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Por que o número 3 aparece tanto em Contos de Fadas?

Pois é, o número três, mais do que qualquer outro numeral, aparece com recorrência nos Contos de Fadas e na Fantasia como um todo.

Na tradição inglesa, três porquinhos tentam escapar da fome do lobo.

Na tradição francesa, são três perguntas que Chapeuzinho Vermelho faz ao lobo antes de ser devorada por ele.

Na tradição alemã, por três vezes a madrasta-bruxa tenta matar Branca de Neve.

Na tradição árabe, o gênio concede três desejos a Aladin.

E isso só para citar quatro casos, dentre centenas, que mostram a força dos números no mundo dos contos de fadas.

A mística dos números

Desde tempos ancestrais, que se perdem na memória do tempo, os números são considerados expressões da ordem cósmica. 

Para a pesquisadora Miranda Bruce-Mitford, essa tradição pode ter se iniciado na observações babilônicas dos eventos astronômicos regulares, como a noite e o dia, as fases da lua e os ciclos das estações do ano.

Já Jean Chevalier e Alain Gheerbrant destacam que a interpretação dos números é uma das mais antigas entre as ciências simbólicas.

Platão, por exemplo, considerava o estudo dos números o mais alto grau de conhecimento e a essência da harmonia cósmica e interior.

Já na China a importância dos números se faz notar desde o I-Ching

Mas, dentre tantos números, por que o três é tão simbólico especificamente para a Fantasia?

A trindade mitológica e religiosa

O primeiro lugar para se investigar a importância do três na vertente da literatura fantástica chamada Fantasia se encontra nas mitologias e religiões.

Afinal de contas, é na busca do divino criado a partir da tentativa de compreender os fenômenos da Natureza, que se encontra as bases para as narrativas que fomentaram os contos orais folclóricos e, posteriormente, os contos de fadas.

Alias, se você quer entender mais sobre Como, Quando e Onde surgiu o Conto de Fada, assista ao episódio da série O QUE É FANTASIA sobre o tema no canal do FANTASTICURSOS no Youtube, clicando aqui

Na Mitologia Clássica

Dentro da Mitologia greco-latina, o três aparece na estrutura de poder dos deuses clássicos que regem o universo: Zeus/Júpiter domina o céu e a terra; Poseidon/Netuno controla os oceanos e Hades/Plutão vive nos reinos inferiores.

 

Essa divisão aponta para um equilíbrio do universo alcançado pela partilha de poder regulada pelo três.

No Hinduísmo

Na Índia, a manifestação divina é tripla (Trimurti): Brama, Vixenu e Shiva, trazendo os aspectos da produção, da conservação e da transformação da realidade.

No Budismo

Ainda no Oriente, o Budismo tem a sua expressão perfeita na Jóia Tripla (Triratma) personificada em Buda, Dharma e Sanga que compõem o Tao.

No Cristianismo

A base teológica do Cristianismo é formada pela tríade da unidade divina, na ideia de que, como destaca Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Deus é uma em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Os Reis Magos são três e simbolizam as três funções do Rei no mundo, expressadas na figura de Cristo: Rei, Sacerdote e Profeta.

Na tradição judaica da Cabala o três tem função primordial por revelar, por trás do ato da criação:

  1. O elemento ativo, correspondente ao espírito;
  2. O elemento intermediário, correspondente a alma;
  3. O elemento passivo, correspondente ao corpo.  

A trindade da Natureza

De fato, o que as mitologias e religiões expressam por meio do número três é o padrão da Natureza que se dissemina e se reproduz em outras esferas da existência da humanidade.

A vida  humana é tripartida na sua estrutura, pois divide-se em vida material, racional e espiritual e esse padrão servia de espelho para a composição social do passado, como durante o Feudalismo.

Da mesma forma, os seres vivos obedecem a um padrão regulado pelo três: nascimento, crescimento e morte.

O feminino

Falando de padrões da Natureza, fala-se da figura da mulher e sua ligação com o número três. 

Como tive oportunidade de explicar no vídeo no episódio da série O QUE É FANTASIA sobre a diferença entre a Mitologia Grega e a Mitologia Nórdica, que você pode ver clicando aqui, essa incorporação da Natureza pela mulher é representada nas figuras das Moiras (Mitologia Grega) e da Nornas (Mitologia Nórdica).

Essa trindade feminina, que também assume a forma da Virgem, a Mulher e a Anciã, é o espelho da Natureza nos aspectos do Nascer – Amadurecer – Morrer e da Manhã – Tarde – Noite. 

Era uma vez um número…

Com base no que foi exposto acima, enquanto versões populares e simplificadas do mitológico, os Contos de Fada, se amparam no simbolismo do número três em diferentes formas, dentre as quais destaco:

  1. Personagem e;
  2. Enredo.

No caso do Personagem, além dos já citados Três Porquinhos também temos três personagens nos seguintes contos:

  • “As três princesas” (1634), do italiano Giambattista Basile; 
  • “Os três aprendizes” (1812), dos alemães Irmãos Grimm;
  • “Cachinhos Dourados e os três ursos” (1837), do inglês Robert Southey;
  • “A história dos três mendigos maravilhosos” (1855), do russo Alexander Nikolayevich Afanasyev.  

Ainda dentro do personagem, destaque para o fato que é sempre o terceiro filho ou filha, caçula, o herói da história.

Já falando do Enredo, o que se observa é que os contos de fadas usam o número três para construir a jornada do personagem ao longo da narrativa.

Essa caminhada se traduz em três tarefas, missões ou testes que o personagem precisa passar para conseguir o objetivo almejado no início do conto.

Essas ações tem o propósito de mostrar o valor e merecimento do personagem do conto de fada.

Em quais outros contos você observa a presença do número três?

E como a tradição da Fantasia contemporânea, de J. R. R. Tolkien, J. K. Rowling e Rick Riordan, dentre outros, faz uso desse simbolismo na sua opinião? 

Deixa ai nos comentários.

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Obrigado pela leitura!

Fontes utilizadas

BRUCE-MITFORD, Miranda. O livro ilustrado dos signos e símbolos. São Paulo: Livros e livros, 1996.

CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, et al. 11 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997,

TATAR, Maria. Contos de fada. Edição comentada e ilustrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

Século 19: A Era de Ouro da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica

Nenhum outro momento histórico da Literatura Fantástica, até hoje, foi mais rico em termos de produção e diversificação de obras e gêneros quanto no período compreendido entre a segunda metade do século 19 e o início do século 20 na Europa e nos Estados Unidos.

Nenhum outro.

Mas, por que especificamente esse período?

A Razão como promotora do Fantástico

Dentre diferentes fatores que promoveram uma verdadeira erupção do Fantástico durante a chamada Era Vitoriana (1837-1901) vou destacar aqui quatro pontos:

  • Os efeitos da Revolução Industrial;
  • O impacto de teorias científicas, com destaque para as ideias evolucionistas de Charles Darwin;
  • As pesquisas sobre o inconsciente humano e;
  • As consequências do Imperialismo europeu;

O ponto em comum a todos esses elementos é a presença do racionalismo como força motivadora da literatura fantástica em dois sentidos:

Primeiro, ao criar o cenário de curiosidade pelas novidades e promessas tecnológicas que fomentaram narrativas que celebravam, ou discutiam, o impacto da Ciência e seus produtos sobre a sociedade de fim de século.

Segundo, ao criar o cenário de rebelião a este mesmo discurso racionalista, construído  a partir da utilização do repertório mítico de natureza religiosa, sobrenatural e folclórica em histórias ambientadas no contexto finissecular.

Mas quais foram essas expressões do Fantástico alinhadas ou opositoras ao discurso racionalista? Olha aí. 

Fantasia 

No Reino Unido, Alice no País das Maravilhas (1865), A ilha do tesouro (1883) e Peter Pan e Wendy (1911); na Itália, Pinóquio (1883); na América, O maravilhoso mágico de Oz (1900) e no Brasil, A menina do narizinho arrebitado (1922).

Países diferentes cujas narrativas apresentam o mesmo padrão: diante de uma sociedade marcada pelo cientificismo, marcada pela expansão desordenada das grandes cidades com os consequentes efeitos colaterais do aumento da pobreza e da criminalidade as fadas decidem abandonar nossa realidade e se mudam para outro plano.

Afinal de contas, como essas criaturas poderiam voar em meio as nuvens de fumaça expelidas pelas centenas de fábricas da Revolução Industrial?

As crianças como protagonistas

O resultado deste fato foi o aparecimento do Romance para crianças, caracterizado por personagens infantis que se deslocam de seus lares para viverem aventuras em lugares exóticos e/ou mágicos enquanto contestam os valores do universo dos adultos.

Assim surgem reinos escondidos em tocas do coelho, em ilhas exploradas por piratas, em lugares além das nuvens, acessadas por tornados, no interior de baleias ou ainda no bucolismo do interior em sítios habitados por avós. 

Quando for ele estes romances infantis, perceba também como eles evoluíram para a forma atual.

Se antes tínhamos um herói ou heroína atuando sozinhos, hoje eles precisam dos seus amigos para a resolução dos problemas. Isso reflete a necessidade do grupo sobre o individuo.

Gótico

Carmilla (1872), O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1886), O retrato de Dorian Gray (1891), Drácula (1897) e A volta do parafuso (1898).

Mais uma vez, um curto período de tempo fomenta o aparecimento de obras de um gênero específico, hoje tidas como clássicas.

Após surgir no ano de 1764 com O Castelo de Otranto, de Horace Walpole como uma reação do sobrenatural a hegemonia do racionalismo iluminista, o gótico passou por transformações ao longo do século 19 nas mãos dos românticos que expandiu sua estrutura e temáticas.

Mas foram as últimas décadas do mesmo século 19 que testemunharam o ressurgimento do gótico em perfeito alinhamento com as grandes questões e ansiedades da sociedade vitoriana.

A decadência da evolução 

Habitando a mesma Londres que na vida real contou com a presença de Jack, o Estripador, os personagens do gótico vitoriano refletiam a postura artística do Decadentismo que, como observado no jovem Dorian Gray, refutava o discurso do progresso a favor de um comportamento marcado pela busca de sensações e a construção de universos artificiais alienados da vida urbana.

Outras duas influencias, dentre tantas, eram as ideias evolucionistas de Charles Darwin e as pesquisas sobre o inconsciente humano, incorporadas na aparência simiesca do Mr. Hyde ou em Drácula, que era capaz de subverter a cadeia evolucionária se transformando em ratos ou lobos. 

Ao ler, perceba como estes mesmos dois personagens também revelam a postura imperialista, externa e interna, das elites inglesas em relação ao estrangeiro e aos pobres da sociedade vitoriana.

Ficção Científica

Na França, Da Terra a Lua (1865) e Vinte mil léguas submarinas (1870); na Inglaterra, A máquina do tempo (1895) e Guerra dos mundos (1898), dentre tantas outras obras mais. 

Antes da Ficção Científica ser chamada de Ficção Científica haviam as Viagens Extraordinárias do francês Júlio Verne e os Romances Científicos do inglês Herbert George Wells.  

 Ao contrário da Fantasia e do Gótico, que traziam em seu discurso uma oposição ao racionalismo hegemônico do período, as obras de Verne e Wells, em sua maior parte, celebravam as possibilidades redentoras e transformadoras que a Ciência poderia trazer para a humanidade.

Isso é algo particularmente notado nos romances do escritor francês.

Já no caso de H. G. Wells, suas obras frisavam o caráter neutro da Ciência, dando ênfase ao fato que era o homem o responsável pela eventual corrupção desta na criação de produtos ou práticas que oprimiam o individuo.

Ao ler Verne e Wells, perceba como os dois escritores ora corroboram ora criticam a visão européia em relação a outros povos e culturas.

Tempos estranhos

A inclinação das últimas décadas do século 19 para o Fantástico não se restringiu apenas ao surgimento ou revitalização de expressões distintas do Fantástico.

Ela também se manifesta na subversão das fronteiras entre elas, como no caso da Weird Fiction.

Mas isso já é assunto para outro post aqui do blog FANTASTICURSOS.

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Obrigado pela leitura e até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. Trad.Carlos Moisés e Ana Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

CAUSO, Roberto de Souza. (2003). Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo: Ática, 1997.

JAMES, Edward, MENDLESON, Farah (Eds). Fantasy Literature. Cambridge University Press, 2012, p. 200-213. (The Cambridge Companion to).

RUDDICK, Nicholas. The fantastic fiction of the fin de siècle. In: MARSHALL, Gail. (Ed.). The fin de siècle. Cambridge University Press, 2007, p. 189-206. (The Cambridge Companion to).

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts on File Inc., 2005

 

Você conhece seu corpo? 5 contos fantásticos sobre partes do corpo.

O século 19 e início do século 20 foram o ápice do fascínio do público e da Medicina com as aberrações do corpo.

