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Você gosta de STAR WARS e GUARDIÕES DAS GALÁXIAS? Então você curte Space Operas

A SciFi que todo mundo lembra

No momento em que escrevo este post Guardiões das Galáxias 2 está nos Cinemas de todo o mundo com a promessa de não apenas oferecer mais diversão do que no primeiro filme, mas também, indiretamente, de continuar perpetuando as Space Operas como a mais popular expressão da Ficção Científica no Cinema.

Mas que diabos é uma Space Opera

A cotovia do espaço

As Space Operas estão intimamente relacionadas ao início da Ficção Científica na América nas primeiras décadas do século 20.

De fato, o próprio nome Science Fiction, ainda na forma primária da palavra scientifiction, surge pela primeira vez na edição de abril de 1926 da revista Amazing Stories em um comentário do editor Hugo Gernsback sobre o romance A cotovia do espaço (The Skylark of Space), de E. E. Smith.

Antes de A cotovia do espaço já haviam histórias de ficção científica centradas em aventuras espaciais, mas foi a partir da obra de E. E. Smith que temos reunidos três elementos característicos das Space Operas:  

  1. Um herói inventor e aventureiro;
  2. Gadgets tecnológicos utilizados pelo herói e o vilão;
  3. Ambientação no espaço;
  4. Escala

É justamente a escala cósmica a principal contribuição de A cotovia do espaço para a criação das space operas e suas narrativas passadas em universos complexos formados por sistemas planetários habitados por raças variadas nos quais o protagonista adentra para resolver conflitos diversos.  

Pense em Star Wars, Guardiões da Galáxia, O quinto elemento ou Valerian e você terá uma exata noção de uma Space Opera.

As histórias de sabão

De Flash Gordon a Star Wars, de Buck Rogers a Guardiões das Galáxias as operas espaciais tem seu nome ligado a quando o Rádio era o principal veículo de comunicação dos Estados Unidos no começo do século vinte.

Nesta época os seriados radiofônicos diários, equivalentes as novelas televisivas de hoje, tinham nas companhias fabricantes de sabão (soap) da América os seus principais patrocinadores.

Logo, as histórias patrocinadas por marcas deste produto receberam o apelido de Soap Operas, algo traduzido como “Histórias do sabão”.

O termo se generalizou para designar qualquer história dramática de longa duração ou dimensão para os lares americanos. Assim surgiram as Horse Operas, para identificar as histórias de faroeste e, em 1941, o escritor e editor Wilson Tucker criou o termo Space Opera

O lado negro das Space Operas

Se alguém perguntar a uma pessoa comum sobre o que é Ficção Científica, dificilmente a resposta não será algo sobre “histórias com presenças de naves espaciais, extraterrestres e armas de raio”.

O QUINTO ELEMENTO (1997), exemplifica bem o lado divertido das Space Operas

Este fato atesta a força das operas espaciais na historia da FC revelando dois lados desta realidade:

Por um lado, esta vertente da Ficção Científica ajudou a popularizar esta expressão do Fantástico para o grande público pelas histórias repletas de ação, cenários coloridos e roteiros simples.

Esta situação se manteve de forma dominante na Literatura de FC até a década de 50 do século vinte, e continua a ser uma forte tendência no Cinema até hoje.

MERCENÁRIOS DAS GALAXIAS (1980), clássico das Sessões da Tarde.

Do outro lado, porém, as Space Operas foram as grandes responsáveis por criar a falsa noção de que a Ficção Científica em geral é voltada para um público juvenil ou para pessoas que buscam uma forma de escape da realidade.

A partir dos anos 60, com o chamado movimento New Wave,  a Literatura de Ficção Científica passou  a incorporar temas ligados as Ciências Humanas e Sociais, como a Linguística, a Psicologia, a História e a Antropologia, fomentando assim obras também no Cinema que vem proporcionando reflexões sobre a sociedade contemporânea.

A CHEGADA (2016) mostra que a FC pode ser inteligente sem deixar de ser atraente para o grande público

São nas superproduções do Cinema norte-americano que as Space Operas encontram seu refugio para continuarem a promover, junto ao público, a crença de que a FC pode ser resumida aos mesmos temas e imagens encontrados nas publicações das revistas pulp de até meados do século vinte. 

