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Você conhece os 7 vampiros e vampiras que criaram DRÁCULA?

No post “1732: o ano em que os vampiros dominaram a Europa” mostrei que o folclore do leste europeu é marcado pela presença de mortos-vivos que saem de seus túmulos para se alimentar da essência vital dos vivos.

Também mostrei como essas narrativas chegaram a Europa do século 18 criando um intenso debate no meio religioso e acadêmico sobre a existência ou não dos vampiros.

E a Literatura, é claro, não ficou a margem dessa discussão.

Mas diga a verdade: Quando você pensa em vampiro na Literatura, você pensa primeiro no Conde Drácula, não é?

Christopher Lee, o Drácula dos filmes do estúdio inglês Hammer nos anos 60.

Mas se hoje Drácula é sinônimo de vampiro isso é resultado de outros seres vampíricos que surgiram antes dele.

Seres que estabeleceram uma tradição literária que seria usada por Bram Stoker para escrever o romance Drácula (1897). 

Veja abaixo então quais são os sete vampiros e vampiras que criaram Drácula.

1. “O Vampiro” (“Der Vampir”)

Autor: Heinrich August Ossenfelder

Ano: 1748

Vampiro: Não aparece

Este curto poema, que inaugura a literatura vampírica, mostra um rapaz que anuncia sua vingança contra a amada pelo fato dela ter ouvido os conselhos de sua mãe para terminar o relacionamento, visto que o rapaz pertence a uma região com fama de ser infestada por vampiros.

Ainda que o vampiro não apareça aqui diretamente, os elementos de morte e desejo que surgem neste texto pela primeira vez associados ao vampiro e a importância do leste europeu como morada destes seres se tornaram parte indissociáveis nas obras seguintes.

Segue abaixo o poema completo com a tradução de Marta Chiarelli.

“Minha amada jovem crê,
Com constância firme forte,
Nos conselhos dados
Pela sempre piedosa mãe
Que como os povos do Tisza
Fielmente acredita
Em vampiros mortais.
Mas espere só, Cristina,
Tu não queres me amar;
Pois hei de me vingar,
E hoje brindo um tocai,
À saúde de um vampiro.

E, enquanto suave adormeces,
De tuas faces formosas
Sugo o púrpuro frescor.
Então tu vibrarás
Assim que eu te beijar,
e qual vampiro beijarei,
Então, quando tremeres
Tão logo sucumbas
E lânguida em meus braços,
Como morta cedas
                          Nesse instante indagarei,                           não superam minhas lições
 as de tua bondosa mãe?”

2. “Lenore” (“Lenore”)

Autor: Gottfried August Burger

Ano: 1773

Vampiro: Não aparece

Lenore percebe que seu amado não voltou vivo da guerra.

O poema narra a preocupação da jovem Lenore com a vida do seu amado William, que foi lutar na Guerra entre a Prússia e o Império Austro-Húngaro.

A aflição da moça aumenta quando vários homens, com exceção de seu William, retornam para casa.

Um noite, porém, William retorna montado em seu cavalo e chama Lenore para cavalgar com ele rumo ao seu leito de casamento.

Após uma acelerada jornada por paisagens sinistras Lenore e o cavaleiro chegam a um cemitério onde a aparência do cavaleiro se desfaz para revelar a Morte.

A entidade mostra o túmulo onde o corpo de William está e diz a Lenore que aquele será o seu leito de casamento. Neste instante o chão se abre e espíritos e demônios levam Lenore para a cova.

Apesar de não tratar diretamente de vampiros, a abordagem de dois temas caros a literatura de vampiros – o amor e a morte -, aliado eficaz construção de uma atmosfera gótica, fez com que “Lenore” exercesse um profundo impacto no gênero vampiresco.

Uma das frases mais conhecidas do romance Drácula
“Os mortos viajam depressa” – foi retirada deste poema.

3. “A Noiva do Corinto” (“Die Braut Von Korinth”)

Autor: Johann Wolfgang von Goethe

Ano: 1797

Vampiro: A noiva do Corinto

Considerado a primeira obra a usar de forma direta o personagem, neste caso, uma vampira, o poema mostra como a jovem virgem Philinnon retorna do mundo dos mortos para desfrutar dos prazeres sexuais que não teve em vida.

Ela se dirige à pousada de seus pais e seduz o corinto Machates, seu noivo quando era viva, que se encontra hospedado na casa dos pais da moça.

Desmascarada por seu pai e sua mãe, a vampira retorna para o túmulo e lá tem o seu corpo destruído.

Em “A noiva do Corinto” Goethe introduziu a ênfase no elemento sexual do vampiro.

A partir deste ponto, cria-se uma separação entre a imagem do vampiro folclórico, traduzida em um cadáver ambulante vestido farrapos, e a representação do vampiro literário, como um ser sedutor de sexualidade inquieta e aflorada.

4. “Christabel” (“Christabel”)

 Autor: Samuel Taylor Coleridge

Ano: 1816

Vampiro: Geraldine

Neste poema, o leitor conhece a história da jovem Christabel que se envolve com uma mulher chamada Geraldine.

Após ser convencida pela misteriosa personagem, a moça e Geraldine se despem e a jovem percebe a pele velha e seca da mulher e experimenta um momento de transe, que é o início de uma demorada cena homoafetiva.

Ao acordar, Christabel sente um imenso sentimento de culpa enquanto que Geraldine se levanta rejuvenescida.

Levada ao castelo do pai de Christabel, Geraldine se envolve com o pai da anfitriã e parte do castelo com ele.

“Christabel” não é apenas a obra que apresentou o vampiro pela primeira vez na Literatura Inglesa, mas também é o texto literário que criou a temática do homoerotismo vampírico.

5.  “O Vampiro” (“The Vampyre”)

Autor: John William Polidori

Ano: 1819

Vampiro: Lord Ruthven 

Filho de uma família rica, e procurando conhecer mais da sociedade inglesa, o jovem e inocente Aubrey conhece o misterioso e sedutor Lord Ruthven (pronuncia-se “rivven”) nas festas e recepções londrinas e decide acompanhá-lo em viagem pela Europa.

Aubrey, no entanto, logo se cansa do comportamento amoral de seu companheiro de viagem e o abandona, viajando para a Grécia.

Lá, ao explorar as florestas da região, ele quase morre ao tentar salvar uma bela jovem do ataque de um vampiro.

Polidori era médico pessoal do poeta maldito Lord Byron e usou a figura do poeta inglês para criar seu vampiro.

Enquanto se recupera, Aubrey reata a amizade com Lord Ruthven e, uma vez recuperado, viaja com ele pelas regiões da Grécia.

A dupla é atacada por ladrões de estrada e Ruthven é ferido mortalmente. Antes de morrer, ele exige que Aubrey prometa que guardará em segredo a noticia da morte do amigo pelo próximo ano.

Ao retornar para a Inglaterra o jovem descobre que sua irmã está envolvida por um nobre, que se descobre ser Ruthven, mas nada pode fazer por conta de sua promessa e… (vai ler o conto pra descobrir). 

Divisor de águas na literatura vampírica, este conto,

  1. introduziu o vampiro na ficção inglesa;
  2. criou a imagem do vampiro como um morto reanimado que caminha entre suas prováveis vitimas sem levantar suspeitas;
  3. estabeleceu o aspecto aristocrático da criatura;
  4. criou a imagem do vampiro como sedutor e avesso as morais sociais burguesas e;
  5. reforçou a presença do elemento erótico entre ele e sua vítima.

6. Varney o vampiro; ou O festim de sangue (Varney, the vampire; or The Feast of Blood)

Autor: James Malcolm Rymer

Ano: 1847

Vampiro: Sir Francis Varney

Quando vivo, Varney se chamava Mortimer e tinha sido um defensor da coroa inglesa no século 17 durante a guerra civil entre a monarquia e o Parlamento que resultou na decapitação do Rei Charles I em 1649.

Após matar acidentalmente seu filho em um momento de fúria, ele perde os sentidos e é despertado dois anos depois ao lado de um túmulo por uma voz que lhe diz que, por conta de seu ato, ele foi amaldiçoado e seu nome dali por diante seria Varney, o Vampiro.

Ele tinha a pele pálida, dente longos como presas, unhas compridas e olhos brilhantes. Após beber sangue ele ficava com a pele avermelhada.

Já no século 19 as aventuras de Varney giram ao redor de seu relacionamento com a família Bannerworth e seus conhecidos. 

