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DARK UNIVERSE: O que os monstros da Universal podem mostrar hoje?

Monstros dos estúdios Universal
Da esq. para dir.: Homem-invisível, Dracula, o Monstro de Frankenstein, a Múmia, o Monstro da Lagoa negra, o Fantasma da Ópera, a Noiva de Frankenstein e o Lobisomem.

Nesta semana os estúdios Universal anunciaram o longamente prometido reboot da sua franquia de monstros, popularmente conhecida como “Os Monstros da Universal”.

A iniciativa, batizada de Dark Universe, vai re-apresentar os monstros do estúdio para a geração de hoje.

Mas, o que esperar deste projeto?

Em 2014 a presidente dos Estúdios Universal falou do assunto no The Hollywood Reporter ao declarar que os novos filmes de seus monstros estariam menos ligados ao Horror e mais vinculados ao gênero Ação e Aventura, além de outros gêneros.

Na ocasião, Donna Langley disse que o propósito é “reimagina-los e reintroduzi-los para um público contemporâneo”

Esta visão pode ser percebida no ritmo do primeiro filme do Dark UniverseA Múmia – lançado em 8 de junho de 2017 nos cinemas. 

Mas, quais medos e ansiedades estes monstros podem representar hoje em relação a sua primeira encarnação entre as décadas de 1920 e 1950?

A primeira encarnação monstruosa

Na sua primeira encarnação, e com base nos planos atuais do estúdio, pode ser estabelecido que a franquia de Monstros da Universal teve seu início nos anos de 1920 com O Fantasma da Ópera (1925).

O único filme da franquia lançado ainda na era dos filmes mudos, esta adaptação do romance O Fantasma da Ópera (1910), do escritor francês Gaston Leroux foi um sucesso de público e foi relançado em versão com som em 1930.

Isso animou o estúdio a dar prosseguimento com sua franquia monstruosa, que seria continuada com Drácula (1931), dirigido por Tod Browning e trazendo Bela Lugosi no papel que o imortalizou como o conde vampiro.  

O sucesso estrondoso da adaptação do livro de Bram Stoker de 1897 consolidou o caminho para outras criaturas, refletindo neste processo o alinhando dos monstros da Universal com os fantasmas da sociedade norte-americana dos anos de 1930 até 1950.

Dentre estes fantasmas, a enorme crise econômica da América, conhecida como A Grande Depressão, que lançou o país em um ambiente de incertezas e temores.   

Desempregados na América durante os anos 30.

Em um tempo em que as pessoas perdiam seus empregos, casas e a esperança no futuro, a crença em forças sobrenaturais além da compreensão humana ganhou espaço, abrindo o terreno para o monstruoso.  

Mas e agora? O que cada monstro da Universal pode mostrar a geração Y e Z?

O que os Monstros da Universal podem mostrar hoje

Da esq. para a dir.: Russel Crowe, Javier Bardem (sentado), Tom Cruise, Johnny Depp e Sofia Boutella. Os novos rostos dos monstros da Universal.

Assim como ocorreu nos anos 40, os monstros da Universal irão se encontrar em filmes.

No entanto, diferente da época em que estes encontros ocorriam em comédias, já sinalizando o cansaço dessas criaturas como agentes do medo, o Dark Universe irá construir um universo compartilhado.

De fato, como o próprio estúdio coloca, esta será a resposta da Universal ao universo compartilhado de heróis da Marvel e da DC.

O eixo central é o personagem Dr. Henry Jekyll, vivido pelo ator Russel Crowe. Ele será o diretor da Prodigium, um local onde diversas criaturas sobrenaturais são mantidas.

Conheça a Prodigium clicando aqui.

Cabe ao Dr. Henry Jekyll, semelhante a Nick Fury na Marvel e Bruce Wayne na DC, reunir ou eliminar essas criaturas.

Até o momento da escrita deste post, seis filmes do Dark Universe foram anunciados em diferentes estágios de produção:

  • A Múmia (lançamento em junho de 2017);
  • A Noiva de Frankenstein (Em pré-produção e previsto para fevereiro de 2019);
  • O Homem Invisível (Em desenvolvimento e estimado para 2020);
  • O Monstro da Lagoa Negra (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • Van Helsing (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • O Lobisomem (Em desenvolvimento e sem data prevista em lançamento).

Ainda que seja esperado que a ação supere a reflexão no que se refere a explorar os monstros como símbolos de questões contemporâneas, fica aqui abaixo o que cada monstro pode trazer de debate com base no seu legado literário.