Assim, se você quer ler ou assistir a uma obra de Ficção Científica sem questionamentos filosóficos ou complexidade de roteiro, então embarque na nave espacial mais próxima rumo ao planeta das operas espaciais.

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Fontes utilizadas

CARNEIRO, André. Introdução ao estudo da “science fiction”. Brasópolis: /s.n./, 1997.

FIKER, Raul. Ficção científica – ficção, ciência ou uma épica da época?; Coleção universidade livre. Porto Alegre: L&PM, 1985.

ROBERTS, Adam. Science fiction: The New Critical Idiom. London: Routledge, 2000.

SCHOEREDER, Gilberto. Ficção científica. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

 

Todo negro quer ter o cabelo liso; Ou Yes, nós temos Ficção Científica

Imagine um futuro em que, para se casar e ter filhos, você precisasse provar antes, para uma comissão, que geraria alguém sem problemas físicos ou mentais.

“Você deve ter um Certificado Eugênico”.

Imagine um futuro em que a ordem social foi alcançada por meio da esterilização de alcoólatras, pervertidos sexuais e pessoas portadoras de necessidades especiais.

Propaganda da Alemanha Nazista incentivando a Eutanásia mostrando os custos para o pais do tratamento de deficientes mentais.

Imagine um futuro em que os negros, após terem conseguido embranquecer a pele, também ansiassem por terem os cabelos lisos e sedosos.

A propaganda da empresa de cosméticos L’Oréal causou polêmica por embranquecer o tom da pele de Beyoncé.

E se o processo de alisamento dos cabelos escondesse um segredo mortal para a população negra?

Bem vindo ao futuro de O Presidente Negro, ou O Choque das Raças (1926), de Monteiro Lobato. 

Monteiro Lobato foi o Pai da Literatura Infantil Brasileira e ardente defensor do progresso do Brasil.

Se você quer logo saber como a distopia do criador de O Sítio do Pica-Pau Amarelo exemplifica os momentos iniciais da Ficção Científica no Brasil no começo do século vinte, antes de conhecer as raízes da FC brasileira e sua dificuldade de se estabelecer no país, clique aqui

Da Europa a Hollywood

O impacto da Revolução Industrial na Inglaterra do século dezenove, representada, por exemplo, na invenção de máquinas que tiraram o emprego das pessoas no campo e criaram fábricas na cidades, promoveu o ambiente literário para o nascimento da ficção científica, através do romance gótico Frankenstein (1818), da escritora inglesa Mary Shelley.

Já na era vitoriana (1837-1901), a FC se desenvolveu em uma nova vertente romanesca nas “Viagens Extraordinárias” do francês Julio Verne e nos “Romances Científicos” do inglês H. G. Wells.

O francês Julio Verne e o inglês H. G. Wells. Pais da Ficção Científica.

Será nos Estados Unidos da América que, em 1926, o termo “Ficção Científica” será criado pelo editor tcheco naturalizado norte-americano Hugo Gernsback através das revistas pulp como, dentre outras, Amazing Stories e Science Wonder Stories.

A partir da palavra “Scientifiction” surgiu o termo “Science Fiction”.

Alinhado com o momento de avanço tecnológico e interesse pela ciência presente na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte, Hugo Gernsback, ao lado de outros editores e publicações, criaram o ambiente necessário para o desenvolvimento de uma cultura de FC.

Flash Gordon, principal representante dos heróis das Space Operas da FC da época.

Esta base permitiu que temas e ideias fossem criadas, exploradas, reinventadas e disseminadas por escritores e leitores nos anos das décadas de 1920 a 1950, levando a Ficção Científica a se estabelecer na cultura americana e se espalhar para outros veículos, como a TV e o Cinema do país.  

E a Ficção Científica Brasileira?

O Brasil não conheceu uma Pulp Era, como a dos norte-americanos, que ajudou a ficção científica a se estabelecer no mercado.

