Os mortos-vivos existem: A lepra na literatura gótica

O fato da palavra “Lepra” ser usada no título deste post visa chamar a atenção para o enorme preconceito e medo que cerca essa doença que remonta aos tempos bíblicos e que a levou a mudar de nome para “Hanseníase” com a Lei nº 9.010, de 29 de março de 1995.

Vítima de hanseníase na colônia do Estado americano da Louisiana

Não é toa que ela tem presença recorrente na Literatura Gótica.

Morto para o mundo, renascido em Deus

Sic mortuus mundo, vivus iternum Deo.

O pronunciamento destas palavras marcava o auge da cerimônia chamada de Separatio Leprosarium desenvolvida ao longo dos séculos doze e treze na Europa medieval em que um indivíduo tinha sua cabeça coberta por um véu negro e era conduzido por um padre e os demais membros de sua comunidade até um cemitério.

Neste local a pessoa era colocada em uma cova aberta e o clérigo derramava terra sobre sua cabeça ao mesmo tempo em que eram proferidas as palavras do início deste parágrafo, anunciando que, a partir daquele momento, ele estava “Morto para o mundo, renascido em Deus” (MATTOS, FORNAZARI, 2005).

Ainda que no próprio século treze a cova aberta tenha sido abandonada a favor de uma cerimônia realizada dentro da igreja da comunidade no qual o individuo fazia sua última confissão, o final era o mesmo de antes: após o anuncio de sua morte em vida o individuo perdia sua identidade, passando a ser conhecido apenas como “o leproso”.

Nesta condição ele era uma não-pessoa, desprovido, por exemplo, do direito a heranças ou de apresentar reclamações a justiça. O leproso era então conduzido até os limites da cidade e lá era informado pelo padre da série de proibições impostas a ele visando evitar a contaminação das pessoas (RICHARDS, 1995).

Mas afinal de contas, por que, dentre tantas outras doenças do mesmo período com taxas muito maiores de contaminação, a lepra, também chamada de morfeia e, atualmente, hanseníase, despertou tanto medo e perseguição, principalmente por parte do mundo cristão?

A lepra profana

A resposta se encontra na própria condição do leproso como o abjeto par excellence conforme a noção do tema encontrada em Powers of Horror (1982), de Julia Kristeva.

A origem da palavra “lepra” se encontra na Antiguidade, tendo sido cunhado pelo médico grego Hipócrates para descrever manchas brancas na pele e no cabelo que se assemelhavam a escamas (léprêã).

A ligação deste termo médico com o universo espiritual se deu quando da passagem para o grego dos textos do Antigo Testamento por volta do século 3 a.C.

Ao se realizar a tradução do hebraico tsara’ath (“ímpio”, “profano”) para o grego optou-se pela palavra “lepra”. “tsara’ath” passou a designar então a pessoa com a pele de aparência estranha e as construções que de algum modo haviam sido espiritualmente contaminados. O que era tsara’ath só podia ser purificado por ritual religioso (FARRELL, 2003).

Desta forma se deu a ideia de que os acometidos de lepra eram impuros física e espiritualmente.

A transgressão do corpo

Dentro do mundo judaico-cristão esta ligação se reforçou com os preceitos estabelecidos no terceiro livro de Moisés, o Levítico, no qual podem ser encontrado várias referências de caráter depreciativo atribuídas à doença e que serviu de base para o desenvolvimento dos rituais da Igreja sobre a lepra.

Rituais que reforçavam a necessidade da segregação do morfético devido não apenas a sua impureza, mas principalmente devido a transgressão cometida pelo seu corpo dentro da crença da sacralidade do corpo humano, estabelecendo assim sua condição como abjeto, ou seja tudo o que se afasta dos valores de um grupo social até o ponto da evocação da repulsa (KRISTEVA, 1982).

Localizando em seu corpo o espaço da dessemelhança e da não-identidade, o leproso é um morto-vivo institucionalizado cujo entre-lugar se alinha também com as considerações de Mary Douglas em Pureza e perigo (1991) sobre a violação dos esquemas de categorização cultural.

No caso dos portadores de morféia esta dúvida categorial ocorre por ser este individuo um representante intersticial do vivo/morto e da decomposição.

Para Noël Carroll é esta ambiguidade nos termos de Douglas um dos fatores geradores do horror artístico explorado na literatura e no cinema, pois “o que horroriza é o que fica fora das categorias sociais e é forçosamente desconhecido” (1999).

Ainda neste sentido, enquanto incorporação do desconhecido, o morfético se torna o medo encarnado, visto que, como coloca H. P. Lovecraft:

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido” (2007).

