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7 investigadores do oculto pré-John Constantine pra você conhecer

John Constantine, criação do mestre dos quadrinhos Alan Moore com Stephen Bissette e John Totleben.

Mesmo a pessoa mais cética não pode negar que o oculto exerce um estranho fascínio sobre a humanidade.

O Detetive do Pesadelo Dylan Dog completou 30 anos de existência em 2016.

Os limites entre o nosso mundo e o além, ou melhor, a manifestação do além em nosso mundo desperta o interesse do ser humano por tocar em um dos maiores tabus da vida: a morte.

O legionário Antonius Axia combate o sobrenatural na Bretanha

Neste quesito, destaque para o Investigador do Oculto

O Investigador do Oculto

Para este texto vou tomar aqui a definição de Sage Leslie-Mccarthy para “Detetives psiquicos”, mencionado por ele em sua Tese de Doutorado, que você pode acessar na integra a partir do link no fim deste artigo.

Para Sage Leslie-McCarthy,

“Essencialmente, a ficção de detetive psíquico envolve a investigação de eventos reportados como sobrenaturais por um personagem, ou personagens, que tentam compreender a natureza dos distúrbios e promover possíveis soluções.”

Dean e Sam contra o oculto
Os irmãos Winchester. Contra Deus e o Diabo.

Essa busca por desvendar e, por vezes, enfrentar o mundo invisível marca presença em diferentes expressões da cultura, seja na Literatura, nos Quadrinhos, no Cinema e na TV.

Esta série influenciou anos mais tarde, na década de 90, a criação da série ARQUIVOS X
Kolchak e os Demônios da Noite.

Se hoje a cultura pop conta com investigadores do oculto fictícios e reais tais como John Constantine (Hellbrazer), Dylan Dog (Bonelli Comics) Antonius Axia (Valiant Comics)*, os irmãos Winchesters Sam e Dean (Supernatural), Carl Kolchak (Kolchak e os Demônios da Noite) e o casal Lorraine e Ed Warren (Invocação do Mal) isso se deve a uma tradição literária que remonta a Antiguidade.

Veja então a seguir os 7 principais Investigadores do Oculto da Literatura que lançaram as bases para os personagens pop de hoje.

1. Atenodoro de Tarso

Ano de criação: 109 d.C.

Primeira aparição: Missivas litterae curatius
scriptae 

Criador: Plínio, o Jovem

Curiosidade: Personagem histórico que viveu nos primeiros anos da Era Cristã, o filósofo Atenodoro virou personagem de um relato escrito um século depois por Plínio, o Jovem no qual Atenodoro investiga um fantasma que assolava uma residência em Atenas.

Neste que é o primeiro relato de casa assombrada do Ocidente, Atenodoro passa um noite na casa e recebe a visita de um fantasma. Demonstrando frieza na situação o filosofo consegue descobrir que a aparição ocorria devido a falta do sepultamento apropriado dos restos mortais do fantasma, que se encontravam enterrados em um dos cômodos da casa.   

2. Doutor K

Ano de criação: 1817

Primeira aparição: Conto “A casa deserta” (“Das öde Haus”)

Criador: E. T. A. Hoffman

Curiosidade: Primeiro Doutor e investigador do oculto, o Doutor K. aparece no livro de contos  Nachtstücke (Contos Noturnos).

No conto, o personagem, que possui poderes  de clarividência, investiga um mistério sobrenatural que cerca uma casa. 

3. Dirk Ericson

O conto “The Haunted Homestead” pode ser encontrado neste ebook.

Ano de criação: 1840

Primeira aparição: Conto “The Haunted Homestead”

Criador: Henry William Herbert 

Curiosidade: Dirk Ericson aparece originalmente em um conto publicado em três partes no The Ladies’ Companion and Literary entre agosto e outubro de 1840  e que agora está disponível no ebook The Macabre Megapack: 25 Lost Tales from the Golden Age (2012).

Ele é o primeiro investigador do oculto na forma de detetive amador da Literatura e lida com um crime com elementos sobrenaturais. Para isso ele também conta com a ajuda dos personagens Asa e Enoch Allen.

4. Harry Escott

O conto “The Pot of Tulips” pode ser lido nesta coletânea

Ano de criação: 1855

Primeira aparição: Conto “The Pot of Tulips”

Criador: Fitz James O’Brien

Curiosidade: O primeiro investigador do oculto como detetive especialista no sobrenatural estreou na Harper’s New Monthly Magazine em novembro de 1855.