Após muitas idas e vindas na Inglaterra, Napolês e Veneza, Varney decide dar um fim a sua existência vampírica e se atira dentro do vulcão Vesúvio.

Publicado em capítulos ao longo de 109 semanas, Varney, o vampiro é um dos mais bem sucedidos representantes do gênero penny dreadful, ou seja, histórias de enredo circulante e tom melodramático com ênfase no grotesco.

A obra foi posteriormente publicada em volume único de 800 páginas e se mostrou extremamente influente não apenas por popularizar o vampiro entre o grande público leitor, mas também por:

  1.  ser o primeiro romance de vampiros da literatura;
  2. inventar a imagem do vampiro de dentes pontiagudos;
  3. estabelecer o ataque no pescoço deixando duas marcas;
  4. criar o vampiro angustiado com sua existência sobrenatural; 

7. Carmilla, a vampira de Karnstein (Carmilla)

Autor: Sheridan Le Fanu

Ano: 1872

Vampiro: Carmilla (Condessa Mircalla de Karnstein)

A novela mostra como a jovem Laura, habitando com seu pai um pequeno castelo na região da Styria, atual estado da Áustria, se vê envolvida por uma mulher chamada Carmilla.

Carmilla entra na vida de Laura após um acidente de carruagem que a leva a se hospedar na moradia de Laura. Gradativamente elas se tornam intimas e Laura descobre que a misteriosa mulher a visitou durante a sua infância.  

A morte de outras jovens na mesma região acaba revelando que Carmilla é na verdade a vampira Mircalla, Condessa de Karnstein, que passa a ser perseguida pelas autoridades locais.

A primeira novela vampírica da Literatura Inglesa, Carmilla sedimentou a imagem do vampiro aristocrático do leste europeu que seria utilizado por Bram Stoker em Drácula. 

Dentre as convenções estabelecidas, também seguidas por Stoker, cito:

  1. A transformação em outros animais, no caso de Carmilla, um gato;
  2. Força sobre humana;
  3. Hábitos notívagos;

Nenhuma obra literária do Fantástico, e da Literatura em geral, nasce do nada da cabeça de seus autores.

Ela é resultado dos traumas, ansiedades, leituras anteriores e do mundo ao redor dos escritores e escritoras.

No caso de Drácula, muitos outros elementos contribuíram para a gênese da mais importante obra vampírica da Literatura.

Mas isso é assunto para outro post.

Já leu alguma das 7 obras mencionadas acima?

Lembre-se que se quiser ler em detalhes as informações aqui leia o texto de Introdução que eu fiz para os livros Contos clássicos de vampiros e Carmilla, ambas publicadas pela Editora Hedra.

Se gostou do post, assine o blog, deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos e amigas vampíricos.

Obrigado pela leitura e até a próxima! 

Fontes utilizadas

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

1732: O ano em que os vampiros dominaram a Europa

Presença constante em quase todas as culturas ao longo da História, os vampiros vem assombrando a humanidade desde a Antiguidade em mitos e lendas.

Lilith, a primeira mulher de Adão, e Lâmia, cujo filhos foram mortos por Hera, são os primeiros seres vampíricos mitológicos da humanidade.

No entanto, foi no folclore de países como a Grécia, Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Polônia, Hungria, Bulgária e Romênia que surgiu a imagem clássica do vampiro como um cadáver que sai do túmulo para tirar a vida das pessoas, como conhecemos hoje.

primeiro registro escrito do termo que daria origem a palavra “vampiro” surgiu em 1047 no eslavo antigo “Upir”. Ela apareceu na obra russa LIVRO DA PROFECIA, de Vladimir Jaroslov. Nela um padre era chamado de “Upir Lichy” (“vampiro hediondo”) dado o seu comportamento imoral.

Um ser de muitos nomes

Refletindo as diversas influencias culturais, étnicas, religiosas e linguísticas do leste europeu o vampiro folclórico se apresenta por nomes variados, tais como, Uppyr (russo moderno), Upír (bielo-russo, tcheco, eslovaco), Upirbi (ucraniano), Vampir (búlgaro), Upirina (servo-croata) e Uppier (polonês).

A força deste personagem no imaginário da região como a personificação da constante presença da morte entre os vivos, se alinha com a tradição desta conturbada parte da Europa marcada historicamente, até hoje, pela violência, pobreza, epidemias e conflitos étnicos e religiosos.

O esqueleto desta mulher polonesa de 45 e 49 anos, vítima de cólera, tinha pedras sobre ela, para que não se levantasse do túmulo e levasse seus parentes para o túmulo com ela.

Foi em um contexto de ressurgimento da Cólera e da Peste Bubônica no leste europeu do século 17 e 18, por exemplo, que ocorreu os casos de histeria coletiva atribuída a ataque de vampiros na Istra (1672), na Prússia oriental (1710 e 1725) e na Hungria (1725 a 1730).

Esta mulher polonesa entre 30 e 39 anos, vítima da cólera, tinha uma foice em seu pescoço para que cortasse sua cabeça fora ao tentar sair do túmulo.

Apesar do enorme número de relatos sobre ataques de vampiros do leste europeu, as barreiras políticas da região, dominadas na época pelo Império Otomano, impediam que estas informações chegassem de forma consistente nos centros da Europa Ocidental, como Alemanha, França, Inglaterra e Itália.  

Os mortos viajam rápido

O vampiro da Europa Oriental começou a atrair a atenção do Ocidente com o Tratado de Passarowitz de 1718.

Neste acordo político, metade da Sérvia e partes da Bósnia e da Wallachia (hoje parte da Romênia) deixaram de ser dominadas pelo Império Otomano e passaram para o controle do Império Austríaco-Húngaro.

Este novo cenário político abriu as portas de uma região que era próxima geograficamente da Europa ocidental, mas muito distante do ponto de vista cultural.

Jonathan Harker deixa suas impressões sobre a região dos Montes Cárpatos enquanto se dirige ao castelo do Conde Drácula.

Esta percepção continuou até o fim do século 19, como está bem marcado no relato de Jonathan Harker presente no início de Drácula (1897):

“Descobri que o distrito por ele [Drácula] nomeado encontrava-se no extremo leste do país, nas fronteiras entre três estados, a Transilvânia, a Moldavia, e a Bucovina, bem no meio das montanhas carpacianas, uma das mais primitivas e menos conhecidas partes da Europa”. 

Em pouco tempo Alemanha, França e o Reino Unido tomaram conhecimento de relatos repetidos sobre vampiros que aconteciam nas regiões sob o governo do Império Austríaco-Húngaro. 

Era a hora do vampiro lançar sombras sobre o Século das Luzes.

Os vampiros invadem a Europa

Em pleno Iluminismo, quando a Ciência moderna estava surgindo e o Racionalismo estava na ordem do dia, a Europa se viu tomada pelo chamado “levante vampírico” do leste europeu, disseminado e popularizado pela recém-criada imprensa.

Voltaire

Os relatos sobre ataques de vampiros chamaram a atenção de diferentes pensadores da época, como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau.

Para eles, estas histórias eram crenças supersticiosas incompatíveis com uma época de descobertas e inovações científicas e deveriam ser esquecidas.

Jean-Jacques Rosseau

Mas, como você sabe, é difícil matar um vampiro.

Devido à proximidade geográfica e cultural com o leste europeu, a Alemanha foi o primeiro país a tratar do tema dos vampiros em duas obras investigativas, ainda no plano religioso:

De Masticatione Mortuorum in Tumulus Liber (1728), de Michaël Ranft: Discute a impossibilidade dos vampiros de assumirem forma física tangível para atacarem os humanos;

Dissertatio Physica de Cadaveribus Sanguisugis (1732), de Johannes Christianus Stock: A obra aponta o Diabo como origem dos sonhos com os mortos-vivos.

O vampiro vira best-seller 

O crescente relato de casos sobre vampiros em terras sob seu controle levou os administradores austríacos a se envolverem diretamente com o caso.

Em 1731 uma comissão científica investigativa foi enviada a Sérvia com o propósito de expor a falsidade dos relatos sobre os sugadores de sangue.

Todavia, o resultado desta iniciativa, liderada pelo cirurgião de Regimento de Campo da Infantaria Austríaca Johannes Fluchinger, teve efeito contrário e chocou a Europa.

