Lobisomem (Parte 1): Você conhece os filhos da noite?

“Escute-os, os filhos da noite. Que música eles fazem!”

O comentário de Drácula sobre os lobos na floresta ao redor de seu castelo, expresso no romance de Bram Stoker de 1897, simboliza bem a posição do lobisomem dentro da Literatura: Ainda que ele não ocupe a posição de destaque  do vampiro, ele está sempre lá, fascinando a todos (incluindo ai o próprio senhor dos vampiros) com sua presença.

Narrativas sobre a transformação consciente ou não de seres humanos em animais devido a punições, feitiços, maldições, ou como parte de rituais religiosos estão presentes desde a aurora da civilização humana.

No centro destes relatos se encontra a relação do homem com a Natureza e a tênue fronteira que separa o humano do bestial. A fragilidade desta linha está representada em povos ancestrais nas práticas etnomédicas do xamanismo e na doutrina da metempsicose.

Xamanismo e ligação com o bestial

Sobre o primeiro, culturas tão diversas quanto os manchus e tungues na China, os vikings, na Escandinávia, e os índios guarani, no Brasil, possuem entre eles a figura do xamã, reconhecido como um homem ou uma mulher comumente chamado de feiticeiro, curandeiro, pajé ou outro termo que, dentre outros atributos, tinha o conhecimento de se comunicar misticamente com os animais.

Segundo a crença, a intima ligação com os chamados “Animais de Poder”, também permitia que, por vezes, estas pessoas se transformassem nas criaturas a elas ligadas.

Subvertendo a fronteira entre o humano e o animal

Relacionado ao xamanismo, mas não exclusivo dele, a metempsicose, por sua vez, é o termo usado para designar a passagem da alma de um corpo para outro, seja este corpo do mesmo tipo de ser vivo ou não.

Homens-hiena
Homens-hiena (Werehyena), populares no folclore da África

Amplamente difundida na Antiguidade no Egito, Itália, China e Índia e tendo sido também tema das considerações filosóficas de pensadores gregos como Platão e Pitágoras, esta doutrina considera a possibilidade da alma humana encarnar em animais ou vegetais.

Xamanismo e metempsicose estariam assim na possível origem das criaturas sobrenaturais que tomam a forma dos animais respeitados, temidos ou divinizados em suas sociedades.

Homem-urso (Werebear) Presente no folclore dos povos nativos da América do Norte

Desta forma, na África existe a crença no Bouda, o homem-hiena; no Canadá, os nativos acreditam no homem-urso; na Índia temos um homem-tigre; as Filipinas, por sua vez, contam com os homens-cães chamados Aswangs e, no Japão, se teme os Kitsunes, os homens-raposa.

Os homens-raposa do Japão.

Esse questão do monstruoso, no caso do nosso nosso folclore já foi tema de um post aqui do blog.  Para ler, clique aqui.

E o lobo?

O predador mitológico

Chama a atenção nas crenças e superstições que cercam o lobisomem o medo reservado desde o mundo antigo aos lobos.

Na mitológica clássica, a capa usada por Hades, o senhor do inferno grego, é feita de pele de lobo, o mesmo material das vestimentas de Caronte, o barqueiro, que conduz a alma dos mortos ao mundo inferior.

Esta conexão com a morte também se vê com a figura do deus Apolo, que no primeiro livro da Ilíada, de Homero, é descrito como um deus da praga, estabelecendo a ligação de seu epíteto lício (lobo) como aquele que traz a destruição.

Fora do mundo greco-romano a ligação desse animal com a morte e a destruição aparece nas crenças religiosas dos povos nórdicos na forma de dois lobos deitados aos pés do deus das batalhas Odin e na imagem de um dos mais implacáveis inimigos dos deuses: o lobo gigante Fenris.

O berço grego dos  filhos da noite

A mitologia romana ofereceu uma das primeiras explicações para o lobisomem na obra Metamorfoses, de Ovídio (8 d. C.), no qual o poeta descreve como Lykaon, rei da Arcádia, certa vez convidou Júpiter (o Zeus dos gregos) a sua casa para jantar e lhe serviu um bolo com carne humana a fim de testar a onisciência do deus.

Como punição pela sua blasfêmia Júpiter transformou Lycaon em um lobo. O rei Lycaon instituiu então o sacrifício anual de uma criança para aplacar a ferocidade dos lobos, estabelecendo desta forma a conexão de seu nome com estes animais, fato este reforçado pela semelhança das palavras Lycaon e lykos (lobo, em grego), o que gerou no mundo clássico o termo “Licantropo”, que é comumente usada como sinônimo de lobisomem.