Este fato permite compreender a origem e função do espaço do medo ocupado pelo leproso no imaginário da humanidade, o mesmo ocupado na literatura de horror de temas medievais e folclóricos pelo lobisomem e pelo fantasma e, posteriormente, nas narrativas do gênero do século dezenove, pelos personagens ligados a ciência, como a criatura sem nome do romance Frankenstein (1818), de Mary Shelley e o sr. Hyde, da novela O estranho caso do dr. Jelyll e mr. Hyde (1886), de Robert Louis Stevenson.

Mr Hyde em Abbott and Costello Meet Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1953)

Como ponto em comum, todos estes seres compartilham de uma natureza transgressora em relação a rigidez das categorias culturais, ligando-os a abjeção e a intersticialidade.

Mas e o tema da lepra? Quando e como especificamente ele migra para o universo do horror literário?

O leproso gótico

Passada a Idade Média, período de maior incidência da doença devido às invasões árabes e as Cruzadas, que estabeleceram uma ponte entre a Ásia, provável berço da moléstia, e a Europa, a lepra gradativamente recuou no Velho Mundo ao ponto do quase desaparecimento na mesma medida em que as condições de higiene e alimentação melhoraram no continente (MONTEIRO, 1993).

O Terraço do Rei Leproso, no Camboja

Como um dos monstros das narrativas góticas, no entanto, a lepra retornaria para assombrar os europeus com a sua abjeta presença. Desta vez, todavia, em um novo espaço e época: as colônias africanas e asiáticas das ultimas décadas do século dezenove.

Dentro do contexto imperialista, a lepra foi encarada como um marco divisório entre a (civilizada) cultura europeia e as (primitivas, bárbaras e supersticiosas) culturas de países sob o julgo das potências do período como a França, a Alemanha, a Bélgica e, principalmente, a Inglaterra.

O leproso no conto “A marca da besta”, de Rudyard Kipling

Neste cenário, a moléstia era tanto a ameaça do cruzamento da fronteira em decorrência do contato prolongado com o outro quanto à expressão da decadência do poder imperial (EDMOND, 2006), temas que foram explorados pela vertente romanesca do gótico colonial.

Em linhas gerais, a literatura gótica colonial pode ser dividida em duas expressões:

A primeira descreve a ameaça externa que um ou mais indivíduos representam ao status quo dentro de um determinado pais ou região.

Drácula se insere na tradição do gótico colonial dentro da perspectiva de que o vampiro oriundo de uma terra marcada pelo atraso e superstição se coloca como uma ameaça ao modo de vida da Inglaterra vitoriana.

Já a segunda abordagem trata da experiência do colonizador ou do representante da ideologia dominante em um local considerado por este como primitivo, atrasado, supersticioso e bárbaro (SNODGRASS, 2005).

Os leprosos literários

Dentre outras obras da literatura inglesa, norte-americana, brasileira e portuguesa desde fins do século dezenove até meados do século vinte com a presença da lepra, destaco aqui 7 contos:

1. “A marca da besta” (1890), do britânico Rudyard Kipling

Fleete, um inglês recém-chegado a Índia, se embebeda nas festividades de Ano Novo e termina por desrespeitar um templo religioso. Ele acaba sendo amaldiçoado por um sacerdote leproso e se transforma em uma das criaturas mais famosas da literatura gótica.

2. “O demônio da garrafa” (1893), de Robert Louis Stevenson

Keawe é um havaiano pobre que se torna dono de uma garrafa que concede desejos ao seu proprietário. Eventualmente ele descobre que cada realização de desejo implica em uma perda para ele, como contrair lepra. 

3. “O rei dos leprosos” (1908), de Jack London

Com o título original de “Koolau, o leproso”, o conto traz o confronto do líder leproso Koolau contra toda uma tropa de cavalaria que querem prende-lo por este se recusar a adotar as práticas restritivas do governo local. O conto em inglês pode ser lido aqui.

4“Pelo caiapó velho” (1917), de Hugo de Carvalho Ramos

Homem se perde em meio as trevas do sertão goiano até encontrar uma casa onde decide dormir e se alimentar mesmo sem encontrar seu morador, o que acaba por acontecer durante a noite.  

5. “Camunhengue” (1920), de Valdomiro Silveira

Incomodado com a fraqueza nas pernas que acompanha a queda de cabelo e crescentes manchas no rosto que tomam os seus olhos e nariz, Zeca Estevo procura conselho de um milagreiro local. A sentença cai sobre ele como uma maldição: Lepra.

