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O que era Ficção Científica antes da Ficção Científica?

O termo “Ficção Científica” (Science Fiction), ainda na forma primária da palavra scientifiction, surge pela primeira vez na edição de abril de 1926 da revista Amazing Stories em um comentário do editor Hugo Gernsback sobre o romance A cotovia do espaço (The Skylark of Space), de E. E. Smith.

A obra também é a fundadora da temática da Ficção Científica das Space Operas.

Isso levanta  a questão: Como eram chamadas as obras de Ficção Científica antes desta vertente do Fantástico ser batizada por Hugo Gensback nas primeiras décadas do século vinte? E como era a FC do passado?

Já o nome “Science Fiction” como conhecemos hoje apareceu primeiro nesta edição de Julho de 1929 da SCIENCE WONDER STORIES.

Muitos críticos, dentre os quais o brasileiro Gilberto Schoereder no livro Ficção Científica (1986), apontam que a tentativa de se buscar raízes clássicas para a ficção científica teria como objetivo justificar literariamente o gênero, respaldando-se em alguns ancestrais ilustres que, no entanto, são totalmente estranhos a ela.

É importante mencionar, porém, que desde a aurora da humanidade o homem tenta entender o mundo ao seu redor, criando interpretações sobre o desconhecido com base no que dele é conhecido, e que a palavra “ciência” significava originalmente “conhecimento”.

Para alguns escritores de Ficção Científic, como Lester del Rey, a ÉPICA DE GILGAMESH (2000 B.C), o mais antigo texto registrado da humanidade, é um antepassado da FC pelo seu questionamento racional da imortalidade.

Assim, aqueles que hoje são considerados precursores da ficção científica tentaram, ao longo da história, responder às perguntas referentes ao que lhes estaria reservado no futuro, o que haveria além das estrelas, ou para além da vida.

A Proto Ficção Científica

Sobre esses antecessores da FC o crítico norte-americano John Clute cunhou o termo “Proto ficção científica”, assim definido por ele em Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia (1995):

“[…] a Proto FC tem de incorporar um sentido [em] que as maravilhas que ela descreve podem ser questionadas, se necessário por exemplos e analogias do mundo existente.” 

Nesse sentido, se um escritor sabe que cavalos não podem puxar uma carruagem para a Lua, mas mesmo assim escreve uma história em que eles o fazem, sabemos que isto não é Proto FC mas alguma outra coisa: uma Alegoria, uma Fantasia política, um sonho.

Mas, se o texto é escrito como se o autor acreditasse que naves espaciais puxadas a cavalo poderiam ser parte do mundo real, isto é Proto FC.

Vejamos então a seguir apenas alguns das dezenas de textos que podem ser lidos como Proto Ficção Científica.

Primeiras viagens espaciais

A História da FC mostra que no longo processo de evolução do sonho à razão, séculos antes da invenção da palavra “viagem espacial”, o homem já imaginava transformar sua realidade, descobrindo mundos ou moldando seu meio.

Entre os anos 50 e 125 d.C., por exemplo, Plutarco foi o primeiro a escrever sobre um voo espacial, no livro Na superfície do disco lunar.

Nesse livro, além de falar sobre o tamanho, a forma e a natureza da Lua, Plutarco faz uma descrição de seus habitantes como demônios que realizavam viagens à Terra.

Ainda no século 2 d.C., a História verdadeira (Vera Historia), de Luciano de Samosata, descreve as aventuras da tripulação de um barco surpreendido por uma tromba d’água e levado à Lua.

Lá os tripulantes passam por diversas aventuras e entram em contato com seres extraterrestres que estão em guerra contra os habitantes do Sol, pois ambos pretendem colonizar Vênus.

Na outra obra de Luciano, Icaromenippu o viajante planeja sua viagem, utilizando um abutre amarrado às suas costas.

Séculos depois, e já trazendo o início de uma preocupação com a descrição científica do acontecimento fantástico, Somnium (1634), de Kepler, traz o jovem Duracotus que em um sonho é transportado a lua por demônios. 

Mesmo que a viagem ocorra de uma situação onírica, Kepler, como cientista, se preocupa em descrever os efeitos da gravidade e do ar rarefeito durante a jornada. 

Vindo a exercer influencia sobre o romance Os primeiros homens na Lua (1901), de H. G. Wells, a obra de Kepler é considerada pelos escritor Isaac Asimov e o cientista Carl Sagan como uma das precursoras da FC.

O Homem na Lua

Seguindo os passos de Kepler, O homem na Lua (The Man in the Moone) (1638), do Bispo Francis Godwin, e Viagens a Lua e ao Sol (Voyages to the Moon and Sun) (1656), de Cyrano de Bergerac, são outras duas obras que mostram o fascínio do século 17 com nosso satélite natural.

Mundos utópicos e civilizações superavançadas

Muitos séculos antes dos pesadelos descritos por Aldous Huxley em Admirável mundo novo (1932) e por George Orwell em Mil novecentos e oitenta e quatro (1949), Platão descreveu em A República (367 a.C.) um modelo utópico para seu Estado onde, dentre outras coisas, o poeta e demais artistas seriam banidos por não seguirem a verdade estipulada por um grupo de eleitos e o nascimento de novos cidadãos seria controlado por princípios eugenistas.

A influência de Platão foi sentida posteriormente durante a Renascença, no século 16, quando Thomas More publicou seu Utopia (1516), descrevendo sua ilha perfeita, que estabeleceria as convenções da literatura de utopia e de sua contra-parte, a distopia.

A obra de More criou a palavra “Utopia” e gerou vários projetos utópicos semelhantes, como A CIDADE DO SOL (1602), de Tommaso Campanella.

Durante o século 17, a então emergente ciência começa a aparecer como pano de fundo nas histórias especulativas, trazendo expectativas quanto aos seus efeitos sobre a cidade e seus habitantes.