Mas é fundamental que se faça aqui uma distinção entre os nomes. Ainda que principalmente na Idade Média tenha se usado palavra “Licantropia”, formada pelas palavras gregas lobo (lykos) e homem (anthropos), para designar a maldição do lobisomem, hoje em dia ela vem sendo mais usada para descrever um distúrbio mental em que a pessoa afetada imagina se transformar em lobo.

O berço nórdico dos filhos da noite

Dentre os povos escandinavos acreditava-se que algumas pessoas, homens e mulheres, eram eigi einhamir, ou seja, “não de uma só pele”, o que indicava que eles poderiam ocupar os corpos de outros animais, geralmente ursos e lobos, ou se transformar nestes seres.

No primeiro caso, a alma do individuo abandonava o corpo deixando-o em estado catatônico semelhante à morte, e então migrava para o corpo do outro animal, que era chamada de hamr.

Guerreiro berserker

Durante este processo, a consciência da pessoa permanecia intacta dentro do animal possuído, ao mesmo tempo em que ele conseguia desfrutar de todas as habilidades da criatura.

Já no segundo caso, que também encontra exemplo na obra Saga dos Volsungos, redigida no século treze na Islândia, o individuo vestia uma úlfahamr (pele de lobo) e assumia a forma lupina, mas ainda conservava o controle de sua consciência humana.

Mais do que o eigi einhamir, no entanto, foi com o berserker que o mundo nórdico deu sua maior contribuição a origem da crença nos lobisomens.

“Da fúria dos nórdicos, livrai-nos Senhor”

O relato acima de um cronista católico de meados do século 9 dá a dimensão do medo sentido pelos ingleses das seguidas invasões perpetradas pelos vikings, dentre os quais se destacava um grupo especial de homens chamados berserkers, palavra cuja origem pode derivar tanto de ber-serkr (camisa de urso), pela menção ao tipo de pele vestida pelos guerreiros, quanto de berr-serkr (sem camisa), em alusão ao fato desta classe de viking lutar de peito nu.

O que os sobreviventes dos ataques vikings reportaram foi o ataque de guerreiros vestidos com peles de ursos e lobos que se comportavam com se estivessem em frenesi (furor bersericus), espumando pela boca, rugindo, ganindo e uivando como as feras cujas peles eles vestiam.

Diante do enorme impacto destes ataques sobre a psique das vítimas, a superstição popular pode ter gerado narrativas a partir do comportamento e aparência do berserker que fomentaram a figura do lobisomem.

Reforça esta possibilidade o fato de que as regiões litorâneas geralmente atacadas pelos escandinavos e onde hoje se encontram França, Alemanha, Inglaterra, Itália, Portugal e Espanha, são justamente aquelas na quais, coincidência ou não, a lenda do lobisomem mais se desenvolveu.

Mini-Guia sobre o lobisomem

Qual é a aparência?

Geralmente, quando um ser humano se transforma em lobisomem, ele ou ela assume por completo a forma de um lobo.

Às vezes e de forma mais rara, a pessoa também pode se apresentar como um ser fé forma híbrida que anda de forma encurvada em duas pernas como o homem, mas possui feições de lobo, semelhante à imagem tradicionalmente veiculada pelo cinema e por vídeo clipes como o da canção “Thriller” (1982), de Michael Jackson.

O individuo também pode, mais raramente, possuir a cabeça de um lobo e corpo de homem ou ainda ter o corpo de lobo, mas apresentar olhos e mãos humanas.

Quanto à duração da transformação, ela pode ser permanente ou temporária e, neste segundo caso, tradicionalmente ocorre na Lua Cheia.

Como reconhecer?

Durante o dia, o lobisomem esconde sua condição na forma humana, mas se ele sofrer um ferimento enquanto lobo, um ferimento correspondente surgirá no seu corpo humano. Da mesma forma, caso a criatura venha a perder algum membro ao ser atacada, a parte amputada reassume sua forma humana. 

Segundo o folclore, algumas pessoas estariam predestinadas a se tornarem lobisomens devido a particularidades de seu nascimento, como terem nascido na noite da Véspera de Natal, ou em decorrência de certos traços de sua aparência.

Tais sinais incluiriam sobrancelhas grossas que se juntam sobre o nariz, unhas compridas e curvas, orelhas pequenas, presença de um terceiro dedo excepcionalmente longo em cada mão, tez amarelada, cabelos cor parda com laivos escuros e abundante presença de pelos nas mãos e nos pés.

