Quando os Irmãos Grimm encontraram Frankenstein

O ano de 2018 se iniciou, logo em 1° de janeiro, com a celebração de 200 anos da publicação do romance Frankenstein, ou O Prometeu moderno (1818), da escritora inglesa Mary Shelley.

A primeira edição foi publicada em três volumes

Clássico do Romantismo inglês, herdeiro da tradição da Literatura Gótica e iniciador da vertente romanesca da Ficção Científica, Frankenstein é uma obra que mesmo após dois séculos ainda influencia a cultura ocidental e é capaz de apresentar facetas curiosas sobre seus bastidores.

Quem foi Frankenstein?

Como explico lá no canal do Fantasticursos no youtube em uma série especial sobre os 200 anos do livro, por muito tempo se especulou de onde Mary Shelley havia tirado a ideia para nomear o herói de seu romance como “Frankenstein”, afinal de contas, esse é um nome alemão e não inglês.

Primeira imagem da criatura foi nesta edição de 1831

Apenas no século 20 se descobriu um diário no qual estão registradas as viagens que a então solteira Mary Godwin, seu então amante e já conhecido poeta Percy Bysshe Shelley e a meia-irmã de Mary, Claire Clairmont viajaram pela Alemanha descendo o Rio Reno.

Nesta ocasião, ao passar pela região de Darnstadt, o grupo teria avistado o castelo da família Frankenstein no alto da colina.

Quando Mary Shelley visitou o castelo, ele já estava assim, em ruínas.

Motivados pelos relatos de várias lendas que cercavam a construção e pela sua própria predileção romântica pelo sobrenatural, o trio teria decidido visitar o local, o que teria ocorrido no dia 02 de setembro de 1814.

Mary Godwin tinha então apenas 16 anos e, como se pode constatar dois anos depois quando ela criou a história de seu romance, a visita ao castelo e o contato com seu folclore marcaram profundamente a imaginação da jovem inglesa.

Brasão da família Frankenstein

Folclore centrado na família Frankenstein.

A família Frankenstein

Expliquei brevemente a história da família Frankenstein e de seu castelo no primeiro capítulo da série no youtube, que você pode ver clicando aqui.  

Mas cabe relembrar aqui  o fato dos Frankensteins serem uma das famílias mais antigas da Alemanha, com registros históricos que podem ser traçados até torneios de cavaleiros no ano 948.

Por conta dessa tradição, historiadores acreditam que membros da família participaram da ordem militar-religiosa conhecida como Cavaleiros Teutônicos. Organização esta que tinha como meta defender e expandir o Cristianismo para além das fronteira da Europa ocidental, chegando no século 15 as regiões hoje pertencentes a Hungria e a Romênia.

Encontro monstruoso

Dentro deste contexto, especula-se que essa expansão teria levado os Cavaleiros Teutônicos a entrarem em choque com regiões que enxergavam os alemães como inimigos políticos, caso da Transilvânia do século 15 governada por Vlad Tepes. Personagem histórico que serviu de base séculos depois para a criação na Literatura do vampiro Drácula. 

Ou seja, antes do seu choque no Cinema, talvez um Frankenstein já tenha enfrentado um Drácula na história real.

E é justamente um cavaleiro da família Frankenstein o objeto do meu interesse neste post. Ou melhor, não apenas meu, mas também dos irmãos Grimm no início do século 19.

Quando os irmãos Grimm encontraram Frankenstein

O encontro dos famosos pesquisadores alemães com Frankenstein ocorreu no contexto da pesquisa que Jacob e Wilhelm Grimm realizavam sobre o folclore do povo alemão.

Uma iniciativa que inicialmente resultaria em 1812 na publicação do volume 1 com 86 contos de fadas na obra Kinder- und Hausmärchen

Em 1815, mais 70 contos foram publicados no volume 2, contabilizando 156 contos

Os pesquisadores nasceram em Hesse, Alemanha. O mesmo estado onde está localizado o castelo Frankenstein

Finalmente, entre os anos de 1816 e 1818 os Grimms publicaram a obra Deutsche Sagen, uma coleção de quase 600 lendas da Alemanha, mas que conta também com narrativas da Suíça, Áustria, Holanda e grupos como os Francos, Godos e Pictos. 