Quatro anos depois Harry Escott aparece novamente, desta vez no conto “What Was It? A Mystery,” publicado em março de 1859 na mesma revista.

As duas histórias foram republicadas na coletânea Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015).

Contando com a ajuda de outros personagens, Harry Escott investiga os mistérios do sobrenatural nas duas histórias.

5. Dr. Martin Hesselius

Ano de criação: 1869

Primeira aparição: Novela Green Tea

Criador: Joseph Sheridan Le Fanu

Curiosidade: Um dos principais investigadores doutores do oculto da segunda metade do século XIX e fonte direta para a criação de Abraham Van Helsing, o caçador de vampiros de Drácula, o Dr. Martin Hesselius apareceu ao longo de quatro edições do All the Year Round em outubro e novembro de 1869 enquanto durou a publicação de Green Tea.

Hesselius tinha o habito de guardar vastas anotações dos casos investigados por ele. Dentre eles, o mais famoso é o caso envolvendo Carmilla, a vampira de Karnstein.

Le Fanu usou os casos do Dr. Marin Hesselius como estrutura narrativa para o livro de contos In a Glass Darkly (1872). 

6. Dr. Abraham Van Helsing

Peter Cushing como Van Helsing nos filmes dos anos 60 produzidos pelo estúdio inglês Hammer.

Ano de criação: 1897

Primeira aparição: Romance Drácula

Criador: Bram Stoker

Curiosidade: Estima-se que o mais famoso Investigador do Oculto desta lista e da Literatura tenha sido criado a partir de diferentes fontes.

Além do Dr. Martin Hesselius, mencionado anteriormente, outras fontes apontadas como inspiração para Van Helsing foram o próprio Bram Stoker e o professor da Universidade de Budapeste Arminius Vambéry, pesquisador que ajudou Bram Stoker com informações iniciais sobre Vlad, o Impalador, modelo do vampiro Drácula. 

7. Diana Marburg

Ano de criação: 1902

Primeira aparição: Conto “The Dead Hand”

Criador: L.T. Meade e Robert Eustace

Curiosidade: A única mulher desta lista e primeira Investigadora do Oculto do século XX, Diana Marburg apareceu em uma série de contos originalmente publicados na versão americana da Pearson’s Magazine.

Na sequencia, os três contos apareceram na coleção The Oracle of Maddox Street (1904), de L.T. Meade. Atualmente estas narrativas podem ser encontradas no livro Giving Up the Ghosts: Short-Lived Occult Detective Series by Six Renowned Authors (2015)

A curiosidade maior com essa investigadora oculta de poderes místicos é a habilidade de investigar criminosos a partir da leitura da palma da mão. 

* Agradecimentos ao entusiasta de Quadrinhos Pedro Ventura pela indicação do investigador do oculto e legionário romano Antonius Axia. 

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

LESLIE-MCCARTHY, Sage. The Case of the Psychic Detective: Progress, Professionalisation, and the Occult in Psychic Detective Fiction from the 1880s to the 1920s. Tese de Doutorado. Queensland: Griffith University, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

NEVINS, Jess. The Encyclopedia of Fantastic Victoriana. Austin, Texas: Monkey Brain Books Publication, 2005. 

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos

WESTWORLD: robôs, androides, ciborgues ou autômatos?

Lançada em 2016 pelo canal norte-americano HBO na ambiciosa posição de sucessora de Game of Thrones, a série Westworld vem recebendo elogios de público e crítica pelos episódios sobre a relação homem X robô e, dentre outros temas, a discussão da liberdade (ou falta) de escolha na tomada de decisões dos envolvidos.  

O sucesso da série, todavia, não é resultado apenas dos roteiristas, mas sim de todo um passado literário envolvendo seres artificiais  que podem ser traçados da mitologia grega até os dias de hoje.  

Sobre gigantes, cavaleiros e escritores: os antepassados dos robôs

Talos

Como quase tudo relacionado ao Fantástico no Ocidente, é na Grécia antiga que se encontra as primeiras menções a serem artificiais criados com o propósito de auxiliar o homem com seus afazeres.

Hefesto era o construtor dos deuses e foi o responsável pela fabricação dos raios utilizados por Zeus

Segundo a mitologia grega, foi o deus Hefesto (o Vesúvio dos Romanos) o responsável pela criação do primeiro ser artificial: o gigante Talos.