1. A Múmia

Origem: Cultura egípcia 

Obra de estréia: A Múmia (1932)

Melhor filme até aqui: A Múmia (1999)

LegadoA múmia já foi objeto de análise aqui no blog onde eu discuti os problemas que cercam o personagem. Para ler o post, clique aqui.

Basicamente, o personagem guarda semelhança com o vampiro enquanto criatura morta-viva e de passado nobre, mas não tem o forte simbolismo erótico do primeiro. 

Além disso, enquanto monstro que nos leva a refletir sobre a nossa mortalidade e o além-vida, a múmia perdeu seu espaço para o zumbi. 

2. A Noiva de Frankenstein

Origem: Literatura

Obra de estréia: A Noiva de Frankenstein (1935)

Melhor filme até aquiA Noiva de Frankenstein (1935)

LegadoUm dos maiores ícones femininos no Cinema, a noiva de Frankenstein tem seu nascimento no romance Frankenstein (1818), ainda que na obra ela seja apenas mencionada, mas não de fato criada. 

A força simbólica da personagem pode render excelente debate sobre o empoderamento feminino, principalmente pelo fato de ser (literalmente) um produto do discurso masculino.

3. O Homem invisível

Origem: Literatura

Obra de estréia: O Homem Invisível (1897), de H. G. Wells

Melhor filme até aquiO Homem Invisível (1933)

Legado: Como já também analisado aqui, desde sua gênese literária, o personagem é uma releitura do tema do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson.

O tema da invisibilidade permite a discussão sobre nossos limites éticos. O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? 

4. O Monstro da Lagoa Negra

Origem: Cinema

Obra de estréia: A Criatura da Lagoa Negra (1954)

Melhor filme até aquiA Criatura da Lagoa Negra (1954)

Legado: O caçula dos Monstros da Universal e o único sem ligação literária, folclórica ou cultural, este monstro é produto do discurso científico dos anos 50, fascinado com mutações e seres alienígenas.

Ele simboliza os mistérios e perigos escondidos da natureza e o quanto pode ser perigoso ao homem tentar desvendar esses elementos sem demonstrar respeito pelos mesmos. 

5. Van Helsing

Origem: Literatura

Obra de estréia: Drácula (1897), de Bram Stoker

Melhor filme até aqui: O Horror de Drácula (1958)

Legado: Desde sua primeira aparição o cientista e investigador do sobrenatural Abraham Van Helsing simboliza o agente responsável pela restauração da ordem em um mundo onde o caos se manifesta por meio do monstro.

Por vezes, subvertendo até mesmo a ética para alcançar esse fim.

6. O Lobisomem

Origem: Mitologia

Obra de estréia: A Lobisomem (1913) (filme perdido da Universal)

Melhor filme até aquiO Lobisomem (1941)

Legado: Assim como o próprio personagem do Dr. Jekyll (e Mr. Hyde), o lobisomem tem sua força enquanto monstro que aborda a dualidade do ser humano. O embate entre nossos impulsos e vontade individuais contra nossas obrigações e deveres sociais. 

Agora é só esperar que façam um bom trabalho com a enorme tradição cultural destes monstros atemporais, sem apelarem apenas para efeitos especiais.

E aí? Quais são as suas expectativas para o Dark Universe

Será que vão respeitar o legado dos Monstros da Universal?

Deixe seu comentário, compartilhe este post com seus amigos monstruosos e assine o blog.

Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LEADBEATER, Alex. The Mummy Director Explains Dr. Jekyll’s Role in the Film. In: SCREENRANT. Acesso em 27 maio de 2017.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

Gostou?

Então deixe o seu comentário e compartilhe com seus amigo visíveis ou invisíveis. 

Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

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5 razões pelas quais você não tem medo de Múmia

Semelhante ao seu primo sobrenatural sugador de sangue, ele habita a fronteira entre os vivos e os mortos, dorme em um caixão, possui raízes nobres em terras exóticas e tem poderes sobre-humanos. Sendo assim, por que a múmia não possui o mesmo status junto ao público, escritores e roteiristas que o vampiro ou outros ícones do horror, como a criatura de Frankenstein e o lobisomem? 

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Monstros clássicos do Universal Studios

Se você quiser pular direto para as 5 razões, clique aqui.

Mas se quiser descobrir brevemente os mistérios que criaram a mítica desta criatura no Egito e sua representação na Literatura e no Cinema continue a leitura abaixo.

