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Jogando luzes nas trevas (Parte 3): O Gótico no Brasil decadente

No primeiro post escrevi sobre como o Gótico chegou a Literatura Brasileira durante o Romantismo por meio do Gótico Colonial, quando escritores abordaram o interior do país em um processo de reconhecimento e apresentação do país aos brasileiros.

O château do local foi construído no estilo em estilo gótico-provençal
Castelo Gótico da Ilha Fiscal, no centro do Rio de Janeiro.

Já no segundo post, da semana passada, o assunto foi a chegada do Gótico aos centros urbanos brasileiros através da Ciência Gótica.

O termo "Ciência Gótica" usado pelo crítico brasileiro Bráulio Tavares.
O Romance FRANKENSTEIN (1818), de Marys Shelley é tomado como um dos primeiros casos de Ciência Gótica .

Nesta terceira e última parte dos primeiros momentos da Literatura Gótica no Brasil vou mostrar como, além da Ciência Gótica, o Gótico se manifestou nas cidades brasileiras através por Decadentismo

A decadência do moderno

Ilustração do artista simbolista e surrealista Santiago Caruso.

O termo “Decadência”, conforme o verbete no Dictionary of Literary Terms and Literary Theory (1991), descreve um período da Arte ou da Literatura que, comparado com a excelência de uma era anterior, está em declínio.

Origem

Ilustração do artista simbolista e surrealista Santiago Caruso.

Ainda que o termo já tivesse sido usado para descrever, lá na Antiguidade, o final dos períodos Alexandrino (300-30 a.C.) e do Imperador Romano Augusto (14 d.C.), ele se consagrou nos tempos modernos na França para designar o movimento simbolista de meados e fim do século XIX.

Em termos estritamente literários, segundo o crítico Orna Messer Levin em As figurações do dândi (1996), a noção de Decadência apareceu pela primeira vez na França em 1834 no estudo do crítico Desiré Nisard no qual eram analisadas as semelhanças da poesia latina com a literatura romântica.

Mas foi com a coletânea de poemas As flores do mal (1857), do poeta Charles Baudelaire, fortemente influenciado pela visão artística de Edgar Allan Poe, que a literatura decadentista encontrou o seu manifesto, ganhando força através da influência exercida sobre os artistas contrários ao status quo.

Características

Ilustração do artista simbolista e surrealista Santiago Caruso.

O Decadentismo era identificado por algumas características, tais como:

  • Autonomia da arte em relação as questões sociais;
  • Necessidade do sensacionalismo;
  • Necessidade do melodrama;
  • Foco no egocentrismo;
  • Preferência pelo bizarro;
  • Construção de um mundo interior, artificial;
  • Posição autônoma do artista em relação à sociedade, particularmente a classe média burguesa;
  • Crítica ao racionalismo científico presente no pensamento realista-naturalista.

A Bíblia do movimento

Ilustração do artista simbolista e surrealista Santiago Caruso.

Em 1884, o Decadentismo chegou à prosa com a publicação de Às avessas, de Joris-Karl Huysmans, considerado como o “breviário” do movimento.

Nele, as idéias decadentistas ganham corpo no protagonista Des Esseintes, que exemplifica a figura decadente, consumida pela maladie fin de siècle.

Ele devota sua energia, fortuna e inteligência à substituição do natural pelo não-natural e artificial em uma existência que se resume pela busca de sensações novas e bizarras, uma ânsia trágica de libertação e narcisismo.

Na Literatura Inglesa, que veio a impactar diretamente esta manifestação do Gótico no Brasil, encontramos personagens decadentes nas figuras de Dr. Jekyll/Mr. Hyde (O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde /1886) e, principalmente, o jovem Dorian Gray (O retrato de Dorian Gray / 1891). 

A cidade nova e decadente

A influência do Decadentismo como veículo para as convenções e temáticas do Gótico se manifestou no uso da cidade como principal espaço das histórias.

Como destaca Alexandra Warwick em “Urban Gothic” (1998), a alienação do homem oprimido por uma cidade negra pela fumaça das fábricas foi refletida em uma personalidade paranoica e fragmentada.

A cidade, seja a Londres vitoriana ou o Rio da Belle Époque, apareceu como um lugar de ruínas, paradoxalmente sempre novo, mas sempre decadente, um estado de morte em vida que, no romance Drácula (1897), de Bram Stoker, ajuda a explicar a atração de Londres sobre o morto-vivo da Transilvânia.

Essa dualidade também foi refletida em O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde onde a dualidade dos personagens reflete a contradição de uma cidade com comportamentos distintos de dia e de noite. 

No Brasil, escritores diversos incorporaram esse espírito decadentista/simbolista como, dentre outros, Alphonsus de Guimaraens, Rocha Pombo e, nos anos 50, Cornélio Pena, mas nenhum outro foi mais representativo das contradições das primeira décadas do século 20 que João do Rio, pseudônimo do jornalista e escritor Paulo Barreto.

O Gótico decadentista brasileiro

João do Rio foi o responsável por introduzir Oscar Wilde no Brasil.

“Oh! SIM, as ruas têm alma. Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, speenéticas, esnobes, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue…” (RIO, 1987). 

A rua, esta entidade de vida própria, reflexo da alma ambígua do escritor-jornalista, é o lugar por onde passeiam de dia a dama da sociedade, o cavalheiro, as modern girls e os chamativos automóveis.

É na noite, porém, que este local se revela plenamente na apresentação de sua atmosfera carregada de vício, medo e mistério.

Não à toa o título de seu principal livro de contos – Dentro da noite (1910) – anuncia o palco ideal para narrativas povoadas por jogadores, neuróticos, suicidas, sádicos, pervertidos, hiperistéricos e outros personagens desajustados.

Falando sobre a importância desse elemento e do desejo de modernização urgente da época, Marshall Berman destaca:

“Por toda a era de Haussmann e Baudelaire, entrando no século XX, essa fantasia urbana cristalizou-se em torno da rua, que emergiu como símbolo fundamental da vida urbana” (BERMAN, 1986).

A menção a dois ícones do período de posições e valores opostos – Haussmann e Baudelaire – enfatiza a condição ambivalente e contraditória da rua que foi assumida pela ficção de João do Rio. 

Uma característica comum de estetas como Des Esseintes, Dorian Gray e os personagens de João do Rio consiste na troca da realidade imediata pela ilusão.

Dorian Gray e PENNY DREADFUL

Esta construção visa criar um espaço dimensionado artificialmente no qual se afirme a capacidade do homem de libertar-se da natureza.

Os estetas rejeitam a paisagem natural de duas maneiras: usando cenários artificiais e recriando o espaço urbano a partir da força imaginativa. Assim, a cidade especifica um topos da literatura decadentista e também da literatura Gótica. Como salienta Levin:

“Na urbe o devaneio angustiante em busca de uma visão, uma imagem que integre o homem à vida ganha características topográficas. A ideia de que o homem se encontra subjugado ao desequilíbrio dos nervos aparece tematizada na cidade desconhecida, cheia de passagens obscuras que criam a sensação de mistério. Este espaço reproduz na forma de ruas estreitas, becos escuros, canais, pontes e avenidas a impossibilidade de a personagem decadentista reconhecer-se no tipo de vida contemporânea” (LEVIN, 1996).

Sobre bebês deformados e automóveis satânicos

Um exemplo dessa utilização do espaço urbano como pano de fundo de uma narrativa pontuada por uma atmosfera de imoralidade, erotismo, desordem e presença do sobrenatural é “O bebê de tarlatana rosa” (1910).

Carnaval carioca em 1920

Ambientada durante o Carnaval, período em que a razão, a ordem e o racionalismo são suspensos a favor do descontrole, da depravação e dos desejos bestiais, este conto de João do Rio acompanha os passos de Heitor de Alencar atrás de uma figura fantasiada de bebê com um nariz postiço.

Entre beijos e abraços, os dois personagens se afastam para uma rua escura onde em um ímpeto de tesão e curiosidade Heitor arranca a máscara da pessoa para revelar um ser que muito lembra a personificação da morte no conto e Poe “A máscara rubra da morte”:

“Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos que era alucinadamente – uma caveira com carne…” (RIO, 2001).

