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Século 19: A Era de Ouro da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica

Nenhum outro momento histórico da Literatura Fantástica, até hoje, foi mais rico em termos de produção e diversificação de obras e gêneros quanto no período compreendido entre a segunda metade do século 19 e o início do século 20 na Europa e nos Estados Unidos.

Nenhum outro.

Mas, por que especificamente esse período?

A Razão como promotora do Fantástico

Dentre diferentes fatores que promoveram uma verdadeira erupção do Fantástico durante a chamada Era Vitoriana (1837-1901) vou destacar aqui quatro pontos:

  • Os efeitos da Revolução Industrial;
  • O impacto de teorias científicas, com destaque para as ideias evolucionistas de Charles Darwin;
  • As pesquisas sobre o inconsciente humano e;
  • As consequências do Imperialismo europeu;

O ponto em comum a todos esses elementos é a presença do racionalismo como força motivadora da literatura fantástica em dois sentidos:

Primeiro, ao criar o cenário de curiosidade pelas novidades e promessas tecnológicas que fomentaram narrativas que celebravam, ou discutiam, o impacto da Ciência e seus produtos sobre a sociedade de fim de século.

Segundo, ao criar o cenário de rebelião a este mesmo discurso racionalista, construído  a partir da utilização do repertório mítico de natureza religiosa, sobrenatural e folclórica em histórias ambientadas no contexto finissecular.

Mas quais foram essas expressões do Fantástico alinhadas ou opositoras ao discurso racionalista? Olha aí. 

Fantasia 

No Reino Unido, Alice no País das Maravilhas (1865), A ilha do tesouro (1883) e Peter Pan e Wendy (1911); na Itália, Pinóquio (1883); na América, O maravilhoso mágico de Oz (1900) e no Brasil, A menina do narizinho arrebitado (1922).

Países diferentes cujas narrativas apresentam o mesmo padrão: diante de uma sociedade marcada pelo cientificismo, marcada pela expansão desordenada das grandes cidades com os consequentes efeitos colaterais do aumento da pobreza e da criminalidade as fadas decidem abandonar nossa realidade e se mudam para outro plano.

Afinal de contas, como essas criaturas poderiam voar em meio as nuvens de fumaça expelidas pelas centenas de fábricas da Revolução Industrial?

As crianças como protagonistas

O resultado deste fato foi o aparecimento do Romance para crianças, caracterizado por personagens infantis que se deslocam de seus lares para viverem aventuras em lugares exóticos e/ou mágicos enquanto contestam os valores do universo dos adultos.

Assim surgem reinos escondidos em tocas do coelho, em ilhas exploradas por piratas, em lugares além das nuvens, acessadas por tornados, no interior de baleias ou ainda no bucolismo do interior em sítios habitados por avós. 

Quando for ele estes romances infantis, perceba também como eles evoluíram para a forma atual.

Se antes tínhamos um herói ou heroína atuando sozinhos, hoje eles precisam dos seus amigos para a resolução dos problemas. Isso reflete a necessidade do grupo sobre o individuo.

Gótico

Carmilla (1872), O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1886), O retrato de Dorian Gray (1891), Drácula (1897) e A volta do parafuso (1898).

Mais uma vez, um curto período de tempo fomenta o aparecimento de obras de um gênero específico, hoje tidas como clássicas.

Após surgir no ano de 1764 com O Castelo de Otranto, de Horace Walpole como uma reação do sobrenatural a hegemonia do racionalismo iluminista, o gótico passou por transformações ao longo do século 19 nas mãos dos românticos que expandiu sua estrutura e temáticas.

Mas foram as últimas décadas do mesmo século 19 que testemunharam o ressurgimento do gótico em perfeito alinhamento com as grandes questões e ansiedades da sociedade vitoriana.

A decadência da evolução 

Habitando a mesma Londres que na vida real contou com a presença de Jack, o Estripador, os personagens do gótico vitoriano refletiam a postura artística do Decadentismo que, como observado no jovem Dorian Gray, refutava o discurso do progresso a favor de um comportamento marcado pela busca de sensações e a construção de universos artificiais alienados da vida urbana.

Outras duas influencias, dentre tantas, eram as ideias evolucionistas de Charles Darwin e as pesquisas sobre o inconsciente humano, incorporadas na aparência simiesca do Mr. Hyde ou em Drácula, que era capaz de subverter a cadeia evolucionária se transformando em ratos ou lobos. 

Ao ler, perceba como estes mesmos dois personagens também revelam a postura imperialista, externa e interna, das elites inglesas em relação ao estrangeiro e aos pobres da sociedade vitoriana.

Ficção Científica

Na França, Da Terra a Lua (1865) e Vinte mil léguas submarinas (1870); na Inglaterra, A máquina do tempo (1895) e Guerra dos mundos (1898), dentre tantas outras obras mais. 

Antes da Ficção Científica ser chamada de Ficção Científica haviam as Viagens Extraordinárias do francês Júlio Verne e os Romances Científicos do inglês Herbert George Wells.  

 Ao contrário da Fantasia e do Gótico, que traziam em seu discurso uma oposição ao racionalismo hegemônico do período, as obras de Verne e Wells, em sua maior parte, celebravam as possibilidades redentoras e transformadoras que a Ciência poderia trazer para a humanidade.

Isso é algo particularmente notado nos romances do escritor francês.

Já no caso de H. G. Wells, suas obras frisavam o caráter neutro da Ciência, dando ênfase ao fato que era o homem o responsável pela eventual corrupção desta na criação de produtos ou práticas que oprimiam o individuo.

Ao ler Verne e Wells, perceba como os dois escritores ora corroboram ora criticam a visão européia em relação a outros povos e culturas.

Tempos estranhos

A inclinação das últimas décadas do século 19 para o Fantástico não se restringiu apenas ao surgimento ou revitalização de expressões distintas do Fantástico.

Ela também se manifesta na subversão das fronteiras entre elas, como no caso da Weird Fiction.

Mas isso já é assunto para outro post aqui do blog FANTASTICURSOS.

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Obrigado pela leitura e até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. Trad.Carlos Moisés e Ana Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

CAUSO, Roberto de Souza. (2003). Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo: Ática, 1997.

JAMES, Edward, MENDLESON, Farah (Eds). Fantasy Literature. Cambridge University Press, 2012, p. 200-213. (The Cambridge Companion to).

RUDDICK, Nicholas. The fantastic fiction of the fin de siècle. In: MARSHALL, Gail. (Ed.). The fin de siècle. Cambridge University Press, 2007, p. 189-206. (The Cambridge Companion to).

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts on File Inc., 2005

 

O que era Ficção Científica antes da Ficção Científica?

O termo “Ficção Científica” (Science Fiction), ainda na forma primária da palavra scientifiction, surge pela primeira vez na edição de abril de 1926 da revista Amazing Stories em um comentário do editor Hugo Gernsback sobre o romance A cotovia do espaço (The Skylark of Space), de E. E. Smith.

A obra também é a fundadora da temática da Ficção Científica das Space Operas.

Isso levanta  a questão: Como eram chamadas as obras de Ficção Científica antes desta vertente do Fantástico ser batizada por Hugo Gensback nas primeiras décadas do século vinte? E como era a FC do passado?

Já o nome “Science Fiction” como conhecemos hoje apareceu primeiro nesta edição de Julho de 1929 da SCIENCE WONDER STORIES.

Muitos críticos, dentre os quais o brasileiro Gilberto Schoereder no livro Ficção Científica (1986), apontam que a tentativa de se buscar raízes clássicas para a ficção científica teria como objetivo justificar literariamente o gênero, respaldando-se em alguns ancestrais ilustres que, no entanto, são totalmente estranhos a ela.

É importante mencionar, porém, que desde a aurora da humanidade o homem tenta entender o mundo ao seu redor, criando interpretações sobre o desconhecido com base no que dele é conhecido, e que a palavra “ciência” significava originalmente “conhecimento”.

Para alguns escritores de Ficção Científic, como Lester del Rey, a ÉPICA DE GILGAMESH (2000 B.C), o mais antigo texto registrado da humanidade, é um antepassado da FC pelo seu questionamento racional da imortalidade.

Assim, aqueles que hoje são considerados precursores da ficção científica tentaram, ao longo da história, responder às perguntas referentes ao que lhes estaria reservado no futuro, o que haveria além das estrelas, ou para além da vida.

A Proto Ficção Científica

Sobre esses antecessores da FC o crítico norte-americano John Clute cunhou o termo “Proto ficção científica”, assim definido por ele em Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia (1995):

“[…] a Proto FC tem de incorporar um sentido [em] que as maravilhas que ela descreve podem ser questionadas, se necessário por exemplos e analogias do mundo existente.” 

Nesse sentido, se um escritor sabe que cavalos não podem puxar uma carruagem para a Lua, mas mesmo assim escreve uma história em que eles o fazem, sabemos que isto não é Proto FC mas alguma outra coisa: uma Alegoria, uma Fantasia política, um sonho.

Mas, se o texto é escrito como se o autor acreditasse que naves espaciais puxadas a cavalo poderiam ser parte do mundo real, isto é Proto FC.

Vejamos então a seguir apenas alguns das dezenas de textos que podem ser lidos como Proto Ficção Científica.

Primeiras viagens espaciais

A História da FC mostra que no longo processo de evolução do sonho à razão, séculos antes da invenção da palavra “viagem espacial”, o homem já imaginava transformar sua realidade, descobrindo mundos ou moldando seu meio.

Entre os anos 50 e 125 d.C., por exemplo, Plutarco foi o primeiro a escrever sobre um voo espacial, no livro Na superfície do disco lunar.

Nesse livro, além de falar sobre o tamanho, a forma e a natureza da Lua, Plutarco faz uma descrição de seus habitantes como demônios que realizavam viagens à Terra.

Ainda no século 2 d.C., a História verdadeira (Vera Historia), de Luciano de Samosata, descreve as aventuras da tripulação de um barco surpreendido por uma tromba d’água e levado à Lua.

Lá os tripulantes passam por diversas aventuras e entram em contato com seres extraterrestres que estão em guerra contra os habitantes do Sol, pois ambos pretendem colonizar Vênus.

Na outra obra de Luciano, Icaromenippu o viajante planeja sua viagem, utilizando um abutre amarrado às suas costas.

Séculos depois, e já trazendo o início de uma preocupação com a descrição científica do acontecimento fantástico, Somnium (1634), de Kepler, traz o jovem Duracotus que em um sonho é transportado a lua por demônios. 

Mesmo que a viagem ocorra de uma situação onírica, Kepler, como cientista, se preocupa em descrever os efeitos da gravidade e do ar rarefeito durante a jornada. 

Vindo a exercer influencia sobre o romance Os primeiros homens na Lua (1901), de H. G. Wells, a obra de Kepler é considerada pelos escritor Isaac Asimov e o cientista Carl Sagan como uma das precursoras da FC.

O Homem na Lua

Seguindo os passos de Kepler, O homem na Lua (The Man in the Moone) (1638), do Bispo Francis Godwin, e Viagens a Lua e ao Sol (Voyages to the Moon and Sun) (1656), de Cyrano de Bergerac, são outras duas obras que mostram o fascínio do século 17 com nosso satélite natural.

Mundos utópicos e civilizações superavançadas

Muitos séculos antes dos pesadelos descritos por Aldous Huxley em Admirável mundo novo (1932) e por George Orwell em Mil novecentos e oitenta e quatro (1949), Platão descreveu em A República (367 a.C.) um modelo utópico para seu Estado onde, dentre outras coisas, o poeta e demais artistas seriam banidos por não seguirem a verdade estipulada por um grupo de eleitos e o nascimento de novos cidadãos seria controlado por princípios eugenistas.

A influência de Platão foi sentida posteriormente durante a Renascença, no século 16, quando Thomas More publicou seu Utopia (1516), descrevendo sua ilha perfeita, que estabeleceria as convenções da literatura de utopia e de sua contra-parte, a distopia.

A obra de More criou a palavra “Utopia” e gerou vários projetos utópicos semelhantes, como A CIDADE DO SOL (1602), de Tommaso Campanella.

Durante o século 17, a então emergente ciência começa a aparecer como pano de fundo nas histórias especulativas, trazendo expectativas quanto aos seus efeitos sobre a cidade e seus habitantes.

Este é o caso da ilha tecnológica de A nova Atlântida (1617), de Francis Bacon, onde até mesmo o clima é controlado.

Mas o destaque aqui vai para As viagens de Gulliver (1726), do escritor irlandês Jonathan Swift e, mais especificamente para a tradição da Proto FC, o livro III desta obra. 

O gradual ceticismo com relação ao já então hegemônico pensamento científico e seus benefícios para a humanidade marca a ficção especulativa do século 18.

No livro III de As viagens de Gulliver, por exemplo, Gulliver descreve a ilha voadora de Laputa, alimentada por um magneto gigante e habitada por matemáticos teóricos, perdidos em seus pensamentos abstratos.

Com essa descrição, Swift caçoou do conhecimento que não trazia benefício prático para a humanidade.

Na viagem seguinte, Gulliver encontra a ilha habitada pelos cavalos racionais Houyhnhnms, o que se constitui como o protótipo de um tema comum na ficção científica: o choque cultural entre um homem e um “Outro” não-humano.

Extraterrestres

Micromegas (1752), do filosofo francês Voltaire é a primeira obra a trazer a visita de extraterrestres ao nosso planeta.

Como explica Mark Hillegas em “The Literary Background to Science Fiction” (1979), Voltaire foi largamente influenciado por As viagens de Gulliver, de Swift, por quem o filosofo francês nutria grande admiração (os dois haviam-se conhecido durante o exílio de Voltaire na Inglaterra por quatro anos).

Em Micromegas temos um gigante viajante, habitante de Sirius, que viaja ao nosso sistema solar parando em Saturno e lá ganha mais um companheiro.

Juntos, estes dois cosmonautas visitam Júpiter e Marte chegando finalmente à Terra em 5 de Julho de 1737, visando entender a natureza do homem.

Produtos da Ciência

A crítica ao papel da ciência presente nos textos de Swift e Voltaire irá alcançar seu ponto máximo no século seguinte, quando os efeitos da Revolução Industrial começaram a permear a sociedade européia, trazendo preocupação para os pensadores e artistas do período sobre os rumos da ciência e da tecnologia.

Esta visão da ciência como um elemento desconhecido quanto ao seu potencial promoveu a ascensão de uma nova vertente da Ficção Científica chamada de “Ciência Gótica”, representada pela obra que os críticos de forma geral consideram o marco inicial da FC: Frankenstein (1818), de Mary Shelley.

No entanto, foi a partir da segunda metade do século 19 que as mudanças sociais trazidas pelo progresso científico começaram a despertar a curiosidade do público leitor das grandes metrópoles.