Este é o caso da ilha tecnológica de A nova Atlântida (1617), de Francis Bacon, onde até mesmo o clima é controlado.

Mas o destaque aqui vai para As viagens de Gulliver (1726), do escritor irlandês Jonathan Swift e, mais especificamente para a tradição da Proto FC, o livro III desta obra. 

O gradual ceticismo com relação ao já então hegemônico pensamento científico e seus benefícios para a humanidade marca a ficção especulativa do século 18.

No livro III de As viagens de Gulliver, por exemplo, Gulliver descreve a ilha voadora de Laputa, alimentada por um magneto gigante e habitada por matemáticos teóricos, perdidos em seus pensamentos abstratos.

Com essa descrição, Swift caçoou do conhecimento que não trazia benefício prático para a humanidade.

Na viagem seguinte, Gulliver encontra a ilha habitada pelos cavalos racionais Houyhnhnms, o que se constitui como o protótipo de um tema comum na ficção científica: o choque cultural entre um homem e um “Outro” não-humano.

Extraterrestres

Micromegas (1752), do filosofo francês Voltaire é a primeira obra a trazer a visita de extraterrestres ao nosso planeta.

Como explica Mark Hillegas em “The Literary Background to Science Fiction” (1979), Voltaire foi largamente influenciado por As viagens de Gulliver, de Swift, por quem o filosofo francês nutria grande admiração (os dois haviam-se conhecido durante o exílio de Voltaire na Inglaterra por quatro anos).

Em Micromegas temos um gigante viajante, habitante de Sirius, que viaja ao nosso sistema solar parando em Saturno e lá ganha mais um companheiro.

Juntos, estes dois cosmonautas visitam Júpiter e Marte chegando finalmente à Terra em 5 de Julho de 1737, visando entender a natureza do homem.

Produtos da Ciência

A crítica ao papel da ciência presente nos textos de Swift e Voltaire irá alcançar seu ponto máximo no século seguinte, quando os efeitos da Revolução Industrial começaram a permear a sociedade européia, trazendo preocupação para os pensadores e artistas do período sobre os rumos da ciência e da tecnologia.

Esta visão da ciência como um elemento desconhecido quanto ao seu potencial promoveu a ascensão de uma nova vertente da Ficção Científica chamada de “Ciência Gótica”, representada pela obra que os críticos de forma geral consideram o marco inicial da FC: Frankenstein (1818), de Mary Shelley.

No entanto, foi a partir da segunda metade do século 19 que as mudanças sociais trazidas pelo progresso científico começaram a despertar a curiosidade do público leitor das grandes metrópoles.

Para atender a esta demanda por informações sobre as teorias científicas e os avanços tecnológicos da sociedade européia, duas figuras que desempenhariam papel chave na criação da ficção científica como um novo subgênero do romance surgiram respectivamente na França e na Inglaterra: Júlio Verne e H. G. Wells.

Júlio Verne e as viagens extraordinárias

O século 19 era, de fato, arauto de inovações tecnológicas e o francês Júlio Verne soube aliar teses e pesquisas de seu tempo à imaginação, tendo lampejos de um visionário.

Entre suas leituras, Verne se deixou influenciar muito pelo escritor norte-americano Edgar Allan Poe, cujo estilo e argumento eram inovadores. Também confessava sua paixão por Charles Dickens e admiração pelo conterrâneo Guy de Maupassant.

Coube a Verne levar os seus personagens (e os leitores) aos lugares onde ele desejava estar, explorando assim o mundo que se descortinava no século 19.

A eletricidade não era mais um sonho; o dínamo foi inventado em 1861, a ferrovia elétrica em 1879, o elevador em 1880. Mas a eletricidade é, principalmente, energia natural, e, em seus efeitos, uma fonte par excellence da mobilidade, a negação do espaço pela velocidade.

Além da eletricidade, estradas de ferros ligavam continentes, balões dirigíveis coloriam os céus, cabos submarinos de comunicação transoceânicos trocavam informações entre a Europa e a América do Norte, enfim, a ciência e a tecnologia estavam sendo usadas para diminuir as distâncias e revelar as maravilhas do mundo.

Esse cenário levou Verne a desenvolver personagens que estavam sempre em trânsito para explorar, de forma ativa, terrenos e culturas até então desconhecidas. Como salienta Marc Angenot:

[…] todas as narrativas de Júlio Verne, ou quase todas, são narrativas de circulação […]. Praticamente todos os seus personagens são corpos em movimento; mas se pode perceber também que esta mobilidade não se aplica apenas aos atores. Outras coisas circulam também: desejos, informação, dinheiro, máquinas, corpos celestiais. Tudo circula – mobilis in mobili: o que pode ser mais adequado do que usar a própria máxima de Capitão Nemo como o leitmotif da obra como um todo? 

A fixação de Verne com esse tema teve início no final de 1862, ano em que firmou um contrato com Pierre-Jules Hetzel, um conhecido editor francês responsável também por escritores como Sthendal, Alfred de Musset, Balzac, Victor Hugo e George Sand.

Hetzel era um editor que se ocupava até mesmo do processo de criação das obras de seus autores (foi ele quem sugeriu a Balzac o título A comédia humana para a obra maior do escritor) e viu no então jovem Júlio Verne um talento para o seu projeto editorial: promover uma literatura acessível aos jovens.

O resultado dessa parceria foi a aventura Cinco semanas num balão (1863). Na época, o público estava apaixonado pelas ações dos exploradores da África. Verne usou seus mapas e relatos para colocar nos mesmos passos os heróis de suas histórias: um inglês, o doutor Samuel Fergusson, seu amigo escocês Dick Kennefy e o empregado, Joe, que se aventuravam de Zanzibar até o Níger, num périplo em balão.

Seis meses após a publicação, o fotógrafo e aeronauta Nadar capturou o interesse do público europeu com a construção de um balão que pretendia explorar o mundo. Tal empreendimento serviu para fazer de Cinco semanas num balão um enorme sucesso de vendas garantindo a Verne a assinatura de um contrato duradouro com Hetzel, no qual o escritor se comprometia a enviar ao seu editor “um mínimo de dois volumes por ano”.