Hefesto criou Talos para proteger a ilha de Creta, algo que ele fazia se colocando na entrada da cidade grega como se pode ver acima no filme Jasão e os Argonautas (1963).

O gigante de bronze possuía uma artéria interna que percorria todo o seu corpo metálico através da qual fluía o Ichor, o misterioso fluido da vida que lhe concedia vida e que também estava presente no sangue dos deuses gregos. 

Sendo estruturado como uma criação que possuía elementos orgânicos (Ichor) e não-orgânicos (corpo metálico), Talos foi um antepassado de projetos de hoje que buscam mesclar componentes vivos e artificiais e que deram origem no ano de 1960 a palavra Ciborgue (“Cybernetic organism”).

Assim sendo, o gigante de bronze Talos não foi apenas o primeiro ser mecânico que poderia ser chamado de robô, mas também foi o primeiro ciborgue da história ocidental, sendo seguido séculos depois por outros representantes do tipo, como os Borg (Star Trek), Robocop, Exterminador e o super-herói Cyborg.

O cavaleiro mecânico de Leonardo da Vinci

Antes da criação da palavra “Robô” em 1921, todos os engenhos com aparência de ser humano ou de outros animais que reproduzissem movimentos por meios mecânicos ou eletrônicos eram chamados de autômatos.

Só podia ser Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci pode ser considerado um dos pioneiros da Robótica em fins do século quinze com suas idéias sobre um cavaleiro alemão automatizado

A ideia inicial de Leonardo da Vinci

O gênio renascentista deixou vários estudos em desenho para uma estrutura que seria inserida em uma armadura medieval e que seria movimentada por meio de manivelas e cabos.  

Também conhecido como “Soldado Robô” ou “Robô de Leonardo”, estas anotações foram redescobertas no século vinte e finalizadas em 2002 por Mark Rosheim.

O autômato de Leonardo da Vinci se mostrou funcional e podia sentar, ficar de pé, virar a cabeça, cruzar os braços e até levantar o visor. 

A efetivação do projeto em 2002 atestou ainda mais a genialidade do mestre renascentista

O Escritor e Frankenstein

Como se define a vida?

 Produzidos entre 1768 e 1774 como meio de propaganda para a venda de seus relógios, os três autômatos do relojoeiro suíço Pierre Jaquet-Droz correram a Europa fascinado plateias em todas as suas apresentações.

Compostos  por “O Escritor”, “A Música” e “O Desenhista” e inseridos no contexto do século dezoito de valorização da Ciência em detrimento da Religião, as criações de Jaquet-Droz eram tão sofisticadas que levantaram debates sobre o principio da vida e a definição de humano.

Segundo estudiosos, uma jovem inglesa de nome Mary Shelley teria assistido a uma das apresentações do autômato Escritor e se impressionado com a aparência de vida da criação de Jaquet-Droz.

Quanta imaginação tinha essa menina!

Anos mais tarde, ela mesmo criaria a obra definitiva sobre a tentativa do ser humano em criar vida artificial: Frankenstein (1818).  

De autômatos a replicantes: O robô literário

Além de Frankenstein, os autômatos de Pierre Jaquet-Droz também exerceram influencia em outras obras fantásticas do século dezenove, mostrando que, a partir dali e ao longo do século vinte, fantasmas e vampiros passariam a dividir a atenção dos leitores com os produtos da Ciência e do progresso.   

Dentre diversos romances, contos, peças teatrais e filmes, destaque para:

A Eva futura (1886), de Auguste Villiers de l’Isle-Adam

Romance francês que trouxe para a Literatura o termo “Androide”.

Formado pela junção do grego Andro (Homem) e o sufixo oid (tendo a forma ou semelhança de), a palavra “Androide” surgiu na enciclopédia Cyclopædia (1728), de Ephraim Chambers.   

Androides são seres artificiais fabricados para terem o comportamento e a aparência física externa semelhante a dos humanos

Androide #18. Bonita e poderosa.

Curiosamente, o androide da obra de Auguste Villiers de l’Isle-Adam é feminino e se chama Hadaly. Isto quer dizer que, na verdade, ela é uma Ginoide, do grego Gyné (Mulher) e o sufixo oid. 