Uma das causas desse fenômeno, segundo o escritor e crítico Bráulio Tavares, foi o fato de que, diferente do observado na história do nosso país, o papel transformador desempenhado pelo progresso e a tecnologia no processo de formação da sociedade norte-americana permitiu que a ficção científica encontrasse um meio receptivo junto ao grande público daquele país.

A pintura AMERICAN PROGRESS (1872), de John Gast, retrata a importância da educação e do pensamento cientifico no crescimento do país. Por onde o Progresso passa, espalhando a eletricidade e trazendo a locomotiva, as trevas vão se retraindo.

Já para Murilo Garcia Gabrielli, nossa literatura fantástica, e incluo ai a ficção científica, tem seu início no final do século dezenove e começo do vinte via a forte influência da cultura inglesa e francesa na formação da elite literária do país.

Século dezenove: doutores e rainhas

No excelente Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (2003), Roberto de Sousa Causo, defende que a ficção científica começa no Brasil com a obra O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar.

 Visivelmente influenciado pelos romances de Julio Verne, O Doutor Benignus relata uma expedição ao Brasil Central a partir de onde o cientista do título quer provar que o Sol é habitado por criaturas vivas.  

Outra obra precursora do Fantástico brasileiro, tanto da FC na vertente das Utopias literárias quanto da Fantasia, é A Rainha do Ignoto (1899), da cearense Emília Freitas

Inovador na época por ter sido publicado por uma escritora e também por trazer uma mulher como protagonista, o romance mescla utopia e fantasia ao mostrar como a rainha de uma terra encantada habitada exclusivamente por mulheres percorre o Brasil para libertar mulheres de seu sofrimento físico e mental.

O admirável mundo novo da República Velha

Após as experiências isoladas de Augusto Emilio Zaluar e Emília Freitas, a Ficção Científica brasileira começa a ganhar corpo e regularidade ao longo da República Velha (1889-1930) em duas fases com características distintas:

  1. Durante a Belle Époque (1889-1914);
  2. Durante o período entre-guerras mundiais (1914-1930).

O lado feio da Belle Époque

As narrativas de ficção científica se desenvolvem como reflexo dos efeitos reformadores da Belle Époque (1898-1914) sobre as metrópoles brasileiras, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo. 

A Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, foi um marco da obsessiva busca das elites brasileira em se aproximar da França, modelo cultural do período.

Nesse período, em que o sujeito urbano se viu alienado e perdido em meio as profundas transformações da cidade carioca levadas a cabo pelo progresso científico, as narrativas de ficção científica brasileira se manifestaram por meio tanto da Ciência Gótica, quanto da postura artística de fim de século chamada Decadentismo.

Para um melhor entendimento da Ciência Gótica e do Decadentismo, recomendo a leitura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado clicando aqui.

Para Bráulio Tavares, a Ciência Gótica é representada por narrativas que mesclam FC e Gótico de forma que a Ciência é usada em situações bizarras, estranhas e grotescas. Como é o caso de FRANKENSTEIN.

Os escritores Coelho Neto e João do Rio são os principais representantes desta ficção científica dark brasileira. 

Dentre os vários romances e contos filiados ao fantástico, destaque em Coelho Neto para o romance Esfinge (1908), no qual Espiritismo e Ciência Gótica se unem para descrever a angústia existencial de um ser andrógino fabricado pela união de um corpo masculino e rosto feminino. 

Jornalista, escritor e cronista da Belle Époque, João do Rio foi responsável por introduzir a obra do também decadentista Oscar Wilde no Brasil.

Já nos contos e crônicas de João do Rio o que se tem são narrativas decadentistas em que o progresso e a ciência ressaltam as taras e psicoses dos habitantes urbanos.

O lugar ruim do entre-guerras

A partir dos anos da década de 1920, a Ficção Científica brasileira se alinhou com o ambiente de incertezas dominante na Europa e Estados Unidos do período entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Grande Guerra.

Este cenário levou a criação de Distopias literárias que refletiram a busca de soluções para o país por parte de pensadores e intelectuais.

NÓS (1922), de Yevgeny Zamyatin é considerada a primeira distopia moderna e serviu de referência para as distopias 1984 e ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.

No Brasil, as elites enxergaram no povo brasileiro, e mais especificamente, na constituição miscigenada do país, o responsável pelo atraso da nação.