Nascia, assim, As viagens extraordinárias.

Na sua busca por mostrar ao homem do século XIX que a ciência e a tecnologia do seu tempo poderiam ser utilizadas como instrumentos de exploração, Verne levou os leitores de As viagens extraordinárias a todos os cantos do planeta como o centro da terra (Viagem ao centro da terra / 1864), o Pólo Norte (Viagens e aventuras do capitão Hatteras / 1866), o fundo do mar (Vinte mil léguas submarinas / 1870), a volta pelo planeta (A volta ao mundo em 80 dias / 1873), e até mesmo o espaço, como visto em Da Terra à Lua (1865) e Ao redor da Lua (1870).

Ao todo, sessenta e duas obras compõem as Viagens extraordinárias, formando um projeto literário marcado por sucessos que estabeleceram o nome de Júlio Verne junto ao grande público não apenas na Europa, mas também na América do Norte e Sul.

H. G. Wells e o romance científico

A ficção científica é a única forma literária que possui uma “mãe” e dois “pais” como seus criadores.

Se a inglesa Mary Shelley é amplamente aceita como a fundadora da FC com Frankenstein, o papel masculino de iniciador desta vertente romanesca cabe a dois escritores:
Júlio Verne na França e Herbert George Wells na Inglaterra.

Wells começou a despontar na literatura em 1895 quando o nome de Júlio Verne já estava estabelecido na cena literária. Á medida que os seus romances e contos se sucediam, ficava mais evidente a diferença básica entre os dois escritores: a verossimilhança científica.

Enquanto o francês fazia questão de elaborar um enredo apoiado na utilização ao extremo da ciência e da tecnologia do seu tempo, Wells extrapolava esses elementos criando cenários e equipamentos não existentes no mundo do final do século XIX.

O próprio Verne demonstrou a sua insatisfação com o estilo do escritor inglês. Após ler o romance Os primeiros homens na Lua (1901), de Wells, no qual a viagem à Lua é conseguida através da invenção de um fictício elemento anti-gravidade chamado “Cavorita”, Júlio Verne declarou: “Eu faço uso da física. Ele, a inventa”.

Hoje ambos os escritores são considerados responsáveis pela criação da ficção científica como uma vertente do romance.

Cena do filme de 1960
A MÁQUINA DO TEMPO (1895) foi a primeira obra de romance científico de Wells

Viagem no tempo (A máquina do tempo / 1895), universos paralelos (“O admirável caso dos olhos de Davidson” / 1895), invisibilidade (O homem invisível / 1897), sociedades futuras distópicas (História dos tempos futuros / 1897), invasão interplanetária da Terra (guerra dos mundos / 1898): alguns dos temas mais conhecidos e explorados pela ficção científica até os dias de hoje foram criados e desenvolvidos por H. G. Wells.

O que Wells pretendia com o “Romance Científico”, o nome usado por ele para se referir a histórias que se baseavam no pensamento científico, como informa John Clute em Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia, era tentar representar e dar sentido às complexas e rápidas mudanças do seu tempo que estavam alterando a sociedade britânica em várias esferas, tendo como pano de fundo a hegemonia da Pax Britannica, a Revolução Industrial e teorias científicas polêmicas como as de Charles Darwin sobre a evolução humana.

Wells exerceu influencia em várias filmes e revistas vinculados a Ficção Científica na primeira metade do século vinte.

Na Inglaterra de H. G. Wells, a fundação de sociedades de conhecimento, jornais profissionais e laboratórios durante o período vitoriano conferiram à ciência uma importância que despertava no público o desejo de conhecer cada vez mais as idéias circulantes da Revolução Industrial.

O romance científico de Wells foi uma tentativa de se atender a essa demanda que representava os investimentos da classe média em seu próprio futuro.

O cientista pertencia a essa classe da sociedade que esperava ganhar poder e influência através de suas idéias. Ele era geralmente representado por Wells como um herói altruísta em vários romances científicos tais como A máquina do tempo, A guerra dos mundos e Os primeiros homens na Lua.

O próprio Wells, um ex-estudante de ciência, se via como o profeta de uma “Conspiração Aberta”, técnicos e industriais que iriam governar pacificamente o mundo. É importante mencionar aqui que Wells realmente acreditava na imparcialidade ideológica da ciência e da tecnologia.

Em todos os seus trabalhos literários, H. G. Wells culpava outros fatores, tais como a economia ou a política, pelo potencial destrutivo do poder do conhecimento.

Por fim, é importante destacar que não é correto afirmar que Wells estava consciente de que seus próprios trabalhos sustentavam e promoviam uma ideologia a favor da classe dominante.

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Fontes utilizadas

ANGENOT, Marc. Jules Verne: The Last Happy Utopianist. In: PARRINDER, Patrick (ed.). Science Fiction: A Critical Guide. London: Longman, 1979, p. 18-33.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995

SCHOEREDER, Gilberto. Ficção científica. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.

SILVA, Alexander Meireles da. O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira no começo do século XX. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2008. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. 193 p.

TAVARES, Bráulio. (org.) Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Você conhece seu corpo? 5 contos fantásticos sobre partes do corpo.

O século 19 e início do século 20 foram o ápice do fascínio do público e da Medicina com as aberrações do corpo.

A história do Homem Elefante já virou filme e peça de teatro.

Na Inglaterra Vitoriana, por exemplo, Joseph Merrick despertou o interesse do público e da comunidade científica da época com sua gradual deformação física, que o levou a ser conhecido como o Homem Elefante. 

Da Esq. para a Dir.: Annie Jones (“A Mulher Barbada”), Jack Earle (“O Homem mais alto do mundo”) e Myrtle Corbin (“A garota de quatro pernas do Texas”)

Já nos Estados Unidos, espetáculos freaks itinerantes tais como o do circo Ringling Bros.’ corriam o país mostrando corpos que subvertiam as convenções do normal.