Para atender a esta demanda por informações sobre as teorias científicas e os avanços tecnológicos da sociedade européia, duas figuras que desempenhariam papel chave na criação da ficção científica como um novo subgênero do romance surgiram respectivamente na França e na Inglaterra: Júlio Verne e H. G. Wells.

Júlio Verne e as viagens extraordinárias

O século 19 era, de fato, arauto de inovações tecnológicas e o francês Júlio Verne soube aliar teses e pesquisas de seu tempo à imaginação, tendo lampejos de um visionário.

Entre suas leituras, Verne se deixou influenciar muito pelo escritor norte-americano Edgar Allan Poe, cujo estilo e argumento eram inovadores. Também confessava sua paixão por Charles Dickens e admiração pelo conterrâneo Guy de Maupassant.

Coube a Verne levar os seus personagens (e os leitores) aos lugares onde ele desejava estar, explorando assim o mundo que se descortinava no século 19.

A eletricidade não era mais um sonho; o dínamo foi inventado em 1861, a ferrovia elétrica em 1879, o elevador em 1880. Mas a eletricidade é, principalmente, energia natural, e, em seus efeitos, uma fonte par excellence da mobilidade, a negação do espaço pela velocidade.

Além da eletricidade, estradas de ferros ligavam continentes, balões dirigíveis coloriam os céus, cabos submarinos de comunicação transoceânicos trocavam informações entre a Europa e a América do Norte, enfim, a ciência e a tecnologia estavam sendo usadas para diminuir as distâncias e revelar as maravilhas do mundo.

Esse cenário levou Verne a desenvolver personagens que estavam sempre em trânsito para explorar, de forma ativa, terrenos e culturas até então desconhecidas. Como salienta Marc Angenot:

[…] todas as narrativas de Júlio Verne, ou quase todas, são narrativas de circulação […]. Praticamente todos os seus personagens são corpos em movimento; mas se pode perceber também que esta mobilidade não se aplica apenas aos atores. Outras coisas circulam também: desejos, informação, dinheiro, máquinas, corpos celestiais. Tudo circula – mobilis in mobili: o que pode ser mais adequado do que usar a própria máxima de Capitão Nemo como o leitmotif da obra como um todo? 

A fixação de Verne com esse tema teve início no final de 1862, ano em que firmou um contrato com Pierre-Jules Hetzel, um conhecido editor francês responsável também por escritores como Sthendal, Alfred de Musset, Balzac, Victor Hugo e George Sand.

Hetzel era um editor que se ocupava até mesmo do processo de criação das obras de seus autores (foi ele quem sugeriu a Balzac o título A comédia humana para a obra maior do escritor) e viu no então jovem Júlio Verne um talento para o seu projeto editorial: promover uma literatura acessível aos jovens.

O resultado dessa parceria foi a aventura Cinco semanas num balão (1863). Na época, o público estava apaixonado pelas ações dos exploradores da África. Verne usou seus mapas e relatos para colocar nos mesmos passos os heróis de suas histórias: um inglês, o doutor Samuel Fergusson, seu amigo escocês Dick Kennefy e o empregado, Joe, que se aventuravam de Zanzibar até o Níger, num périplo em balão.

Seis meses após a publicação, o fotógrafo e aeronauta Nadar capturou o interesse do público europeu com a construção de um balão que pretendia explorar o mundo. Tal empreendimento serviu para fazer de Cinco semanas num balão um enorme sucesso de vendas garantindo a Verne a assinatura de um contrato duradouro com Hetzel, no qual o escritor se comprometia a enviar ao seu editor “um mínimo de dois volumes por ano”.

Nascia, assim, As viagens extraordinárias.

Na sua busca por mostrar ao homem do século XIX que a ciência e a tecnologia do seu tempo poderiam ser utilizadas como instrumentos de exploração, Verne levou os leitores de As viagens extraordinárias a todos os cantos do planeta como o centro da terra (Viagem ao centro da terra / 1864), o Pólo Norte (Viagens e aventuras do capitão Hatteras / 1866), o fundo do mar (Vinte mil léguas submarinas / 1870), a volta pelo planeta (A volta ao mundo em 80 dias / 1873), e até mesmo o espaço, como visto em Da Terra à Lua (1865) e Ao redor da Lua (1870).

Ao todo, sessenta e duas obras compõem as Viagens extraordinárias, formando um projeto literário marcado por sucessos que estabeleceram o nome de Júlio Verne junto ao grande público não apenas na Europa, mas também na América do Norte e Sul.

H. G. Wells e o romance científico

A ficção científica é a única forma literária que possui uma “mãe” e dois “pais” como seus criadores.

Se a inglesa Mary Shelley é amplamente aceita como a fundadora da FC com Frankenstein, o papel masculino de iniciador desta vertente romanesca cabe a dois escritores:
Júlio Verne na França e Herbert George Wells na Inglaterra.

Wells começou a despontar na literatura em 1895 quando o nome de Júlio Verne já estava estabelecido na cena literária. Á medida que os seus romances e contos se sucediam, ficava mais evidente a diferença básica entre os dois escritores: a verossimilhança científica.

Enquanto o francês fazia questão de elaborar um enredo apoiado na utilização ao extremo da ciência e da tecnologia do seu tempo, Wells extrapolava esses elementos criando cenários e equipamentos não existentes no mundo do final do século XIX.

O próprio Verne demonstrou a sua insatisfação com o estilo do escritor inglês. Após ler o romance Os primeiros homens na Lua (1901), de Wells, no qual a viagem à Lua é conseguida através da invenção de um fictício elemento anti-gravidade chamado “Cavorita”, Júlio Verne declarou: “Eu faço uso da física. Ele, a inventa”.

Hoje ambos os escritores são considerados responsáveis pela criação da ficção científica como uma vertente do romance.

Cena do filme de 1960
A MÁQUINA DO TEMPO (1895) foi a primeira obra de romance científico de Wells

Viagem no tempo (A máquina do tempo / 1895), universos paralelos (“O admirável caso dos olhos de Davidson” / 1895), invisibilidade (O homem invisível / 1897), sociedades futuras distópicas (História dos tempos futuros / 1897), invasão interplanetária da Terra (guerra dos mundos / 1898): alguns dos temas mais conhecidos e explorados pela ficção científica até os dias de hoje foram criados e desenvolvidos por H. G. Wells.

O que Wells pretendia com o “Romance Científico”, o nome usado por ele para se referir a histórias que se baseavam no pensamento científico, como informa John Clute em Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia, era tentar representar e dar sentido às complexas e rápidas mudanças do seu tempo que estavam alterando a sociedade britânica em várias esferas, tendo como pano de fundo a hegemonia da Pax Britannica, a Revolução Industrial e teorias científicas polêmicas como as de Charles Darwin sobre a evolução humana.

Wells exerceu influencia em várias filmes e revistas vinculados a Ficção Científica na primeira metade do século vinte.

Na Inglaterra de H. G. Wells, a fundação de sociedades de conhecimento, jornais profissionais e laboratórios durante o período vitoriano conferiram à ciência uma importância que despertava no público o desejo de conhecer cada vez mais as idéias circulantes da Revolução Industrial.

O romance científico de Wells foi uma tentativa de se atender a essa demanda que representava os investimentos da classe média em seu próprio futuro.

O cientista pertencia a essa classe da sociedade que esperava ganhar poder e influência através de suas idéias. Ele era geralmente representado por Wells como um herói altruísta em vários romances científicos tais como A máquina do tempo, A guerra dos mundos e Os primeiros homens na Lua.

O próprio Wells, um ex-estudante de ciência, se via como o profeta de uma “Conspiração Aberta”, técnicos e industriais que iriam governar pacificamente o mundo. É importante mencionar aqui que Wells realmente acreditava na imparcialidade ideológica da ciência e da tecnologia.

Em todos os seus trabalhos literários, H. G. Wells culpava outros fatores, tais como a economia ou a política, pelo potencial destrutivo do poder do conhecimento.

Por fim, é importante destacar que não é correto afirmar que Wells estava consciente de que seus próprios trabalhos sustentavam e promoviam uma ideologia a favor da classe dominante.

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Fontes utilizadas

ANGENOT, Marc. Jules Verne: The Last Happy Utopianist. In: PARRINDER, Patrick (ed.). Science Fiction: A Critical Guide. London: Longman, 1979, p. 18-33.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995

SCHOEREDER, Gilberto. Ficção científica. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

SILVA, Alexander Meireles da. O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira no começo do século XX. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2008. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. 193 p.

TAVARES, Bráulio. (org.) Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Você conhece seu corpo? 5 contos fantásticos sobre partes do corpo.

O século 19 e início do século 20 foram o ápice do fascínio do público e da Medicina com as aberrações do corpo.

A história do Homem Elefante já virou filme e peça de teatro.

Na Inglaterra Vitoriana, por exemplo, Joseph Merrick despertou o interesse do público e da comunidade científica da época com sua gradual deformação física, que o levou a ser conhecido como o Homem Elefante. 

Da Esq. para a Dir.: Annie Jones (“A Mulher Barbada”), Jack Earle (“O Homem mais alto do mundo”) e Myrtle Corbin (“A garota de quatro pernas do Texas”)

Já nos Estados Unidos, espetáculos freaks itinerantes tais como o do circo Ringling Bros.’ corriam o país mostrando corpos que subvertiam as convenções do normal.

Corpo Fantástico (e rebelde)

Na Literatura Fantástica, em suas diferentes vertentes, o corpo humano sempre forneceu histórias sobre partes do corpo que assumem comportamentos insólitos. 

Na Fantasia, apenas para citar um caso dentre tantos, quem não lembra do nariz de Pinóquio? Membro acusador da transgressão da honestidade do boneco de madeira.

No Gótico, o monstro de Frankenstein, composto de membros de cadáveres, denunciava a transgressão da Ciência sobre os mistérios da vida.

Na Ficção Científica, “O estranho caso dos olhos de Davidson”, de H. G. Wells, mostra como após um acidente, os olhos de um homem passam a enxergar não o mundo a sua frente, mas a realidade do outro lado do planeta.

Veja abaixo algumas outras obras em que partes do corpo ocupam papel central na construção do fantástico na Literatura.

1. Mão

Obra: “A mão encantada”

Ano de publicação: 1832

Autor: Gérard de Nerval (1808-1854)

Sinopse: Para conseguir vencer um duelo contra um militar, um comerciante de tecidos recorre a feitiçaria cigana e fica com a mão encantada. Após vencer o duelo ele não consegue controlar a mão e esta acaba agredindo o magistrado que julgaria seu caso. Após ser enforcado, a mão do morto permanece ativa, o que leva o carrasco a cortar a mão do cadáver. Após se libertar do corpo do enforcado, a mão abre caminho entre a multidão estarrecida e alcança o cigano que lhe deu vida.

Curiosidade: Conto marcado pelo simbolismo moral da agressividade que o ser humano carrega dentro de sua natureza. 

2. Nariz

Obra: “O nariz”

Ano de publicação: 1835

Autor: Nicolai Vassilievitch Gogol (1809-1852)

Sinopse: Sentado a mesa para o café da manhã junto com sua esposa o barbeiro Ivan Iákovlevitch descobre dentro de um pão o nariz de seu cliente, o major Kovaliov. Após vários incidentes tentando se livrar do nariz o barbeiro acaba jogando o mesmo em um rio. Ao mesmo tempo o militar procura incessantemente seu nariz, pensando nas consequências de sua imagem sem esta parte do corpo. Após várias ações, o major Kovaliov desperta e percebe que seu nariz está de volta em seu rosto.  

Curiosidade: Sátira feroz de Gogol a burocracia russa. Conto pertencente a fase surrealista do escritor. 

3. Pé 

Obra: “O pé da múmia”

Ano de publicação: 1840

Autor: Théophile Gautier

Sinopse: Homem compra em antiquário um pé de múmia supostamente pertencente a uma princesa egípcia para ser usado como peso de papel. Ao dormir, ele recebe a visita da princesa Heronthis, que explica ao jovem que seu pé foi roubado e o quer de volta. O homem então pede a princesa uma estatueta em troca pelo pé. Heronthis transporta o narrador até o Egito Antigo onde o rapaz pede a mão da princesa em casamento, pedido este que é negado pelo Faraó, pai de Heronthis. Ao ser despertado por um amigo, o jovem percebe que o pé da múmia desapareceu e em seu lugar há uma pequena estátua. 

Curiosidade: Conto que se apoia na recorrente estratégia do conto fantástico do século 19 do sonho como espaço do acontecimento insólito. Reflete também o fascínio da época na França com a cultura egípcia.

4. Dedo

Obra: “O dedo do meio do pé direito”

Ano de publicação: 1890

Autor: Ambrose Bierce

Sinopse: Dez anos após matar os dois filhos e a esposa, e ainda ter decepado o dedo do meio do pé direito da mulher, um homem chamado Manton retorna a sua região com nova aparência. Ele acaba sendo desafiado para um duelo de faca a ser realizado em sua antiga residência, local onde ele cometeu o crime e que tem agora a fama de ser mal assombrado. Na hora do duelo Manton é encontrado morto com o rosto retorcido de medo. A investigação do lugar revela pegadas de alguém que não possuía o dedo do meio do pé direito.

Curiosidade: Considerada umas das melhores histórias sobrenaturais de Ambrose Bierce com o tema da vingança do além.

5. Orelha

Obra: “O inexplicável caso da orelha de Lolô”

Ano de publicação: 1944

Autor: Bernardo Élis

Sinopse: Homem rejeitado pela prima e trocado por empregado negro corta a orelha deste e prende a mulher no porão da casa para lá ela falecer. Anos mais tarde, ao visitar o local com um amigo de juventude os dois testemunham a orelha decepada ganhar vida e patas e sair da caixa onde estava guardada para levar o assassino a morte pelo pavor. 

Curiosidade: Conto escrito pelo brasileiro Bernardo Élis no livro Ermos e Gerais com a intenção de homenagear o escritor norte-americano Edgar Allan Poe em “A queda da Casa de Usher”. 

Listei aqui apenas 5 contos, dentre tantos outros exemplos, desta longa tradição de partes do corpo humano que rendem histórias fantásticas na Fantasia, no Gótico e na Ficção Científica na Literatura de todo o mundo.

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Fontes utilizadas

CALVINO, Ítalo (Org.). Contos fantástico do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ÉLIS, Bernardo. Ermos e gerais. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

GONÇALO JUNIOR. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998.

PAES, José Paulo (Org.) Os buracos da máscara: Antologia de contos fantásticos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, Inc., 2005.

 

 

Fantasia, Gótico e Ficção Científica: Quando elas se cruzaram?

Hoje em dia, livros, histórias em quadrinhos e séries como A Seleção, de Kiera Cass; Fábulas, de Bill Willingham e Grimm, dentre tantas outras, exploram os tênues limites entre os reinos da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica. 

Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.
Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.

Estas obras subvertem o senso comum de que a presença de personagens específicos, ou espaços determinados definem a que gênero aquela narrativa pertence.