Terra imortal

Ainda que em todos os continentes ao longo da história da humanidade tenham existido culturas que praticaram a mumificação, foi no Egito antigo que esta técnica se aprimorou, tendo seu início no ano 2950 a. C. e alcançando seu ponto alto no ano 1100 a. C.

Empacotado para a viagem ao outro mundo
Empacotado para a viagem ao outro mundo

O propósito da múmia era a conservação do corpo em virtude da crença na imortalidade do indivíduo. A morte, para o egípcios, era passageira e a alma da pessoa poderia retornar ao corpo caso este estivesse conservado

Hórus X Jesus

Os mistérios do Egito começaram a ser moldados no século 4, quando o Cristianismo foi implantado no país por meio do Império Romano e os tempos dedicados ao deuses egípcios foram fechados por ordem do imperador Teodósio I.

horus
Muitos mitólogos apontam os pontos de contato entre Hórus e Jesus Cristo.

Com a morte dos sacerdotes e escribas egípcios, o conhecimento pala ler e escrever os hieróglifos (do grego, “escrita sagrada”) se perdeu e os mortos pararam de ser mumificados, dando início aos mistérios sobre seus significados.

hieroglifo
Apenas membros da realeza, possuidores de altos cargos, escribas e sacerdotes tinham o conhecimento para ler os hieróglifos.

Nasce a alquimia da múmia

Os árabes tiveram papel chave na criação do imaginário que temos hoje da múmia e do Egito como um todo quando a região do Nilo se tornou parte do mundo árabe na primeira invasão islâmica em 639.

Intrigados com os hieróglifos, construções e os corpos embalsamados daquela civilização, os árabes chamavam o Egito de Al Keme (“A Terra”), que fazia menção tanto ao fértil solo nas margens do Rio Nilo, quanto a magia oculta naquele local que eles não compreendiam.

Para alguns historiadores, vem dai a palavra “Alquimia”, ou seja, a utilização e manipulação de palavras específicas e elementos para a transformação de uma substância em outra. 

Além de “Alquimia”, a própria palavra “Múmia” nasceu entre os árabes através do termo mumiya (“corpo embalsamado”).

A múmia invade a Europa

Ansioso por se comparar ao grandes conquistadores do passado em suas campanhas na Ásia e na África, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito em 1798 levando junto com sua tropa centenas de biólogos, linguistas, matemáticos, químicos, botânicos, zoólogos, economistas, poetas e outros especialistas.

Napoleão diante da Esfinge
Napoleão diante da Esfinge

 O resultado foi o começo de uma Egiptomania que trouxe para a França diversos tesouros, monumentos e documentos, muitos dos quais ainda fazem parte do cenário parisiense de hoje, como o Obelisco de Luxor na Place de La Concorde, que originalmente ficava na entrada do Templo de Luxor, no Egito.   

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Até hoje o Egito cobra a devolução de suas propriedades levadas por Napoleão.

Neste clima, estava pronto o terreno para a estréia literária da múmia como criatura sobrenatural  evocadora do horror.

A múmia gótica

Para o crítico S. T. Joshi, autor de Icons of Horror and the Supernatural (2007), Mary Shelley (sempre ela), autora de Frankenstein (1818), pode ter sido a primeira escritora na ficção inglesa a evocar a múmia como uma criatura do horror.

Quanta imaginação tinha essa menina!
Quanta imaginação tinha essa menina!

Na obra, quando Victor Frankenstein vê sua hedionda criação, diz: “Oh! Nenhum mortal poderia suportar o pavor daquela visão. Uma múmia que voltasse a vida não seria tão assustadora.”

Frankenstein ainda pode ter exercido influencia no primeiro romance estrelado por um múmia: A múmia! Um conto do século vinte e dois (1827), da jovem Jane Loudon. Aqui, no entanto, a múmia não é apresentada de forma monstruosa, evocando empatia e não horror.  

Múmia no mundo da FC
Múmia no mundo da FC

Chama a atenção aqui o fato também que a primeira obra protagonizado por uma múmia tenha sido na verdade uma Ficção Científica.  

