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Assassinas de bebês e matadoras de homens: conheça o povo da Mulher-Maravilha

O (excelente) filme da Mulher-Maravilha trouxe para o grande público a história de uma guerreira de Temiscira, local habitado apenas por mulheres que leva toda a força física e moral das Amazonas para o mundo dos homens.   

Mas, qual é a história por trás das Amazonas? 

O fato é que, aos olhos de hoje, a história dessas guerreiras chocaria o  grande público.

O nome estampado no peito

Como tudo relacionado a mitologia, há controvérsias quanto a origem do nome “Amazonas”.

Para algumas fontes, “Amazona” se refere a um povo iraniano – Há-mazan – cuja tradução é “Guerreiros”, mas para outros estudiodos a etimologia vem do prefixo alfa e a palavra mazos (“seio”), visto que, segundo alguns relatos, desde a infância elas tinha o seio  direito comprimido ou queimado para facilitar o manuseio do arco. 

Uma outra versão atribui ao “A” de “Amazonas” um valor aumentativo. Assim A + Mazos, que daria origem ao nome desse povo, seria traduzido como “As mulheres de seios grandes”. 

Por fim, alguns estudiosos localizam a origem da palavra no termo grego Amazoi, que quer dizer “sem seios”, mais uma vez fazendo menção a prática de auto-mutilação do seio direito.

História ou Lenda? 

Segundo Heródoto, o “Pai da História”, relata em 440 a.C., as Amazonas seriam as antepassadas dos Sármatas (ou Sauromatas como os romanos chamavam), povo nômade que vivia na região do Mar Cáspio entre os séculos 8 a.C. e 4 a.C..

Mulheres de respeito

Os Sármatas seriam descendentes diretos da união entre as Amazonas e o povo Cita. Nessa união os homens citas seriam usados como reprodutores para a geração de novas amazonas.

De fato, a Arqueologia já demonstrou que na sociedade sármata a mulher tinha um papel de destaque, o que indicaria a conservação dessa herança cultural.

Uma jovem sármata, por exemplo, só poderia se casar se trouxesse a cabeça de um inimigo. Outra evidência desse possível legado é o fato de que algumas sepulturas femininas sármatas ocupavam lugar de destaque no centro de cemitérios.

As matadoras de homens…

Ainda segundo Heródoto, as Amazonas eram descritas como androctonus, ou seja, “matadores de homens” e eram representadas como guerreiras que lutavam montadas em cavalos e portando espadas e machados.

A sua terra, Temiscira, ficava na região da Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia, próximo ao litoral, dai vem a ideia nas histórias em quadrinhos de que as amazonas viviam em uma ilha.

… e de bebês homens também?

Depois de Heródoto, é Hipocrátes nos anos de 400 a.C. o principal fornecedor de informações presumivelmente “históricas” sobre as Amazonas.

Como relata o “Pai da Medicina”, as Amazonas viam os homens apenas como reprodutores e os encontravam apenas uma vez por ano para uma curta estação de amores. Essa atividade também foi objeto do registro de Diodoro da Sicília no século 1 de nossa era. 

Se desse encontro saísse homens, o menino era entregue ao pai. Já as meninas eram levadas para se tornarem amazonas.

Como visto no filme da Mulher-Maravilha, essas jovens seriam instruídas no manejo do arco, do escudo, do dardo, e na arte de cavalgar em pêlo, ou sobre uma simples manta. 

Hipócrates relata que as Amazonas por vezes mantinham os bebês homens para tarefas específicas dentro de Temiscira, como o artesanato e outras atividades secundárias.

Como seu interesse era a Medicina, chamou a atenção de Hipócrates o fato de que, ainda bebês, esses meninos tinham os joelhos e a bacia deslocados para se tornarem mancos, de forma a, quando crescerem, não representarem uma ameaça as mulheres. 

O fato é que a versão de que as Amazonas matavam os bebês homens só foi surgir quase 600 anos depois do primeiro registro desse povo por Heródoto e foi feito pelo historiador galo-romano Pompeu Trogo na obra Histórias Filípicas, de cerca do século 3 de nossa era.

Mas, como mulheres guerreiras não soavam bem aos aos ouvidos cada vez mais patriarcais de Roma, essa visão das Amazonas assassinas de bebês homens ganhou força ao longo dos séculos posteriores. 

Guerreiras mitológicas contra Hércules

Na Mitologia Greco-romana destaco aqui os dois principais momentos das Amazonas, dentre tantos.

Na Ilíada, de Homero um dos 12 trabalhos impostos a Hércules era roubar o Cinturão usado pela soberana das Amazonas, a ousada Rainha Hipólita, dado a ela pelo seu pai, o Deus da Guerra Ares como mostra do poder de Hipólita sobre as guerreiras. 

Sim, se existisse na Mitologia grega a Mulher-Maravilha seria a neta de Ares. 

O herói grego e a rainha Amazona entram em um acordo e Hipólita decide entregar o Cinturão para Hércules. Esta decisão, no entanto, despertou a fúria de Hera, esposa de Zeus e inimiga jurada de Hércules. 

Hera assume a forma de uma Amazona e promove a discórdia entre os homens de Hércules e as guerreiras. Ao saber da confusão, Hércules pensa ter sido traído por Hipólita e mata a rainha das Amazonas. A soberania das mulheres guerreiras passa para a irmã da rainha assassinada, Penteseléia.

As Amazonas na Guerra de Tróia

Outro momento chave da participação das Amazonas na Mitologia Greco-romana está registrado na Eneida, de Virgílio e ocorre quando as guerreiras se aliaram ao Rei Príamo, de Troiá, contra a ofensiva grega a cidade. 

Lideradas pela Rainha Penteseléia, as Amazonas socorreram o Rei Príamo na cidade sitiada da Frígia e marcharam até a cidade de Tróia.

Como relata Virgílio, a investida Amazona só terminou quando a espada de Aquiles infligiu um ferimento mortal a Rainha das Amazonas. Ao retirar a armadura de sua adversária, o herói ficou emocionado com a beleza de Penteseléia e se apaixonou. 

Estas foram apenas duas das varias narrativas presentes na mitologia greco-romana sobre as guerreiras que inspiraram  William Moulton Marston a criar, em 1941, aquela se tornaria a maior super heroína até hoje. 

Se quiser saber mais sobre o processo de criação da Mulher-Maravilha, leia o post do blog Fantasticursos clicando aqui

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Sousa. Mitologia grega. Vol. 3. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 1987.

MAGASICH-AIROLA, Jorge, BEER, Jean-Marc de. América Mágica: quando a Europa da Renascença pensou estar conquistando o Paraíso. Trad. Regina Vasconcellos. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

SHERMAN, Josepha. (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of Mythology and Folklore. New York: M. E. Sharpe , Inc., 2008.

WILDE, Lyn Webster. On the Trail of the Women WarriorsThe Amazons in Myth and History. New York: Thomas Dunne, 2000.

O lado pop de Lúcifer: Por que o Diabo fascina você?

 O Diabo é Pop

Lucifer from Milton's Paradise Lost by Gustave Dore
O (anti-)herói de John Milton

2017 marca os 350 anos do poema épico Paraíso Perdido (1667).

Paraíso Perdido é uma versão literária da historia encontrada no Gênesis, focando especificamente nos episódios da queda de Lúcifer, na criação do Jardim do Éden e na tentação sofrida por Eva que a levou, juntamente com seu marido Adão, a expulsão do Paraíso.

Temptation and Fall of Eve by William Blake
A tentação do fruto proibido

A obra foi o projeto maior do poeta e ensaísta inglês John Milton e que se alinhava com suas visões religiosas enquanto Puritano, ou seja, membro de um segmento radical do Protestantismo no século 17.

No entanto, o que chama a atenção em Paraíso Perdido é o fato que, quanto mais o leitor conhece o diabo de Milton, mais passa a admirá-lo.  