A história do Homem Elefante já virou filme e peça de teatro.

Na Inglaterra Vitoriana, por exemplo, Joseph Merrick despertou o interesse do público e da comunidade científica da época com sua gradual deformação física, que o levou a ser conhecido como o Homem Elefante. 

Da Esq. para a Dir.: Annie Jones (“A Mulher Barbada”), Jack Earle (“O Homem mais alto do mundo”) e Myrtle Corbin (“A garota de quatro pernas do Texas”)

Já nos Estados Unidos, espetáculos freaks itinerantes tais como o do circo Ringling Bros.’ corriam o país mostrando corpos que subvertiam as convenções do normal.

Corpo Fantástico (e rebelde)

Na Literatura Fantástica, em suas diferentes vertentes, o corpo humano sempre forneceu histórias sobre partes do corpo que assumem comportamentos insólitos. 

Na Fantasia, apenas para citar um caso dentre tantos, quem não lembra do nariz de Pinóquio? Membro acusador da transgressão da honestidade do boneco de madeira.

No Gótico, o monstro de Frankenstein, composto de membros de cadáveres, denunciava a transgressão da Ciência sobre os mistérios da vida.

Na Ficção Científica, “O estranho caso dos olhos de Davidson”, de H. G. Wells, mostra como após um acidente, os olhos de um homem passam a enxergar não o mundo a sua frente, mas a realidade do outro lado do planeta.

Veja abaixo algumas outras obras em que partes do corpo ocupam papel central na construção do fantástico na Literatura.

1. Mão

Obra: “A mão encantada”

Ano de publicação: 1832

Autor: Gérard de Nerval (1808-1854)

Sinopse: Para conseguir vencer um duelo contra um militar, um comerciante de tecidos recorre a feitiçaria cigana e fica com a mão encantada. Após vencer o duelo ele não consegue controlar a mão e esta acaba agredindo o magistrado que julgaria seu caso. Após ser enforcado, a mão do morto permanece ativa, o que leva o carrasco a cortar a mão do cadáver. Após se libertar do corpo do enforcado, a mão abre caminho entre a multidão estarrecida e alcança o cigano que lhe deu vida.

Curiosidade: Conto marcado pelo simbolismo moral da agressividade que o ser humano carrega dentro de sua natureza. 

2. Nariz

Obra: “O nariz”

Ano de publicação: 1835

Autor: Nicolai Vassilievitch Gogol (1809-1852)

Sinopse: Sentado a mesa para o café da manhã junto com sua esposa o barbeiro Ivan Iákovlevitch descobre dentro de um pão o nariz de seu cliente, o major Kovaliov. Após vários incidentes tentando se livrar do nariz o barbeiro acaba jogando o mesmo em um rio. Ao mesmo tempo o militar procura incessantemente seu nariz, pensando nas consequências de sua imagem sem esta parte do corpo. Após várias ações, o major Kovaliov desperta e percebe que seu nariz está de volta em seu rosto.  

Curiosidade: Sátira feroz de Gogol a burocracia russa. Conto pertencente a fase surrealista do escritor. 

3. Pé 

Obra: “O pé da múmia”

Ano de publicação: 1840

Autor: Théophile Gautier

Sinopse: Homem compra em antiquário um pé de múmia supostamente pertencente a uma princesa egípcia para ser usado como peso de papel. Ao dormir, ele recebe a visita da princesa Heronthis, que explica ao jovem que seu pé foi roubado e o quer de volta. O homem então pede a princesa uma estatueta em troca pelo pé. Heronthis transporta o narrador até o Egito Antigo onde o rapaz pede a mão da princesa em casamento, pedido este que é negado pelo Faraó, pai de Heronthis. Ao ser despertado por um amigo, o jovem percebe que o pé da múmia desapareceu e em seu lugar há uma pequena estátua. 

Curiosidade: Conto que se apoia na recorrente estratégia do conto fantástico do século 19 do sonho como espaço do acontecimento insólito. Reflete também o fascínio da época na França com a cultura egípcia.

4. Dedo

Obra: “O dedo do meio do pé direito”

Ano de publicação: 1890

Autor: Ambrose Bierce

Sinopse: Dez anos após matar os dois filhos e a esposa, e ainda ter decepado o dedo do meio do pé direito da mulher, um homem chamado Manton retorna a sua região com nova aparência. Ele acaba sendo desafiado para um duelo de faca a ser realizado em sua antiga residência, local onde ele cometeu o crime e que tem agora a fama de ser mal assombrado. Na hora do duelo Manton é encontrado morto com o rosto retorcido de medo. A investigação do lugar revela pegadas de alguém que não possuía o dedo do meio do pé direito.

Curiosidade: Considerada umas das melhores histórias sobrenaturais de Ambrose Bierce com o tema da vingança do além.

5. Orelha

Obra: “O inexplicável caso da orelha de Lolô”

Ano de publicação: 1944

Autor: Bernardo Élis

Sinopse: Homem rejeitado pela prima e trocado por empregado negro corta a orelha deste e prende a mulher no porão da casa para lá ela falecer. Anos mais tarde, ao visitar o local com um amigo de juventude os dois testemunham a orelha decepada ganhar vida e patas e sair da caixa onde estava guardada para levar o assassino a morte pelo pavor. 

Curiosidade: Conto escrito pelo brasileiro Bernardo Élis no livro Ermos e Gerais com a intenção de homenagear o escritor norte-americano Edgar Allan Poe em “A queda da Casa de Usher”. 

Listei aqui apenas 5 contos, dentre tantos outros exemplos, desta longa tradição de partes do corpo humano que rendem histórias fantásticas na Fantasia, no Gótico e na Ficção Científica na Literatura de todo o mundo.

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Fontes utilizadas

CALVINO, Ítalo (Org.). Contos fantástico do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ÉLIS, Bernardo. Ermos e gerais. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

GONÇALO JUNIOR. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998.

PAES, José Paulo (Org.) Os buracos da máscara: Antologia de contos fantásticos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, Inc., 2005.

 

 

Fantasia, Gótico e Ficção Científica: Quando elas se cruzaram?

Hoje em dia, livros, histórias em quadrinhos e séries como A Seleção, de Kiera Cass; Fábulas, de Bill Willingham e Grimm, dentre tantas outras, exploram os tênues limites entre os reinos da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica. 

Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.
Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.

Estas obras subvertem o senso comum de que a presença de personagens específicos, ou espaços determinados definem a que gênero aquela narrativa pertence.

Ou seja, não é porque a história tem zumbi, que ela tem de ser de Horror, assim como também uma história ambientada em uma nava espacial necessariamente será de Ficção Científica. 

ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.
ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.

O Fantástico nos anos de contestação 

As experimentações na Literatura, Cinema e Quadrinhos nas produções ligadas ao Fantástico de hoje podem ser traçadas até as décadas de 60 e 70 quando se percebeu o surgimento de uma nova atmosfera no campo cultural.

Esta situação foi consequência da contestação feita por grupos minoritários diversos que também promoveram o debate sobre a validade da distância entre Baixa e Alta Cultura

O interessante a se observar, no caso do Fantástico, é que no processo de contestar as divisões entre os gêneros literários, o Pós-Modernismo resgatou a estreita ligação existente entre a Fantasia, o Gótico e a Ficção Científica.

Fantasia & Gótico

A ligação primeira entre a Fantasia, na sua manifestação do Conto de Fadas, e o Gótico, ocorre justamente na Idade Média, quando a relação entre o ser humano e o mundo ao seu redor era regulado pelo sobrenatural.

De um lado, dentre tantos exemplos possíveis, as crenças e narrativas populares ligadas a criaturas fantásticas de origem pré-cristã, como as fadas celtas, o deus Pã romano e os anões e elfos teutônicos.

Apesar da hegemonia da Igreja Católica Medieval, vários rituais praticados no meio popular, principalmente relacionadas as colheitas e plantações, mantiveram estas criaturas do Maravilhoso, recorrentes na Fantasia, vivas no imaginário da Idade Média. 

Do outro lado, o discurso cristão na vinculação destas mesmas criaturas, e seus habitats, ao demoníaco e na instituição de toda uma cultura regulada pelo medo, pecado e punição.

Essa marginalização do imaginário popular medieval, e a perseguição promovida pela Igreja, contribuiu para a associação da Idade Média como uma época marcada por fanatismo, superstições, barbarismo e paganismo.

Estando associados aos povos bárbaros que, ao derrubarem o Império Romano, deram início a Idade Média, os Godos logo se tornaram sinônimo da época e Idade Média e Gótico passaram a ser termos que se confundiam.  

Contos de fadas ou Contos Góticos?

Aqui mesmo no blog e no canal do Youtube já postei artigos sobre contos de fadas cujas estruturas se assemelham as encontradas nas narrativas góticas.

Isso mostra que durante a Idade Média, Fantasia e Gótico dialogavam ativamente refletindo um contexto em que as criaturas maravilhosas, muito apropriadamente os vilões, eram apresentados por meio de uma visão gótica criada pelo Cristianismo. 

Citar aqui apenas três exemplos.

O lobo como disfarce do diabo

Em “Chapeuzinho Vermelho”, onde o folclore do lobisomem fornece a estrutura da narrativa, temos a criatura de origem mitológica grega e nórdica habitando o espaço da floresta, enxergado pelo Cristianismo da época como o lócus do demônio.

O pagão muçulmano

“Barba Azul” mescla o maravilho de chaves encantadas com convenções do romance gótico, como câmaras secretas, corredores estreitos, perseguição da figura feminina e vilões aristocráticos.

O diabo em pessoa

“Rumpelstiltskin” talvez seja o conto em que o vilão mais se coloca como a incorporação da convergência entre o maravilhoso da Fantasia e o demoníaco do Gótico.

Essa ligação se revela no duende, ligado ao maravilhoso teutônico, que, dentro da narrativa, realiza um pacto diabólico ao condicionar a riqueza concedida a uma moça a entrega do filho da protagonista.  

Gótico & Ficção Científica 

Nascido como gênero literário no ano de 1764 com O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, o Gótico buscou no sobrenatural ligado ao demoníaco a matéria prima para suas histórias. 

Isso pelo menos até o início do século 19 quando a Revolução Industrial, iniciada ainda nas últimas décadas do século 18, já tinha deixado claro para escritores e pensadores que ela iria mudar a percepção do ser humanos quanto ao seu lugar no mundo.

Neste contexto, mais do que o demônio e fantasmas, o que começava a causar angustia no individuo da época eram as rápidas e profundas mudanças trazidas pela Ciência.

A filha do Gótico: Nasce a Ficção Científica

Foi Frankenstein, ou O moderno Prometeus (1818), de Mary Shelley a obra que capturou esse ambiente em que a Ciência começou também a ser vista como um fenômeno sobrenatural que ameaçava a integridade humana.

De um lado, a ambientação de cemitérios e laboratórios escondidos, além da exploração do Sublime marca Frankenstein como um continuador da tradição gótica vigente desde o século 18. 

Todavia, por ser a primeira obra literária em que a Ciência exerce papel decisivo no desenvolvimento do enredo, a obra de Mary Shelley também inaugura a vertente romanesca da Ficção Científica.

Horror + FC = Horror Cósmico

O dialogo entre Gótico e Ficção Científica se desenvolveu ao longo do século 19 na Literatura Vitoriana e alcançou um novo patamar na América do início do século 20.

Foi por meio de H. P. Lovecraft e suas impressões sobre a Modernidade da América da época que o Horror Cósmico surgiu.

Como expliquei em um post específico sobre Lovecraft, a visão do autor de “O Chamado de Cthulhu” de que alguns grupos de imigrantes atraídos para a América pela Modernidade representavam um mundo de caos que o homem civilizado não podia controlar ou compreender foi traduzido em uma cosmologia monstruosa que unia o Horror e a Ficção Científica.

Percebe-se então que o medo em relação ao Outro, ao diferente, assim como também a ansiedade provocada pelas mudanças na sociedade, foram grandes motivadores para a conexão da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica e do Horror Cósmico.

E ai? Você gosta mais da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica ou de tudo junto e misturado?

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Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

SILVA, Alexander Meireles da. “O Barba Azul”: conto de fadas ou conto gótico?. Disponível em Revista de Letras do Instituto de Humanidades.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

O que há de errado com as novas princesas da Disney?

Este post parte de uma inquietação minha, já de algum tempo, não apenas com as novas princesas da Disney, mas também com outras personagens femininas presentes nas animações e filmes ligados aos contos de fada contemporâneos.

No dia 31 de março participei de uma banca de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFG – Regional Catalão em que a aluna Fernanda Lázara de Oliveira Santos defendeu, brilhantemente, as novas configurações das mulheres em animações do estúdio Disney.