Seria uma figura feminina ou um homossexual? O conto deixa aberto as interpretações

A fragmentação sentida pelo homem finissecular diante das mudanças trazidas pela Revolução Industrial e pela alienação da Belle Époque deram margem a uma visão dos produtos da ciência e do progresso como elementos quase sobrenaturais, até mesmo satânicos, que se identificavam com a postura encontrada tanto no Decadentismo quanto na Ciência Gótica.

Este comportamento pode ser constatado em João do Rio diante do automóvel na crônica “A Era do Automóvel”:

“E a transfiguração se fez como nas férias fulgurantes, ao tã-tã de Satanás. Ruas arrasaram-se, avenidas surgiram, […] e desabrido o automóvel entrou, arrastando desvairadamente uma catadupa de automóveis. Agora, nós vivemos positivamente nos momentos do automóvel, em que o chofer é rei, é soberano, é tirano” (RIO, 1971).

Na crônica de João do Rio o automóvel é o símbolo do grande paradoxo da modernidade: ao mesmo tempo em que ele aponta a direção para onde a civilização se encaminha, ele altera radicalmente a paisagem e a noção de tempo e, neste processo, também muda a vida dos motoristas.

Nesta contradição se descobre o dilema decadente de João do Rio: declara amor à modernidade e paradoxalmente manifesta abertamente as suas reservas quanto aos seus efeitos.

A análise deste quadro ajuda a compreender o aparente paradoxo do dândi em flertar com as duas faces da Belle Époque. Na verdade, há apenas um lado, no qual está o homem finissecular, alienado e fragmentado pelo pensamento cientifico.

E assim, seja apresentando um país estranho aos brasileiro pelo Gótico Colonial, seja pela expressão do fascínio e temor com os produtos do progresso através da Ciência Gótica, ou se posicionando de forma crítica denunciando a decadência de uma sociedade racionalista, a Literatura Gótica aportou no Brasil, criando um caminho que seria seguido por outros escritores nas décadas seguintes.

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Uma ótima semana!

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. Trad. Carlos Moisés e Ana Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

BROCA, Brito. A vida literária no Brasil: 1900. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1960.

LEVIN, Orna Messer. As figurações do dândi: um estudo sobre a obra de João do Rio. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996.

LIMA, Luiz Costa. Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1986.

MIGUEL-PEREIRA, Lucia. Prosa de ficção (1870 a 1920). 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1957. (História da Literatura Brasileira. Vol. XII)

MOISÉS, Massaud. O Simbolismo. São Paulo: Editora Cultrix, 1973. (A literatura Brasileira, vol IV).

NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Epoque: Elite Culture and Society in Turn-of-thecentury Rio de Janeiro. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

PORRU, Mauro. Prefácios do imaginário decadentista. In: COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças. (Org.). Arte e artifício: manobras de fim-de-século. Rio de Janeiro: UFRJ, 2002. p. 57-68.

RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Secretária municipal de cultura, 1987. (Biblioteca Carioca; vol. 4)

______. A era do automóvel (fragmentos). In: MARTINS, Luís. João do Rio: uma antologia. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971, p. 47-50.

______. O bebê de tarlatana rosa. In: CUNHA, Helena Parente. (Seleção). Melhores contos de João do Rio. 2 ed. São Paulo: Global, 2001. (Melhores contos; 15), p. 71-75.

SILVA, Alexander Meireles da. O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira. Rio de Janeiro, UFRJ, Faculdade de Letras, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

TAVARES, Bráulio. (Org.) Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

WARWICK, Alexandra. Urban Gothic. In: MULVEY-ROBERTS, Marie. (ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998, p. 288-289.

Jogando luzes nas trevas (Parte 2) A Ciência Gótica chega ao Brasil

No último post, falei de como a Literatura Gótica entrou na Literatura Brasileira no início da segunda metade do século 19 por meio da juventude romântica, focando muito na visão da cidade sobre o interior do país e indo muito mais além do que apenas Noite na taverna (1855), de Álvares de Azevedo.

Assim como na Inglaterra Vitoriana de Jack, o Estripador, a cidade é o espaço central da maioria das narrativas góticas no Brasil dos primeiros anos de 1900.

Hoje vou explicar como a Literatura Gótica se manifestou no cenário urbano brasileiro no início do século 20 em resposta as mesmas questões que também o fizeram ressurgir nos últimos anos da chamada Inglaterra vitoriana (1837-1901) em obras como O médico e o monstro (1886), O retrato de Dorian Gray (1891) e Drácula (1897).

Sombras de uma bela época

No Brasil o Gótico se manifestou durante o período histórico conhecido como a República Velha (1889-1930) e, mais especificamente, na época da Belle Époque carioca, quando a ciência e o progresso mudaram a face do Rio de Janeiro. 

A Belle Époque européia (1890-1914) foi o ponto alto de um processo de fins do século dezenove e início do século vinte caracterizado de um lado pela prosperidade econômica resultante da industrialização rápida e da exploração colonialista, advindas ambas da hegemonia do racionalismo científico, e de outro pela estabilidade política, derivada de uma teia complexa de alianças diplomáticas.

Na Inglaterra, a Belle Époque marcou o auge de um processo ocorrido durante o reinado de sessenta e quatro anos da rainha Vitória (1837-1901).

No entanto, a prosperidade da época contrastava com a situação das classes populares não apenas na Inglaterra, mas na Europa como um todo.

Visão das fábricas de Manchester, por volta dos anos de 1870. 

Com o aumento das fábricas e os demais avanços do progresso, aumentou também a insegurança do povo em relação ao futuro. As fábricas se tornaram cada vez maiores, as profissões cada vez mais especializadas, as máquinas cada vez mais ininteligíveis.

Paris, modelo para o mundo

Sem dúvidas, nenhuma outra cidade européia incorporou de forma tão completa o espírito de seu tempo quanto Paris.

A capital francesa viveu durante a Belle Époque um período extremamente fértil do ponto de vista artístico e cultural.

A Exposição Universal, realizada em 1900, trazia a promessa de que a tecnologia ainda podia ser considerada como um instrumento promotor do progresso social e não exclusivamente como um veículo de desestruturação do modo de vida no campo ou de alienação social para as centenas de desempregados das cidades.

Em virtude desse quadro, não foi surpresa que, como tudo mais que remetesse à França na época, a Belle Époque atravessasse o oceano para aportar na capital federal do Brasil do começo do século vinte: o Rio de Janeiro.

A Belle Époque brasileira

O Rio de Janeiro da Belle Époque

Como salienta o crítico Jeffrey Needell, apesar da influência francesa sobre o Brasil possuir raízes ainda no início da colonização, via Portugal, foi no final do século dezenove, e mais especificamente no Rio de Janeiro do começo do vinte, que ela se ampliou afetando não apenas a vida cultural da metrópole brasileira, mas também a sua própria organização social.

Esse ponto pôde ser observado durante a República Velha no período dos governos dos presidentes Campos Sales (1898-1902) e Rodrigues Alves (1902-1906), quando uma série de projetos foi colocada em prática para transformar o Rio em uma Paris tropical. 

Avenida Central: Um dos símbolos maiores da Belle Époque carioca.

Após a inauguração da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) e a Revolta da Vacina, dois eventos marcantes desta época, o governo pôde mostrar ao mundo um Rio de Janeiro urbanizado, limpo e organizado como os grandes centros europeus.

Pela primeira vez na história do Brasil, portanto, a ciência e o progresso exerceram um impacto profundo e permanente na vida individual e social tanto dos ricos quanto dos pobres.

A Revolta da Vacina de 1904

Como era de se esperar, este novo zeitgeist chamou a atenção de escritores e pensadores brasileiros da mesma forma que havia acontecido no século dezenove com os escritores europeus em relação a Revolução Industrial.

O resultado artístico desse cenário foi o desenvolvimento de duas expressões da Literatura Gótica na época no Brasil: a Ciência gótica e o Gótico decadentista.

Para não ficar coisa demais aqui, no post de hoje vou falar apenas da Ciência Gótica.