Isso acontece porque Lúcifer aparece sozinho no começo da obra e na tentativa de mostrá-lo como uma ser patético e arrogante que perdeu a luta contra Deus e foi atirado no inferno junto com outros de seu exército, John Milton acabou estabelecendo o Diabo como um dos primeiros anti-heróis da Literatura.

Simon Bisley's Paradise Lost (Satan’s Fall)
A queda de Satã

E é o diabo de John Milton que está por trás de dois personagens da cultura pop dos anos 90 e de hoje: O Lúcifer, da série em quadrinhos Sandman, e sua releitura na série televisiva do canal FOX de título Lúcifer

“Melhor reinar no Inferno que servir no Céu”

A frase acima mostra bem o caráter heroico impresso por John Milton em sua representação de Lúcifer.  

Corrado Giaquinto (Italian 1703–1756) [Baroque, Rococco] Saint Michael Defeats Satan, 1750. Pinacoteca Vaticana, Vatican City, Rome. – The Athenaeum
A derrota de Satã pelo anjo Miguel

Após sua fracassada tentativa de depor Deus como soberano do Céu por enxergar nele um tirano que não aceita contestações e não reconhece o grau de grandeza dos anjos, Lúcifer e seu exército é lançado ao Tártaro. 

Apesar da derrota, Lúcifer não perde sua arrogância e posição de liderança diante dos outros demônios.

“A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar. / A mente é o seu próprio lugar, e dentro de si / Pode fazer um inferno do céu, do céu um inferno.”

Ciente de sua posição como regente do Inferno, Lúcifer planeja seu plano de corromper a maior criação do Criador: O Homem. E é bem sucedido.

A queda de Adão e Eva e a expulsão do Paraíso

Os discípulos de Satã 

Durante o Romantismo, o Lúcifer de John Milton capturou a imaginação de poetas e escritores do século 19 não apenas na Europa, mas também no Brasil com o Ultraromantismo.

O personagem ajudou na criação do “herói romântico” que, como tal, mesmo em condições adversas ou prevenindo contra suas ações enfrenta crenças estabelecidas, ou o sistema dominante, em busca de mudança e paga o preço por suas ações. 

Apenas para citar um exemplo, este é o caso de Victor Frankenstein, cuja obsessão em desafiar o domínio da Natureza (e da condição feminina) em prover a vida faz uso de sua Ciência (masculina) pra criar uma criatura abominável que o faz pagar o preço pelas suas ações. 

Releitura nos Quadrinhos

O Lúcifer de John Milton foi reinterpretado no fim dos anos 80 na série quadrinista Sandman (1989-1993), escrita pelo escritor inglês Neil Gaiman.

Neil Gaiman fez a estréia de Lúcifer Estrela da Manhã na revista Sandman #4 de abril de 1989, solicitando que os artistas da revista utilizassem o cantor e ator David Bowie como referência para a aparência do regente do inferno.

Em outro arco da série (Estação das Brumas), após governar o Inferno por 10 bilhões de anos, manipular os demônios para manter seu controle e manter sua guerra contra o firmamento, Lúcifer se sente entediado de sua tarefa.  

Dentre as razões para seu tédio, estão os estereótipos que os humanos fazem sobre sua figura, atribuindo os problemas de suas vidas a ele.

Assim, Lúcifer decide passar o comando do Inferno para Morpheus, o Sandman.

Livre de seu domínio, Lúcifer passa a viver a vida terrena, primeiro na Austrália e depois, muito apropriadamente, na cidade dos Anjos, Los Angeles.

Lá, ele passa a dirigir um piano bar em companhia de outros seres sobrenaturais.  

Lúcifer ganhou uma série própria de 2000 a 2006 em 75 edições escritas por Mike Carey.

Alinhado com sua base literária na epopeia Paraíso Perdido, Lúcifer é um anti-herói arrogante e muitas vezes inconsequente em suas ações, sempre se envolvendo em conflitos.    

Releitura na Televisão

Exemplificando como uma expressão artística alimenta a outra, o personagem Lúcifer, Estrela da Manhã da série Sandman, baseado no Lúcifer miltoniano, foi reinterpretado para a série televisiva Lúcifer

O capeta é interpretado pelo ator Tom Ellis

Produzido pelo canal FOX dos Estados Unidos e tomando como base a série em quadrinhos de Mike Carey, os episódio de Lúcifer mostram as aventuras do ex-Senhor dos Infernos em Los Angeles e seu envolvimento com a Detetive da Polícia Chloe Decker.

Fascinado e intrigado pelo fato da detetive resistir aos seu charme, Lúcifer passa a se envolver nos casos da Polícia ao mesmo tempo em que é advertido por seu irmão Amenadiel a reassumir seu lugar no inferno.

A série, até o momento da escrita deste post, conta com três temporadas anunciadas.

Respondendo a pergunta do título deste post – Por que o diabo fascina? – é fácil entender o fascínio deste personagem desde 1667 até os dias de hoje na Literatura, Quadrinhos e Série de TV. 

Rebelde, charmoso, confiante, elegante, bonito, cativante e inteligente, o diabo criado por John Milton reúne todas as qualidades esperados de um personagem que desperta admiração por parte do público.

E isso não é de hoje…

Lúcifer antes de Lúcifer

Se mesmo o protestante radical John Milton não conseguiu diminuir o encanto de seu personagem Lúcifer isso se deve a toda a tradição histórica relacionada ao Lúcifer que o Cristianismo herdou do Judaísmo.

Da primeira deportação dos judeus em 609 a. C até o fim em 538 a. C., o contato dos judeus com as divindades estrangeiras durou 70 anos.

O curioso neste caso é que Lúcifer e alguns dos seres relacionados a ele, por vezes tomados como variações do mesmo ser, como Asmodeus, AstarothBelzebu não nasceram no meio do povo judeu.

Esses seres tem sua origem relacionada as divindades dos opressores dos judeus, principalmente durante o período conhecido como o Cativeiro da Babilônia no século 6 a.C., quando os hebreus foram cativos na Babilônia.

Asmodeus

Associado a Luxuria, Asmodeus possui três cabeças, uma de homem, uma de Touro e outra de Carneiro, símbolos de virilidade e fertilidade. 

Asmodeus (Aeshma deva) nasceu a partir da divindade persa da tempestade.

Astaroth 

Representado como um homem nu de asas e com mãos e pés de dragão e um segundo par de asas com plumas abaixo do principal, levando uma coroa, segurando uma serpente com uma mão e cavalgando sobre um lobo ou um cachorro.

Astaroth (Ashtoreth) nasceu a partir da deusa lunar cultuada na Mesopotâmia com o nome de Ishtar.

Belzebu

Belzebu, dentro da tradição cristã, é o Príncipe dos demônios. 

Belzebu (Baal-Ze-boub), ser de etimologia complexa, nasceu a partir do deus filisteu Baal e siginifica “O Senhor das Moscas”. Antes relacionado as pestilências, na tradição dos Sete Pecados Capitais do século 6 passou a ser relacionado a Gula.

E o Estrela da Manhã? 

Assim como seus companheiros regentes do Inferno, Lúcifer também se origina entre os inimigos do povo judeu.

Neste caso específico, como bem coloca Carlos Roberto Nogueira em O Diabo no imaginário cristão (2000),  a origem do nome Lúcifer – o astro da manhã, o filho da aurora, a “estrela” Vênus – está associado a queda do rei da Caldéia.

Esta relação aparece pela primeira vez em Isaías (14:12), onde o profeta debocha  do rei após a sua queda para designar um regente caído, líder de exércitos:

“Como é que você caiu do céu, heylel, filho da aurora?”

Foi com a ambiciosa tradução da Bíblia para o inglês moderno realizada na Inglaterra do século 17, que ficou conhecida como a Bíblia do Rei James, que a palavra hebraica “heylel” foi traduzida como “Lúcifer”.