Ou seja, não é porque a história tem zumbi, que ela tem de ser de Horror, assim como também uma história ambientada em uma nava espacial necessariamente será de Ficção Científica. 

ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.
ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.

O Fantástico nos anos de contestação 

As experimentações na Literatura, Cinema e Quadrinhos nas produções ligadas ao Fantástico de hoje podem ser traçadas até as décadas de 60 e 70 quando se percebeu o surgimento de uma nova atmosfera no campo cultural.

Esta situação foi consequência da contestação feita por grupos minoritários diversos que também promoveram o debate sobre a validade da distância entre Baixa e Alta Cultura

O interessante a se observar, no caso do Fantástico, é que no processo de contestar as divisões entre os gêneros literários, o Pós-Modernismo resgatou a estreita ligação existente entre a Fantasia, o Gótico e a Ficção Científica.

Fantasia & Gótico

A ligação primeira entre a Fantasia, na sua manifestação do Conto de Fadas, e o Gótico, ocorre justamente na Idade Média, quando a relação entre o ser humano e o mundo ao seu redor era regulado pelo sobrenatural.

De um lado, dentre tantos exemplos possíveis, as crenças e narrativas populares ligadas a criaturas fantásticas de origem pré-cristã, como as fadas celtas, o deus Pã romano e os anões e elfos teutônicos.

Apesar da hegemonia da Igreja Católica Medieval, vários rituais praticados no meio popular, principalmente relacionadas as colheitas e plantações, mantiveram estas criaturas do Maravilhoso, recorrentes na Fantasia, vivas no imaginário da Idade Média. 

Do outro lado, o discurso cristão na vinculação destas mesmas criaturas, e seus habitats, ao demoníaco e na instituição de toda uma cultura regulada pelo medo, pecado e punição.

Essa marginalização do imaginário popular medieval, e a perseguição promovida pela Igreja, contribuiu para a associação da Idade Média como uma época marcada por fanatismo, superstições, barbarismo e paganismo.

Estando associados aos povos bárbaros que, ao derrubarem o Império Romano, deram início a Idade Média, os Godos logo se tornaram sinônimo da época e Idade Média e Gótico passaram a ser termos que se confundiam.  

Contos de fadas ou Contos Góticos?

Aqui mesmo no blog e no canal do Youtube já postei artigos sobre contos de fadas cujas estruturas se assemelham as encontradas nas narrativas góticas.

Isso mostra que durante a Idade Média, Fantasia e Gótico dialogavam ativamente refletindo um contexto em que as criaturas maravilhosas, muito apropriadamente os vilões, eram apresentados por meio de uma visão gótica criada pelo Cristianismo. 

Citar aqui apenas três exemplos.

O lobo como disfarce do diabo

Em “Chapeuzinho Vermelho”, onde o folclore do lobisomem fornece a estrutura da narrativa, temos a criatura de origem mitológica grega e nórdica habitando o espaço da floresta, enxergado pelo Cristianismo da época como o lócus do demônio.

O pagão muçulmano

“Barba Azul” mescla o maravilho de chaves encantadas com convenções do romance gótico, como câmaras secretas, corredores estreitos, perseguição da figura feminina e vilões aristocráticos.

O diabo em pessoa

“Rumpelstiltskin” talvez seja o conto em que o vilão mais se coloca como a incorporação da convergência entre o maravilhoso da Fantasia e o demoníaco do Gótico.

Essa ligação se revela no duende, ligado ao maravilhoso teutônico, que, dentro da narrativa, realiza um pacto diabólico ao condicionar a riqueza concedida a uma moça a entrega do filho da protagonista.  

Gótico & Ficção Científica 

Nascido como gênero literário no ano de 1764 com O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, o Gótico buscou no sobrenatural ligado ao demoníaco a matéria prima para suas histórias. 

Isso pelo menos até o início do século 19 quando a Revolução Industrial, iniciada ainda nas últimas décadas do século 18, já tinha deixado claro para escritores e pensadores que ela iria mudar a percepção do ser humanos quanto ao seu lugar no mundo.

Neste contexto, mais do que o demônio e fantasmas, o que começava a causar angustia no individuo da época eram as rápidas e profundas mudanças trazidas pela Ciência.

A filha do Gótico: Nasce a Ficção Científica

Foi Frankenstein, ou O moderno Prometeus (1818), de Mary Shelley a obra que capturou esse ambiente em que a Ciência começou também a ser vista como um fenômeno sobrenatural que ameaçava a integridade humana.

De um lado, a ambientação de cemitérios e laboratórios escondidos, além da exploração do Sublime marca Frankenstein como um continuador da tradição gótica vigente desde o século 18. 

Todavia, por ser a primeira obra literária em que a Ciência exerce papel decisivo no desenvolvimento do enredo, a obra de Mary Shelley também inaugura a vertente romanesca da Ficção Científica.

Horror + FC = Horror Cósmico

O dialogo entre Gótico e Ficção Científica se desenvolveu ao longo do século 19 na Literatura Vitoriana e alcançou um novo patamar na América do início do século 20.

Foi por meio de H. P. Lovecraft e suas impressões sobre a Modernidade da América da época que o Horror Cósmico surgiu.

Como expliquei em um post específico sobre Lovecraft, a visão do autor de “O Chamado de Cthulhu” de que alguns grupos de imigrantes atraídos para a América pela Modernidade representavam um mundo de caos que o homem civilizado não podia controlar ou compreender foi traduzido em uma cosmologia monstruosa que unia o Horror e a Ficção Científica.

Percebe-se então que o medo em relação ao Outro, ao diferente, assim como também a ansiedade provocada pelas mudanças na sociedade, foram grandes motivadores para a conexão da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica e do Horror Cósmico.

E ai? Você gosta mais da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica ou de tudo junto e misturado?

Se gostou do texto, compartilhe com seus amigos e amigas fantásticas e assine o blog.

Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

SILVA, Alexander Meireles da. “O Barba Azul”: conto de fadas ou conto gótico?. Disponível em Revista de Letras do Instituto de Humanidades.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Você gosta de STAR WARS e GUARDIÕES DAS GALÁXIAS? Então você curte Space Operas

A SciFi que todo mundo lembra

No momento em que escrevo este post Guardiões das Galáxias 2 está nos Cinemas de todo o mundo com a promessa de não apenas oferecer mais diversão do que no primeiro filme, mas também, indiretamente, de continuar perpetuando as Space Operas como a mais popular expressão da Ficção Científica no Cinema.

Mas que diabos é uma Space Opera

A cotovia do espaço

As Space Operas estão intimamente relacionadas ao início da Ficção Científica na América nas primeiras décadas do século 20.

De fato, o próprio nome Science Fiction, ainda na forma primária da palavra scientifiction, surge pela primeira vez na edição de abril de 1926 da revista Amazing Stories em um comentário do editor Hugo Gernsback sobre o romance A cotovia do espaço (The Skylark of Space), de E. E. Smith.

Antes de A cotovia do espaço já haviam histórias de ficção científica centradas em aventuras espaciais, mas foi a partir da obra de E. E. Smith que temos reunidos três elementos característicos das Space Operas:  

  1. Um herói inventor e aventureiro;
  2. Gadgets tecnológicos utilizados pelo herói e o vilão;
  3. Ambientação no espaço;
  4. Escala

É justamente a escala cósmica a principal contribuição de A cotovia do espaço para a criação das space operas e suas narrativas passadas em universos complexos formados por sistemas planetários habitados por raças variadas nos quais o protagonista adentra para resolver conflitos diversos.  

Pense em Star Wars, Guardiões da Galáxia, O quinto elemento ou Valerian e você terá uma exata noção de uma Space Opera.

As histórias de sabão

De Flash Gordon a Star Wars, de Buck Rogers a Guardiões das Galáxias as operas espaciais tem seu nome ligado a quando o Rádio era o principal veículo de comunicação dos Estados Unidos no começo do século vinte.

Nesta época os seriados radiofônicos diários, equivalentes as novelas televisivas de hoje, tinham nas companhias fabricantes de sabão (soap) da América os seus principais patrocinadores.

Logo, as histórias patrocinadas por marcas deste produto receberam o apelido de Soap Operas, algo traduzido como “Histórias do sabão”.

O termo se generalizou para designar qualquer história dramática de longa duração ou dimensão para os lares americanos. Assim surgiram as Horse Operas, para identificar as histórias de faroeste e, em 1941, o escritor e editor Wilson Tucker criou o termo Space Opera

O lado negro das Space Operas

Se alguém perguntar a uma pessoa comum sobre o que é Ficção Científica, dificilmente a resposta não será algo sobre “histórias com presenças de naves espaciais, extraterrestres e armas de raio”.

O QUINTO ELEMENTO (1997), exemplifica bem o lado divertido das Space Operas

Este fato atesta a força das operas espaciais na historia da FC revelando dois lados desta realidade:

Por um lado, esta vertente da Ficção Científica ajudou a popularizar esta expressão do Fantástico para o grande público pelas histórias repletas de ação, cenários coloridos e roteiros simples.

Esta situação se manteve de forma dominante na Literatura de FC até a década de 50 do século vinte, e continua a ser uma forte tendência no Cinema até hoje.

MERCENÁRIOS DAS GALAXIAS (1980), clássico das Sessões da Tarde.

Do outro lado, porém, as Space Operas foram as grandes responsáveis por criar a falsa noção de que a Ficção Científica em geral é voltada para um público juvenil ou para pessoas que buscam uma forma de escape da realidade.

A partir dos anos 60, com o chamado movimento New Wave,  a Literatura de Ficção Científica passou  a incorporar temas ligados as Ciências Humanas e Sociais, como a Linguística, a Psicologia, a História e a Antropologia, fomentando assim obras também no Cinema que vem proporcionando reflexões sobre a sociedade contemporânea.

A CHEGADA (2016) mostra que a FC pode ser inteligente sem deixar de ser atraente para o grande público

São nas superproduções do Cinema norte-americano que as Space Operas encontram seu refugio para continuarem a promover, junto ao público, a crença de que a FC pode ser resumida aos mesmos temas e imagens encontrados nas publicações das revistas pulp de até meados do século vinte. 

Assim, se você quer ler ou assistir a uma obra de Ficção Científica sem questionamentos filosóficos ou complexidade de roteiro, então embarque na nave espacial mais próxima rumo ao planeta das operas espaciais.

Se você gostou do post, então compartilhe-o com seus amigos  terrestres e extraterrestres, deixe seu comentário e assine o blog.

Fontes utilizadas

CARNEIRO, André. Introdução ao estudo da “science fiction”. Brasópolis: /s.n./, 1997.

FIKER, Raul. Ficção científica – ficção, ciência ou uma épica da época?; Coleção universidade livre. Porto Alegre: L&PM, 1985.

ROBERTS, Adam. Science fiction: The New Critical Idiom. London: Routledge, 2000.

SCHOEREDER, Gilberto. Ficção científica. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

 

Weird Fiction, New Weird, Interstitial Writing e Slipstream: Os caminhos da Literatura Fantástica hoje

Você gosta de Literatura Fantástica, não é?

Se você assiste a filmes ou lê obras ligadas a Fantasia, Gótico, Horror, Ficção Científica e Realismo Mágico tenho certeza que já percebeu uma certa mistura de gêneros no Fantástico de hoje.

Veja o caso, por exemplo, na Literatura YA (Young Adults), de obras como A Seleção (2012), da escritora norte-americana Kiera Cass, onde a distopia se encontra com o conto de fadas. 

Big Brother encontra Cinderela.

No entanto, essa subversão dos limites entre as narrativas do insólito não é de hoje.

“Tudo o que é solido se desmancha no ar”

O entre-cruzamento de fronteiras literárias no fantástico se tornou mais evidente a partir do fim do século dezenove e início do início do século vinte como reflexo do impacto das ideias de pesquisadores como Charles Darwin, Albert Einstein, Karl Marx e Sigmund Freud sobre o ser humano da época.

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A frase de Karl Marx resume a situação de um mundo cujas certezas ruíam rapidamente.

Dentro de seus campos de atuação, o trabalho desses pesquisadores, e outros mais, colocou em xeque as crenças e convenções religiosas, sociais e políticas que faziam o ser humano do período a entender o mundo e o seu lugar nele.

Gênero fantástico ou Modo fantástico?

No campo da Literatura Fantástica, a forma mais visível deste cenário de profundas e irreversíveis mudanças foi a acentuação da diferença entre dois tipos de Fantástico: gênero e modo

Não é objetivo central aqui apresentar em detalhes as diferenças entre o Gênero fantástico e o Modo fantástico, isso já foi tema no canal do FANTASTICURSOS no YouTube, mas basicamente tenha em mente que:

Gênero fantástico

Refere-se a um gênero literário nascido em fins do século dezoito como resultado da tensão entre o emergente racionalismo iluminista e as crenças religiosas e sobrenaturais herdadas da Idade Média.

O ponto inicial é o romance O diabo enamorado (Le Diable amoureux / 1772), do escritor francês Jacques Cazotte. 

O jovem Alvare invoca o diabo e este se apaixona pelo jovem espanhol. Ele então assume a forma da bela Biondetta e tenta seduzi-lo.

O gênero fantástico se caracteriza por apresentar uma narrativa marcada pela incerteza do protagonista (e, por tabela, de nós leitores) diante do acontecimento fantástico. 

Biondetta assume sua forma diabólica no momento da consumação do amor com Alvare e o jovem desperta como se estivesse em um pesadelo. Foi tudo real ou mero produto da imaginação do rapaz?

O acontecimento fantástico realmente aconteceu ou foi apenas um sonho? Ou foi o resultado do uso de drogas? Ou ocorreu pelo excesso de sono? Ou por causa do sofrimento pela perda da pessoa amada? 

É nesse terreno da incerteza entre o real e o sobrenatural que o gênero fantástico habita .

A metamorfose

Para alguns críticos, o gênero fantástico sofreu uma crise no fim do século dezenove e início do vinte, em decorrência do cenário de mudanças que mencionei acima.

Afinal de contas, o elemento sobrenatural de origem religiosa ou popular não mais provocava incertezas na mente do individuo imerso no mundo da Revolução Industrial.   

Uma das marcas dessa crise é a novela A metamorfose (1915), de Franz Kafka

Por que Gregor Samsa acordou em uma manhã transformado em inseto? 

Não há nenhuma explicação ao longo de toda a história.

Não há nenhum questionamento por parte do personagem das razões que poderiam ter levado ele a sofrer tal metamorfose. 

No entanto, mais importante que a mudança, o que interessa a Kafka é mostrar as consequências da mudança sofrida pelo jovem vendedor sobre a família de Gregor Samsa.

O gênero fantástico morreu?

Não. Assim como Gregor Samsa ele se metamorfoseou em outra coisa, mas a resposta mesmo fica para outro post.