Nos relatos ouvidos por Fluchinger na região da Medvegia, Sérvia, dezessete pessoas teriam morrido no ano de 1731 em um curto espaço de tempo em decorrência de ataques de cinco anos atrás de um vampiro chamado Arnold Paole.

Paole havia sido um soldado atacado por um vampiro na Sérvia-Turca. Após a sua morte, relatos surgiram dizendo que o ex-militar havia retornado como um morto-vivo para molestar as pessoas da sua vila.

O corpo de Paole foi desenterrado quarenta dias após a sua morte e, diante das evidências físicas de vampirismo (conservação do corpo, crescimento de unhas e cabelos, e presença de sangue no canto da boca), os homens do local esfaquearam o cadáver, decapitaram a cabeça e queimaram o corpo.

As dezessete mortes ocorridas mesmo depois da destruição do vampiro foram atribuídas ao consumo de carne de gado vampirizado por Arnold Paole.

Uma vez feita a exumação dos cadáveres, Fluchinger examinou os corpos e constatou características semelhantes às registradas no corpo de Arnold Paole, ordenando na sequencia a destruição de todos os corpos.

O relatório detalhado das investigações, no qual Fluchinger registrou sua incapacidade de atribuir os casos de vampirismo como mera superstição popularfoi apresentado ao imperador austríaco em 1732 e recebeu o nome de Visum et Repertum.

1732: Os vampiros dominam a Europa

Assinada e referendada por um oficial médico austríaco, Visum et Repertum logo se espalhou pelo continente europeu transformando-se tanto em sucesso de vendas quanto alvo de ataques de pesquisadores e teólogos da época.

Por conta desta obra, 17 artigos sobre diferentes aspectos do vampirismo foram publicados nos jornais de 1732 e 22 tratados sobre o tema surgiram nos três anos seguintes a publicação do relatório de Fluchinger.

Dentre estas obras, destaque para: 

Lettres Juives (1736), do francês Jean-Baptiste de Boyer, conhecido como o Marquês d’ Argens;

Dissertazione sopra i Vampiri (1744), do italiano Monsenhor Giuseppe Davanzati;

Dissertations sur les Apparitions des Anges, des Démons e des Esprits, et sur les revenants, et Vampires de Hungrie, de Bohême, de Moravie, et de Silésie (1746), de Dom Augustin Calmet, acadêmico católico francês e o mais famoso vampirologista do início do século 18.

Como era de se esperar o intenso debate sobre os vampiros chamou a atenção de artistas e do público, levando o vampiro para uma nova região que ele logo dominaria: a Literatura.

O vampiro entra na Literatura

Seguindo o pioneirismo, já comentado, da investigação ocidental do fenômeno da criatura sugadora de sangue, a Alemanha introduziu o tema do vampiro na Literatura em 1748, dois anos depois da obra de Dom Augustin Calmet.

Abordando o personagem de forma metafórica, o curto poema “O Vampiro” (“Der Vampir”), de Heinrich August Ossenfelder inaugurou a literatura vampírica.

Na história, um rapaz deseja vingança contra a amada pelo fato dela ter seguido o conselho da mãe para abandoná-lo, devido às suas origens estarem ligadas a uma região repleta de vampiros.

A partir dai, o vampiro nunca mais cessaria de assombrar e influenciar a Literatura.

O DIABO APAIXONADO (1772), do francês Jacques Cazotte é a obra que inaugura o Gênero Fantástico.

Qual seria o impacto do “levante vampírico” do século 18 sobre o nascimento do Gênero Fantástico? E do Gótico? Quais obras moldaram e subverteram o vampiro na Literatura?

Isso é assunto para outro post…

E se você quer ler em detalhes as informações que mencionei aqui recomendo a (longa) Introdução que escrevi para a coletânea Contos Clássicos de Vampiros e para a novela Carmilla: A Vampira de Karnstein, ambas publicadas pela Editora Hedra.

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Fica a dica

Se você é Doutorando(a), já completou o Doutorado e curte o Fantástico fica aqui também o convite para enviar um artigo para a Revista  Scripta Uniandrade

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 1 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua portuguesa

Submissão: até 31 de maio de 2017.

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 2 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua inglesa

Submissão: até 31 de julho de 2017.

 Para maiores informações, clique aqui.

Fontes utilizadas

BARBER, Paul. Vampires, Burial and Death. New York: Yale University Press, 1988.

FERREIRA, Cid Vale (Org.) Voivode: estudo sobre os vampiros. São Paulo: Pandemonium, 2002.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

IDRICEANU, Flavia, Bartlett, Waine. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. Trad. Silvia Spada. São Paulo: Madras, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

2017 marca os 80 anos de morte do escritor norte-americano Howard Philips Lovecraft e os 100 anos de criação de sua primeira obra na fase adulta: “Dagon”.

Stephen King e Neil Gaiman consideram H. P. Lovecraft como o Mestre do Horror moderno

Este conto é o marco inicial do conjunto de contos e romances marcados pela presença de criaturas monstruosas e aterrorizantes com origem em outros planetas e dimensões. 

“Dagon” foi publicado pela primeira vez em 1919 na revista VAGRANT e foi republicado na revista WEIRD TALES em 1923.

Conhecidos posteriormente como integrantes dos “Mitos de Cthulhu”, em menção a divindade apresentada no conto “O chamado de Cthulhu”, publicado em 1928, estes monstros são apresentados como entidades cósmicas que não apenas já estiveram em nosso plano terrestre, mas também já governaram a humanidade em tempos remotos, esquecidos pela história. 

Primeira publicação de “O chamado de Cthulhu” na edição de fevereiro de 1928 da revista WEIRD TALES.

Se nas narrativas de H. P. Lovecraft os Antigos, como são chamadas algumas destas criaturas, ainda aguardam o seu retorno a nossa realidade, na vida real eles estão prontos para invadirem, em 2017, o nosso plano como parte dos eventos, publicações e lançamentos na merecida (e tardia) celebração dos 80 anos da obra de seu criador.

“Feliz Aniversário post-mortem pai!”

Se você quer conhecer logo os 7 monstros de H. P. Lovecraft que vão te encontrar em 2017, antes de conhecer a polêmica racista e xenófoba por trás de sua criação, clique aqui.

América, pais do futuro

As primeiras décadas do século vinte na América foram marcadas por rápidas e profundas mudanças na sociedade norte-americana promovidas pela fé depositada no progresso.

Charles Chaplin em TEMPOS MODERNOS (1936).

Esta situação forneceu a base para a ascensão da Ficção Científica, como vertente do fantástico mais alinhada com os desafios postos pela modernidade, assim definida por Marshall Berman no livro Tudo que é sólido desmancha no ar (1986):

“Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. /…/ ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia”.  

É a partir deste quadro de ameaça a permanente desintegração, de mudança e angústia do sujeito moderno, também caracterizada pela crescente presença de imigrantes na sociedade americana, que Lovecraft formulou os monstros híbridos de seu panteão.

Asiáticos, Irlandeses e habitantes do leste europeu eram os principais interessados em desfrutar do “American Dream”.

O cavalheiro de Providence contra os monstros

Pertencente a uma das famílias mais tradicionais de Providence, cidade do Estado de Rhode Island fundada nos primórdios da colonização puritana na América, Lovecraft já demonstrava, em seus primeiros contos como “A tumba” e “Dagon”, sua natureza conservadora e anglófila, refletindo sua resistência ao grande número de estrangeiros na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte. 

A Estátua da Liberdade dá as boas vindas aos imigrantes.

Posição esta que, de fato, era compartilhada por setores conservadores da sociedade branca dos Estados Unidos da época.

Para Caio Alexandre Bezarias em Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft (2006), essa presença de grupos étnicos e culturais diversos e o choque com a tradição dos norte-americanos representou uma das facetas mais expressivas da modernização do país:

“A presença dos mestiços e imigrantes que tinham tomado de assalto os espaços abertos das cidades – despreparadas para recebê-los em tamanha quantidade, o que gerou inúmeras tensões e conflitos entre eles e os norte-americanos nascidos em solo local – foi uma das manifestações mais visíveis, tensas e vivas da expansão da economia industrial Estados Unidos afora…”  

Dentro da obra lovecraftiana em geral percebe-se esse temor ao estrangeiro, sua cultura e constituição física destoantes do padrão branco, anglo-saxônico e protestante vinculado à cultura norte-americana e celebrado nos heróis espaciais da FC do período.

Branco caucasiano, alto e forte. Padrão heroico nas revistas pulp do começo do século vinte.