Assim, tendo sua origem ligada tanto a um personagem nobre quanto também a divindades e seres relacionados a realeza infernal, surgiu o elegante e cativante Lúcifer que dominou a imaginação de John Milton em 1667.  

E o resto é história…

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Fontes utilizadas

BENDER, Hy. The Sandman Companion. London: Titan Books, 2000.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: EdUSP, 1988.

COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro: Rosa dos ventos, 1996.

MACK, Carol K., MACK Dinah. A Field Guide to Demons, Fairies, Fallen Angels, and Other Subversive Spirits. New York: Henry Bolt and Company, 1999.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. Bauru, SP: EDUSC, 2000.

SILVA, Alexander Meireles da. Literatura Inglesa para Brasileiros: Curso completo de Literatura e Cultura Inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.  

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

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Qual é o seu super grupo favorito? Dos Argonautas aos Power Rangers

2017 é o ano dos super grupos no Cinema e nas Webséries: Power Rangers, Guardiões da Galáxia, Liga da Justiça, GuardiõesDefensores

Os heróis urbanos Punho de Ferro, Demolidor, Luke Cage e Jessica Jones formam os Defensores.

Os grupos formados por indivíduos com habilidades especiais que se unem voluntaria ou involuntariamente para servirem a um propósito maior existem desde antes da invenção das HQs, principal veículo de criação e propagação deles.

O primeiro grupo de super heróis russos, Os GUARDIÕES, mostra que os russos também querem competir com os americanos no Cinema.

Ilustrando a força do trabalho em equipe ou simplesmente representando a busca das empresas em vender mais com apenas um produto, os super grupos estão entre nós desde a Mitologia grega.

Veja abaixo um breve panorama histórico desse fenômeno que passa pela Literatura e a Cultura de Massa.

Na Mitologia

O primeiro grupo formado de personagens especiais unidos com uma missão, e se pode dizer também que é o primeiro super grupo, está na Mitologia Grega com Jasão e os Argonautas.

Jasão e os Argonautas

A fonte para esta história está na obra Argonautica de Apolônio de Rodes (século 3 a.C.), baseada em textos encontrados na Biblioteca de Alexandria.

OS ARGONAUTAS, pintura de Lorenzo Costa no Museu de Pádua, Itália

Ao reclamar o seu direito ao trono de Lolcos, usurpado por seu tio Pélias, Jasão recebeu do rei a missão de conquistar o Velocino de Ouro, objeto que conferia poder e riqueza a quem o possuísse.  

A intenção do rei Pélias era que seu sobrinho Jasão morresse na empreitada.

Ciente do perigo da tarefa, visto que o Velocino era guardado por um dragão que nunca dormia, Jasão reuniu cinquenta heróis com habilidades únicas com o propósito de ajudá-lo na missão.

Uma vez reunidos, eles embarcaram no navio Argo (daí o nome Argonautas) e partiram rumo ao Mar Negro, onde ficava a região em que o Velocino estava.  

Jasão, a esquerda, segurando Velocino.

Iniciando uma tradição que continua até hoje, os Argonautas eram compostos por heróis com suas próprias aventuras e feitos grandiosos. Dentre os quais, destaque para:  

Atalanta

Única mulher do grupo. Possuidora de grande velocidade e habilidade no arco e flecha;

Castor e Pólux

Ainda que tivessem a mesma mãe, os gêmeos tinham pais diferentes: Pólux era filho de Zeus e, portanto, imortal, Castor era filho do rei Tindaro e se tornou um mestre na arte de domesticar cavalos. 

Herácles

Também conhecido na mitologia romana como Hércules, este filho de Zeus era o homem mais forte de seu tempo e um dos mais populares heróis gregos.

Orfeu

Dono de uma voz sobrenatural, Orfeu conseguia domar os animais e criaturas sobrenaturais com a música que extraia de sua lira. 

Palemon

Hefesto era o deus responsável por criar em sua fornalha as armas e demais utensílios usados por deuses e seus filhos e filhas.

Filho do deus Hefesto, Palemon também era chamado de O Reparador, pois tinha a habilidade de consertar tudo.

Poriclimeno

Poseidon também era chamado de Netuno na mitologia romana.

Filho do deus Poseídon, Poriclimeno era capaz de se metamorfosear em qualquer animal marinho.

Teseu

Também um dos mais populares heróis gregos pela sua coragem extrema, Teseu matou o Minotauro e se tornou rei de Atenas. Em algumas versões ele derrotou as Amazonas e se casou com Hipólita, a rainha dessas mulheres guerreiras.

Após várias aventuras e perigos, os argonautas chegaram na região do Velocino de Ouro e, com a ajuda de Medeia, filha do rei Eetes de Colquida, conseguiram capturar o objeto.

Medeia é uma das personagens mais controversas da Mitologia Grega.

Na Literatura

Em um terreno onde o individuo tem papel central para a estrutura da narrativa, os grupos aparecem na Literatura em obras que, com o tempo, acabaram sendo vinculadas com o romance de aventuras, ou com a Literatura Juvenil.

Este é o caso do romance histórico Os três mosqueteiros (1844), de Alexandre Dumas. 

Os três mosqueteiros

Cena do filme de 1993 dos estúdios Disney.

Ambientado na França do início do século 17, Os três mosqueteiros foi a obra que trouxe fama para Alexandre Dumas.

O romance mostrava as aventuras do jovem D’Artagnan em sua busca para se tornar um Mosqueteiro, ou seja, um membro da corporação militar vinculada a monarquia francesa famosa pelo manejo da espada.

A evolução do uniforme dos Mosqueteiros

Sendo um romance histórico, a obra de Dumas misturava fatos históricos com ficção para criticar a política da monarquia francesa da época, marcada por injustiças e abusos. 

Baseados em personagens históricos, os heróis de Alexandre Dumas eram os seguintes mosqueteiros:

Athos 

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Armand de Sillègue d’Athos d’Autevielle, Athos era descrito como uma figura paterna para d’Artagnan.

Ele também era marcado pelo relacionamento com a espiã chamada por Dumas de Milady de Winter. 

Porthos

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro Isaac de Porthau, Porthos era o mais passional do grupo. 

Gostava de roupas elegantes, mulheres e jogos e era a força física do grupo.

Aramis

Baseado no personagem histórico e mosqueteiro  Henri d’Aramitz, Aramis era apresentado como um elegante jovem dividido entre sua vocação religiosa e o gosto pela vida mundana.

D’Artagnan

Estátua de D’Artagnan no monumento dedicado a Alexandre Dumas em Paris.

Charles Ogier de Batz de Castelmore, Comte d’Artagnan foi Capitão dos Mosqueteiros em 1667 e base para o jovem herói de Alexandre Dumas.

Como todo jovem herói, era audacioso, arrogante e precipitado.

Nas Histórias em Quadrinhos

O universo dos Super Heróis começou na estréia da revista Action Comics em abril de 1938 trazendo a icônica primeira aparição do Superman. 

O sucesso imediato da criação de  Jerry Siegel e Joe Shuster  levou a uma explosão de outros personagens super heroicos mais ou menos duradouros de acordo com a criatividade de seus roteiristas.

Juntá-los em uma revista única não demorou muito…

DC Comics

O sucesso das revistas de super heróis despertou a atenção dos editores Sheldon Mayer e do escritor Gardner Fox, da DC Comics.

O resultado foi o lançamento da revista All-Star Comics #3 (1940), trazendo a Sociedade da Justiça da América como uma estratégia de alavancagem das vendas.

Sociedade da Justiça da América 

O primeiro super grupo das Histórias em Quadrinhos foi lançado pela DC Comics e reunia os super heróis da editora com exceção do Superman e Batman, visto que eles vendiam bem sozinhos.

Ó engraçado é que nesta primeira edição os personagens só ficavam sentados, contado suas aventuras individuais.

