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E esse Arthur ai? Conheça as faces da lenda antes de ver o filme

Maio de 2017 marca a estréia de uma nova versão da mais conhecida lenda da Cultura Inglesa: O Rei Arthur. 

Mas, que Arthur é esse ai? Antes de ir assistir ao filme, conheça aqui as diferentes faces desse herói e seu universo ao longo da História e da Literatura. 

E lembrando que no canal do Fantasticursos no Youtube também tem um vídeo que explica esta lenda medieval. Basta clicar aqui.

Já existiu um Rei Arthur?

Sim e não.

Quando falamos de Rei Arthur é importante ter em mente a diferença entre dois personagens:

Um, é o líder bretão Arthur do século 6 cujas pesquisas arqueológicas vem provando sua existência histórica.

O outro é o Rei Arthur que conhecemos desde a infância, personagem da Literatura Medieval europeia presente em várias obras.

Bretões X Saxões

A figura de Arthur nasceu como símbolo da esperança de um povo – o povo bretão (nome pelo qual os romanos chamavam os celtas, habitantes da ilha da Bretanha).

Após a retirada das legiões Romanas da Bretanha para defender Roma contra as hordas de invasores no inicio do século 5, os Bretões tiveram que se virar sozinhos contra os povos germânicos invasores – chamados genericamente pelos Bretões de “Saxões”. 

Durante mais de um século os exércitos Bretões lutaram contra os Saxões alternando vitórias e derrotas até que em 577 d.C. a conquista Germânica se completou com a batalha de Deorham.

Com a conquista, a maioria dos Bretões se mesclou com os invasores, outros porém se refugiaram na região de Gales e uma outra parte cruzou o canal para a atual província da França conhecida como Bretanha Armoricana, Britânia ou Pequena Bretanha.

Com o avanço dos povos anglo-saxônicos (vermelho), os bretões foram empurrados para as extremidades da ilha da Bretanha

Surge Arthur… ops, Ambrósio Aureliano

Apesar de terem perdido a sua ilha para os invasores, os Bretões guardaram em sua memória a lembrança de um tempo em que, através da liderança de um guerreiro Romano com sangue bretão chamado Ambrósio Aureliano eles conseguiram reagir ao invasor fazendo-o recuar, permitindo um período de quarenta e quatro anos de paz.

Essa vitória, conseguida na batalha do monte Badon em 516, mencionada pelo monge Beda em Ecclesiastical History of the English People, se incrustou na memória do povo Bretão que desde então passou a esperar a volta daquele que os havia liderado à vitória na ocasião.

A partir daqui os fatos começam a se misturar com a ficção.

As raízes culturais 

Muitos personagens e elementos que cercam as histórias do rei Arthur possuem suas origens em lendas, crenças e costumes dos povos que ocuparam a Bretanha. Vejamos alguns delas em ordem alfabética:

Arthur

“Arthur” é a forma galesa do nome romano Arthorius. O nome sugere a possibilidade de que o Arthur histórico tenha nascido quando a Bretanha ainda estava sob a influência do Império Romano.

A existência de vários “Arthures” no século 6 pode ser uma homenagem a um herói nacional cujo nome era colocado em recém-nascidos.

Outra tese liga a origem do nome “Arthur” da lenda a um oficial da cavalaria Romana do século 2 chamado de Lucius Artorius Castus que liderou os Bretões contra os invasores em diversas batalhas.

Avalon

No ano de 1998 arqueólogos encontraram em Cadbury Hill chefes militares Bretões enterrados em caixões em forma de barco.

Os povos antigos acreditavam que a alma viajava para o outro mundo, que era encontrado nos lagos e mares. Os caixões estavam apontados para a colina de Glastonbury Tor, um local religioso.

Na época das enchentes, Glanstonbury ficava isolada como uma ilha. Especula-se que este ritual esteja por detrás da lenda de que Arthur foi levado para a ilha mágica de Avalon para ser cuidado de seus ferimentos.

Camelot

Em 1542 o antiquário John Leland descobriu indícios de uma fortificação do século 6 em Cadbury Hill próximo ao rio Cam. Este rio alimentava os vilarejos de West Camel and Queen Camel.

Leland acredita que esta fortificação tenha dado origem a lendária sede de governo de Arthur. Escavações feitas por especialistas em 1966 confirmaram a sua tese.

Excalibur

Era comum até a Idade Média dar nomes as espadas.

De acordo com pesquisas recentes, a célebre cena da espada retirada da pedra é derivada do fato de que os Bretões forjavam suas espadas em moldes de pedra.

É importante esclarecer também que esta espada da pedra não era Excalibur. A famosa espada do rei Arthur, chamada nos primeiros relatos de Caladfwich (uma derivação da palavra galesa Caladbolg – “duro corte”) e posteriormente no século 12 de Caliburn, foi entregue a ele por meio de Merlin pela Dama do Lago tendo sido forjada pelas fadas.

O fato da espada ter vindo da água e retornado a ela depois da morte de Arthur se deve ao fato de que as primeiras comunidades Celtas jogavam nos lagos as espadas, escudos e outros itens dos guerreiros mortos por considerarem estes locais portais para o outro mundo.

Na cultura pop, com o tempo, as duas espadas se tornaram uma só.

Graal

A etimologia da palavra “Graal” é confusa.

A origem está comumente relacionada a palavra medieval gradalis – cálice ou prato. De fato, um tema recorrente nas lendas Celtas é a busca por um pote mágico.

A partir do século 13 este objeto se tornou associado ao ciclo Arthuriano, mas apenas como um símbolo sobrenatural sem conexão Cristã.

Por volta do século 15, ele se tornou o “Santo Graal”, cálice utilizado por Jesus na última ceia e no qual seu sangue foi colhido após a crucificação.

Merlin

O mago Merlin é a fusão de uma lenda galesa sobre um nobre Britânico de fins do século 6 famoso por ter perdido a razão em uma batalha em Cumbria e por ter vagado por todo o sul da Escócia proferindo profecias sob o nome de Myrddin, e o personagem Ambrosius Merlinus, criadp por Geoffrey de Monmouth.