Ciência Gótica

Um subgênero do fantástico definido pela tensão entre o racional e o irracional, a Ciência Gótica, segundo Bráulio Tavares, apresenta histórias que:

“[…] têm um pé na ficção científica, utilizando muitos dos seus aparatos exteriores (cenários, personagens, artefatos) mas que se recusam a lidar com a lógica, a verossimilhança e a plausibilidade científica que os adeptos de ficção científica usam […] Na ciência gótica, a parafernália tecnológica e a pseudo-racionalização materialista estão a serviço de situações bizarras, grotescas, impressionantes.” 

O exemplo clássico dessa forma literária, como aponta Tavares, é o romance Frankenstein (1818), da escritora inglesa Mary Shelley, por representar um divisor de águas na Literatura Gótica ao apresentar a ciência como um elemento causador da mesma angústia e inquietação antes exclusivamente gerada pelo sobrenatural.

Afetada profundamente pelo racionalismo da época, a população brasileira demonstrou um misto de fascinação e temor em relação ao progresso e a ciência da Belle Époque que se tornou matéria prima para narrativas que muito se assemelharam às praticadas pela ciência gótica britânica, norte-americana e francesa de romancistas e contistas como Mary Shelley, Edgar Allan Poe, Robert Louis Stevenson, Nathaniel Hawthorne, H. G. Wells, Guy de Maupassant e Villiers de L`Isle-Adam.

Esta semelhança demonstra que os escritores nacionais estavam em consonância com as inquietações e angústias de britânicos, americanos e franceses da virada do século.

Estas preocupações se manifestaram na Literatura Gótica brasileira em escritores diversos, tais como, e apenas para citar alguns, Coelho NetoJoão do Rio, Rocha Pombo, Gastão Cruls.

Para exemplificar esse cenário, vou focar hoje aqui apenas no chamado “Príncipe dos Prosadores” e escritor mais conhecido de se tempo, maior até que Machado de Assis: Coelho Neto.

Coelho Neto foi um dos maiores escritores de seu tempo, tendo sido também um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras

Coelho Neto desenvolveu narrativas muito semelhantes às encontradas nas literaturas góticas britânica, norte-americana e francesa que tem a cidade como espaço da trama a partir de um movimento literário e de doutrina religiosa com forte ligação com o sobrenatural: o Simbolismo e o Espiritismo.

A força mística do Simbolismo

Conforme explica Massaud Moisés em O Simbolismo (1973), esta estética literária foi eclipsada, desde a sua chegada, pelas correntes literárias vigentes na virada do século – o Parnasianismo e o Naturalismo.

Simbolismo brasileiro revelava a nítida respiração dos novos ares que começavam a soprar na França em decorrência do advento de As flores do mal (1857), de Baudelaire.

Por esta razão, os postulados em voga na França prevaleceram no Brasil:

  1. a concepção mística do mundo;
  2. interesse pelo mistério e o particular;
  3. a alienação do social;
  4. a criação de neologismos;
  5. adoção de vocábulos preciosos;

Foi através destes elementos simbolistas e decadentistas também que Coelho Neto escreveu, por exemplo, o romance Esfinge (1906).

Causando nas pessoas um senso de desvio sexual e perversão moral, o personagem James Marian de Esfinge em muito lembra Jean Des Esseintes e Dorian Gray, personagens respectivamente de Às avessas (1884), de Jori-Karl Huysmans e O retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde.

Posteriormente se descobre no romance, considerado um exemplo de “Prosa simbolista”, que essa sensação vem do fato de James Marian ser o resultado de um experimento do cientista místico Arhat que, após presenciar um acidente que mutilou um casal de irmãos resolve juntar as partes de seus corpos em um ser andrógino que é trazido a vida.

Percebe-se ai a influencia do romance Frankenstein, principalmente nos experimentos que mesclam ciência e misticismo, um tema característico da Literatura Gótica.

É importante mencionar que, diferentemente da visão propagada em várias adaptações pelo cinema que sempre privilegiaram o conhecimento cientifico da personagem e suas experiências com a eletricidade, Victor Frankenstein estava mais inclinado para a Alquimia do que para o conceito de Ciência que temos hoje, algo que em fins do século dezoito (onde a trama se desenrola) não se configurava uma contradição.

De fato, não apenas Frankenstein, mas outras obras como O retrato de Dorian Gray e mesmo Drácula podem ser percebidos na leitura de A Esfinge

Sendo um livro em domínio público, fica o convite para conhece essa obra, clicando aqui.

Fé e Ciência espírita

Além da presença de um misticismo oriental característico do Simbolismo, chama a atenção também nesta passagem e em todo o romance Esfinge, a utilização de um vocabulário marcado por idéias ligadas à crença da reencarnação.

Eram idéias que, segundo Roberto de Sousa Causo, estavam em consonância com uma doutrina religiosa muito em voga no Brasil da Belle Époque e na obra de Coelho Neto: o Espiritismo.

De fato, a presença do Espiritismo no contexto cultural brasileiro no tempo de Coelho Neto pode ser observada em diferentes contos do escritor brasileiro.

Um desses casos é o conto “A conversão” (1926), que vemos as idéias espíritas sendo usadas de forma a mostrar que os produtos da ciência e do progresso tecnológico na Belle Époque poderiam, até mesmo, estreitar as fronteiras entre o nosso mundo e o sobrenatural. 

Neste conto, dois amigos conversam sobre a inesperada conversão de um deles ao Espiritismo. A conversão ocorre quando testemunha a conversa da filha Julia com a neta morta Esther através do telefone:

“Ouvi toda a conversa e compreendi que nos estamos aproximando da grande Era, que os Tempos se atraem – o finito defronta o infinito e, das fronteiras que os separam, as almas já se comunicam.” 

Percebe-se ai que a incompreensão e o fascínio dos princípios científicos por trás do telefone abrem espaço para a interpretação do sobrenatural.

Outro conto de Coelho Neto, onde os limites entre a ciência e o sobrenatural se interpõe, é “A sombra” (1926).

Nesta narrativa, estruturada da mesma forma que “O conto do coração denunciador”, de Poe, o protagonista Avella relata como o ciúme que sentia pela esposa, de nome Celuta, o levou a matá-la por envenenamento.

Porém, ao invés de terminar neste ponto, a trama do conto toma uma nova direção ao mostrar a perseguição da sombra de Celuta a Avelar até que este confesse o seu ato (mais um evidente traço da influência do Espiritismo).

Mas, o que chama a atenção na narrativa, é que, ao invés de assumir responsabilidade pelos seus atos, Avellar coloca a culpa na ciência, como se esta fosse uma entidade que fomentou a sua desconfiança em relação à esposa para, assim, poder incorporar o cientista de forma plena e exclusiva.

Esta posição presente em “A sombra” atesta a maneira como a Literatura Gótica, em sua expressão da Ciência Gótica, vem desde Frankenstein apresentando um relacionamento ambíguo em relação à ciência e aos seus produtos, e o mesmo pode ser observado no Brasil do início do século 20.

E na próxima semana, a última parte sobre os primeiros momentos do Gótico no Brasil quando vou escrever sobre a influência do Decadentismo na Belle Époque em narrativas marcadas por perversão, taras e obsessões.

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Uma ótima semana!

Fontes utilizadas

BROCA, Brito. A vida literária no Brasil: 1900. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1960.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

COELHO NETO. A sombra. In: ___. Contos da vida e da morte. Porto: Livraria Chardron, 1926, p. 201-206

_______. Conversão. In: ___. Contos da vida e da morte. Porto: Livraria Chardron, 1926, p. 19-24.

______. Esfinge. Porto: Livraria Chardron, 1906.

EL FAR, Alessandra. Páginas de sensação: literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924). São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

LEVIN, Orna Messer. As figurações do dândi: um estudo sobre a obra de João do Rio. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996.

LIMA, Luiz Costa. Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1986.

MIGUEL-PEREIRA, Lucia. Prosa de ficção (1870 a 1920). 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1957. (História da Literatura Brasileira. Vol. XII)

MOISÉS, Massaud. O Simbolismo. São Paulo: Editora Cultrix, 1973. (A literatura Brasileira, vol IV).

NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Epoque: Elite Culture and Society in Turn-of-thecentury Rio de Janeiro. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

PORRU, Mauro. Prefácios do imaginário decadentista. In: COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças. (Org.). Arte e artifício: manobras de fim-de-século. Rio de Janeiro: UFRJ, 2002. p. 57-68.

