O lado pop de Lúcifer: Por que o Diabo fascina você?

 O Diabo é Pop

Lucifer from Milton's Paradise Lost by Gustave Dore
O (anti-)herói de John Milton

2017 marca os 350 anos do poema épico Paraíso Perdido (1667).

Paraíso Perdido é uma versão literária da historia encontrada no Gênesis, focando especificamente nos episódios da queda de Lúcifer, na criação do Jardim do Éden e na tentação sofrida por Eva que a levou, juntamente com seu marido Adão, a expulsão do Paraíso.

Temptation and Fall of Eve by William Blake
A tentação do fruto proibido

A obra foi o projeto maior do poeta e ensaísta inglês John Milton e que se alinhava com suas visões religiosas enquanto Puritano, ou seja, membro de um segmento radical do Protestantismo no século 17.

No entanto, o que chama a atenção em Paraíso Perdido é o fato que, quanto mais o leitor conhece o diabo de Milton, mais passa a admirá-lo.  

Isso acontece porque Lúcifer aparece sozinho no começo da obra e na tentativa de mostrá-lo como uma ser patético e arrogante que perdeu a luta contra Deus e foi atirado no inferno junto com outros de seu exército, John Milton acabou estabelecendo o Diabo como um dos primeiros anti-heróis da Literatura.

Simon Bisley's Paradise Lost (Satan’s Fall)
A queda de Satã

E é o diabo de John Milton que está por trás de dois personagens da cultura pop dos anos 90 e de hoje: O Lúcifer, da série em quadrinhos Sandman, e sua releitura na série televisiva do canal FOX de título Lúcifer

“Melhor reinar no Inferno que servir no Céu”

A frase acima mostra bem o caráter heroico impresso por John Milton em sua representação de Lúcifer.  

Corrado Giaquinto (Italian 1703–1756) [Baroque, Rococco] Saint Michael Defeats Satan, 1750. Pinacoteca Vaticana, Vatican City, Rome. – The Athenaeum
A derrota de Satã pelo anjo Miguel

Após sua fracassada tentativa de depor Deus como soberano do Céu por enxergar nele um tirano que não aceita contestações e não reconhece o grau de grandeza dos anjos, Lúcifer e seu exército é lançado ao Tártaro. 

Apesar da derrota, Lúcifer não perde sua arrogância e posição de liderança diante dos outros demônios.

“A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar. / A mente é o seu próprio lugar, e dentro de si / Pode fazer um inferno do céu, do céu um inferno.”

Ciente de sua posição como regente do Inferno, Lúcifer planeja seu plano de corromper a maior criação do Criador: O Homem. E é bem sucedido.

A queda de Adão e Eva e a expulsão do Paraíso

Os discípulos de Satã 

Durante o Romantismo, o Lúcifer de John Milton capturou a imaginação de poetas e escritores do século 19 não apenas na Europa, mas também no Brasil com o Ultraromantismo.

O personagem ajudou na criação do “herói romântico” que, como tal, mesmo em condições adversas ou prevenindo contra suas ações enfrenta crenças estabelecidas, ou o sistema dominante, em busca de mudança e paga o preço por suas ações. 

Apenas para citar um exemplo, este é o caso de Victor Frankenstein, cuja obsessão em desafiar o domínio da Natureza (e da condição feminina) em prover a vida faz uso de sua Ciência (masculina) pra criar uma criatura abominável que o faz pagar o preço pelas suas ações. 

Releitura nos Quadrinhos

O Lúcifer de John Milton foi reinterpretado no fim dos anos 80 na série quadrinista Sandman (1989-1993), escrita pelo escritor inglês Neil Gaiman.

Neil Gaiman fez a estréia de Lúcifer Estrela da Manhã na revista Sandman #4 de abril de 1989, solicitando que os artistas da revista utilizassem o cantor e ator David Bowie como referência para a aparência do regente do inferno.

Em outro arco da série (Estação das Brumas), após governar o Inferno por 10 bilhões de anos, manipular os demônios para manter seu controle e manter sua guerra contra o firmamento, Lúcifer se sente entediado de sua tarefa.  

Dentre as razões para seu tédio, estão os estereótipos que os humanos fazem sobre sua figura, atribuindo os problemas de suas vidas a ele.

Assim, Lúcifer decide passar o comando do Inferno para Morpheus, o Sandman.

Livre de seu domínio, Lúcifer passa a viver a vida terrena, primeiro na Austrália e depois, muito apropriadamente, na cidade dos Anjos, Los Angeles.

Lá, ele passa a dirigir um piano bar em companhia de outros seres sobrenaturais.  

Lúcifer ganhou uma série própria de 2000 a 2006 em 75 edições escritas por Mike Carey.

Alinhado com sua base literária na epopeia Paraíso Perdido, Lúcifer é um anti-herói arrogante e muitas vezes inconsequente em suas ações, sempre se envolvendo em conflitos.    

Releitura na Televisão

Exemplificando como uma expressão artística alimenta a outra, o personagem Lúcifer, Estrela da Manhã da série Sandman, baseado no Lúcifer miltoniano, foi reinterpretado para a série televisiva Lúcifer

O capeta é interpretado pelo ator Tom Ellis

Produzido pelo canal FOX dos Estados Unidos e tomando como base a série em quadrinhos de Mike Carey, os episódio de Lúcifer mostram as aventuras do ex-Senhor dos Infernos em Los Angeles e seu envolvimento com a Detetive da Polícia Chloe Decker.

