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O que há de errado com as novas princesas da Disney?

Este post parte de uma inquietação minha, já de algum tempo, não apenas com as novas princesas da Disney, mas também com outras personagens femininas presentes nas animações e filmes ligados aos contos de fada contemporâneos.

No dia 31 de março participei de uma banca de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFG – Regional Catalão em que a aluna Fernanda Lázara de Oliveira Santos defendeu, brilhantemente, as novas configurações das mulheres em animações do estúdio Disney.

Em um dado momento, enquanto a aluna falava dos filmes Malévola (2014), Frozen (2013) e Valente (2012), eu me peguei pensando :

“Porra, mas será que todo homem em contos de fadas hoje tem de ser um FDP ruim ou então um Zé Ruela pobre pra mulher se destacar?”  

Já pensou nisso?

De fato, por trás da aparente representação de princesas que se colocam em pé de igualdade diante de personagens masculinos, o discurso da Disney esconde um desequilíbrio entre os gêneros no qual, para valorizar o feminino, atualmente se atinge o masculino.  

E isso não ajuda as mulheres a mostrar que, ao contrário do que muitos erroneamente pensam, o Feminismo não prega a superioridade das mulheres em relação aos homens, mas, sim, a defesa da igualdade entre os gêneros

Mas pra ajudar você a entender melhor o que estou falando aqui, veja abaixo o que vou chamar aqui de três fases das princesas Disney:

Primeira fase: “Salve-me ó bravo príncipe!”

Princesas:

  • Branca de Neve (1939);
  • Cinderela (1950);
  • Aurora (1959).

Presente no livro Contos da Mãe Gansa (1697), do francês Charles Perrault, livro que inaugurou o gênero conto de fada, “A Bela Adormecida” virou animação da Disney em 1959.

O desenho foi o ponto alto dos estúdios Disney na primeira metade do século vinte. E Aurora, o símbolo maior, da primeira fase das princesas Disney iniciada em 1939 com a animação Branca de Neve e os Sete Anões.

Branca de Neve e os Sete Anões (1939), Cinderela (1950) e A Bela Adormecida (1959) compõem a Primeira Fase das Princesas Disney.

O ponto importante a ser destacado neste primeiro momento é uma maior fidelidade das animações em relação ao texto literário.

Assim como suas equivalentes literárias, as princesas dos contos de fada da Disney refletiam o espaço limitado da mulher na sociedade ocidental.

Ou seja, de fins do século 17 até o fim dos anos 50 do século 20 não houve alteração significativa na visão sobre a mulher na cultura que provocasse um outro tipo de personagem feminino diferente daquele encontrado nos contos de fadas da Disney para o Cinema. 

Como disse mais acima a princesa Aurora da animação A Bela Adormecida simboliza esse espaço de apagamento da mulher.

Afinal de contas, ela aparece apenas em 18 minutos da animação em que ela é a personagem principal e tem apenas 18 falas (!!).

Faz participação especial em seu próprio filme!

Basta olhar a imagem do DVD comemorativo dos 50 anos da animação lançado em 2009. 

Quem está protagonizando a ação? 

Esse fato mostra bem o perfil das princesas clássicas da Disney até o fim dos anos 50.  

Estrutura das histórias

  • Par romântico: Príncipes valentes e corteses.
  • Vilões: Mulheres mais velhas, reforçando a disputa entre mulheres pela atenção masculina;
  • Comportamento da princesa: passiva (a ponto de dormir).
  • Representação masculina: pais e príncipes, são objeto de obediência e devoção. 

Segunda fase: “Eu posso, Eu quero, eu consigo!”

Princesas:

  • Ariel (1989);
  • Bela (1991);
  • Jasmine (1992);
  • Pocahontas (1995);
  • Mulan (1998);
  • Tiana (2009);
  • Rapunzel (2010).

Apenas em fins dos anos 80, trinta anos depois de A Bela Adormecida, a Disney voltou as histórias de princesas com A Pequena Sereia (1989).

Mas, as princesas não podiam mais ser as mesmas.

Surge a princesa rebelde

Afinal de contas, entre 1959 e 1989 o Movimento Feminista dos anos 60 e 70 tinha conquistado visibilidade para mostrar o lugar de opressão ocupado pelas mulheres em diversas esferas, incluindo ai a Literatura.

Neste contexto, diferentes escritoras se apropriaram de formas literárias marcadas por um discurso depreciativo contra as mulheres e as usaram como uma importante ferramenta para se desconstruir a visão sobre o feminino. 

E, dado o seu histórico contra as mulheres, a Fantasia foi uma das escolhidas.