6. “As morféticas” (1944), de Bernardo Élis

O conto segue praticamente a mesma estrutura da narrativa de “Pelo caiapó velho” de Hugo de Carvalho Ramos, sendo que aqui o contexto é atualizado e mais moradores da casa vem ao encontro do homem durante a noite na casa onde ele decidiu repousar.

7. “O leproso” (1944), de Miguel Torga

Protagonizado pelos camponeses quase esquecidos das pequenas montanhas do norte de Portugal, o conto de Miguel Torga traz a descoberta de Julião de que sofre de lepra e como esse fato o leva a ser marginalizado por seus companheiros do campo. 

Vampiros, lobisomens, fantasmas, zumbis, demônios… e leprosos. Ao lado de outras criaturas da literatura de horror, o morfético carrega em seu corpo movediço, incompleto, transitivo e decomposto, o signo da abjeção e da intersticialidade.

Gostou do tema deste texto? Então veja também outro post do blog sobre o tema das doenças e a Literatura Fantástica clicando aqui.  

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Obrigado pela leitura. 

Fontes utilizadas

BOTTING, Fred. Gothic. London: Routledge, 1996. (The New Critical Idiom).

CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Trad. Roberto Leal Ferreira. Campinas, SP: Papirus, 1999. (Coleção campo imagético).

DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo: ensaio sobre a noção de poluição e tabu. Trad. Sônia Pereira da Silva. Lisboa: Edições 70, 1991.

EDMOND, Rod. Leprosy and Empire: a medical and cultural history. New York: Cambridge University Press, 2006.

ÉLIS, Bernardo. As morféticas. In: ______. Ermos e gerais. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 239-247.

FARRELL, Jeanette. A assustadora história das pestes e epidemias. Trad. Mauro Silva. São Paulo: Ediouro, 2003.

KIPLING, Rudyard. The mark of the beast. In: ______. Strange Tales – Rudyard Kipling. London: Wordsworth Editions, 2006, p. 3-14. (Tales of Mistery & The Supernatural).

KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: an essay on abjection. New York: Columbia University Press, 1982.

LOVECRAFT, H. P. O horror sobrenatural em literatura. Trad. Celso M. Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2007.

MATTOS, Débora Michels, FORNAZARI, Sandro Kobol. A lepra no Brasil: representações e práticas de poder. Diário de Tarde, Florianópolis, n. 413, p. 45-57, 1° semestre de 2005. Disponível em <http://www.fflch.usp.br/df/cefp/Cefp6/mattosefornazari.pdf>. Acesso em 28 fev. 2013.

MONTEIRO, Yara Nogueira. Doença e estigma. Revista História, São Paulo, n. 127-128, p. 131-139, ago./dez. 1992 a jan./jul. 1993. Disponível em <http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/viewFile/18694/20757>. Acesso em 28 fev. 2013.

RAMOS, Hugo de Carvalho. Pelo caiapó velho. In: DENÓFRIO, Darcy França, SILVA, Vera Maria Tietzmann. (Orgs.). Antologia do conto goiano I: dos anos dez ao sessenta. Goiânia: CEGRAF/UFG, 1992, p. 55-59.

RICHARDS, Jeffrey. Lepers. In: ______. Sex, Dissidence and Damnation: minority groups in the Middle Ages. London: Routledge, 1995, p. 150-163.

SILVEIRA, Valdomiro. Camunhengue. In: ______. Os caboclos. 4ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1975, p. 50-58.

SNODGRASS, Mary Ellen. Colonial Gothic. In: ______. SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, Inc., 2005, p. 61-62.

STEVENSON, Robert Louis. O demônio da garrafa. In: ______. CALVINO, Ítalo (Org.). Contos fantásticos do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 255-272.

TELLES, Gilberto Mendonça. O conto brasileiro em Goiás. 2ed. Goiânia: Editora da UFG, 2007 (Coleção: Goiânia em prosa e verso).

TORGA, Miguel. O leproso. In: PENTEADO, Jacob. (Org.). Obras–primas do contos de terror. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1958, p. 289-299.

WARWICK, Alexandra. Colonial Gothic. In: MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998, p. 261-262.

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

3 Responses

    • Fantasticursos

      Obrigado Lu. São realmente os “monstros” que mais chegam perto de nossa realidade. Recomendo então que você leia o livro do Jeffrey Richards – Sex, Dissidence and Damnation: Sexual minorities in Middle Ages. Abraços

  1. Anônimo

    Muito obrigada pela disponibilidade do material. Gostei muito. Abraços.

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