O REINO DE KIATO (1922), de Rodolpho Theophilo, publicado pela editora de Monteiro Lobato.

Esta crença ganhou forma em utopias/distopias literárias como O reino de Kiato (1922), de Rodolpho Theophilo, A Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls, e Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500 (1929), de Adalzira Bittencourt. 

Como elemento em comum, estes romances trazem sociedades cujos problemas sociais foram eliminados pela aplicação do pensamento eugenista, ou seja, da crença da superioridade de uma raça sobre outra e o controle de tipos humanos indesejáveis por meio da ciência.

No Brasil, os indesejados eram o negro, o índio e o caboclo.

Mas, dentre todas as distopias no Brasil da época, nenhuma superou o romance O Presidente Negro, de Monteiro Lobato devido a influencia do seu autor no meio literário e intelectual da época.

O Presidente Negro, ou O Choque das Raças

Lobato achou que o livro venderia milhões nos Estados Unidos, mas os americanos se recusaram a publicar o romance.

Escrito originalmente em 1926 para o rodapé da revista A Manhã, de Mário Rodrigues, O Presidente negro ou O choque das raças (romance americano do ano 2228) se estrutura em dois planos:

No primeiro, o leitor é posto frente à narrativa do protagonista Ayrton, que é resgatado pelo professor Benson em meio aos destroços de um acidente de carro e é convidado pelo idoso a testemunhar os seus experimentos em sua casa enquanto recupera sua saúde.

Já no segundo plano, o romance mostra como, por meio de um aparelho chamado de “Porviroscópio”, Ayrton e Miss Jane, filha do Dr. Benson, conseguem ver os acontecimentos na América do futuro.

Os elementos que levaram O Presidente negro a ser considerado, na expressão de Fausto Cunha, “um precursor indesejável” da ficção científica brasileira, devido ao seu teor elitista, excludente e racista, estão presentes desde o início do enredo, ambientado no período do entre guerras.

Como reforça o Prefácio dos editores da segunda edição, de 1945, 

[…] [o romance] encerra um quadro do que realmente seria o mundo de amanhã, se fosse Lobato o reformador – e em muitos pontos havemos de concordar que sob aparências brincalhonas brilha um pensamento de grande penetração psicológica e social. O conserto do mundo pela eugenia, […]  

As ideias de reforma social de H. G. Wells, pai da FC inglesa, exerceram grande influencia sobre Monteiro Lobato.

Em O Presidente negro esse projeto social lobatiano tem um alvo direto: o negro.

Considerada um entrave ao pleno desenvolvimento dos Estados Unidos da América, a população negra, dentro do romance, passou a ser objeto de uma série de medidas que visavam controlar a sua expansão.

Para isso foi criado um “Ministério da Seleção Artificial” cujo objetivo era aplicar a Lei Owen de 2031, quando a eugenia se tornou política pública e passou a eliminar os impuros, ou seja, as pessoas com deficiência física e mental, criminosos e prostitutas.

No entanto, os negros não apenas sobreviveram como também aumentaram o seu número.

A expatriação dos negros não é um processo viável devido aos altos custos envolvidos na operação. Outro fator agravante na situação dos negros norte-americanos em O Presidente negro foi a despigmentação a que os mesmos se submeteram para eliminar a cor escura, transformando-os em albinos.

Esse procedimento aumentou o ódio dos brancos por igualar negros e brancos em termos de cor de pele, e isso mostra que o racismo se alicerça em bases invisíveis, se alimentando da intolerância em relação ao Outro.

Diante da resposta de Ayrton de que o Brasil foi mais pragmático por promover a miscigenação entre as raças como solução para o desaparecimento dos negros, a cientista retruca:

A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável peora de caráter, conseqüente a todos os cruzamentos entre raças dispares. Caráter racial é uma cristalização que ás lentas se vai operando através dos séculos. O cruzamento perturba essa cristalização (p. 206).

A tensão entre negros e brancos alcança o seu limite na octogésima oitava eleição presidencial norte-americana, que acaba na vitória do candidato negro Jim Roy.

