Lobisomem (Parte 2): O guia da Literatura de Lobisomem que você precisa conhecer

No último post apresentei um panorama do lobisomem na história da humanidade desde a sua origem na Mitologia, na História e no Folclore.

Aqui neste post vou falar das metamorfoses do lobisomem literário.

Berço clássico

A primeira relevante menção ao lobisomem na literatura ocidental ocorreu na oitava Écloga (39 a. C.), do poeta romano Virgílio no qual se relata a transformação voluntária de um feiticeiro de nome Moeris em um lobo após este ter consumido certas ervas mágicas.

A este trabalho se seguiu o Metamorfose, de Ovídio com o episódio envolvendo o rei arcadiano Lycaon e Zeus mencionado no último post.

Já na prosa o primeiro trabalho a apresentar um lobisomem foi o Satíricon (55 a. D.), do latino Petrônio (relatada na seção conhecida como o “Banquete de Trimalchio”). 

Na história o servente de um rico comerciante está passando por um cemitério durante uma noite enluarada quando seu companheiro, um jovem soldado, repentinamente tira as roupas, coloca-as amontoadas e urina sobre elas, se transformando imediatamente em um lobo.

O lobisomem medieval 

Mas indubitavelmente foram nos romances de cavalaria da Idade Média que o lobisomem passou de coadjuvante para protagonista.

Uma mudança que tem seu marco inicial dentro da Literatura Inglesa na obra de fins do século doze Canção do lobisomem (Lai du Bisclavret), da francesa Marie de France.

O herói desse famoso romance é um dos mais galantes cavaleiros da Bretanha que sofre de uma maldição que o leva a se tornar um sanguinário lobisomem.

Após várias reviravoltas em que ele é traído pela mulher e termina ficando preso em sua forma lupina e estabelecer amizade com um rei como lobo de estimação do regente, o cavaleiro-lobo consegue voltar a forma humana e consegue sua vingança.

Ainda na Idade Média, destaque também para o romance em Francês Antigo Guillaume de Palerne.

 

Escrito na última década do século doze, William and the Werewolf (como é mais conhecida pelo seu título em inglês desde 1832) foi um dos primeiros trabalhos literários a mostrar um lobisomem benevolente, cuja condição lupina foi resultante de um feitiço lançado sobre o príncipe Alphonse, herdeiro do trono espanhol, pela sua madrasta feiticeira.

O eclipse do lobisomem

Apesar desse inicio promissor, os próximos séculos testemunharam um esvaziamento do interesse pelo tema do lobisomem na literatura europeia. Dois fatores contribuíram para este quadro.

Primeiro, o crescimento dos centros urbanos, expressado tanto no aprimoramento da comunicação entre as cidades por meio de novas estradas que evitavam as florestas e, consequentemente, o perigo representado por elas, quanto na melhoria dos sistemas de segurança, com armas mais eficazes contra os animais.

O segundo fator, diretamente ligado ao primeiro, se encontra na expressiva redução das alcateias devido a continua destruição do habitat natural do lobo.

Na Bretanha, por exemplo, os lobos foram extintos na Inglaterra em 1530, no País de Gales em 1576 e na escócia em 1740. A consequência destes dois fatores foi a diminuição do medo reservado a este animal no imaginário europeu.

Dentro deste cenário, o lobisomem permaneceu escondido, aguardando nas sombras das minguantes florestas as primeiras décadas do século dezenove para novamente assustar os leitores com sua ferocidade.

O lobisomem gótico

Após o seu início na literatura medieval o tema da criatura meio homem meio lobo só voltaria à tona nas primeiras décadas do século dezenove no apagar das luzes da primeira fase do romance Gótico inglês setecentista iniciada por O Castelo de Otranto (The Castle of Otranto) (1764), de Horace Walpole.

