1732: O ano em que os vampiros dominaram a Europa

Presença constante em quase todas as culturas ao longo da História, os vampiros vem assombrando a humanidade desde a Antiguidade em mitos e lendas.

Lilith, a primeira mulher de Adão, e Lâmia, cujo filhos foram mortos por Hera, são os primeiros seres vampíricos mitológicos da humanidade.

No entanto, foi no folclore de países como a Grécia, Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Polônia, Hungria, Bulgária e Romênia que surgiu a imagem clássica do vampiro como um cadáver que sai do túmulo para tirar a vida das pessoas, como conhecemos hoje.

primeiro registro escrito do termo que daria origem a palavra “vampiro” surgiu em 1047 no eslavo antigo “Upir”. Ela apareceu na obra russa LIVRO DA PROFECIA, de Vladimir Jaroslov. Nela um padre era chamado de “Upir Lichy” (“vampiro hediondo”) dado o seu comportamento imoral.

Um ser de muitos nomes

Refletindo as diversas influencias culturais, étnicas, religiosas e linguísticas do leste europeu o vampiro folclórico se apresenta por nomes variados, tais como, Uppyr (russo moderno), Upír (bielo-russo, tcheco, eslovaco), Upirbi (ucraniano), Vampir (búlgaro), Upirina (servo-croata) e Uppier (polonês).

A força deste personagem no imaginário da região como a personificação da constante presença da morte entre os vivos, se alinha com a tradição desta conturbada parte da Europa marcada historicamente, até hoje, pela violência, pobreza, epidemias e conflitos étnicos e religiosos.

O esqueleto desta mulher polonesa de 45 e 49 anos, vítima de cólera, tinha pedras sobre ela, para que não se levantasse do túmulo e levasse seus parentes para o túmulo com ela.

Foi em um contexto de ressurgimento da Cólera e da Peste Bubônica no leste europeu do século 17 e 18, por exemplo, que ocorreu os casos de histeria coletiva atribuída a ataque de vampiros na Istra (1672), na Prússia oriental (1710 e 1725) e na Hungria (1725 a 1730).

Esta mulher polonesa entre 30 e 39 anos, vítima da cólera, tinha uma foice em seu pescoço para que cortasse sua cabeça fora ao tentar sair do túmulo.

Apesar do enorme número de relatos sobre ataques de vampiros do leste europeu, as barreiras políticas da região, dominadas na época pelo Império Otomano, impediam que estas informações chegassem de forma consistente nos centros da Europa Ocidental, como Alemanha, França, Inglaterra e Itália.  

Os mortos viajam rápido

O vampiro da Europa Oriental começou a atrair a atenção do Ocidente com o Tratado de Passarowitz de 1718.

Neste acordo político, metade da Sérvia e partes da Bósnia e da Wallachia (hoje parte da Romênia) deixaram de ser dominadas pelo Império Otomano e passaram para o controle do Império Austríaco-Húngaro.

Este novo cenário político abriu as portas de uma região que era próxima geograficamente da Europa ocidental, mas muito distante do ponto de vista cultural.

Jonathan Harker deixa suas impressões sobre a região dos Montes Cárpatos enquanto se dirige ao castelo do Conde Drácula.

Esta percepção continuou até o fim do século 19, como está bem marcado no relato de Jonathan Harker presente no início de Drácula (1897):

“Descobri que o distrito por ele [Drácula] nomeado encontrava-se no extremo leste do país, nas fronteiras entre três estados, a Transilvânia, a Moldavia, e a Bucovina, bem no meio das montanhas carpacianas, uma das mais primitivas e menos conhecidas partes da Europa”. 

Em pouco tempo Alemanha, França e o Reino Unido tomaram conhecimento de relatos repetidos sobre vampiros que aconteciam nas regiões sob o governo do Império Austríaco-Húngaro. 

Era a hora do vampiro lançar sombras sobre o Século das Luzes.

Os vampiros invadem a Europa

Em pleno Iluminismo, quando a Ciência moderna estava surgindo e o Racionalismo estava na ordem do dia, a Europa se viu tomada pelo chamado “levante vampírico” do leste europeu, disseminado e popularizado pela recém-criada imprensa.

Voltaire

Os relatos sobre ataques de vampiros chamaram a atenção de diferentes pensadores da época, como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau.

Para eles, estas histórias eram crenças supersticiosas incompatíveis com uma época de descobertas e inovações científicas e deveriam ser esquecidas.

Jean-Jacques Rosseau

Mas, como você sabe, é difícil matar um vampiro.

Devido à proximidade geográfica e cultural com o leste europeu, a Alemanha foi o primeiro país a tratar do tema dos vampiros em duas obras investigativas, ainda no plano religioso:

De Masticatione Mortuorum in Tumulus Liber (1728), de Michaël Ranft: Discute a impossibilidade dos vampiros de assumirem forma física tangível para atacarem os humanos;

Dissertatio Physica de Cadaveribus Sanguisugis (1732), de Johannes Christianus Stock: A obra aponta o Diabo como origem dos sonhos com os mortos-vivos.

O vampiro vira best-seller 

O crescente relato de casos sobre vampiros em terras sob seu controle levou os administradores austríacos a se envolverem diretamente com o caso.