Nesta primeira formação, a SJA contava com os seguintes membros:

Átomo (Atom)

Doutor Destino (Doctor Fate)

Espectro (Spectre)

Flash (Flash)

Gavião Negro (Hawkman)

Homem-Hora (Hourman)

Lanterna Verde (Green Lantern)

Sandman (Sandman)

Marvel Comics

Após os anos dourados das décadas de 30 e 40, as histórias em quadrinhos passaram por um período de crise na década seguinte sendo acusada de serem um instrumento de corrupção da juventude.

Esta revista de 1954 foi usada como evidência de que as revistas lidas pelas crianças americanas dos anos de 1950 as estavam incitando ao crime.

Apenas a partir dos anos de 1960 é que os super heróis encontraram novamente o ambiente para retomarem seus vôos.  

Foi neste cenário que em 1960 a edição #28 da revista Brave and the Bold da editora DC Comics trouxe a Liga da Justiça da América.

O sucesso da revista levou o editor da Marvel Martin Goodman a incumbir o jovem Stan Lee de criar um grupo de super heróis para a editora.

O resultado foi o time de heróis que deu início ao Universo Marvel de Super-Heróis: O Quarteto Fantástico.  

Quarteto Fantástico

Bombardeados por raios cósmicos durante uma missão espacial, quatro pessoas adquirem poderes distintos que os levam a formar o grupo batizado de Quarteto Fantástico, composto por:

Senhor Fantástico 

Garota Invisível (depois rebatizada para Mulher Invisível)

Tocha Humana

Coisa    

O sucesso da Sociedade da Justiça, Liga da Justiça e Quarteto Fantástico abriram o caminho para uma infinidade de super grupos nas Histórias em Quadrinhos.

Hoje há de se lamentar que nas HQs a Marvel tenha dissolvido o grupo que a ajudou a crescer simplesmente pelo fato de não possuir os direitos cinematográficos da equipe, hoje pertencentes a FOX.

Na Televisão

Do outro lado do mundo, no Japão, o criador Shotaro Ishinomori e a produtora Toei Company deram início, em 1975, a tradição dos Super Sentai, honrada hoje pelo filme Power Rangers.

Composta pelo ideogramas: 戦 “sen” (guerra) e 隊 “tai” (grupo), essas séries mostram um grupo de cinco indivíduos que recebem super poderes, são identificados por cores diferentes e possuem robôs individuais que, uma vez combinados, criam um robô gigante. 

Himitsu Sentai Gorenger

A primeira série Sentai, e também a mais longa até hoje com 84 episódios, é a Himitsu Sentai Gorenger, traduzida em Português como Esquadrão Secreto Gorenger.

Ainda que Himitsu Sentai Gorenger tenha estabelecido o padrão inicial das séries Sentai, foi a partir da terceira série – Battle Fever J, de 1979 – que o termo Super Sentai passou a ser utilizado com a introdução do robô gigante, que se tornou uma marca representativa e recorrente nas séries futuras.

É hora de morfar! 

No início dos anos da década de 1990 a produtora norte-americana Saban resolveu reutilizar as ideias e conceitos dos Sentais e lançou a série Mighty Morphin Power Rangers, voltada para o público americano.

A enorme receptividade da série de 1993, lançada no Brasil no ano seguinte, permitiu a criação de várias outras temporadas de sucesso.

E o resto é história…  

Gostou? 

Qual é o seu grupo de super heróis favorito? 

E qual formação dos Power Rangers marcou a sua infância?

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Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito. Mitologia grega. Vol. 3. Petropolis, RJ: Editora Vozes, 1987.

JONES, Gerard. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. São Paulo: Conrad, 2006. 

MUNDO ESTRANHO. Os mosqueteiros realmente existiram na França? Disponível em http://mundoestranho.abril.com.br/historia/os-mosqueteiros-realmente-existiram-na-franca/ . Acesso em 25 março 2017. 

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

10 super-heroínas que combatiam o crime antes da Mulher-Maravilha

A Mulher-Maravilha está em alta!

No post sobre a personagem aqui no blog mostrei os motivos e polêmicas que levaram a princesa amazona a ser a mais importante e representativa super-heroína da cultura de massa, mesmo após 75 anos de sua criação em 1941.

Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, ela não foi a primeira representante feminina do gênero super-heróis das Histórias em Quadrinhos.

Mas quais mulheres defendiam os fracos e oprimidos antes de seu surgimento?

Para responder a esta questão, trago hoje as 10 heroínas e super-heroínas que combatiam o crime antes da Mulher-Maravilha.

E se você que ver logo a lista, sem querer saber antes dos critérios para criá-la, clique aqui.

Mas o que é um super-herói?

Qual é o ponto em comum entre Batman e Superman? Entre Gavião Arqueiro e Homem-Aranha? Super poderes? Identidade secreta? Uso de aparatos tecnológicos? Compromisso com a justiça? Como se define um super-herói?

Para o crítico Peter Coogan, os super-heróis têm como características principais uma Missão, Poderes ou superforça e Identidade secreta (MPI).

Já para a pesquisadora Jennifer Stuller, os super-heróis não são definidos somente pelos superpoderes ou pelas fantasias que usam no intuito de preservarem sua real identidade, mas principalmente pelo compromisso com a luta em defesa dos inocentes.

Em outras palavras, são super-heróis por irem além das suas condições humanas para fazerem o bem aos outros.

Tomando então como base o conceito de Jennifer Stuller, foram selecionadas aqui personagens femininas do gênero aventura e super-heróis, com ou sem poderes, que podem ser tomadas como exemplos de super-heroínas.  

Quem entrou? Quem ficou de fora? E por que?

Entraram na lista a seguir personagens femininas que surgiram antes da primeira aparição da Mulher-Maravilha nos quadrinhos, ocorrida em All Star Comics #8, de dezembro de 1941.

A personagem fez tanto sucesso que ganhou revista própria seis meses após sua criação. Em Wonder Woman #1, de julho de 1942.

No entanto, apesar de terem sido publicadas antes da Mulher-Maravilha, ficaram de fora as seguintes personagens:

1. Heroínas que foram criadas inicialmente como interesse amoroso do super-herói

Caso de Lois Lane, que a despeito de sempre ter sido retratada como uma mulher forte, determinada e destemida, desde sua primeira aparição em 1938, acaba sendo utilizada como suporte para as ações heroicas do Superman. 

No anos 50 a personagem ganhou revista própria, mas perdeu sua força feminina para passar a ser a namorada do Superman

2. Heroínas que foram criadas como versões femininas de super-heróis masculinos

Caso da Mulher-Gavião (Hawkgirl) (Janeiro, 1940), apresentada como a namorada do Homem-Gavião, sendo coadjuvante em suas histórias. 

Exemplo semelhante é o da Bulletgirl (Abril, 1941) namorada, ajudante e esposa (nesta sequencia) do super-herói Bulletman.

Em ambos os casos, assim como ocorreu com outras super-heroínas, as personagens não tinham voz própria, sendo muitas vezes resgatadas por seus equivalentes masculinos.

3. Heroínas cuja criação e motivação estão ligadas direta e exclusivamente a Segunda Guerra Mundial

Aqui se inserem as heroínas criadas na onda da propaganda norte-americana na Segunda Guerra Mundial, tendo seu espaço de atuação regulado pelo conflito.

Estas personagens não exerceram influencia além deste contexto histórico-cultural.

São exemplos deste tipo, Pat Parker, War Nurse, Pat Patriot, Lady Satan, Miss Victory e Black Venus.

O ponto em comum a todas estas combatentes do mal foi a gradual perda de popularidade junto aos leitores e o eventual cancelamento de suas publicações após o fim da guerra.   