Publicado em 1824, o ultimo romance de Charles Maturin – Os albigenses (The Albigenses) – reintroduz o personagem do lobisomem na literatura ao mostrar um episodio ambientado na prisão de um castelo francês onde o herói da obra, Sir Paladour, é confrontado com uma entidade sem forma uivando e gritando:

“Eu sou um lobo louco… o pelo cresce dentro de mim – a pele de lobo está dentro de mim – o coração de lobo está dentro de mim – as presas de lobo estão dentro de mim!”.

O primeiro conto de lobisomem surgiu no fim da segunda década do século dezenove com “O lobisomem: uma lenda de Limousin” (“The Wehr Wolf: A Legend of Limousin) (1828), do inglês Richard Thomson.

Este conto sobre vingança e magia que descreve os diferentes tipos de lobisomens apresenta elementos que se tornaram recorrentes ao gênero, como a ambientação medieval, a menção da floresta como o lócus do lobisomem e o tema da pata amputada que se transforma em membro humano.

Um membro arrancado também tem papel central em outro importante conto para a formação do cânone da literatura de lobisomem pela sua ambientação medieval e a descrição dos marginalizados no período: “Hugues, o lobisomem: uma lenda kent da Idade Média” (“Hugues, the Wer-Wolf: A Kentish Legend of the Middle Ages) (1838), de Sutherland Menzie, pseudônimo da escritora Elizabeth Stone.

Aqui, as suspeitas sobre uma família de lobisomens, e o consequente ostracismo dela, leva um dos membros dos Hugues a se aproveitar do medo causado pela fera, levando a acontecimentos insólitos que dão um desfecho inesperado a trama.

Antes mesmo da obra de Sutherland Menzie, o nome Hugues já tinha surgido pela primeira vez como protagonista de um conto em “O homem lobo” (“The Man Wolf”) (1831), do escocês Leitch Ritchie e faz referência ao personagem histórico do século onze Hugues e a maldição do lobisomem que, de acordo com a lenda medieval, acometeria a sua ancestral família.

O lobisomem feminino 

“O lobo branco das montanhas Hartz” (“The White Wolf of the Hartz Mountains”) (1839), do inglês Frederick Marryat também tem seu lugar de destaque na Literatura de Lobisomem por ser ter sido o conto de estreia do lobisomem feminino na literatura, além de ter introduzido o elemento de sedução e atração despertado pela criatura que passou a fazer parte das histórias desde então.

Nesta narrativa, parte integrante do romance O navio fantasma (The Phantom Ship), um húngaro se refugia com seus filhos no isolamento do norte da Alemanha e lá acaba se envolvendo com uma bela e misteriosa mulher que desencadeia eventos trágicos para sua família.

Desfecho este, de fato, muito semelhante ao reservado aos personagens da novela “O lobisomem” (“The Were-Wolf”) (1896), da inglesa Clemence Housman, em que uma fascinante mulher de origem desconhecida se infiltra em uma pacata residência trazendo a morte de seus habitantes.

É impossível aqui não perceber dentre os contos de lobisomens anglo-americanos publicados nas últimas décadas do século dezenove a visão ideológica reservada ao feminino, caracterizada por duas vertentes:

  • uma situando um possível desregramento sexual, moral e social da mulher na sua constituição anatômica e fisiológica e
  • a outra destacando possíveis estigmas degenerativos que existiriam de forma latente no corpo feminino.

Em ambos os casos, porém, prevalecia a crença de que a mulher era um ser de sexualidade bruta, algo expressado, por exemplo, no seu ciclo menstrual.

Daí que, como já havia ocorrido durante a Idade Média, o feminino passou a ser visto como algo que inspirava desconfiança e termor.

Esta visão migrou para o literário na figura da femme fetale, ou seja, a mulher fatal que utiliza a sedução para influenciar as ações dos homens, levando-os, muitas vezes, à perdição.