Exemplos disso são a coletânea de contos O quarto do Barba-Azul (1979), de Angela Carter, em que os contos de fadas são reapresentados por uma perspectiva feminista.

Destaque também para a quadrilogia As Brumas de Avalon (1979), de Marion Zimmer Bradley, em que o universo do Rei Arthur e reimaginado pela ponto de vistas das mulheres.

E as princesas da Disney?

Lentamente, as novas princesas foram surgindo ao mesmo tempo em que um novo perfil de relacionamento entre homem e mulher foi se estabelecendo nas animações:

O equilíbrio entre os gêneros alcançado por meio da transformação do masculino.

Vamos aos casos.

Ariel

A primeira das novas princesas da Disney, Ariel é vagamente inspirada na personagem do conto “A Pequena Sereia” (1837), de Hans Christian Andersen, Pai da Literatura Infantil. 

Alias, as mudanças começam ai.

Na Segunda fase, as animações da Disney tem mais preocupação em explorar os elementos icônicos das personagens do que necessariamente adaptar as histórias originais.

Mas, além de não seguir em linhas gerais o texto original, o que A pequena sereia apresentou que a diferenciasse de fato das princesas clássicas da Primeira fase?

Se em um primeiro momento o roteiro da animação traz um príncipe clássico e uma vilã que se interpõe como obstáculo ao triunfo do amor do casal, um olhar mais apurado revela inovações importantes na representação da princesa, tais como: 

  • A princesa quer conhecer o mundo ao seu redor, e não se satisfaz mais apenas com o seu círculo conhecido;
  • Ela contesta e subverte a autoridade paterna;
  • Ela se mostra ativa no cumprimento de seus objetivos.

Sendo a retomada da Disney ao universo das princesas, o estúdio não se arriscou demais além dos pontos mostrados acima e apostou no padrão em que o príncipe está em uma posição superior a personagem feminina.  

Bela 

Aqui começa a mudança de fato.

Animados com o sucesso de A pequena sereia os estúdios Disney foram buscar outra história em que a personagem feminina pudesse ser representada com comportamento ativo.

Eles encontraram o que queriam no conto “A Bela e a Fera”, de Madame de Beaumont (Jeanne-Marie Leprince de Beaumont), publicada na Le magasin des enfants (1756).  beaumont

Originalmente o conto tinha o propósito de ensinar as mulheres a suportarem o ambiente de violência doméstica a que eram submetidas na França do século 18, enfatizando que apenas o amor contínuo poderia transformar o comportamento do homem.

Já na animação de 1991 o conto ganhou um sub-texto que discute e subverte a construção dos gêneros masculino e feminino pela sociedade.

E é por meio dos personagens da Fera e de Gaston que começa o empoderamento do feminino pela crítica ao masculino.

Gaston e a Fera são, em essência, o mesmo personagem. A aparência física conduz seus comportamentos e ambos tem uma postura machista em relação a Bela. 

Enquanto Gaston não muda, a transformação da Fera em Príncipe, ou seja, sua evolução, só ocorre quando ele abre mão de seu comportamento bestial (“machão”).

A marca desta transformação é a forma andrógina do príncipe, sinalizando que ele se tornou mais feminino, ao enxergar em Bela uma igual.  

A Bela e a Fera é a primeira animação da Disney que investe no equilíbrio entre os gêneros, e não no detrimento de um gênero sobre o outro, como força de valorização da mulher. 

Talvez também por isso tenha sido uma das mais bem sucedidas adaptações de contos de fada já na sua primeira versão nos anos 90. O que se repetiu em sua versão live action em 2017.

Variações de “A Bela e a Fera”

Tiana

A primeira princesa negra da Disney, Tiana, repete em A princesa e o sapo (2009) o mesmo percurso de Bela.

Semelhante a protagonista de A Bela e a Fera, Tiana é pobre, nutre o desejo de encontrar o seu lugar no mundo (no caso aqui, abrir um restaurante) e se vê envolvida por uma criatura que tem sua natureza nobre escondida por trás de um feitiço. 

A inovação aqui é mostrar que não apenas o príncipe arrogante e imaturo, mas também a própria Tiana precisam crescer como indivíduos para, juntos em equilíbrio, alcançarem a transformação de volta a forma humana. 

Jasmine e Rapunzel 

As princesas de Aladdin (1992) e Enrolados (2010), seguem o padrão de A Bela e a Fera com a mudança da inversão de classes sociais entre heroína e herói. 

Tanto Jasmine (sendo filha do sultão) quanto Rapunzel (com seu super cabelo lanterna anti-envelhecimento) possuem poderes que evidenciam sua natureza real e as colocam logo no início da história em posição superior aos seus pares românticos, pobres.