Morgana

O nome da meia-irmã de Arthur vem do nome morgans, como eram chamadas as fadas da água em algumas vilas Bretãs.

Dessa mesma crença vêm as origens da Dama do Lago, que entrega Excalibur para Arthur, e de Nimue, a ninfa que captura Merlin o afastando da órbita do rei.

Em algumas versões Morgana é mostrada como uma bruxa má, tramando contra Arthur, e em outras como uma das nove irmãs sacerdotisas que levam Arthur para Avalon para cura-lo.

Estas contradições são decorrentes do papel da mulher na religião Celta e no Cristianismo.

Távola redonda

A famosa mesa circular criada pelo Mago Merlin com o propósito de assentar 150 cavaleiros era o ponto de encontro aonde Arthur e sua companhia celebrava seus feitos. O formato da mesa tem suas origens na reverência Celta pelo círculo como um símbolo da coerência e da totalidade.

De Arthur para Rei Arthur 

Segue abaixo as principais obras e autores que fundaram e difundiram o personagem histórico Arthur transformando-o no personagem literário Rei Arthur   

De Excidio et Conquestu Britanniae (Sobre a Destruição e a Lamentação da Bretanha / 545 d.C), de Gildas 

Trata da história da Bretanha da conquista romana até o século 6. Gildas – considerado o primeiro historiador da Bretanha – não menciona o nome de Arthur (o líder da vitória no monte Badon era o bretão romano Ambrósio Aureliano), mas esta é a obra que cria a figura do herói do povo Bretão, salvador este que teria seu nome modificado por Nennius para Arthur.

Historia Britonum (História dos Bretões / 954 d.C.), de Nennius

Nennius, um padre do sul de Galês, é o autor e revisor desta coletânea de notas oriundas de várias fontes como Gildas e Beda. 

Em Historia Britonum existe um capítulo intitulado “Arthuriana” na qual são mencionadas doze batalhas vencidas pelos Bretões comandadas por um guerreiro Bretão chamado Arthur. Nennius, porém, não se refere a ele como rei mas como um chefe militar (dux bellorum).

A duodécima batalha era a do monte Badon mas ao invés do Romano Ambrósio Aureliano, Nennius atribui a vitória ao Bretão Arthur. Ambrósio, no entanto ainda aparece como rei sobre todos os reis da Bretanha. Em Historia Britonum, portanto, encontramos o primeiro aparecimento do nome “Arthur” na literatura mundial.

Annales Cambriae (Anais  de Câmbria /955 d.C.)

A história de Gales de 453 a 954 que menciona a batalha do monte Badon em 516 e de Camlann em 537. A segunda batalha não é mencionada no “Arthuriana” de Nennius mas sua importância reside na menção de que foi nesta luta que Arthur e um tal de Medraut morreram.

É muito provável que esse Medraut tenha sido a base de criação para o personagem Mordred, o traiçoeiro filho (ou sobrinho, dependendo da fonte) do rei Arthur com a sua irmã Morgana.

Annales Cambriae é fundamental por introduzir aquele que viria a ser o personagem Mordred e a cena na qual ele e Arthur morrem.

Gesta Regum Anglorum (Feitos dos Reis dos Anglos / 1125), de William de Malmesbury  

Nesta história dos reis da Inglaterra de 449 a 1128 William consegue conciliar a tradição da batalha do monte Badon, vencida por Ambrósio Aureliano, com a figura do Bretão Arthur. Na visão de William, Arthur é um guerreiro a serviço do rei Ambrósio.

Em Gesta Regum Anglorum, somos apresentados pela primeira vez a um dos cavaleiros mais importantes da companhia de Arthur – seu sobrinho Walwen, nome posteriormente alterado para Gawain.

Historia Regum Britanniae (História dos Reis da Bretanha / 1135), de Geoffrey de Monmouth 

Geoffrey Monmouth foi o responsável pelo inicio do ciclo Arthuriano através da valorização do rei Arthur perante os reis Normandos.

De fato, Historia Regum Britanniae foi o primeiro best seller da Europa Medieval visto que sobreviveu em duzentos manuscritos e já era conhecido antes do fim do século 12 na França, Espanha, Itália, Polônia e Bizâncio.

Demonstrando uma enorme habilidade em contar estórias, Geoffrey de Monmouth traça a linhagem dos reis da Inglaterra. Ele fala de noventa e nove reis ao todo, e um quinto do trabalho é dedicado à história imaginária de Arthur.

Foi através deste monge Bretão que a lenda Arthuriana se estruturou da maneira que conhecemos hoje.

Em sua obra, Arthur é o rei que levou seu povo à vitória no monte Badon. Aqui, Ambrósio Aureliano não apenas aparece como rei, apesar do nome alterado para Aurélio Ambrósio, mas também ele se torna irmão de outro rei, Uther Pendragão, por sua vez, pai de Arthur.

Geoffrey de Monmouth também foi o responsável pela criação daquele que é o personagem mais famoso das lendas sobre o rei Arthur: Merlin.

Mesclando uma lenda Galesa sobre um vidente chamado de Myrddin, com outro Ambrósio apresentado por Nennius como um menino clarividente, Geoffrey criou “Ambrosius Merlinus” – o instrutor, mago e sábio conselheiro de Arthur.

Além de criar Uther Pendragão e Igraine, pais de Arthur e o mago Merlin, Historia Regum Britanniae também apresenta pela primeira vez a concepção de Arthur em Tintagel, sua coroação (sem menção a espada Excalibur), o casamento com Guinevere, a traição e morte de Mordred em Camlann, a navegação de Arthur até Avalon e a promessa da volta. 

Roman de Brut (Séc. XII), de Wace 

Desejando uma tradução e adaptação para versos Franceses da obra escrita em Latim por Geoffrey de Monmouth, o rei Henry II convocou o poeta Francês Wace.

Após terminado, Roman de Brut foi dedicado a Leonor da Aquitânia, esposa de Henry II. Foi a primeira tradução para a cultura da cavalaria. O título faz referência ao Troiano Brutus.