SILVA, Alexander Meireles da. O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira. Rio de Janeiro, UFRJ, Faculdade de Letras, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

TAVARES, Bráulio. (Org.) Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

WARWICK, Alexandra. Urban Gothic. In: MULVEY-ROBERTS, Marie. (ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998, p. 288-289.

7 investigadores do oculto pré-John Constantine pra você conhecer

John Constantine, criação do mestre dos quadrinhos Alan Moore com Stephen Bissette e John Totleben.

Mesmo a pessoa mais cética não pode negar que o oculto exerce um estranho fascínio sobre a humanidade.

O Detetive do Pesadelo Dylan Dog completou 30 anos de existência em 2016.

Os limites entre o nosso mundo e o além, ou melhor, a manifestação do além em nosso mundo desperta o interesse do ser humano por tocar em um dos maiores tabus da vida: a morte.

O legionário Antonius Axia combate o sobrenatural na Bretanha

Neste quesito, destaque para o Investigador do Oculto

O Investigador do Oculto

Para este texto vou tomar aqui a definição de Sage Leslie-Mccarthy para “Detetives psiquicos”, mencionado por ele em sua Tese de Doutorado, que você pode acessar na integra a partir do link no fim deste artigo.

Para Sage Leslie-McCarthy,

“Essencialmente, a ficção de detetive psíquico envolve a investigação de eventos reportados como sobrenaturais por um personagem, ou personagens, que tentam compreender a natureza dos distúrbios e promover possíveis soluções.”

Dean e Sam contra o oculto
Os irmãos Winchester. Contra Deus e o Diabo.

Essa busca por desvendar e, por vezes, enfrentar o mundo invisível marca presença em diferentes expressões da cultura, seja na Literatura, nos Quadrinhos, no Cinema e na TV.

Esta série influenciou anos mais tarde, na década de 90, a criação da série ARQUIVOS X
Kolchak e os Demônios da Noite.

Se hoje a cultura pop conta com investigadores do oculto fictícios e reais tais como John Constantine (Hellbrazer), Dylan Dog (Bonelli Comics) Antonius Axia (Valiant Comics)*, os irmãos Winchesters Sam e Dean (Supernatural), Carl Kolchak (Kolchak e os Demônios da Noite) e o casal Lorraine e Ed Warren (Invocação do Mal) isso se deve a uma tradição literária que remonta a Antiguidade.

Veja então a seguir os 7 principais Investigadores do Oculto da Literatura que lançaram as bases para os personagens pop de hoje.

1. Atenodoro de Tarso

Ano de criação: 109 d.C.

Primeira aparição: Missivas litterae curatius
scriptae 

Criador: Plínio, o Jovem

Curiosidade: Personagem histórico que viveu nos primeiros anos da Era Cristã, o filósofo Atenodoro virou personagem de um relato escrito um século depois por Plínio, o Jovem no qual Atenodoro investiga um fantasma que assolava uma residência em Atenas.

Neste que é o primeiro relato de casa assombrada do Ocidente, Atenodoro passa um noite na casa e recebe a visita de um fantasma. Demonstrando frieza na situação o filosofo consegue descobrir que a aparição ocorria devido a falta do sepultamento apropriado dos restos mortais do fantasma, que se encontravam enterrados em um dos cômodos da casa.   

2. Doutor K

Ano de criação: 1817

Primeira aparição: Conto “A casa deserta” (“Das öde Haus”)

Criador: E. T. A. Hoffman

Curiosidade: Primeiro Doutor e investigador do oculto, o Doutor K. aparece no livro de contos  Nachtstücke (Contos Noturnos).

No conto, o personagem, que possui poderes  de clarividência, investiga um mistério sobrenatural que cerca uma casa. 

3. Dirk Ericson

O conto “The Haunted Homestead” pode ser encontrado neste ebook.

Ano de criação: 1840

Primeira aparição: Conto “The Haunted Homestead”

Criador: Henry William Herbert 

Curiosidade: Dirk Ericson aparece originalmente em um conto publicado em três partes no The Ladies’ Companion and Literary entre agosto e outubro de 1840  e que agora está disponível no ebook The Macabre Megapack: 25 Lost Tales from the Golden Age (2012).

Ele é o primeiro investigador do oculto na forma de detetive amador da Literatura e lida com um crime com elementos sobrenaturais. Para isso ele também conta com a ajuda dos personagens Asa e Enoch Allen.

4. Harry Escott

O conto “The Pot of Tulips” pode ser lido nesta coletânea

Ano de criação: 1855

Primeira aparição: Conto “The Pot of Tulips”

Criador: Fitz James O’Brien

Curiosidade: O primeiro investigador do oculto como detetive especialista no sobrenatural estreou na Harper’s New Monthly Magazine em novembro de 1855.

Quatro anos depois Harry Escott aparece novamente, desta vez no conto “What Was It? A Mystery,” publicado em março de 1859 na mesma revista.

As duas histórias foram republicadas na coletânea Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015).

Contando com a ajuda de outros personagens, Harry Escott investiga os mistérios do sobrenatural nas duas histórias.

5. Dr. Martin Hesselius

Ano de criação: 1869

Primeira aparição: Novela Green Tea

Criador: Joseph Sheridan Le Fanu

Curiosidade: Um dos principais investigadores doutores do oculto da segunda metade do século XIX e fonte direta para a criação de Abraham Van Helsing, o caçador de vampiros de Drácula, o Dr. Martin Hesselius apareceu ao longo de quatro edições do All the Year Round em outubro e novembro de 1869 enquanto durou a publicação de Green Tea.

Hesselius tinha o habito de guardar vastas anotações dos casos investigados por ele. Dentre eles, o mais famoso é o caso envolvendo Carmilla, a vampira de Karnstein.

Le Fanu usou os casos do Dr. Marin Hesselius como estrutura narrativa para o livro de contos In a Glass Darkly (1872). 

6. Dr. Abraham Van Helsing

Peter Cushing como Van Helsing nos filmes dos anos 60 produzidos pelo estúdio inglês Hammer.

Ano de criação: 1897

Primeira aparição: Romance Drácula

Criador: Bram Stoker

Curiosidade: Estima-se que o mais famoso Investigador do Oculto desta lista e da Literatura tenha sido criado a partir de diferentes fontes.

Além do Dr. Martin Hesselius, mencionado anteriormente, outras fontes apontadas como inspiração para Van Helsing foram o próprio Bram Stoker e o professor da Universidade de Budapeste Arminius Vambéry, pesquisador que ajudou Bram Stoker com informações iniciais sobre Vlad, o Impalador, modelo do vampiro Drácula. 

7. Diana Marburg

Ano de criação: 1902

Primeira aparição: Conto “The Dead Hand”

Criador: L.T. Meade e Robert Eustace

Curiosidade: A única mulher desta lista e primeira Investigadora do Oculto do século XX, Diana Marburg apareceu em uma série de contos originalmente publicados na versão americana da Pearson’s Magazine.

Na sequencia, os três contos apareceram na coleção The Oracle of Maddox Street (1904), de L.T. Meade. Atualmente estas narrativas podem ser encontradas no livro Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015)

A curiosidade maior com essa investigadora oculta de poderes místicos é a habilidade de investigar criminosos a partir da leitura da palma da mão. 

* Agradecimentos ao entusiasta de Quadrinhos Pedro Ventura pela indicação do investigador do oculto e legionário romano Antonius Axia. 

Gostou do texto? Então compartilhe com seus amigos naturais ou sobrenaturais e assine o blog.

Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

LESLIE-MCCARTHY, Sage. The Case of the Psychic Detective: Progress, Professionalisation, and the Occult in Psychic Detective Fiction from the 1880s to the 1920s. Tese de Doutorado. Queensland: Griffith University, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

NEVINS, Jess. The Encyclopedia of Fantastic Victoriana. Austin, Texas: Monkey Brain Books Publication, 2005. 

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Este texto pertence ao blog Fantasticursos

DARK UNIVERSE: O que os monstros da Universal podem mostrar hoje?

Monstros dos estúdios Universal
Da esq. para dir.: Homem-invisível, Dracula, o Monstro de Frankenstein, a Múmia, o Monstro da Lagoa negra, o Fantasma da Ópera, a Noiva de Frankenstein e o Lobisomem.