Em um dado momento, enquanto a aluna falava dos filmes Malévola (2014), Frozen (2013) e Valente (2012), eu me peguei pensando :

“Porra, mas será que todo homem em contos de fadas hoje tem de ser um FDP ruim ou então um Zé Ruela pobre pra mulher se destacar?”  

Já pensou nisso?

De fato, por trás da aparente representação de princesas que se colocam em pé de igualdade diante de personagens masculinos, o discurso da Disney esconde um desequilíbrio entre os gêneros no qual, para valorizar o feminino, atualmente se atinge o masculino.  

E isso não ajuda as mulheres a mostrar que, ao contrário do que muitos erroneamente pensam, o Feminismo não prega a superioridade das mulheres em relação aos homens, mas, sim, a defesa da igualdade entre os gêneros

Mas pra ajudar você a entender melhor o que estou falando aqui, veja abaixo o que vou chamar aqui de três fases das princesas Disney:

Primeira fase: “Salve-me ó bravo príncipe!”

Princesas:

  • Branca de Neve (1939);
  • Cinderela (1950);
  • Aurora (1959).

Presente no livro Contos da Mãe Gansa (1697), do francês Charles Perrault, livro que inaugurou o gênero conto de fada, “A Bela Adormecida” virou animação da Disney em 1959.

O desenho foi o ponto alto dos estúdios Disney na primeira metade do século vinte. E Aurora, o símbolo maior, da primeira fase das princesas Disney iniciada em 1939 com a animação Branca de Neve e os Sete Anões.

Branca de Neve e os Sete Anões (1939), Cinderela (1950) e A Bela Adormecida (1959) compõem a Primeira Fase das Princesas Disney.

O ponto importante a ser destacado neste primeiro momento é uma maior fidelidade das animações em relação ao texto literário.

Assim como suas equivalentes literárias, as princesas dos contos de fada da Disney refletiam o espaço limitado da mulher na sociedade ocidental.

Ou seja, de fins do século 17 até o fim dos anos 50 do século 20 não houve alteração significativa na visão sobre a mulher na cultura que provocasse um outro tipo de personagem feminino diferente daquele encontrado nos contos de fadas da Disney para o Cinema. 

Como disse mais acima a princesa Aurora da animação A Bela Adormecida simboliza esse espaço de apagamento da mulher.

Afinal de contas, ela aparece apenas em 18 minutos da animação em que ela é a personagem principal e tem apenas 18 falas (!!).

Faz participação especial em seu próprio filme!

Basta olhar a imagem do DVD comemorativo dos 50 anos da animação lançado em 2009. 

Quem está protagonizando a ação? 

Esse fato mostra bem o perfil das princesas clássicas da Disney até o fim dos anos 50.  

Estrutura das histórias

  • Par romântico: Príncipes valentes e corteses.
  • Vilões: Mulheres mais velhas, reforçando a disputa entre mulheres pela atenção masculina;
  • Comportamento da princesa: passiva (a ponto de dormir).
  • Representação masculina: pais e príncipes, são objeto de obediência e devoção. 

Segunda fase: “Eu posso, Eu quero, eu consigo!”

Princesas:

  • Ariel (1989);
  • Bela (1991);
  • Jasmine (1992);
  • Pocahontas (1995);
  • Mulan (1998);
  • Tiana (2009);
  • Rapunzel (2010).

Apenas em fins dos anos 80, trinta anos depois de A Bela Adormecida, a Disney voltou as histórias de princesas com A Pequena Sereia (1989).

Mas, as princesas não podiam mais ser as mesmas.

Surge a princesa rebelde

Afinal de contas, entre 1959 e 1989 o Movimento Feminista dos anos 60 e 70 tinha conquistado visibilidade para mostrar o lugar de opressão ocupado pelas mulheres em diversas esferas, incluindo ai a Literatura.

Neste contexto, diferentes escritoras se apropriaram de formas literárias marcadas por um discurso depreciativo contra as mulheres e as usaram como uma importante ferramenta para se desconstruir a visão sobre o feminino. 

E, dado o seu histórico contra as mulheres, a Fantasia foi uma das escolhidas.

Exemplos disso são a coletânea de contos O quarto do Barba-Azul (1979), de Angela Carter, em que os contos de fadas são reapresentados por uma perspectiva feminista.

Destaque também para a quadrilogia As Brumas de Avalon (1979), de Marion Zimmer Bradley, em que o universo do Rei Arthur e reimaginado pela ponto de vistas das mulheres.

E as princesas da Disney?

Lentamente, as novas princesas foram surgindo ao mesmo tempo em que um novo perfil de relacionamento entre homem e mulher foi se estabelecendo nas animações:

O equilíbrio entre os gêneros alcançado por meio da transformação do masculino.

Vamos aos casos.

Ariel

A primeira das novas princesas da Disney, Ariel é vagamente inspirada na personagem do conto “A Pequena Sereia” (1837), de Hans Christian Andersen, Pai da Literatura Infantil. 

Alias, as mudanças começam ai.

Na Segunda fase, as animações da Disney tem mais preocupação em explorar os elementos icônicos das personagens do que necessariamente adaptar as histórias originais.

Mas, além de não seguir em linhas gerais o texto original, o que A pequena sereia apresentou que a diferenciasse de fato das princesas clássicas da Primeira fase?

Se em um primeiro momento o roteiro da animação traz um príncipe clássico e uma vilã que se interpõe como obstáculo ao triunfo do amor do casal, um olhar mais apurado revela inovações importantes na representação da princesa, tais como: 

  • A princesa quer conhecer o mundo ao seu redor, e não se satisfaz mais apenas com o seu círculo conhecido;
  • Ela contesta e subverte a autoridade paterna;
  • Ela se mostra ativa no cumprimento de seus objetivos.

Sendo a retomada da Disney ao universo das princesas, o estúdio não se arriscou demais além dos pontos mostrados acima e apostou no padrão em que o príncipe está em uma posição superior a personagem feminina.  

Bela 

Aqui começa a mudança de fato.

Animados com o sucesso de A pequena sereia os estúdios Disney foram buscar outra história em que a personagem feminina pudesse ser representada com comportamento ativo.

Eles encontraram o que queriam no conto “A Bela e a Fera”, de Madame de Beaumont (Jeanne-Marie Leprince de Beaumont), publicada na Le magasin des enfants (1756).  beaumont

Originalmente o conto tinha o propósito de ensinar as mulheres a suportarem o ambiente de violência doméstica a que eram submetidas na França do século 18, enfatizando que apenas o amor contínuo poderia transformar o comportamento do homem.

Já na animação de 1991 o conto ganhou um sub-texto que discute e subverte a construção dos gêneros masculino e feminino pela sociedade.

E é por meio dos personagens da Fera e de Gaston que começa o empoderamento do feminino pela crítica ao masculino.

Gaston e a Fera são, em essência, o mesmo personagem. A aparência física conduz seus comportamentos e ambos tem uma postura machista em relação a Bela. 

Enquanto Gaston não muda, a transformação da Fera em Príncipe, ou seja, sua evolução, só ocorre quando ele abre mão de seu comportamento bestial (“machão”).

A marca desta transformação é a forma andrógina do príncipe, sinalizando que ele se tornou mais feminino, ao enxergar em Bela uma igual.  

A Bela e a Fera é a primeira animação da Disney que investe no equilíbrio entre os gêneros, e não no detrimento de um gênero sobre o outro, como força de valorização da mulher. 

Talvez também por isso tenha sido uma das mais bem sucedidas adaptações de contos de fada já na sua primeira versão nos anos 90. O que se repetiu em sua versão live action em 2017.

Variações de “A Bela e a Fera”

Tiana

A primeira princesa negra da Disney, Tiana, repete em A princesa e o sapo (2009) o mesmo percurso de Bela.

Semelhante a protagonista de A Bela e a Fera, Tiana é pobre, nutre o desejo de encontrar o seu lugar no mundo (no caso aqui, abrir um restaurante) e se vê envolvida por uma criatura que tem sua natureza nobre escondida por trás de um feitiço. 

A inovação aqui é mostrar que não apenas o príncipe arrogante e imaturo, mas também a própria Tiana precisam crescer como indivíduos para, juntos em equilíbrio, alcançarem a transformação de volta a forma humana. 

Jasmine e Rapunzel 

As princesas de Aladdin (1992) e Enrolados (2010), seguem o padrão de A Bela e a Fera com a mudança da inversão de classes sociais entre heroína e herói. 

Tanto Jasmine (sendo filha do sultão) quanto Rapunzel (com seu super cabelo lanterna anti-envelhecimento) possuem poderes que evidenciam sua natureza real e as colocam logo no início da história em posição superior aos seus pares românticos, pobres.

Aladdin

O Aladdin da Disney, em particular, é um “Cinderela” as avessas ao mostrar uma figura órfã em situação de pobreza que deseja se encontrar com a realeza e, por meio de uma intervenção mágica, consegue os meios para tal propósito.

Essa situação permite ao personagem mostrar, por meio do relacionamento com a princesa, que é nobre de coração.

Flynn Rider

Já em Enrolados, ao invés de um príncipe como no conto “Rapunzel”, dos irmãos Grimm  o personagem Flynn Rider é um ladrão egoísta que, a medida em que se relaciona com Rapunzel após resgata-la da torre, desenvolve seu lado heroico e altruísta.  

Em ambos os casos, a abordagem utilizada é mostrar mulheres que já desfrutam de um certo empoderamento e que conseguem se tornar ainda mais empoderadas ao promover a evolução (transformação) de seus pares românticos masculinos, culminando em uma situação de equilíbrio entre os gêneros. 

Princesas lendárias  

As princesas de Pocahontas e Mulan são um caso separado por serem baseadas em personagens reais.

Matoaka, o nome real da princesa indígena, gostava de ser chamada de “Pocahontas”, que na língua nativa significava “impertinente”.

Pocahontas foi a filha do chefe indigena Wahunsenacawh, líder da nação Powhatan na América do século 17 e peça importante nos primeiros momentos da colonização da América por colonos ingleses.

Hua Mulan é uma das personagens mais famosas da China Antiga.

Hua Mulan, por sua vez, teria vivido no século 4 da era cristã e as informações sobre ela vem de uma canção folclórica da Dinastia Wei do Norte (386-557 d.C).  

Os roteiros de ambos os filmes abordam os pontos populares nas vidas das duas figuras que são, no caso de Pocahontas, seu (ficticio) relacionamento amoroso com o explorador inglês John Smith e, no caso de Hua Mulan, sua participação disfarçada como homem no exército chinês contra os invasores do país. 

Pocahontas e Mulan entraram no clube das princesas pelo seus comportamentos nobres diante dos obstáculos de suas vidas.

Nestes dois casos em particular o tamanho histórico das personagens acabou por limitar o aprofundamento do relacionamento delas com seus pares românticos.

Estrutura das histórias

  • Par romântico: Príncipes problemáticos e ladrões;
  • Vilões: Predominantemente homens ambiciosos;
  • Comportamento da princesa: Ativa. Luta para conquistar seus objetivos.
  • Representação masculina: pais e príncipes, são objeto de contestação e desconfiança. 

Terceira fase: “Unidas venceremos (os homens)”

Princesas:

  • Merida (2012);
  • Elsa e Anna (2013);
  • Malévola (2014);

Os anos da década de 2010 são o cenário para o surgimento da Terceira fase das Princesas da Disney.

Até o momento da escrita deste post, este é a fase atual dessas personagens cinematográficas.

Merida

Ela tem início no ano de 2012 na Pixar, estúdio ligado a Disney mas que sempre gozou de certa liberdade com suas criações.

A princesa Merida, de Valente (2012) é a primeira princesa que não é baseada em fontes literárias ou históricas.

Além desse fato, a principal contribuição desta produção foi a introdução de personagens femininas que se ajudam mutuamente na resolução de seus problemas e questões, sem precisar contar com o auxilio direto de homens.

Valente rompeu com a necessidade de um par romântico masculino para a princesa, além de colocar os personagens masculinos como coadjuvantes ou vilões.

No caso da história da princesa Merida, seu pai, o rei Fergus é o alívio cômico da animação, assim como também os pretendentes a mão da jovem herdeira do reino.

O roteiro é focado no relacionamento filha e mãe, expresso por Merida e a Rainha Elinor.

“BRAVE” (L-R) MERIDA and QUEEN ELINOR. ©2012 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Concebida para ser rebelde desde os cabelos, Merida abriu caminho com seu arco e flecha para as princesas Elsa e Anna.

Elsa e Anna

Vagamente inspirado no conto “A rainha da neve” (1844), de Hans Christian Andersen, Frozen (2013) começa a linha das princesas derivadas da releitura de vilãs dos contos de fada, transformado a Ranha da Neve má de Andersen em uma princesa incompreendida pelos seus poderes.

Na mesma linha, a desconstrução do perfil de princesa prossegue com a representação da princesa Anna como uma personagem cômica. quebrando a expectativa que se tem de uma figura vinculada a nobreza. 