Esta palavra surgiu no romance Divine Endurance (1985), de Gwyneyth Jones

“Gynoid”. Uma tentativa de se contemplar a questão dos gêneros na literatura de robôs.

Outros termos usados para designar androides femininos, são Fembot e Feminoide. Todavia, “Androide” é normalmente o termo escolhido para ambos os sexos.

É importante destacar que se Hadaly foi a primeira ginoide na Literatura, a posição de primeira autômata pertence a Olympia, da obra O homem de areia (1817), de E. T. A. Hoffmann.  

Olympia na Ópera Les Contes d’Hoffmann (2010)

“O feitiço e o feiticeiro” (1894), de Ambrose Bierce

“O Rei morreu e você também!”

Jogador de xadrez autômato se revolta contra seu criador e o mata após levar um Xeque-Mate. 

É um dos primeiros contos em Língua Inglesa a trazer a descrição de um autômato.

A fábrica de robôs (1920), de Karel Capek

Um cena da peça mostrando três robôs.

Nesta peça teatral a palavra “Robô” surgiu.

Foi o escritor e pintor Joseph Capek, irmão de Karel Capek, que sugeriu o uso da palavra tcheca robota (“servidão”, “trabalho forçado”) para dar nome aos produtos da fábrica R.U.R. (Rossum’s Universal Robots).

Ironicamente, mesmo aqui na obra que as batizou, as criações mostradas não se encaixam na visão popular de robôs da Ficção Científica como um agrupamento de partes mecânicas e eletrônicas.

Robby, um dos mais famosos robô da FC, destaque do filme O Planeta Proibido (1956).

Sendo produzidos de forma biotecnológica a partir da descoberta de um composto orgânico, os robôs de Capek se enquadram melhor na categoria de Androides

De fato, baseado nos episódios da primeira temporada de Westworld, podemos observar semelhança entre os robôs da obra de Capek e os Anfitriões da série no que se refere a sua fisiologia artificial.

Assim sendo, pode ser dito que os robôs de Westworld, apesar do nome, são na verdade androides.

A principal contribuição da peça de Karel Capek é a introdução do debate tanto sobre a exploração dos robôs pelo ser humano, resultando na rebelião do primeiro, quanto sobre a desumanização do homem diante da tecnologia. 

Metropolis (1927), direção de Fritz Lang

Se o primeiro androide na Literatura foi na verdade a ginoide Hadaly, o mesmo ocorreu com o primeiro androide no Cinema: Maria

Considerado por críticos em geral o primeiro filme de Ficção Científica, a ginoide Maria serviu de base para a criação de C-3PO, da saga Star Wars.

 Eu, Robô (1950), de Isaac Asimov

Nesta coletânea de nove contos Asimov apresenta as bases de sua História de robôs.

Listado entre as obras mais importantes do século vinte, o livro de Isaac Asimov trouxe uma nova abordagem para os robôs, afastando-os da imagem de seres ameaçadores e malignos veiculadas nas revistas de ficção científica das primeiras décadas do século vinte.

Destrua todos os humanos!

O robô de Asimov, este sim um ser metálico como a cultura pop costuma representar, tem sua existência regulada pelas chamadas Três Leis da Robótica, princípios que ultrapassaram o campo da Literatura e ainda servem de base para os estudos dos robôs atuais.

Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick

Publicação da Editora Aleph

Clássico cyberpunk de Philip K. Dick, apresenta o termo pejorativo Andys para se referir aos androides perseguidos pelo caçador de recompensas Rick Deckard.

Na adaptação para o Cinema, em 1982, o diretor Ridley Scott adotou o termo “Replicante” para reiterar a capacidade dos androides em replicar a natureza humana, levando os caçadores a aplicar um teste para identificá-los enquanto seres artificiais.   

O filme não teve bom desempenho de público e crítica nos anos oitenta, mas se tornou um clássico cult com o passar dos anos.

O romance se alinha com o efervescente contexto politico-cultural dos anos de 1960 nos Estados Unidos e traz temas recorrentes do autor, como o debate sobre os limites entre o real e o virtual, o impacto da tecnologia na relação do ser humano com seu meio, e o questionamento sobre as definições de humano. 

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Fontes utilizadas

ASIMOV, Isaac, GREENBERG, Martin H., WARRICK, Patricia S. (Ed.). Máquinas que pensam: Obras primas da ficção científica. Porto Alegre: L&PM Editores,1985.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com