Aguardando um bestseller

Após sua estréia por vias tortas na Literatura Inglesa, a múmia foi personagem nos trabalhos de vários nomes do gótico francês, inglês e norte-americano ao longo do século dezenove e vinte, nunca sendo plenamente estabelecida como um ícone do horror. Dentre estas obras que ajudaram a estabelecer características das histórias da múmia destacam-se:

  • “O pé da múmia” (1840), do francês Theóphile Gautier – Introduz o elemento romântico na qual um personagem se apaixona pela múmia. Ainda que fale dos aspectos mágicos da criatura, o tratamento do tema é de comédia.  
  • “Algumas palavras com uma múmia (1845), de Edgar Allan Poe – Primeiro conto em Língua Inglesa a trazer a criatura do Egito. O tom que o mestre do gótico norte-americano imprime, todavia, é de sátira ao invés do horror;
  • O romance da múmia (1856), de Theophile Gautier – Primeiro romance a ser ambientado de forma historicamente precisa no Egito.  
  • “Lot No. 249” (1892), de Arthur Conan Doyle – Este conto do criador do detetive Sherlock Holmes traz pela primeira vez uma múmia revivida como promotora do medo, sendo utilizada como instrumento de vingança contra outras pessoas.   
  • A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker – O romance do escritor de Drácula, traz a estréia do tema da princesa egípcia revivida que tem semelhanças físicas com heroína dos tempos atuais. A mesma abordagem usada no filme A múmia (1999). 

A múmia também saiu do sarcófago nas seguintes obras literárias dignas de nota:

  • “The Nemesis of Fire” (1908), de Algernon Blackwood;
  • “Smith and the Pharaohs” (1912), de H. Rider Haggard;
  • “Imprisoned with Pharaohs” (1924) e “Out of the Aeons” (1935), de H. P. Lovecraft;  
  • “The Empire of the Necromancers” (1932), de Clark Ashton Smith;
  • The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice;

No Cinema

Antes de Drácula, o monstro de Frankenstein e o Lobisomem, a Múmia esteve lá, nos primeiros anos do Cinema, sendo esta o principal veículo no qual esta criatura vem se propagando na cultura pop. As produções mais representativas são:

Cleopatre (1899), direção de George Méliès – Foi com este filme que o pioneiro do Cinema se tornou conhecido nos EUA. Na trama, um homem (o próprio Méliès) picota a múmia de uma rainha e produz uma nova mulher no fogo.

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O pioneiro do Cinema é mais conhecido do público pelo filme Le Voyage dan la Lune (1902).

A múmia (1932), direção de Karl Freund – Clássico dos Estúdios Universal que consagrou a múmia no Cinema norte-americano ao lado de Drácula (1931) e Frankenstein (1931). Estrelado por Boris Karloff.

A múmia (1959), direção de Terence Fisher – Produção dos estúdios ingleses Hammer Films e estrelado pela dupla dinâmica Peter Cushing e Christopher Lee. 

A múmia (1999), direção de Stephen Sommers – Filme que teve o mérito de apresentar de maneira competente o monstro para as novas gerações. O sucesso rendeu duas continuações em 2001 e 2008 sem o mesmo impacto. 

A múmia (2017), direção de Alex Kurtzman – Próxima reencarnação cinematográfica do ser mumificado no Cinema. Estrelado por Tom Cruise o filme traz uma princesa múmia (para aproveitar a onda do empoderamento feminino no Cinema, será?) cujo destino lhe foi tirado injustamente. 

Agora que você tem mais informações, veja as 5 razões pelas quais esta criatura sobrenatural não consegue se igualar a outros monstros do universo do Horror, e que leva você a não ter  medo da múmia:

1. A múmia existe

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

A afirmação do escritor de Horror H. P. Lovecraft em O horror sobrenatural em literatura (1927) ajuda a entender o pouco impacto da múmia como agente do medo.

As múmias existem e você pode visitá-las a qualquer momento em um museu. O conforto desta realidade se alia as pesquisas da ciência que dissecam a múmia aos olhos do público, expondo seu interior, sua humanidade e, indiretamente, eliminando sua aura sobrenatural.

Assim, diferente das outras criaturas que, assim como ela, estão ligadas ao folclore ou a crenças religiosas de um povo, como o vampiro, o lobisomem, o demônio e o fantasma, a múmia está ao alcance da nossa racionalização e, portanto, longe de nossas duvidas (e medos) sobre sua possível existência. 

2. A múmia não possui relevância literária

Pensou em vampiro, lembrou do romance Drácula, de Bram Stoker. Pensou em Duplo, lembrou da novela O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson ou no conto “William Wilson”, de Edgar Allan Poe. Pensou em homem brincando de Deus, lembrou do romance Frankenstein, de Mary Shelley. 

Diga aí uma obra literária famosa sobre a múmia

Um obra literária reflete as expectativas e angustias de seu tempo, incorporadas nos monstros citados acima. Este fato permite uma dimensão de identificação entre leitor (ou expectador) e obra conferindo a esta última uma importância validade pelo público e pelo mundo acadêmico que a leva a estar presente em diferentes mídias e veículos ao longo de anos.