Os homens, por sua vez, se tornam vilões, caso de Hans, que usurpa o trono das irmãs Elsa e Anna e coadjuvantes, caso de Kristoff, um homem da montanha que auxilia Anna a alcançar a irmã.

Assim como Valente, Frozen se apoia no relacionamento entre mulheres, subvertendo também o clássico “beijo do amor verdadeiro”, ao mostrar que o amor fraternal de Elsa e Anna é maior que tudo.

Malévola 

Na releitura proposta pelo filme de 2014, descobre-se que Malévola, clássica vilã da animação A Bela Adormecida, também poderia ser uma princesa da Disney, visto sua posição de realeza entre as criaturas sobrenaturais da floresta.

Nesta proposta, mais uma vez, os homens assumem o papel de antagonistas, desta vez personificado pelo pai de Aurora, o Rei Stefan.

Aprofundando o caminho aberto por Valente e Frozen, Malévola apresenta uma representação depreciativa do masculino ao longo de toda a trama, apostando na diferença como promotor do feminino.   

Entre as mulheres, depois do relacionamento entre mãe e filha e entre irmãs, aqui se tem a relação entre Fada-Madrinha e afilhada.  

E esperemos o próximo passo, ou a próxima fase.

Vale a pena a guerra dos sexos?

Voltando a questão original, até que ponto essa abordagem da representação feminina ajuda na construção do dialogo entre os gêneros?

A construção da nova representação das mulheres nos Contos de fada precisa, necessariamente, ser baseada no relacionamento entre membros de apenas um dos gêneros?

Onde estão as obras de contos de fada, literárias e cinematográficas, que apostem em personagens masculinos e femininos em pé de igualdade na busca de problemas e soluções.

Longe de trazer respostas, fica aqui a proposta de debate para que não apenas homens e mulheres, mas também o Fantástico saia ganhando na discussão dos problemas da sociedade de hoje. 

Gostou do texto? 

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Fontes utilizadas

BELLEI, Sergio Luiz Prado. Monstros, índios e canibais: ensaios de crítica literária e cultural. Florianópolis: Editora Insular, 2000. 

SANTOS, Fernanda Lázara de Oliveira. Do papel à tela, três histórias de princesas: reconfigurações do feminino entre Literatura e Cinema. 2017. 106 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2017.

TAPIOCA NETO, Renato Drummond. A balada de Hua Mulan – a lenda da guerreira mais famosa da China.  03 de Setembro, 2016. Acesso em 07 de abril de 2017. Disponível em https://rainhastragicas.com/2016/09/03/a-balada-de-hua-mulan/

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

TUDOR Brasil. A verdadeira e trágica história de Pocahontas. 20 de dezembro, 2015. Acesso em 07 de abril de 2017. Disponível em https://tudorbrasil.com/2015/12/20/a-verdadeira-e-tragica-historia-de-pocahontas/

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

 

Weird Fiction, New Weird, Interstitial Writing e Slipstream: Os caminhos da Literatura Fantástica hoje

Você gosta de Literatura Fantástica, não é?

Se você assiste a filmes ou lê obras ligadas a Fantasia, Gótico, Horror, Ficção Científica e Realismo Mágico tenho certeza que já percebeu uma certa mistura de gêneros no Fantástico de hoje.

Veja o caso, por exemplo, na Literatura YA (Young Adults), de obras como A Seleção (2012), da escritora norte-americana Kiera Cass, onde a distopia se encontra com o conto de fadas. 

Big Brother encontra Cinderela.

No entanto, essa subversão dos limites entre as narrativas do insólito não é de hoje.

“Tudo o que é solido se desmancha no ar”

O entre-cruzamento de fronteiras literárias no fantástico se tornou mais evidente a partir do fim do século dezenove e início do início do século vinte como reflexo do impacto das ideias de pesquisadores como Charles Darwin, Albert Einstein, Karl Marx e Sigmund Freud sobre o ser humano da época.

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A frase de Karl Marx resume a situação de um mundo cujas certezas ruíam rapidamente.

Dentro de seus campos de atuação, o trabalho desses pesquisadores, e outros mais, colocou em xeque as crenças e convenções religiosas, sociais e políticas que faziam o ser humano do período a entender o mundo e o seu lugar nele.

Gênero fantástico ou Modo fantástico?

No campo da Literatura Fantástica, a forma mais visível deste cenário de profundas e irreversíveis mudanças foi a acentuação da diferença entre dois tipos de Fantástico: gênero e modo

Não é objetivo central aqui apresentar em detalhes as diferenças entre o Gênero fantástico e o Modo fantástico, isso já foi tema no canal do FANTASTICURSOS no YouTube, mas basicamente tenha em mente que:

Gênero fantástico

Refere-se a um gênero literário nascido em fins do século dezoito como resultado da tensão entre o emergente racionalismo iluminista e as crenças religiosas e sobrenaturais herdadas da Idade Média.

O ponto inicial é o romance O diabo enamorado (Le Diable amoureux / 1772), do escritor francês Jacques Cazotte. 

O jovem Alvare invoca o diabo e este se apaixona pelo jovem espanhol. Ele então assume a forma da bela Biondetta e tenta seduzi-lo.

O gênero fantástico se caracteriza por apresentar uma narrativa marcada pela incerteza do protagonista (e, por tabela, de nós leitores) diante do acontecimento fantástico. 

Biondetta assume sua forma diabólica no momento da consumação do amor com Alvare e o jovem desperta como se estivesse em um pesadelo. Foi tudo real ou mero produto da imaginação do rapaz?

O acontecimento fantástico realmente aconteceu ou foi apenas um sonho? Ou foi o resultado do uso de drogas? Ou ocorreu pelo excesso de sono? Ou por causa do sofrimento pela perda da pessoa amada? 

É nesse terreno da incerteza entre o real e o sobrenatural que o gênero fantástico habita .

A metamorfose

Para alguns críticos, o gênero fantástico sofreu uma crise no fim do século dezenove e início do vinte, em decorrência do cenário de mudanças que mencionei acima.

Afinal de contas, o elemento sobrenatural de origem religiosa ou popular não mais provocava incertezas na mente do individuo imerso no mundo da Revolução Industrial.   

Uma das marcas dessa crise é a novela A metamorfose (1915), de Franz Kafka

Por que Gregor Samsa acordou em uma manhã transformado em inseto? 

Não há nenhuma explicação ao longo de toda a história.

Não há nenhum questionamento por parte do personagem das razões que poderiam ter levado ele a sofrer tal metamorfose. 

No entanto, mais importante que a mudança, o que interessa a Kafka é mostrar as consequências da mudança sofrida pelo jovem vendedor sobre a família de Gregor Samsa.

O gênero fantástico morreu?

Não. Assim como Gregor Samsa ele se metamorfoseou em outra coisa, mas a resposta mesmo fica para outro post.

Modo fantástico

Esse é Fantástico que vem a nossa mente quando pensamos nesta palavra.

O ÉPICO DE GILGAMESH (2.700 a.C.) é a obra escrita mais antiga da humanidade e é marcada por vários elementos fantásticos usados até hoje.

Refere-se, de modo geral, a narrativas no qual o manejo e a combinação de temas e elementos da narrativa (narrador, enredo, espaço, tempo e personagens) revelam a presença e influencia do insólito dentro da história.

“Fantástico”, aqui, deve ser entendido como um grande termo guarda-chuva embaixo do qual estão vários subgêneros e vertentes do romance.

A ODISSEIA (Séc. 8 a.C.), de Homero mostra como o Fantástico está na base da literatura ocidental.

Mitos, Lendas, Fábulas, Contos de fada, Romances Góticos, Horror, Terror, Ficção Científica, Realismo Mágico, Cordel, … Tudo está no reino do Modo Fantástico.

Veja agora abaixo algumas das configurações deste Fantástico pouco faladas no Brasil, mas que, desde o início do século vinte, vem apresentando novos olhares sobre as angustias e ansiedades da sociedade contemporânea.

São elas: Weird Fiction, New Weird, Interstitial Fiction e Slipstream.

Literatura Fantástica hoje 

Weird Fiction 

Ainda que esteja muito associada a América do início do século vinte a Weird Fiction possui raízes nas últimas décadas do século 19 no Reino Unido.

As histórias de fantasmas de M. R. James exploraram o terror de elementos do cotidiano.

Lord Dunsany influenciou Lovecraft com suas narrativas marcadas por lugares e criaturas estranhas.

O criador do termo foi o escritor irlandês Sheridan Le Fanu, escritor de, dentre outras obras, Carmilla (1872), novela que influenciou Bram Stoker na criação de Drácula (1897). 

A Weird Fiction, que em uma tradução aproximada para o Português poderia ser algo como “Ficção do Estranho” ou “Ficção do Bizarro”, se caracteriza por apresentar narrativas sobrenaturais cujo elemento macabro vai além do normalmente utilizado na literatura de Horror.  

Lovecraft e o Horror Cósmico 

O escritor norte-americano H. P. Lovecraft foi o grande promotor da Weird Fiction na América, algo ressaltado ainda mais pela sua associação com a revista Weird Tales. 

Lovecraft trouxe o racionalismo científico da América do começo do século vinte para criar histórias que iam além dos fantasmas, vampiros e casas assombradas do gótico e do horror tradicional.

Esta visão está expressa na sua definição de Weird Fiction, sendo que na tradução da Editora Iluminuras de 2008 o termo “Weird Fiction” foi substituída pelo mais genérico “história fantástica”:  

“A história fantástica genuína tem algo mais que um assassinato secreto, ossos ensanguentados, ou algum vulto coberto com um lençol arrastando correntes, conforme a regra. Uma certa atmosfera inexplicável e empolgante de pavor de forças externas desconhecidas precisa estar presente; e deve haver um indício, expresso com seriedade e dignidade condizentes com o tema, daquela mais terrível concepção do cérebro humano – uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da Natureza que são nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios dos espaços insondáveis”.

Obra representativa deste Weird Fiction lovecraftiano é o conto “O Chamado de Cthulhu” (1926), que introduz a temática do “Horror Cósmico”, exemplo da subversão das fronteiras entre o Horror e a Ficção Científica. 

Após Lovecraft, outros escritores de seu círculo, como Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, August Derleth e Robert Bloch  continuaram a explorar o potencial narrativo do Horror Cósmico e da Weird Fiction

Dica de leitura:

A melhor coletânea para compreender as origens e evolução da Weird Fiction.

A Segunda Grande Guerra mostrou horrores que superavam os temas praticados na Weird Fiction da primeira metade do século vinte.

Gradativamente, a partir dos anos 50, um novo modo de ler o bizarro do mundo começou a ganhar forma no New Weird

New Weird

O New Weird busca unificar os três principais gêneros do fantástico em Língua Inglesa: o Horror, a Fantasia e a Ficção Científica.

As primeiras menções ao New Weird se encontram em meados do século passado.

A trilogia Gormenghast, composta por Titus Groan (1946), Gormenghast (1950) e Titus Alone (1959), do escritor inglês Mervyn Peake é considerada um dos marcos iniciais do New Weird.

A relevância desta obra no cenário da Literatura Fantástica nos anos 50 foi ofuscada por outra trilogia lançada na época: O SENHOR DOS ANÉIS (1954-1955).

Misturando Gótico, Fantasia e Ficção Científica (inclusive antecipando elementos do Cyberpunk), Gormenghast anuncia a obsessão do New Weird com a cidade enquanto espaço da ocorrência do insólito.

Outro nome de destaque do New Weird é o do escritor inglês Clive Barker que, no final do século vinte, lançou a coletânea de contos em seis volumes Os Livros de Sangue (1984-1985).

“O futuro do horror”, assim o escritor Stephen King classificou o trabalho de Clive Barker.

A obra de Clive Barker refletiu a ênfase do New Weird nos aspectos grotescos relacionados a transformação, decadência e mutilação do corpo humano.

Clive Barker e o cenobita Pinhead, um dos vários seres bizarros que habitam as narrativas do escritor.

O inglês China Miéville é uma das principais vozes do New Weird no século vinte e um com romances como Estação Perdido (2000) e A cidade & a cidade (2009). 

Além dele, destaque para Hal Duncan, K. J. Bishop e Michael Moorcock.

Dica de leitura:

A coletânea de 2008 traz contos e ensaios sobre esta expressão do fantástico contemporâneo

Interstitial Writing

A proposta da Interstitial Writing encontra paralelo nos Estudos Culturais do crítico Homi Bhaba sobre a liminaridade, expressas em O local da cultura (1998):

“É na emergência dos interstícios – a sobreposição e o deslocamento de domínios da diferença – que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação [nationness] [grifo do autor], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados”

Ellen Kushner, Delia Sherman, Theodora Goss, Heinz Insu Fenkl e Terri Windling são os nomes por trás do início da Interstitial Writing.