A contribuição de Wace para a lenda Arthuriana foi a criação da famosa Távola Redonda.

Chrétien de Troyes (Séc. XII)

Chrétien de Troyes foi o poeta que mais celebrizou os cavaleiros do rei Arthur e os romances de cavalaria. Quatro romances completos e um incompleto escritos em Francês, com destaque para o incompleto Perceval Le Conte du Graal (1182).

Neste ultimo, vemos a utilização de um elemento que denota o inicio de uma vertente religiosa dos romances de cavalaria: o Graal, aqui ainda sem uma explicação de sua origem.

Vulgata (1220), de Gautier Map 

Esta série de cinco livros em prosa escritos em Francês foca no Graal, sendo que aqui ele é transformado no Santo Graal, o cálice em que foi recolhido o sangue de Cristo.

Mort D’Arthur (1485), de Thomas Malory

O maior feito do cavaleiro Thomas Malory foi aproveitar os 20 anos de pena na prisão de Newgate para organizar as diversas versões da literatura arthuriana para criar um texto único e uma seqüência narrativa.

Quando se pensa em um texto a ser seguido para adaptações de Arthur, Mort D’Arthur é o texto a ser estudado.  

Agora que você conhece o Arthur que serviu de base para esta última adaptação para o Cinema você pode aproveitar ainda mais o filme… ou sair de lá se perguntando porque mudaram tanta coisa em um personagem cujas histórias primeiras já são tão fascinantes. 

Fontes utilizadas

ABRAMS, M. H. et al., (ed.). The Norton Anthology of English Literature. v. 1 & 2. 6 ed. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1993.

JENKINS, Elizabeth. Os Mistérios do Rei Arthur. Trad. Luiz Carlos Rodrigues de Lima. São Paulo: Melhoramentos, 1994.

McDOWALL, David. An Illustrated History of Britain. London: Longman, 1989.

SILVA, Alexander Meireles da Silva. Literatura Inglesa para Brasileiros: curso completo de literatura e cultura para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

 

Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

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Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Epidemias, pestes e doenças: Porquê você deveria gostar delas

A história da humanidade pode ser interpretada por diversos ângulos: as guerras, as religiões, as mudanças da moda, os avanços científicos e também pela eterna presença das pestes, epidemias e doenças

Danse Macabre – Uma dança medieval em que um esqueleto, representando a morte, leva os vivos em procissão para o túmulo. Muito popular durante a epidemia da Peste Negra

Também presente desde que o ser humano começou a narrar o seu mundo, a literatura fantástica sempre teve nas pestilências e enfermidades um rico material para representar de forma simbólica os medos e ansiedades de comunidades ou grupos sociais.

The Dancing Plague. A Epidemia da Dança, de 1518, levou 400 pessoas a dançarem sem parar na região de Estrasburgo, hoje Alemanha. Muitas morreram de ataques cardíaco ou exaustão.

Por muito tempo incapazes de explicar por meios racionais os efeitos de vírus e bactérias sobre o corpo, culturas diversas buscaram no sobrenatural a resposta para as tragédias que atacavam suas comunidades.

As máscaras contra contágio usadas pelos médicos medievais ajudavam a manter o clima sinistro das epidemias.

De fato, mesmo hoje, em plena era digital, muitas doenças e pragas continuam um mistério, e outras ainda se colocam como ameaça para a humanidade, como a Gripe Aviária, a Doença da Vaca Louca e a Zika

O tamanho continental do Brasil, e o descaso do governo e da população com a prevenção, são pratos cheios para diversas doenças tropicais.

Dentro do fantástico, até hoje esta realidade vem ganhando forma nas criaturas e temas da Literatura Gótica e do Horror.

Se você quer logo saber quais pestes, epidemias e doenças influenciaram no desenvolvimento da Literatura Fantástica, antes de conhecer um pouco mais sobre elas na Mitologia grega e na História, clique aqui.

Sobre mulheres curiosas, deuses ratos e faraós

Nosoi

Ao contrário do que se pensa, Pandora abriu um jarro e não uma caixa, deixando escapar todas as pragas e doenças.

Dentro da Mitologia Grega, as moléstias que atormentam a humanidade tem seu momento inicial no mito de Pandora, a primeira mulher.

Concebida como uma punição ao homem por este ter aceitado o fogo roubado dos céus pelo titã Prometeu, Pandora foi entregue a Epimeteu, irmão de Prometeu, como um presente de Zeus pelo trabalho do titã na criação do primeiro homem.

O soberano dos deuses gregos, todavia, sabia de antemão que a mulher seria a desgraça do homem.

Ao andar pela moradia de Epimeteu, Pandora encontrou um jarro no qual o titã guardava todas as coisas ruins que ela não tinha usado na criação do homem.  

Devido a um erro de tradução no século 16, a palavra grega para “jarro” (pithos) foi traduzida como “caixa” (pyxis).

Movida pela curiosidade, a jovem abriu o jarro e todas as pestes, doenças e enfermidades fugiram.

Representante dos NOSOI, conforme interpretação do RPG PATHFINDER.

Ali terminava a Idade de Ouro da humanidade, para começar a Idade de Prata, quando o ser humano passou a ser vitima dos Nosoi, espíritos fugidos do jarro de Pandora e personificações das doenças e pestilências. 

A primeira diarreia

Ainda na mitologia grega, destaque para o primeiro relato de uma praga na Literatura Ocidental, encontrada no episódio inicial de A Ilíada (Séc. 8 a. C.), de Homero.

Na obra, motivado pela ofensa cometida pelo rei grego Agamenon contra um de seus sacerdotes, o deus Apolo lança flechas místicas nos gregos durante o cerco a Troia.

Apolo primeiro atacou os cães e cavalos com a doença e, depois, os soldados gregos.

Logo, as tropas são acometidos de febre intensa e disenteria.

Somente após realizarem sacrifícios a Apolo, também chamado de “O deus-rato” pela sua associação com doenças e pragas, é que os gregos ficaram livres da enfermidade.  