Corpo Fantástico (e rebelde)

Na Literatura Fantástica, em suas diferentes vertentes, o corpo humano sempre forneceu histórias sobre partes do corpo que assumem comportamentos insólitos. 

Na Fantasia, apenas para citar um caso dentre tantos, quem não lembra do nariz de Pinóquio? Membro acusador da transgressão da honestidade do boneco de madeira.

No Gótico, o monstro de Frankenstein, composto de membros de cadáveres, denunciava a transgressão da Ciência sobre os mistérios da vida.

Na Ficção Científica, “O estranho caso dos olhos de Davidson”, de H. G. Wells, mostra como após um acidente, os olhos de um homem passam a enxergar não o mundo a sua frente, mas a realidade do outro lado do planeta.

Veja abaixo algumas outras obras em que partes do corpo ocupam papel central na construção do fantástico na Literatura.

1. Mão

Obra: “A mão encantada”

Ano de publicação: 1832

Autor: Gérard de Nerval (1808-1854)

Sinopse: Para conseguir vencer um duelo contra um militar, um comerciante de tecidos recorre a feitiçaria cigana e fica com a mão encantada. Após vencer o duelo ele não consegue controlar a mão e esta acaba agredindo o magistrado que julgaria seu caso. Após ser enforcado, a mão do morto permanece ativa, o que leva o carrasco a cortar a mão do cadáver. Após se libertar do corpo do enforcado, a mão abre caminho entre a multidão estarrecida e alcança o cigano que lhe deu vida.

Curiosidade: Conto marcado pelo simbolismo moral da agressividade que o ser humano carrega dentro de sua natureza. 

2. Nariz

Obra: “O nariz”

Ano de publicação: 1835

Autor: Nicolai Vassilievitch Gogol (1809-1852)

Sinopse: Sentado a mesa para o café da manhã junto com sua esposa o barbeiro Ivan Iákovlevitch descobre dentro de um pão o nariz de seu cliente, o major Kovaliov. Após vários incidentes tentando se livrar do nariz o barbeiro acaba jogando o mesmo em um rio. Ao mesmo tempo o militar procura incessantemente seu nariz, pensando nas consequências de sua imagem sem esta parte do corpo. Após várias ações, o major Kovaliov desperta e percebe que seu nariz está de volta em seu rosto.  

Curiosidade: Sátira feroz de Gogol a burocracia russa. Conto pertencente a fase surrealista do escritor. 

3. Pé 

Obra: “O pé da múmia”

Ano de publicação: 1840

Autor: Théophile Gautier

Sinopse: Homem compra em antiquário um pé de múmia supostamente pertencente a uma princesa egípcia para ser usado como peso de papel. Ao dormir, ele recebe a visita da princesa Heronthis, que explica ao jovem que seu pé foi roubado e o quer de volta. O homem então pede a princesa uma estatueta em troca pelo pé. Heronthis transporta o narrador até o Egito Antigo onde o rapaz pede a mão da princesa em casamento, pedido este que é negado pelo Faraó, pai de Heronthis. Ao ser despertado por um amigo, o jovem percebe que o pé da múmia desapareceu e em seu lugar há uma pequena estátua. 

Curiosidade: Conto que se apoia na recorrente estratégia do conto fantástico do século 19 do sonho como espaço do acontecimento insólito. Reflete também o fascínio da época na França com a cultura egípcia.

4. Dedo

Obra: “O dedo do meio do pé direito”

Ano de publicação: 1890

Autor: Ambrose Bierce

Sinopse: Dez anos após matar os dois filhos e a esposa, e ainda ter decepado o dedo do meio do pé direito da mulher, um homem chamado Manton retorna a sua região com nova aparência. Ele acaba sendo desafiado para um duelo de faca a ser realizado em sua antiga residência, local onde ele cometeu o crime e que tem agora a fama de ser mal assombrado. Na hora do duelo Manton é encontrado morto com o rosto retorcido de medo. A investigação do lugar revela pegadas de alguém que não possuía o dedo do meio do pé direito.

Curiosidade: Considerada umas das melhores histórias sobrenaturais de Ambrose Bierce com o tema da vingança do além.

5. Orelha

Obra: “O inexplicável caso da orelha de Lolô”

Ano de publicação: 1944

Autor: Bernardo Élis

Sinopse: Homem rejeitado pela prima e trocado por empregado negro corta a orelha deste e prende a mulher no porão da casa para lá ela falecer. Anos mais tarde, ao visitar o local com um amigo de juventude os dois testemunham a orelha decepada ganhar vida e patas e sair da caixa onde estava guardada para levar o assassino a morte pelo pavor. 

Curiosidade: Conto escrito pelo brasileiro Bernardo Élis no livro Ermos e Gerais com a intenção de homenagear o escritor norte-americano Edgar Allan Poe em “A queda da Casa de Usher”. 

Listei aqui apenas 5 contos, dentre tantos outros exemplos, desta longa tradição de partes do corpo humano que rendem histórias fantásticas na Fantasia, no Gótico e na Ficção Científica na Literatura de todo o mundo.

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Fontes utilizadas

CALVINO, Ítalo (Org.). Contos fantástico do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ÉLIS, Bernardo. Ermos e gerais. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

GONÇALO JUNIOR. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998.

PAES, José Paulo (Org.) Os buracos da máscara: Antologia de contos fantásticos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, Inc., 2005.

 

 

DARK UNIVERSE: O que os monstros da Universal podem mostrar hoje?

Monstros dos estúdios Universal
Da esq. para dir.: Homem-invisível, Dracula, o Monstro de Frankenstein, a Múmia, o Monstro da Lagoa negra, o Fantasma da Ópera, a Noiva de Frankenstein e o Lobisomem.