Dentre os lobisomens femininos literários, destacam-se “Olalla” (1885), de Robert Louis Stevenson, “O outro lado” (“The Other Side”) (1893), de Eric Stenbock e “Os olhos da pantera” (“The Eyes of the Panther”) (1898), de Ambrose Bierce.

Ainda sobre as mulheres-lobo, “Uma história de lobisomem” (“A Story of a Weir-Wolf”) (1846), da inglesa Catherine Crowe tem aparecido muito pouco em antologias sobre lobisomens apesar de sua inegável qualidade atestada, por exemplo, pelo especialista do sobrenatural Montague Summers. 

O reinado dos lobisomens

Estando cada vez mais presente na ficção curta de meados do século dezenove, não tardaria para o lobisomem aparecer nos romances da época.

Essa lacuna foi preenchida em 1847 com a publicação em volume único do folhetim Wagner, o lobisomem (Wagner, the Wehr-Wolf) (1847), do inglês George W. M. Reynolds.

Na trama, baseada na lenda alemã do pacto diabólico feito por Fausto e ambientada em vários locais exóticos da Europa renascentista, um velho pastor de noventa anos chamado Fernand Wagner realiza um pacto com o Diabo no qual lhe é garantido a juventude permanente, riqueza inesgotável e aumento da capacidade intelectual.

Em troca o Diabo informa que o mortal será transformado em lobisomem uma vez por mês durante a noite de lua cheia (esta foi uma das primeiras histórias a relacionar a transformação do lobisomem com o ciclo lunar).

Magia negra e o demônio também são os ingredientes do romance O líder dos lobos (Le Meneur de Loups) (1857), do escritor francês Alexandre Dumas.

Ainda que não tenha alcançado nem de longe a notoriedade de outras obras de Dumas como O Conde de Monte-Cristo (1844) e Os três mosqueteiros (1844) a narrativa do pacto feito pelo jovem sapateiro Thibault para controlar lobos visando se vingar de seus inimigos possui seu lugar na tradição da literatura européia.

Ainda na França, dois contos merecem menção pela abordagem da transformação lupina de base psicológica, comumente definida como “Licantropia”: “Hugues o lobo” (“Hugues-le-Loup”) (1860), de Erckmann-Chatrian (o nome usado pelos autores franceses Émile Erckmann e Alexandre Chatrian para assinarem suas obras) e “O lobo” (“Le Loup”) (1884), de Guy de Maupassant.

O lobisomem e o Duplo

Na Inglaterra vitoriana das duas últimas décadas do século dezenove a tensão advinda do debate sobre as ideais científicas da época, com destaque para a teoria da evolução de Charles Darwin, as pesquisas do inconsciente que alcançaram seu ponto máximo com Sigmund Freud, e o choque cultural provocado pela expansão do Imperialismo Britânico promoveu um processo de descentramento e ruptura da percepção do homem com relação a ele mesmo e ao seu papel no universo.

Situado entre tendências radicalmente opostas como a religião e a ciência, a sexualidade e a repressão e a civilização e a barbárie, o homem vitoriano foi essencialmente um ser dividido.

Neste cenário, o personagem do lobisomem sofre uma mudança de representação, aparecendo na literatura inglesa sob o signo da alteridade, representado em duas formas: na primeira, como um Duplo (Doppelgänger) dentro do próprio homem civilizado e, na segunda, um ‘Outro’ de outra cultura vista pelo olhar imperialista inglês;

Dentro dos limites geográficos da Bretanha o quadro de alteridade através da figura do lobisomem encontrou a sua mais perfeita representação em O médico e o monstro (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde) (1886), do escritor escocês Robert Louis Stevenson.

Nas palavras do escritor de terror norte-americano Stephen King é nesta novela que se encontra uma das 

“mais expressivas descrições de Lobisomem de toda ficção de horror. Mesmo que a descrição seja muito diferente do que nós geralmente entendemos por descrição, ela é muito eloquente”.