Tudo junto e misturado

Localizando em seus corpos um espaço do diferente, os monstros híbridos de Lovecraft trazem à mente as considerações de Mary Douglas em Pureza e perigo (1966) sobre as criaturas que subvertem as suas categorias culturais ligados a Terra, a Água e o Ar.

A partir desta obra Julia Kristeva desenvolveu o conceito do Abjeto.

A partir da análise do Levítico – Livro sagrado para o Judaísmo e de caráter legislativo pelo detalhamento dos comportamentos a serem observados pelos judeus para manter sua santidade – Douglas sistematiza os seres que eram considerados puros e impuros, abrangendo animais aquáticos, terrestres até aqueles que são do ar:

“A santidade requer que os indivíduos se conformem à classe à qual pertencem. E a santidade requer que diferentes classes de coisas não se confundam”.

No caso dos seres lovecraftianos esta subversão categorial ocorre pelo fato destas criaturas estarem no interstício animal/humano e terrestre/aquático/aéreo.

Corpo humano, tentáculos de lula e asas de morcego. Cthulhu: um ícone da subversão das categorias.

O medo do desconhecido

A edição em Português está esgotada, mas vale a pena futucar os sebos físicos e virtuais

Para Noël Carroll em A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração (1990), esta ambiguidade cultural existente nos termos de Mary Douglas se coloca como um dos elementos constituintes do horror artístico explorado na Literatura e no Cinema:

“O que horroriza é o que fica fora das categorias sociais e é forçosamente desconhecido”.

Nesta obra o autor explora sua visão do Horror Cósmico explorado na ficção Weird e fala de suas influencias.

Dentro desta leitura, enquanto corporificação do desconhecido, os monstros de Lovecraft se tornam o medo encarnado, visto que, como afirma o escritor em O Horror Sobrenatural na Literatura:

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

Assim, além de fantasmas internos resultados de sua infância e adolescência atribuladas e de suas leituras de Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce, Lord Dunsany, Robert W. Chambers, Arthur Machen e outros, as divindades monstruosas de Lovecraft refletem o temor não apenas do escritor, mas também de setores conservadores da sociedade norte-americana quanto as profundas e rápidas mudanças levadas a cabo pela inexorável industrialização e que se refletiu, por exemplo, na entrada de imigrantes compostos por grupos étnicos e raciais não-nórdicos e não-saxões.

Imigrantes chegando na Ilha Ellis, Nova York, no início do século vinte.

É importante destacar, todavia, que H. P. Lovecraft era, antes de tudo, um homem de seu tempo alinhado com o pensamento eugenista vigente de sua época.

Críticos e leitores de hoje, que acusam o escritor de racista e xenófobo, devem enxergá-lo dentro desta perspectiva histórica.

Veja agora abaixo, em ordem alfabética, 7 monstros de H. P. Lovecraft que estão a sua espera neste ano.

7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

1. Azathoth

A mais poderosa das divindades lovecraftianas, Azathoth é o Caos Nuclear da criação, sendo retratado normalmente como uma massa amorfa de tentáculos, olhos e dentes. É também chamado de O Deus Idiota pelo fato de não ter consciência de seu inominável poder. Vive primordialmente no centro do universo.

Obras: A busca onírica por Kadath, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

2 . Cthulhu

A divindade-monstro mais conhecida dentre os leitores. Oriundo de outra dimensão, Cthulhu chegou a terra em tempos imemoriais e construiu a gigantesca cidade de R’lyeh, hoje submersa, de onde governou o mundo até que um alinhamento de estrelas o levou a um estado letárgico que dura até hoje. Vive nas profundezas de R’lyeh e se comunica com os seus adoradores por meio de sonhos. 

Obras: “O chamado de Cthulhu”

3. Dagon

Baseado diretamente em um deus da fertilidade Assírio-babilônico de mesmo nome, Dagon é a mais famosa criatura de Lovecraft depois de Cthulhu. Do tamanho de uma baleia, ele apresenta forma humanoide-aquática e é o deus de seres abissais com a aparência de homens-peixes.   

Obras: “Dagon” e “A sombra em Innsmouth”

4. Nyarlathotep

Assim como Dagon, Nyarlathotep também possui raízes em culturas antigas, neste caso aqui, a mitologia egípcia. Também apresentado como a alma de Azathoth ele pode assumir forma humana e já foi faraó do Egito. Quando caminha entre os humanos costuma disseminar pesadelos nas pessoas ao seu redor.

Obras: “O habitante das trevas”, “Sonhos na casa da bruxa”, A busca onírica por Kadath, “Nyarlathotep”

5. Shoggoths

Apresentados como a primeira espécie extraterrestre em nosso planeta, os Shoggoths são uma massa protoplásmica criada originalmente como servos de outros deuses para construírem edificações no mar ártico. Eventualmente eles se rebelaram contra seus criadores, algo surpreendente considerando que foram concebidos como seres sem inteligência.  

Obras: Nas montanhas da loucura, “A sombra em Innsmouth” 

6. Shub-Niggurath

Deusa da fertilidade, a “cabra negra de mil filhotes”, como também é conhecida, não apresenta uma descrição específica, o que provoca várias interpretações de sua figura. Sendo apresentada também como deusa da criação ela por vezes é retratada como possuidora do masculino e do feminino dentro do mesmo ser. 

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

7. Yog-Sothoth

Ainda que exista fora de nossa realidade material, Yog-Sothoth é capaz de influenciá-la diretamente, podendo inclusive, engravidar mulheres. Umas das divindades mais poderosas do Deuses Exteriores, controlador do tempo e espaço, ele habita outra dimensão de onde observa nosso planeta.    

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, O caso de Charles Dexter Ward

Celebrando o monstruoso

Eventos acadêmicos, Games, Literatura, Publicações acadêmicas e RPG.

2017 tem H. P. Lovecraft e seus monstros pra todo lado e mídia:

IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional

Em fase de planejamento na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a edição deste ano celebra os 80 anos de morte do escritor e os 100 anos de seus primeiros escritos profissionais. Acompanhe as informações favoritando o site do SePel. [ATUALIZADO 26/02/2017] O evento foi cancelado devido a crise financeira do Rio de Janeiro e a falta de repasse de verba para a UERJ 

Games

Está previsto para 2017 o lançamento de Call of Cthulhu para as plataformas Xbox One, PlayStation 4 e PC, cobrindo assim, uma lacuna de mais de uma década do último bom jogo ligado a Lovecraft – Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth (2006).

Literatura

Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico é a ousada iniciativa para este ano da Editora Ex-Machina, projeto sob a coordenação do editor Bruno Costa.

Fruto de uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo, a obra promete ser a mais completa e abrangente publicação sobre H. P. Lovecraft já lançada no Brasil.  

Outra iniciativa de financiamento coletivo para este ano ligado a Lovecraft é o livro Arthur Machen: Mestre do Oculto, da Editora Clock Tower

A editora tem se destacado pela produção de obras de qualidade e divulgação de conteúdo sobre H.P. Lovecraft e demais autores que influenciaram o escritor, como Robert W. Chambers (O Rei de Amarelo), e Arthur Machen (Arthur Machen: O Mestre do Oculto) e que foram influenciados por ele, como Robert E. Howard (O Mundo Sombrio: histórias dos Mitos de Cthulhu).

Publicações acadêmicas

A Revista Abusões, ligada a UERJ, está com chamada para publicações de artigos até o dia 05 de março de 2017 para compor a edição 4 (Janeiro/Junho 2017).

Para esta edição a revista aceita artigos que tratem da produção artística e crítica do escritor norte-americano, sobre Horror Cósmico, ou, em uma perspectiva comparatista, sobre obras ficcionais e ensaísticas que estabeleçam diálogos com a obra lovecraftiana.

RPG

A RetroPunk Publicações lançará em 2017 a edição revisada do RPG Rastro de Cthulhu, lançado inicialmente no Brasil em 2010.

Para esta nova publicação, também resultado de financiamento coletivo, a editora trará um livro com 248 páginas e tamanho 21×28 com capa dura e miolo em sépia rodado em 4 cores.

Fica a dica

Com base na qualidade do trabalho de edição e tradução e fornecimento de informações extras para leitores e pesquisadores, o FANTASTICURSOS recomenda as seguintes antologias de contos de H. P. Lovecraft publicado no Brasil:

O mundo fantástico de H. P. Lovecraft (Editora Clock Tower).