“Melancholia with Demons”
Oil on Copper, 9” x 12”

Em 2002 eles fundaram a ISIS: the Interstitial Studies Institute com o propósito de discutir formas de arte – não apenas literária, mas também visual, musical e de performance – que buscam romper limites tradicionais.

Na Literatura, a Interstitial Writing exemplifica a busca do Pós-Modernismo em debater e subverter as fronteiras entre as expressões da criatividade humana.  

Os contos de O quarto do Barba Azul (1979), de Angela Carter podem ser lidos como exemplos de Interstitial Writing.

Dica de leitura:

INTERFICTIONS (2007) é recomendado como porta de entrada para a escrita intersticial por meio dos contos e da discussão apresentada.

Slipstream

Nascido nos domínios da Ficção Científica, o Slipstream é um termo cunhado pelo escritor norte-americano Bruce Sterling em um ensaio de 1989 publicado no fanzine SF Eye,

Bruce Sterling é também um dos criadores do Cyberpunk com coletânea de contos MIRROWSAHES (1986).

No texto, Bruce Sterling manifestava sua percepção de que algumas obras de fins do século vinte estavam subvertendo as convenções da Ficção Científica, ao trazer elementos da Fantasia e do Horror e cunhou o termo Slipstream, sinalizando que estas narrativas escorregavam (Slip – Escorregar) entre as vertentes do fantástico.

Para ele, a ficção Slipstream é, 

“um tipo de ficção que simplesmente faz você se sentir muito estranho; do jeito que viver no século 20 faz você se sentir, se for uma pessoa de certa sensibilidade”.

O Slipstream faz uso de estratégias literárias pós-modernas tais como a Alegoria, a Metaficção e o Pastiche na sua tentativa de ampliar as possibilidades da Ficção Científica em refletir sobre o mundo de hoje.

O romance O Conto da Aia (1985), da canadense Margaret Atwood, que mescla a estrutura da Distopia com elementos de contos de fada, pode ser entendido como um exemplo de ficção Slipstream.

Ted Chiang (autor do conto que deu origem ao filme A Chegada), Bruce Sterling, Michael Chabon, George Saunders são nomes representativos do Slipstream.

Dica de leitura:

FEELING VERY STRANGE: THE SLIPSTREAM ANTHOLOGY (2006), traz uma variedade de contos que constroem um panorama do que os editores James Patrick Kelly e John Kessel chamaram de modalidade difusa.

Algumas questões:

Uma rápida leitura das expressões do fantástico aqui apresentadas pode deixar a duvida se, de fato, há diferenças substanciais entre elas.

Ao pensar nas particularidades do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream, o escritor e editor Jeff Vandermeer aponta que, diferente das duas últimas, o New Weird não se preocupa em utilizar estratégias literárias pós-modernas que subvertem a realidade do texto ficcional ou chamam a atenção para a sua artificialidade;

Mas, quais seriam os pontos de distinção entre o Slipstream e o Interstitial Writing?

Existiriam na Literatura Brasileira da virada do século dezenove para o vinte e no meio literário nacional de hoje, representantes respectivamente do Weird Fiction, do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream?

Fica o convite para os pesquisadores do Fantástico.

Gostou do post?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos fantásticos e normais.

Até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BESSIÈRE, Irène (2009). “O relato fantástico: forma mista do caso e da adivinha”. (Biagio D’Angelo, Trad.). In Revista Fronteiraz, (vol. 3, nº 3, Setembro). São Paulo: USP, pp. 185 – 202.

CESERANI, Remo (2006). O fantástico. Trad. Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR.

JOSHI, Sunand Tryambak (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, Sunand Tryambak (Eds.). (2001). The Modern Weird Tale. North Carolina: McFarland & Company.

KELLY, James Patrick; KESSEL, John. (Eds.) (2006). Feeling Very Strange: The Slipstream Anthology. Tachyon Publications. San Francisco. 2006

LOVECRAFT, Howard Phillips (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

SHERMAN, Delia; GOSS, Theodora (Eds) (2007). Interfictions: An Anthology of Interestitial Writing. Boston: Interstitial Arts Foundation.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

STERLING, Bruce. “Slipstream”. Disponível em: < https://w2.eff.org/Misc/Publications/Bruce_Sterling/Catscan_columns/catscan.05 > Acesso em: 08 mar. 2017.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2008). The New Weird. San Francisco: Tachyon Publication.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The Weird: A Compendium of Strange and Dark Stories. New York: Tor Book.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

Gostou? Então assine o blog para ser o primeiro a ler o conteúdo, deixe seu comentário bem nutrido ai e compartilhe o post com seus amigos carnívoros, vegetarianos e veganos.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?

As criaturas fantásticas do folclore brasileiro trazem em seus corpos as marcas de sua origem na junção das culturas europeia, africana e indígena.

Saci de jardineira e Cuca com roupa de princesa na adaptação para a TV da obra de Monteiro Lobato

Normalmente vinculados a regiões específicas do Brasil, muitos destes seres monstruosos ultrapassaram suas fronteiras geográficas graças a obras como O Sítio do Pica-Pau AmareloA Turma do Pererê e Chico Bento.

A onça Galileu, Pererê e o índio Tininim

Todavia, se por um lado essa exposição apresentou Saci-Pererê, Cuca, Mula-sem-cabeçaCurupira e Iara, dentre outros, para os moradores das cidades, por outro ela provocou uma diluição e infantilização destes seres enquanto agentes do medo.       

Chico Bento com os 5 personagens mais lembrados do folclore brasileiro. Mas, e os outros?

O fato, porém, é que o folclore brasileiro é repleto de seres que poderiam (e deveriam) ser explorados em produções além das relacionadas ao público infantil.

Como o Terror e o Horror, por exemplo.

Se você quer conhecer logo 10 monstros do folclore brasileiro, que não fariam feio em filmes do Guillermo del Toro ou de terror asiático, antes de saber porque os monstros existem, clique aqui.

O que o monstro mostra

A origem da palavra “monstro” se encontra no latim monstrare, que quer dizer “mostrar”.

Mas o que o monstro mostra?

Esta pergunta vem sendo objeto do interesse da humanidade desde que o homem começou a explorar o mundo ao seu redor levando-o a encontrar criaturas que refletiam as suas ansiedades, medos e até mesmo desejos.

“O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS ” (1799), do espanhol Francisco de Goya, mostra o homem como fabricante dos monstros.

Maravilhas orientais

Especificamente no Ocidente, as criaturas monstruosas das mitologias greco-romana serviram de base para que, na Antiguidade, estudiosos  como Ctésias de Cnido (398 a. C.) e Plínio, o Velho (77 d. C.) desenvolvessem os primeiros registros sobre as monstruosidades que habitavam a Índia.

Já na época a Índia fascinava a mentalidade ocidental e ela passou a ser acessível a partir das campanhas de Alexandre, O Grande (326 a. C) no Oriente.

A partir dai os ocidentais passaram a ter conhecimento de criaturas que, de acordo com os relatos do período, habitavam a região.

Seres como os Blêmias, cujo rosto se localizava no peito,

Os Cinocéfalos, seres com cabeça de cão,

E ainda os Ciápodes, que se protegiam do sol com seu único pé enorme,

Essa multidão de seres sobrenaturais ganhou outra leitura quando passaram a ser objeto do interesse de Santo Agostinho (354-430 d. C), um dos principais pensadores da Igreja Católica medieval.

Criaturas de Deus

Agostinho foi o primeiro filosofo a considerar o lugar do monstro dentro dos planos de Deus.

Para ele, os monstros tinham algo a mostrar sobre tudo o que Deus anunciava realizar de forma ameaçadora no corpo dos seres humanos.

Considerados expressões da vontade de Deus, e portanto benéficos, os monstros levavam o homem a refletir como ele seria se não seguisse os preceitos de Deus. 

Após Agostinho, outros pensadores religiosos como Isidoro de Sevilha (576-636) e Thomas de Cantimpré (1201-1272) desenvolveram escritos que explicavam a anatomia e simbolismo dos monstros:

  • Os Pigmeus simbolizavam a humildade;
  • Os Gigantes, o orgulho;
  • Os Cinocéfalos, a discórdia;
  • Os Homens com beiços pendurados, a mentira;
  • Os Blêmios, a ganância.

A partir das reflexões religiosas do período, o monstro penetra nos romances medievais, se disseminando pela Europa e penetrando na memória do povo até os dias de hoje, sempre tendo algo a ensinar. 

Pedagogia dos monstros

No ensaio, “A Cultura dos Monstros: sete teses”, presente na obra Pedagogia dos monstros (2000), o crítico Jeffrey Jerome Cohen propõe sete maneiras de se entender os monstros que fascinam o homem. São elas:

  1. O corpo do monstro é um corpo cultural: As criaturas monstruosas refletem a cultura da época em que estão inseridas;
  2. O monstro sempre escapa: Os monstros se deslocam pela cultura, mantendo suas existências ao surgir em outras formas;
  3.  O monstro é o arauto da crise das categorias: O monstro existe porque ele reflete um momento de mudança de crenças, pensamentos e convenções de sua sociedade;
  4. O monstro mora nos portões da diferença: As criaturas monstruosas trazem em seu corpo o impacto que as diferenças cultural, política, racial, econômica e sexual tem sua sociedade;
  5. O monstro policia as fronteiras do possível: O monstro é um símbolo das consequências em se transgredir normas e convenções sociais, religiosas, políticas e sexuais;
  6. O medo do monstro é realmente uma espécie de desejo: O monstro desperta o medo, mas também a curiosidade, a atração pela sua forma que desafia o único e o heterogêneo;
  7. O monstro está situado no limiar… do tornar-se: Os seres monstruosos nos ensinam sobre nosso lugar no mundo. Nos força a refletirmos sobre nossas verdades, valores e nossa percepção e aceitação do diferente.

Agora que você conhece um pouco mais sobre o monstro, vamos a lista.

Como não existe nada mais assustador que o ser humano, selecionei para este post apenas as criaturas que tem forma humana, deixando de fora animais encantados como a Mula-sem-cabeça, a Onça Maneta, a Anta-Cachorro e outros.

As 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro

1. Bradador

Região:  São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina

Imagina você na madruga dormindo e de repente começa a ouvir gritos assustadores!

O Bradador é um espectro que solta gritos e uivos tenebrosos ao redor das casas ou nos caminhos frequentados por ele/ela. 

Apesar de não possuir uma forma definida, o que distingue este fantasma da noite dos demais espíritos são os berros de lamúria pela sua penitência, que deixam os ouvintes da região assombrada de cabelos em pé.

Sua origem está ligada a criatura Zorra Berradeira, que assusta os casais adormecidos com os seus gritos horríveis na região portuguesa de Trás-os-Montes.

Assim como na variante portuguesa, o Bradador é uma alma que cometeu pecados em demasia e não encontra o descanso divino.

2. Capelobo

Região: Pará, Maranhão

No Maranhão a criatura é chamada de Cupelobo.

Habitando a região do rio Xingu, o Capelobo causa muito medo nas populações indígenas. 

Possuindo forma humana coberta de pelos negros e patas redondas, esta criatura é apresentada possuindo ora cabeça de anta, ora cabeça de tamanduá. 

O Capelobo sai a noite, sempre anunciando sua chegada por meio de urros e gritos, e percorre barracões e acampamentos carregando cães, gatos e crianças recém-nascidas com ele.

O Capelobo também é chamado de “Lobisomem dos índios”.

Quando pega um homem ou animal a criatura aperta a vitima em um abraço mortal, abre um orifício em sua cabeça para enfiar a ponta de seu focinho nela e suga toda a massa encefálica do infeliz. 

Enquanto agente do medo, o Capelobo só perde em popularidade na região do Pará para o Mapinguari e, semelhante a ele, só pode ser morto com um tiro no umbigo. 

3. Corpo-seco

Região: São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Nordeste do Brasil

Esse aí nem o Diabo quis.

Quando a pessoa passa pela vida semeando o mal, principalmente contra o pai e a mãe, pratica incesto e é avarenta, ao morrer a sua alma não é acolhida nem pelo céu e nem pelo inferno, levando a terra a jogar o corpo para fora do túmulo. 

O Corpo-seco tem o corpo magro, ressequido, semelhante a uma múmia e seu corpo é um aviso da perdição da alma.

Repousando em seu tumulo de dia, esse esqueleto coberto de pele percorre, durante a noite, os lugares que frequentou em vida.

O Corpo-seco é nosso zumbi brazuca

É costume que a família da criatura tente acabar com sua penitência promovendo missas e distribuindo esmolas, além de encher o caixão com cal, na esperança de que o corpo se dissolva. 