Nesta semana os estúdios Universal anunciaram o longamente prometido reboot da sua franquia de monstros, popularmente conhecida como “Os Monstros da Universal”.

A iniciativa, batizada de Dark Universe, vai re-apresentar os monstros do estúdio para a geração de hoje.

Mas, o que esperar deste projeto?

Em 2014 a presidente dos Estúdios Universal falou do assunto no The Hollywood Reporter ao declarar que os novos filmes de seus monstros estariam menos ligados ao Horror e mais vinculados ao gênero Ação e Aventura, além de outros gêneros.

Na ocasião, Donna Langley disse que o propósito é “reimagina-los e reintroduzi-los para um público contemporâneo”

Esta visão pode ser percebida no ritmo do primeiro filme do Dark UniverseA Múmia – lançado em 8 de junho de 2017 nos cinemas. 

Mas, quais medos e ansiedades estes monstros podem representar hoje em relação a sua primeira encarnação entre as décadas de 1920 e 1950?

A primeira encarnação monstruosa

Na sua primeira encarnação, e com base nos planos atuais do estúdio, pode ser estabelecido que a franquia de Monstros da Universal teve seu início nos anos de 1920 com O Fantasma da Ópera (1925).

O único filme da franquia lançado ainda na era dos filmes mudos, esta adaptação do romance O Fantasma da Ópera (1910), do escritor francês Gaston Leroux foi um sucesso de público e foi relançado em versão com som em 1930.

Isso animou o estúdio a dar prosseguimento com sua franquia monstruosa, que seria continuada com Drácula (1931), dirigido por Tod Browning e trazendo Bela Lugosi no papel que o imortalizou como o conde vampiro.  

O sucesso estrondoso da adaptação do livro de Bram Stoker de 1897 consolidou o caminho para outras criaturas, refletindo neste processo o alinhando dos monstros da Universal com os fantasmas da sociedade norte-americana dos anos de 1930 até 1950.

Dentre estes fantasmas, a enorme crise econômica da América, conhecida como A Grande Depressão, que lançou o país em um ambiente de incertezas e temores.   

Desempregados na América durante os anos 30.

Em um tempo em que as pessoas perdiam seus empregos, casas e a esperança no futuro, a crença em forças sobrenaturais além da compreensão humana ganhou espaço, abrindo o terreno para o monstruoso.  

Mas e agora? O que cada monstro da Universal pode mostrar a geração Y e Z?

O que os Monstros da Universal podem mostrar hoje

Da esq. para a dir.: Russel Crowe, Javier Bardem (sentado), Tom Cruise, Johnny Depp e Sofia Boutella. Os novos rostos dos monstros da Universal.

Assim como ocorreu nos anos 40, os monstros da Universal irão se encontrar em filmes.

No entanto, diferente da época em que estes encontros ocorriam em comédias, já sinalizando o cansaço dessas criaturas como agentes do medo, o Dark Universe irá construir um universo compartilhado.

De fato, como o próprio estúdio coloca, esta será a resposta da Universal ao universo compartilhado de heróis da Marvel e da DC.

O eixo central é o personagem Dr. Henry Jekyll, vivido pelo ator Russel Crowe. Ele será o diretor da Prodigium, um local onde diversas criaturas sobrenaturais são mantidas.

Conheça a Prodigium clicando aqui.

Cabe ao Dr. Henry Jekyll, semelhante a Nick Fury na Marvel e Bruce Wayne na DC, reunir ou eliminar essas criaturas.

Até o momento da escrita deste post, seis filmes do Dark Universe foram anunciados em diferentes estágios de produção:

  • A Múmia (lançamento em junho de 2017);
  • A Noiva de Frankenstein (Em pré-produção e previsto para fevereiro de 2019);
  • O Homem Invisível (Em desenvolvimento e estimado para 2020);
  • O Monstro da Lagoa Negra (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • Van Helsing (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • O Lobisomem (Em desenvolvimento e sem data prevista em lançamento).

Ainda que seja esperado que a ação supere a reflexão no que se refere a explorar os monstros como símbolos de questões contemporâneas, fica aqui abaixo o que cada monstro pode trazer de debate com base no seu legado literário.

1. A Múmia

Origem: Cultura egípcia 

Obra de estréia: A Múmia (1932)

Melhor filme até aqui: A Múmia (1999)

LegadoA múmia já foi objeto de análise aqui no blog onde eu discuti os problemas que cercam o personagem. Para ler o post, clique aqui.

Basicamente, o personagem guarda semelhança com o vampiro enquanto criatura morta-viva e de passado nobre, mas não tem o forte simbolismo erótico do primeiro. 

Além disso, enquanto monstro que nos leva a refletir sobre a nossa mortalidade e o além-vida, a múmia perdeu seu espaço para o zumbi. 

2. A Noiva de Frankenstein

Origem: Literatura

Obra de estréia: A Noiva de Frankenstein (1935)

Melhor filme até aquiA Noiva de Frankenstein (1935)

LegadoUm dos maiores ícones femininos no Cinema, a noiva de Frankenstein tem seu nascimento no romance Frankenstein (1818), ainda que na obra ela seja apenas mencionada, mas não de fato criada. 

A força simbólica da personagem pode render excelente debate sobre o empoderamento feminino, principalmente pelo fato de ser (literalmente) um produto do discurso masculino.

3. O Homem invisível

Origem: Literatura

Obra de estréia: O Homem Invisível (1897), de H. G. Wells

Melhor filme até aquiO Homem Invisível (1933)

Legado: Como já também analisado aqui, desde sua gênese literária, o personagem é uma releitura do tema do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson.

O tema da invisibilidade permite a discussão sobre nossos limites éticos. O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? 

4. O Monstro da Lagoa Negra

Origem: Cinema

Obra de estréia: A Criatura da Lagoa Negra (1954)

Melhor filme até aquiA Criatura da Lagoa Negra (1954)

Legado: O caçula dos Monstros da Universal e o único sem ligação literária, folclórica ou cultural, este monstro é produto do discurso científico dos anos 50, fascinado com mutações e seres alienígenas.

