Com qual tipo de herói você se identifica mais?

Entramos em outubro e muitos fãs estão de olho no Cinema para curtirem no fim de 2017 a filmes em que o herói desempenha papel chave, caso de Thor: Ragnarok, Liga da Justiça e Star Wars: O último Jedi

Mas será que só existe um tipo de herói?

O herói na Mitologia

Na Mitologia Grega, o herói ocupa o lugar entre o homem comum e os deuses.

Hércules contra o Leão de Neméia

Esse fato revela a posição dupla desse personagem já que ao mesmo tempo em que se vincula a natureza humana ele também a supera, na medida que o herói reflete ações e virtudes que a pessoa comum não consegue, mas gostaria de atingir.

Neste sentido, falar do herói é falar do Mito.

O Mito corresponde às crenças de um povo, da coletividade e indica a busca de uma verdade eterna que foi perdida. Por isso, ele se coloca como um consolo contra a História. 

Beowulf. Heroi épico da cultura anglo-saxônica

Mas dentro deste campo, quais são os estágios e tipos de herói que refletem a complexidade do ser humano?

Estágio 1

O herói rudimentar, arruaceiro, instintivo, infantil, cínico, cruel e trapaceiro.

Dionísio. O Baco dos romanos.

Exemplo: Dionísio, deus do vinho e da gandaia.

Estágio 2

O herói fundador da cultura nativa, o transmissor do saber. Sempre se rebela contra a ordem vigente e paga um preço por isso.

Prometeus foi condenado a ter seu fígado devorado eternamente por uma ave.

Exemplo: Prometeus, titã grego doador do fogo ao homem.

Estágio 3

O herói valente, guerreiro, fazedor de façanhas, que pode aparecer como um homem-deus. Pode ser também um criador de uma religião.

Exemplo: Herácles, filho do deus Zeus e da mortal Alcmena e Buda no Oriente.

Estágio 4

Os gêmeos: semelhante ao herói do estágio anterior, mas em dupla. Um é extrovertido e arrogante, e o outro, tímido e humilde.

Exemplo: Castor e Pólux, filhos dos mortais Leda e Tíndaro e do deus Zeus.

O herói na Literatura 

Os mitos gregos foram os que mais sobreviveram, não se transformando em religião e nem desaparecendo da memória histórica.

Eles exerceram grande influência no nascimento da Literatura Ocidental através da Tragédia e da Epopeia;

Sobre o Herói Trágico:

  • A tragédia tem no herói um bode expiatório;
  • Ele é a verdade do destino humano;
  • O herói trágico é “um carvalho em que caem os decisivos raios do destino” (KOTHE, 2000, p. 14).
  • Exemplo: Édipo
Édipo confronta a Esfinge

Sobre o Herói Épico:

  • A epopeia tem no herói um símbolo do seu povo;
  • Ele é o sonho de o homem fazer a sua própria história;
  • O herói épico é “o grande pinheiro indicador dos caminhos da história” (KOTHE, 2000, p. 14).
  • Exemplo: Aquiles
Aquiles na Guerra de Troia

E os Heróis baixos?

Derivado da palavra inglesa “tricks” (trapaças, peças), o Trickster (Trapaceiro) é um personagem presente em quase todas as culturas.

Macunaíma

Ele costuma ser representado em duas formas:

  • desafiador dos deuses.
  • O brincalhão desrespeitador das leis dos homens.

Nos dois casos, ainda que suas ações possam resultar em benefício para o coletivo ele se orienta por impulsos egoístas e anti-sociais e é geralmente representado como um animal.

Entre os índios norte-americanos ele surge como um animal carniceiro (corvo ou coiote).

O desafiador dos deuses

Os povos do norte da Europa tinham no deus Loki um Trickster sombrio e destrutivo.

Loki, o grande Trickster da cultura nórdica

Já os povos indígenas amazônicos tem em Macunaima uma entidade astuciosa e de espírito inventivo.

O brincalhão desrespeitador

O Trickster também pode ser um personagem atrapalhado, azarado, glutão e lascivo.

No entanto, ainda que suas histórias sejam divertidas, elas também trazem um ensinamento a ser passado.

No Brasil a criatura folclórica saci e o orixá Exu são Tricksters irreverentes presentes na cultura brasileira.

O Trickster enquanto ser ardiloso e astuto surge na Literatura Ocidental ao lado dos heróis clássicos da Ilíada e da Odisséia na forma de Ulisses.