4. Curacanga

Região: Maranhão e Pará

Este ser também é conhecido como Cumacanga

Quando qualquer mulher tem sete filhas, a última vira Curacanga, ou seja, a cabeça solta do corpo e, em forma de bola de fogo, percorre os campos e caminhos apavorando os viajantes.

Esta criatura tem sua origem na Europa medieval na crença de que a sétima filha seria uma seguidora de Satanás.

Não apenas na Europa, mas também na Ásia, há a tradição de cabeças humanas que voam destacadas do corpo espalhando o terror.

5. Labatut

Região: Rio Grande do Norte, Ceará

O Labatut é um ser enorme, de pés redondos, corpo coberto de pelos ásperos, dentes que saem da boca com aparência de presas de elefante e dono de um só olho no meio da testa.

Monstro canibal, guardando semelhança com os ciclopes da mitologia grega, ele prefere comer meninos porque são menos duros que os adultos.

Tô te vendo!

Costuma parar nas portas das casas para ouvir quem está falando alto ou cantando. Essas são as suas vitimas preferidas.

Sua origem está relacionada a um general francês do século dezenove de nome Pedro Labatut, cuja violência e crueldade deixaram marcas nas lembranças dos moradores do Ceará na década de 1830, levando-o a assumir forma monstruosa nos relatos do povo.

6. Mapinguari

Região: Acre, Amazonas, Pará

Esta é a criatura folclórica com mais registros de avistamentos na região amazônica.

O mais popular monstro da Amazônia, o Mapinguari é o terror de caçadores e trabalhadores que atuam na floresta, pois ele mata e devora quem encontrar pela frente.

É descrito por testemunhas como um homem agigantado, coberto de pelos negros, unhas em garras, apenas um olho e com uma gigantesca boca vertical que vai do nariz até o estomago.

O ponto fraco da criatura é o umbigo.

Ao pegar um homem, enfia a cabeça da pessoa na bocarra e masca a cabeça de forma lenta, depois arranca a carne da vitima em pedaços.

Diferente de outras criaturas fantásticas, o mapinguari dorme a noite e anda de dia, sempre anunciando sua chegada com gritos e uivos.

Tendo o nome derivado possivelmente de mbaé-pi-guari (a coisa que tem o pé torto) o mapinguari é considerado uma possibilidade real por alguns estudiosos.

David Oren, ornitólogo americano naturalizado brasileiro, acredita que o monstro possa ser um exemplar sobrevivente de um megatério – uma preguiça gigante que habitou a região há 10.000 anos.  

7. Mão de cabelo

Região: Minas Gerais 

Vai um mãozinha aí?

Espantalho das crianças, este espectro vai até a cama dessas para verificar se elas urinaram no leito.

Para isso, o Mão de Cabelo usa suas mãos macias, sedosas e feita de pelos para tocar o sexo dos meninos e meninas.  

Fantasma pedófilo

É um fantasma magro, de forma humana e roupa branca. 

O folclorista Luiz Camara Cascudo registra em Geografia dos mitos brasileiros que no Sul de Minas é comum a frase caipira: 

“Oia, si nêném mijá na cama, Mão de Cabelo vem ti pegá e corta a minhoquinha de nêném…”

Ainda que não tenha relação direta, o Mão de cabelo guarda semelhança com o Mãos-peludas inglês, que ataca os que passam na estrada de Datmoor, Inglaterra.

Trata-se de duas mãos sem corpo que aterrorizam a região ao atacar motoristas agarrando o volante do carro e jogando o veículo pra fora da pista.

Sem ter uma razão definida para os ataques, além da simples prática do mal, o Mãos-peludas também bate na janela dos carros parados para assustar os seus ocupantes.  

8. Papa-figo

Região: Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte

Camara Cascudo chama o Papa-figo de “O lobisomem das cidades”.

É um negro velho, alto, sujo, pálido, vestindo farrapos e com um saco nas costas no qual coloca crianças raptadas para comer-lhes o fígado ou vender o órgão para leprosos ricos. 

A imagem do Papa-figo parte de um episódio real ocorrido em Natal no ano de 1938 quando dois negros adoentados foram presos após levarem duas crianças com eles.

A repetição da ocorrência no Ceará e em Pernambuco acabou criando a imagem do ser folclórico.  

Quando crianças cristãs desapareciam na Idade Média, eram costume acusar leprosos e judeus pelo sumiço.

Percebe-se nesta lenda a sobrevivência da crença, ligada a Grécia e a Roma antiga, no simbolismo do fígado como responsável absoluto pelo equilíbrio da saúde humana. 

A partir dai, já na Idade Média, ocorriam relatos de leprosos que, para se livrarem do sofrimento da doença, matavam crianças para beber o sangue e comer o fígado.

Hoje a Hanseníase, nome que substituiu a Lepra, é uma doença perfeitamente tratável, o que ajuda a diminuir a crença nesta lenda e o preconceito contra as pessoas acometidas pela doença. 

A relação entre doenças e  o fantástico será tema de um post exclusivo aqui no blog.

9. Pisadeira

Região: São Paulo, fronteira de Minas Gerais

Criatura de presença universal que assume faces diferentes.

Ela é descrita como uma velha muito magra, cabelos compridos e secos, unhas grandes semelhantes a garras, pernas curtas, nariz fino e olhos vermelhos.

Pisadeira chegou ao Brasil via Portugal, onde a criatura ataca durante o sono descendo pelas chaminés e pisando no peito das pessoas para provocar pesadelos.

Em português e espanhol (pesadilla) deriva de “peso”, “pesado”. 

ALPDRÜCKEN, o pesadelo alemão.

Todas as culturas tem em um íncubo, demônio ou outro espírito maléfico a explicação para os pesadelos noturnos.

BAKHTAK, o pesadelo iraniano.

Em outras culturas a criatura assume formas variadas: gigante, anão, mulher ou homem horrendo que, aproveitando o sono, senta-se sobre o estomago da vitima e lhe aperta o peito, dificultando a respiração.

10. Quibungo

Região: Bahia

Ele é o Bicho Papão negro.

Devorador de crianças, o Quibungo pertence aos pavores noturnos infantis e traz elementos do Papa-figo pela cor negra do personagem e pela grande boca nas costas onde ele enfia as crianças descuidadas.

É apresentado como um ser meio homem, meio animal que tem uma cabeça muito grande e uma bocarra nas costas, que se abre quando ele abaixa a cabeça e se fecha quando ele levanta.

O monstro pode ser morto por tiro, faca e paulada.

Pertencente a tradição oral afro-brasileira, ele come as crianças abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando dentro os pequenos. 

Seu nome está ligado ao Congo e Angola, onde a palavra n’bundo significa “Lobo”. Posteriormente o termo virou qui-n’bungo.

Já ouviu histórias sobre algum desses monstros? Seus avós já viram algum deles?

Deixe seu comentário, compartilhe se gostou e assine o blog.

Obrigado. 

Fontes utilizadas

CASCUDO, Luís da Camara. Dicionário do folclore brasileiro. 6ed. São Paulo: Editora Itatiaia, 1988.

CASCUDO, Luís da Camara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

5 contos de fadas dos irmãos Grimm para as crianças chorarem

Os contos de fadas dos irmãos Grimm vem encantando crianças de todo o mundo por gerações, já tendo sido traduzidos para mais de 160 línguas.

Os contos dos irmãos Grimm se tornaram Patrimônio da Humanidade em 2005 pela UNESCO, braço da ONU para a preservação da Cultura.

É importante destacar, todavia, que Jacob e Wilhelm Grimm não foram os autores de contos como “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Cinderela” e “João e Maria”. 

O livro CONTOS DA MÃE GANSA (1697), de Charles Perrault, marca o início dos contos de fadas como gênero literário.

Assim como aconteceu com Charles Perrault na França de fins do século dezessete, os irmãos Grimm desenvolveram suas histórias a partir dos registros de narrativas alemãs coletados em meio a camponeses, pequenos comerciantes e outras pessoas de origem simples no campo e na cidade.

Muitos destes contos, porém já circulavam não apenas na Alemanha, mas em toda a Europa e até mesmo em outros continentes. 

A primeira Cinderela que se tem registro, por exemplo, se encontra na história “Yeh-hsien”, datada do ano de 850 d.C. na China.

A Cinderela chinesa tinha um vestido feito de plumas de martim-pescador e pequenos sapatos de ouro.

No caso específico dos Grimms, enquanto pesquisadores do campo da Lingüística Histórica, os contos que conhecemos hoje foram a consequência do trabalho de investigação e análise da Língua Alemã do início do século dezenove.

A intenção era o registro e preservação da cultura alemã frente a um contexto de rápidas mudanças culturais em curso com a modernidade.    

Capa da edição de 1819

O resultado foi a publicação inicial em 1812 do volume 1 com 86 contos na obra Kinder- und Hausmärchen

Volume 1 do CONTOS MARAVILHOSOS INFANTIS E DOMÉSTICOS (2012), da editora Cosac Naify.

Em 1815, mais 70 contos foram publicados no volume 2, contabilizando 156 contos

Volume 2 do CONTOS MARAVILHOSOS INFANTIS E DOMÉSTICOS (2012), da editora Cosac Naify.

Inicialmente a obra era voltada para o público adulto em virtude da presença de elementos grotescos, violentos e de forte teor sexual, remetendo a sua origem no meio popular.

Ainda assim, o maravilhoso da obra atraiu a atenção das crianças e, nas edições seguintes, as narrativas foram adaptadas pelos irmãos para o público infantil.

Outras edições se seguiram ao longo do século dezenove culminando na edição de 1857 com 211 contos, sendo destes 11 lendas.  

Mas quanto destes contos você conhece?

Veja agora abaixo 5 contos de fadas dos irmãos Grimm que certamente fariam as crianças chorarem na hora de dormir.

1. “O judeu entre os espinhos”

Um conto que reflete bem o histórico antissemitismo alemão.

Conto n°. 24 do Volume 2 da edição de 1815.

Dono de uma rabeca mágica que obriga a todos que a ouvem a dançarem sem parar, um jovem servo força um velho judeu que cruzou por seu caminho a se embrenhar dentro de arbustos de espinhos a despeito dos pedidos desesperados do homem:

“Pelo amor de Deus”, gritou o judeu, “pare de tocar a rabeca, o que foi que eu fiz de errado?”

Liberado do encanto apenas após entregar 100 moedas para o rapaz, o judeu consegue se desvencilhar do espinheiro e, com a roupa em frangalhos e o corpo todo ensanguentado, procura as autoridades que acabam por levar o jovem a julgamento e o condenam a morte.

Músico e pilantra.

No momento da execução, porém, o servo pede como último desejo que ele possa tocar a rabeca e o juiz concede, levando a todos da corte a dançarem sem parar.

Esgotado fisicamente de tanto dançar, o juiz permite que o jovem fique com o dinheiro e culpa o judeu pela situação. O velho judeu é enforcado e o rapaz fica livre. Fim.  

2. “Quando as crianças brincaram de açougueiro”

Por razões óbvias, este conto só apareceu na edição de 1815, sendo cortada das publicações seguintes.

Conto n°. 22 do Volume 1 da edição de 1812.

Este conto possui duas versões.

Na primeira, um grupo de crianças de 6 anos de idade decidem brincar de cozinha. Um menino seria o açougueiro, um menino e uma menina seriam os cozinheiros, outra menina seria a assistente de cozinha e, por fim, um menino seria o leitão. 

O “açougueiro” então se aproximou do “leitão” e cortou sua goela e a “assistente” recolheu o sangue na vasilha para fazer salsichas.

Um senhor viu a cena e levou o menino açougueiro ao conselho da cidade, mas após intensa discussão não se sabia o que fazer, pois o assassinato tinha acontecido como uma brincadeira de crianças.

Por fim, seguindo o conselho de um velho conselheiro e afim de testar se o menino ainda era puro, uma maça foi colocada em uma das mãos do menino e na outra uma moeda reluzente. O menino, sorrindo, escolhe a maça e é inocentado. 

Na segunda versão do conto, após verem o pai matar um porco, dois irmãos decidem repetir a ação e o mais velho enfia a faca na garganta do mais novo.

Ao ouvir o grito de seu filho, a mãe larga seu bebê na banheira e, tomada pelo desespero ao ver a cena sangrenta, arranca a faca da garganta do filho e a crava no coração do mais velho.

Este caso passava fácil no programa do Datena

Retornando correndo para casa, a mãe constata que o bebê havia se afogado na banheira e, enlouquecida, se enforca. Ao retornar do campo, o marido percebe tudo o que havia acontecido e morre logo depois de depressão. Fim

3. “A mão com a faca”

Abuso infantil e inveja marcam este conto

Conto n°. 08 do Volume 1 da edição de 1812.

Uma mãe tinha uma filha e três filhos, mas demonstrava amor apenas pelos rapazes, enquanto sua filha era submetida a trabalho pesado.

