, o campo não apresenta condições para a vida, a vadiagem é proibida.

Na sala de espera, os rostos dos que deverão ser entrevistados variam da alegria por estarem à beira de um emprego ao mais absoluto desespero e fome.

Quanto aos ricos, a sociedade de História dos tempos futuros mostra que as elites são ociosas. Levam uma vida improdutiva, descansam nas vilas de prazeres e, quando acham que é o bastante, chamam a Companhia de Eutanásia, para que ela lhes dê uma boa morte.

Aqui, mais uma vez percebe-se a ligação com os trabalhadores de minérios de manganês e as classes dirigentes:

“Os seus conhecimentos reduzem-se à marreta, à pá, ao dinheiro; dinheiro que a pá levanta para o bem-estar dos capitalistas poderosos; o dinheiro, que os recurva em esforços desesperados, lavados de suor, para que os patrões tenham carros e bem-estar.”

No entanto, diferente do final feliz da obra de H. G. Wells, “A Fome Negra” fecha descrevendo o momento de desespero de um desses trabalhadores:

“… um homem de barbas ruivas, tisnado e velho, trepou pelo monte de pedras e estendeu as mãos: – Há de chegar o dia, o grande dia! E rebentou como um doido, aos soluços, diante dos companheiros atônitos.”

Demonstrando fascínio e preocupação com as mudanças em curso na Belle Époque carioca, João do Rio demonstra através de sua obra que foi capaz de promover o diálogo a respeito do impacto da ciência e do progresso sobre o homem nas esferas pública e privada no Brasil da República Velha.

Gastão Cruls e A AMAZÔNIA MISTERIOSA

O advento da Primeira Guerra Mundial impactou nos rumos da ficção especulativa brasileira, e esta passou a refletir a preocupação das elites com a constituição do povo brasileiro, cenário este que se alinhou com a postura de H. G. Wells sobre outros povos e as classes sociais.

Este é o caso de Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls.

História

Amazônia misteriosa descreve a jornada de um médico, referido no romance apenas como “Doutor”, à selva amazônica. Este personagem-narrador é acompanhado de uma equipe de ajudantes dentre os quais apenas se destaca na trama o caboclo Pacatuba, atuando como companheiro do narrador.

A equipe se perde na floresta e é encontrada por um grupo de índios que os levam à tribo de índias de grande estatura identificadas posteriormente como as lendárias Amazonas.

Através do consumo de uma bebida feita pelos silvícolas, ele empreende uma viagem onírica até a época do império Asteca e descobre a origem das Amazonas.

Neste lugar, o Doutor também encontra um cientista alemão de nome Jacob Hartmann acompanhado de sua esposa francesa, Rosina, e, de dois ajudantes também europeus.

Gradativamente o protagonista descobre que o cientista está fazendo experiências com animais e com os meninos recém-nascidos rejeitados pelas índias.

Eventualmente o médico brasileiro e Rosina se apaixonam e decidem fugir juntos da aldeia. Rosina, porém, sucumbe aos perigos da Amazônia e o romance termina com o narrador chorando a morte da amada.

Presença de H. G. Wells

Sem dúvida alguma, dentre todas as influências literárias e folclóricas presentes em A Amazônia misteriosa, foi o romance A ilha do Dr Moreau, de H. G. Wells, a principal referência de Gastão Cruls para a elaboração de uma obra de mundo perdido brasileiro no qual se pode constatar a influência direta do pai da ficção científica inglesa.

Marlon Brando interpretou o Doutor Moreau na adaptação de 1996.

O diálogo entre o romance de Cruls e o de Wells tem início quando o Doutor começa a se questionar sobre a razão da presença de um cientista alemão vivendo entre as índias na companhia de sua esposa e de poucos ajudantes.

O mistério a respeito do cientista estrangeiro vem finalmente à tona no capítulo VIII, muito pertinentemente chamado de “Revelação”.

Intrigado pelas experiências de Hartmann, o narrador decide se esgueirar para um local da aldeia cujo acesso foi proibido a ele pelo alemão.