Modo fantástico

Esse é Fantástico que vem a nossa mente quando pensamos nesta palavra.

O ÉPICO DE GILGAMESH (2.700 a.C.) é a obra escrita mais antiga da humanidade e é marcada por vários elementos fantásticos usados até hoje.

Refere-se, de modo geral, a narrativas no qual o manejo e a combinação de temas e elementos da narrativa (narrador, enredo, espaço, tempo e personagens) revelam a presença e influencia do insólito dentro da história.

“Fantástico”, aqui, deve ser entendido como um grande termo guarda-chuva embaixo do qual estão vários subgêneros e vertentes do romance.

A ODISSEIA (Séc. 8 a.C.), de Homero mostra como o Fantástico está na base da literatura ocidental.

Mitos, Lendas, Fábulas, Contos de fada, Romances Góticos, Horror, Terror, Ficção Científica, Realismo Mágico, Cordel, … Tudo está no reino do Modo Fantástico.

Veja agora abaixo algumas das configurações deste Fantástico pouco faladas no Brasil, mas que, desde o início do século vinte, vem apresentando novos olhares sobre as angustias e ansiedades da sociedade contemporânea.

São elas: Weird Fiction, New Weird, Interstitial Fiction e Slipstream.

Literatura Fantástica hoje 

Weird Fiction 

Ainda que esteja muito associada a América do início do século vinte a Weird Fiction possui raízes nas últimas décadas do século 19 no Reino Unido.

As histórias de fantasmas de M. R. James exploraram o terror de elementos do cotidiano.

Lord Dunsany influenciou Lovecraft com suas narrativas marcadas por lugares e criaturas estranhas.

O criador do termo foi o escritor irlandês Sheridan Le Fanu, escritor de, dentre outras obras, Carmilla (1872), novela que influenciou Bram Stoker na criação de Drácula (1897). 

A Weird Fiction, que em uma tradução aproximada para o Português poderia ser algo como “Ficção do Estranho” ou “Ficção do Bizarro”, se caracteriza por apresentar narrativas sobrenaturais cujo elemento macabro vai além do normalmente utilizado na literatura de Horror.  

Lovecraft e o Horror Cósmico 

O escritor norte-americano H. P. Lovecraft foi o grande promotor da Weird Fiction na América, algo ressaltado ainda mais pela sua associação com a revista Weird Tales. 

Lovecraft trouxe o racionalismo científico da América do começo do século vinte para criar histórias que iam além dos fantasmas, vampiros e casas assombradas do gótico e do horror tradicional.

Esta visão está expressa na sua definição de Weird Fiction, sendo que na tradução da Editora Iluminuras de 2008 o termo “Weird Fiction” foi substituída pelo mais genérico “história fantástica”:  

“A história fantástica genuína tem algo mais que um assassinato secreto, ossos ensanguentados, ou algum vulto coberto com um lençol arrastando correntes, conforme a regra. Uma certa atmosfera inexplicável e empolgante de pavor de forças externas desconhecidas precisa estar presente; e deve haver um indício, expresso com seriedade e dignidade condizentes com o tema, daquela mais terrível concepção do cérebro humano – uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da Natureza que são nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios dos espaços insondáveis”.

Obra representativa deste Weird Fiction lovecraftiano é o conto “O Chamado de Cthulhu” (1926), que introduz a temática do “Horror Cósmico”, exemplo da subversão das fronteiras entre o Horror e a Ficção Científica. 

Após Lovecraft, outros escritores de seu círculo, como Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, August Derleth e Robert Bloch  continuaram a explorar o potencial narrativo do Horror Cósmico e da Weird Fiction

Dica de leitura:

A melhor coletânea para compreender as origens e evolução da Weird Fiction.

A Segunda Grande Guerra mostrou horrores que superavam os temas praticados na Weird Fiction da primeira metade do século vinte.

Gradativamente, a partir dos anos 50, um novo modo de ler o bizarro do mundo começou a ganhar forma no New Weird

New Weird

O New Weird busca unificar os três principais gêneros do fantástico em Língua Inglesa: o Horror, a Fantasia e a Ficção Científica.

As primeiras menções ao New Weird se encontram em meados do século passado.

A trilogia Gormenghast, composta por Titus Groan (1946), Gormenghast (1950) e Titus Alone (1959), do escritor inglês Mervyn Peake é considerada um dos marcos iniciais do New Weird.

A relevância desta obra no cenário da Literatura Fantástica nos anos 50 foi ofuscada por outra trilogia lançada na época: O SENHOR DOS ANÉIS (1954-1955).

Misturando Gótico, Fantasia e Ficção Científica (inclusive antecipando elementos do Cyberpunk), Gormenghast anuncia a obsessão do New Weird com a cidade enquanto espaço da ocorrência do insólito.

Outro nome de destaque do New Weird é o do escritor inglês Clive Barker que, no final do século vinte, lançou a coletânea de contos em seis volumes Os Livros de Sangue (1984-1985).

“O futuro do horror”, assim o escritor Stephen King classificou o trabalho de Clive Barker.

A obra de Clive Barker refletiu a ênfase do New Weird nos aspectos grotescos relacionados a transformação, decadência e mutilação do corpo humano.

Clive Barker e o cenobita Pinhead, um dos vários seres bizarros que habitam as narrativas do escritor.

O inglês China Miéville é uma das principais vozes do New Weird no século vinte e um com romances como Estação Perdido (2000) e A cidade & a cidade (2009). 

Além dele, destaque para Hal Duncan, K. J. Bishop e Michael Moorcock.

Dica de leitura:

A coletânea de 2008 traz contos e ensaios sobre esta expressão do fantástico contemporâneo

Interstitial Writing

A proposta da Interstitial Writing encontra paralelo nos Estudos Culturais do crítico Homi Bhaba sobre a liminaridade, expressas em O local da cultura (1998):

“É na emergência dos interstícios – a sobreposição e o deslocamento de domínios da diferença – que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação [nationness] [grifo do autor], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados”

Ellen Kushner, Delia Sherman, Theodora Goss, Heinz Insu Fenkl e Terri Windling são os nomes por trás do início da Interstitial Writing.

“Melancholia with Demons”
Oil on Copper, 9” x 12”

Em 2002 eles fundaram a ISIS: the Interstitial Studies Institute com o propósito de discutir formas de arte – não apenas literária, mas também visual, musical e de performance – que buscam romper limites tradicionais.

Na Literatura, a Interstitial Writing exemplifica a busca do Pós-Modernismo em debater e subverter as fronteiras entre as expressões da criatividade humana.  

Os contos de O quarto do Barba Azul (1979), de Angela Carter podem ser lidos como exemplos de Interstitial Writing.

Dica de leitura:

INTERFICTIONS (2007) é recomendado como porta de entrada para a escrita intersticial por meio dos contos e da discussão apresentada.

Slipstream

Nascido nos domínios da Ficção Científica, o Slipstream é um termo cunhado pelo escritor norte-americano Bruce Sterling em um ensaio de 1989 publicado no fanzine SF Eye,

Bruce Sterling é também um dos criadores do Cyberpunk com coletânea de contos MIRROWSAHES (1986).

No texto, Bruce Sterling manifestava sua percepção de que algumas obras de fins do século vinte estavam subvertendo as convenções da Ficção Científica, ao trazer elementos da Fantasia e do Horror e cunhou o termo Slipstream, sinalizando que estas narrativas escorregavam (Slip – Escorregar) entre as vertentes do fantástico.

Para ele, a ficção Slipstream é, 

“um tipo de ficção que simplesmente faz você se sentir muito estranho; do jeito que viver no século 20 faz você se sentir, se for uma pessoa de certa sensibilidade”.

O Slipstream faz uso de estratégias literárias pós-modernas tais como a Alegoria, a Metaficção e o Pastiche na sua tentativa de ampliar as possibilidades da Ficção Científica em refletir sobre o mundo de hoje.

O romance O Conto da Aia (1985), da canadense Margaret Atwood, que mescla a estrutura da Distopia com elementos de contos de fada, pode ser entendido como um exemplo de ficção Slipstream.

Ted Chiang (autor do conto que deu origem ao filme A Chegada), Bruce Sterling, Michael Chabon, George Saunders são nomes representativos do Slipstream.

Dica de leitura:

FEELING VERY STRANGE: THE SLIPSTREAM ANTHOLOGY (2006), traz uma variedade de contos que constroem um panorama do que os editores James Patrick Kelly e John Kessel chamaram de modalidade difusa.

Algumas questões:

Uma rápida leitura das expressões do fantástico aqui apresentadas pode deixar a duvida se, de fato, há diferenças substanciais entre elas.

Ao pensar nas particularidades do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream, o escritor e editor Jeff Vandermeer aponta que, diferente das duas últimas, o New Weird não se preocupa em utilizar estratégias literárias pós-modernas que subvertem a realidade do texto ficcional ou chamam a atenção para a sua artificialidade;

Mas, quais seriam os pontos de distinção entre o Slipstream e o Interstitial Writing?

Existiriam na Literatura Brasileira da virada do século dezenove para o vinte e no meio literário nacional de hoje, representantes respectivamente do Weird Fiction, do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream?

Fica o convite para os pesquisadores do Fantástico.

Gostou do post?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos fantásticos e normais.

Até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BESSIÈRE, Irène (2009). “O relato fantástico: forma mista do caso e da adivinha”. (Biagio D’Angelo, Trad.). In Revista Fronteiraz, (vol. 3, nº 3, Setembro). São Paulo: USP, pp. 185 – 202.

CESERANI, Remo (2006). O fantástico. Trad. Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR.

JOSHI, Sunand Tryambak (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, Sunand Tryambak (Eds.). (2001). The Modern Weird Tale. North Carolina: McFarland & Company.

KELLY, James Patrick; KESSEL, John. (Eds.) (2006). Feeling Very Strange: The Slipstream Anthology. Tachyon Publications. San Francisco. 2006

LOVECRAFT, Howard Phillips (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

SHERMAN, Delia; GOSS, Theodora (Eds) (2007). Interfictions: An Anthology of Interestitial Writing. Boston: Interstitial Arts Foundation.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

STERLING, Bruce. “Slipstream”. Disponível em: < https://w2.eff.org/Misc/Publications/Bruce_Sterling/Catscan_columns/catscan.05 > Acesso em: 08 mar. 2017.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2008). The New Weird. San Francisco: Tachyon Publication.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The Weird: A Compendium of Strange and Dark Stories. New York: Tor Book.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Será que você é um canibal? O canibalismo no fantástico (Parte 2)

Na primeira parte do post sobre a relação entre o Canibalismo e o Fantástico, que você pode acessar clicando aqui, apresentei um breve panorama de como a prática de comer carne humana acompanha a história da humanidade antes mesmo dela surgir na mitologia grega passando pela Idade Média e chegando aos contos de fadas que conhecemos.

Cronos versus Zeus: Canibalismo mitológico.

Neste segunda parte do post, você vai ver como o canibalismo se tornou uma linha divisória entre o civilizado e o bárbaro, entre o humano e o monstruoso.

A comédia zumbi SANTA CLARITA DIET permite refletir sobre rotina e acomodação na sociedade moderna.

Vai ver também como ele se tornou um simbolo das ansiedades do ser humano no mundo de hoje, algo visto na série da Netflix Santa Clarita Diet e no filme Grave (Raw, no original em inglês).

A relação do individuo com o corpo nos tempos modernos aparece refletido no filme

Se você quer ler logo sobre como o fantástico interpreta o mundo por meio do canibalismo, antes de conhecer a história da prática de se comer carne humana, clique aqui

O Canibal é americano

Polifemo era filho de Poseidon com uma ninfa da água

Quando os europeus se lançaram ao mar no século 15 e 16 eles levaram em seus navios todo o imaginário herdado dos relatos da Antiguidade sobre criaturas monstruosas e canibais, como o do ciclope Polifemo, que devorou os homens de Ulisses na obra A Odisséia.   

O monstro nos confins do mundo

A Literatura de Viagens da época, seguindo essa crença, era repleta de relatos de criaturas antropofágicas que viviam em regiões da Etiópia e da Índia, como os Cinocéfalos, homens com cabeça de cães.

Os cinocéfalos se alimentavam dos viajantes incautos

A chegada dos europeus as Américas trouxe a revelação de que alguns dos povos indígenas do continente consumiam carne humana em rituais religiosos.

Representação do canibalismo da tribo brasileira dos Tupinambá em 1557, conforme descrição de Hans Staden.

Esse ritual visava adquirir a coragem dos guerreiros inimigos capturados ou como parte de oferenda para os deuses.

Canibal ou Antropófago? 

Foi neste contexto que, ao observarem os índios antropófagos das ilhas do Caribe, os exploradores criaram a palavra “Canibal”

A prática do canibalismo foi um dos motivos alegados pelos europeus para a escravidão indígena, com o pretexto de que eles não eram humanos.

Mas, qual é a diferença entre Canibalismo e Antropofagismo? 

Todo antropófago é canibal, mas nem todo canibal é antropófago.

Explico.

O Canibalismo ocorre quando um individuo de uma espécie come outro representante da mesma espécie. Não é exclusivo do universo humano.

No caso do Louva-a-deus o canibalismo é cometido pela fêmea, que devora o macho depois do ato sexual.

Já a Antropofagia (do grego anthropos, “homem” e phagein, “comer”) ocorre especificamente quando um individuo humano come a carne de outro ser humano.

Canibais brancos e cristãos

Ainda que após o contato entre europeus e os povos indígenas, estes últimos tenham sido associados a antropofagia, os colonos brancos (e cristãos) também não ficaram de fora.

Durante o ano de 1609 na cidade de Jamestown, uma das primeiras experiências colonizadoras na América, os colonos ingleses precisaram recorrer ao canibalismo como forma de sobreviverem ao rigoroso inverno que se abateu sobre o assentamento. 

O canibal é o outro

Sendo um dos principais tabus da humanidade, o canibalismo sempre é associado a alguém pertencente a alguém de outro grupo. Nunca a nós.

O Kindilfresser é um comedor de crianças da Suíça cujas origens podem estar relacionadas ao preconceito contra os judeus.

Judeus, muçulmanos, índios, negros… todos os que não pertenciam ao padrão branco, cristão e europeu eram enxergados como canibais em potencial.

O Papa figo é um negro leproso que coloca as crianças no saco para depois comer o figado delas.

No folclore do Brasil, esse preconceito está expresso em criaturas canibais ligadas ao medo infantil, tais como o Papa figo e o Quibungo.

O Quibungo é negro e tem uma bocarra nas costas por onde ele enfia as crianças que pega.

Para saber mais sobre essas e outra criaturas, leia o post aqui do blog “Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?”

O canibalismo no Cinema

Depois de passar pela Mitologia e pela História, o canibal encontrou no Cinema o espaço ideal para mostrar seu apetite.  