Black Venus

4. Heroínas cujas publicações duraram menos de seis meses

Na avalanche de super-heróis e super-heroínas das décadas de 40, algumas personagens não conseguiram se estabelecer no mercado, vindo a desaparecer com menos de seis meses, não deixando influências a serem seguidas. 

Este é o caso de, dentre outras, Amazona, Madame Strange e Spider Queen. 

Para quem quer conhecer em maiores detalhes o nascimento e desenvolvimento das super-heroínas dos quadrinhos, recomendo o trabalho A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha (2016), da pesquisadora brasileira Jaqueline dos Santos Cunha, disponível gratuitamente para leitura, aqui.

Tive o prazer de orientar esta pesquisa que traz um dos mais completos e atuais panoramas da representação feminina nos quadrinhos norte-americanos da primeira metade do século vinte. 

Agora que os critérios foram explicados e sugestões de leitura foram indicadas, vamos a lista:

10 Super-heroínas das HQs que antecederam a Mulher-Maravilha

Conheça abaixo agora, por ordem de publicação, as 10 primeiras (e principais) combatentes do crime dos quadrinhos que prepararam o caminho para a chegada da Mulher-Maravilha em dezembro de 1941.

1. Sheena

Descrição: Sheena se insere em um contexto de popularidade no início do século vinte das chamadas jungle stories (histórias passadas em selvas de regiões dominadas ou influenciadas por países da Europa e Estados Unidos), e que fomentaram a criação, na época, de personagens da ficção pulp e quadrinhos como Tarzan e Fantasma.

As jungle stories refletiram a influência dos romances de aventuras de fins do século dezenove de escritores como H. Rider Haggard e Rudyard Kipling, sempre ambientadas em lugares exóticos na África e na Ásia.

É justamente a partir do romance Ela (1887), de Haggard que Will Eisner e Jerry Iger criaram Sheena, a Rainha das Selvas. O próprio nome da personagem soava como o título do livro de Haggard (She, no original).

Sheena Rivington cresceu como órfã em meio a selva, onde ela aprendeu os segredos da floresta e da comunicação com os animais.

Com o tempo, Sheena se tornou rainha de uma tribo local e, semelhante a Jane em relação a Tarzan, também teve um relacionamento amoroso com o personagem Bob Reynolds.

Em uma inversão de papeis, raras de se ver na época, Sheena costumeiramente salvava Bob de perigos.  

Primeira aparição: Wags #1 (Janeiro, 1938) (Inglaterra) e Jumbo Comics #1 (Setembro, 1938) (EUA) 

Criadores: Will Eisner e Jerry Iger

Editora: Editors Press Service (Inglaterra) e Fiction House (EUA)

Destaque: A primeira heroína dos quadrinhos. 

2. Red Tornado

Descrição: Após ver sua filha ser sequestrada e não poder contar com a ajuda da polícia ou do herói Lanterna Verde, a corpulenta Abigail Mathilda “Ma” Hunkel decide colocar um balde na cabeça, vestir uma roupa que escondia sua identidade feminina e assumir o nome de Tornado Vermelho

Ao contrário da grande maioria das personagens aqui, Abigail Mathilda “Ma” Hunkel sobreviveu até os dias de hoje, se tornando governanta da base de operações da Sociedade da Justiça da América.

Ela, no entanto, ainda não foi vista após o reboot da editora DC Comics de 2011 chamado de Os Novos 52

Primeira aparição: All-American Comics #3 (Junho, 1939), na sua identidade civil e All-American Comics #20 (Novembro, 1940), como Tornado Vermelho.

Criadores: Sheldon Mayer

Editora: All-American Publications

Destaque: A primeira heroína drag king e a primeira paródia de super-herói. 

3. Fantomah

Descrição: Uma das criações mais originais dos quadrinhos, Fantomah também bebe das influências nos romances de aventuras de Haggard, em especial a deusa branca Ayesha do livro She e sua sequencia Ayesha (1905).

Protetora da selva e seus habitantes, Fantomah era uma atraente loira que ao ativar seus poderes se tornava um ser vingativo de pele azul e face de caveira.

Nesta forma ela tinha poderes quase ilimitados, através dos quais punia os invasores de sua terra.

Posteriormente ela foi reapresentada como a reencarnação de uma princesa egípcia, mas isso não salvou a personagem de cair no esquecimento já em 1942. 

Primeira aparição: Jungle Comics #2 (Fevereiro, 1940)

Criadores: Fletcher Hanks

Editora: Fiction House

Destaque: A primeira super-heroína no sentido pleno da palavra, pois tinha superpoderes.

4. The Woman in Red

Descrição: Detetive da policia Peggy Allen assume a identidade secreta da Mulher de Vermelho para combater o crime sem as limitações da lei. 

Atiradora habil e detetive brilhante, a Mulher de Vermelho não hesitava em matar os criminosos quando a situação assim exigia. Lembrando que nessa época até o Batman usava armas de fogo.

Ao lado de outros super-heróis das décadas de 30 e 40 que caíram em domínio público, a personagem foi resgatada do limbo em 2001 pelo escritor inglês Alan Moore para sua série Tom Strong

Nesta releitura, a Mulher de Vermelho possui um rubi que lhe confere superpoderes como voo e projeção de energia.

Primeira aparição: Thrilling Comics #2 (Março, 1940)

Criadores: Richard Hughes e George Mandel

Editora: Nedor Comics

Destaque: A primeira combatente do crime com uniforme e identidade secreta.

 5. Lady Luck

Descrição: Criada apenas três meses depois da Mulher de Vermelho pelo quadrinista e escritor Will Eisner para participar das publicações no jornal do famoso detetive Spirit, Lady Luck é na verdade a rica socialite Brenda Banks que decide combater o crime apenas com suas habilidades de Jiu-Jitsu. 

Perseguida pela policia e protegendo sua identidade civil sob um fino véu, Lady Luck por vezes contava com a ajuda de seu motorista Peecolo.

Nos dias de hoje a personagem teve uma participação inesperada na edição #6 da revista The Phantom Stranger (2013), mas não foi mais vista deste então.

Primeira aparição: The Spirit Section (02 de Junho, 1940).

Criadores: Will Eisner e Chuck Mazoujian

Editora: Register and Tribune Syndicate

Destaque: A primeira socialite rica a combater o crime, abrindo a tendência de personagens semelhantes nos anos seguintes como Miss Fury (1941), Spider Widow (1942) e Miss Masque (1946). 

6. Invisible Scarlet O’Neil

Descrição: 20 anos antes da Mulher-Invisível adquirir seu poder e formar o Quarteto Fantástico, uma jovem repórter encostou o dedo em um raio desenvolvido por seu pai cientista e ganhou o poder da invisibilidade: Scarlet O’Nell. 

Sendo capaz de ativar e desativar sua invisibilidade pressionando um nervo em seu pulso, Invisible Scarlet O’Nell usava seu poder não apenas para conseguir matérias jornalisticas, mas também para resolver pequenos crimes e ajudar as crianças.

Nos anos da década de 1950 a personagem ganhou um interesse amoroso – o xerife Stainless Steel – e as histórias passaram a ser mais sobre o relacionamento dela e menos sobre os seus atos heroicos.

Por fim, com a queda da popularidade, a tira de jornal em que suas histórias eram publicadas foi renomeada para Stainless Steel e a personagem se tornou secundária.  

Primeira aparição: The Chicago Times (03 de junho, 1940)

Criadores: Russell Stamm

Editora: The Chicago Times

Destaque: Ainda que não tenha identidade secreta e uniforme, Invisible Scarlet O’Neil é a primeira super-heroína urbana com super-poderes.

7. Black Widow

Descrição: Após ser vitima de assassinato, Claire Voyant retorna do inferno como uma agente do Diabo para matar criminosos e outros praticantes do mal, pois há almas, segundo o discurso da Viúva Negra, que o Diabo está ansioso por possuir.

Imune a ácido e balas, a Viúva Negra envolve suas vitimas em sua capa e o infeliz cai morto aos seus pés.