Lá ele observa gaiolas de tamanhos avantajados dentro das quais estão criaturas que ele não consegue identificar. Olhando mais de perto uma delas ele se vê diante de um pesadelo vivo que muito se assemelha às criaturas de Moreau:

“Macaco? Preguiça? E atentei mais para o ser estranho que se rojava no chão com movimentos muito lerdos e hesitantes. Não! Era uma criança! Aquelas formas não enganavam e eram bem humanas. Mas, então, seria um monstro.” 

A consternação com o cenário ao seu redor faz com que o médico fique descuidado e ele acaba sendo descoberto por Hartmann.

Adaptação de 1996 de A ILHA DO DR. MOREAU

Diante da pergunta do cientista se ele viu todos os experimentos, o protagonista não consegue esconder a sua indignação pelas ações do cientista e faz um comentário que deixa explícita a influência direta de A ilha do Dr Moreau sobre Amazônia misteriosa:

“O senhor nunca leu A Ilha do Dr. Moreau, de Wells? Pois é um romance muito conhecido. O Dr. Moreau era um médico que se meteu na cabeça transformar bichos em gente, ao passo que o senhor quer fazer justamente o contrário.” 

O filme A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS (1932) foi a primeira adaptação do romance de Wells

A ligação de Hartmann com Moreau se torna cada vez mais estreita à medida que o cientista europeu explica as suas experiências ao Doutor:

“As minhas experiências acabaram de vez com a absurda fixação das espécies, pelo menos como a entendiam os pré-darwinianos, afirmava-me convictamente o alemão. […] Com o rosto afogueado, os olhos sempre fuzilando, e uma gesticulação desabrida, o Sr. Hartmann tinha mesmo qualquer coisa de desvairado e eu começava a ter dúvidas sobre o seu equilíbrio mental.”

Diante do quadro apresentado a sua frente, o protagonista não consegue esconder o seu espanto diante do caos da Natureza a sua frente.

Adaptação de 1977

Hartmann, todavia, enxerga as suas criações sob um outro prisma:

“– O caos, não! A ordem… porque esses cruzamentos nunca se poderão reproduzir espontaneamente. A ordem, porque assim nós temos a filogenia comprovada pela experiência”.

Percebe-se nas palavras de Hartmann a crença exacerbada na Ciência como um instrumento de controle e manipulação da natureza. Como destaca Roberto de Sousa Causo:

“Hartmann não tem presunções ou justificativas pseudodivinas para os seus atos. Como cientista estrangeiro em terras brasileiras, ele se dedica à exploração e ao abuso do material humano nativo, sem dilemas ou escrúpulos. […] Cruls, portanto, expõe – de modo talvez conradiano – a falácia do discurso humanista que mascarava o projeto colonizatório europeu.”

Ao constatar que Hartmann acredita na superioridade racial do homem branco, o protagonista teme ser usado pelo alemão para as suas experiências e decide fugir do acampamento, acompanhado de Pacatuba e de Rosina.

A partir daí, Amazônia misteriosa se torna um romance de aventuras, concentrando-se nas adversidades da fuga. Rosina perece, vítima dos perigos da floresta, e o relato termina sem deixar claro ao leitor se os dois homens conseguiram escapar dos índios que os perseguiam, após sua fuga ter sido descoberta por Hartmann.

Apesar de que no fim do livro se percebe que Gastão Cruls poderia ter explorado de forma mais consistente os elementos especulativos do romance, restritos a poucos capítulos na obra, a utilização de elementos e convenções da literatura de mundo perdido e do romance de aventuras mesclado com ideias derivadas da eugenia e do discurso imperialista das elites em  relação aos pobres faz com que Amazônia misteriosa se coloque como um legítimo representante da ficção científica brasileira.

Infelizmente, como já foi discutido aqui, assim como os caminhos para os mistérios da Amazônia, Amazônia misteriosa, de Gastão Cruls, se perdeu dentro da floresta do Modernismo de onde espera ser resgatado por novos leitores.

Considerações

Neste breve recorte do que trabalhei na tese de Doutorado sobre a FC Brasileira (que você pode ler na integra nas Fontes Utilizadas abaixo) percebe-se que a obra de H. G. Wells ora denunciando ora perpetuando a postura excludente e marginalizadora do império britânico em relação às massas e povos regidos pelo seu domínio na época vitoriana dialogou intensa e decisivamente com a proposta de escritores do Brasil em retratarem as mudanças em curso na sociedade brasileira ao longo de toda a Primeira República.