Dentro desta leitura de King do lobisomem como o lado reprimido do homem vitoriano, o conto “Um horror pastoral” (“A Pastoral Horror”) (1890), de Arthur Conan Doyle, mundialmente famoso pela criação do detetive Sherlock Holmes, relata como um padre acima de qualquer suspeita acaba se revelando o maníaco responsável por trás de horríveis assassinatos cometidos enquanto tomado por frenesis causado pela licantropia.

Os efeitos sobre o homem europeu das crenças e culturas estrangeiras enxergadas como exóticas ou atrasadas fornecem a base do conto “A marca da besta” (“The Mark of the Beast”) (1891), do escritor britânico Rudyard Kipling.

Neste conto aqui apresentado, um dos mais famosos da literatura de lobisomem ao focar no tema da metempsicose, os leitores poderão observar a maldição imposta por um sacerdote leproso hindu a um inglês de nome Fleete depois que o europeu fica bêbado e desrespeita o templo Hindu apagando o seu cigarro na imagem de pedra do deus-macaco Hanuman.

O lobisomem no século vinte

Os escritores dos anos iniciais do século vinte até a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914 seguiram o estilo e a estrutura das histórias desenvolvidas ao longo do século dezenove, a verdadeira Era Dourada da literatura de lobisomem.

Neste período, três contos ingleses merecem menção: “A coisa imortal” (“The Undying Thing”) (1901), de Barry Pain; “O acampamento do cão” (“The Camp of the Dog”) (1908), de Algernon Blackwood e “Gabriel-Ernest” (1909), de Saki (pseudônimo de H. H. Munro).

No primeiro, fonte de inspiração para o mestre do horror H. P. Lovecraft, uma aristocrática família sofre no presente com a maldição imposta a eles em decorrência de um crime de cometido no passado, quando uma monstruosa criança foi abandonada na floresta.

Já em “O acampamento do cão”, metempsicose, parapsicologia e psicologia se misturam quando um detetive ocultista é chamado para investigar a misteriosa aparição de um lobo em um acampamento frequentado por um grupo de férias.

Por fim, o conto de Saki, um exercício satírico contra a propensão inglesa de, por vezes, evitar enxergar a incontestável realidade de certos eventos, descreve como todas as evidências de um ataque de lobisomem são refutadas pelos membros da família afetada.

O lobisomem pulp

Se por um lado as narrativas destas criaturas noturnas pareciam ter esgotado suas possibilidades de entreter os leitores pelo desgaste de suas convenções, principalmente na ficção desenvolvida na Europa, por outro estas mesmas convenções forneceram a matéria prima inicial para uma nova abordagem nas emergentes pulp magazines norte-americanas do pós-guerra.

Dentre os jovens artistas a trabalharem com o tema, Robert E. Howard se destacou ao apresentar uma nova leitura do lobisomem não como um homem que se transforma em lobo, mas sim como um lobo capaz de assumir a forma de um lobo.

Para Howards, o lobo é meio animal e meio demônio e pode assumir a forma humana durante a lua cheia.

Conhecido hoje, principalmente como o criador do personagem Conan, o Bárbaro, Howards criou memoráveis contos de lobisomens e seres transmorfos ambientados em cenários exóticos como a costa ocidental da África e as ilhas britânicas da época dos celtas.

Destaque para “Na floresta de Villefere” (“In the Forest of Villefere”) (1925), “A cabeça de lobo” (“Wolfshead”) (1926), “A raça perdida” (“The Lost Race”) (1927) e “A hiena” (“The Hyena”) (1928).

A década de trinta, ainda marcada fortemente pelo domínio das pulp magazines, testemunhou a publicação do romance considerado pela crítica literária como o equivalente na literatura de lobisomem ao Drácula na literatura de vampiros.