As pragas do Egito

Saindo da Mitologia, mas ainda no campo do divino como agente causador das pragas, destaque na Bíblia para as 10 pragas do Egito quando, segundo o livro do Êxodo, Deus enviou diversas pragas para forçar o faraó a libertar o judeus do cativeiro no Egito.

Tanto na Ilíada quanto na Bíblia vemos que os povos da Antiguidade relacionavam doenças, pragas e pestes como manifestações da ira divina, devido a sua falta de conhecimento dos mecanismos de contágio, disseminação e tratamento. 

Essa leitura permanece nos dias de hoje, visto que doenças ligadas ao contato sexual recebem o nome de Doenças Venéreas (Doenças de Vênus), remetendo a crença de que elas eram um castigo da deusa do Amor em virtude de alguma transgressão sexual. 

A deusa romana do amor Vênus era chamada de Afrodite na mitologia grega.

A Era Dourada das epidemias, pragas e moléstias

Invasões estrangeiras, fome, intolerância religiosa, desastres naturais e guerras: A Idade Média também poderia ser chamada de Era Dourada das epidemias, pragas e moléstias.

Passagem de cometas, ares poluídos, ira divina, alinhamento dos planetas… tudo era tomado como explicação para as epidemias.

É a partir desta época também que começa a ocorrer a vinculação entre determinadas enfermidades, principalmente a Lepra e a Peste Bubônica, e grupos específicos. 

Todo leproso é gay

“Os homens daquele tempo estavam persuadidos de que no corpo reflete-se a podridão da alma. O leproso era, só por sua aparência corporal, um pecador.”

A afirmação do historiador Georges Duby em Ano mil, ano 2000: em busca de nossos medos (1998), vai ao encontro da vinculação de judeus e homossexuais com uma das mais antigas doenças da humanidade: a Lepra.

A Igreja Católica Medieval ora pregava a compaixão para os leprosos ora os marginalizava.

Nos séculos 12 e 13, por exemplo, o termo “leproso” era usado como sinônimo tanto para homossexuais quanto para judeus.

O elo em comum era a crença de que estes três grupos eram pervertidos sexuais.

O poeta Danta colocou os homossexuais no Sétimo Círculo do inferno, na obra A DIVINA COMÉDIA (1304-1321).

Como mostra Jeffrey Richards em Sexo, desvio e danação (1993), pensadores cristãos do século 12 usavam a palavra “lepra” quase como equivalente a “pecado”.

O Papa foi um dos fundadores da Inquisição

Da mesma forma, no século 13, o Papa Gregório IX usou a palavra “lepra” para se referir a “sodomia”, termo empregado na época para designar o homossexualismo.

No mesmo período, outros escritores ligados a Igreja descreveram leprosos como sendo judeus, homossexuais e hereges. 

Judeus são a Peste

A busca por bodes expiatórios na Idade Média para justificar a desordem social provocadas pelas doenças e epidemias encontrou seu ponto alto durante a epidemia de Peste Bubônica no século 14. 

Transmitida pela picada de pulgas de ratos, a doença matava os infectados em 2 a 5 dias de forma lenta e dolorosa.

Chamada de Peste Negra em virtude das bolhas negras que apareciam na pele, a doença matou um terço da população europeia da época, não escolhendo local, classe social ou religião.

A quantidade de corpos era tanta que os cadáveres eram colocados juntos em valas.

Cidades, vilarejos e monastérios inteiros foram dizimados pela peste. A situação chegou a um ponto que faltou madeira para se fabricar caixões. 

Na busca por explicações, os cristãos buscaram culpados.

Judeus eram queimados em praça pública como forma de se parar a epidemia de Peste Negra.

Em 1321, na França, judeus, leprosos e muçulmanos foram acusados de contaminar os poços de água com a peste, o que levou vários deles a serem sentenciados a morte na fogueira. 

Acusações semelhantes contra judeus como agentes da Peste Negra surgiram em toda a Europa, reforçando a crença da ligação entre esse grupo e o Diabo.

A Peste Negra causou um profundo impacto na mentalidade européia, tanto pela sua ferocidade e disseminação quanto pela falta de conhecimento a respeito dos mecanismo de contágio e cura, o que abriu portas para a associação com o sobrenatural.

Esta ligação das epidemias e moléstias com o sobrenatural perduraria nos século seguintes, como você pode ver nas 6 principais doenças, pestes e epidemias que influenciaram a Literatura Fantástica.

As seis principais epidemias, doenças e moléstias da Literatura Fantástica

Ao ler a lista abaixo, perceba que a relação entre o Fantástico e as enfermidades foi mudando de acordo com o contexto histórico e cultural.

À medida que o conhecimento sobre uma doença especifica foi evoluindo, ou a sociedade encontrou meios para vencê-la, ela saiu dos domínios do sobrenatural, e do Fantástico, para dar espaço para outra moléstia ou temas. 

1. Catalepsia

O que é: Doença que ataca o sistema neurológico levando a pessoa a sofrer de paralisia dos músculos e redução das funções vitais. Não há, entretanto, perda dos sentidos. Pode durar de minutos a alguns dias. A Medicina ainda não consegue explicar totalmente o distúrbio.

A Catalepsia pode ser Patológica, que é a versão mais conhecida da doença e a Projetiva, quando a pessoa acorda pela manhã e não consegue momentaneamente se mexer ou esboçar qualquer som.  

A catalepsia era motivo de preocupação ao longo do século 19 e muitas pessoas vitimas de morte sem motivo aparente eram enterradas com pequenos sinos.

Associado no Fantástico a: Vampiros, Zumbis e os personagens insanos de Edgar Allan Poe. 

Principais obras: “A queda da casa de Usher” (1839), de Edgar Allan Poe.

Apontado por séculos como uma das possíveis teorias para a lenda do vampiro, e do zumbi haitiano, a catalepsia tem no mestre do gótico norte-americano Edgar Allan Poe um de seus mais hábeis utilizadores por manter em seus contos a tensão entre o racional e o sobrenatural.