Os pais dos canibais cinematográficos

Dois filmes da década de 1960 foram os responsáveis por promover uma verdadeira invasão de comedores de carne humana no Cinema dos anos setenta.

Para assistir ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

  1. Mondo Cane (1962)

Produção italiana que inaugurou o gênero Shockumentary, este filme traz vários costumes e práticas de povos e comunidades ao redor do mundo, dentre os quais, o canibalismo.

2. A noite dos mortos-vivos (1968) 

Filme que reinventou o personagem folclórico do zumbi no cinema e introduziu o tema do canibalismo no fantástico. O primeiro zumbi canibal está aqui

Se quiser saber mais sobre zumbi, veja o vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 curiosidades monstruosas: Zumbi”.

Os anos de fartura para o canibal

Os anos setenta foram os anos dourados do canibalismo no Cinema dado o grande número de produções na Itália e nos Estados Unidos com esta temática.

Estes filmes podem ser encontrados no YouTube e para assistir abaixo ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

Cito abaixo as produções mais relevantes para a Ficção Científica e o Horror:

  1. No mundo de 2020 (Soylent Green / 1973) 

Se A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells é o primeiro romance de ficção cientifica a tratar do canibalismo, No mundo de 2020 é a primeira distopia a tratar do tema no Cinema. 

Vivendo em um mundo onde a ração Soylent Green é distribuída a população faminta, o policial vivido por Charlton Heston inicia uma investigação sobre a morte de um executivo que o leva a descobrir do que a ração é feita.

2. O massacre da serra elétrica (The Texas Chain Saw Massacre / 1974)

Clássico do Horror, o filme de Tobe Hooper ganhou uma refilmagem em 2013 para celebrar os 40 anos do original. 

O filme introduziu o canibal Leatherface, considerado um dos maiores vilões de todos os tempos e que antecipou outros assassinos de adolescentes nos anos seguintes em filmes como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

3. A montanha dos canibais (La montagna del dio cannibale / 1978)

Trazendo a bela Ursula Andress como protagonista, este filme se insere nas produções do ciclo canibal italiano iniciada em 1972 com The Man from the Deep River e apela para a temática da Literatura de Raças Perdidas como pretexto para cenas de nudez, violência extrema e até zoofilia, por conta da cena de um canibal transando com uma porca!

O canibal no espelho

As últimas décadas do século vinte e o início do século vinte e um forneceram o contexto para uma renovação do canibalismo no Cinema ao subverter a fronteira entre o civilizado e o selvagem, entre o Eu e o Outro. 

A modernidade faz do ser humano um canibal.

Este é o caso dos filmes abaixo. Para assistir aos trailers, basta clicar nas imagens.

1. Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust / 1980)

Ao contrário do que se pode pensar, Bruxa de Blair (1999) não foi o primeiro filme de horror do gênero Found footage e Mockumentary, isto é, produção que simula a descoberta de material de filmagem de um equipe cinematográfica desaparecida durante a realização de pretenso documentário.

Na frente das câmeras, documentaristas idealistas, por trás das câmeras, sádicos urbanos

Este mérito cabe a Holocausto canibal, conhecido como “O filme mais polêmico e controvertido de todos os tempos”.  

Banido de vários países, esta produção italiana levou o diretor Ruggero Deodato aos tribunais por ser acusado de realizar um Snuff Movie, ou seja, um filme em que um assassinato real é realizado para fins lucrativos e de entretenimento.

Na ocasião ele teve de provar que todos os atores estavam vivos e bem.

No filme, a equipe de filmagem agride os indígenas de todas as formas.

O maior impacto de Holocausto canibal foi deslocar a barbárie dos índios canibais para os jovens cineastas, que praticaram todo o tipo de crueldade com os indígenas em busca de um documentário impactante.

A cena da câmera que fica gravando depois da morte do último personagem, foi inventada neste filme.

O resultado foi a vingança dos nativos contra uma nova espécie de monstro: o homem civilizado.

2. O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs / 1991)

Adaptação do segundo romance de 1988 de Thomas Harris, este filme ganhador de vários óscares apresenta no cinema o psiquiatra Hannibal Lecter.

Vencedor de vários prêmios, o filme rendeu o Oscar de Melhor Ator para Sir Anthony Hopkins.

Culto, cortês e elegante, mas também sádico, manipulador e… canibal, Hannibal Lecter é a incorporação do ambiente de fim de século, mostrando que por trás da capa superficial de civilidade do ser urbano existe um monstro pronto a emergir.     

3. Psicopata americano (American phycho / 2000)

Baseado no romance de 1991 de Bret Easton Ellis e adaptado para o cinema em 2000, a obra é ambientada nos anos oitenta e traz como protagonista um Yuppie extremamente competitivo e narcisista.

O filme traz o sempre excelente Christian Bale como o psicopata Patrick Bateman.

Assim como o livro, o filme foi cercado de polêmicas sobre os limites entre a arte e a violência gratuita.

Crítica feroz ao Capitalismo selvagem, Psicopata americano perturba por criticar uma geração que quanto mais tinha menos sentia, quanto mais subia na carreira profissional mais descia na civilidade a ponto de, em uma escalada de violência, se tornar canibal.

4. A estrada (The Road / 2009)

Nesta distopia baseada no romance de 2007 do escritor Cormac McCarthy e premiado com o Pulitzer, pai e filho precisam atravessar uma América pós-Apocalíptica rumo a um local seguro enquanto enfrentam, entre outros perigos, pessoas que aderiram a prática do canibalismo.

Os recentes casos de barbárie e vandalismo presenciados no início de 2017 tanto nos presídios brasileiros por conta da luta entre facções quanto no estado do Espírito Santo em virtude da greve da polícia não deixam duvidas sobre o canibalismo ser uma realidade a se temer quando da decadência da sociedade.  

5. Grave (Raw / 2017)

Justine é uma jovem vegetariana que acaba de ingressar na faculdade de Veterinária seguindo, assim, os passos da família.  

O problema é que, após sofrer um trote no qual precisa comer carne, a menina começa a manifestar impulsos canibais. 

Bullying, distúrbios alimentares, culto ao corpo, relacionamento amoroso nos tempos atuais, tudo passa pela temática do canibalismo neste que promete ser um dos filmes mais polêmicos do ano de 2017.

6. Santa Clarita Diet (2017)

Esta série cômica da Netflix prova que o zumbi ainda pode render boas histórias quando os roteiros ajudam a contar uma boa história.

A série não foca nos motivos que levaram a corretora de imoveis Sheila a ser tornar uma morta-viva, preferindo mostrar as consequências dessa transformação sobre sua família.

Os episódios centram na gradual adaptação da família ao nova condição da mãe e esposa, ao mesmo tempo em que mostra a personagem se sentindo mais viva do que nunca depois que morreu e passou a comer pessoas.

Vale assistir. 

Gostou? Então lembre que o vídeo desta semana do FANTASTICURSOS no YouTube também é sobre Canibalismo. 

Basta clicar aqui.

Então deixe seu comentário ai embaixo e compartilhe este post com seus amigos carnívoros, vegetarianos, veganos e canibais.

Até a próxima semana.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

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Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Todo negro quer ter o cabelo liso; Ou Yes, nós temos Ficção Científica

Imagine um futuro em que, para se casar e ter filhos, você precisasse provar antes, para uma comissão, que geraria alguém sem problemas físicos ou mentais.

“Você deve ter um Certificado Eugênico”.

Imagine um futuro em que a ordem social foi alcançada por meio da esterilização de alcoólatras, pervertidos sexuais e pessoas portadoras de necessidades especiais.

Propaganda da Alemanha Nazista incentivando a Eutanásia mostrando os custos para o pais do tratamento de deficientes mentais.

Imagine um futuro em que os negros, após terem conseguido embranquecer a pele, também ansiassem por terem os cabelos lisos e sedosos.

A propaganda da empresa de cosméticos L’Oréal causou polêmica por embranquecer o tom da pele de Beyoncé.

E se o processo de alisamento dos cabelos escondesse um segredo mortal para a população negra?

Bem vindo ao futuro de O Presidente Negro, ou O Choque das Raças (1926), de Monteiro Lobato. 

Monteiro Lobato foi o Pai da Literatura Infantil Brasileira e ardente defensor do progresso do Brasil.

Se você quer logo saber como a distopia do criador de O Sítio do Pica-Pau Amarelo exemplifica os momentos iniciais da Ficção Científica no Brasil no começo do século vinte, antes de conhecer as raízes da FC brasileira e sua dificuldade de se estabelecer no país, clique aqui

Da Europa a Hollywood

O impacto da Revolução Industrial na Inglaterra do século dezenove, representada, por exemplo, na invenção de máquinas que tiraram o emprego das pessoas no campo e criaram fábricas na cidades, promoveu o ambiente literário para o nascimento da ficção científica, através do romance gótico Frankenstein (1818), da escritora inglesa Mary Shelley.

Já na era vitoriana (1837-1901), a FC se desenvolveu em uma nova vertente romanesca nas “Viagens Extraordinárias” do francês Julio Verne e nos “Romances Científicos” do inglês H. G. Wells.

O francês Julio Verne e o inglês H. G. Wells. Pais da Ficção Científica.

Será nos Estados Unidos da América que, em 1926, o termo “Ficção Científica” será criado pelo editor tcheco naturalizado norte-americano Hugo Gernsback através das revistas pulp como, dentre outras, Amazing Stories e Science Wonder Stories.

A partir da palavra “Scientifiction” surgiu o termo “Science Fiction”.

Alinhado com o momento de avanço tecnológico e interesse pela ciência presente na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte, Hugo Gernsback, ao lado de outros editores e publicações, criaram o ambiente necessário para o desenvolvimento de uma cultura de FC.

Flash Gordon, principal representante dos heróis das Space Operas da FC da época.

Esta base permitiu que temas e ideias fossem criadas, exploradas, reinventadas e disseminadas por escritores e leitores nos anos das décadas de 1920 a 1950, levando a Ficção Científica a se estabelecer na cultura americana e se espalhar para outros veículos, como a TV e o Cinema do país.  

E a Ficção Científica Brasileira?

O Brasil não conheceu uma Pulp Era, como a dos norte-americanos, que ajudou a ficção científica a se estabelecer no mercado.

Uma das causas desse fenômeno, segundo o escritor e crítico Bráulio Tavares, foi o fato de que, diferente do observado na história do nosso país, o papel transformador desempenhado pelo progresso e a tecnologia no processo de formação da sociedade norte-americana permitiu que a ficção científica encontrasse um meio receptivo junto ao grande público daquele país.

A pintura AMERICAN PROGRESS (1872), de John Gast, retrata a importância da educação e do pensamento cientifico no crescimento do país. Por onde o Progresso passa, espalhando a eletricidade e trazendo a locomotiva, as trevas vão se retraindo.

Já para Murilo Garcia Gabrielli, nossa literatura fantástica, e incluo ai a ficção científica, tem seu início no final do século dezenove e começo do vinte via a forte influência da cultura inglesa e francesa na formação da elite literária do país.

Século dezenove: doutores e rainhas

No excelente Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (2003), Roberto de Sousa Causo, defende que a ficção científica começa no Brasil com a obra O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar.

 Visivelmente influenciado pelos romances de Julio Verne, O Doutor Benignus relata uma expedição ao Brasil Central a partir de onde o cientista do título quer provar que o Sol é habitado por criaturas vivas.  

Outra obra precursora do Fantástico brasileiro, tanto da FC na vertente das Utopias literárias quanto da Fantasia, é A Rainha do Ignoto (1899), da cearense Emília Freitas

Inovador na época por ter sido publicado por uma escritora e também por trazer uma mulher como protagonista, o romance mescla utopia e fantasia ao mostrar como a rainha de uma terra encantada habitada exclusivamente por mulheres percorre o Brasil para libertar mulheres de seu sofrimento físico e mental.

O admirável mundo novo da República Velha

Após as experiências isoladas de Augusto Emilio Zaluar e Emília Freitas, a Ficção Científica brasileira começa a ganhar corpo e regularidade ao longo da República Velha (1889-1930) em duas fases com características distintas:

  1. Durante a Belle Époque (1889-1914);
  2. Durante o período entre-guerras mundiais (1914-1930).

O lado feio da Belle Époque

As narrativas de ficção científica se desenvolvem como reflexo dos efeitos reformadores da Belle Époque (1898-1914) sobre as metrópoles brasileiras, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo. 

A Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, foi um marco da obsessiva busca das elites brasileira em se aproximar da França, modelo cultural do período.

Nesse período, em que o sujeito urbano se viu alienado e perdido em meio as profundas transformações da cidade carioca levadas a cabo pelo progresso científico, as narrativas de ficção científica brasileira se manifestaram por meio tanto da Ciência Gótica, quanto da postura artística de fim de século chamada Decadentismo.

Para um melhor entendimento da Ciência Gótica e do Decadentismo, recomendo a leitura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado clicando aqui.

Para Bráulio Tavares, a Ciência Gótica é representada por narrativas que mesclam FC e Gótico de forma que a Ciência é usada em situações bizarras, estranhas e grotescas. Como é o caso de FRANKENSTEIN.

Os escritores Coelho Neto e João do Rio são os principais representantes desta ficção científica dark brasileira. 

Dentre os vários romances e contos filiados ao fantástico, destaque em Coelho Neto para o romance Esfinge (1908), no qual Espiritismo e Ciência Gótica se unem para descrever a angústia existencial de um ser andrógino fabricado pela união de um corpo masculino e rosto feminino. 

Jornalista, escritor e cronista da Belle Époque, João do Rio foi responsável por introduzir a obra do também decadentista Oscar Wilde no Brasil.

Já nos contos e crônicas de João do Rio o que se tem são narrativas decadentistas em que o progresso e a ciência ressaltam as taras e psicoses dos habitantes urbanos.

O lugar ruim do entre-guerras

A partir dos anos da década de 1920, a Ficção Científica brasileira se alinhou com o ambiente de incertezas dominante na Europa e Estados Unidos do período entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Grande Guerra.

Este cenário levou a criação de Distopias literárias que refletiram a busca de soluções para o país por parte de pensadores e intelectuais.

NÓS (1922), de Yevgeny Zamyatin é considerada a primeira distopia moderna e serviu de referência para as distopias 1984 e ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.

No Brasil, as elites enxergaram no povo brasileiro, e mais especificamente, na constituição miscigenada do país, o responsável pelo atraso da nação.

O REINO DE KIATO (1922), de Rodolpho Theophilo, publicado pela editora de Monteiro Lobato.

Esta crença ganhou forma em utopias/distopias literárias como O reino de Kiato (1922), de Rodolpho Theophilo, A Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls, e Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500 (1929), de Adalzira Bittencourt. 

Como elemento em comum, estes romances trazem sociedades cujos problemas sociais foram eliminados pela aplicação do pensamento eugenista, ou seja, da crença da superioridade de uma raça sobre outra e o controle de tipos humanos indesejáveis por meio da ciência.