Seja expondo as miseráveis condições das classes trabalhadoras (“A fome negra”), ou ratificando o preconceito das elites brasileiras contra segmentos d população brasileira (Amazônia misteriosa), o fantástico brasileiro na sua vertente da ficção científica refletiu as contradições da Belle Époque sobre os desafios da nossa então jovem república em lidar com a sua identidade desigual e miscigenada.

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Obrigado pela leitura e até a semana que vem!

Fontes utilizadas

ASSIS, Jesus de Paula (ed.) (2005). “Uma história dos tempos futuros”, in: ASSIS, Jesus de Paula. Exploradores do futuro – H. G. Wells. São Paulo: Duetto editora, pp. 46-47.

BAKER, Robert S. (1990). “The modern dystopia: Huxley, H. G. Wells, and Eugene Zamiatin”, in: BAKER, Robert S.. Brave new world – history, science and dystopia. Boston: Twayne Publishers, pp. 36-45.

BOSI, Alfredo. (2006). História concisa da literatura brasileira. 47ed. São Paulo: Cultrix.

CAREY, John. (1993). Os intelectuais e as massas – orgulho e preconceito entre a intelligentsia literária, 1880-1939. Trad. Ronald Kyrmse. São Paulo: Ars Poetica.

CARVALHO, J. M. de. (1987). Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo: Companhia das Letras.

CAUSO, Roberto de Souza. (2003). Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG.

CRULS, Gastão. (1958). A Amazônia misteriosa. in: CRULS, Gastão. Quatro romances. Rio de Janeiro: José Olympio, pp. 1–81.

CUNHA, Fausto. (1974). “A ficção científica no Brasil: um planeta quase desabitado”, in: ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, pp. 5-20.

DIWAN, Pietra. (2007). “Eugenia, a biologia como farsa”. História viva. Edição 49, ano V, São Paulo: Duetto Editorial, pp. 76-81.

DIWAN, Pietra. (2007). Raça pura: uma história da eugenia no Brasil e no mundo. São Paulo: Contexto.

MITTELMAN, Tânia. (2003). A revolta da vacina: vacinando contra a varíola e contra o povo. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna.

NEEDELL, Jeffrey D. (1993). Belle Époque tropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. Trad. Celso Nogueira. São Paulo: Companhia das Letras.

RIO, João do. (1987). “A fome negra”, in: RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Secretária municipal de cultura, (Biblioteca Carioca; vol. 4), pp. 113-117.

SILVA, Alexander Meireles da (2005). Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna.

SILVA, Alexander Meireles da. (2008). O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira no começo do século XX. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

2 ideias sobre “H. G. Wells: Pai da Ficção Científica Brasileira no início do século vinte”

  1. A Amazônia Misteriosa ganhou uma adaptação cinematográfica em 2005, Um Lobisomem na Amazônia pelo Ivan Cardoso com roteiro Rubens Francisco Lucchetti, o próprio Moreau aparece no filme, a ideia original do Lucchetti era adaptar uma história dele, O Abominável Dr. Zola que também se passa na Amazônia, essa história recebeu uma adaptação em quadrinhos pelo Nico Rosso em 1969, sendo uma das proto-graphic novels antes das feitas pelo Will Eisner, recentemente, ele publicou uma versão do romance com artes do Nico Rosso. Essa foi a segunda vez que o Ivan Cardoso mudou um roteiro do Lucchetti, O Escorpião Escarlate era uma série de rádio do de mesmo, o herói era inspirado nos vigilantes de pulps e quadrinhos chamado de O Morcego, o Ivan Cardoso preferiu adaptar As Aventuras do Anjo e o Lucchetti teve que mudar o roteiro, em 2015, a editora Laços publicou uma versão romantizada do roteiro original.

    http://ficcaoterror.blogspot.com.br/2016/02/o-abominavel-dr-zola-de-rf-lucchetti.html

    1. Lembrava do filme do Cardoso em 2005, mas desconhecia as outras informações. O Brasil tem um repositório de histórias fantásticas que fariam bem inclusive para dar uma renovada no Cinema nacional onde o Fantástico aparece apenas (e pelo menos bem) em adaptações de cordéis como O Auto da Compadecida e o recente Pedro Malazartes. Obrigado pelos comentários!

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