Jim visita o Presidente Kerlog para propor um novo futuro de convivência pacífica entre brancos e negros. Kerlog, porém, surpreende o líder negro:

“Como homem admiro-te, Jim . Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar…” (p. 271).

Os brancos não tardam a agir, mesmo que desafiando a Constituição ao não legitimar o vitorioso de uma eleição livre.

O Presidente Kerlog, no entanto, tem resposta para isso:

“Acima da Constituição vejo o Sangue Ariano. O negro nos desafia. Cumpre-nos aceitar a luva e organizar a guerra” (p. 279).

A resposta para o Presidente negro vem de uma invenção do cientista Dudley.

Contando com a felicidade dos negros norte-americanos por terem eleito um Presidente dos seus e sabendo do desejo dos negros de terem os cabelos lisos, o cientista oferece uma solução para os cabelos crespos da população através da exposição aos raios Omega:

“Vir agora, e assim de chofre, o resto, o cabelo liso e sedoso, a supressão do teimoso estigma de Cam,” (p. 298).

O que os negros não sabiam, porém, era que o aguardado tratamento voltado para alisar-lhes o cabelo tinha como propósito verdadeiro a completa esterilização da raça negra

Após toda a população negra ser submetida ao tratamento, é Kerlog quem avisa ao negro Jim Roy sobe o fim dos seus semelhantes:

“Tua raça morreu, Jim, […] o branco pôs um ponto final no negro da America” (p. 317).

Jim é o único a saber da armadilha dos brancos e se suicida antes de tomar posse.

Para evitar uma revolta, o governo lança uma boneca dançarina que cativa toda a nação e abafa o debate sobre o suicídio de Jim. 

Um nova eleição é realizada e Kerlog é mais uma vez eleito Presidente.

Eventualmente os negros são informados que eles foram incluídos no rol dos indesejados da Lei Owen e, por isso, tiveram de ser eliminados.

Como vivemos em tempos de intolerância ideológica da Direita e da Esquerda, não apenas no Brasil, mas no mundo, penso ser importante enfatizar aos que sugerem que a obra de Monteiro Lobato seja proibida de circular nas escolas por conter elementos racistas que se lembrem que Monteiro Lobato era um homem de seu tempo e, portanto, inserido nas ideias de seu tempo e é sob tal perspectiva que o educador e o eventual detrator de sua obra deve analisá-lo, reconhecendo também seu talento literário na ficção.

Para e Pensa

Por fim, duas questões:

Primeiro, ainda que eu não tenha abordado a história da FC a partir da década de 30 com autores como Berilo Neves e Jerônýmo Monteiro (assunto para outro post), se pode perceber pelo o que foi mostrado aqui que a Ficção Científica brasileira possui uma significativa produção literária de qualidade.

Então a questão é: Por que a FC brasileira não decola para o infinito e além e se estabelece? 

Por que, ao contrário da Fantasia de um Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhoz e do Gótico de um André Vianco, não temos autores e obras relevante da Ficção Científica?

Falta originalidade? Falta o tratamento de temas clássicos por uma perspectiva verde e amarela? Deixe sua opinião

Segundo, destaco a dedicação de escritores e críticos que por mais de trinta anos vem incansavelmente trabalhado para demonstrar a força e valor da FC brasuca.

São eles, dentre outros: Bráulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Marcello Branco e Roberto de Sousa Causo.  

Esta iniciativa também é levada a cabo por blogs variados, dentro os quais destaco:

Fantasticontos

Mensagens do Hiperespaco

Momentum Saga

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Obrigado e até a semana que vem.

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CARVALHO, J. M. de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DIWAN, Pietra. Eugenia, a biologia como farsa. In: História viva. São Paulo, Edição 49, ano V, p. 76-81, 2007.

FAUSTO, Boris. O pensamento nacionalista autoritário: 1920-1940. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

GABRIELLI, Murilo Garcia. A obstrução ao fantástico como proscrição da incerteza na literatura brasileira. Rio de Janeiro, UERJ, Instituto de Letras, 2004. 157 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

LOBATO, Monteiro. O presidente negro. In: ___. A onda verde e O presidente negro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1966. (Obras completas de Monteiro Lobato – vol 5).