No Brasil, os indesejados eram o negro, o índio e o caboclo.

Mas, dentre todas as distopias no Brasil da época, nenhuma superou o romance O Presidente Negro, de Monteiro Lobato devido a influencia do seu autor no meio literário e intelectual da época.

O Presidente Negro, ou O Choque das Raças

Lobato achou que o livro venderia milhões nos Estados Unidos, mas os americanos se recusaram a publicar o romance.

Escrito originalmente em 1926 para o rodapé da revista A Manhã, de Mário Rodrigues, O Presidente negro ou O choque das raças (romance americano do ano 2228) se estrutura em dois planos:

No primeiro, o leitor é posto frente à narrativa do protagonista Ayrton, que é resgatado pelo professor Benson em meio aos destroços de um acidente de carro e é convidado pelo idoso a testemunhar os seus experimentos em sua casa enquanto recupera sua saúde.

Já no segundo plano, o romance mostra como, por meio de um aparelho chamado de “Porviroscópio”, Ayrton e Miss Jane, filha do Dr. Benson, conseguem ver os acontecimentos na América do futuro.

Os elementos que levaram O Presidente negro a ser considerado, na expressão de Fausto Cunha, “um precursor indesejável” da ficção científica brasileira, devido ao seu teor elitista, excludente e racista, estão presentes desde o início do enredo, ambientado no período do entre guerras.

Como reforça o Prefácio dos editores da segunda edição, de 1945, 

[…] [o romance] encerra um quadro do que realmente seria o mundo de amanhã, se fosse Lobato o reformador – e em muitos pontos havemos de concordar que sob aparências brincalhonas brilha um pensamento de grande penetração psicológica e social. O conserto do mundo pela eugenia, […]  

As ideias de reforma social de H. G. Wells, pai da FC inglesa, exerceram grande influencia sobre Monteiro Lobato.

Em O Presidente negro esse projeto social lobatiano tem um alvo direto: o negro.

Considerada um entrave ao pleno desenvolvimento dos Estados Unidos da América, a população negra, dentro do romance, passou a ser objeto de uma série de medidas que visavam controlar a sua expansão.

Para isso foi criado um “Ministério da Seleção Artificial” cujo objetivo era aplicar a Lei Owen de 2031, quando a eugenia se tornou política pública e passou a eliminar os impuros, ou seja, as pessoas com deficiência física e mental, criminosos e prostitutas.

No entanto, os negros não apenas sobreviveram como também aumentaram o seu número.

A expatriação dos negros não é um processo viável devido aos altos custos envolvidos na operação. Outro fator agravante na situação dos negros norte-americanos em O Presidente negro foi a despigmentação a que os mesmos se submeteram para eliminar a cor escura, transformando-os em albinos.

Esse procedimento aumentou o ódio dos brancos por igualar negros e brancos em termos de cor de pele, e isso mostra que o racismo se alicerça em bases invisíveis, se alimentando da intolerância em relação ao Outro.

Diante da resposta de Ayrton de que o Brasil foi mais pragmático por promover a miscigenação entre as raças como solução para o desaparecimento dos negros, a cientista retruca:

A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável peora de caráter, conseqüente a todos os cruzamentos entre raças dispares. Caráter racial é uma cristalização que ás lentas se vai operando através dos séculos. O cruzamento perturba essa cristalização (p. 206).

A tensão entre negros e brancos alcança o seu limite na octogésima oitava eleição presidencial norte-americana, que acaba na vitória do candidato negro Jim Roy.

Jim visita o Presidente Kerlog para propor um novo futuro de convivência pacífica entre brancos e negros. Kerlog, porém, surpreende o líder negro:

“Como homem admiro-te, Jim . Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar…” (p. 271).

Os brancos não tardam a agir, mesmo que desafiando a Constituição ao não legitimar o vitorioso de uma eleição livre.

O Presidente Kerlog, no entanto, tem resposta para isso:

“Acima da Constituição vejo o Sangue Ariano. O negro nos desafia. Cumpre-nos aceitar a luva e organizar a guerra” (p. 279).

A resposta para o Presidente negro vem de uma invenção do cientista Dudley.

Contando com a felicidade dos negros norte-americanos por terem eleito um Presidente dos seus e sabendo do desejo dos negros de terem os cabelos lisos, o cientista oferece uma solução para os cabelos crespos da população através da exposição aos raios Omega:

“Vir agora, e assim de chofre, o resto, o cabelo liso e sedoso, a supressão do teimoso estigma de Cam,” (p. 298).

O que os negros não sabiam, porém, era que o aguardado tratamento voltado para alisar-lhes o cabelo tinha como propósito verdadeiro a completa esterilização da raça negra

Após toda a população negra ser submetida ao tratamento, é Kerlog quem avisa ao negro Jim Roy sobe o fim dos seus semelhantes:

“Tua raça morreu, Jim, […] o branco pôs um ponto final no negro da America” (p. 317).

Jim é o único a saber da armadilha dos brancos e se suicida antes de tomar posse.

Para evitar uma revolta, o governo lança uma boneca dançarina que cativa toda a nação e abafa o debate sobre o suicídio de Jim. 

Um nova eleição é realizada e Kerlog é mais uma vez eleito Presidente.

Eventualmente os negros são informados que eles foram incluídos no rol dos indesejados da Lei Owen e, por isso, tiveram de ser eliminados.

Como vivemos em tempos de intolerância ideológica da Direita e da Esquerda, não apenas no Brasil, mas no mundo, penso ser importante enfatizar aos que sugerem que a obra de Monteiro Lobato seja proibida de circular nas escolas por conter elementos racistas que se lembrem que Monteiro Lobato era um homem de seu tempo e, portanto, inserido nas ideias de seu tempo e é sob tal perspectiva que o educador e o eventual detrator de sua obra deve analisá-lo, reconhecendo também seu talento literário na ficção.

Para e Pensa

Por fim, duas questões:

Primeiro, ainda que eu não tenha abordado a história da FC a partir da década de 30 com autores como Berilo Neves e Jerônýmo Monteiro (assunto para outro post), se pode perceber pelo o que foi mostrado aqui que a Ficção Científica brasileira possui uma significativa produção literária de qualidade.

Então a questão é: Por que a FC brasileira não decola para o infinito e além e se estabelece? 

Por que, ao contrário da Fantasia de um Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhoz e do Gótico de um André Vianco, não temos autores e obras relevante da Ficção Científica?

Falta originalidade? Falta o tratamento de temas clássicos por uma perspectiva verde e amarela? Deixe sua opinião

Segundo, destaco a dedicação de escritores e críticos que por mais de trinta anos vem incansavelmente trabalhado para demonstrar a força e valor da FC brasuca.

São eles, dentre outros: Bráulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Marcello Branco e Roberto de Sousa Causo.  

Esta iniciativa também é levada a cabo por blogs variados, dentro os quais destaco:

Fantasticontos

Mensagens do Hiperespaco

Momentum Saga

Gostou?

Deixe seu comentário estelar aí e compartilhe o post com seus amigos terrestres e extraterrestres.

Obrigado e até a semana que vem.

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CARVALHO, J. M. de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DIWAN, Pietra. Eugenia, a biologia como farsa. In: História viva. São Paulo, Edição 49, ano V, p. 76-81, 2007.

FAUSTO, Boris. O pensamento nacionalista autoritário: 1920-1940. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

GABRIELLI, Murilo Garcia. A obstrução ao fantástico como proscrição da incerteza na literatura brasileira. Rio de Janeiro, UERJ, Instituto de Letras, 2004. 157 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

LOBATO, Monteiro. O presidente negro. In: ___. A onda verde e O presidente negro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1966. (Obras completas de Monteiro Lobato – vol 5).

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

SILVA, Alexander Meireles. O admirável mundo novo da república velha. Rio de Janeiro, UFRJ, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Disponível em http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/pos/trabalhos/2008/alexandermeireles_oadmiravel.pdf . Acesso em 16 fev, 2017.

TAVARES, Bráulio. Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

Gostou?

Então deixe o seu comentário e compartilhe com seus amigo visíveis ou invisíveis. 

Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

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O que a Princesa Leia revela sobre as mulheres na Ficção Científica

Quantas vezes você já viu essa cena?: O casal corre de mãos dadas fugindo do perigo que os ameaça. De repente, a bela jovem cai indefesa e aguarda a morte iminente, mas nada tema! O herói retorna rapidamente e resgata a “mocinha”. 

Flash Gordon, um dos primeiros heróis espaciais, resgata a eterna amada Dale Arden.

Gritar, ser capturada, gritar, correr, gritar e ser resgatada. Esse era o percurso das personagens femininas nas revistas e filmes na primeira metade do século vinte em geral e na Ficção Científica (FC) não era diferente .

O que seriam delas sem eles?

Mas quando é que as mocinhas passaram a ficar com equilíbrio maior e cair menos na FC?

E quando passaram a ficar menos dependentes de heróis machões?

A morte da atriz Carrie Fisher no dia 27 de dezembro, vitima ao 60 anos das consequências de um ataque cardíaco, chocou o universo do entretenimento e em particular o mundo do Fantástico pela importância que sua personagem, a Princesa Leia Organa, tem não apenas para os fãs da série Star Wars, mas também para a representação das mulheres na Ficção Científica.

Caso já queira saber as três razões para isso, sem antes conhecer como as mulheres na FC eram gostosas em perigo, clique aqui.

Pins-up em perigo

Pin-up sendo resgatada pela pistola de raios do herói.

“As mulheres na literatura escrita por homens são na maior parte das vezes vistas como ‘outro’, como objetos, de interesse somente na medida em que elas servem aos ou destoam dos objetivos do protagonista homem” (Josephine Donovan)

A observação da crítica Josephine Donovan sobre a representação literária feminina do início do século vinte até os anos da década de 1970 na Literatura ocidental podem ser exemplificadas na Ficção Científica das revistas pulp norte-americanas do período.

A bela dependente do herói. Imagem recorrente nas capas das revistas de FC entre os anos de 1920 a 1950.

Tanto demonizadas quanto subestimadas por escritores e roteiristas homens, as mulheres das histórias de FC ficavam na maior parte das vezes deslocadas no enredo das histórias impressas e nos flimes.

Afinal de contas, as histórias eram sobre aventura, exploração e penetração no desconhecido, combate, e ciência aplicada. Era esperado, portanto, que os papéis principais pertencessem aos homens.

O explorador (homem e branco caucasiano) chega a um planeta hostil habitado por (selvagens e atrasados) alienígenas.

As ilustrações dessas publicações permitiam imaginar tanto o enredo das histórias quanto o forte apelo erótico junto aos adolescentes: existia na maior parte do tempo uma frágil pin-up que, como tal, estava seminua sendo protegida por um herói espacial caucasiano contra um monstro de olhos esbugalhados ou um robô do mal.

Philip Francis Nowlan, criador de Buck Rogers

Edgar Rice Burroughs, criador de John Carter

Escritores e desenhistas tais como Philip Francis Nowlan, Alex RaymondEdgar Rice Burroughs eram especialistas em descrever e criar mulheres sensuais que lutavam contra ou a favor de heróis como Buck Rogers, Brick Bradford, Flash Gordon e John Carter.

Audaciosamente indo onde todo homem já esteve

Durante os anos das décadas de 1960 e 1970 mudanças políticas e sociais ocorreram na Europa e principalmente na América, marcando o aparecimento de um constante e crescente questionamento das instituições sociais e de políticas de governo.

Discussões sobre política, drogas, religião e sexo foram incorporados aos temas da FC aliados com novos experimentos de linguagem e estilo.

Raça e gênero marcam o enredo do premiado romance de FC de Ursula K. Le Guin

Com as mudanças propostas pelo Feminismo, pelos movimentos por direitos civis dos negros americanos, dos homossexuais e dos jovens, escritores tais como Marion Zimmer Bradley, Ursula K. Le Guin, Joanna Russ e Samuel R. Delany, entre outros, debutaram na FC valorizando experiências de raça e gênero e subvertendo as temáticas da FC como viagens no tempo, distopias e aventuras espaciais.

E como as mulheres se viraram no espaço sideral?

De Star Trek…

Foi na Televisão e no Cinema norte-americano dos anos 60 e 70 que se pode encontrar as mais representativas, ainda que tímidas ou ambíguas, tentativas de mostrar as mulheres  na ficção científica como algo mais que “a gostosa em apuros”.

Uhura

Frequências de saudação abertas!

Lançada como uma série televisiva em 1966, Star Trek (ou como também é conhecida no Brasil, Jornada nas Estrelas) trouxe a Tenente Uhura, Oficial-chefe de Comunicações da nave exploratória U.S.S. Enterprise como uma das suas personagens principais.

A personagem vivida pela atriz Nichelle Nichols não foi apenas uma das primeiras mulheres na história da FC a ter um papel de destaque como uma oficial feminina em uma ponte de comando dominada por homens, mas também a primeira negra a ter essa posição. 

I Have a Dream

Este fato levou levou o líder negro Martin Luther King a pedir que Nichelle permanecesse no programa quando ela decidiu abandonar o papel por se achar sub aproveitada na trama. Como King argumentou:

“Você não percebe o quão importante sua presença, seu personagem é? […] Você tem o primeiro papel [negro] não estereotipado na televisão, seja masculino ou feminino. Você quebrou barreiras”. 

Felizmente, Nichelle permaneceu.

Barbarella

Direção de Roger Vadim

Produção franco-italiana de 1968 baseado nos quadrinhos franceses de mesmo nome, o filme trouxe a patrulheira espacial Barbarella, enviada em missão para capturar o criminoso Duran Duran (de onde saiu o nome da conhecida banda dos anos 80).

Misto de ficção científica e comédia erótica, a produção tinha a estonteante Jane Fonda como a personagem do título em diferentes situações eróticas nas quais seu corpo nu era exibido. 

A bela espacial

Barbarella fez de Jane Fonda um dos principais símbolos sexuais dos anos 60 e se por um lado foi mais uma obra de FC que explorou o corpo feminino, por outro inovou o gênero ao trazer uma mulher como protagonista da ação e ciente do poder de sua sensualidade.

… a Star Wars

Princesa rebelde na vida real e na ficção

“Uma das últimas mulheres míticas nas telas dos anos 70”

Assim a escritora e jornalista Jennifer K. Stuller define a princesa Leia Organa no livro Ink-stained Amazons and Cinematic Warriors: Superwomen in Modern Mythology (sem tradução para o Brasil).

A obra analisa a representação feminina nos Quadrinhos, Cinema e Televisão norte-americano.

Stuller se refere ao fato de que o fim dos anos setenta testemunhou o crescimento de um movimento conservador nos Estados Unidos que ameaçou as duras conquistas do movimento feminista na mesma década.