Livro esgotado no site da Editora Clock Tower, mas que vale ser pesquisado nos sebos.

Os melhores contos de H. P. Lovecraft (Editora Hedra).

A melhor antologia de contos do escritor disponível no momento no Brasil. Você pode comprar diretamente no site da Editora Hedra.

Qual outro monstro você acrescentaria a lista?

E qual é o seu conto ou romance favorito de H. P. Lovecraft? 

Deixe seu comentário, compartilhe o post com seus amigos tenebrosos e celebre o ano de Cthulhu e seus companheiros.

Tamo junto!

 Fontes consultadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BEZARIAS, Caio Alexandre (2006). Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft. Dissertação de Mestrado em Letras. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

CARROLL, Noël (1999). A filosofia do horror ou paradoxos do coração. (Roberto Leal Ferreira, Trad.). Campinas, SP: Papirus, 1999. (Coleção campo imagético).

DOUGLAS, Mary (2012). Pureza e perigo. (Mônica Siqueira Leite de Barros e Zilda Zakia Pinto, Trads.). São Paulo: Perspectiva (Debates; 120).

JOSHI, S. T (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, S. T (2001). The modern weird tale. North Carolina: McFarland & Company.

LOVECRAFT, H. P (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

RICCI, Denílson Earhart (2014). Biografia de H. P. Lovecraft. In RICCI, Denílson Earhart (Org.). O mundo fantástico de H. P. Lovecraft: Antologia – contos, poesias e ensaios. 2ed. (Mario Jorge Lailla Vargas, Trad.). Jundiaí, SP: Clock Tower, pp. xix-xxxvii. 

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The weird: A compendium of strange and dark stories. New York: Tor Book.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

WESTWORLD: robôs, androides, ciborgues ou autômatos?

Lançada em 2016 pelo canal norte-americano HBO na ambiciosa posição de sucessora de Game of Thrones, a série Westworld vem recebendo elogios de público e crítica pelos episódios sobre a relação homem X robô e, dentre outros temas, a discussão da liberdade (ou falta) de escolha na tomada de decisões dos envolvidos.  

O sucesso da série, todavia, não é resultado apenas dos roteiristas, mas sim de todo um passado literário envolvendo seres artificiais  que podem ser traçados da mitologia grega até os dias de hoje.  

Sobre gigantes, cavaleiros e escritores: os antepassados dos robôs

Talos

Como quase tudo relacionado ao Fantástico no Ocidente, é na Grécia antiga que se encontra as primeiras menções a serem artificiais criados com o propósito de auxiliar o homem com seus afazeres.

Hefesto era o construtor dos deuses e foi o responsável pela fabricação dos raios utilizados por Zeus

Segundo a mitologia grega, foi o deus Hefesto (o Vesúvio dos Romanos) o responsável pela criação do primeiro ser artificial: o gigante Talos.

Hefesto criou Talos para proteger a ilha de Creta, algo que ele fazia se colocando na entrada da cidade grega como se pode ver acima no filme Jasão e os Argonautas (1963).

O gigante de bronze possuía uma artéria interna que percorria todo o seu corpo metálico através da qual fluía o Ichor, o misterioso fluido da vida que lhe concedia vida e que também estava presente no sangue dos deuses gregos. 

Sendo estruturado como uma criação que possuía elementos orgânicos (Ichor) e não-orgânicos (corpo metálico), Talos foi um antepassado de projetos de hoje que buscam mesclar componentes vivos e artificiais e que deram origem no ano de 1960 a palavra Ciborgue (“Cybernetic organism”).

Assim sendo, o gigante de bronze Talos não foi apenas o primeiro ser mecânico que poderia ser chamado de robô, mas também foi o primeiro ciborgue da história ocidental, sendo seguido séculos depois por outros representantes do tipo, como os Borg (Star Trek), Robocop, Exterminador e o super-herói Cyborg.

O cavaleiro mecânico de Leonardo da Vinci

Antes da criação da palavra “Robô” em 1921, todos os engenhos com aparência de ser humano ou de outros animais que reproduzissem movimentos por meios mecânicos ou eletrônicos eram chamados de autômatos.

Só podia ser Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci pode ser considerado um dos pioneiros da Robótica em fins do século quinze com suas idéias sobre um cavaleiro alemão automatizado

A ideia inicial de Leonardo da Vinci

O gênio renascentista deixou vários estudos em desenho para uma estrutura que seria inserida em uma armadura medieval e que seria movimentada por meio de manivelas e cabos.  

Também conhecido como “Soldado Robô” ou “Robô de Leonardo”, estas anotações foram redescobertas no século vinte e finalizadas em 2002 por Mark Rosheim.

O autômato de Leonardo da Vinci se mostrou funcional e podia sentar, ficar de pé, virar a cabeça, cruzar os braços e até levantar o visor. 

A efetivação do projeto em 2002 atestou ainda mais a genialidade do mestre renascentista

O Escritor e Frankenstein

Como se define a vida?

 Produzidos entre 1768 e 1774 como meio de propaganda para a venda de seus relógios, os três autômatos do relojoeiro suíço Pierre Jaquet-Droz correram a Europa fascinado plateias em todas as suas apresentações.

Compostos  por “O Escritor”, “A Música” e “O Desenhista” e inseridos no contexto do século dezoito de valorização da Ciência em detrimento da Religião, as criações de Jaquet-Droz eram tão sofisticadas que levantaram debates sobre o principio da vida e a definição de humano.

Segundo estudiosos, uma jovem inglesa de nome Mary Shelley teria assistido a uma das apresentações do autômato Escritor e se impressionado com a aparência de vida da criação de Jaquet-Droz.

Quanta imaginação tinha essa menina!

Anos mais tarde, ela mesmo criaria a obra definitiva sobre a tentativa do ser humano em criar vida artificial: Frankenstein (1818).  

De autômatos a replicantes: O robô literário

Além de Frankenstein, os autômatos de Pierre Jaquet-Droz também exerceram influencia em outras obras fantásticas do século dezenove, mostrando que, a partir dali e ao longo do século vinte, fantasmas e vampiros passariam a dividir a atenção dos leitores com os produtos da Ciência e do progresso.   

Dentre diversos romances, contos, peças teatrais e filmes, destaque para:

A Eva futura (1886), de Auguste Villiers de l’Isle-Adam

Romance francês que trouxe para a Literatura o termo “Androide”.

Formado pela junção do grego Andro (Homem) e o sufixo oid (tendo a forma ou semelhança de), a palavra “Androide” surgiu na enciclopédia Cyclopædia (1728), de Ephraim Chambers.   

Androides são seres artificiais fabricados para terem o comportamento e a aparência física externa semelhante a dos humanos

Androide #18. Bonita e poderosa.

Curiosamente, o androide da obra de Auguste Villiers de l’Isle-Adam é feminino e se chama Hadaly. Isto quer dizer que, na verdade, ela é uma Ginoide, do grego Gyné (Mulher) e o sufixo oid. 

Esta palavra surgiu no romance Divine Endurance (1985), de Gwyneyth Jones

“Gynoid”. Uma tentativa de se contemplar a questão dos gêneros na literatura de robôs.

Outros termos usados para designar androides femininos, são Fembot e Feminoide. Todavia, “Androide” é normalmente o termo escolhido para ambos os sexos.

É importante destacar que se Hadaly foi a primeira ginoide na Literatura, a posição de primeira autômata pertence a Olympia, da obra O homem de areia (1817), de E. T. A. Hoffmann.  

Olympia na Ópera Les Contes d’Hoffmann (2010)

“O feitiço e o feiticeiro” (1894), de Ambrose Bierce

“O Rei morreu e você também!”

Jogador de xadrez autômato se revolta contra seu criador e o mata após levar um Xeque-Mate. 

É um dos primeiros contos em Língua Inglesa a trazer a descrição de um autômato.

A fábrica de robôs (1920), de Karel Capek

Um cena da peça mostrando três robôs.

Nesta peça teatral a palavra “Robô” surgiu.

Foi o escritor e pintor Joseph Capek, irmão de Karel Capek, que sugeriu o uso da palavra tcheca robota (“servidão”, “trabalho forçado”) para dar nome aos produtos da fábrica R.U.R. (Rossum’s Universal Robots).

Ironicamente, mesmo aqui na obra que as batizou, as criações mostradas não se encaixam na visão popular de robôs da Ficção Científica como um agrupamento de partes mecânicas e eletrônicas.