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

SILVA, Alexander Meireles. O admirável mundo novo da república velha. Rio de Janeiro, UFRJ, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Disponível em http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/pos/trabalhos/2008/alexandermeireles_oadmiravel.pdf . Acesso em 16 fev, 2017.

TAVARES, Bráulio. Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

O que a Princesa Leia revela sobre as mulheres na Ficção Científica

Quantas vezes você já viu essa cena?: O casal corre de mãos dadas fugindo do perigo que os ameaça. De repente, a bela jovem cai indefesa e aguarda a morte iminente, mas nada tema! O herói retorna rapidamente e resgata a “mocinha”. 

Flash Gordon, um dos primeiros heróis espaciais, resgata a eterna amada Dale Arden.

Gritar, ser capturada, gritar, correr, gritar e ser resgatada. Esse era o percurso das personagens femininas nas revistas e filmes na primeira metade do século vinte em geral e na Ficção Científica (FC) não era diferente .

O que seriam delas sem eles?

Mas quando é que as mocinhas passaram a ficar com equilíbrio maior e cair menos na FC?

E quando passaram a ficar menos dependentes de heróis machões?

A morte da atriz Carrie Fisher no dia 27 de dezembro, vitima ao 60 anos das consequências de um ataque cardíaco, chocou o universo do entretenimento e em particular o mundo do Fantástico pela importância que sua personagem, a Princesa Leia Organa, tem não apenas para os fãs da série Star Wars, mas também para a representação das mulheres na Ficção Científica.

Caso já queira saber as três razões para isso, sem antes conhecer como as mulheres na FC eram gostosas em perigo, clique aqui.

Pins-up em perigo

Pin-up sendo resgatada pela pistola de raios do herói.

“As mulheres na literatura escrita por homens são na maior parte das vezes vistas como ‘outro’, como objetos, de interesse somente na medida em que elas servem aos ou destoam dos objetivos do protagonista homem” (Josephine Donovan)

A observação da crítica Josephine Donovan sobre a representação literária feminina do início do século vinte até os anos da década de 1970 na Literatura ocidental podem ser exemplificadas na Ficção Científica das revistas pulp norte-americanas do período.

A bela dependente do herói. Imagem recorrente nas capas das revistas de FC entre os anos de 1920 a 1950.

Tanto demonizadas quanto subestimadas por escritores e roteiristas homens, as mulheres das histórias de FC ficavam na maior parte das vezes deslocadas no enredo das histórias impressas e nos flimes.

Afinal de contas, as histórias eram sobre aventura, exploração e penetração no desconhecido, combate, e ciência aplicada. Era esperado, portanto, que os papéis principais pertencessem aos homens.

O explorador (homem e branco caucasiano) chega a um planeta hostil habitado por (selvagens e atrasados) alienígenas.

As ilustrações dessas publicações permitiam imaginar tanto o enredo das histórias quanto o forte apelo erótico junto aos adolescentes: existia na maior parte do tempo uma frágil pin-up que, como tal, estava seminua sendo protegida por um herói espacial caucasiano contra um monstro de olhos esbugalhados ou um robô do mal.

Philip Francis Nowlan, criador de Buck Rogers

Edgar Rice Burroughs, criador de John Carter

Escritores e desenhistas tais como Philip Francis Nowlan, Alex RaymondEdgar Rice Burroughs eram especialistas em descrever e criar mulheres sensuais que lutavam contra ou a favor de heróis como Buck Rogers, Brick Bradford, Flash Gordon e John Carter.

Audaciosamente indo onde todo homem já esteve

Durante os anos das décadas de 1960 e 1970 mudanças políticas e sociais ocorreram na Europa e principalmente na América, marcando o aparecimento de um constante e crescente questionamento das instituições sociais e de políticas de governo.

Discussões sobre política, drogas, religião e sexo foram incorporados aos temas da FC aliados com novos experimentos de linguagem e estilo.