A rapsódia Macunaíma (1928), de Mario de Andrade se constitui no maior exemplo da presença do Trickster em nossa literatura.

No entanto, é na cultura popular contemporânea que ele aparece de forma direta através de personagens como Pernalonga, Pica-Pau e Wile E. Coyote.

O herói pícaro

Oriunda da Espanha a origem da palavra “Pícaro” tem origem enigmática.

Ela pode ser uma derivação do vocábulo “picar”, por analogia com os ofícios exercidos pelos pícaros: ajudantes de cozinha, picadores de touro, moços de estrebaria, etc.

Outros cognatos associam-no ao sentido de ralé, de posição baixa na sociedade.

Lazarillo de Tormes

No contexto literário, como adjetivo, tem o sentido de astuto, patife, falho de honra e de vergonha, de vida vagabunda.

O gênero picaresco estréia com o romance Lazarillo de Tormes (1553-4), de autoria anônima.

O herói pícaro é apresentado como um pobre, vagabundo, folgado, beberrão, enganador, que recorre a expedientes rocambolescos para conseguir matar a fome e é desrespeitador dos bons costumes e dos bens alheios.

As aventuras de Huckleberry Finn

O herói pícaro é o produto da pobreza e da corrupção moral da sociedade espanhola dos séculos XVI e XVII, com sua galeria de mendigos, prostitutas, ladrões e outros renegados sociais.

Apesar de suas trapaças e de suas companhias, o pícaro não é retratado como uma pessoa má, apenas amoral, com traços de humor e autopiedade.

Apesar de algumas críticas colocá-lo como restrito a Espanha, o gênero picaresco pode ser observado em Portugal, no teatro de Gil Vicente.

Outros retratos pícaros estão presentes em obras como Pinóquio (1881), do Italiano Carlo Collodi, e As aventuras de Huckleberry Finn (1885), do Norte-Americano Mark Twain.

E no Brasil?

No Brasil, é na Literatura de cordel, oriunda da Espanha e de Portugal, que encontramos dois dos mais populares heróis pícaros: Pedro Malasartes e João Grilo.

Mazzaropi interpretou Pedro Malasartes no Cinema

Pedro Malasartes tem sua origem na Península Ibérica, sendo sua primeira citação encontrada em Portugal em 1132 como “Payo de maas Artes”.

Na Espanha era figura popular na literatura do século XVI, como Pedro Urdemalas.

João Grilo, por sua vez, surgiu na primeira vez na revista Era Nova no conto “João Ratão (ou Grilo)”, de 1881. Já em 1883 ele aparece na obra Contos tradicionais do povo Português.

Segundo o pesquisador Francisco Topa o popular nome “João” dá a ideia de seu extrato social.

Já o apelido “Grilo” o liga a tradição fabulesca, onde o inseto está conectado com a felicidade.

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Fontes utilizadas

ABRAHAMS, Roger D. Trickster, the Outrageous Hero. In: COFFIN, Tristam. (ed.). American Folklore. New York: Voice of American Forum Series, 1980, p. 193-201.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 6ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988.

______. Contos tradicionais do Brasil. 13ed. São Paulo: Global editora, 2004.

FEIJÓ, Martin Cezar. O que é herói. São Paulo: Editora Brasiliense, 1995. (Coleção primeiros passos 139).

KOTHE, Flávio R. O herói. 2ed. São Paulo: Editora Ática, 2000. (Série principios 24).

LEEMING, David, LEEMING, Margaret. Trickster. In: —. A Dictionary of Creation Myths. New York: Oxford University Press, 1994, p. 272.

ROBERTS, John W. The African American Animal Trickster as hero. In: RUOFF, A. La Vonne Brown, WARD JR, Jerry W. Redefining American Literary History. New York: Voice of America Forum Series, 1990, p. 97-114.

ROCHA, Everardo. O que é Mito. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996. (Coleção Primeiros Passos 151).

TOPA, Francisco. A história de João Grilo: do conto popular português ao cordel brasileiro. Revista da Faculdade de Letras Línguas e Literaturas XII. Porto: Editora da Universidade do Porto, 1995, p. 245-274.

Seguir Alexander Meireles da Silva:

Professor Associado da UFG-Regional Catalão

Nerd, Doutor em Literatura Comparada, Mestre em Literaturas de Língua Inglesa e Especialista em Educação a Distância. Professor Associado de Língua Inglesa e Literaturas na Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão e Pesquisador do Fantástico (Fantasia, Gótico e Ficção Científica) na Literatura e no Cinema.

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