O clássico licantropo

Lançado em 1933, O lobisomem de Paris (The Werewolf of Paris), do norte-americano Guy de Endore também compartilha com Drácula o fato de se basear nos atos hediondos de um personagem histórico, neste caso específico, os crimes perpetrados pelo sargento francês François Bertrand, que entre os anos de 1848 e 1849 roubou cadáveres do cemitério para lhes devorar a carne putrefata.

O vínculo de Bertrand com o lobisomem emergiu durante seu julgamento, quando ele alegou que se transformava em um lobo enquanto perfazia suas atrocidades.

Fazendo uso da recorrente estratégia gótica da história dentro da história, O lobisomem de Paris é narrado por um estudante norte-americano em Paris que acaba acidentalmente com um manuscrito em que é relatada a trama situada durante a Comuna de Paris de 1871 e iniciada com o nascimento, na noite da Véspera de Natal, de uma criança produto do estupro de uma jovem servente por um padre.

Refletindo profundamente a visão herdada do Decadentismo inglês e francês que vinculou a ideia da dor como parte integral do componente sexual, o lobisomem de Endore foi tomado como representante do componente sádico inerente ao instinto sexual; elemento este presente na relação sádica estabelecida entre a bela Sophie de Blumenberg e Bertrand Caillet.

Esta leitura, dentre outras presentes ao longo da história, atestam a força de O lobisomem de Paris como um modelo no gênero pelo uso da tradição que a precedeu e pela criação de novas convenções, sendo o uso da prata contra o lobisomem a mais conhecida delas.

Semelhante a Bram Stoker, que usou fontes folclóricas diversas na criação das convenções de seus vampiros, a utilização deste metal dentro do romance por Guy Endore, não está ligada as raízes folclóricas do lobisomem europeu, mas sim da crença escocesa de que a prata podia ser utilizada contra bruxas que tinham assumido alguma forma animal.

Cabe mencionar, porém, que o uso da prata contra seres sobrenaturais tem raízes ancestrais tanto pela sua cor branca quanto pela sua associação com a lua.

A partir deste romance, porém, a prata se tornaria parte da sabedoria convencional de combate aos seres lupinos, ainda que outras armas também pudessem ser usadas contra ele.

Outras obras de destaque escritas por norte-americanos na primeira metade do século vinte foram os romances Mais negro do que você pensa (Darker Than You Think) (1940), de Jack Williamson; O lobo branco (The White Wolf) (1941), de Franklin Gregory; e os contos “O cão” (“The Hound”) (1942), de Fritz Leiber e “Não haverá escuridão” (“There Shall Be No Darkness”) (1950), de James Blish.

O lobisomem pós-anos 50

Após a década de cinquenta e sessenta, quando dividiu a atenção do público não apenas com criaturas que refletiam a ansiedade da Guerra Fria, como monstros mutantes, robôs e alienígenas, mas também com sua própria imagem no cinema, o lobisomem literário voltou a chamar a atenção dos leitores e da crítica literária nos últimos anos do século vinte.

Destaque para quando a criatura foi reavaliada pela escrita pós-moderna de escritoras feministas como a inglesa Angela Carter em contos como “A companhia dos lobos” (1979), e “O lobisomem” (1979), ambos sendo releituras do conto de fada “Chapeuzinho vermelho”.

No primeiro, a adolescente Chapeuzinho se torna uma vítima voluntária do jogo sedutor da criatura, enquanto que, no segundo, Carter dá a sua explicação para o fato da vovozinha morar sozinha na floresta.

Fechando o século vinte, destaque para três romances norte-americanos de lobisomens que resgatam a ideia apresentada por Jack Williamson em Mais negro do que você pensa em que os lobisomens são uma espécie inteligente que vive de forma secreta entre nós: Um grito de horror (The Howling) (1977), de Gary Branner, Os lobos (The Wolfen) (1978), de Whitley Strieber, A hora do lobisomem (Cycle of the Werewolf) (1983), de Stephen King e Sangue & chocolate (Blood and Chocolate) (1997), de Annette Curtis Klause.