Robby, um dos mais famosos robô da FC, destaque do filme O Planeta Proibido (1956).

Sendo produzidos de forma biotecnológica a partir da descoberta de um composto orgânico, os robôs de Capek se enquadram melhor na categoria de Androides

De fato, baseado nos episódios da primeira temporada de Westworld, podemos observar semelhança entre os robôs da obra de Capek e os Anfitriões da série no que se refere a sua fisiologia artificial.

Assim sendo, pode ser dito que os robôs de Westworld, apesar do nome, são na verdade androides.

A principal contribuição da peça de Karel Capek é a introdução do debate tanto sobre a exploração dos robôs pelo ser humano, resultando na rebelião do primeiro, quanto sobre a desumanização do homem diante da tecnologia. 

Metropolis (1927), direção de Fritz Lang

Se o primeiro androide na Literatura foi na verdade a ginoide Hadaly, o mesmo ocorreu com o primeiro androide no Cinema: Maria

Considerado por críticos em geral o primeiro filme de Ficção Científica, a ginoide Maria serviu de base para a criação de C-3PO, da saga Star Wars.

 Eu, Robô (1950), de Isaac Asimov

Nesta coletânea de nove contos Asimov apresenta as bases de sua História de robôs.

Listado entre as obras mais importantes do século vinte, o livro de Isaac Asimov trouxe uma nova abordagem para os robôs, afastando-os da imagem de seres ameaçadores e malignos veiculadas nas revistas de ficção científica das primeiras décadas do século vinte.

Destrua todos os humanos!

O robô de Asimov, este sim um ser metálico como a cultura pop costuma representar, tem sua existência regulada pelas chamadas Três Leis da Robótica, princípios que ultrapassaram o campo da Literatura e ainda servem de base para os estudos dos robôs atuais.

Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick

Publicação da Editora Aleph

Clássico cyberpunk de Philip K. Dick, apresenta o termo pejorativo Andys para se referir aos androides perseguidos pelo caçador de recompensas Rick Deckard.

Na adaptação para o Cinema, em 1982, o diretor Ridley Scott adotou o termo “Replicante” para reiterar a capacidade dos androides em replicar a natureza humana, levando os caçadores a aplicar um teste para identificá-los enquanto seres artificiais.   

O filme não teve bom desempenho de público e crítica nos anos oitenta, mas se tornou um clássico cult com o passar dos anos.

O romance se alinha com o efervescente contexto politico-cultural dos anos de 1960 nos Estados Unidos e traz temas recorrentes do autor, como o debate sobre os limites entre o real e o virtual, o impacto da tecnologia na relação do ser humano com seu meio, e o questionamento sobre as definições de humano. 

Gostou?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos cibernéticos.

Fontes utilizadas

ASIMOV, Isaac, GREENBERG, Martin H., WARRICK, Patricia S. (Ed.). Máquinas que pensam: Obras primas da ficção científica. Porto Alegre: L&PM Editores,1985.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

5 razões pelas quais você não tem medo de Múmia

Semelhante ao seu primo sobrenatural sugador de sangue, ele habita a fronteira entre os vivos e os mortos, dorme em um caixão, possui raízes nobres em terras exóticas e tem poderes sobre-humanos. Sendo assim, por que a múmia não possui o mesmo status junto ao público, escritores e roteiristas que o vampiro ou outros ícones do horror, como a criatura de Frankenstein e o lobisomem? 

universal-monsters
Monstros clássicos do Universal Studios

Se você quiser pular direto para as 5 razões, clique aqui.

Mas se quiser descobrir brevemente os mistérios que criaram a mítica desta criatura no Egito e sua representação na Literatura e no Cinema continue a leitura abaixo.

Terra imortal

Ainda que em todos os continentes ao longo da história da humanidade tenham existido culturas que praticaram a mumificação, foi no Egito antigo que esta técnica se aprimorou, tendo seu início no ano 2950 a. C. e alcançando seu ponto alto no ano 1100 a. C.

Empacotado para a viagem ao outro mundo
Empacotado para a viagem ao outro mundo

O propósito da múmia era a conservação do corpo em virtude da crença na imortalidade do indivíduo. A morte, para o egípcios, era passageira e a alma da pessoa poderia retornar ao corpo caso este estivesse conservado

Hórus X Jesus

Os mistérios do Egito começaram a ser moldados no século 4, quando o Cristianismo foi implantado no país por meio do Império Romano e os tempos dedicados ao deuses egípcios foram fechados por ordem do imperador Teodósio I.

horus
Muitos mitólogos apontam os pontos de contato entre Hórus e Jesus Cristo.

Com a morte dos sacerdotes e escribas egípcios, o conhecimento pala ler e escrever os hieróglifos (do grego, “escrita sagrada”) se perdeu e os mortos pararam de ser mumificados, dando início aos mistérios sobre seus significados.

hieroglifo
Apenas membros da realeza, possuidores de altos cargos, escribas e sacerdotes tinham o conhecimento para ler os hieróglifos.

Nasce a alquimia da múmia

Os árabes tiveram papel chave na criação do imaginário que temos hoje da múmia e do Egito como um todo quando a região do Nilo se tornou parte do mundo árabe na primeira invasão islâmica em 639.

Intrigados com os hieróglifos, construções e os corpos embalsamados daquela civilização, os árabes chamavam o Egito de Al Keme (“A Terra”), que fazia menção tanto ao fértil solo nas margens do Rio Nilo, quanto a magia oculta naquele local que eles não compreendiam.

Para alguns historiadores, vem dai a palavra “Alquimia”, ou seja, a utilização e manipulação de palavras específicas e elementos para a transformação de uma substância em outra. 

Além de “Alquimia”, a própria palavra “Múmia” nasceu entre os árabes através do termo mumiya (“corpo embalsamado”).

A múmia invade a Europa

Ansioso por se comparar ao grandes conquistadores do passado em suas campanhas na Ásia e na África, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito em 1798 levando junto com sua tropa centenas de biólogos, linguistas, matemáticos, químicos, botânicos, zoólogos, economistas, poetas e outros especialistas.

Napoleão diante da Esfinge
Napoleão diante da Esfinge

 O resultado foi o começo de uma Egiptomania que trouxe para a França diversos tesouros, monumentos e documentos, muitos dos quais ainda fazem parte do cenário parisiense de hoje, como o Obelisco de Luxor na Place de La Concorde, que originalmente ficava na entrada do Templo de Luxor, no Egito.   

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Até hoje o Egito cobra a devolução de suas propriedades levadas por Napoleão.

Neste clima, estava pronto o terreno para a estréia literária da múmia como criatura sobrenatural  evocadora do horror.

A múmia gótica

Para o crítico S. T. Joshi, autor de Icons of Horror and the Supernatural (2007), Mary Shelley (sempre ela), autora de Frankenstein (1818), pode ter sido a primeira escritora na ficção inglesa a evocar a múmia como uma criatura do horror.

Quanta imaginação tinha essa menina!
Quanta imaginação tinha essa menina!

Na obra, quando Victor Frankenstein vê sua hedionda criação, diz: “Oh! Nenhum mortal poderia suportar o pavor daquela visão. Uma múmia que voltasse a vida não seria tão assustadora.”

Frankenstein ainda pode ter exercido influencia no primeiro romance estrelado por um múmia: A múmia! Um conto do século vinte e dois (1827), da jovem Jane Loudon. Aqui, no entanto, a múmia não é apresentada de forma monstruosa, evocando empatia e não horror.  

Múmia no mundo da FC
Múmia no mundo da FC

Chama a atenção aqui o fato também que a primeira obra protagonizado por uma múmia tenha sido na verdade uma Ficção Científica.  