Nesta semana os estúdios Universal anunciaram o longamente prometido reboot da sua franquia de monstros, popularmente conhecida como “Os Monstros da Universal”.

A iniciativa, batizada de Dark Universe, vai re-apresentar os monstros do estúdio para a geração de hoje.

Mas, o que esperar deste projeto?

Em 2014 a presidente dos Estúdios Universal falou do assunto no The Hollywood Reporter ao declarar que os novos filmes de seus monstros estariam menos ligados ao Horror e mais vinculados ao gênero Ação e Aventura, além de outros gêneros.

Na ocasião, Donna Langley disse que o propósito é “reimagina-los e reintroduzi-los para um público contemporâneo”

Esta visão pode ser percebida no ritmo do primeiro filme do Dark UniverseA Múmia – lançado em 8 de junho de 2017 nos cinemas. 

Mas, quais medos e ansiedades estes monstros podem representar hoje em relação a sua primeira encarnação entre as décadas de 1920 e 1950?

A primeira encarnação monstruosa

Na sua primeira encarnação, e com base nos planos atuais do estúdio, pode ser estabelecido que a franquia de Monstros da Universal teve seu início nos anos de 1920 com O Fantasma da Ópera (1925).

O único filme da franquia lançado ainda na era dos filmes mudos, esta adaptação do romance O Fantasma da Ópera (1910), do escritor francês Gaston Leroux foi um sucesso de público e foi relançado em versão com som em 1930.

Isso animou o estúdio a dar prosseguimento com sua franquia monstruosa, que seria continuada com Drácula (1931), dirigido por Tod Browning e trazendo Bela Lugosi no papel que o imortalizou como o conde vampiro.  

O sucesso estrondoso da adaptação do livro de Bram Stoker de 1897 consolidou o caminho para outras criaturas, refletindo neste processo o alinhando dos monstros da Universal com os fantasmas da sociedade norte-americana dos anos de 1930 até 1950.

Dentre estes fantasmas, a enorme crise econômica da América, conhecida como A Grande Depressão, que lançou o país em um ambiente de incertezas e temores.   

Desempregados na América durante os anos 30.

Em um tempo em que as pessoas perdiam seus empregos, casas e a esperança no futuro, a crença em forças sobrenaturais além da compreensão humana ganhou espaço, abrindo o terreno para o monstruoso.  

Mas e agora? O que cada monstro da Universal pode mostrar a geração Y e Z?

O que os Monstros da Universal podem mostrar hoje

Da esq. para a dir.: Russel Crowe, Javier Bardem (sentado), Tom Cruise, Johnny Depp e Sofia Boutella. Os novos rostos dos monstros da Universal.

Assim como ocorreu nos anos 40, os monstros da Universal irão se encontrar em filmes.

No entanto, diferente da época em que estes encontros ocorriam em comédias, já sinalizando o cansaço dessas criaturas como agentes do medo, o Dark Universe irá construir um universo compartilhado.

De fato, como o próprio estúdio coloca, esta será a resposta da Universal ao universo compartilhado de heróis da Marvel e da DC.

O eixo central é o personagem Dr. Henry Jekyll, vivido pelo ator Russel Crowe. Ele será o diretor da Prodigium, um local onde diversas criaturas sobrenaturais são mantidas.

Conheça a Prodigium clicando aqui.

Cabe ao Dr. Henry Jekyll, semelhante a Nick Fury na Marvel e Bruce Wayne na DC, reunir ou eliminar essas criaturas.

Até o momento da escrita deste post, seis filmes do Dark Universe foram anunciados em diferentes estágios de produção:

  • A Múmia (lançamento em junho de 2017);
  • A Noiva de Frankenstein (Em pré-produção e previsto para fevereiro de 2019);
  • O Homem Invisível (Em desenvolvimento e estimado para 2020);
  • O Monstro da Lagoa Negra (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • Van Helsing (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • O Lobisomem (Em desenvolvimento e sem data prevista em lançamento).

Ainda que seja esperado que a ação supere a reflexão no que se refere a explorar os monstros como símbolos de questões contemporâneas, fica aqui abaixo o que cada monstro pode trazer de debate com base no seu legado literário.

1. A Múmia

Origem: Cultura egípcia 

Obra de estréia: A Múmia (1932)

Melhor filme até aqui: A Múmia (1999)

LegadoA múmia já foi objeto de análise aqui no blog onde eu discuti os problemas que cercam o personagem. Para ler o post, clique aqui.

Basicamente, o personagem guarda semelhança com o vampiro enquanto criatura morta-viva e de passado nobre, mas não tem o forte simbolismo erótico do primeiro. 

Além disso, enquanto monstro que nos leva a refletir sobre a nossa mortalidade e o além-vida, a múmia perdeu seu espaço para o zumbi. 

2. A Noiva de Frankenstein

Origem: Literatura

Obra de estréia: A Noiva de Frankenstein (1935)

Melhor filme até aquiA Noiva de Frankenstein (1935)

LegadoUm dos maiores ícones femininos no Cinema, a noiva de Frankenstein tem seu nascimento no romance Frankenstein (1818), ainda que na obra ela seja apenas mencionada, mas não de fato criada. 

A força simbólica da personagem pode render excelente debate sobre o empoderamento feminino, principalmente pelo fato de ser (literalmente) um produto do discurso masculino.

3. O Homem invisível

Origem: Literatura

Obra de estréia: O Homem Invisível (1897), de H. G. Wells

Melhor filme até aquiO Homem Invisível (1933)

Legado: Como já também analisado aqui, desde sua gênese literária, o personagem é uma releitura do tema do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson.

O tema da invisibilidade permite a discussão sobre nossos limites éticos. O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? 

4. O Monstro da Lagoa Negra

Origem: Cinema

Obra de estréia: A Criatura da Lagoa Negra (1954)

Melhor filme até aquiA Criatura da Lagoa Negra (1954)

Legado: O caçula dos Monstros da Universal e o único sem ligação literária, folclórica ou cultural, este monstro é produto do discurso científico dos anos 50, fascinado com mutações e seres alienígenas.

Ele simboliza os mistérios e perigos escondidos da natureza e o quanto pode ser perigoso ao homem tentar desvendar esses elementos sem demonstrar respeito pelos mesmos. 

5. Van Helsing

Origem: Literatura

Obra de estréia: Drácula (1897), de Bram Stoker

Melhor filme até aqui: O Horror de Drácula (1958)

Legado: Desde sua primeira aparição o cientista e investigador do sobrenatural Abraham Van Helsing simboliza o agente responsável pela restauração da ordem em um mundo onde o caos se manifesta por meio do monstro.

Por vezes, subvertendo até mesmo a ética para alcançar esse fim.

6. O Lobisomem

Origem: Mitologia

Obra de estréia: A Lobisomem (1913) (filme perdido da Universal)

Melhor filme até aquiO Lobisomem (1941)

Legado: Assim como o próprio personagem do Dr. Jekyll (e Mr. Hyde), o lobisomem tem sua força enquanto monstro que aborda a dualidade do ser humano. O embate entre nossos impulsos e vontade individuais contra nossas obrigações e deveres sociais. 

Agora é só esperar que façam um bom trabalho com a enorme tradição cultural destes monstros atemporais, sem apelarem apenas para efeitos especiais.

E aí? Quais são as suas expectativas para o Dark Universe

Será que vão respeitar o legado dos Monstros da Universal?

Deixe seu comentário, compartilhe este post com seus amigos monstruosos e assine o blog.

Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LEADBEATER, Alex. The Mummy Director Explains Dr. Jekyll’s Role in the Film. In: SCREENRANT. Acesso em 27 maio de 2017.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Você conhece os 7 vampiros e vampiras que criaram DRÁCULA?

No post “1732: o ano em que os vampiros dominaram a Europa” mostrei que o folclore do leste europeu é marcado pela presença de mortos-vivos que saem de seus túmulos para se alimentar da essência vital dos vivos.

Também mostrei como essas narrativas chegaram a Europa do século 18 criando um intenso debate no meio religioso e acadêmico sobre a existência ou não dos vampiros.

E a Literatura, é claro, não ficou a margem dessa discussão.

Mas diga a verdade: Quando você pensa em vampiro na Literatura, você pensa primeiro no Conde Drácula, não é?