Aladdin

O Aladdin da Disney, em particular, é um “Cinderela” as avessas ao mostrar uma figura órfã em situação de pobreza que deseja se encontrar com a realeza e, por meio de uma intervenção mágica, consegue os meios para tal propósito.

Essa situação permite ao personagem mostrar, por meio do relacionamento com a princesa, que é nobre de coração.

Flynn Rider

Já em Enrolados, ao invés de um príncipe como no conto “Rapunzel”, dos irmãos Grimm  o personagem Flynn Rider é um ladrão egoísta que, a medida em que se relaciona com Rapunzel após resgata-la da torre, desenvolve seu lado heroico e altruísta.  

Em ambos os casos, a abordagem utilizada é mostrar mulheres que já desfrutam de um certo empoderamento e que conseguem se tornar ainda mais empoderadas ao promover a evolução (transformação) de seus pares românticos masculinos, culminando em uma situação de equilíbrio entre os gêneros. 

Princesas lendárias  

As princesas de Pocahontas e Mulan são um caso separado por serem baseadas em personagens reais.

Matoaka, o nome real da princesa indígena, gostava de ser chamada de “Pocahontas”, que na língua nativa significava “impertinente”.

Pocahontas foi a filha do chefe indigena Wahunsenacawh, líder da nação Powhatan na América do século 17 e peça importante nos primeiros momentos da colonização da América por colonos ingleses.

Hua Mulan é uma das personagens mais famosas da China Antiga.

Hua Mulan, por sua vez, teria vivido no século 4 da era cristã e as informações sobre ela vem de uma canção folclórica da Dinastia Wei do Norte (386-557 d.C).  

Os roteiros de ambos os filmes abordam os pontos populares nas vidas das duas figuras que são, no caso de Pocahontas, seu (ficticio) relacionamento amoroso com o explorador inglês John Smith e, no caso de Hua Mulan, sua participação disfarçada como homem no exército chinês contra os invasores do país. 

Pocahontas e Mulan entraram no clube das princesas pelo seus comportamentos nobres diante dos obstáculos de suas vidas.

Nestes dois casos em particular o tamanho histórico das personagens acabou por limitar o aprofundamento do relacionamento delas com seus pares românticos.

Estrutura das histórias

  • Par romântico: Príncipes problemáticos e ladrões;
  • Vilões: Predominantemente homens ambiciosos;
  • Comportamento da princesa: Ativa. Luta para conquistar seus objetivos.
  • Representação masculina: pais e príncipes, são objeto de contestação e desconfiança. 

Terceira fase: “Unidas venceremos (os homens)”

Princesas:

  • Merida (2012);
  • Elsa e Anna (2013);
  • Malévola (2014);

Os anos da década de 2010 são o cenário para o surgimento da Terceira fase das Princesas da Disney.

Até o momento da escrita deste post, este é a fase atual dessas personagens cinematográficas.

Merida

Ela tem início no ano de 2012 na Pixar, estúdio ligado a Disney mas que sempre gozou de certa liberdade com suas criações.

A princesa Merida, de Valente (2012) é a primeira princesa que não é baseada em fontes literárias ou históricas.

Além desse fato, a principal contribuição desta produção foi a introdução de personagens femininas que se ajudam mutuamente na resolução de seus problemas e questões, sem precisar contar com o auxilio direto de homens.

Valente rompeu com a necessidade de um par romântico masculino para a princesa, além de colocar os personagens masculinos como coadjuvantes ou vilões.

No caso da história da princesa Merida, seu pai, o rei Fergus é o alívio cômico da animação, assim como também os pretendentes a mão da jovem herdeira do reino.

O roteiro é focado no relacionamento filha e mãe, expresso por Merida e a Rainha Elinor.

“BRAVE” (L-R) MERIDA and QUEEN ELINOR. ©2012 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Concebida para ser rebelde desde os cabelos, Merida abriu caminho com seu arco e flecha para as princesas Elsa e Anna.

Elsa e Anna

Vagamente inspirado no conto “A rainha da neve” (1844), de Hans Christian Andersen, Frozen (2013) começa a linha das princesas derivadas da releitura de vilãs dos contos de fada, transformado a Ranha da Neve má de Andersen em uma princesa incompreendida pelos seus poderes.

Na mesma linha, a desconstrução do perfil de princesa prossegue com a representação da princesa Anna como uma personagem cômica. quebrando a expectativa que se tem de uma figura vinculada a nobreza. 

Os homens, por sua vez, se tornam vilões, caso de Hans, que usurpa o trono das irmãs Elsa e Anna e coadjuvantes, caso de Kristoff, um homem da montanha que auxilia Anna a alcançar a irmã.