O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas
O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas

A obra mais representativa sobre a múmia é o romance The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice, mas mesmo neste livro Rice não conseguiu o mesmo efeito que tinha conseguido com os vampiros e acaba incorrendo na repetida trama do amor imortal já visto em outas leituras da lenda.

Alguém pode argumentar que o lobisomem também não possui uma obra canônica que justifique sua fama nos dias de hoje, mas a resposta para isso nos leva a terceira razão.

3. A múmia não instiga nosso inconsciente

A múmia certamente chama a atenção por levar você a refletir sobre a sua própria mortalidade. Mas é só.

A fascinação pelo vampiro, por exemplo, passa pelo simbolismo do sangue enquanto elemento ligado a vida, ao sexo e ao sagrado. Inconscientemente você é fascinado e sente repulsa por uma criatura que em seu ataque carregado de tensão erótica realiza, em apenas um ato, dois impulsos básicos do ser humano: comer e copular.

Christopher Lee como Drácula
Christopher Lee como Drácula

Além disso, o estilo de vida do vampiro causa admiração pelo fato de que, na sua existência como morto-vivo, ele está além das convenções morais, religiosas e sexuais que inibem a vida dos vivos.   

Já o lobisomem e o Duplo, por sua vez, tem seu apelo junto ao imaginário sustentado pelo lado bestial e instintivo do ser humano, mantido escondido e reprimido por meio das instituições familiares, religiosas e governamentais e que, de vez em quando, quer emergir e se libertar. É o Id contra o Superego. 

Lembre-se de quando você teve o seu Dia de Fúria.

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Transformação no filme Um Lobisomem americano em Londres (1981)

Dr. Jekyll e Mr. Hyde
Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1941)

Por fim, o monstro de Frankenstein nos horroriza por ser a lembrança da transgressão maior: contra a vida. Independente de sua religião, a criatura de Mary Shelley evoca reflexões sobre a Natureza (e o feminino) ser a única responsável pela geração da vida, algo que Victor Frankenstein viola e paga o preço por isso. 

Além disso, o romance de Shelley tem raízes míticas, em narrativas sobre a violação de conhecimentos proibidos e as consequências desse ato. 

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A punição do titã Prometeus por ter entregue aos homens o fogo roubado dos deuses foi ser acorrentado em uma pedra e ter seu figado devorado eternamente por um abutre.

4. A múmia não se sustenta enquanto imagem do medo

Desde suas primeiras aparições literárias e cinematográficas a abordagem prevalecente das histórias sobre múmias não provocam o horror, mas sim a compaixão ou empatia pela criatura. 

Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).
Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).

Isso é o resultado de enredos e roteiros que recorrentemente usam o tema da reincarnação da pessoa amada e da possessão espiritual de algum amante pelo espírito ancestral. Assim, o que era pra ser de Horror vira Amor e mesmo os assassinatos da criatura ganham a justificativa na linha do “No amor e na guerra vale tudo”. 

Se você lembrar que o significado da palavra “múmia” é “corpo embalsamado” ai terá outro problema: em muitas histórias na literatura e no cinema a múmia perde suas mortalhas e assume a aparência dos vivos mas dotado de super poderes.

É igual a um lobisomem que não se transforma em lobo ou um vampiro sem caninos salientes. 

 5. A múmia foi substituída pelo zumbi

Cadáver ambulante por cadáver ambulante, o zumbi é mais eficiente hoje na provocação do horror do que a múmia e permite maior reflexão sobre a mortalidade do ser humano. 

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Ei, me dá uma mãozinha aqui.

O zumbi supera a múmia, e vem superando outros monstros clássicos da Literatura e do Cinema, por lidar com um dos tabus da humanidade: o canibalismo.

Este canibalismo, e o comportamento dopado do zumbi tradicional (e não aqueles zumbis atletas do filme Guerra Mundial Z) reflete a alienação do ser humano na atualidade dentro da cultura do consumismo desenfreado e da dependência da tecnologia.

 

Ilustração de Steve Cutts
Ilustração de Steve Cutts

E ai? Concorda com as razões pelas quais você não tem medo de múmia, ou não?

Se gostou, deixe seu comentário e compartilhe este texto com seus amigos monstruosos.

Até a quarta que vem!

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LOVECRAFT. H. P. O horror sobrenatural na literatura. Trad. Celso M. Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2007.

   

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com