Primeira aparição: Mystic Comics #4 (Agosto, 1940)

Criadores: George Kapitan e Harry Sahle

Editora: Timely Comics

Destaque: A primeira super-heroína (ou anti-heroína) urbana a ter uniforme, identidade secreta e superpoderes. 

8. Miss Fury

Descrição: Convidada para uma festa e informada que outra mulher usaria um vestido semelhante ao seu, a socialite Marla Drake decide vestir a pele de pantera negra deixada pelo tio e que tinha pertencido originalmente a uma feiticeira africana. No caminho para a festa, todavia, ela impede um crime e assume a identidade de Miss Fury.

As histórias de Miss Fury, traduzidas no Brasil como Mulher-Pantera, nunca afirmaram categoricamente se a habilidade e força demonstrada pela heroína vinha da pele do animal ou da própria Marla, o que acrescentava um elemento extra de curiosidade a personagem.

Ao contrário da maioria das outras combatentes do crime de vida curta, a Mulher-Pantera foi publicada nas tiras dos jornais americanos até o ano de 1952, algo incomum para personagens do período. 

Primeira aparição: Inicialmente com o nome Black Fury (06 de Abril, 1941) e como Miss Fury a partir de 14 de dezembro de 1941

Criadores: Tarpe Mills

Editora: Jornais ligados ao Bell Syndicate

Destaque: A primeira super-heroína criada, roteirizada e desenhada por uma mulher.

9. Phantom Lady

Descrição: Maior representante da chamada “Good Girl art”, um estilo de desenho focado em representar mulheres voluptuosas e sensuais, Lady Fantasma possui uma arma de luz negra com a qual ela cega momentaneamente seus inimigos.    

Apresentada como Sandra Knight, filha de um senador norte-americano, Lady Fantasma teve seu uniforme alterado em meados dos anos 40 para ficar mais sensual. 

A personagem justificou a mudança dizendo que o novo uniforme distraia seus oponentes, mas pelo visto na imagem abaixo ele também funcionava com os heróis. 

Primeira aparição: Police Comics #1 (Agosto, 1941).

Criadores: Will Eisner e Jerry Iger

Editora: Quality Comics

Destaque: A personagem foi usada como exemplo de má influencia sobre os jovens na década de 50 devido ao seu uniforme revelador, mas é a única daqui da lista que se manteve regularmente ativa até os dias de hoje, fazendo parte do universo da DC Comics. 

10. Nelvana das Luzes do Norte

Descrição: Mulher-Maravilha não é a primeira única super-heroína ligada aos deuses. Nelvana das Luzes do Norte é uma poderosa deusa da mitologia Inuit defensora dos povos do norte do Canadá.

Ela pode voar na velocidade da luz usando as luzes do norte, ficar invisível, mudar de forma e derreter metais.  

Eventualmente ela se disfarçava na identidade secreta da agente Alana North.

Primeira aparição: Triumph Adventure Comics #1 (Agosto, 1941).

Criadores: Adrian Dingle

Editora: Hillborough Studios 

Destaque: A primeira super-heroína canadense e a primeira super-heroína pertencente a um grupo minoritário (os povos indígenas do Canadá). 

 

Gostou das super combatentes do crime pré-Mulher-Maravilha?

Na sua opinião, quais delas ainda poderiam estar sendo publicadas hoje?

Deixe seu super comentário, compartilhe com seus amigos e inimigos mortais e assine o blog.

Fontes utilizadas

CUNHA, Jaqueline dos Santos. A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha. 2016. 151 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2016. Disponível em https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/5890 

DON MARKSTEIN’S Toonpedia. Disponível em http://www.toonopedia.com/. Acesso em 08 fev. 2017.

MADRID, Mike. Divas, Dames and Daredevils: Lost Heroines of Golden Age Comics. New York: Exterminating Angel Press, 2013.

______. The Supergirls: fashion, feminism, fantasy and the history of comic book heroines. New York: Exterminating Angel, 2010.

ROBBINS, Trina. The Great Women Super Heroes. Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

A perversão sexual da Mulher-Maravilha por trás dos quadrinhos

Você, prezada leitora, gosta de se submeter a pessoa amada a ponto de, se a ocasião surgir, ser amarrada por ela? Você concorda com a frase “tapinha não doí”?

Pois saiba que foi a crença na existência deste comportamento feminino que ajudou o psicologo norte-americano William Moulton Marston a criar, em 1941, aquela se tornaria um ícone do Feminismo e centro de polêmicas sobre uma pretensa perversão sexual feminina: Mulher-Maravilha

William Moulton Marston e sua maior criação
William Moulton Marston e sua maior criação

A princesa guerreira

Dezembro de 2016 marca os 75 anos do surgimento da Mulher-Maravilha no universo das Histórias em Quadrinhos, ocorrido por meio da editora All-American Publications na revista All Star Comics #8 de dezembro de 1941, ainda sem destaque na capa para a personagem e assinada por Charles Moulton (pseudônimo adotado por William Moulton Marston).

Primeira aparição da Mulher-Maravilha
Primeira aparição da Mulher-Maravilha

O sucesso da princesa amazona da utópica Ilha Paraíso que vem ao mundo dos homens para lutar pela paz e justiça foi tanto que já no ano seguinte ela ganhou publicação própria na revista Wonder Woman #1, de julho de 1942.   

Primeira publicação própria da guerreira da Ilha Paraíso.
Primeira publicação própria da guerreira da Ilha Paraíso.

Ainda que não tenha sido a primeira super combatente do crime das histórias em quadrinhos [ATUALIZADO: Veja o post sobre as super-heroínas anteriores a Mulher-Maravilha, clicando aqui], desde a sua criação a Mulher-Maravilha se tornou a principal representante feminina do gênero super-heróis, posição esta que mantém até hoje e a coloca ao lado dos outros dois pesos pesados da DC Comics – Superman e Batman.

A trindade da DC Comics
A trindade da DC Comics

Este status da personagem decorre, em muito, das idéias por trás de sua criação que a diferenciava, já em 1941, das outras super-heroínas da época.

Mulher-Maravilha: filha de um pai e duas mães controversas

Considerado um feminista mesmo quando a própria palavra ainda não havia se disseminado, William Moulton Marston foi contratado pelas editoras National Periodicals e All American Publication (que depois da fusão se tornariam a DC Comics) para ser o consultor educacional das editoras em virtude da crescente preocupação dos pais de crianças quanto ao conteúdo das revistas nos anos das décadas de 1930 e 1940.

Marston e os editores da All-American Publications e National Periodicals
Marston (na esquerda sentado) e os editores da All-American Publications e National Periodicals

Como resposta a esta situação e descontente com a ostensiva presença de super-heróis homens, como Superman, Batman e Lanterna Verde, Marston comentou com a esposa – Elizabeth Holloway Marston – sobre a criação de um super-herói que combatesse o crime não com o uso da violência, mas sim com o amor, ao que ela respondeu: “Ótimo, mas a faça mulher”.  

Elizabeth Holloway Marston. Essa sim a verdadeira Mulher-Maravilha
Elizabeth Holloway Marston. Essa sim a verdadeira Mulher-Maravilha

Definido o sexo da personagem, faltava moldá-la e para isso Marston usou duas referências: suas duas esposas

A origem e personalidade da Mulher-Maravilha tem inspiração tanto na admiração que Elizabeth Holloway nutria pela cultura grega, de onde saiu a ideia das lendárias Amazonas, quanto na postura da própria Elizabeth enquanto mulher a frente do seu tempo, detentora de três diplomas universitários em uma época na qual a maioria das mulheres era até mesmo proibida de estudar.

Já a aparência física da personagem foi baseada na outra esposa de Marston: sua ex-aluna e assistente Olive Byrne. Byrne também influenciou Marston na criação dos braceletes com os quais a super-heroína se defende de seus agressores.