Assim como Valente, Frozen se apoia no relacionamento entre mulheres, subvertendo também o clássico “beijo do amor verdadeiro”, ao mostrar que o amor fraternal de Elsa e Anna é maior que tudo.

Malévola 

Na releitura proposta pelo filme de 2014, descobre-se que Malévola, clássica vilã da animação A Bela Adormecida, também poderia ser uma princesa da Disney, visto sua posição de realeza entre as criaturas sobrenaturais da floresta.

Nesta proposta, mais uma vez, os homens assumem o papel de antagonistas, desta vez personificado pelo pai de Aurora, o Rei Stefan.

Aprofundando o caminho aberto por Valente e Frozen, Malévola apresenta uma representação depreciativa do masculino ao longo de toda a trama, apostando na diferença como promotor do feminino.   

Entre as mulheres, depois do relacionamento entre mãe e filha e entre irmãs, aqui se tem a relação entre Fada-Madrinha e afilhada.  

E esperemos o próximo passo, ou a próxima fase.

Vale a pena a guerra dos sexos?

Voltando a questão original, até que ponto essa abordagem da representação feminina ajuda na construção do dialogo entre os gêneros?

A construção da nova representação das mulheres nos Contos de fada precisa, necessariamente, ser baseada no relacionamento entre membros de apenas um dos gêneros?

Onde estão as obras de contos de fada, literárias e cinematográficas, que apostem em personagens masculinos e femininos em pé de igualdade na busca de problemas e soluções.

Longe de trazer respostas, fica aqui a proposta de debate para que não apenas homens e mulheres, mas também o Fantástico saia ganhando na discussão dos problemas da sociedade de hoje. 

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Fontes utilizadas

BELLEI, Sergio Luiz Prado. Monstros, índios e canibais: ensaios de crítica literária e cultural. Florianópolis: Editora Insular, 2000. 

SANTOS, Fernanda Lázara de Oliveira. Do papel à tela, três histórias de princesas: reconfigurações do feminino entre Literatura e Cinema. 2017. 106 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2017.

TAPIOCA NETO, Renato Drummond. A balada de Hua Mulan – a lenda da guerreira mais famosa da China.  03 de Setembro, 2016. Acesso em 07 de abril de 2017. Disponível em https://rainhastragicas.com/2016/09/03/a-balada-de-hua-mulan/

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

TUDOR Brasil. A verdadeira e trágica história de Pocahontas. 20 de dezembro, 2015. Acesso em 07 de abril de 2017. Disponível em https://tudorbrasil.com/2015/12/20/a-verdadeira-e-tragica-historia-de-pocahontas/

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

 

7 curiosidades sobre “A Bela e a Fera” que você provavelmente não sabia (e a 4° pode até te chocar)

O novo filme da Disney sobre “A Bela e a Fera” para 2017 reforça a vitalidade deste conto de fadas mesmo após 260 anos de sua estréia literária como o conhecemos. Mas há curiosidades sobre esta história que você provavelmente não conhece e algumas podem até te chocar. Veja abaixo:

1. “A Bela e a Fera” não foi criado pela Disney e nem por quem você acha que foi

Quando se fala do gênero contos de fadas, 3 nomes vem a sua mente:

  • Charles Perrault (“Bela Adormecida”, “Cinderela”, “O Gato de Botas”);
  • Irmãos Grimm (“Chapeuzinho Vermelho”, “Branca de Neve”, “João e Maria”;
  • Hans Christian Andersen (“Patinho feio”, “A Pequena Sereia”, “O Soldadinho de Chumbo”

“A Bela e a Fera”, no entanto, foi criado por uma mulher, Madame de Villeneuve (Gabrielle-Suzanne Barbot), e publicado na França em 1740 no La Jeune Ameriquaine et les Contes Marins.

A versão que você conhece hoje foi elaborada por Madame de Beaumont (Jeanne-Marie Leprince de Beaumont) (Figura abaixo) para a obra francesa Le magasin des enfants (1756) e é uma versão reduzida do original de 1740.   

beaumont

Com o conto, Beaumont queria ensinar as meninas e moças a importância das boas maneiras e do bom comportamento. 

Girl Power #SQN

2. Cupido foi a primeira Fera

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Ainda que Madame de Villeneuve tenha criado o conto no século 18, praticamente todas as culturas possuem uma história em que o amor tem de superar as aparências físicas.

Neste sentido, “Eros e Psique” é mais antiga versão de “A Bela e a Fera” conhecida.

