Arquivo da tag: Literatura

1732: O ano em que os vampiros dominaram a Europa

Presença constante em quase todas as culturas ao longo da História, os vampiros vem assombrando a humanidade desde a Antiguidade em mitos e lendas.

Lilith, a primeira mulher de Adão, e Lâmia, cujo filhos foram mortos por Hera, são os primeiros seres vampíricos mitológicos da humanidade.

No entanto, foi no folclore de países como a Grécia, Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Polônia, Hungria, Bulgária e Romênia que surgiu a imagem clássica do vampiro como um cadáver que sai do túmulo para tirar a vida das pessoas, como conhecemos hoje.

primeiro registro escrito do termo que daria origem a palavra “vampiro” surgiu em 1047 no eslavo antigo “Upir”. Ela apareceu na obra russa LIVRO DA PROFECIA, de Vladimir Jaroslov. Nela um padre era chamado de “Upir Lichy” (“vampiro hediondo”) dado o seu comportamento imoral.

Um ser de muitos nomes

Refletindo as diversas influencias culturais, étnicas, religiosas e linguísticas do leste europeu o vampiro folclórico se apresenta por nomes variados, tais como, Uppyr (russo moderno), Upír (bielo-russo, tcheco, eslovaco), Upirbi (ucraniano), Vampir (búlgaro), Upirina (servo-croata) e Uppier (polonês).

A força deste personagem no imaginário da região como a personificação da constante presença da morte entre os vivos, se alinha com a tradição desta conturbada parte da Europa marcada historicamente, até hoje, pela violência, pobreza, epidemias e conflitos étnicos e religiosos.

O esqueleto desta mulher polonesa de 45 e 49 anos, vítima de cólera, tinha pedras sobre ela, para que não se levantasse do túmulo e levasse seus parentes para o túmulo com ela.

Foi em um contexto de ressurgimento da Cólera e da Peste Bubônica no leste europeu do século 17 e 18, por exemplo, que ocorreu os casos de histeria coletiva atribuída a ataque de vampiros na Istra (1672), na Prússia oriental (1710 e 1725) e na Hungria (1725 a 1730).

Esta mulher polonesa entre 30 e 39 anos, vítima da cólera, tinha uma foice em seu pescoço para que cortasse sua cabeça fora ao tentar sair do túmulo.

Apesar do enorme número de relatos sobre ataques de vampiros do leste europeu, as barreiras políticas da região, dominadas na época pelo Império Otomano, impediam que estas informações chegassem de forma consistente nos centros da Europa Ocidental, como Alemanha, França, Inglaterra e Itália.  

Os mortos viajam rápido

O vampiro da Europa Oriental começou a atrair a atenção do Ocidente com o Tratado de Passarowitz de 1718.

Neste acordo político, metade da Sérvia e partes da Bósnia e da Wallachia (hoje parte da Romênia) deixaram de ser dominadas pelo Império Otomano e passaram para o controle do Império Austríaco-Húngaro.

Este novo cenário político abriu as portas de uma região que era próxima geograficamente da Europa ocidental, mas muito distante do ponto de vista cultural.

Jonathan Harker deixa suas impressões sobre a região dos Montes Cárpatos enquanto se dirige ao castelo do Conde Drácula.

Esta percepção continuou até o fim do século 19, como está bem marcado no relato de Jonathan Harker presente no início de Drácula (1897):

“Descobri que o distrito por ele [Drácula] nomeado encontrava-se no extremo leste do país, nas fronteiras entre três estados, a Transilvânia, a Moldavia, e a Bucovina, bem no meio das montanhas carpacianas, uma das mais primitivas e menos conhecidas partes da Europa”. 

Em pouco tempo Alemanha, França e o Reino Unido tomaram conhecimento de relatos repetidos sobre vampiros que aconteciam nas regiões sob o governo do Império Austríaco-Húngaro. 

Era a hora do vampiro lançar sombras sobre o Século das Luzes.

Os vampiros invadem a Europa

Em pleno Iluminismo, quando a Ciência moderna estava surgindo e o Racionalismo estava na ordem do dia, a Europa se viu tomada pelo chamado “levante vampírico” do leste europeu, disseminado e popularizado pela recém-criada imprensa.

Voltaire

Os relatos sobre ataques de vampiros chamaram a atenção de diferentes pensadores da época, como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau.

Para eles, estas histórias eram crenças supersticiosas incompatíveis com uma época de descobertas e inovações científicas e deveriam ser esquecidas.

Jean-Jacques Rosseau

Mas, como você sabe, é difícil matar um vampiro.