Ele simboliza os mistérios e perigos escondidos da natureza e o quanto pode ser perigoso ao homem tentar desvendar esses elementos sem demonstrar respeito pelos mesmos. 

5. Van Helsing

Origem: Literatura

Obra de estréia: Drácula (1897), de Bram Stoker

Melhor filme até aqui: O Horror de Drácula (1958)

Legado: Desde sua primeira aparição o cientista e investigador do sobrenatural Abraham Van Helsing simboliza o agente responsável pela restauração da ordem em um mundo onde o caos se manifesta por meio do monstro.

Por vezes, subvertendo até mesmo a ética para alcançar esse fim.

6. O Lobisomem

Origem: Mitologia

Obra de estréia: A Lobisomem (1913) (filme perdido da Universal)

Melhor filme até aquiO Lobisomem (1941)

Legado: Assim como o próprio personagem do Dr. Jekyll (e Mr. Hyde), o lobisomem tem sua força enquanto monstro que aborda a dualidade do ser humano. O embate entre nossos impulsos e vontade individuais contra nossas obrigações e deveres sociais. 

Agora é só esperar que façam um bom trabalho com a enorme tradição cultural destes monstros atemporais, sem apelarem apenas para efeitos especiais.

E aí? Quais são as suas expectativas para o Dark Universe

Será que vão respeitar o legado dos Monstros da Universal?

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Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LEADBEATER, Alex. The Mummy Director Explains Dr. Jekyll’s Role in the Film. In: SCREENRANT. Acesso em 27 maio de 2017.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Todo negro quer ter o cabelo liso; Ou Yes, nós temos Ficção Científica

Imagine um futuro em que, para se casar e ter filhos, você precisasse provar antes, para uma comissão, que geraria alguém sem problemas físicos ou mentais.

“Você deve ter um Certificado Eugênico”.

Imagine um futuro em que a ordem social foi alcançada por meio da esterilização de alcoólatras, pervertidos sexuais e pessoas portadoras de necessidades especiais.

Propaganda da Alemanha Nazista incentivando a Eutanásia mostrando os custos para o pais do tratamento de deficientes mentais.

Imagine um futuro em que os negros, após terem conseguido embranquecer a pele, também ansiassem por terem os cabelos lisos e sedosos.

A propaganda da empresa de cosméticos L’Oréal causou polêmica por embranquecer o tom da pele de Beyoncé.

E se o processo de alisamento dos cabelos escondesse um segredo mortal para a população negra?

Bem vindo ao futuro de O Presidente Negro, ou O Choque das Raças (1926), de Monteiro Lobato. 

Monteiro Lobato foi o Pai da Literatura Infantil Brasileira e ardente defensor do progresso do Brasil.

Se você quer logo saber como a distopia do criador de O Sítio do Pica-Pau Amarelo exemplifica os momentos iniciais da Ficção Científica no Brasil no começo do século vinte, antes de conhecer as raízes da FC brasileira e sua dificuldade de se estabelecer no país, clique aqui

Da Europa a Hollywood

O impacto da Revolução Industrial na Inglaterra do século dezenove, representada, por exemplo, na invenção de máquinas que tiraram o emprego das pessoas no campo e criaram fábricas na cidades, promoveu o ambiente literário para o nascimento da ficção científica, através do romance gótico Frankenstein (1818), da escritora inglesa Mary Shelley.

Já na era vitoriana (1837-1901), a FC se desenvolveu em uma nova vertente romanesca nas “Viagens Extraordinárias” do francês Julio Verne e nos “Romances Científicos” do inglês H. G. Wells.

O francês Julio Verne e o inglês H. G. Wells. Pais da Ficção Científica.

Será nos Estados Unidos da América que, em 1926, o termo “Ficção Científica” será criado pelo editor tcheco naturalizado norte-americano Hugo Gernsback através das revistas pulp como, dentre outras, Amazing Stories e Science Wonder Stories.

A partir da palavra “Scientifiction” surgiu o termo “Science Fiction”.

Alinhado com o momento de avanço tecnológico e interesse pela ciência presente na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte, Hugo Gernsback, ao lado de outros editores e publicações, criaram o ambiente necessário para o desenvolvimento de uma cultura de FC.

Flash Gordon, principal representante dos heróis das Space Operas da FC da época.

Esta base permitiu que temas e ideias fossem criadas, exploradas, reinventadas e disseminadas por escritores e leitores nos anos das décadas de 1920 a 1950, levando a Ficção Científica a se estabelecer na cultura americana e se espalhar para outros veículos, como a TV e o Cinema do país.  

E a Ficção Científica Brasileira?

O Brasil não conheceu uma Pulp Era, como a dos norte-americanos, que ajudou a ficção científica a se estabelecer no mercado.

Uma das causas desse fenômeno, segundo o escritor e crítico Bráulio Tavares, foi o fato de que, diferente do observado na história do nosso país, o papel transformador desempenhado pelo progresso e a tecnologia no processo de formação da sociedade norte-americana permitiu que a ficção científica encontrasse um meio receptivo junto ao grande público daquele país.

A pintura AMERICAN PROGRESS (1872), de John Gast, retrata a importância da educação e do pensamento cientifico no crescimento do país. Por onde o Progresso passa, espalhando a eletricidade e trazendo a locomotiva, as trevas vão se retraindo.

Já para Murilo Garcia Gabrielli, nossa literatura fantástica, e incluo ai a ficção científica, tem seu início no final do século dezenove e começo do vinte via a forte influência da cultura inglesa e francesa na formação da elite literária do país.

Século dezenove: doutores e rainhas

No excelente Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (2003), Roberto de Sousa Causo, defende que a ficção científica começa no Brasil com a obra O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar.