Christopher Lee, o Drácula dos filmes do estúdio inglês Hammer nos anos 60.

Mas se hoje Drácula é sinônimo de vampiro isso é resultado de outros seres vampíricos que surgiram antes dele.

Seres que estabeleceram uma tradição literária que seria usada por Bram Stoker para escrever o romance Drácula (1897). 

Veja abaixo então quais são os sete vampiros e vampiras que criaram Drácula.

1. “O Vampiro” (“Der Vampir”)

Autor: Heinrich August Ossenfelder

Ano: 1748

Vampiro: Não aparece

Este curto poema, que inaugura a literatura vampírica, mostra um rapaz que anuncia sua vingança contra a amada pelo fato dela ter ouvido os conselhos de sua mãe para terminar o relacionamento, visto que o rapaz pertence a uma região com fama de ser infestada por vampiros.

Ainda que o vampiro não apareça aqui diretamente, os elementos de morte e desejo que surgem neste texto pela primeira vez associados ao vampiro e a importância do leste europeu como morada destes seres se tornaram parte indissociáveis nas obras seguintes.

Segue abaixo o poema completo com a tradução de Marta Chiarelli.

“Minha amada jovem crê,
Com constância firme forte,
Nos conselhos dados
Pela sempre piedosa mãe
Que como os povos do Tisza
Fielmente acredita
Em vampiros mortais.
Mas espere só, Cristina,
Tu não queres me amar;
Pois hei de me vingar,
E hoje brindo um tocai,
À saúde de um vampiro.

E, enquanto suave adormeces,
De tuas faces formosas
Sugo o púrpuro frescor.
Então tu vibrarás
Assim que eu te beijar,
e qual vampiro beijarei,
Então, quando tremeres
Tão logo sucumbas
E lânguida em meus braços,
Como morta cedas
                          Nesse instante indagarei,                           não superam minhas lições
 as de tua bondosa mãe?”

2. “Lenore” (“Lenore”)

Autor: Gottfried August Burger

Ano: 1773

Vampiro: Não aparece

Lenore percebe que seu amado não voltou vivo da guerra.

O poema narra a preocupação da jovem Lenore com a vida do seu amado William, que foi lutar na Guerra entre a Prússia e o Império Austro-Húngaro.

A aflição da moça aumenta quando vários homens, com exceção de seu William, retornam para casa.

Um noite, porém, William retorna montado em seu cavalo e chama Lenore para cavalgar com ele rumo ao seu leito de casamento.

Após uma acelerada jornada por paisagens sinistras Lenore e o cavaleiro chegam a um cemitério onde a aparência do cavaleiro se desfaz para revelar a Morte.

A entidade mostra o túmulo onde o corpo de William está e diz a Lenore que aquele será o seu leito de casamento. Neste instante o chão se abre e espíritos e demônios levam Lenore para a cova.

Apesar de não tratar diretamente de vampiros, a abordagem de dois temas caros a literatura de vampiros – o amor e a morte -, aliado eficaz construção de uma atmosfera gótica, fez com que “Lenore” exercesse um profundo impacto no gênero vampiresco.

Uma das frases mais conhecidas do romance Drácula
“Os mortos viajam depressa” – foi retirada deste poema.

3. “A Noiva do Corinto” (“Die Braut Von Korinth”)

Autor: Johann Wolfgang von Goethe

Ano: 1797

Vampiro: A noiva do Corinto

Considerado a primeira obra a usar de forma direta o personagem, neste caso, uma vampira, o poema mostra como a jovem virgem Philinnon retorna do mundo dos mortos para desfrutar dos prazeres sexuais que não teve em vida.

Ela se dirige à pousada de seus pais e seduz o corinto Machates, seu noivo quando era viva, que se encontra hospedado na casa dos pais da moça.

Desmascarada por seu pai e sua mãe, a vampira retorna para o túmulo e lá tem o seu corpo destruído.

Em “A noiva do Corinto” Goethe introduziu a ênfase no elemento sexual do vampiro.

A partir deste ponto, cria-se uma separação entre a imagem do vampiro folclórico, traduzida em um cadáver ambulante vestido farrapos, e a representação do vampiro literário, como um ser sedutor de sexualidade inquieta e aflorada.

4. “Christabel” (“Christabel”)

 Autor: Samuel Taylor Coleridge

Ano: 1816

Vampiro: Geraldine

Neste poema, o leitor conhece a história da jovem Christabel que se envolve com uma mulher chamada Geraldine.

Após ser convencida pela misteriosa personagem, a moça e Geraldine se despem e a jovem percebe a pele velha e seca da mulher e experimenta um momento de transe, que é o início de uma demorada cena homoafetiva.

Ao acordar, Christabel sente um imenso sentimento de culpa enquanto que Geraldine se levanta rejuvenescida.

Levada ao castelo do pai de Christabel, Geraldine se envolve com o pai da anfitriã e parte do castelo com ele.

“Christabel” não é apenas a obra que apresentou o vampiro pela primeira vez na Literatura Inglesa, mas também é o texto literário que criou a temática do homoerotismo vampírico.

5.  “O Vampiro” (“The Vampyre”)

Autor: John William Polidori

Ano: 1819

Vampiro: Lord Ruthven 

Filho de uma família rica, e procurando conhecer mais da sociedade inglesa, o jovem e inocente Aubrey conhece o misterioso e sedutor Lord Ruthven (pronuncia-se “rivven”) nas festas e recepções londrinas e decide acompanhá-lo em viagem pela Europa.

Aubrey, no entanto, logo se cansa do comportamento amoral de seu companheiro de viagem e o abandona, viajando para a Grécia.

Lá, ao explorar as florestas da região, ele quase morre ao tentar salvar uma bela jovem do ataque de um vampiro.

Polidori era médico pessoal do poeta maldito Lord Byron e usou a figura do poeta inglês para criar seu vampiro.

Enquanto se recupera, Aubrey reata a amizade com Lord Ruthven e, uma vez recuperado, viaja com ele pelas regiões da Grécia.

A dupla é atacada por ladrões de estrada e Ruthven é ferido mortalmente. Antes de morrer, ele exige que Aubrey prometa que guardará em segredo a noticia da morte do amigo pelo próximo ano.

Ao retornar para a Inglaterra o jovem descobre que sua irmã está envolvida por um nobre, que se descobre ser Ruthven, mas nada pode fazer por conta de sua promessa e… (vai ler o conto pra descobrir). 

Divisor de águas na literatura vampírica, este conto,

  1. introduziu o vampiro na ficção inglesa;
  2. criou a imagem do vampiro como um morto reanimado que caminha entre suas prováveis vitimas sem levantar suspeitas;
  3. estabeleceu o aspecto aristocrático da criatura;
  4. criou a imagem do vampiro como sedutor e avesso as morais sociais burguesas e;
  5. reforçou a presença do elemento erótico entre ele e sua vítima.

6. Varney o vampiro; ou O festim de sangue (Varney, the vampire; or The Feast of Blood)

Autor: James Malcolm Rymer

Ano: 1847

Vampiro: Sir Francis Varney

Quando vivo, Varney se chamava Mortimer e tinha sido um defensor da coroa inglesa no século 17 durante a guerra civil entre a monarquia e o Parlamento que resultou na decapitação do Rei Charles I em 1649.

Após matar acidentalmente seu filho em um momento de fúria, ele perde os sentidos e é despertado dois anos depois ao lado de um túmulo por uma voz que lhe diz que, por conta de seu ato, ele foi amaldiçoado e seu nome dali por diante seria Varney, o Vampiro.

Ele tinha a pele pálida, dente longos como presas, unhas compridas e olhos brilhantes. Após beber sangue ele ficava com a pele avermelhada.

Já no século 19 as aventuras de Varney giram ao redor de seu relacionamento com a família Bannerworth e seus conhecidos. 

Após muitas idas e vindas na Inglaterra, Napolês e Veneza, Varney decide dar um fim a sua existência vampírica e se atira dentro do vulcão Vesúvio.

Publicado em capítulos ao longo de 109 semanas, Varney, o vampiro é um dos mais bem sucedidos representantes do gênero penny dreadful, ou seja, histórias de enredo circulante e tom melodramático com ênfase no grotesco.