Todos os dias a mãe dava uma faca cega e sem ponta para a menina com a qual ela tinha de cortar lenha para a casa.

Um elfo se apaixonou pela jovem e todos os dias lhe emprestava uma faca encantada que fazia o trabalho da menina ficar mais fácil. Assim ela conseguia realizar a pesada tarefa de forma rápida.

Na volta, ela batia duas vezes na rocha, e a mão do bondoso elfo aparecia para pegar a faca até o dia seguinte. 

Desconfiada da eficiência da filha, a mãe manda os filhos vigiarem a irmã e eles veem o elfo entregando a faca a menina.

Os irmãos tomam a faca da jovem à força e batem duas vez na rocha. Quando o elfo estende sua mão os rapazes decepam a mão da criatura com sua própria faca.

Ensanguentado e pensando ter sido traído pela sua amada, o elfo nunca mais foi visto e a menina continuou sendo explorada. Fim.

4. “As moedas roubadas”

Conto n°. 07 do Volume 1 da edição de 1812.

Um homem estava almoçando na casa do amigo quando, ao meio dia, a porta se abriu e entrou uma menina muito pálida vestida de branco

Sem nada dizer e sem olhar para o visitante, a menina se dirigiu para a sala ao lado. Após algum tempo ela retornou e saiu da casa. A mesma cena se repetiu nos dois dias seguintes no mesmo horário.

Ao indagar seu amigo e sua esposa sobre a menina o casal disse que nada vira ou ouvira. 

No dia seguinte, quando novamente surgiu, a menina foi seguida pelo homem até a sala ao lado e lá ele viu a menina sentada ao chão arranhando avidamente as frestas do assoalho e cavando algo sem ter sucesso.

O conto apela para a tradição sobrenatural do tesouro escondido.

Quando o visitante descreveu em detalhes a garota, a esposa do dono da casa a reconheceu como sendo a filha que havia morrido há quatro semanas.

Ao levantarem as tábuas do piso, eles encontraram 2 moedas que a mãe tinha pedido a menina para dar aos pobres, mas ela resolveu esconder a quantia para comprar biscoitos em outra oportunidade.

Ao falecer seu espirito não conseguiu descanso e assim, sempre ao meio dia, ela surgia para tentar pegar as moedas e cumprir o pedido da mãe.

A família então pegou as moedas, entregou a um pobre e o fantasma nunca mais apareceu.

5. “As crianças famintas”

A fome e o tema do canibalismo são temas recorrentes nos contos de fadas

Conto n°. 57 do Volume 2 da edição de 1815.

Era uma vez uma velha que se viu em tamanha pobreza e com a fome tão insuportável que ficou fora de si e decidiu comer uma de suas duas filhas.

Ela foi até a filha mais velha e disse:

“Tenho de matá-la, para que eu tenha algo para comer”.

A filha mais velha, porém, conseguiu convencê-la a tentar achar comida em algum lugar e, pouco tempo depois, a menina retornou com um pedacinho de pão que foi prontamente dividido entre as três.

Como a fome persistia ela se dirigiu a filha mais nova: 

“Então agora é a sua vez!”

Assim como sua irmã, a caçula convenceu a mãe a tentar conseguir comida em algum lugar e, logo depois, a menina retornou com dois pedacinhos de pão que foram devorados pelas três.

A realidade da família do conto reflete a situação camponesa na Idade Média na Europa.

Ainda assim, algumas horas depois a mãe se dirigiu as duas e falou: 

“Vocês terão de morrer, senão iremos morrer de fome”, ao que elas responderam:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

As crianças morreram de fome, ou a mãe as matou para não morrerem de fome? Você decide.

E aí? Qual é conto de fada, destes acima, que você vai contar para as crianças na hora de dormir hoje?

Deixe seu comentário e compartilhe o post.

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Fontes utilizadas

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São Paulo: Ática, 1998.

GRIMM, Jacob, GRIMM Wilhelm. Contos maravilhosos infantis e domésticos. Trad. Christine Röhrig. Vol. 1 & 2. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

Gostou?

Então deixe o seu comentário e compartilhe com seus amigo visíveis ou invisíveis. 

Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

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Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?

“A Bela Adormecida”, “Chapeuzinho Vermelho”, “O Gato de Botas”, “A Gata Borralheira”, “O Pequeno Polegar” e… “O Barba Azul”

Todos estas histórias ajudaram ao compor o Histórias ou contos do tempo passado, com suas moralidades – Contos da Mãe Gansa (1697), de Charles Perrault, livro este que deu origem ao gênero literário do “Conto de Fadas”.

Versão inglesa da obra de Charles Perrault

No entanto, por que mesmo tendo estado ao lado dos contos clássicos mencionados anteriormente “O Barba Azul” seja uma das histórias menos conhecidas e presentes em coletâneas infantis?

Você lê este conto para seu filho ou sua filha na hora de dormir? Provavelmente não. Por que?

Talvez porque ele não seja um conto de fada tradicional.

Como afirma Bruno Bettelheim em A Psicanálise dos Contos de Fadas (1992): 

“…na verdade esta estória não é um conto de fadas porque à exceção do indelével sangue na chave, /…/ não há nada de mágico ou de sobrenatural na estória.”

Então talvez “O Barba Azul” seja um conto gótico.

E se você quiser saber logo sobre os elementos tenebrosos deste conto, antes de conhecer brevemente sobre o Gótico, clique aqui.

Das sombras da razão, surge o monstro gótico

De forma geral, o surgimento do gótico durante o século dezoito, ou como você e eu aprendemos na escola, durante o Iluminismo (cujo nome vem da associação da Luz como um simbolo da Razão), tem sido associada como uma rebelião da imaginação e da necessidade humana na crença do sagrado contra a tirania do racionalismo. 

A luz do saber

De fato, várias descobertas e inovações da época como as leis fundamentais de Isaac Newton, a invenção da vacina, a classificação do ser humano pela Biologia e a criação da Enciclopédia criaram uma atmosfera de fé na Ciência como solucionadora dos problemas da humanidade e seus produtos que veio a influenciar profundamente a Literatura.

Buscando na Grécia e na Roma antiga um modelo de perfeição a ser seguido, os artistas iluministas criaram obras que tinham como base os padrões, métricas e estruturas consagrados por nomes da Antiguidade como Horácio, Longino e Aristóteles.

Aristóteles foi um dos nomes seguidos pelos escritores do século dezoito

Aos poucos, porém, a excessiva preocupação no atendimento a estes princípios começou a provocar uma reação de escritores, que se viam limitados no seu processo de criação.

A qualidade de uma obra muitas vezes dependia mais do quanto ela seguia os modelos clássicos do que seu conteúdo propriamente dito. Começou então a revolta da imaginação contra a razão.

Estava pronto o terreno para o  surgimento do monstro gótico.

O Gótico surgiu a partir das sombras do Iluminismo

Do castelo a casa

A obra  que deu origem a Literatura Gótica foi O Castelo de Otranto (1764) do inglês Horace Walpole.

Imagem da primeira edição

Walpole era fascinado pela Idade Média e em suas viagens pela Europa recolhia objetos e documentos sobre esta época.

Horace Walpole também era membro do Parlamento Inglês

O interesse dele pelo período medieval era tanto que ele transformou a própria residência em um mini castelo gótico batizado de Strawberry Hill.

Strawberry Hill depois da reforma em 2012

Em uma época em que a chamada Arquitetura Neoclássica dominava, como a do Museu Britânico abaixo, a residência de Horace Walpole se destacava das demais. Com o tempo ela se tornou atração turística em Londres. 

Museu Britânico, fundado em 1753.

Em Strawberry Hill, Walpole construiu uma pequena gráfica onde começou a dar vazão a sua paixão pelos tempos medievais, resultando em O Castelo de Otranto.

Apresentado como um texto que ele teria encontrado nas ruínas de uma igreja na Itália (um predecessor do famoso “Baseado em fatos reais”), O castelo de Otranto foi um enorme sucesso, o que levou Walpole a assumir a autoria na segunda edição e acrescentar o subtítulo: “Uma história Gótica”.

Saque do Império Romano pelos Visigodos em 24 de agosto de 410.

Pronto! A menção aos Godos, povo responsável pela queda do Império Romano e início da Idade Média, era o que faltava para destacar o romance dos seus pares literários do século dezoito e fundou uma nova vertente literária: o Gótico.

Gótico urbano

Da mesma forma que acontece até hoje, o sucesso de uma obra leva outras semelhantes a surgirem e nas décadas e séculos seguintes, diversos escritores e escritoras buscaram criar obras góticas que refletissem as angustias e ansiedades de seu tempo.

O símbolo maior do gótico no século dezoito: o castelo

Assim, os fantasmas, profecias, castelos medievais decadentes e vilões aristocráticos do século dezoito deram lugar no século dezenove aos medos científicos. Como explica o crítico Fred Botting:

“A lista [de convenções] cresceu, no século XIX, com a adição de cientistas, pais, maridos, loucos, criminosos e os monstruosos duplos significando duplicidade e natureza maligna.”

Em plena era da Revolução Industrial, a violência e a ameaça do castelo gótico e da floresta negra foram substituídos pelas labirínticas ruas estreitas das metrópoles europeias, enegrecidas pela fuligem das chaminés e pelas casas onde mulheres e crianças sofrem a tirania de maridos e pais opressores.

Era o tempo em que a realidade de um Jack, o Estripador se encontrava com a ficção de um Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

As ruas de Londres

Horrores modernos

O desespero do mundo de hoje

No século vinte, a velocidade e tamanho dos grandes centros urbanos, ampliados no século vinte e um, tem gerado tal angústia, ansiedade e sentimento de opressão no homem moderno que Angela Carter, uma das escritoras que mais utilizaram a linguagem dos contos de fadas e da literatura gótica em sua obra, comentou: “Nós vivemos em tempos góticos”.

Não é a toa, alias, que Angela Carter batizou sua coletânea de contos Bloody Chamber (1978) (no Brasil, O quarto do Barba Azul) em alusão a um dos contos do livro, baseado em “O Barba Azul”, de Charles Perrault.

Lançado no Brasil no ano 2000

Mas, afinal de contas, o que este conto de fada tem a ver com o gótico a ponto de ser inapropriado para as crianças?

Veja os pontos de contato do conto com a tradição gótica, quase um século antes de O castelo de Otranto

1. Origem em dois personagens reais malditos

Diferente das outras narrativas de Contos da Mãe Gansa, “Barba Azul” não tem antecedentes nas narrativas folclóricas de onde Perrault retirou seus contos. Ele tem base histórica em dois assassinos que muito se assemelham aos vilões aristocratas dos primeiros romances góticos.

Viúvo assassino

Há um certo consenso entre estudiosos de contos de fada que o personagem Barba Azul foi inspirado em duas figuras históricas da região noroeste da França conhecida como Bretanha:Be

Conomor, o Amaldiçoado

Conomor (“Cão do Mar”) no dialeto da época, se tornou governante da Bretanha em meados do século seis após depor o príncipe legitimo e se tornou o flagelo do clero local.

Por causa de seus atos ele foi excomungado pelos bispos da Bretanha. Na lenda local ele sobreviveu a todos os seus inimigos e tornou-se um bisclavret, ou lobisomem.

Sua ligação com Barba Azul ocorre devido a um episódio de sua vida registrada na obra Vita de São Gildas, publicada cinco séculos após a morte do santo bretão Gildas, o Sábio e desde então se tornou uma lenda britânica.

Reza a lenda que quando Conomor, O Amaldiçoado, se casou com a jovem Tryphine, ele já havia matado várias de suas esposas anteriores.

Um dia, a caminho de fazer suas orações na tumba de sua família, Tryphine foi avisada pelos próprios fantasmas das esposas mortas de que ela seria a próxima vitima assim que estivesse grávida.

Como já esperava uma criança de Conomor, ela foge, mas acaba sendo pega pelo marido no meio da floresta negra e é decapitada. Todavia, graças a São Gildas, Tryphine e seu bebê são trazidos de volta à vida. 

Tryphine e seu filhos foram canonizados.

Gilles de Rais, o Marechal da França

Companheiro de armas de Joana D’Arc, Gilles de Montmorency-Laval foi enforcado em 1440 por Satanismo e pelo assassinato de dezenas de crianças.

Assassino confesso, ele relatou que usava de sua posição social para levar as crianças de vilarejos próximo para o seu castelo com a promessa de lhes oferecer melhor condição de vida.

Lá ele os estuprava, pendurava em ganchos e cortava suas gargantas. 

Heróis nacional e Serial Killer

Mais de quarenta corpos nus de crianças foram encontrados em seu castelo.

A associação entre a criação de Perrault e este nobre europeu tem sido tão longamente explorada que na peça Santa Joana (1923), do dramaturgo irlandês Bernard Shaw esse personagem histórico é chamado de Barba Azul, com direito até mesmo a uma barba dessa cor.