Publicada no século 2 d.C. em Metamorfoses de Lúcio (também conhecido como O asno de ouro), de Apuleio de Madaura, “Eros e Psique” mostra como a jovem Psique se envolveu com o deus Eros (Cupido, como chamavam os romanos) por várias noites em um quarto escuro sem nunca conseguir ver a forma do amado.

Convencida pelas invejosas irmãs de que Eros era um monstro que queria devorá-la, Psique iluminou o rosto do amado quando este dormia e descobriu um ser belíssimo. Eros ficou profundamente magoado com a ação da jovem e desapareceu. Somente após Psique realizar várias tarefas impostas por Afrodite (mãe de Eros) o casal se reconciliou em matrimônio.  

Mexeu com o filho, a sogra se meteu.

3. A Fera não tem uma forma definida

Diferente do personagem da Disney tanto na animação de 1991 quanto na nova versão de 2017 (e que é até simpático), a criatura do conto de fadas não tem descrição física definida.

Ele já foi representado como um javali, urso, cobra, porco-espinho, leão, touro, ou uma mistura de vários animais. Veja abaixo algumas dessas formas:

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4. “A Bela e a Fera” ensina as mulheres a suportarem a violência doméstica

Partindo de sua experiência lidando com vitimas de abuso doméstico, Laura Beres afirma no artigo “The Romanticization of Abuse in Popular Culture” (1999), que muitas mulheres enxergaram em “A Bela e a Fera”, principalmente ao assistirem a animação da Disney de 1991, um consolo romântico para sua realidade de violência em casa

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No mesmo artigo, Robin Norwood, autor de Women Who Love Too Much (1985), reforça esta ideia ao dizer que “A Bela e a Fera” parte de uma tradição histórica no qual as mulheres deveriam aceitar um homem independente de sua personalidade, amando-o a despeito de seu comportamento.  

Concordam com a ideia meninas?

5. O vilão Gaston e os objetos mágicos falantes são invenções da Disney

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Ao contrário da versão da Disney, não existe um personagem chamado Gaston no conto de fadas de Madame de Beaumont.

Da mesma forma, não há nenhuma menção a objetos encantados falantes, que seriam na verdade os serviçais humanos da Fera.  

A ausência de outros personagens dentro do castelo descrito no conto de fada tem como objetivo reforçar a solidão vivenciada pela Fera até o momento da chegada de Bela.

Por outro lado, as versões da Disney omitem as irmãs de Bela, que por terem sentindo inveja da irmã são transformadas em estátuas ao fim do conto e colocadas em frente ao palácio de Fera para assistirem, eternamente, a felicidade da irmã. 

Inveja é uma m….

6. “A Bela e a Fera” já foi Romance Policial e até Ficção Científica

Dentre as várias adaptações do conto de fadas para outras mídias, formatos e gêneros, destaque para a série de TV A Bela e a Fera (1987-1989), que apresentava o relacionamento entre a advogada Catherine, vivida por Linda Hamilton (a Sarah Connor dos filmes Exterminador do Futuro 1 e 2) e o ser do subterrâneo Vincent, interpretado por Ron Perlman (que interpretou o super herói Hellboy nos dois filmes da série).

Na série o bestial Vincent protegia Catherine dos perigos do crime na cidade de Nova York.

beauty_and_the_beast_1987_tv_seriesJá em Red as Blood, or Tales from the Sisters Grimmer (1983), ficção científica da escritora britânica Tanith Lee, “A Bela e a Fera” aparece na forma do conto “Beauty-Earth”.

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7. A Bela e a Fera e a Fera e a Bela: Releituras atuais

Na literatura de hoje, “A Bela e a Fera” aparece em releituras variadas, mas que, como ponto em comum, trazem personagens femininas que abraçam o lado selvagem e sensual da sua natureza, subvertendo os papeis sociais normalmente reservados as mulheres. Como exemplo você tem:

  • Literatura pós-moderna, como os contos “A corte do Sr. Lyon” e “A noiva do tigre”, de Angela Carter, ambos publicados na coletânea de contos O quarto do Barba Azul (1999)

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  • Romances da categoria Novos Adultos, tais como Beleza perdida (2013), de Amy Harmon;

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E ai? Já conhecia essas curiosidades? Quais são suas expectativas para o novo filme da Disney? Comente e compartilhe!

E acompanhe novos posts toda quarta-feira às 9h.

Fontes utilizadas

TATAR, Maria. (Ed.). Contos de fadas: edição comentada e ilustrada. Trad. X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

WARNER, Marina. From the Beast to the Blonde: on Fairy Tales and Their Tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When Dreams Come True: Classical Fairy Tales and Their Tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com