 Visivelmente influenciado pelos romances de Julio Verne, O Doutor Benignus relata uma expedição ao Brasil Central a partir de onde o cientista do título quer provar que o Sol é habitado por criaturas vivas.  

Outra obra precursora do Fantástico brasileiro, tanto da FC na vertente das Utopias literárias quanto da Fantasia, é A Rainha do Ignoto (1899), da cearense Emília Freitas

Inovador na época por ter sido publicado por uma escritora e também por trazer uma mulher como protagonista, o romance mescla utopia e fantasia ao mostrar como a rainha de uma terra encantada habitada exclusivamente por mulheres percorre o Brasil para libertar mulheres de seu sofrimento físico e mental.

O admirável mundo novo da República Velha

Após as experiências isoladas de Augusto Emilio Zaluar e Emília Freitas, a Ficção Científica brasileira começa a ganhar corpo e regularidade ao longo da República Velha (1889-1930) em duas fases com características distintas:

  1. Durante a Belle Époque (1889-1914);
  2. Durante o período entre-guerras mundiais (1914-1930).

O lado feio da Belle Époque

As narrativas de ficção científica se desenvolvem como reflexo dos efeitos reformadores da Belle Époque (1898-1914) sobre as metrópoles brasileiras, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo. 

A Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, foi um marco da obsessiva busca das elites brasileira em se aproximar da França, modelo cultural do período.

Nesse período, em que o sujeito urbano se viu alienado e perdido em meio as profundas transformações da cidade carioca levadas a cabo pelo progresso científico, as narrativas de ficção científica brasileira se manifestaram por meio tanto da Ciência Gótica, quanto da postura artística de fim de século chamada Decadentismo.

Para um melhor entendimento da Ciência Gótica e do Decadentismo, recomendo a leitura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado clicando aqui.

Para Bráulio Tavares, a Ciência Gótica é representada por narrativas que mesclam FC e Gótico de forma que a Ciência é usada em situações bizarras, estranhas e grotescas. Como é o caso de FRANKENSTEIN.

Os escritores Coelho Neto e João do Rio são os principais representantes desta ficção científica dark brasileira. 

Dentre os vários romances e contos filiados ao fantástico, destaque em Coelho Neto para o romance Esfinge (1908), no qual Espiritismo e Ciência Gótica se unem para descrever a angústia existencial de um ser andrógino fabricado pela união de um corpo masculino e rosto feminino. 

Jornalista, escritor e cronista da Belle Époque, João do Rio foi responsável por introduzir a obra do também decadentista Oscar Wilde no Brasil.

Já nos contos e crônicas de João do Rio o que se tem são narrativas decadentistas em que o progresso e a ciência ressaltam as taras e psicoses dos habitantes urbanos.

O lugar ruim do entre-guerras

A partir dos anos da década de 1920, a Ficção Científica brasileira se alinhou com o ambiente de incertezas dominante na Europa e Estados Unidos do período entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Grande Guerra.

Este cenário levou a criação de Distopias literárias que refletiram a busca de soluções para o país por parte de pensadores e intelectuais.

NÓS (1922), de Yevgeny Zamyatin é considerada a primeira distopia moderna e serviu de referência para as distopias 1984 e ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.

No Brasil, as elites enxergaram no povo brasileiro, e mais especificamente, na constituição miscigenada do país, o responsável pelo atraso da nação.

O REINO DE KIATO (1922), de Rodolpho Theophilo, publicado pela editora de Monteiro Lobato.

Esta crença ganhou forma em utopias/distopias literárias como O reino de Kiato (1922), de Rodolpho Theophilo, A Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls, e Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500 (1929), de Adalzira Bittencourt. 

Como elemento em comum, estes romances trazem sociedades cujos problemas sociais foram eliminados pela aplicação do pensamento eugenista, ou seja, da crença da superioridade de uma raça sobre outra e o controle de tipos humanos indesejáveis por meio da ciência.

No Brasil, os indesejados eram o negro, o índio e o caboclo.

Mas, dentre todas as distopias no Brasil da época, nenhuma superou o romance O Presidente Negro, de Monteiro Lobato devido a influencia do seu autor no meio literário e intelectual da época.

O Presidente Negro, ou O Choque das Raças

Lobato achou que o livro venderia milhões nos Estados Unidos, mas os americanos se recusaram a publicar o romance.

Escrito originalmente em 1926 para o rodapé da revista A Manhã, de Mário Rodrigues, O Presidente negro ou O choque das raças (romance americano do ano 2228) se estrutura em dois planos:

No primeiro, o leitor é posto frente à narrativa do protagonista Ayrton, que é resgatado pelo professor Benson em meio aos destroços de um acidente de carro e é convidado pelo idoso a testemunhar os seus experimentos em sua casa enquanto recupera sua saúde.

Já no segundo plano, o romance mostra como, por meio de um aparelho chamado de “Porviroscópio”, Ayrton e Miss Jane, filha do Dr. Benson, conseguem ver os acontecimentos na América do futuro.

Os elementos que levaram O Presidente negro a ser considerado, na expressão de Fausto Cunha, “um precursor indesejável” da ficção científica brasileira, devido ao seu teor elitista, excludente e racista, estão presentes desde o início do enredo, ambientado no período do entre guerras.

Como reforça o Prefácio dos editores da segunda edição, de 1945, 

[…] [o romance] encerra um quadro do que realmente seria o mundo de amanhã, se fosse Lobato o reformador – e em muitos pontos havemos de concordar que sob aparências brincalhonas brilha um pensamento de grande penetração psicológica e social. O conserto do mundo pela eugenia, […]  

As ideias de reforma social de H. G. Wells, pai da FC inglesa, exerceram grande influencia sobre Monteiro Lobato.

Em O Presidente negro esse projeto social lobatiano tem um alvo direto: o negro.

Considerada um entrave ao pleno desenvolvimento dos Estados Unidos da América, a população negra, dentro do romance, passou a ser objeto de uma série de medidas que visavam controlar a sua expansão.