Aguardando um bestseller

Após sua estréia por vias tortas na Literatura Inglesa, a múmia foi personagem nos trabalhos de vários nomes do gótico francês, inglês e norte-americano ao longo do século dezenove e vinte, nunca sendo plenamente estabelecida como um ícone do horror. Dentre estas obras que ajudaram a estabelecer características das histórias da múmia destacam-se:

  • “O pé da múmia” (1840), do francês Theóphile Gautier – Introduz o elemento romântico na qual um personagem se apaixona pela múmia. Ainda que fale dos aspectos mágicos da criatura, o tratamento do tema é de comédia.  
  • “Algumas palavras com uma múmia (1845), de Edgar Allan Poe – Primeiro conto em Língua Inglesa a trazer a criatura do Egito. O tom que o mestre do gótico norte-americano imprime, todavia, é de sátira ao invés do horror;
  • O romance da múmia (1856), de Theophile Gautier – Primeiro romance a ser ambientado de forma historicamente precisa no Egito.  
  • “Lot No. 249” (1892), de Arthur Conan Doyle – Este conto do criador do detetive Sherlock Holmes traz pela primeira vez uma múmia revivida como promotora do medo, sendo utilizada como instrumento de vingança contra outras pessoas.   
  • A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker – O romance do escritor de Drácula, traz a estréia do tema da princesa egípcia revivida que tem semelhanças físicas com heroína dos tempos atuais. A mesma abordagem usada no filme A múmia (1999). 

A múmia também saiu do sarcófago nas seguintes obras literárias dignas de nota:

  • “The Nemesis of Fire” (1908), de Algernon Blackwood;
  • “Smith and the Pharaohs” (1912), de H. Rider Haggard;
  • “Imprisoned with Pharaohs” (1924) e “Out of the Aeons” (1935), de H. P. Lovecraft;  
  • “The Empire of the Necromancers” (1932), de Clark Ashton Smith;
  • The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice;

No Cinema

Antes de Drácula, o monstro de Frankenstein e o Lobisomem, a Múmia esteve lá, nos primeiros anos do Cinema, sendo esta o principal veículo no qual esta criatura vem se propagando na cultura pop. As produções mais representativas são:

Cleopatre (1899), direção de George Méliès – Foi com este filme que o pioneiro do Cinema se tornou conhecido nos EUA. Na trama, um homem (o próprio Méliès) picota a múmia de uma rainha e produz uma nova mulher no fogo.

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O pioneiro do Cinema é mais conhecido do público pelo filme Le Voyage dan la Lune (1902).

A múmia (1932), direção de Karl Freund – Clássico dos Estúdios Universal que consagrou a múmia no Cinema norte-americano ao lado de Drácula (1931) e Frankenstein (1931). Estrelado por Boris Karloff.

A múmia (1959), direção de Terence Fisher – Produção dos estúdios ingleses Hammer Films e estrelado pela dupla dinâmica Peter Cushing e Christopher Lee. 

A múmia (1999), direção de Stephen Sommers – Filme que teve o mérito de apresentar de maneira competente o monstro para as novas gerações. O sucesso rendeu duas continuações em 2001 e 2008 sem o mesmo impacto. 

A múmia (2017), direção de Alex Kurtzman – Próxima reencarnação cinematográfica do ser mumificado no Cinema. Estrelado por Tom Cruise o filme traz uma princesa múmia (para aproveitar a onda do empoderamento feminino no Cinema, será?) cujo destino lhe foi tirado injustamente. 

Agora que você tem mais informações, veja as 5 razões pelas quais esta criatura sobrenatural não consegue se igualar a outros monstros do universo do Horror, e que leva você a não ter  medo da múmia:

1. A múmia existe

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

A afirmação do escritor de Horror H. P. Lovecraft em O horror sobrenatural em literatura (1927) ajuda a entender o pouco impacto da múmia como agente do medo.

As múmias existem e você pode visitá-las a qualquer momento em um museu. O conforto desta realidade se alia as pesquisas da ciência que dissecam a múmia aos olhos do público, expondo seu interior, sua humanidade e, indiretamente, eliminando sua aura sobrenatural.

Assim, diferente das outras criaturas que, assim como ela, estão ligadas ao folclore ou a crenças religiosas de um povo, como o vampiro, o lobisomem, o demônio e o fantasma, a múmia está ao alcance da nossa racionalização e, portanto, longe de nossas duvidas (e medos) sobre sua possível existência. 

2. A múmia não possui relevância literária

Pensou em vampiro, lembrou do romance Drácula, de Bram Stoker. Pensou em Duplo, lembrou da novela O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson ou no conto “William Wilson”, de Edgar Allan Poe. Pensou em homem brincando de Deus, lembrou do romance Frankenstein, de Mary Shelley. 

Diga aí uma obra literária famosa sobre a múmia

Um obra literária reflete as expectativas e angustias de seu tempo, incorporadas nos monstros citados acima. Este fato permite uma dimensão de identificação entre leitor (ou expectador) e obra conferindo a esta última uma importância validade pelo público e pelo mundo acadêmico que a leva a estar presente em diferentes mídias e veículos ao longo de anos.

O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas
O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas

A obra mais representativa sobre a múmia é o romance The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice, mas mesmo neste livro Rice não conseguiu o mesmo efeito que tinha conseguido com os vampiros e acaba incorrendo na repetida trama do amor imortal já visto em outas leituras da lenda.

Alguém pode argumentar que o lobisomem também não possui uma obra canônica que justifique sua fama nos dias de hoje, mas a resposta para isso nos leva a terceira razão.

3. A múmia não instiga nosso inconsciente

A múmia certamente chama a atenção por levar você a refletir sobre a sua própria mortalidade. Mas é só.

A fascinação pelo vampiro, por exemplo, passa pelo simbolismo do sangue enquanto elemento ligado a vida, ao sexo e ao sagrado. Inconscientemente você é fascinado e sente repulsa por uma criatura que em seu ataque carregado de tensão erótica realiza, em apenas um ato, dois impulsos básicos do ser humano: comer e copular.

Christopher Lee como Drácula
Christopher Lee como Drácula

Além disso, o estilo de vida do vampiro causa admiração pelo fato de que, na sua existência como morto-vivo, ele está além das convenções morais, religiosas e sexuais que inibem a vida dos vivos.   

Já o lobisomem e o Duplo, por sua vez, tem seu apelo junto ao imaginário sustentado pelo lado bestial e instintivo do ser humano, mantido escondido e reprimido por meio das instituições familiares, religiosas e governamentais e que, de vez em quando, quer emergir e se libertar. É o Id contra o Superego. 

Lembre-se de quando você teve o seu Dia de Fúria.

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Transformação no filme Um Lobisomem americano em Londres (1981)

Dr. Jekyll e Mr. Hyde
Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1941)

Por fim, o monstro de Frankenstein nos horroriza por ser a lembrança da transgressão maior: contra a vida. Independente de sua religião, a criatura de Mary Shelley evoca reflexões sobre a Natureza (e o feminino) ser a única responsável pela geração da vida, algo que Victor Frankenstein viola e paga o preço por isso. 

Além disso, o romance de Shelley tem raízes míticas, em narrativas sobre a violação de conhecimentos proibidos e as consequências desse ato. 

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A punição do titã Prometeus por ter entregue aos homens o fogo roubado dos deuses foi ser acorrentado em uma pedra e ter seu figado devorado eternamente por um abutre.

4. A múmia não se sustenta enquanto imagem do medo

Desde suas primeiras aparições literárias e cinematográficas a abordagem prevalecente das histórias sobre múmias não provocam o horror, mas sim a compaixão ou empatia pela criatura. 

Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).
Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).

Isso é o resultado de enredos e roteiros que recorrentemente usam o tema da reincarnação da pessoa amada e da possessão espiritual de algum amante pelo espírito ancestral. Assim, o que era pra ser de Horror vira Amor e mesmo os assassinatos da criatura ganham a justificativa na linha do “No amor e na guerra vale tudo”. 

Se você lembrar que o significado da palavra “múmia” é “corpo embalsamado” ai terá outro problema: em muitas histórias na literatura e no cinema a múmia perde suas mortalhas e assume a aparência dos vivos mas dotado de super poderes.

É igual a um lobisomem que não se transforma em lobo ou um vampiro sem caninos salientes. 

 5. A múmia foi substituída pelo zumbi

Cadáver ambulante por cadáver ambulante, o zumbi é mais eficiente hoje na provocação do horror do que a múmia e permite maior reflexão sobre a mortalidade do ser humano. 

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Ei, me dá uma mãozinha aqui.

O zumbi supera a múmia, e vem superando outros monstros clássicos da Literatura e do Cinema, por lidar com um dos tabus da humanidade: o canibalismo.

Este canibalismo, e o comportamento dopado do zumbi tradicional (e não aqueles zumbis atletas do filme Guerra Mundial Z) reflete a alienação do ser humano na atualidade dentro da cultura do consumismo desenfreado e da dependência da tecnologia.

 

Ilustração de Steve Cutts
Ilustração de Steve Cutts

E ai? Concorda com as razões pelas quais você não tem medo de múmia, ou não?