O lobisomem literário hoje

A imensa receptividade pelo público leitor, principalmente adolescente, dos vampiros da série Crepúsculo (2005-2008) produziu um forte impacto na literatura de lobisomens no início do século vinte e um.

Respondendo a demanda do mercado pelo “amor sobrenatural”, Os lobos de Mercy Falls (The Wolves of Mercy Falls) (2009-2011), de Maggie Stiefvater; Sob a luz da lua (Nightshade) (2011-2012), de Andrea Cremer e Guardião negro (Dark Guardian) (2009-2010), de Rachel Hawthorne, dentre tantas outras, apresentam como ponto em comum sociedades secretas de lobisomens nas quais um dos membros acaba se envolvendo emocionalmente com humanos.

Ainda dentro do universo adolescente, o lobisomem marcou presença nos dois lados da batalha entre o bem e o mal dentro da série Harry Potter (1997-2007), da inglesa J. K. Rowling através do bondoso professor Remo Lupin (uma clara analogia tanto ao fundador do império romano quanto termo em latim para “lobo”) e do perverso Fenrir Grayback (sendo o primeiro nome associado ao mítico lobo dos nórdicos).

Dentro de uma abordagem adulta, O último lobisomem (The Last Werewolf) (2011), do britânico Glen Duncan é a mais recente obra a trabalhar a figura do lobisomem de forma relevante para o gênero.

Neste caso, como o título já anuncia, o último das criaturas lupinas. Cansado de sua existência de mais de duzentos anos de idade ao longo da qual ele se tornou o último de sua espécie após o vírus que transforma humanos em lobos ser extinto, Jacob Marlowe perdeu a vontade de viver por estar cansado de tentar lidar com os fantasmas dos que matou para aplacar sua fome. Mesmo o grupo de caçadores que o persegue não lhe é fonte de preocupação.

Todavia, um assassinato violento e um encontro inesperado fazem com que ele mais uma vez lute para viver.

O Lobisomem na Língua Portuguesa

Dentro deste panorama e considerando a grande disseminação da lenda na cultura brasileira do norte ao sul do país desde o período colonial via Portugal, pode se imaginar que o lobisomem tenha uma significativa presença na Literatura Brasileira.

Afinal de contas, em Tradições populares de Portugal (1882), de J. Leite de Vasconcellos esse personagem ocupa a maior parte do capítulo do livro dedicado aos seres sobrenaturais do país, aparecendo na literatura portuguesa desde o século quinze no Cancioneiro de Garcia de Resende:

“Sois damnado lobishomem / Primo d’Isaac nafu”. Dois séculos depois, no Vocabulário (1716), de D. Raphael Bluteau ele reaparece nos versos do século dezesseis de Francisco de Sá de Miranda: “Bento, maos lobos são homens / E mais os d’essas montanhas, / Que há cem mil lobishomens; / Cuidava eu que erão patranhas.”

Lobisomem brasileiro

No entanto, fora alguns casos registrados na literatura de cordel nordestina e uma breve participação como um dos seres da mata avistados pelo menino Pedrinho na obra O saci (1921), de Monteiro Lobato, apenas em meados da década de quarenta surgiu um dos primeiros representantes do lobisomem literário brasileiro com o saboroso conto “O lobisomem” (1944), do cearense Raimundo Magalhães em que todas as convenções relacionadas ao homem-besta aparecem no causo contado pelo personagem com fama de mentiroso.

Depois dessa estreia, o ser folclórico voltaria às letras brasileiras vinte anos depois em O coronel e o lobisomem (1964), do carioca José Cândido de Carvalho.

Considerado pelo gaúcho Érico Veríssimo como um dos melhores romances da literatura brasileira de todos os tempos, o livro de Carvalho foca nos causos e aventuras relatados pelo coronel Ponciano de Azeredo Furtado na cidade fluminense de Campos dos Goitacazes.