Para isso foi criado um “Ministério da Seleção Artificial” cujo objetivo era aplicar a Lei Owen de 2031, quando a eugenia se tornou política pública e passou a eliminar os impuros, ou seja, as pessoas com deficiência física e mental, criminosos e prostitutas.

No entanto, os negros não apenas sobreviveram como também aumentaram o seu número.

A expatriação dos negros não é um processo viável devido aos altos custos envolvidos na operação. Outro fator agravante na situação dos negros norte-americanos em O Presidente negro foi a despigmentação a que os mesmos se submeteram para eliminar a cor escura, transformando-os em albinos.

Esse procedimento aumentou o ódio dos brancos por igualar negros e brancos em termos de cor de pele, e isso mostra que o racismo se alicerça em bases invisíveis, se alimentando da intolerância em relação ao Outro.

Diante da resposta de Ayrton de que o Brasil foi mais pragmático por promover a miscigenação entre as raças como solução para o desaparecimento dos negros, a cientista retruca:

A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável peora de caráter, conseqüente a todos os cruzamentos entre raças dispares. Caráter racial é uma cristalização que ás lentas se vai operando através dos séculos. O cruzamento perturba essa cristalização (p. 206).

A tensão entre negros e brancos alcança o seu limite na octogésima oitava eleição presidencial norte-americana, que acaba na vitória do candidato negro Jim Roy.

Jim visita o Presidente Kerlog para propor um novo futuro de convivência pacífica entre brancos e negros. Kerlog, porém, surpreende o líder negro:

“Como homem admiro-te, Jim . Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar…” (p. 271).

Os brancos não tardam a agir, mesmo que desafiando a Constituição ao não legitimar o vitorioso de uma eleição livre.

O Presidente Kerlog, no entanto, tem resposta para isso:

“Acima da Constituição vejo o Sangue Ariano. O negro nos desafia. Cumpre-nos aceitar a luva e organizar a guerra” (p. 279).

A resposta para o Presidente negro vem de uma invenção do cientista Dudley.

Contando com a felicidade dos negros norte-americanos por terem eleito um Presidente dos seus e sabendo do desejo dos negros de terem os cabelos lisos, o cientista oferece uma solução para os cabelos crespos da população através da exposição aos raios Omega:

“Vir agora, e assim de chofre, o resto, o cabelo liso e sedoso, a supressão do teimoso estigma de Cam,” (p. 298).

O que os negros não sabiam, porém, era que o aguardado tratamento voltado para alisar-lhes o cabelo tinha como propósito verdadeiro a completa esterilização da raça negra

Após toda a população negra ser submetida ao tratamento, é Kerlog quem avisa ao negro Jim Roy sobe o fim dos seus semelhantes:

“Tua raça morreu, Jim, […] o branco pôs um ponto final no negro da America” (p. 317).

Jim é o único a saber da armadilha dos brancos e se suicida antes de tomar posse.

Para evitar uma revolta, o governo lança uma boneca dançarina que cativa toda a nação e abafa o debate sobre o suicídio de Jim. 

Um nova eleição é realizada e Kerlog é mais uma vez eleito Presidente.

Eventualmente os negros são informados que eles foram incluídos no rol dos indesejados da Lei Owen e, por isso, tiveram de ser eliminados.

Como vivemos em tempos de intolerância ideológica da Direita e da Esquerda, não apenas no Brasil, mas no mundo, penso ser importante enfatizar aos que sugerem que a obra de Monteiro Lobato seja proibida de circular nas escolas por conter elementos racistas que se lembrem que Monteiro Lobato era um homem de seu tempo e, portanto, inserido nas ideias de seu tempo e é sob tal perspectiva que o educador e o eventual detrator de sua obra deve analisá-lo, reconhecendo também seu talento literário na ficção.

Para e Pensa

Por fim, duas questões:

Primeiro, ainda que eu não tenha abordado a história da FC a partir da década de 30 com autores como Berilo Neves e Jerônýmo Monteiro (assunto para outro post), se pode perceber pelo o que foi mostrado aqui que a Ficção Científica brasileira possui uma significativa produção literária de qualidade.

Então a questão é: Por que a FC brasileira não decola para o infinito e além e se estabelece? 

Por que, ao contrário da Fantasia de um Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhoz e do Gótico de um André Vianco, não temos autores e obras relevante da Ficção Científica?

Falta originalidade? Falta o tratamento de temas clássicos por uma perspectiva verde e amarela? Deixe sua opinião

Segundo, destaco a dedicação de escritores e críticos que por mais de trinta anos vem incansavelmente trabalhado para demonstrar a força e valor da FC brasuca.

São eles, dentre outros: Bráulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Marcello Branco e Roberto de Sousa Causo.  

Esta iniciativa também é levada a cabo por blogs variados, dentro os quais destaco:

Fantasticontos

Mensagens do Hiperespaco

Momentum Saga

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Obrigado e até a semana que vem.

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CARVALHO, J. M. de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DIWAN, Pietra. Eugenia, a biologia como farsa. In: História viva. São Paulo, Edição 49, ano V, p. 76-81, 2007.

FAUSTO, Boris. O pensamento nacionalista autoritário: 1920-1940. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

GABRIELLI, Murilo Garcia. A obstrução ao fantástico como proscrição da incerteza na literatura brasileira. Rio de Janeiro, UERJ, Instituto de Letras, 2004. 157 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

LOBATO, Monteiro. O presidente negro. In: ___. A onda verde e O presidente negro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1966. (Obras completas de Monteiro Lobato – vol 5).

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

SILVA, Alexander Meireles. O admirável mundo novo da república velha. Rio de Janeiro, UFRJ, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Disponível em http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/pos/trabalhos/2008/alexandermeireles_oadmiravel.pdf . Acesso em 16 fev, 2017.

TAVARES, Bráulio. Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

Gostou?

Então deixe o seu comentário e compartilhe com seus amigo visíveis ou invisíveis. 

Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

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