A sobrancelha única, dentro do folclore brasileiro, é um sinal de lobisomem

De acordo com a tradição popular brasileira, herdada de Portugal, também estão predestinados os filhos de casos incestuosos, filhos de compadre e comadre e de padrinho e afilhada.

O mesmo destino está reservado ao menino nascido depois de sete meninas. Ainda segundo o nosso folclore, depois de se transformar em uma encruzilhada, o lobisomem precisa visitar sete cemitérios, sete outeiros e sete partidas do mundo.

Como se defender?

Aos que encontram esta criatura nas estradas, o folclore brasileiro aconselha desencantá-lo causando-lhe um ferimento que verta sangue ou dando-lhe um tiro com bala untada em cera de vela que ardeu em três missas de domingo ou na Missa do Galo, na meia noite do Natal. Outra eficaz arma é o sino-saimão (signo de Salomão).

O famoso uso da prata para matar estes seres tem sua origem não nas crenças ligadas ao tema, mas na literatura, tendo surgido com o romance O lobisomem de Paris (1933), de Guy Endore.

Faça você mesmo

A mordida de um lobisomem é o método mais comum para se transmitir a maldição de uma pessoa para outra, mas existem várias outras maneiras de se tornar uma destas temíveis criaturas.

Uma transformação involuntária geralmente é decorrente de maldição ou possessão demoníaca.

Já na transformação voluntária a pessoa precisa realizar um pacto com o Diabo de forma que o ser infernal lhe conceda uma pele de lobo, ou cinto feito do mesmo material que deve ser vestido pelo interessado, ou ainda um unguento especial.

Outras superstições de origem medieval relacionam o surgimento do lobisomem com certos atos que devem ser evitados, como beber água de uma poça pisada por um lobo, comer o cérebro de um lobo, dormir no chão em campo aberto em uma noite de sexta-feira e colher ou usar certas flores.

E na Literatura?

Aqui neste post você leu sobre as possíveis origens e os elementos folclóricos que cercam o Lobisomem.

Na próxima semana, vou abordar 10 histórias que você precisa ler para ficar por dentro do melhor da Literatura de Lobisomem, incluindo ai escritores brasileiros.

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Fontes utilizadas

BARING-GOULD, Sabine. Lobisomem: um tratado sobre casos de licantropia. Trad. Fernanda M. V. de Azevedo Rossi. São Paulo: Madras, 2003.

BELLEI, Sergio Luiz Prado. Definindo o monstruoso: forma e função histórica. In: BELLEI, Sergio Luiz Prado. Monstros, índios e canibais: ensaios de crítica literária e cultural. Florianópolis: Editora Insular, 2000. p. 11-22.

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1983.

CHEVALIER, Jean, cheeerbrant, Alain. Dicionário de Símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

FISKE, John. Myths and Myth Makers. London: Random House, 1996.

FROST, Brian. The Essential Guide to Werewolf Literature. Wisconsin: Popular Press, 2003.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Facts on File, Inc., 2005.

MELTON, J. Gordon. Lobisomens e vampiros. In: MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003, p. 492-497.

STOKER, Bram. Dracula. New York: W. W. Norton & Company, 1997.

SUMMERS, Montague. The Werewolf in Lore and Legend. New York: Dover Publications, 2003.

VASCONCELOS, J. Leite de. Tradições populares de Portugal. Porto, Portugal: Livraria Portuense de Clavel e Cia, 1882.

 

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

7 Responses

  1. Clecius Alexandre Duran

    Em tempo, ratificando o comentário anterior…

    Fico muito honrado com a menção de minha obra num artigo tão inspirado! Vida longa aos lobisomens!!!

    • Alexander Meireles da Silva

      Muito obrigado a você Clecius. Tanto pelo comentário quanto pelo seu romance que contribui para colocar o lobisomem no lugar que ele merece dentro da Literatura Fantástica. Abraços!

  2. Luciana Maria

    Amei ❤❤❤❤
    Esterei aguardando o próximo post !!!

  3. fernando

    Mt bom. Mt interessante o artigo. Inclusive comprei um dos livros da bibliografia usada e ja peguei aqui um outro nome para procurar. parabéns! E sim, acredito que entre os pouquíssimos autores nacionais, o Clecius nos traz esperança quanto ao tema, e serve de referencia para futuros escritores que almejam tocar também nesse mesmo gênero.

    • Fantasticursos

      Muito obrigado Fernando. Penso então que você vai adorar o post de amanhã que vai sair às 9h. Ficou longo, mas o objetivo é justamente que ele fique como consulta para todos que querem conhecer a tradição da Literatura de Lobisomem.

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