2. Lepra

O que é: Uma das doenças contagiosas mais antigas a serem registradas. A palavra foi criada pelo médico grego Hipocrates para descrever manchas brancas na pele e no cabelo que se assemelhavam a escamas (léprêã).

A ligação deste termo médico com o universo espiritual se deu quando da passagem para o grego dos textos do Antigo Testamento por volta do século 3 a.C. Ao se realizar a tradução do hebraico tsara’ath (“ímpio”, “profano”) para o grego optou-se pela palavra léprêã. passando a designar então a pessoa com a pele de aparência estranha e impura.

É caracterizada pela gradual e profunda deformação da pele e dos membros. Hoje a doença é chamada de Hanseníase e é tratável.

O Brasil foi um dos países em que a Lepra mais demorou para ser combatida.

Associado no Fantástico a: Personagens marcados por maldição, sacerdotes e párias em geral.

Principais obras: “A marca da besta” (1890), de Rudyard Kipling / “Pelo caiapó velho” (1917), de Hugo de Carvalho Ramos / “As morféticas” (1944), de Bernardo Élis. 

Associada a lugares de atraso e superstição, a lepra no conto de Kipling surge na forma de uma maldição lançada sobre um jovem inglês por um sacerdote hindu, levando-o a sofrer uma terrível mudança animalesca.

Já nos contos de Ramos e Élis, vemos a representação do sertão brasileiro como um lugar ameaçador e cercado de mistérios, algo que um jovem perdido constatará ao entrar em uma humilde casa.

Há de se destacar também a influencia da lepra na criação da doença  Escamagris (Greyscale, no original em inglês) na série literária As Crônicas de Gelo e Fogo (2011- ), de George R. R. Martin, base para a série televisiva Game of Thrones

3. Porfiria

O que é: Na verdade a porfiria é um grupo de doenças genéticas que podem ser herdadas ou adquiridas e caracterizada pela deficiência de enzimas no organismo, que em casos mais graves podem provocar sensibilidade à luz, alterações da cor da pele, distúrbios mentais e convulsões. O nome vem do grego porphýra (“pigmento roxo”)

A doença causa uma profunda deformação em casos extremos

Associado no Fantástico a: Vampiros e Lobisomens

Principais obras: Drácula (1897), de Bram Stoker

A Porfiria foi por muito tempo apontada como uma das principais responsáveis pela crença em vampiros, em virtude das características da doença.

No entanto, no fim do século vinte, o pesquisador Paul Barber demonstrou no livro Vampires, Burial and Death (1988) que, ao ser examinada de perto, essa ligação da doença com o vampiro não se sustentava.

A origem do vampiro folclórico europeu permanece como o resultado da falta de conhecimento das populações do século 18 sobre o processo de decomposição dos cadáveres.   

4. Raiva

O que é: Doença transmitida para humanos pela saliva de algum animal infectado, geralmente por meio de mordida. O vírus no ferimento se desloca rapidamente para o cérebro provocando inchaço e inflamação aguda e letal.

Quase sempre leva a morte se a pessoa começar a demonstrar sinais da doença, tais como confusão, salivação em excesso e convulsões. Dai a importância da vacina preventiva. 

A Raiva é uma ameaça real a humanidade.

Associado no Fantástico a: Vampiros e Zumbis

Principais obras: Extermínio (2002), direção de Danny Boyle  / Guerra mundial Z (2006), de Max Brooks / trilogia Apocalipse Z (2010-2011), de Manel Loureiro

Ainda que também tenha sido apontada como uma das doenças por trás da lenda do vampiro, por conta das mordidas que os vitimados pela doença podem proferir, é com o zumbis que a Raiva encontra a maior associação hoje.

Esta ligação é reforçada pela ameaça real da doença na nossa sociedade em que há a proximidade com animais domésticos que são portadores naturais da doença.

Esta proximidade, aliada ao desequilíbrio da natureza provocada pelo homem, pode gerar uma possível mudança adaptativa na Raiva, levando a mesma a se tornar ainda mais agressiva e contagiosa para o homem.

Se outras doenças listadas aqui pertencem ao passado pelo combate as condições de higiene e fabricação de vacinas, o mesmo não aconteceu com a raiva. 

Esta ameaça paira no filme de Danny Boyle, no romance reportagem de Max Brooks e na trilogia de Manel Loureiro

5. Sífilis

O que é: Infecção sexualmente transmissível caracterizada por uma ferida indolor no local da entrada da doença que desaparece após 4 ou 5 semanas do contágio.

Também chamada de “Cancro duro” pelo eventual surgimento de gânglios em partes do corpo. É um inimigo silencioso que pode levar anos e décadas para se manifestar de forma violenta.

Possui diferentes fases, sendo a terciária e a congênita as mais agressivas, levando a lesões na pele, convulsões, danos nos órgãos internos, reflexos exagerados, perda auditiva, insônia e AVC.

A Sífilis era uma dos grandes fantasmas da rígida (e hipócrita) sociedade inglesa da segunda metade do século 19.

Associado no Fantástico a: Vampiros e Duplos 

Principais obras: O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson / O retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde / Drácula (1897), de Bram Stoker 

Vinculada a práticas sexuais proibidas pelas normas de conduta, a Sífilis é a doença que aparece nas entrelinhas dos romances góticos de fim do século 19.

Mas, não se engane: Ela está lá, nos atos indizíveis do Sr. Hyde, no retrato da imoralidade de Dorian Gray e na vinculação de Drácula com a sujeira e impureza.

6. Tuberculose

O que é: Doença até hoje cercada de mitos e preconceitos, a “TB”, como também é chamada a Tuberculose, é infecciosa, transmissível e afeta principalmente os pulmões.

A principal manifestação da doença é um tosse seca e persistente que dura meses. Outros sintomas são febre baixa, emagrecimento, palidez, suor noturno e falta de apetite.

Pode vir acompanhada de acesso de tosses e catarro com sangue. O tratamento usa antibióticos e dura cerca de seis meses.  