Em 1731 uma comissão científica investigativa foi enviada a Sérvia com o propósito de expor a falsidade dos relatos sobre os sugadores de sangue.

Todavia, o resultado desta iniciativa, liderada pelo cirurgião de Regimento de Campo da Infantaria Austríaca Johannes Fluchinger, teve efeito contrário e chocou a Europa.

Nos relatos ouvidos por Fluchinger na região da Medvegia, Sérvia, dezessete pessoas teriam morrido no ano de 1731 em um curto espaço de tempo em decorrência de ataques de cinco anos atrás de um vampiro chamado Arnold Paole.

Paole havia sido um soldado atacado por um vampiro na Sérvia-Turca. Após a sua morte, relatos surgiram dizendo que o ex-militar havia retornado como um morto-vivo para molestar as pessoas da sua vila.

O corpo de Paole foi desenterrado quarenta dias após a sua morte e, diante das evidências físicas de vampirismo (conservação do corpo, crescimento de unhas e cabelos, e presença de sangue no canto da boca), os homens do local esfaquearam o cadáver, decapitaram a cabeça e queimaram o corpo.

As dezessete mortes ocorridas mesmo depois da destruição do vampiro foram atribuídas ao consumo de carne de gado vampirizado por Arnold Paole.

Uma vez feita a exumação dos cadáveres, Fluchinger examinou os corpos e constatou características semelhantes às registradas no corpo de Arnold Paole, ordenando na sequencia a destruição de todos os corpos.

O relatório detalhado das investigações, no qual Fluchinger registrou sua incapacidade de atribuir os casos de vampirismo como mera superstição popularfoi apresentado ao imperador austríaco em 1732 e recebeu o nome de Visum et Repertum.

1732: Os vampiros dominam a Europa

Assinada e referendada por um oficial médico austríaco, Visum et Repertum logo se espalhou pelo continente europeu transformando-se tanto em sucesso de vendas quanto alvo de ataques de pesquisadores e teólogos da época.

Por conta desta obra, 17 artigos sobre diferentes aspectos do vampirismo foram publicados nos jornais de 1732 e 22 tratados sobre o tema surgiram nos três anos seguintes a publicação do relatório de Fluchinger.

Dentre estas obras, destaque para: 

Lettres Juives (1736), do francês Jean-Baptiste de Boyer, conhecido como o Marquês d’ Argens;

Dissertazione sopra i Vampiri (1744), do italiano Monsenhor Giuseppe Davanzati;

Dissertations sur les Apparitions des Anges, des Démons e des Esprits, et sur les revenants, et Vampires de Hungrie, de Bohême, de Moravie, et de Silésie (1746), de Dom Augustin Calmet, acadêmico católico francês e o mais famoso vampirologista do início do século 18.

Como era de se esperar o intenso debate sobre os vampiros chamou a atenção de artistas e do público, levando o vampiro para uma nova região que ele logo dominaria: a Literatura.

O vampiro entra na Literatura

Seguindo o pioneirismo, já comentado, da investigação ocidental do fenômeno da criatura sugadora de sangue, a Alemanha introduziu o tema do vampiro na Literatura em 1748, dois anos depois da obra de Dom Augustin Calmet.

Abordando o personagem de forma metafórica, o curto poema “O Vampiro” (“Der Vampir”), de Heinrich August Ossenfelder inaugurou a literatura vampírica.

Na história, um rapaz deseja vingança contra a amada pelo fato dela ter seguido o conselho da mãe para abandoná-lo, devido às suas origens estarem ligadas a uma região repleta de vampiros.

A partir dai, o vampiro nunca mais cessaria de assombrar e influenciar a Literatura.

O DIABO APAIXONADO (1772), do francês Jacques Cazotte é a obra que inaugura o Gênero Fantástico.

Qual seria o impacto do “levante vampírico” do século 18 sobre o nascimento do Gênero Fantástico? E do Gótico? Quais obras moldaram e subverteram o vampiro na Literatura?

Isso é assunto para outro post…

E se você quer ler em detalhes as informações que mencionei aqui recomendo a (longa) Introdução que escrevi para a coletânea Contos Clássicos de Vampiros e para a novela Carmilla: A Vampira de Karnstein, ambas publicadas pela Editora Hedra.

Gostou do texto?

Então deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos vivos e mortos-vivos e assine o Blog.  

Fica a dica

Se você é Doutorando(a), já completou o Doutorado e curte o Fantástico fica aqui também o convite para enviar um artigo para a Revista  Scripta Uniandrade

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 1 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua portuguesa

Submissão: até 31 de maio de 2017.

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 2 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua inglesa

Submissão: até 31 de julho de 2017.

 Para maiores informações, clique aqui.

Fontes utilizadas

BARBER, Paul. Vampires, Burial and Death. New York: Yale University Press, 1988.

FERREIRA, Cid Vale (Org.) Voivode: estudo sobre os vampiros. São Paulo: Pandemonium, 2002.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

IDRICEANU, Flavia, Bartlett, Waine. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. Trad. Silvia Spada. São Paulo: Madras, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com