Dica de leitura

Já no século 21, dentre outros poucos escritores a tratar do tema em nossas letras, destaque absoluto para o romance Crônicas da Lua Cheia: A maldição do lobisomem (2016), de Clecius Alexandre Duran.

Publicado pela editora Giostri, o romance incorpora diversas referências da cultura pop ao mesmo tempo em que parte de toda a tradição da literatura de lobisomem comentada anteriormente para propor um novo olhar sobre a temática do Duplo dentro do padrão humano/lado bom X lobisomem/lado bestial. 

Regado por descrições extremas, a obra de Clecius Alexandre Duran oferece entretenimento de qualidade ao passo que reitera o fato de que a Literatura Fantástica brasileira é capaz de produzir obras de qualidade semelhante e mesmo superior aos seus congêneres estrangeiros.

Vale a leitura!

Como visto neste extenso panorama da Literatura de Lobisomens, as narrativas sobre humanos que se metamorfoseiam em lobos possui uma longa tradição que merece ser conhecida e valorizada, fazendo justiça a estes seres que muito reflete nossa ligação com a natureza e nossos instintos.

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Fontes utilizadas

BARING-GOULD, Sabine. Lobisomem: um tratado sobre casos de licantropia. Trad. Fernanda M. V. de Azevedo Rossi. São Paulo: Madras, 2003.

BELLEI, Sergio Luiz Prado. Definindo o monstruoso: forma e função histórica. In: BELLEI, Sergio Luiz Prado. Monstros, índios e canibais: ensaios de crítica literária e cultural. Florianópolis: Editora Insular, 2000. p. 11-22.

CARTER, Angela. O quarto do barba-azul. Trad. Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1983.

CHEVALIER, Jean, cheeerbrant, Alain. Dicionário de Símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

FISKE, John. Myths and Myth Makers. London: Random House, 1996.

FROST, Brian. The Essential Guide to Werewolf Literature. Wisconsin: Popular Press, 2003.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Facts on File, Inc., 2005.

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MATURIN, Charles. The Albigenses: A Romance. New York: Arno Press, 1974.

MELTON, J. Gordon. Lobisomens e vampiros. In: MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003, p. 492-497.

PRAZ, Mario. A carne, a morte e o diabo na literatura romântica. Trad. Philadelpho Menezes. Campinas, São Paulo: Editora da UNICAMP, 1996.

SHARKEY, John. Mistérios celtas. Trad. Cari Baena. Rio de Janeiro: Edições Del Prado, 1997.

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de literatura e cultura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Trad. Bráulio Tavares. São Paulo: Editora Hedra, 2012.

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VASCONCELLOS, J. Leite de. Tradições populares de Portugal. Porto, Portugal: Livraria Portuense de Clavel e Cia, 1882.

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

4 Responses

  1. Fernando

    Perfeito!! Conteúdo esclarecedor é bastante objetivo. Mt bom mesmo. Me ajudará mt ter conhecido essas fontes.

    • Fantasticursos

      Muito obrigado Fernando. Os lobisomens merecem. Se possível, assine o blog para receber notificações dos posts semanais e compartilhe com sua alcateia. Abraços.

  2. Fernando

    Deveria haver uma menção honrosa dos lobisomens ou outros metamorfos na cultura pop como em alguns filmes tipo Romasanta, Pacto dos lobos, Lobisomem americano, Gingers Snap e goosebumps entre outros, e exclusivamente o RPG internacional e brasileiro como Werewolf the apocalipse/Forsaken e Lobisomem: a maldição do Marcelo DelDebbio.

    • Fantasticursos

      Com certeza. Mas você concorda comigo que só com esses ai que você mencionou já dava um post? Então, o lobisomem no Cinema tem um rico percurso que merece algo a parte. Não vai ser o próximo post, mas terá seu momento aqui. Mesmo porque esse post aqui já ficou com 4000 palavras, ou seja, 4 vezes superior ao recomendado, hahahaha.

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