A TB alternava períodos de calmaria com acessos violentos.

Associado no Fantástico a: mulheres mortas

Principais obras:  Todos os contos de Edgar Allan Poe com personagens femininos / Noite na Taverna (1855), de Álvares de Azevedo.

Por vias tortas, a Tuberculose foi a principal musa inspiradora de poetas e escritores românticos na Inglaterra, Estados Unidos e Brasil no século 19.

Doença que vitimou muitos artistas em plena juventude, a TB encontrou em Edgar Allan Poe um de seus principais promotores.

Poe perdeu a mãe biológica, a mãe adotiva e a esposa para a Tuberculose.

Como consequência, as mulheres de seus contos e poemas sempre são cercadas por uma aura sobrenatural, vivendo no plano físico e espiritual. São seres além do alcance dos homens que as veneram. 

Esta mesma visão do ser feminino está retratada na obra do ultra-romântico Álvares de Azevedo, onde as mulheres complementam as taras dos personagens transviados. 

Ao responder, portanto, a pergunta que dá título a este post, lembro da frase “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

Se as epidemias, pestes e doenças são um tormento para a humanidade elas tem, como ponto positivo, o fato de proporcionarem matéria prima para grandes obras e produções ligadas ao mundo do Fantástico, na Literatura, Cinema, Quadrinhos e Games.

E por isso devemos gostar delas.

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Então deixe seu saudável comentário ai embaixo e compartilhe o post com os amigos que você deseja bem.

Obrigado e até a semana que vem! 

Fontes utilizadas

BARBER, Paul. Vampires, Burial and Death. New York: Yale University Press, 1988.

BARING-GOULD, Sabine. Lobisomem: um tratado sobre casos de licantropia. Trad. Fernanda M. V. de Azevedo Rossi. São Paulo: Madras, 2003.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1986. 

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 3. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

FARRELL, Jeanette. A assustadora história das epidemias: pestes e epidemias. Trad. Mauro Silva. São Paulo: Ediouro, 2002.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Trad. Marco Antônio Esteves da Rocha e Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

RUSSELL, Jamie. Zumbis: o livro dos mortos. Trad. Érico Assis, Marcelo Andreani de Almeida. São Paulo: Leya Cult, 2010. 

SILVA, Alexander Meireles da. SOLETRAS. N. 27 (jan. – jun. 2014) Disponível em http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/view/1119. Acesso em 02, fev. 2017.

UJVARI, Stefan Cunha. A história e suas epidemias: a convivência do homem com os microorganismos. Rio de Janeiro: SENAC Rio, 2003.

ZUMBIS: a ciência, a história e a cultura pop por trás do fenômeno. São Paulo: Abril, 2012 (Superinteressante Coleções).

Contato: Alexander Meireles da Silva

Email: fantasticursos@gmail.com

 

  

Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?

As criaturas fantásticas do folclore brasileiro trazem em seus corpos as marcas de sua origem na junção das culturas europeia, africana e indígena.

Saci de jardineira e Cuca com roupa de princesa na adaptação para a TV da obra de Monteiro Lobato

Normalmente vinculados a regiões específicas do Brasil, muitos destes seres monstruosos ultrapassaram suas fronteiras geográficas graças a obras como O Sítio do Pica-Pau AmareloA Turma do Pererê e Chico Bento.

A onça Galileu, Pererê e o índio Tininim

Todavia, se por um lado essa exposição apresentou Saci-Pererê, Cuca, Mula-sem-cabeçaCurupira e Iara, dentre outros, para os moradores das cidades, por outro ela provocou uma diluição e infantilização destes seres enquanto agentes do medo.       

Chico Bento com os 5 personagens mais lembrados do folclore brasileiro. Mas, e os outros?

O fato, porém, é que o folclore brasileiro é repleto de seres que poderiam (e deveriam) ser explorados em produções além das relacionadas ao público infantil.

Como o Terror e o Horror, por exemplo.

Se você quer conhecer logo 10 monstros do folclore brasileiro, que não fariam feio em filmes do Guillermo del Toro ou de terror asiático, antes de saber porque os monstros existem, clique aqui.

O que o monstro mostra

A origem da palavra “monstro” se encontra no latim monstrare, que quer dizer “mostrar”.

Mas o que o monstro mostra?

Esta pergunta vem sendo objeto do interesse da humanidade desde que o homem começou a explorar o mundo ao seu redor levando-o a encontrar criaturas que refletiam as suas ansiedades, medos e até mesmo desejos.

“O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS ” (1799), do espanhol Francisco de Goya, mostra o homem como fabricante dos monstros.

Maravilhas orientais

Especificamente no Ocidente, as criaturas monstruosas das mitologias greco-romana serviram de base para que, na Antiguidade, estudiosos  como Ctésias de Cnido (398 a. C.) e Plínio, o Velho (77 d. C.) desenvolvessem os primeiros registros sobre as monstruosidades que habitavam a Índia.

Já na época a Índia fascinava a mentalidade ocidental e ela passou a ser acessível a partir das campanhas de Alexandre, O Grande (326 a. C) no Oriente.

A partir dai os ocidentais passaram a ter conhecimento de criaturas que, de acordo com os relatos do período, habitavam a região.

Seres como os Blêmias, cujo rosto se localizava no peito,

Os Cinocéfalos, seres com cabeça de cão,

E ainda os Ciápodes, que se protegiam do sol com seu único pé enorme,

Essa multidão de seres sobrenaturais ganhou outra leitura quando passaram a ser objeto do interesse de Santo Agostinho (354-430 d. C), um dos principais pensadores da Igreja Católica medieval.

Criaturas de Deus

Agostinho foi o primeiro filosofo a considerar o lugar do monstro dentro dos planos de Deus.

Para ele, os monstros tinham algo a mostrar sobre tudo o que Deus anunciava realizar de forma ameaçadora no corpo dos seres humanos.

Considerados expressões da vontade de Deus, e portanto benéficos, os monstros levavam o homem a refletir como ele seria se não seguisse os preceitos de Deus. 

