O que os Klingons nos ensinam sobre o simbolismo dos alienígenas na FC?

Entre críticas positivas e negativas a série Star Trek: Discovery, produzida pela CBS e também transmitida pela NETFLIX, foi renovada para a segunda temporada, para a alegria de muitos trekkers e tristeza de outros.

Dentre os diferentes motivos do debate ligado a questões de cronologia, cultura e tom da série a representação da raça Klingon foi um dos pontos mencionados que mais destoavam da tradição de Star Trek.

Principalmente pelo fato de que a série se passa no mesmo universo de James T. kirk, Spock, McCoy e Cia, dez anos antes dos eventos da Série Original.

Polêmicas à parte, o que me interessa neste post é explorar os Klingons como um símbolo de como a FC faz uso do alienígena para abordar a figura do Outro dentro de contextos culturais específicos.

No caso aqui, os Klingons, a leitura dessa raça serviu para abordar as ansiedades dos Estados Unidos com questões externas e internas presentes na cultura americana.

E esse uso do alienígena sob o prisma da alteridade não é de hoje.

O lugar do alienígena

Nas quatro primeiras décadas do século vinte nos Estados Unidos da América a ficção científica se disseminou como uma vertente romanesca ideologicamente conservadora, algo representado pelos seus protagonistas representados como Übermenschen, tais como Flash Gordon e Buck Rogers.

Essa abordagem refletia a indústria da literatura de fantasia na época nos Estados Unidos, dominada por escritores, editores e leitores alinhados ou pertencentes a ideologia W.A.S.P. (White, Anglo-Saxon Protestant), acrônimo de Brancos, Anglo-Saxônicos e Protestantes.

Como resultado ela perpetuou um discurso discriminatório em relação a diversos grupos por questões de etnia, raça, gênero, posicionamento político ou ideológico.

Até a década de sessenta a representação da negritude na ficção científica norte-americana, por exemplo, perpetuou estereótipos vigentes desde o século dezenove em relação ao comportamento social e sexual do negro.

Tais ideias encontram seu exemplo, segundo Adam Roberts (2000), na figura do xenomorfo do filme Alien (1979).

Para o crítico, a criatura do filme no contexto da nave Nostromo com seus corredores estreitos e escuros evocando os becos de uma cidade noturna simboliza o medo da população branca em relação ao negro enquanto individuo visto como violento e de potencial estuprador.

Mas, e os Klingons?

Desde seu surgimento na primeira temporada da Série Original em fins dos anos 60, os Klingons já foram incorporações do medo da América em relação aos comunistas e asiáticos (anos 60), da busca de reconhecimento da cultura nativo-americana (anos 80 e 90) e agora, no século 21, da ameaça do radicalismo fundamentalista religioso.

Klingons como comunistas espaciais

Os Klingons fizeram sua primeira aparição no episódio “Errand of Mercy” (1967) e originalmente apareceriam apenas neste episódio. O roteirista Gene Coon modelou essa raça como oponentes da Federação dos Planetas Unidos em analogia ao relacionamento entre russos e americanos no clima de tensão da Guerra Fria vigente na época.

Já o Império Klingon, conforme explica Mark Cushman e Susan Osborn (2013), também era uma metáfora para a China comunista e seus aliados na Guerra do Vietnã, o Vietnã do Norte e a Coréia do Norte.

Neste contexto, o que se percebe é uma visão orientalista e, portanto, demonizadora do Oriente.

Klingons como índios espaciais

A mudança na representação cultural dos Klingons ocorreu na sucessora da Série Original desenvolvida nos fins dos anos 80 até meados dos anos 90 e que recebeu o título de Star Trek: A Nova Geração.

Ambientada quase um século após as aventuras de Kirk, Spock e McCoy a Enterprise comandada pelo capitão Jean-Luc Picard trazia na ponte de comando um oficial Klingon sinalizando a aliança entre o Império Klingon e a Federação.

Essa presença e aproximação fez com que a cultura Klingon fosse explorada mais profundamente pelos roteiristas, como no episódio “The Heart of Glory” (1988) da primeira temporada em que foi introduzido o conceito do Sto-vo-kor, o pós-vida dos Klingons que morreram de forma honrada e que é guardado pela figura messiânica de Kahless, o Inesquecivel.

O elemento mais representativo dessa nova leitura dos Klingons foi sua associação com os povos nativo-americanos, em uma clara alusão ao fato de que, assim como o índio da América, o Tenente Comandante Worf vivia a realidade de paradoxalmente estar na Federação, mas manter suas tradições klingons.

Como aponta Adam Roberts, a medida que Star Trek: A Nova Geração avançou, a cultura Klingon cada vez mais deixou de ser oriental para ser tornar mais identificada com elementos da cultura afro-americana e nativo-americana, e mais especificamente dentro desta última, a cultura do grupo Sioux.

Uma das principais manifestações dessa ligação está no grito de guerra klingon – “Hoje é um bom dia para morrer!”, cuja origem está na tradição do povo Sioux.

Sendo representados por atores negros ao longo da série, os Klingons em Star Trek: A Nova Geração se beneficiaram da busca da cultura pós-moderna de fim do século 20 em integrar e dar voz ao marginalizados dentro do sistema dominante.

Klingons como terroristas espaciais

Desde o primeiro episódio de Star Trek: Discovery os Klingons vem sendo representados pelo signo do isolacionismo e do radicalismo religioso. Nos momentos iniciais da série T’Kuvma proclama seu mantra dizendo “Permaneça Klingon.”

Assim, ainda que se passe no mesmo universo da Série Original, Star Trek: Discovery opera sob outro sistema de ideias (e medos), resgatando e aprofundando a ideia clássica do “Nós” e o “Outro” iniciada pela Série Original ao sustentar a representação dos Klingons em uma estética que evoca a cultura egípcia nos uniformes, nas práticas funerárias e no espaço reservado a religião dentro deste sistema.

Neste percurso, observa-se a desumanização dos klingons mostrando-os como fanáticos religiosos capazes de automutilação, consumo de carne humana e culto a morte.

Esta abordagem em que os Klingons são seguidores de um sistema religioso fundamentalista diferente das praticadas pelas raças da Federação traz a mente o embate atual entre o Cristianismo e o Islamismo de grupos minoritários como O Estado Islâmico, o Hezbollah e a Al qaeda que ganhou força no século 21 após os eventos terroristas do 11 de Setembro de 2001.

Desta forma, assim como vem ocorrendo desde os anos de 1960, a raça Klingon vem refletindo o olhar do ocidente em relação ao diferente na esfera política, ideológica, religiosa e cultural, perpetuando o papel da Ficção Científica em refletir, nas tramas ambientadas no futuro, as ansiedades do presente.

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Fontes utilizadas

BLOCK, Paula M.; ERDMANN Terry J. Star Trek: The Original Series 365. New York: Harry N. Abrams, 2010.  

CUSHMAN, Marc.; OSBORN, Susan. These Are the Voyages: TOS Season One. New York: Jacob Brown Press, 2013. 

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000 (The New Critical Idiom). 

WESTMORE, Michael; Alan Sims, Bradley M. Look, William J. Birnes. Star Trek: Aliens and Artifacts. New York: Star Trek, 2000.

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

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