Raça e gênero marcam o enredo do premiado romance de FC de Ursula K. Le Guin

Com as mudanças propostas pelo Feminismo, pelos movimentos por direitos civis dos negros americanos, dos homossexuais e dos jovens, escritores tais como Marion Zimmer Bradley, Ursula K. Le Guin, Joanna Russ e Samuel R. Delany, entre outros, debutaram na FC valorizando experiências de raça e gênero e subvertendo as temáticas da FC como viagens no tempo, distopias e aventuras espaciais.

E como as mulheres se viraram no espaço sideral?

De Star Trek…

Foi na Televisão e no Cinema norte-americano dos anos 60 e 70 que se pode encontrar as mais representativas, ainda que tímidas ou ambíguas, tentativas de mostrar as mulheres  na ficção científica como algo mais que “a gostosa em apuros”.

Uhura

Frequências de saudação abertas!

Lançada como uma série televisiva em 1966, Star Trek (ou como também é conhecida no Brasil, Jornada nas Estrelas) trouxe a Tenente Uhura, Oficial-chefe de Comunicações da nave exploratória U.S.S. Enterprise como uma das suas personagens principais.

A personagem vivida pela atriz Nichelle Nichols não foi apenas uma das primeiras mulheres na história da FC a ter um papel de destaque como uma oficial feminina em uma ponte de comando dominada por homens, mas também a primeira negra a ter essa posição. 

I Have a Dream

Este fato levou levou o líder negro Martin Luther King a pedir que Nichelle permanecesse no programa quando ela decidiu abandonar o papel por se achar sub aproveitada na trama. Como King argumentou:

“Você não percebe o quão importante sua presença, seu personagem é? […] Você tem o primeiro papel [negro] não estereotipado na televisão, seja masculino ou feminino. Você quebrou barreiras”. 

Felizmente, Nichelle permaneceu.

Barbarella

Direção de Roger Vadim

Produção franco-italiana de 1968 baseado nos quadrinhos franceses de mesmo nome, o filme trouxe a patrulheira espacial Barbarella, enviada em missão para capturar o criminoso Duran Duran (de onde saiu o nome da conhecida banda dos anos 80).

Misto de ficção científica e comédia erótica, a produção tinha a estonteante Jane Fonda como a personagem do título em diferentes situações eróticas nas quais seu corpo nu era exibido. 

A bela espacial

Barbarella fez de Jane Fonda um dos principais símbolos sexuais dos anos 60 e se por um lado foi mais uma obra de FC que explorou o corpo feminino, por outro inovou o gênero ao trazer uma mulher como protagonista da ação e ciente do poder de sua sensualidade.

… a Star Wars

Princesa rebelde na vida real e na ficção

“Uma das últimas mulheres míticas nas telas dos anos 70”

Assim a escritora e jornalista Jennifer K. Stuller define a princesa Leia Organa no livro Ink-stained Amazons and Cinematic Warriors: Superwomen in Modern Mythology (sem tradução para o Brasil).

A obra analisa a representação feminina nos Quadrinhos, Cinema e Televisão norte-americano.

Stuller se refere ao fato de que o fim dos anos setenta testemunhou o crescimento de um movimento conservador nos Estados Unidos que ameaçou as duras conquistas do movimento feminista na mesma década.

De fato, o que a princesa Leia revela sobre as mulheres na Ficção Científica é a necessidade, por parte das mulheres, de uma contínua vigilância sobre sua própria representatividade na ficção. 

E isso se justifica por três razões presentes na trilogia de Star Wars dos anos 70 e 80:

1. Leia começa como um modelo feminista

 

Leia, Princesa da Disney

Contrariando as expectativas do grande público acostumados com as princesas dos contos de fadas e de sua adaptações animadas pelos estúdios Disney, a Princesa Leia Organa em Star Wars IV: Uma nova esperança (1977) tem personalidade para se colocar em pé de igualdade com os homens do enredo, sem depender de um príncipe encantado para protegê-la. 

A mulher encara Darth Vader. Precisa de mais?

Ela empunha a arma (símbolo fálico do poder masculino) e exerce sua força pelo poder da liderança e não pelo uso de trajes sedutores. 

Vestida para matar

Comprometida e racional, foge do estereótipo de que mulheres são guiadas por sentimentos ao não revelar a localização da base rebelde, mesmo sob ameaça de destruição do seu planeta natal, Alderaan.