2. O Bárbaro Louco

O Oriente exerceu profundo impacto na Literatura Gótica desde os seus primeiros momentos no século dezoito como uma região de mistérios além do conhecimento da cristandade e dona de uma cultura exótica e sensual.

Publicado em 1786 o romance de William Beckford é um exemplo do fascínio de escritores góticos pelo Oriente.

Já em 1697, todavia, o conto de fada de Perrault estabelecia esta conexão com o Oriente a partir das próprias palavras que compõem o nome do personagem.

Barba…

Perrault escreveu seu conto durante o reinado do Rei Luis XIV, chamado também de “O Rei Sol”. O fato é que este regente também poderia ser chamado de o Rei da Alta Costura, dada a importância dada a moda durante o seu reinado.   

Luís XIV – Poderoso e vaidoso

E a barba definitivamente não estava na moda durante o reinado do Rei Sol.

De fato, na França do século dezessete este adereço masculino era associado a falta de modos ou costumes civilizados, algo comumente relacionado a povos bárbaros.

Os muçulmanos usam barba para se sentirem mais próximos dos ensinamentos do profeta Maomé.

E dentro da lógica radical da Europa cristã, os muçulmanos se encaixavam perfeitamente tanto na imagem de bárbaro quanto na de adoradores do Diabo.

Por esta razão, em muitas ilustrações de “O Barba Azul” o personagem é representado como um muçulmano de posse de sua cimitarra pronto a matar a esposa.

Tais ilustrações ajudaram a criar uma imagem negativa do Islã.

Reforça esta leitura a permissão muçulmana a prática da Poligamia, vinculado dentro do conto com a prática de Barba Azul em manter guardados os cadáveres das ex-esposas penduradas em ganchos, como uma versão macabra de um harém.  

Ao entrar no quarto proibido, a jovem esposa dá de cara com os corpos das ex-esposas de seu marido pendurados em gancho.

… Azul

Associamos tanto a cor azul a paz e a tranquilidade que esquecemos de lembrar que ela também simboliza a Loucura, a Monotonia e a Depressão.

Esta leitura ganha força pelos atos do personagem principal contra as mulheres e mais uma vez reforça a imagem preconceituosa do Islamismo como um desvio da normalidade cristã. 

Dentro deste contexto, o azul se coloca como um indicativo de sua libertinagem sexual, estabelecendo uma ponte com sua origem histórica nos abusos sexuais de Gilles de Rais e sua vinculação a uma religião que permite a Poligamia.

Gravura de Gustave Dore (1862)

Afinal de contas, por que Barba Azul guarda os corpos de suas ex-esposas? A prática da necrofilia é uma possibilidade a ser considerada na interpretação do conto. 

O amor nunca morre

A transgressão sexual é parte integrante da tradição gótica desde o início em O Castelo de Otranto, quando após a morte do seu filho no dia de seu casamento com a princesa Isabella, Manfred decide, ele mesmo, se casar com a jovem para assim não ver o fim de sua linhagem.

Ou então em O Monge (1796), de Matthew Lewis em que por meio de artimanhas do Diabo um religioso faz sexo com a própria irmã.    

3. O casamento acaba com a mulher (literalmente)

Qual é o final de todos os contos de fadas?

Até mesmo “A Bela e a Fera” em que a mulher sofre encarceramento, maus tratos físicos e psicológicos a mensagem no fim é de que o amor transforma e tome-lhe casamento e “Felizes para sempre”.

Felizes para sempre, ou até a chegadas das contas, crianças, sogra…

“O Barba Azul”, ao contrário, parte do casamento para mostrar, talvez, o que acontece as princesas depois do fim dos contos de fadas. Ainda mais em tempos passados.

Se muitas vezes se diz hoje que o casamento acaba com a mulher, “O Barba Azul” difere dos demais contos de fada por mostrar que isso não fica apenas no plano metafórico.

Na Literatura Gótica, além do já mencionado O Castelo de Otranto, outras obras mostram o casamento como uma instituição opressora do ser feminino, como em O Morro dos Ventos Uivantes (1847), da escritora inglesa Emily Brontë, em que a heroína se vê dividida entre o coração e sua obrigação como mulher casada.

Um dos precursores da Literatura YA (Young Adults).

Isso explica porque este conto foi por muito tempo excluído de coletâneas voltadas para as crianças. Faça você um teste: olhe ai em sua casa se em alguma coletânea de contos de fadas, voltada exclusivamente para o público infantil, tem “O Barba Azul”.

Vamos lembrar que, principalmente desde o século dezenove, os contos de fadas foram usados para educar as meninas sobre o comportamento social esperado delas: aguardar sentadas (as vezes até adormecidas) o príncipe encantado que finalmente as levaria para o único reino encantado reservado ao feminino: o casamento.

Como então incluir para as meninas um conto em que a esposa é morta e pendurada em um gancho, sabe-se lá Deus pra que, se ficar bisbilhotando as coisas do marido? 

Tenso…

Afinal de contas, por que você não lê o “Barba Azul” para as crianças?

Charles Perrault não criou os contos de fadas clássicos que conhecemos.

Ele apenas recolheu as narrativas folclóricas de seu tempo e as editou para que ficassem adequadas para serem narradas nos sofisticados salões franceses de fim do século dezessete.

Todavia, em “O Barba Azul” a violência é parte tão integrante da história que não houve como suavizar os elementos que constituem a história, resultando em um conto de horror em meio aos demais.

Uma noite tranquila

Por fim, se você quiser um conto que faça o seu filho ou filha ficar agarradinho a você a noite toda, recomendo que leia a história do excêntrico viúvo aristocrata, possuidor de uma grande barba azul, que em seu novo casamento levou a jovem esposa para um castelo isolado e lá a advertiu a não abrir um quarto específico no labiríntico lugar, mas uma vez desobedecendo ao marido ela descobriu neste aposento os cadáveres das esposas anteriores do marido pendurados em ganchos, o que quase a levou a morte por decapitação se não fosse pela providencial chegada dos irmãos.

Mais uma vez, salva pelo patriarcado

E tenha um boa noite.

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Fontes utilizadas

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. 9ed. São Paulo: Paz e Terra, 1992

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997

CARTER, Angela. Burning your boats: collected short stories. London: Vintage Random House, 1996

FRANKLIN, Michael. Orientalism. In: MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998, p. 168-171

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

SILVA, Alexander Meireles da. “O Barba Azul”: conto de fadas ou conto gótico?. Disponível em Revista de Letras do Instituto de Humanidades.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

7 curiosidades sobre “A Bela e a Fera” que você provavelmente não sabia (e a 4° pode até te chocar)

O novo filme da Disney sobre “A Bela e a Fera” para 2017 reforça a vitalidade deste conto de fadas mesmo após 260 anos de sua estréia literária como o conhecemos. Mas há curiosidades sobre esta história que você provavelmente não conhece e algumas podem até te chocar. Veja abaixo:

1. “A Bela e a Fera” não foi criado pela Disney e nem por quem você acha que foi

Quando se fala do gênero contos de fadas, 3 nomes vem a sua mente:

  • Charles Perrault (“Bela Adormecida”, “Cinderela”, “O Gato de Botas”);
  • Irmãos Grimm (“Chapeuzinho Vermelho”, “Branca de Neve”, “João e Maria”;
  • Hans Christian Andersen (“Patinho feio”, “A Pequena Sereia”, “O Soldadinho de Chumbo”

“A Bela e a Fera”, no entanto, foi criado por uma mulher, Madame de Villeneuve (Gabrielle-Suzanne Barbot), e publicado na França em 1740 no La Jeune Ameriquaine et les Contes Marins.

A versão que você conhece hoje foi elaborada por Madame de Beaumont (Jeanne-Marie Leprince de Beaumont) (Figura abaixo) para a obra francesa Le magasin des enfants (1756) e é uma versão reduzida do original de 1740.   

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Com o conto, Beaumont queria ensinar as meninas e moças a importância das boas maneiras e do bom comportamento. 

Girl Power #SQN

2. Cupido foi a primeira Fera

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Ainda que Madame de Villeneuve tenha criado o conto no século 18, praticamente todas as culturas possuem uma história em que o amor tem de superar as aparências físicas.

Neste sentido, “Eros e Psique” é mais antiga versão de “A Bela e a Fera” conhecida.

Publicada no século 2 d.C. em Metamorfoses de Lúcio (também conhecido como O asno de ouro), de Apuleio de Madaura, “Eros e Psique” mostra como a jovem Psique se envolveu com o deus Eros (Cupido, como chamavam os romanos) por várias noites em um quarto escuro sem nunca conseguir ver a forma do amado.

Convencida pelas invejosas irmãs de que Eros era um monstro que queria devorá-la, Psique iluminou o rosto do amado quando este dormia e descobriu um ser belíssimo. Eros ficou profundamente magoado com a ação da jovem e desapareceu. Somente após Psique realizar várias tarefas impostas por Afrodite (mãe de Eros) o casal se reconciliou em matrimônio.  

Mexeu com o filho, a sogra se meteu.

3. A Fera não tem uma forma definida

Diferente do personagem da Disney tanto na animação de 1991 quanto na nova versão de 2017 (e que é até simpático), a criatura do conto de fadas não tem descrição física definida.

Ele já foi representado como um javali, urso, cobra, porco-espinho, leão, touro, ou uma mistura de vários animais. Veja abaixo algumas dessas formas:

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4. “A Bela e a Fera” ensina as mulheres a suportarem a violência doméstica

Partindo de sua experiência lidando com vitimas de abuso doméstico, Laura Beres afirma no artigo “The Romanticization of Abuse in Popular Culture” (1999), que muitas mulheres enxergaram em “A Bela e a Fera”, principalmente ao assistirem a animação da Disney de 1991, um consolo romântico para sua realidade de violência em casa

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No mesmo artigo, Robin Norwood, autor de Women Who Love Too Much (1985), reforça esta ideia ao dizer que “A Bela e a Fera” parte de uma tradição histórica no qual as mulheres deveriam aceitar um homem independente de sua personalidade, amando-o a despeito de seu comportamento.  

Concordam com a ideia meninas?

5. O vilão Gaston e os objetos mágicos falantes são invenções da Disney

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Ao contrário da versão da Disney, não existe um personagem chamado Gaston no conto de fadas de Madame de Beaumont.

Da mesma forma, não há nenhuma menção a objetos encantados falantes, que seriam na verdade os serviçais humanos da Fera.  

A ausência de outros personagens dentro do castelo descrito no conto de fada tem como objetivo reforçar a solidão vivenciada pela Fera até o momento da chegada de Bela.

Por outro lado, as versões da Disney omitem as irmãs de Bela, que por terem sentindo inveja da irmã são transformadas em estátuas ao fim do conto e colocadas em frente ao palácio de Fera para assistirem, eternamente, a felicidade da irmã. 

Inveja é uma m….

6. “A Bela e a Fera” já foi Romance Policial e até Ficção Científica

Dentre as várias adaptações do conto de fadas para outras mídias, formatos e gêneros, destaque para a série de TV A Bela e a Fera (1987-1989), que apresentava o relacionamento entre a advogada Catherine, vivida por Linda Hamilton (a Sarah Connor dos filmes Exterminador do Futuro 1 e 2) e o ser do subterrâneo Vincent, interpretado por Ron Perlman (que interpretou o super herói Hellboy nos dois filmes da série).

Na série o bestial Vincent protegia Catherine dos perigos do crime na cidade de Nova York.

beauty_and_the_beast_1987_tv_seriesJá em Red as Blood, or Tales from the Sisters Grimmer (1983), ficção científica da escritora britânica Tanith Lee, “A Bela e a Fera” aparece na forma do conto “Beauty-Earth”.

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7. A Bela e a Fera e a Fera e a Bela: Releituras atuais

Na literatura de hoje, “A Bela e a Fera” aparece em releituras variadas, mas que, como ponto em comum, trazem personagens femininas que abraçam o lado selvagem e sensual da sua natureza, subvertendo os papeis sociais normalmente reservados as mulheres. Como exemplo você tem:

  • Literatura pós-moderna, como os contos “A corte do Sr. Lyon” e “A noiva do tigre”, de Angela Carter, ambos publicados na coletânea de contos O quarto do Barba Azul (1999)

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  • Romances da categoria Novos Adultos, tais como Beleza perdida (2013), de Amy Harmon;

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E ai? Já conhecia essas curiosidades? Quais são suas expectativas para o novo filme da Disney? Comente e compartilhe!

E acompanhe novos posts toda quarta-feira às 9h.

Fontes utilizadas

TATAR, Maria. (Ed.). Contos de fadas: edição comentada e ilustrada. Trad. X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

WARNER, Marina. From the Beast to the Blonde: on Fairy Tales and Their Tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When Dreams Come True: Classical Fairy Tales and Their Tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com