É no Deutsche Sagen, sob o registro n. 219, que encontramos a lenda de Georg Frankenstein conforme registro dos irmãos pesquisadores.

Veja abaixo a descrição da lenda de título “Der Lindwurm am Brunnen”

“O dragão na fonte”   

Em tempos antigos, três irmãos viviam no velho castelo de Frankenstein, que fica a uma hora e meia de distância de Darmstadt. Hoje você pode ainda pode ver as suas lápides na Igreja de Nieder-Beerbach.

Visitei o castelo em 2005 e 2008. Esta é a placa da vila de Nieder-Beerbach

Um dos irmãos era chamado de Hans, e sua imagem esculpida pisando sobre um dragão ainda pode ser vista no pátio da igreja.

Esta placa está na parede da igreja de Nieder-Beerbach

A vila tinha uma fonte, de onde tanto os habitantes da cidade quanto os habitantes do castelo retiravam sua água. Mas um horrível dragão construiu seu ninho próximo a fonte e as pessoas não conseguiam pegar a água se elas primeiro não alimentassem o dragão com uma ovelha ou vaca.  Enquanto o dragão estava comendo eles conseguiam se aproximar da água.

Finalmente o cavaleiro decidiu colocar um fim a este problema. Ele empreendeu uma luta contra o dragão até que finalmente foi capaz de decapitá-lo. Ele quis atravessar as costas do dragão com sua lança, que ainda estava se retorcendo.

A causa do dragão enroscou-se na perna direita do cavaleiro e o atingiu em seu joelho, o único ponto que não estava protegido por sua armadura. O dragão era venenoso e Hans von Frankenstein perdeu a sua vida.

Expectativa vs. Realidade

Como especula Radu Florescu em Em busca de Frankenstein (1988), é muito provável que o tal dragão da lenda registrada pelos irmãos Grimm tenha sido apenas na realidade uma serpente que atormentava o local da fonte da narrativa.

No entanto, ampliado pelo imaginário popular, também alimentado pela figura de São Jorge, Hans von Frankenstein se transformou no matador de dragões que assolava a vila de Nieder-Beerbach e o castelo Frankenstein.  

Ausência presente

Ainda que o castelo já não pertencesse mais a família Frankenstein desde 1662, quando foi vendido para o conde de Hesse, as lendas sobre o lugar e sua conexão com seus antigos proprietários estavam vivas quando Mary Godwin e os irmãos Grimm visitaram o local no início do século 19, levando-os a imortalizarem o nome Frankenstein e seus mistérios em suas obras.

Para saber mais

Se você gostou desse texto, assista a série no canal do FANTASTICURSOS no youtube sobre os 200 anos de Frankenstein, clicando aqui.

Não se esqueça de pegar, GRATUITAMENTE, o infográfico sobre as faces do monstro de Frankenstein, disponibilizado aqui no topo do blog no botão CLIQUE AQUI.  

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Tenha uma semana fantástica e obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

FLORESCU, Radu. Em busca de Frankenstein: O monstro de Mary Shelley e seus mitos. Trad. Luiz Carlos Lisboa. São Paulo: Mercuryo, 1998.  

HITCHCOOK, Susan Tyler. Frankenstein: As muitas faces de um monstro. Trad. Henrique Amat Rêgo Monteiro. São Paulo: Larousse do Brasil, 2010. 

HUNTER, Paul J. (Ed.). Frankenstein. Chicago: University of Chicago, 1996. (A Norton Critical Edition).

LINDAHL, Carl, McNAMARA, John, LINDOW, John. Medieval Folklore: A guide to Myths, Legends, Tales, Beliefs, and Customs. Oxford: Oxford University Press, 2002. 

SILVA, Alexander Meireles da. Literatura Inglesa para Brasileiros: Curso completo de literatura e cultura inglesa para estudantes brasileiros. 2ed. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005. 

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás - Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

2 Responses

  1. Mahatma José Lins Duarte

    Muito interessante, professor. Então podemos perceber que mesmo sendo um romance gótico praticamente iconoclasta, a obra de Mary ainda contém uma vaga e indireta ligação com o passado medieval. 🤔

    • Alexander Meireles da Silva

      Sim Mahatma. De fato, quando você vê a lenda do Golem e das práticas de Alquimia,que vai ser objeto do próximo vídeo, você constata ainda mais essa ligação. Obrigado pelo comentário.

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