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A ideia teria surgido pelo recorrente uso deste apetrecho por parte de Olive Byrne. 

William Moulton Marston vivia com Elizabeth e Olive no mesmo lar e teve duas crianças com cada uma. Elizabeth era responsável, junto com o marido e após sua morte em 1947, pelo sustento do lar enquanto Olive cuidava da casa e da educação das crianças.

William Moulton Marston (no centro). Olive Byrne (lado direito em pé) e Elizabeth Holloway Marston (sentada na direita)
William Moulton Marston (no centro). Olive Byrne (lado direito em pé) e Elizabeth Holloway Marston (sentada na direita)

Uma heroína pervertida sexualmente (uma mulher, afinal de contas)

Se Elizabeth e Olive contribuíram com a origem, personalidade e aparência física da Mulher-Maravilha o comportamento da super-heroína, em seus primeiros anos, refletiu as ideias de William Moulton Marston sobre o desenvolvimento do potencial feminino.

Ideias que deram margem a uma leitura da personagem (e das mulheres) como seres de um comportamento, para muitos ainda hoje, condizentes com perversão sexual.

Girl Power
Girl Power

Para ele, os problemas da humanidade só seriam resolvidos se os homens entregassem o poder as mulheres. Sua personagem, oriunda de uma sociedade governada por mulheres era, portanto, a resposta para contrabalançar o que ele via como um mundo androcêntrico.

Em entrevista sobre a Mulher-Maravilha para a revista American Scholar no ano de 1943, por exemplo, Marston defendia que:

Nem mesmo garotas vão querer ser garotas enquanto faltar força, potência, e poder ao nosso arquétipo feminino. Não querendo ser garotas, elas não querem ser meigas, submissas, pacíficas como boas mulheres são.

Isto quer dizer que, para o criador da Mulher-Maravilha, as mulheres só poderão desenvolver força, potência e poder e, consequentemente, resolverem os problemas do mundo por meio da igualdade e do amor se aprenderem a ser meigas, submissas e pacíficas 

Veja abaixo, conforme as histórias da Mulher-Maravilha ensinavam nos anos de 1940, que o processo para se tornar meiga, submissa e pacífica era a prática de técnicas semelhantes ao BDSM, ou seja,  Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo.

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Ainda que William Moulton Martston nunca tenha manifestado abertamente suas teorias nas histórias escritas por ele, o recorrente conteúdo erótico das histórias da Mulher-Maravilha (e que ajudaram a revista a se tornar um sucesso junto ao público jovem formado por meninos) não passaram despercebidos dentro da editora que as publicava.

Ao ser questionado pela sua colega Josette Frank, do Conselho Editorial Consultivo da DC, sobre a possibilidade de ataques de educadores e censores devido aos trajes da heroína e aos trechos de inspiração sado-masoquista das histórias, Marston explicou que:

As mulheres são excitantes justamente por essa razão – esse é o segredo da sedução feminina – a mulher gosta de se submeter, de ser amarrada. Trago isso à tona nas sequencias da Ilha Paraíso, em que as garotas imploram por correntes e gostam de usá-las. /…/ A única esperança de paz é ensinar àqueles que estão cheios de energia e de força a gostar de amarras. /…/ Em se tratando de relacionamentos humanos, só teremos uma sociedade mais pacífica e agradável quando o controle do eu, exercido de fora, for mais agradável que a afirmação irrestrita do eu sem amarras.

Chama a atenção neste ponto a contradição de que, ainda que tenha sido um ardente defensor da emancipação feminina, o pai da Mulher-Maravilha, enquanto psicologo, refletiu em suas crenças teorias científicas em voga no século dezenove que serviram para criminalizar o corpo da mulher.  

Ou Mãe ou Esposa ou Masoquista

Dentre várias obras na literatura médica do século dezenove duas merecem destaque por buscarem respaldar cientificamente o preconceito contra as mulheres. São elas:

The Functions and Disorders of the Reproductive Organs
(1857), de William Acton

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Psychopathia Sexualis (1886), de Richard von Krafft-Ebing.

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The Functions and Disorders of the Reproductive Organs de William Acton corroborou a ideologia predominante ao assegurar que as únicas paixões normais sentidas pelas mulheres eram pelo lar, filhos e deveres domésticos.

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Os papeis sociais das mulher no século 19 eram o matrimônio e a maternidade.

Para o médico inglês, a mulher submetia-se ao marido só para satisfazê-lo e, se não fosse pelo prazer da maternidade, preferia não ter atenção sexual. Ele foi um dos estudiosos que, ao lado de outros, incutiram na mulher a noção de que o corpo é inimigo da alma. 

A noção de que a maternidade implica em sacrifício e submissão a figura masculina se junta no fim do século dezenove a crença de que a mulher é capaz de suportar melhor sofrimentos e transtornos, transformando-os em prazer. Estava pronto o cenário para a associação da mulher com o Masoquismo, como explorado por Richard von Krafft-Ebing no Psychopathia Sexualis.

Richard Krafft-Ebing
Richard Krafft-Ebing

Krafft-Ebing parte da ideia de que a natureza delegou a mulher uma posição passiva, representado pela maternidade. Por esta razão, de acordo com esta leitura, o desejo sexual feminino é mais débil e levaria a uma necessidade da mulher ser mais amada e menos dependente do gozo.

Assim, o casamento e o amor seriam mais importantes para a mulher do que o sexo e aquelas que procuram apenas uma satisfação sexual representam um fenômeno anormal que contradiz as exigências sociais.

Krafft-Ebing cunha o termo Masoquismo a partir do nome do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch, que relatava, em sua obra A Vênus das Peles (1870), obsessões e gostos de amor bastante peculiares, entre os quais ser caçado, amarrado, castigado, humilhado e machucado.

masochism

A partir deste quadro, o psiquiatra alemão define que a natureza feminina tenderia tanto para a perversão quanto para o sacrifício, o sofrimento e a subordinação. 

Nesta leitura, Krafft-Ebing sustenta que o Masoquismo é a perversão feminina por excelência. 

Bondage heróico
Bondage heróico

Como se vê, ainda que em uma primeira leitura as opiniões de William Moulton Marston sobre a mulher pareçam se colocar como um avanço para o espaço social da mulher na sociedade norte-americana nas primeiras décadas do século vinte, um olhar mais detalhado em sua proposta de feminino deixa exposto a mesma ideologia que norteou os estudos sobre a sexualidade da mulher ao longo da segunda metade do século dezenove. 

De namoradinha  a ícone gay

Após a morte de Marston em 1947, as histórias da princesa amazona mudaram de tom e a proposta pedagógica por trás de sua criação foi diluída pelos roteiristas que se seguiram.  

Carregada pelo amado Steve Trevor
Carregada pelo amado Steve Trevor em Sensation Comics #94 (1949).

A partir dos anos de 1970, todavia, com a intensificação do Movimento Feminista, a personagem foi alçada a condição de símbolo da mulher moderna, dona de sua vontade e de seu corpo. 

Capa da revista feminista Ms. (1972) e a comemoração dos 40 anos da revista em 2012.
Capa da revista feminista Ms. (1972) e a comemoração dos 40 anos da revista em 2012.

Pode ser dito, por fim, que ainda que tenha sido concebida dentro do jogo ideológico da indústria cultural, os debates sobre a imagem da Mulher-Maravilha adquiriram camadas e interpretações que ultrapassaram a esfera artística atestando a necessidade de se discutir o papel da mulher na contemporaneidade.

A polêmica mais recente: Mulher-Maravilha é gay?
A polêmica mais recente: Mulher-Maravilha é gay?

Louca, anormal, heroína, sado-masoquista, pervertida, gay, ícone feminista. As possibilidades de escolha da Mulher-Maravilha como um tipo ideal da mulher moderna não se encerram após a descoberta do discurso que a criou.