A obra foi posteriormente publicada em volume único de 800 páginas e se mostrou extremamente influente não apenas por popularizar o vampiro entre o grande público leitor, mas também por:

  1.  ser o primeiro romance de vampiros da literatura;
  2. inventar a imagem do vampiro de dentes pontiagudos;
  3. estabelecer o ataque no pescoço deixando duas marcas;
  4. criar o vampiro angustiado com sua existência sobrenatural; 

7. Carmilla, a vampira de Karnstein (Carmilla)

Autor: Sheridan Le Fanu

Ano: 1872

Vampiro: Carmilla (Condessa Mircalla de Karnstein)

A novela mostra como a jovem Laura, habitando com seu pai um pequeno castelo na região da Styria, atual estado da Áustria, se vê envolvida por uma mulher chamada Carmilla.

Carmilla entra na vida de Laura após um acidente de carruagem que a leva a se hospedar na moradia de Laura. Gradativamente elas se tornam intimas e Laura descobre que a misteriosa mulher a visitou durante a sua infância.  

A morte de outras jovens na mesma região acaba revelando que Carmilla é na verdade a vampira Mircalla, Condessa de Karnstein, que passa a ser perseguida pelas autoridades locais.

A primeira novela vampírica da Literatura Inglesa, Carmilla sedimentou a imagem do vampiro aristocrático do leste europeu que seria utilizado por Bram Stoker em Drácula. 

Dentre as convenções estabelecidas, também seguidas por Stoker, cito:

  1. A transformação em outros animais, no caso de Carmilla, um gato;
  2. Força sobre humana;
  3. Hábitos notívagos;

Nenhuma obra literária do Fantástico, e da Literatura em geral, nasce do nada da cabeça de seus autores.

Ela é resultado dos traumas, ansiedades, leituras anteriores e do mundo ao redor dos escritores e escritoras.

No caso de Drácula, muitos outros elementos contribuíram para a gênese da mais importante obra vampírica da Literatura.

Mas isso é assunto para outro post.

Já leu alguma das 7 obras mencionadas acima?

Lembre-se que se quiser ler em detalhes as informações aqui leia o texto de Introdução que eu fiz para os livros Contos clássicos de vampiros e Carmilla, ambas publicadas pela Editora Hedra.

Se gostou do post, assine o blog, deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos e amigas vampíricos.

Obrigado pela leitura e até a próxima! 

Fontes utilizadas

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

5 razões pelas quais você não tem medo de Múmia

Semelhante ao seu primo sobrenatural sugador de sangue, ele habita a fronteira entre os vivos e os mortos, dorme em um caixão, possui raízes nobres em terras exóticas e tem poderes sobre-humanos. Sendo assim, por que a múmia não possui o mesmo status junto ao público, escritores e roteiristas que o vampiro ou outros ícones do horror, como a criatura de Frankenstein e o lobisomem? 

universal-monsters
Monstros clássicos do Universal Studios

Se você quiser pular direto para as 5 razões, clique aqui.

Mas se quiser descobrir brevemente os mistérios que criaram a mítica desta criatura no Egito e sua representação na Literatura e no Cinema continue a leitura abaixo.

Terra imortal

Ainda que em todos os continentes ao longo da história da humanidade tenham existido culturas que praticaram a mumificação, foi no Egito antigo que esta técnica se aprimorou, tendo seu início no ano 2950 a. C. e alcançando seu ponto alto no ano 1100 a. C.

Empacotado para a viagem ao outro mundo
Empacotado para a viagem ao outro mundo

O propósito da múmia era a conservação do corpo em virtude da crença na imortalidade do indivíduo. A morte, para o egípcios, era passageira e a alma da pessoa poderia retornar ao corpo caso este estivesse conservado

Hórus X Jesus

Os mistérios do Egito começaram a ser moldados no século 4, quando o Cristianismo foi implantado no país por meio do Império Romano e os tempos dedicados ao deuses egípcios foram fechados por ordem do imperador Teodósio I.

horus
Muitos mitólogos apontam os pontos de contato entre Hórus e Jesus Cristo.

Com a morte dos sacerdotes e escribas egípcios, o conhecimento pala ler e escrever os hieróglifos (do grego, “escrita sagrada”) se perdeu e os mortos pararam de ser mumificados, dando início aos mistérios sobre seus significados.

hieroglifo
Apenas membros da realeza, possuidores de altos cargos, escribas e sacerdotes tinham o conhecimento para ler os hieróglifos.

Nasce a alquimia da múmia

Os árabes tiveram papel chave na criação do imaginário que temos hoje da múmia e do Egito como um todo quando a região do Nilo se tornou parte do mundo árabe na primeira invasão islâmica em 639.

Intrigados com os hieróglifos, construções e os corpos embalsamados daquela civilização, os árabes chamavam o Egito de Al Keme (“A Terra”), que fazia menção tanto ao fértil solo nas margens do Rio Nilo, quanto a magia oculta naquele local que eles não compreendiam.

Para alguns historiadores, vem dai a palavra “Alquimia”, ou seja, a utilização e manipulação de palavras específicas e elementos para a transformação de uma substância em outra. 

Além de “Alquimia”, a própria palavra “Múmia” nasceu entre os árabes através do termo mumiya (“corpo embalsamado”).

A múmia invade a Europa

Ansioso por se comparar ao grandes conquistadores do passado em suas campanhas na Ásia e na África, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito em 1798 levando junto com sua tropa centenas de biólogos, linguistas, matemáticos, químicos, botânicos, zoólogos, economistas, poetas e outros especialistas.

Napoleão diante da Esfinge
Napoleão diante da Esfinge

 O resultado foi o começo de uma Egiptomania que trouxe para a França diversos tesouros, monumentos e documentos, muitos dos quais ainda fazem parte do cenário parisiense de hoje, como o Obelisco de Luxor na Place de La Concorde, que originalmente ficava na entrada do Templo de Luxor, no Egito.   

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Até hoje o Egito cobra a devolução de suas propriedades levadas por Napoleão.

Neste clima, estava pronto o terreno para a estréia literária da múmia como criatura sobrenatural  evocadora do horror.

A múmia gótica

Para o crítico S. T. Joshi, autor de Icons of Horror and the Supernatural (2007), Mary Shelley (sempre ela), autora de Frankenstein (1818), pode ter sido a primeira escritora na ficção inglesa a evocar a múmia como uma criatura do horror.

Quanta imaginação tinha essa menina!
Quanta imaginação tinha essa menina!

Na obra, quando Victor Frankenstein vê sua hedionda criação, diz: “Oh! Nenhum mortal poderia suportar o pavor daquela visão. Uma múmia que voltasse a vida não seria tão assustadora.”

Frankenstein ainda pode ter exercido influencia no primeiro romance estrelado por um múmia: A múmia! Um conto do século vinte e dois (1827), da jovem Jane Loudon. Aqui, no entanto, a múmia não é apresentada de forma monstruosa, evocando empatia e não horror.  

Múmia no mundo da FC
Múmia no mundo da FC

Chama a atenção aqui o fato também que a primeira obra protagonizado por uma múmia tenha sido na verdade uma Ficção Científica.  

Aguardando um bestseller

Após sua estréia por vias tortas na Literatura Inglesa, a múmia foi personagem nos trabalhos de vários nomes do gótico francês, inglês e norte-americano ao longo do século dezenove e vinte, nunca sendo plenamente estabelecida como um ícone do horror. Dentre estas obras que ajudaram a estabelecer características das histórias da múmia destacam-se:

  • “O pé da múmia” (1840), do francês Theóphile Gautier – Introduz o elemento romântico na qual um personagem se apaixona pela múmia. Ainda que fale dos aspectos mágicos da criatura, o tratamento do tema é de comédia.  
  • “Algumas palavras com uma múmia (1845), de Edgar Allan Poe – Primeiro conto em Língua Inglesa a trazer a criatura do Egito. O tom que o mestre do gótico norte-americano imprime, todavia, é de sátira ao invés do horror;
  • O romance da múmia (1856), de Theophile Gautier – Primeiro romance a ser ambientado de forma historicamente precisa no Egito.  
  • “Lot No. 249” (1892), de Arthur Conan Doyle – Este conto do criador do detetive Sherlock Holmes traz pela primeira vez uma múmia revivida como promotora do medo, sendo utilizada como instrumento de vingança contra outras pessoas.   
  • A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker – O romance do escritor de Drácula, traz a estréia do tema da princesa egípcia revivida que tem semelhanças físicas com heroína dos tempos atuais. A mesma abordagem usada no filme A múmia (1999). 