Além de Princesa, Leia também era líder militar, se mostrando uma estrategista hábil e eficiente.

Leia organizando as ações rebeldes no planeta Hoth.

2. Leia se torna interesse romântico

Love Story

A evolução de Leia Organa se alinha com os próprios desafios do Feminismo no fim dos ano 70 e início dos 80, principalmente pela criação e disseminação por parte da mídia da época do mito da super mulher.

Assobia e chupa cana ao mesmo tempo

Como explica Jennifer K. Stuller, esta ideia tinha o propósito de fazer com que as mulheres acreditassem que o que elas realmente desejavam era cobrir de forma satisfatória todos os aspectos de sua vida: carreira profissional, maternidade, sexualidade, matrimônio e cuidados com a casa e que o Feminismo estava errado ao não aceitar esta possibilidade.

Ronald Reagan governou os Estado Unidos em dois mandatos na década de 1980

Como se refletisse este avanço do pensamento conservador nos anos 80, exemplificado na vida real pelo governo do Presidente Ronald ReaganStar Wars V, muito apropriadamente chamado de O Império Contra-Ataca (1981), mostra o gradual processo de transformação da arredia e espirituosa princesa Leia em par romântico do personagem Han Solo, vivido pelo ator Harrison Ford. 

Esta suavização da personagem fica mais evidente quando descobre-se que há uma conexão entre Leia e o protagonista Luke Skywalker.

Todavia, enquanto o roteiro foca no treinamento de Luke e aprendizado de sua potencialidade como Jedi, Leia tem seu espaço de atuação no filme vinculado ao desenrolar de sua relação com Han Solo, culminando na sua declaração de amor ao herói.

Dentro da ideia da “super mulher”, Leia pode ser rebelde e também par romântico. Por que não?

3.  Leia termina como Pin-up e amiga de bichinhos

Sonho dos adolescentes nos anos 80

Líder rebelde no primeiro filme e par romântico no segundo. 

Quando Star Wars VI: O retorno de Jedi (1983) se inicia vemos que Luke Skywalker já está familiarizado com os segredos dos Jedi enquanto que Leia está empenhada em salvar seu amado Han Solo das garras de Jabba, o Hut.

Capturada por Jabba, Leia se torna sua escrava sexual e assume sua vestimenta Pin-up para a satisfação de Jabba (e da platéia adolescente do período). 

Leia e seu biquíni de metal

Eventualmente  o público descobre que Leia e Luke são irmãos e que ela também tem a conexão com a Força, mas em nenhum momento do filme este fator é explorado ou desenvolvido.

De fato, a medida em que a trilogia Star Wars avança ao longo da década de 70 e 80, percebe-se que, se no primeiro filme Leia começa empoderada e Luke se mostra um jovem frágil, no terceiro temos uma inversão de papeis e Luke se torna um confiante homem enquanto Leia se torna a namoradinha de Han Solo e, assumindo um visual mais “feminino” fica cercada por criatura fofas como os Ewoks, algo que remete as princesas dos contos de fadas cercadas por pequenos animais.

Só falta cantar

O que a Princesa Leia mostra afinal de contas sobre as mulheres na Ficção Científica é que as tentativas de mudanças na representação de personagens femininas dentro da vertente da Ficção Científica sofrem uma pressão ideológica masculina contrária que trabalha para enquadrar a mulher dentro dos estereótipos do imaginário masculino.

Cabe a sociedade como um todo a vigilância quanto a este discurso limitador e a luta para uma sociedade mais igualitária, fazendo valer, desta forma, a luta da rebelde princesa Leia iniciada há 40 anos e hoje continuada nas empoderadas Rey e Jyn Erso.

 

Fontes utilizadas

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

DONOVAN, Josephine. Beyond the net: Feminist criticism as a moral criticism. In: ___. (ed.). Feminist Literary Criticism: explorations in Theory. Kentuchy: Lexington, 1975. p. 221-225

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

STULLER, Jennifer K. Ink-stained Amazons and Cinematic Warriors: Superwomen in Modern Mythology. New York: I.B. Tauris, 2010.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

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