Se gostou, deixe seu comentário e compartilhe este texto com seus amigos monstruosos.

Até a quarta que vem!

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LOVECRAFT. H. P. O horror sobrenatural na literatura. Trad. Celso M. Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2007.

   

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

  

     

BLACK MIRROR: Por que você se incomoda tanto?

A série de ficção científica Black Mirror vem despertando comentários variados do público e uma sensação de incômodo pelas possibilidades (ou ameaças?) evocadas em seus episódios. Mas por que você se incomoda tanto?  

Bem vindo ao lado negro

Pra começo de conversa, o que é o “black mirror”?

Smartphones, tablets, notebooks, televisores, computadores… todos eles possuem uma tela negra capaz de refletir coisas ou pessoas (muitas mulheres usam para dar aquela checada básica no look), mas o que a série propõe é levar o expectador a refletir o que exatamente este “espelho negro” reflete, não tanto da aparência física da pessoa, mas de sua alma e, indiretamente, do mundo ao seu redor.

E o reflexo fica cada vez mais perturbador.

Black Mirror e outros espelhos

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As promessas da tecnologia para o início do século 20

Como você já descobriu com Black Mirror, a Ficção Científica (FC) não tem como propósito principal celebrar os avanços da Ciência e da tecnologia, como na imagem acima, mas sim promover uma crítica sobre os efeitos destes avanços na sociedade e no individuo.

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A representação da criatura de Frankenstein no filme FRANKENSTEIN (1931).

Isso vem desde o nascimento do gênero com Frankenstein (1818), da inglesa Mary Shelley.

Em 1816, quando teve a ideia do livro, ela era uma jovem de 19 anos que, assim como os que assistem Black Mirror hoje, também tinha sua cabeça explodida pelas várias inovações científicas da época. 

No caso de Frankenstein, a história do jovem cientista que se deixa seduzir pelo poder de criar a vida por meios artificiais, Shelley queria criticar os avanços da Revolução Industrial na Inglaterra do início do século 19, alertando que os produtos da Ciência e da tecnologia poderiam se voltar contra o ser humano.

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Distopia Fahrenheit 451

Mais de um século depois do romance de Mary Shelley, e de várias outras obras de FC questionando o uso dado a tecnologia, o norte-americano Ray Bradbury publicou a distopia Fahrenheit 451 (1953).

Neste romance, que se passa em uma América do futuro, os bombeiros queimam livros como parte da política do sistema opressor de fazer com que as pessoas fiquem alienadas em frente a aparelhos de televisão.

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Cena do filme FAHRENHEIT 451 (1966), direção François Truffault.

Importante destacar que quando Ray Bradbury escreveu sua distopia a televisão ainda era uma novidade tecnológica nos lares americanos, mas ele percebeu que em pouco tempo aquele produto se tornaria o centro das atenções nas casas.

Não deu outra. Com a TV as famílias passaram a interagir menos, para ficarem hipnotizadas em frente aquele primeiro espelho negro.  

Pelo menos até a chegada da internet e de Black Mirror.  

4 motivos pelos quais você se incomoda com Black Mirror

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“Queda livre” (1° episódio da 3° temporada )

1. Você não é feliz

Já teve a impressão que todo mundo no Facebook, no Instagram e no Snapchat é feliz? Todos viajam, todos estão amando e sendo amados, todos estão comprando coisas novas, mas e você? 

Pesquisa da Universidade do Missouri e publicado na edição de fevereiro de 2015 da revista Computer in Human Behavior mostra que as centenas de “Likes” e “Compartilhamentos” de usuários do Facebook podem provocar não apenas inveja, mas também desencadear um processo de depressão em algumas pessoas.

Semelhante ao episódio “Queda livre” (Episódio 1 da 3° temporada), em que sua posição social depende da avaliação de outros cidadãos, as redes sociais acabam fomentando a perpetuação de uma “Cultura da Felicidade” em que as pessoas  precisam mostrar (ou fingir?) que são felizes para não se sentirem marginalizados dentro de seus grupos. A pressão sobre os jovens é maior.

Isso pode explicar o resultado de outra pesquisa, a das universidades de San Diego, California e Florida Atlantic de que jovens com menos de 30 anos se declaram mais felizes do que as pessoas de outras faixas etárias.  

2. Você é falso

Black Mirror
“Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada)

Você é um Hater? Você aproveita o sigilo da internet para insultar e destilar preconceitos? Ou simplesmente falar mal de outras pessoas? O que aconteceria se, semelhante ao protagonista do episódio “Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada), você fosse pego?

Mas e na vida real? Você tem coragem de dizer tudo o que escreveu por trás de um avatar?

O anonimato da rede incentiva o surgimento de uma persona diferente da real, caracterizada pela:

  1. Ausência da individualidade em favor da adoção do comportamento do grupo virtual ao qual a pessoa pertence. O que Michel Maffesoli chama em Tempo das tribos (1998) de “Tribalismo pós-moderno”;
  2. Surgimento de uma máscara virtual governada pelo Id, ou seja, sem controle pela moral e normas sociais e tomada pelos impulsos e desejos. Escreve o que quer contra tudo e todos sem se preocupar com repreensões reais ao seu Eu real por parte de grupos atingidos. 

O incômodo que Black Mirror causa é que a internet pode não vir a ser tão segura para sua segunda identidade quanto você pensa.

O que pensariam os seus pais e amigos se descobrissem quem você é?  

3. Você sabe que Black Mirror vai se tornar realidade (ou já é?)

É perceptível o aprofundamento da questão da tecnologia na terceira temporada da série, lançada em 2016, em relação a primeira, de 2011.

Isso se deve ao ritmo de criação e disseminação de novas tecnologias dentro do espaço que separa 2011 de 2016.

O Instagram e Snapchat, por exemplo, foram lançados respectivamente em 2010 e 2011 e hoje aparecem como rivais do Facebook, criado em 2004.

Isso mostra que a inquietação que você sente com o mundo de Black Mirror pode ser uma percepção de que, quando você menos esperar, ele se tornará real. Não é uma questão de SE, mas de QUANDO.

  1. Aplicativo que permite a você avaliar serviços e atendimento, influenciando na vida profissional da pessoa, como em “Queda livre”?  Uber. Além disso, o Governo da China vem estudando a implantação de um crédito social nos mesmos moldes do episódio da série.
  2. Transferir a consciência humana para as nuvens de informação, como em “San Junipero” (4° episódio da 3° temporada)? O cientista e engenheiro do Google Ray Kurzweil prevê essa possibilidade para 2045.
  3. Realidade alterada pela tecnologia, como em “Engenharia reversa” (5° episódio da 3° temporada)? Face Swap do Snapchat.
  4. Realidade aumentada, como em “Versão de testes” (2° episódio da 3° temporada)? Pokémon Go 

É só esperar pelos demais

4. Você não sabe como (e se quer) se opor ao mundo de Black Mirror

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“Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada)

Comentários no YouTube sobre a série descrevem pessoas que tiveram pesadelos, passaram mal, choraram ou mesmo vomitaram por causa de alguns episódios.

Outros disseram que pensaram em apagar contas no Facebook e Snapchat. E por que não o fizeram?

O fato é as redes sociais servem como um alivio para a realidade cotidiana de todos.

Por isso você continua pedalando sua bicicleta que alimenta a sociedade da informação de hoje e recebe como recompensa pequenos e constantes consolos, utensílios e implementos. Você confia que eles permitirão a você expressar sua individualidade, mostrar seu talento, quando na realidade (que você não quer reconhecer) irá apenas alimentar o coletivo.

Episódios como “Hino nacional” (1° episódio da 1° temporada), “Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada), “Toda a sua história” (3° episódio da 1° temporada)  e “Queda livre” refletem essa dependência que o ser humano cibernético de hoje tem da tecnologia. 

Somos Victor Frankenstein e seu monstro em um único ser.

Talvez, no fundo (ou nem tão fundo assim) o incômodo de Black Mirror é uma espécie de desejo pela promessa de tecnologia da série, pois afinal de contas, as inovações tecnológicas não são boas ou más, depende apenas de quem usa. E você quer confiar nisso que está lendo. 

Já que o assunto é esse, alimente o sistema comentando seus episódios favoritos e o que impressionou você nesta série.

E compartilhe. 

Próxima quarta tem mais post. Assine o Blog para ser notificado.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com