A múmia também saiu do sarcófago nas seguintes obras literárias dignas de nota:

  • “The Nemesis of Fire” (1908), de Algernon Blackwood;
  • “Smith and the Pharaohs” (1912), de H. Rider Haggard;
  • “Imprisoned with Pharaohs” (1924) e “Out of the Aeons” (1935), de H. P. Lovecraft;  
  • “The Empire of the Necromancers” (1932), de Clark Ashton Smith;
  • The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice;

No Cinema

Antes de Drácula, o monstro de Frankenstein e o Lobisomem, a Múmia esteve lá, nos primeiros anos do Cinema, sendo esta o principal veículo no qual esta criatura vem se propagando na cultura pop. As produções mais representativas são:

Cleopatre (1899), direção de George Méliès – Foi com este filme que o pioneiro do Cinema se tornou conhecido nos EUA. Na trama, um homem (o próprio Méliès) picota a múmia de uma rainha e produz uma nova mulher no fogo.

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O pioneiro do Cinema é mais conhecido do público pelo filme Le Voyage dan la Lune (1902).

A múmia (1932), direção de Karl Freund – Clássico dos Estúdios Universal que consagrou a múmia no Cinema norte-americano ao lado de Drácula (1931) e Frankenstein (1931). Estrelado por Boris Karloff.

A múmia (1959), direção de Terence Fisher – Produção dos estúdios ingleses Hammer Films e estrelado pela dupla dinâmica Peter Cushing e Christopher Lee. 

A múmia (1999), direção de Stephen Sommers – Filme que teve o mérito de apresentar de maneira competente o monstro para as novas gerações. O sucesso rendeu duas continuações em 2001 e 2008 sem o mesmo impacto. 

A múmia (2017), direção de Alex Kurtzman – Próxima reencarnação cinematográfica do ser mumificado no Cinema. Estrelado por Tom Cruise o filme traz uma princesa múmia (para aproveitar a onda do empoderamento feminino no Cinema, será?) cujo destino lhe foi tirado injustamente. 

Agora que você tem mais informações, veja as 5 razões pelas quais esta criatura sobrenatural não consegue se igualar a outros monstros do universo do Horror, e que leva você a não ter  medo da múmia:

1. A múmia existe

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

A afirmação do escritor de Horror H. P. Lovecraft em O horror sobrenatural em literatura (1927) ajuda a entender o pouco impacto da múmia como agente do medo.

As múmias existem e você pode visitá-las a qualquer momento em um museu. O conforto desta realidade se alia as pesquisas da ciência que dissecam a múmia aos olhos do público, expondo seu interior, sua humanidade e, indiretamente, eliminando sua aura sobrenatural.

Assim, diferente das outras criaturas que, assim como ela, estão ligadas ao folclore ou a crenças religiosas de um povo, como o vampiro, o lobisomem, o demônio e o fantasma, a múmia está ao alcance da nossa racionalização e, portanto, longe de nossas duvidas (e medos) sobre sua possível existência. 

2. A múmia não possui relevância literária

Pensou em vampiro, lembrou do romance Drácula, de Bram Stoker. Pensou em Duplo, lembrou da novela O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson ou no conto “William Wilson”, de Edgar Allan Poe. Pensou em homem brincando de Deus, lembrou do romance Frankenstein, de Mary Shelley. 

Diga aí uma obra literária famosa sobre a múmia

Um obra literária reflete as expectativas e angustias de seu tempo, incorporadas nos monstros citados acima. Este fato permite uma dimensão de identificação entre leitor (ou expectador) e obra conferindo a esta última uma importância validade pelo público e pelo mundo acadêmico que a leva a estar presente em diferentes mídias e veículos ao longo de anos.

O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas
O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas

A obra mais representativa sobre a múmia é o romance The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice, mas mesmo neste livro Rice não conseguiu o mesmo efeito que tinha conseguido com os vampiros e acaba incorrendo na repetida trama do amor imortal já visto em outas leituras da lenda.

Alguém pode argumentar que o lobisomem também não possui uma obra canônica que justifique sua fama nos dias de hoje, mas a resposta para isso nos leva a terceira razão.

3. A múmia não instiga nosso inconsciente

A múmia certamente chama a atenção por levar você a refletir sobre a sua própria mortalidade. Mas é só.

A fascinação pelo vampiro, por exemplo, passa pelo simbolismo do sangue enquanto elemento ligado a vida, ao sexo e ao sagrado. Inconscientemente você é fascinado e sente repulsa por uma criatura que em seu ataque carregado de tensão erótica realiza, em apenas um ato, dois impulsos básicos do ser humano: comer e copular.

Christopher Lee como Drácula
Christopher Lee como Drácula

Além disso, o estilo de vida do vampiro causa admiração pelo fato de que, na sua existência como morto-vivo, ele está além das convenções morais, religiosas e sexuais que inibem a vida dos vivos.   

Já o lobisomem e o Duplo, por sua vez, tem seu apelo junto ao imaginário sustentado pelo lado bestial e instintivo do ser humano, mantido escondido e reprimido por meio das instituições familiares, religiosas e governamentais e que, de vez em quando, quer emergir e se libertar. É o Id contra o Superego. 

Lembre-se de quando você teve o seu Dia de Fúria.

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Transformação no filme Um Lobisomem americano em Londres (1981)

Dr. Jekyll e Mr. Hyde
Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1941)

Por fim, o monstro de Frankenstein nos horroriza por ser a lembrança da transgressão maior: contra a vida. Independente de sua religião, a criatura de Mary Shelley evoca reflexões sobre a Natureza (e o feminino) ser a única responsável pela geração da vida, algo que Victor Frankenstein viola e paga o preço por isso. 

Além disso, o romance de Shelley tem raízes míticas, em narrativas sobre a violação de conhecimentos proibidos e as consequências desse ato. 

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A punição do titã Prometeus por ter entregue aos homens o fogo roubado dos deuses foi ser acorrentado em uma pedra e ter seu figado devorado eternamente por um abutre.

4. A múmia não se sustenta enquanto imagem do medo

Desde suas primeiras aparições literárias e cinematográficas a abordagem prevalecente das histórias sobre múmias não provocam o horror, mas sim a compaixão ou empatia pela criatura. 

Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).
Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).

Isso é o resultado de enredos e roteiros que recorrentemente usam o tema da reincarnação da pessoa amada e da possessão espiritual de algum amante pelo espírito ancestral. Assim, o que era pra ser de Horror vira Amor e mesmo os assassinatos da criatura ganham a justificativa na linha do “No amor e na guerra vale tudo”. 

Se você lembrar que o significado da palavra “múmia” é “corpo embalsamado” ai terá outro problema: em muitas histórias na literatura e no cinema a múmia perde suas mortalhas e assume a aparência dos vivos mas dotado de super poderes.

É igual a um lobisomem que não se transforma em lobo ou um vampiro sem caninos salientes. 

 5. A múmia foi substituída pelo zumbi

Cadáver ambulante por cadáver ambulante, o zumbi é mais eficiente hoje na provocação do horror do que a múmia e permite maior reflexão sobre a mortalidade do ser humano. 

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Ei, me dá uma mãozinha aqui.

O zumbi supera a múmia, e vem superando outros monstros clássicos da Literatura e do Cinema, por lidar com um dos tabus da humanidade: o canibalismo.

Este canibalismo, e o comportamento dopado do zumbi tradicional (e não aqueles zumbis atletas do filme Guerra Mundial Z) reflete a alienação do ser humano na atualidade dentro da cultura do consumismo desenfreado e da dependência da tecnologia.

 

Ilustração de Steve Cutts
Ilustração de Steve Cutts

E ai? Concorda com as razões pelas quais você não tem medo de múmia, ou não?

Se gostou, deixe seu comentário e compartilhe este texto com seus amigos monstruosos.

Até a quarta que vem!

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LOVECRAFT. H. P. O horror sobrenatural na literatura. Trad. Celso M. Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2007.

   

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com