De fato, o que a princesa Leia revela sobre as mulheres na Ficção Científica é a necessidade, por parte das mulheres, de uma contínua vigilância sobre sua própria representatividade na ficção. 

E isso se justifica por três razões presentes na trilogia de Star Wars dos anos 70 e 80:

1. Leia começa como um modelo feminista

 

Leia, Princesa da Disney

Contrariando as expectativas do grande público acostumados com as princesas dos contos de fadas e de sua adaptações animadas pelos estúdios Disney, a Princesa Leia Organa em Star Wars IV: Uma nova esperança (1977) tem personalidade para se colocar em pé de igualdade com os homens do enredo, sem depender de um príncipe encantado para protegê-la. 

A mulher encara Darth Vader. Precisa de mais?

Ela empunha a arma (símbolo fálico do poder masculino) e exerce sua força pelo poder da liderança e não pelo uso de trajes sedutores. 

Vestida para matar

Comprometida e racional, foge do estereótipo de que mulheres são guiadas por sentimentos ao não revelar a localização da base rebelde, mesmo sob ameaça de destruição do seu planeta natal, Alderaan.

Além de Princesa, Leia também era líder militar, se mostrando uma estrategista hábil e eficiente.

Leia organizando as ações rebeldes no planeta Hoth.

2. Leia se torna interesse romântico

Love Story

A evolução de Leia Organa se alinha com os próprios desafios do Feminismo no fim dos ano 70 e início dos 80, principalmente pela criação e disseminação por parte da mídia da época do mito da super mulher.

Assobia e chupa cana ao mesmo tempo

Como explica Jennifer K. Stuller, esta ideia tinha o propósito de fazer com que as mulheres acreditassem que o que elas realmente desejavam era cobrir de forma satisfatória todos os aspectos de sua vida: carreira profissional, maternidade, sexualidade, matrimônio e cuidados com a casa e que o Feminismo estava errado ao não aceitar esta possibilidade.

Ronald Reagan governou os Estado Unidos em dois mandatos na década de 1980

Como se refletisse este avanço do pensamento conservador nos anos 80, exemplificado na vida real pelo governo do Presidente Ronald ReaganStar Wars V, muito apropriadamente chamado de O Império Contra-Ataca (1981), mostra o gradual processo de transformação da arredia e espirituosa princesa Leia em par romântico do personagem Han Solo, vivido pelo ator Harrison Ford. 

Esta suavização da personagem fica mais evidente quando descobre-se que há uma conexão entre Leia e o protagonista Luke Skywalker.

Todavia, enquanto o roteiro foca no treinamento de Luke e aprendizado de sua potencialidade como Jedi, Leia tem seu espaço de atuação no filme vinculado ao desenrolar de sua relação com Han Solo, culminando na sua declaração de amor ao herói.

Dentro da ideia da “super mulher”, Leia pode ser rebelde e também par romântico. Por que não?

3.  Leia termina como Pin-up e amiga de bichinhos

Sonho dos adolescentes nos anos 80

Líder rebelde no primeiro filme e par romântico no segundo. 

Quando Star Wars VI: O retorno de Jedi (1983) se inicia vemos que Luke Skywalker já está familiarizado com os segredos dos Jedi enquanto que Leia está empenhada em salvar seu amado Han Solo das garras de Jabba, o Hut.

Capturada por Jabba, Leia se torna sua escrava sexual e assume sua vestimenta Pin-up para a satisfação de Jabba (e da platéia adolescente do período). 

Leia e seu biquíni de metal

Eventualmente  o público descobre que Leia e Luke são irmãos e que ela também tem a conexão com a Força, mas em nenhum momento do filme este fator é explorado ou desenvolvido.

De fato, a medida em que a trilogia Star Wars avança ao longo da década de 70 e 80, percebe-se que, se no primeiro filme Leia começa empoderada e Luke se mostra um jovem frágil, no terceiro temos uma inversão de papeis e Luke se torna um confiante homem enquanto Leia se torna a namoradinha de Han Solo e, assumindo um visual mais “feminino” fica cercada por criatura fofas como os Ewoks, algo que remete as princesas dos contos de fadas cercadas por pequenos animais.

Só falta cantar

O que a Princesa Leia mostra afinal de contas sobre as mulheres na Ficção Científica é que as tentativas de mudanças na representação de personagens femininas dentro da vertente da Ficção Científica sofrem uma pressão ideológica masculina contrária que trabalha para enquadrar a mulher dentro dos estereótipos do imaginário masculino.

Cabe a sociedade como um todo a vigilância quanto a este discurso limitador e a luta para uma sociedade mais igualitária, fazendo valer, desta forma, a luta da rebelde princesa Leia iniciada há 40 anos e hoje continuada nas empoderadas Rey e Jyn Erso.

 

Fontes utilizadas

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

DONOVAN, Josephine. Beyond the net: Feminist criticism as a moral criticism. In: ___. (ed.). Feminist Literary Criticism: explorations in Theory. Kentuchy: Lexington, 1975. p. 221-225

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

STULLER, Jennifer K. Ink-stained Amazons and Cinematic Warriors: Superwomen in Modern Mythology. New York: I.B. Tauris, 2010.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

  

 

WESTWORLD: robôs, androides, ciborgues ou autômatos?

Lançada em 2016 pelo canal norte-americano HBO na ambiciosa posição de sucessora de Game of Thrones, a série Westworld vem recebendo elogios de público e crítica pelos episódios sobre a relação homem X robô e, dentre outros temas, a discussão da liberdade (ou falta) de escolha na tomada de decisões dos envolvidos.  

O sucesso da série, todavia, não é resultado apenas dos roteiristas, mas sim de todo um passado literário envolvendo seres artificiais  que podem ser traçados da mitologia grega até os dias de hoje.  

Sobre gigantes, cavaleiros e escritores: os antepassados dos robôs

Talos

Como quase tudo relacionado ao Fantástico no Ocidente, é na Grécia antiga que se encontra as primeiras menções a serem artificiais criados com o propósito de auxiliar o homem com seus afazeres.

Hefesto era o construtor dos deuses e foi o responsável pela fabricação dos raios utilizados por Zeus

Segundo a mitologia grega, foi o deus Hefesto (o Vesúvio dos Romanos) o responsável pela criação do primeiro ser artificial: o gigante Talos.

Hefesto criou Talos para proteger a ilha de Creta, algo que ele fazia se colocando na entrada da cidade grega como se pode ver acima no filme Jasão e os Argonautas (1963).

O gigante de bronze possuía uma artéria interna que percorria todo o seu corpo metálico através da qual fluía o Ichor, o misterioso fluido da vida que lhe concedia vida e que também estava presente no sangue dos deuses gregos. 

Sendo estruturado como uma criação que possuía elementos orgânicos (Ichor) e não-orgânicos (corpo metálico), Talos foi um antepassado de projetos de hoje que buscam mesclar componentes vivos e artificiais e que deram origem no ano de 1960 a palavra Ciborgue (“Cybernetic organism”).

Assim sendo, o gigante de bronze Talos não foi apenas o primeiro ser mecânico que poderia ser chamado de robô, mas também foi o primeiro ciborgue da história ocidental, sendo seguido séculos depois por outros representantes do tipo, como os Borg (Star Trek), Robocop, Exterminador e o super-herói Cyborg.

O cavaleiro mecânico de Leonardo da Vinci

Antes da criação da palavra “Robô” em 1921, todos os engenhos com aparência de ser humano ou de outros animais que reproduzissem movimentos por meios mecânicos ou eletrônicos eram chamados de autômatos.

Só podia ser Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci pode ser considerado um dos pioneiros da Robótica em fins do século quinze com suas idéias sobre um cavaleiro alemão automatizado

A ideia inicial de Leonardo da Vinci

O gênio renascentista deixou vários estudos em desenho para uma estrutura que seria inserida em uma armadura medieval e que seria movimentada por meio de manivelas e cabos.  

Também conhecido como “Soldado Robô” ou “Robô de Leonardo”, estas anotações foram redescobertas no século vinte e finalizadas em 2002 por Mark Rosheim.

O autômato de Leonardo da Vinci se mostrou funcional e podia sentar, ficar de pé, virar a cabeça, cruzar os braços e até levantar o visor. 

A efetivação do projeto em 2002 atestou ainda mais a genialidade do mestre renascentista

O Escritor e Frankenstein

Como se define a vida?

 Produzidos entre 1768 e 1774 como meio de propaganda para a venda de seus relógios, os três autômatos do relojoeiro suíço Pierre Jaquet-Droz correram a Europa fascinado plateias em todas as suas apresentações.

Compostos  por “O Escritor”, “A Música” e “O Desenhista” e inseridos no contexto do século dezoito de valorização da Ciência em detrimento da Religião, as criações de Jaquet-Droz eram tão sofisticadas que levantaram debates sobre o principio da vida e a definição de humano.

Segundo estudiosos, uma jovem inglesa de nome Mary Shelley teria assistido a uma das apresentações do autômato Escritor e se impressionado com a aparência de vida da criação de Jaquet-Droz.

Quanta imaginação tinha essa menina!

Anos mais tarde, ela mesmo criaria a obra definitiva sobre a tentativa do ser humano em criar vida artificial: Frankenstein (1818).  

De autômatos a replicantes: O robô literário

Além de Frankenstein, os autômatos de Pierre Jaquet-Droz também exerceram influencia em outras obras fantásticas do século dezenove, mostrando que, a partir dali e ao longo do século vinte, fantasmas e vampiros passariam a dividir a atenção dos leitores com os produtos da Ciência e do progresso.   

Dentre diversos romances, contos, peças teatrais e filmes, destaque para:

A Eva futura (1886), de Auguste Villiers de l’Isle-Adam

Romance francês que trouxe para a Literatura o termo “Androide”.

Formado pela junção do grego Andro (Homem) e o sufixo oid (tendo a forma ou semelhança de), a palavra “Androide” surgiu na enciclopédia Cyclopædia (1728), de Ephraim Chambers.   

Androides são seres artificiais fabricados para terem o comportamento e a aparência física externa semelhante a dos humanos

Androide #18. Bonita e poderosa.

Curiosamente, o androide da obra de Auguste Villiers de l’Isle-Adam é feminino e se chama Hadaly. Isto quer dizer que, na verdade, ela é uma Ginoide, do grego Gyné (Mulher) e o sufixo oid. 

Esta palavra surgiu no romance Divine Endurance (1985), de Gwyneyth Jones

“Gynoid”. Uma tentativa de se contemplar a questão dos gêneros na literatura de robôs.

Outros termos usados para designar androides femininos, são Fembot e Feminoide. Todavia, “Androide” é normalmente o termo escolhido para ambos os sexos.

É importante destacar que se Hadaly foi a primeira ginoide na Literatura, a posição de primeira autômata pertence a Olympia, da obra O homem de areia (1817), de E. T. A. Hoffmann.  

Olympia na Ópera Les Contes d’Hoffmann (2010)

“O feitiço e o feiticeiro” (1894), de Ambrose Bierce

“O Rei morreu e você também!”

Jogador de xadrez autômato se revolta contra seu criador e o mata após levar um Xeque-Mate. 

É um dos primeiros contos em Língua Inglesa a trazer a descrição de um autômato.

A fábrica de robôs (1920), de Karel Capek

Um cena da peça mostrando três robôs.

Nesta peça teatral a palavra “Robô” surgiu.

Foi o escritor e pintor Joseph Capek, irmão de Karel Capek, que sugeriu o uso da palavra tcheca robota (“servidão”, “trabalho forçado”) para dar nome aos produtos da fábrica R.U.R. (Rossum’s Universal Robots).

Ironicamente, mesmo aqui na obra que as batizou, as criações mostradas não se encaixam na visão popular de robôs da Ficção Científica como um agrupamento de partes mecânicas e eletrônicas.

Robby, um dos mais famosos robô da FC, destaque do filme O Planeta Proibido (1956).

Sendo produzidos de forma biotecnológica a partir da descoberta de um composto orgânico, os robôs de Capek se enquadram melhor na categoria de Androides

De fato, baseado nos episódios da primeira temporada de Westworld, podemos observar semelhança entre os robôs da obra de Capek e os Anfitriões da série no que se refere a sua fisiologia artificial.

Assim sendo, pode ser dito que os robôs de Westworld, apesar do nome, são na verdade androides.

A principal contribuição da peça de Karel Capek é a introdução do debate tanto sobre a exploração dos robôs pelo ser humano, resultando na rebelião do primeiro, quanto sobre a desumanização do homem diante da tecnologia. 

Metropolis (1927), direção de Fritz Lang

Se o primeiro androide na Literatura foi na verdade a ginoide Hadaly, o mesmo ocorreu com o primeiro androide no Cinema: Maria

Considerado por críticos em geral o primeiro filme de Ficção Científica, a ginoide Maria serviu de base para a criação de C-3PO, da saga Star Wars.

 Eu, Robô (1950), de Isaac Asimov

Nesta coletânea de nove contos Asimov apresenta as bases de sua História de robôs.

Listado entre as obras mais importantes do século vinte, o livro de Isaac Asimov trouxe uma nova abordagem para os robôs, afastando-os da imagem de seres ameaçadores e malignos veiculadas nas revistas de ficção científica das primeiras décadas do século vinte.

Destrua todos os humanos!

O robô de Asimov, este sim um ser metálico como a cultura pop costuma representar, tem sua existência regulada pelas chamadas Três Leis da Robótica, princípios que ultrapassaram o campo da Literatura e ainda servem de base para os estudos dos robôs atuais.

Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick

Publicação da Editora Aleph

Clássico cyberpunk de Philip K. Dick, apresenta o termo pejorativo Andys para se referir aos androides perseguidos pelo caçador de recompensas Rick Deckard.

Na adaptação para o Cinema, em 1982, o diretor Ridley Scott adotou o termo “Replicante” para reiterar a capacidade dos androides em replicar a natureza humana, levando os caçadores a aplicar um teste para identificá-los enquanto seres artificiais.   

O filme não teve bom desempenho de público e crítica nos anos oitenta, mas se tornou um clássico cult com o passar dos anos.

O romance se alinha com o efervescente contexto politico-cultural dos anos de 1960 nos Estados Unidos e traz temas recorrentes do autor, como o debate sobre os limites entre o real e o virtual, o impacto da tecnologia na relação do ser humano com seu meio, e o questionamento sobre as definições de humano. 

Gostou?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos cibernéticos.

Fontes utilizadas

ASIMOV, Isaac, GREENBERG, Martin H., WARRICK, Patricia S. (Ed.). Máquinas que pensam: Obras primas da ficção científica. Porto Alegre: L&PM Editores,1985.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

Escrito por Alexander Meireles da Silva

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BLACK MIRROR: Por que você se incomoda tanto?

A série de ficção científica Black Mirror vem despertando comentários variados do público e uma sensação de incômodo pelas possibilidades (ou ameaças?) evocadas em seus episódios. Mas por que você se incomoda tanto?  