Fontes consultadas

CUNHA, Jaqueline dos Santos. A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha. 2016. 151 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2016. Disponível em https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/5890

JONES, Gerard. Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. Trad. Guilherme da Silva Braga e Beth Vieira. São Paulo: Conrad. Editora do Brasil, 2006.

LEPORE, Jill. The secret history of wonder woman. New York: Alfred A. Knopf, 2014.

MADRID, Mike. The supergirls: fashion, feminism, fantasy and the history of comic book heroines. New York: Exterminating Angel, 2010.

NUNES, Silvia Alexim. O corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha: um estudo sobre a mulher, o masoquismo e a feminilidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. (Coleção Sujeito e História).

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Como você pode sobreviver a Distopia de Donald Trump

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Tem jeito não: Donald Trump é o 45° Presidente dos Estados Unidos da América.

E agora? Como sobreviver a Era Donald Trump? O que ela pode representar para o Fantástico?

A eleição de Trump traz a mente outro momento em que o mundo deu uma guinada para a direita com as eleições da Primeira-Ministra Margaret Thatcher na Inglaterra em 1979 e do Presidente Ronald Reagan nos EUA em 1981.

Estes dois eventos representaram o início de uma ideologia conservadora que se estenderia por toda a década de oitenta do século passado, motivando a criação de obras e produções vinculadas ao Fantástico na Literatura, Cinema e Quadrinhos, principalmente na forma das distopias.

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Na Inglaterra de 1982 e 1983, por exemplo, Alan Moore publicou na revista britânica Warrior sua crítica ao governo da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher na forma de V de Vingança, que seria depois finalizada em 1988 dentro do selo Vertigo da DC Comics

O lado negro do sonho

É interessante destacar aqui como outros termos para a palavra “Distopia”, tais como “Utopias negativa”, “Contra-utopia” e “Utopia devolucionária” reforçam a estreita relação entre as distopias e as utopias, e isso não é a toa. Afinal de contas, dependendo de qual lado você está, o sonho para uns é o pesadelo para outros.

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A sombra da distopia já estava presente, na verdade, desde o primeiro projeto utópico do Ocidente: A República (380 a. C), de Platão, visto que para o filosofo grego poetas e artistas em geral deveriam ser banidos por não considerarem a razão como seu guia de vida.

Ao longo dos séculos, a medida em que a Ciência avançou e, por tabela, o Racionalismo, as utopias deixaram transparecer cada vez mais suas contradições distópicas.  

Novas distopias, velhos pesadelos

 

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A distopia moderna nasce no início do século vinte na hoje extinta União Soviética por meio de um romance novamente escrito sob o temor da ameaça as liberdades individuais e conquistas sociais: Nós (1922), de Yevgeny Zamiatin.  

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Muito pouco lido atualmente, esta obra exerceu influencia direta sobre 1984 (1949), de George Orwell e Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, dois romances que ainda hoje são referências para outras produções do gênero.

Se você assistiu a Matrix (1999), por exemplo, saiba que a ideia de seres humanos fabricados em tubos de ensaio saiu do livro de Huxley, como mostra a imagem acima.

    

No Cinema, a Distopia tem sua origem no filme alemão Metropólis (1927), dirigida por Fritz Lang, estabelecendo muito da fotografia usada em outras produções cinematográficas sobre o tema, principalmente durante o mandato da presidência de Ronald Reagan de 1981 a 1989. 

É uma distopia se…

  • A história já começa dentro da realidade distópica (narrativa em media res);
  • A história é ambientada no futuro;
  • O(s) orgão(s) de controle se apoia(m) em um discurso que privilegia a razão em detrimento da emoção ou da imaginação;
  • Inicialmente o protagonista não tem consciência ou se aliena de sua condição de oprimido;
  • As instituições de poder controlam os meios de comunicação omitindo ou manipulando informações;
  • Há um incetivo a atividades coletivas por meio de esportes, rituais e celebrações enquanto que ações individuais, como a leitura, são marginalizadas;
  • O protagonista desperta de sua condição de alienado a partir do contato e interesse com alguém do sexo oposto;
  • Há a presença de um representante da ordem dominante que explica ao protagonista como o mundo se tornou uma distopia;

Distopias do século XX com ameaças do século XXI

Durante os anos Reagan as políticas adotadas encontraram reflexo em diversas publicações e produções distópicas da época. Cito abaixo apenas um exemplo de cada na Literatura, no Cinema e nas Histórias em Quadrinhos:

Literatura

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A História da Aia (1985), de Margaret Atwood

O romance da canadense Margaret Atwood situa-se em um futuro especulativo onde os assassinatos do Presidente e de congressistas americanos atribuídos a terroristas muçulmanos resultaram na dissolução dos Estados Unidos da América e na implantação de um Estado totalitário por militares cristãos fundamentalistas. Ou seja, é o perfil e muitos dos eleitores republicanos que votaram em Trump.

Nesta distopia as guerras quimicas, abortos e o uso indiscriminado de medicamentos levaram a maioria das mulheres a se tornarem inferteis ou gerarem crianças com malformações. Por conta disso, as que ainda são supostamente férteis e são solteiras, viúvas, divorciadas e provenientes de casamentos não legalizados foram aprisionadas pelo novo governo para exercerem a única função social de gerarem crianças saudáveis para a sociedade. 

Considerando a visão de Donald Trump sobre as mulheres… fica a dica.

Cinema

sobrevivente

O sobrevivente (1987), direção de Paul Michael Glaser 

Falar de distopia no Cinema norte-americano dos anos oitenta é falar de Blade Runner (1982), clássico cult do diretor Ridley Scott baseado no romance Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), do escritor Philip K. Dick. 

Mas, como Donald Trump será com certeza um presidente midiático, indico uma distopia com Arnold Schwarzenegger, e que não é O Exterminador do Futuro (1984).

O Sobrevivente é baseado no romance O concorrente (1982), de Stephen King e  mostra como no ano de 2017 (profecia?), os Estados Unidos estarão sob o comando de um governo totalitário que retirou a liberdade individual de toda a população. Livros são queimados e instituições de ensino são fechadas.

A única diversão do povo é a TV, e o programa mais popular é um reality show  em que sobreviver é a única recompensa. Neste cenário um homem é culpado de um crime que não cometeu e sua sentença é para a cadeia ou entrar para o jogo. 

Imagine uma mistura de Jogos Vorazes com Schwarzenegger e o resultado é O sobrevivente

Histórias em quadrinhos

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O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller 

Esta graphic novel, que ao lado de Watchmen (1986), de Alan Moore redefiniu o gênero de histórias em quadrinhos de super-heróis, mostra um Batman amargo e envelhecido que anos depois de ter abandonado a carreira de vigilante mascarado decide retornar ao combate ao crime em meio a uma decadente Gotham City do futuro tomada pela violência e a alienação da mídia.

Indico esta obra pela ácida crítica de Frank Miller a sociedade americana e a alienação da Mídia, tendo como pano de fundo a política de governo dos anos Reagan. Ou seja, a mesma coisa a se esperar de Donald Trump.

E agora?

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Lendo e assistindo as sugestões aqui de livros, filmes e quadrinhos você não será pego de surpresa pelas possíveis ações do novo Presidente dos Estados Unidos pelos próximos quatro anos.

Considerando a influencia norte-americana sobre a cultura e a disseminação de um pensamento de direita pelo mundo, especulo que nos próximos anos veremos uma nova onda de obras distópicas mais tradicionais, com tom mais sério que distopias adolescentes como Divergente e Jogos Vorazes e com foco no poder da mídia (algo que já se pode ver na série Black Mirror), além do questionamento de conquistas sociais de grupos minoritários.    

É esperar pra ver, mas espero que não!

Que livros, filmes e quadrinhos as promessas de governo de Donald Trump te lembra?

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Escritor por: Alexander Meireles da Silva

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