Após Agostinho, outros pensadores religiosos como Isidoro de Sevilha (576-636) e Thomas de Cantimpré (1201-1272) desenvolveram escritos que explicavam a anatomia e simbolismo dos monstros:

  • Os Pigmeus simbolizavam a humildade;
  • Os Gigantes, o orgulho;
  • Os Cinocéfalos, a discórdia;
  • Os Homens com beiços pendurados, a mentira;
  • Os Blêmios, a ganância.

A partir das reflexões religiosas do período, o monstro penetra nos romances medievais, se disseminando pela Europa e penetrando na memória do povo até os dias de hoje, sempre tendo algo a ensinar. 

Pedagogia dos monstros

No ensaio, “A Cultura dos Monstros: sete teses”, presente na obra Pedagogia dos monstros (2000), o crítico Jeffrey Jerome Cohen propõe sete maneiras de se entender os monstros que fascinam o homem. São elas:

  1. O corpo do monstro é um corpo cultural: As criaturas monstruosas refletem a cultura da época em que estão inseridas;
  2. O monstro sempre escapa: Os monstros se deslocam pela cultura, mantendo suas existências ao surgir em outras formas;
  3.  O monstro é o arauto da crise das categorias: O monstro existe porque ele reflete um momento de mudança de crenças, pensamentos e convenções de sua sociedade;
  4. O monstro mora nos portões da diferença: As criaturas monstruosas trazem em seu corpo o impacto que as diferenças cultural, política, racial, econômica e sexual tem sua sociedade;
  5. O monstro policia as fronteiras do possível: O monstro é um símbolo das consequências em se transgredir normas e convenções sociais, religiosas, políticas e sexuais;
  6. O medo do monstro é realmente uma espécie de desejo: O monstro desperta o medo, mas também a curiosidade, a atração pela sua forma que desafia o único e o heterogêneo;
  7. O monstro está situado no limiar… do tornar-se: Os seres monstruosos nos ensinam sobre nosso lugar no mundo. Nos força a refletirmos sobre nossas verdades, valores e nossa percepção e aceitação do diferente.

Agora que você conhece um pouco mais sobre o monstro, vamos a lista.

Como não existe nada mais assustador que o ser humano, selecionei para este post apenas as criaturas que tem forma humana, deixando de fora animais encantados como a Mula-sem-cabeça, a Onça Maneta, a Anta-Cachorro e outros.

As 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro

1. Bradador

Região:  São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina

Imagina você na madruga dormindo e de repente começa a ouvir gritos assustadores!

O Bradador é um espectro que solta gritos e uivos tenebrosos ao redor das casas ou nos caminhos frequentados por ele/ela. 

Apesar de não possuir uma forma definida, o que distingue este fantasma da noite dos demais espíritos são os berros de lamúria pela sua penitência, que deixam os ouvintes da região assombrada de cabelos em pé.

Sua origem está ligada a criatura Zorra Berradeira, que assusta os casais adormecidos com os seus gritos horríveis na região portuguesa de Trás-os-Montes.

Assim como na variante portuguesa, o Bradador é uma alma que cometeu pecados em demasia e não encontra o descanso divino.

2. Capelobo

Região: Pará, Maranhão

No Maranhão a criatura é chamada de Cupelobo.

Habitando a região do rio Xingu, o Capelobo causa muito medo nas populações indígenas. 

Possuindo forma humana coberta de pelos negros e patas redondas, esta criatura é apresentada possuindo ora cabeça de anta, ora cabeça de tamanduá. 

O Capelobo sai a noite, sempre anunciando sua chegada por meio de urros e gritos, e percorre barracões e acampamentos carregando cães, gatos e crianças recém-nascidas com ele.

O Capelobo também é chamado de “Lobisomem dos índios”.

Quando pega um homem ou animal a criatura aperta a vitima em um abraço mortal, abre um orifício em sua cabeça para enfiar a ponta de seu focinho nela e suga toda a massa encefálica do infeliz. 

Enquanto agente do medo, o Capelobo só perde em popularidade na região do Pará para o Mapinguari e, semelhante a ele, só pode ser morto com um tiro no umbigo. 

3. Corpo-seco

Região: São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Nordeste do Brasil

Esse aí nem o Diabo quis.

Quando a pessoa passa pela vida semeando o mal, principalmente contra o pai e a mãe, pratica incesto e é avarenta, ao morrer a sua alma não é acolhida nem pelo céu e nem pelo inferno, levando a terra a jogar o corpo para fora do túmulo. 

O Corpo-seco tem o corpo magro, ressequido, semelhante a uma múmia e seu corpo é um aviso da perdição da alma.

Repousando em seu tumulo de dia, esse esqueleto coberto de pele percorre, durante a noite, os lugares que frequentou em vida.

O Corpo-seco é nosso zumbi brazuca

É costume que a família da criatura tente acabar com sua penitência promovendo missas e distribuindo esmolas, além de encher o caixão com cal, na esperança de que o corpo se dissolva. 

4. Curacanga

Região: Maranhão e Pará

Este ser também é conhecido como Cumacanga

Quando qualquer mulher tem sete filhas, a última vira Curacanga, ou seja, a cabeça solta do corpo e, em forma de bola de fogo, percorre os campos e caminhos apavorando os viajantes.

Esta criatura tem sua origem na Europa medieval na crença de que a sétima filha seria uma seguidora de Satanás.

Não apenas na Europa, mas também na Ásia, há a tradição de cabeças humanas que voam destacadas do corpo espalhando o terror.

5. Labatut

Região: Rio Grande do Norte, Ceará

O Labatut é um ser enorme, de pés redondos, corpo coberto de pelos ásperos, dentes que saem da boca com aparência de presas de elefante e dono de um só olho no meio da testa.

Monstro canibal, guardando semelhança com os ciclopes da mitologia grega, ele prefere comer meninos porque são menos duros que os adultos.

Tô te vendo!

Costuma parar nas portas das casas para ouvir quem está falando alto ou cantando. Essas são as suas vitimas preferidas.