Bem vindo ao lado negro

Pra começo de conversa, o que é o “black mirror”?

Smartphones, tablets, notebooks, televisores, computadores… todos eles possuem uma tela negra capaz de refletir coisas ou pessoas (muitas mulheres usam para dar aquela checada básica no look), mas o que a série propõe é levar o expectador a refletir o que exatamente este “espelho negro” reflete, não tanto da aparência física da pessoa, mas de sua alma e, indiretamente, do mundo ao seu redor.

E o reflexo fica cada vez mais perturbador.

Black Mirror e outros espelhos

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As promessas da tecnologia para o início do século 20

Como você já descobriu com Black Mirror, a Ficção Científica (FC) não tem como propósito principal celebrar os avanços da Ciência e da tecnologia, como na imagem acima, mas sim promover uma crítica sobre os efeitos destes avanços na sociedade e no individuo.

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A representação da criatura de Frankenstein no filme FRANKENSTEIN (1931).

Isso vem desde o nascimento do gênero com Frankenstein (1818), da inglesa Mary Shelley.

Em 1816, quando teve a ideia do livro, ela era uma jovem de 19 anos que, assim como os que assistem Black Mirror hoje, também tinha sua cabeça explodida pelas várias inovações científicas da época. 

No caso de Frankenstein, a história do jovem cientista que se deixa seduzir pelo poder de criar a vida por meios artificiais, Shelley queria criticar os avanços da Revolução Industrial na Inglaterra do início do século 19, alertando que os produtos da Ciência e da tecnologia poderiam se voltar contra o ser humano.

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Distopia Fahrenheit 451

Mais de um século depois do romance de Mary Shelley, e de várias outras obras de FC questionando o uso dado a tecnologia, o norte-americano Ray Bradbury publicou a distopia Fahrenheit 451 (1953).

Neste romance, que se passa em uma América do futuro, os bombeiros queimam livros como parte da política do sistema opressor de fazer com que as pessoas fiquem alienadas em frente a aparelhos de televisão.

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Cena do filme FAHRENHEIT 451 (1966), direção François Truffault.

Importante destacar que quando Ray Bradbury escreveu sua distopia a televisão ainda era uma novidade tecnológica nos lares americanos, mas ele percebeu que em pouco tempo aquele produto se tornaria o centro das atenções nas casas.

Não deu outra. Com a TV as famílias passaram a interagir menos, para ficarem hipnotizadas em frente aquele primeiro espelho negro.  

Pelo menos até a chegada da internet e de Black Mirror.  

4 motivos pelos quais você se incomoda com Black Mirror

Nosedive
“Queda livre” (1° episódio da 3° temporada )

1. Você não é feliz

Já teve a impressão que todo mundo no Facebook, no Instagram e no Snapchat é feliz? Todos viajam, todos estão amando e sendo amados, todos estão comprando coisas novas, mas e você? 

Pesquisa da Universidade do Missouri e publicado na edição de fevereiro de 2015 da revista Computer in Human Behavior mostra que as centenas de “Likes” e “Compartilhamentos” de usuários do Facebook podem provocar não apenas inveja, mas também desencadear um processo de depressão em algumas pessoas.

Semelhante ao episódio “Queda livre” (Episódio 1 da 3° temporada), em que sua posição social depende da avaliação de outros cidadãos, as redes sociais acabam fomentando a perpetuação de uma “Cultura da Felicidade” em que as pessoas  precisam mostrar (ou fingir?) que são felizes para não se sentirem marginalizados dentro de seus grupos. A pressão sobre os jovens é maior.

Isso pode explicar o resultado de outra pesquisa, a das universidades de San Diego, California e Florida Atlantic de que jovens com menos de 30 anos se declaram mais felizes do que as pessoas de outras faixas etárias.  

2. Você é falso

Black Mirror
“Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada)

Você é um Hater? Você aproveita o sigilo da internet para insultar e destilar preconceitos? Ou simplesmente falar mal de outras pessoas? O que aconteceria se, semelhante ao protagonista do episódio “Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada), você fosse pego?

Mas e na vida real? Você tem coragem de dizer tudo o que escreveu por trás de um avatar?

O anonimato da rede incentiva o surgimento de uma persona diferente da real, caracterizada pela:

  1. Ausência da individualidade em favor da adoção do comportamento do grupo virtual ao qual a pessoa pertence. O que Michel Maffesoli chama em Tempo das tribos (1998) de “Tribalismo pós-moderno”;
  2. Surgimento de uma máscara virtual governada pelo Id, ou seja, sem controle pela moral e normas sociais e tomada pelos impulsos e desejos. Escreve o que quer contra tudo e todos sem se preocupar com repreensões reais ao seu Eu real por parte de grupos atingidos. 

O incômodo que Black Mirror causa é que a internet pode não vir a ser tão segura para sua segunda identidade quanto você pensa.

O que pensariam os seus pais e amigos se descobrissem quem você é?  

3. Você sabe que Black Mirror vai se tornar realidade (ou já é?)

É perceptível o aprofundamento da questão da tecnologia na terceira temporada da série, lançada em 2016, em relação a primeira, de 2011.

Isso se deve ao ritmo de criação e disseminação de novas tecnologias dentro do espaço que separa 2011 de 2016.

O Instagram e Snapchat, por exemplo, foram lançados respectivamente em 2010 e 2011 e hoje aparecem como rivais do Facebook, criado em 2004.

Isso mostra que a inquietação que você sente com o mundo de Black Mirror pode ser uma percepção de que, quando você menos esperar, ele se tornará real. Não é uma questão de SE, mas de QUANDO.

  1. Aplicativo que permite a você avaliar serviços e atendimento, influenciando na vida profissional da pessoa, como em “Queda livre”?  Uber. Além disso, o Governo da China vem estudando a implantação de um crédito social nos mesmos moldes do episódio da série.
  2. Transferir a consciência humana para as nuvens de informação, como em “San Junipero” (4° episódio da 3° temporada)? O cientista e engenheiro do Google Ray Kurzweil prevê essa possibilidade para 2045.
  3. Realidade alterada pela tecnologia, como em “Engenharia reversa” (5° episódio da 3° temporada)? Face Swap do Snapchat.
  4. Realidade aumentada, como em “Versão de testes” (2° episódio da 3° temporada)? Pokémon Go 

É só esperar pelos demais

4. Você não sabe como (e se quer) se opor ao mundo de Black Mirror

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“Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada)

Comentários no YouTube sobre a série descrevem pessoas que tiveram pesadelos, passaram mal, choraram ou mesmo vomitaram por causa de alguns episódios.

Outros disseram que pensaram em apagar contas no Facebook e Snapchat. E por que não o fizeram?

O fato é as redes sociais servem como um alivio para a realidade cotidiana de todos.

Por isso você continua pedalando sua bicicleta que alimenta a sociedade da informação de hoje e recebe como recompensa pequenos e constantes consolos, utensílios e implementos. Você confia que eles permitirão a você expressar sua individualidade, mostrar seu talento, quando na realidade (que você não quer reconhecer) irá apenas alimentar o coletivo.

Episódios como “Hino nacional” (1° episódio da 1° temporada), “Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada), “Toda a sua história” (3° episódio da 1° temporada)  e “Queda livre” refletem essa dependência que o ser humano cibernético de hoje tem da tecnologia. 

Somos Victor Frankenstein e seu monstro em um único ser.

Talvez, no fundo (ou nem tão fundo assim) o incômodo de Black Mirror é uma espécie de desejo pela promessa de tecnologia da série, pois afinal de contas, as inovações tecnológicas não são boas ou más, depende apenas de quem usa. E você quer confiar nisso que está lendo. 

Já que o assunto é esse, alimente o sistema comentando seus episódios favoritos e o que impressionou você nesta série.

E compartilhe. 

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Escrito por Alexander Meireles da Silva

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Como você pode sobreviver a Distopia de Donald Trump

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Tem jeito não: Donald Trump é o 45° Presidente dos Estados Unidos da América.

E agora? Como sobreviver a Era Donald Trump? O que ela pode representar para o Fantástico?

A eleição de Trump traz a mente outro momento em que o mundo deu uma guinada para a direita com as eleições da Primeira-Ministra Margaret Thatcher na Inglaterra em 1979 e do Presidente Ronald Reagan nos EUA em 1981.

Estes dois eventos representaram o início de uma ideologia conservadora que se estenderia por toda a década de oitenta do século passado, motivando a criação de obras e produções vinculadas ao Fantástico na Literatura, Cinema e Quadrinhos, principalmente na forma das distopias.

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Na Inglaterra de 1982 e 1983, por exemplo, Alan Moore publicou na revista britânica Warrior sua crítica ao governo da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher na forma de V de Vingança, que seria depois finalizada em 1988 dentro do selo Vertigo da DC Comics

O lado negro do sonho

É interessante destacar aqui como outros termos para a palavra “Distopia”, tais como “Utopias negativa”, “Contra-utopia” e “Utopia devolucionária” reforçam a estreita relação entre as distopias e as utopias, e isso não é a toa. Afinal de contas, dependendo de qual lado você está, o sonho para uns é o pesadelo para outros.

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A sombra da distopia já estava presente, na verdade, desde o primeiro projeto utópico do Ocidente: A República (380 a. C), de Platão, visto que para o filosofo grego poetas e artistas em geral deveriam ser banidos por não considerarem a razão como seu guia de vida.

Ao longo dos séculos, a medida em que a Ciência avançou e, por tabela, o Racionalismo, as utopias deixaram transparecer cada vez mais suas contradições distópicas.  

Novas distopias, velhos pesadelos

 

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A distopia moderna nasce no início do século vinte na hoje extinta União Soviética por meio de um romance novamente escrito sob o temor da ameaça as liberdades individuais e conquistas sociais: Nós (1922), de Yevgeny Zamiatin.  

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Muito pouco lido atualmente, esta obra exerceu influencia direta sobre 1984 (1949), de George Orwell e Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, dois romances que ainda hoje são referências para outras produções do gênero.

Se você assistiu a Matrix (1999), por exemplo, saiba que a ideia de seres humanos fabricados em tubos de ensaio saiu do livro de Huxley, como mostra a imagem acima.

    

No Cinema, a Distopia tem sua origem no filme alemão Metropólis (1927), dirigida por Fritz Lang, estabelecendo muito da fotografia usada em outras produções cinematográficas sobre o tema, principalmente durante o mandato da presidência de Ronald Reagan de 1981 a 1989. 

É uma distopia se…

  • A história já começa dentro da realidade distópica (narrativa em media res);
  • A história é ambientada no futuro;
  • O(s) orgão(s) de controle se apoia(m) em um discurso que privilegia a razão em detrimento da emoção ou da imaginação;
  • Inicialmente o protagonista não tem consciência ou se aliena de sua condição de oprimido;
  • As instituições de poder controlam os meios de comunicação omitindo ou manipulando informações;
  • Há um incetivo a atividades coletivas por meio de esportes, rituais e celebrações enquanto que ações individuais, como a leitura, são marginalizadas;
  • O protagonista desperta de sua condição de alienado a partir do contato e interesse com alguém do sexo oposto;
  • Há a presença de um representante da ordem dominante que explica ao protagonista como o mundo se tornou uma distopia;

Distopias do século XX com ameaças do século XXI

Durante os anos Reagan as políticas adotadas encontraram reflexo em diversas publicações e produções distópicas da época. Cito abaixo apenas um exemplo de cada na Literatura, no Cinema e nas Histórias em Quadrinhos:

Literatura

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A História da Aia (1985), de Margaret Atwood

O romance da canadense Margaret Atwood situa-se em um futuro especulativo onde os assassinatos do Presidente e de congressistas americanos atribuídos a terroristas muçulmanos resultaram na dissolução dos Estados Unidos da América e na implantação de um Estado totalitário por militares cristãos fundamentalistas. Ou seja, é o perfil e muitos dos eleitores republicanos que votaram em Trump.

Nesta distopia as guerras quimicas, abortos e o uso indiscriminado de medicamentos levaram a maioria das mulheres a se tornarem inferteis ou gerarem crianças com malformações. Por conta disso, as que ainda são supostamente férteis e são solteiras, viúvas, divorciadas e provenientes de casamentos não legalizados foram aprisionadas pelo novo governo para exercerem a única função social de gerarem crianças saudáveis para a sociedade. 

Considerando a visão de Donald Trump sobre as mulheres… fica a dica.

Cinema

sobrevivente

O sobrevivente (1987), direção de Paul Michael Glaser 

Falar de distopia no Cinema norte-americano dos anos oitenta é falar de Blade Runner (1982), clássico cult do diretor Ridley Scott baseado no romance Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), do escritor Philip K. Dick. 

Mas, como Donald Trump será com certeza um presidente midiático, indico uma distopia com Arnold Schwarzenegger, e que não é O Exterminador do Futuro (1984).

O Sobrevivente é baseado no romance O concorrente (1982), de Stephen King e  mostra como no ano de 2017 (profecia?), os Estados Unidos estarão sob o comando de um governo totalitário que retirou a liberdade individual de toda a população. Livros são queimados e instituições de ensino são fechadas.

A única diversão do povo é a TV, e o programa mais popular é um reality show  em que sobreviver é a única recompensa. Neste cenário um homem é culpado de um crime que não cometeu e sua sentença é para a cadeia ou entrar para o jogo. 

Imagine uma mistura de Jogos Vorazes com Schwarzenegger e o resultado é O sobrevivente

Histórias em quadrinhos

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O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller 

Esta graphic novel, que ao lado de Watchmen (1986), de Alan Moore redefiniu o gênero de histórias em quadrinhos de super-heróis, mostra um Batman amargo e envelhecido que anos depois de ter abandonado a carreira de vigilante mascarado decide retornar ao combate ao crime em meio a uma decadente Gotham City do futuro tomada pela violência e a alienação da mídia.

Indico esta obra pela ácida crítica de Frank Miller a sociedade americana e a alienação da Mídia, tendo como pano de fundo a política de governo dos anos Reagan. Ou seja, a mesma coisa a se esperar de Donald Trump.

E agora?

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Lendo e assistindo as sugestões aqui de livros, filmes e quadrinhos você não será pego de surpresa pelas possíveis ações do novo Presidente dos Estados Unidos pelos próximos quatro anos.

Considerando a influencia norte-americana sobre a cultura e a disseminação de um pensamento de direita pelo mundo, especulo que nos próximos anos veremos uma nova onda de obras distópicas mais tradicionais, com tom mais sério que distopias adolescentes como Divergente e Jogos Vorazes e com foco no poder da mídia (algo que já se pode ver na série Black Mirror), além do questionamento de conquistas sociais de grupos minoritários.    

É esperar pra ver, mas espero que não!

Que livros, filmes e quadrinhos as promessas de governo de Donald Trump te lembra?

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Escritor por: Alexander Meireles da Silva

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