Fantasmas, Bruxos e Demônios: Conheça o mundo Gótico na Era da Razão

2017 marca os 300 anos de nascimento do escritor inglês Horace Walpole (1717-1797), o fundador da Literatura Gótica com o romance O Castelo de Otranto (1764).

O surgimento do Gótico no fim do século 18, por meio de Walpole, é normalmente entendido como uma reação, uma subversão da imaginação contra a tirania da razão, que dominava a Literatura no período.

Singleton, Henry; The Royal Academicians in General Assembly; Royal Academy of Arts;
A sede pelo saber foi exemplificado nas Academias de Ciência na Europa

Nesta leitura, convencionou-se dizer que as histórias góticas traziam de volta, para a vida do leitor, eventos sobrenaturais em uma sociedade já pautada pelo discurso da ciência. 

Por esta razão, a ideia do passado que vem assombrar o presente é central na Literatura Gótica e vem se manifestando em diferentes formas ao longo dos séculos. 

Mas as coisas não são bem assim.

Onde há luz, há sombra

Um olhar mais detalhado na Inglaterra do século 18, onde e quando nasceu o Gótico, mostra que o sobrenatural era parte integrante da realidade das pessoas da época, em todas as esferas, e não algo distante de seu dia a dia.

Para exemplificar o que estou dizendo, vejamos três manifestações do sobrenatural presentes no próprio O Castelo de Otranto e que constituíam uma realidade nas últimas décadas do século 18.

Fantasmas

Assim como ocorre até os dias de hoje, os fantasmas são uma das manifestações do sobrenatural mais resistentes a explicações científicas, pois se originam em pessoas que já existiram e na própria angústia do homem sobre o além-vida.

Refletindo esta questão, o escritor e jornalista inglês Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoé (1719), apresentou uma interessante narrativa sobre fantasma que mantém a ambiguidade entre ficção e realidade.

O título do panfleto, “Um verdadeiro relato da aparição de uma senhora Veal no dia seguinte a sua morte a uma senhora Bargrave na Cantuária em 8 de setembro de 1705”, dá a ideia da preocupação do escritor na construção da atmosfera de realidade desta história apresentada ao público leitor não como uma obra de ficção, mas sim como parte do que ele chamava de “relatos verdadeiros de fantasmas”.

No caso de “A aparição da senhora Veal”, Defoe alicerçou seu relato no folclore do fantasma que aparece para terminar uma tarefa inacabada no momento de sua morte.

O Fantasma de Cock Lane

Mas, sem duvidas, o mais famoso caso de assombramento do século 18 na Inglaterra é o Fantasma de Cock Lane.

Em 1762, na pequena estrada em Cock Lane, próximo a Catedral de São Paulo em Londres diversas pessoas reportaram ouvir batidas e ver um vulto no quarto de uma Elizabeth Parsons.

Usando um sistema de comunicação por batida semelhante ao que o Espiritismo em seus primeiros momentos viria a adotar em meados do século 19, foi descoberto que o distúrbio era provocado pelo fantasma de Fanny Lynes, amante de William Kent. 

Segundo os relatos, o fantasma teria revelado que, quando viva, ela foi envenenado por Kent.

O caso causou sensação em Londres e atraiu a atenção de pessoas renomadas da época, como o escritor e pensador Samuel Johnson e o próprio Horace Walpole, que dois anos depois escreveria O Castelo de Otranto.

Bruxaria

Talvez a mais representativa lei a mostrar a obsessão do século 18 em acabar com as crenças herdadas da Idade Média tenha sido o Ato de Bruxaria, de 1735.

Se antes da Lei as pessoas eram enforcadas por comungar com espíritos malignos, após a Lei essa prática foi equiparada ao charlatanismo. 

Assim, se alguém fingisse ter o poder de prever o futuro, ou preparar poções milagrosas seria presa ou sujeita a multas. Da mesma forma, o simples ato de acusar alguém de praticar bruxaria levaria o acusador a ficar preso por uma ano. 

A despeito da Lei, a crença na bruxaria continuou forte não apenas no meio popular, mas também entre segmentos do Parlamento.

Prova disso foi a recusa de Lord James Erskine em aprovar a Lei da Bruxaria com o argumento de que a Bruxaria existia e que exercia profunda influencia sobre a vida política e cultural da Escócia.

De fato, até o fim do século 19, em algumas comunidades da Inglaterra pessoas eram perseguidas e mortas por serem consideradas praticantes da bruxaria.

Saem as bruxas entram os bruxos

Em O Castelo de Otranto Teodoro é acusado inicialmente de ser um feiticeiro, responsável pelas ocorrências sobrenaturais no castelo.

Esse fato reflete uma mudança na percepção dos praticantes da bruxaria, pois, se na Idade Média as mulheres eram as acólitas do Diabo, no Iluminismo o papel de praticantes de bruxaria coube ao masculino.

O Diabo

No romance de Walpole, Manfredo indaga se os eventos sobrenaturais por ele vivenciados não seriam trabalhos do Diabo. 

A mudança das bruxas pelos bruxos no imaginário do século 18 se vincula a mudança do status do diabo na época.

A medida em que o racionalismo avançou, a crença no diabo foi se esvaziando no meio popular e religioso para prosperar em outro território: o das seitas e crenças secretas.

Formadas geralmente por jovens eruditos interessados em Alquimia, Astrologia e assuntos ligados ao misticismo enxergados pela Igreja e o Estados como marginais, estes intelectuais acabaram enxergando no Diabo um símbolo de contestação ao discurso dominante, algo que se desenvolveria posteriormente no Romantismo.

Esta aproximação entre o Diabo e os eruditos-bruxos está bem representado na Literatura em O Diabo Enamorado (1772), de Jacques Cazotte, obra inauguradora do gênero Fantástico.

Neste romance, após uma cerimônia de invocação, o diabo surge diante do jovem Alvaro e tenta seduzi-lo assumindo a forma da bela Biondetta.

Ao fim da obra, Alvaro consegue afastar o Diabo e duvida se os fatos vividos por ele realmente aconteceram.

Revisando o Gótico

Conforme visto, diferente da visão consagrada de que o Gótico faz um resgate do sobrenatural em uma sociedade pautada pelo racionalismo, o que O Castelo de Otranto faz é reconhecer a existência de uma realidade em que o sobrenatural e a razão vivem em um tenso equilíbrio.

Neste sentido, o romance de Horace Walpole com sua ambientação medieval pode ser lido como um representação simbólica da Inglaterra no século 18.

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Fontes utilizadas 

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997.

COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro: Rosa dos ventos, 1996.

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

MACK, Carol K., MACK Dinah. A Field Guide to Demons, Fairies, Fallen Angels, and Other Subversive Spirits. New York: Henry Bolt and Company, 1999.

MUCHEMBLED, Robert. Uma história do Diabo: séculos XII-XX. Trad. Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bom Texto, 2001. 

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. Bauru, SP: EDUSC, 2000.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

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