Sua origem está relacionada a um general francês do século dezenove de nome Pedro Labatut, cuja violência e crueldade deixaram marcas nas lembranças dos moradores do Ceará na década de 1830, levando-o a assumir forma monstruosa nos relatos do povo.

6. Mapinguari

Região: Acre, Amazonas, Pará

Esta é a criatura folclórica com mais registros de avistamentos na região amazônica.

O mais popular monstro da Amazônia, o Mapinguari é o terror de caçadores e trabalhadores que atuam na floresta, pois ele mata e devora quem encontrar pela frente.

É descrito por testemunhas como um homem agigantado, coberto de pelos negros, unhas em garras, apenas um olho e com uma gigantesca boca vertical que vai do nariz até o estomago.

O ponto fraco da criatura é o umbigo.

Ao pegar um homem, enfia a cabeça da pessoa na bocarra e masca a cabeça de forma lenta, depois arranca a carne da vitima em pedaços.

Diferente de outras criaturas fantásticas, o mapinguari dorme a noite e anda de dia, sempre anunciando sua chegada com gritos e uivos.

Tendo o nome derivado possivelmente de mbaé-pi-guari (a coisa que tem o pé torto) o mapinguari é considerado uma possibilidade real por alguns estudiosos.

David Oren, ornitólogo americano naturalizado brasileiro, acredita que o monstro possa ser um exemplar sobrevivente de um megatério – uma preguiça gigante que habitou a região há 10.000 anos.  

7. Mão de cabelo

Região: Minas Gerais 

Vai um mãozinha aí?

Espantalho das crianças, este espectro vai até a cama dessas para verificar se elas urinaram no leito.

Para isso, o Mão de Cabelo usa suas mãos macias, sedosas e feita de pelos para tocar o sexo dos meninos e meninas.  

Fantasma pedófilo

É um fantasma magro, de forma humana e roupa branca. 

O folclorista Luiz Camara Cascudo registra em Geografia dos mitos brasileiros que no Sul de Minas é comum a frase caipira: 

“Oia, si nêném mijá na cama, Mão de Cabelo vem ti pegá e corta a minhoquinha de nêném…”

Ainda que não tenha relação direta, o Mão de cabelo guarda semelhança com o Mãos-peludas inglês, que ataca os que passam na estrada de Datmoor, Inglaterra.

Trata-se de duas mãos sem corpo que aterrorizam a região ao atacar motoristas agarrando o volante do carro e jogando o veículo pra fora da pista.

Sem ter uma razão definida para os ataques, além da simples prática do mal, o Mãos-peludas também bate na janela dos carros parados para assustar os seus ocupantes.  

8. Papa-figo

Região: Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte

Camara Cascudo chama o Papa-figo de “O lobisomem das cidades”.

É um negro velho, alto, sujo, pálido, vestindo farrapos e com um saco nas costas no qual coloca crianças raptadas para comer-lhes o fígado ou vender o órgão para leprosos ricos. 

A imagem do Papa-figo parte de um episódio real ocorrido em Natal no ano de 1938 quando dois negros adoentados foram presos após levarem duas crianças com eles.

A repetição da ocorrência no Ceará e em Pernambuco acabou criando a imagem do ser folclórico.  

Quando crianças cristãs desapareciam na Idade Média, eram costume acusar leprosos e judeus pelo sumiço.

Percebe-se nesta lenda a sobrevivência da crença, ligada a Grécia e a Roma antiga, no simbolismo do fígado como responsável absoluto pelo equilíbrio da saúde humana. 

A partir dai, já na Idade Média, ocorriam relatos de leprosos que, para se livrarem do sofrimento da doença, matavam crianças para beber o sangue e comer o fígado.

Hoje a Hanseníase, nome que substituiu a Lepra, é uma doença perfeitamente tratável, o que ajuda a diminuir a crença nesta lenda e o preconceito contra as pessoas acometidas pela doença. 

A relação entre doenças e  o fantástico será tema de um post exclusivo aqui no blog.

9. Pisadeira

Região: São Paulo, fronteira de Minas Gerais

Criatura de presença universal que assume faces diferentes.

Ela é descrita como uma velha muito magra, cabelos compridos e secos, unhas grandes semelhantes a garras, pernas curtas, nariz fino e olhos vermelhos.

Pisadeira chegou ao Brasil via Portugal, onde a criatura ataca durante o sono descendo pelas chaminés e pisando no peito das pessoas para provocar pesadelos.

Em português e espanhol (pesadilla) deriva de “peso”, “pesado”. 

ALPDRÜCKEN, o pesadelo alemão.

Todas as culturas tem em um íncubo, demônio ou outro espírito maléfico a explicação para os pesadelos noturnos.

BAKHTAK, o pesadelo iraniano.

Em outras culturas a criatura assume formas variadas: gigante, anão, mulher ou homem horrendo que, aproveitando o sono, senta-se sobre o estomago da vitima e lhe aperta o peito, dificultando a respiração.

10. Quibungo

Região: Bahia

Ele é o Bicho Papão negro.

Devorador de crianças, o Quibungo pertence aos pavores noturnos infantis e traz elementos do Papa-figo pela cor negra do personagem e pela grande boca nas costas onde ele enfia as crianças descuidadas.

É apresentado como um ser meio homem, meio animal que tem uma cabeça muito grande e uma bocarra nas costas, que se abre quando ele abaixa a cabeça e se fecha quando ele levanta.

O monstro pode ser morto por tiro, faca e paulada.

Pertencente a tradição oral afro-brasileira, ele come as crianças abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando dentro os pequenos. 

Seu nome está ligado ao Congo e Angola, onde a palavra n’bundo significa “Lobo”. Posteriormente o termo virou qui-n’bungo.

Já ouviu histórias sobre algum desses monstros? Seus avós já viram algum deles?

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Obrigado. 

Fontes utilizadas

CASCUDO, Luís da Camara. Dicionário do folclore brasileiro. 6ed. São Paulo: Editora Itatiaia, 1988.

CASCUDO, Luís da Camara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

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