Fascinado e intrigado pelo fato da detetive resistir aos seu charme, Lúcifer passa a se envolver nos casos da Polícia ao mesmo tempo em que é advertido por seu irmão Amenadiel a reassumir seu lugar no inferno.

A série, até o momento da escrita deste post, conta com três temporadas anunciadas.

Respondendo a pergunta do título deste post – Por que o diabo fascina? – é fácil entender o fascínio deste personagem desde 1667 até os dias de hoje na Literatura, Quadrinhos e Série de TV. 

Rebelde, charmoso, confiante, elegante, bonito, cativante e inteligente, o diabo criado por John Milton reúne todas as qualidades esperados de um personagem que desperta admiração por parte do público.

E isso não é de hoje…

Lúcifer antes de Lúcifer

Se mesmo o protestante radical John Milton não conseguiu diminuir o encanto de seu personagem Lúcifer isso se deve a toda a tradição histórica relacionada ao Lúcifer que o Cristianismo herdou do Judaísmo.

Da primeira deportação dos judeus em 609 a. C até o fim em 538 a. C., o contato dos judeus com as divindades estrangeiras durou 70 anos.

O curioso neste caso é que Lúcifer e alguns dos seres relacionados a ele, por vezes tomados como variações do mesmo ser, como Asmodeus, AstarothBelzebu não nasceram no meio do povo judeu.

Esses seres tem sua origem relacionada as divindades dos opressores dos judeus, principalmente durante o período conhecido como o Cativeiro da Babilônia no século 6 a.C., quando os hebreus foram cativos na Babilônia.

Asmodeus

Associado a Luxuria, Asmodeus possui três cabeças, uma de homem, uma de Touro e outra de Carneiro, símbolos de virilidade e fertilidade. 

Asmodeus (Aeshma deva) nasceu a partir da divindade persa da tempestade.

Astaroth 

Representado como um homem nu de asas e com mãos e pés de dragão e um segundo par de asas com plumas abaixo do principal, levando uma coroa, segurando uma serpente com uma mão e cavalgando sobre um lobo ou um cachorro.

Astaroth (Ashtoreth) nasceu a partir da deusa lunar cultuada na Mesopotâmia com o nome de Ishtar.

Belzebu

Belzebu, dentro da tradição cristã, é o Príncipe dos demônios. 

Belzebu (Baal-Ze-boub), ser de etimologia complexa, nasceu a partir do deus filisteu Baal e siginifica “O Senhor das Moscas”. Antes relacionado as pestilências, na tradição dos Sete Pecados Capitais do século 6 passou a ser relacionado a Gula.

E o Estrela da Manhã? 

Assim como seus companheiros regentes do Inferno, Lúcifer também se origina entre os inimigos do povo judeu.

Neste caso específico, como bem coloca Carlos Roberto Nogueira em O Diabo no imaginário cristão (2000),  a origem do nome Lúcifer – o astro da manhã, o filho da aurora, a “estrela” Vênus – está associado a queda do rei da Caldéia.

Esta relação aparece pela primeira vez em Isaías (14:12), onde o profeta debocha  do rei após a sua queda para designar um regente caído, líder de exércitos:

“Como é que você caiu do céu, heylel, filho da aurora?”

Foi com a ambiciosa tradução da Bíblia para o inglês moderno realizada na Inglaterra do século 17, que ficou conhecida como a Bíblia do Rei James, que a palavra hebraica “heylel” foi traduzida como “Lúcifer”.

Assim, tendo sua origem ligada tanto a um personagem nobre quanto também a divindades e seres relacionados a realeza infernal, surgiu o elegante e cativante Lúcifer que dominou a imaginação de John Milton em 1667.  

E o resto é história…

Se você gostou do post, compartilhe com seus amigos infernais e assine o blog.

Fontes utilizadas

BENDER, Hy. The Sandman Companion. London: Titan Books, 2000.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: EdUSP, 1988.

COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro: Rosa dos ventos, 1996.

MACK, Carol K., MACK Dinah. A Field Guide to Demons, Fairies, Fallen Angels, and Other Subversive Spirits. New York: Henry Bolt and Company, 1999.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. Bauru, SP: EDUSC, 2000.

SILVA, Alexander Meireles da. Literatura Inglesa para Brasileiros: Curso completo de Literatura e Cultura Inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.  

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

2 ideias sobre “O lado pop de Lúcifer: Por que o Diabo fascina você?”

  1. Olá, Prof. Alex. Parabéns pelo post. Comentários e curiosidade muito interessantes. Apesar a importância de suas representações, sem dúvida aquela que é mais marcante é a Lúcifer/ Satã em “Paraíso Perdido” que deu origem a outros líderes infernais que encontramos na literatura e no cinema. Além disso, neste personagem encontramos todas características do vilão gótico tanto positivas tais como o grande poder de sedução como negativas a vilania e, principalmente a inveja. Também não podemos esquecer que por meio dele temos o surgimento do tema do pacto faústico que aparece pela primeira vez em Fausto, e depois é revisto em outros textos literários e no cinema.
    Dentre as suas representações mais atuais, eu gosto muito daquela que aparece na série “Sandman” – em que líder infernal aparece com as feições de David Bowie. Acho que sempre haverá uma nova imagem para esse personagem que amamos odiar. Abraço.

    1. Muito obrigado pelo comentário, Alessandro. Lúcifer, e outras encarnações do Diabo, sempre será o arquétipo maior de vilão na Literatura Ocidental e até hoje é matéria prima para várias releituras, como a menção a ele por Lex Luthor em Batman vs Superman.

Os comentários estão fechados.