Devido à proximidade geográfica e cultural com o leste europeu, a Alemanha foi o primeiro país a tratar do tema dos vampiros em duas obras investigativas, ainda no plano religioso:

De Masticatione Mortuorum in Tumulus Liber (1728), de Michaël Ranft: Discute a impossibilidade dos vampiros de assumirem forma física tangível para atacarem os humanos;

Dissertatio Physica de Cadaveribus Sanguisugis (1732), de Johannes Christianus Stock: A obra aponta o Diabo como origem dos sonhos com os mortos-vivos.

O vampiro vira best-seller 

O crescente relato de casos sobre vampiros em terras sob seu controle levou os administradores austríacos a se envolverem diretamente com o caso.

Em 1731 uma comissão científica investigativa foi enviada a Sérvia com o propósito de expor a falsidade dos relatos sobre os sugadores de sangue.

Todavia, o resultado desta iniciativa, liderada pelo cirurgião de Regimento de Campo da Infantaria Austríaca Johannes Fluchinger, teve efeito contrário e chocou a Europa.

Nos relatos ouvidos por Fluchinger na região da Medvegia, Sérvia, dezessete pessoas teriam morrido no ano de 1731 em um curto espaço de tempo em decorrência de ataques de cinco anos atrás de um vampiro chamado Arnold Paole.

Paole havia sido um soldado atacado por um vampiro na Sérvia-Turca. Após a sua morte, relatos surgiram dizendo que o ex-militar havia retornado como um morto-vivo para molestar as pessoas da sua vila.

O corpo de Paole foi desenterrado quarenta dias após a sua morte e, diante das evidências físicas de vampirismo (conservação do corpo, crescimento de unhas e cabelos, e presença de sangue no canto da boca), os homens do local esfaquearam o cadáver, decapitaram a cabeça e queimaram o corpo.

As dezessete mortes ocorridas mesmo depois da destruição do vampiro foram atribuídas ao consumo de carne de gado vampirizado por Arnold Paole.

Uma vez feita a exumação dos cadáveres, Fluchinger examinou os corpos e constatou características semelhantes às registradas no corpo de Arnold Paole, ordenando na sequencia a destruição de todos os corpos.

O relatório detalhado das investigações, no qual Fluchinger registrou sua incapacidade de atribuir os casos de vampirismo como mera superstição popularfoi apresentado ao imperador austríaco em 1732 e recebeu o nome de Visum et Repertum.

1732: Os vampiros dominam a Europa

Assinada e referendada por um oficial médico austríaco, Visum et Repertum logo se espalhou pelo continente europeu transformando-se tanto em sucesso de vendas quanto alvo de ataques de pesquisadores e teólogos da época.

Por conta desta obra, 17 artigos sobre diferentes aspectos do vampirismo foram publicados nos jornais de 1732 e 22 tratados sobre o tema surgiram nos três anos seguintes a publicação do relatório de Fluchinger.

Dentre estas obras, destaque para: 

Lettres Juives (1736), do francês Jean-Baptiste de Boyer, conhecido como o Marquês d’ Argens;

Dissertazione sopra i Vampiri (1744), do italiano Monsenhor Giuseppe Davanzati;

Dissertations sur les Apparitions des Anges, des Démons e des Esprits, et sur les revenants, et Vampires de Hungrie, de Bohême, de Moravie, et de Silésie (1746), de Dom Augustin Calmet, acadêmico católico francês e o mais famoso vampirologista do início do século 18.

Como era de se esperar o intenso debate sobre os vampiros chamou a atenção de artistas e do público, levando o vampiro para uma nova região que ele logo dominaria: a Literatura.

O vampiro entra na Literatura

Seguindo o pioneirismo, já comentado, da investigação ocidental do fenômeno da criatura sugadora de sangue, a Alemanha introduziu o tema do vampiro na Literatura em 1748, dois anos depois da obra de Dom Augustin Calmet.

Abordando o personagem de forma metafórica, o curto poema “O Vampiro” (“Der Vampir”), de Heinrich August Ossenfelder inaugurou a literatura vampírica.

Na história, um rapaz deseja vingança contra a amada pelo fato dela ter seguido o conselho da mãe para abandoná-lo, devido às suas origens estarem ligadas a uma região repleta de vampiros.

A partir dai, o vampiro nunca mais cessaria de assombrar e influenciar a Literatura.

O DIABO APAIXONADO (1772), do francês Jacques Cazotte é a obra que inaugura o Gênero Fantástico.

Qual seria o impacto do “levante vampírico” do século 18 sobre o nascimento do Gênero Fantástico? E do Gótico? Quais obras moldaram e subverteram o vampiro na Literatura?

Isso é assunto para outro post…

E se você quer ler em detalhes as informações que mencionei aqui recomendo a (longa) Introdução que escrevi para a coletânea Contos Clássicos de Vampiros e para a novela Carmilla: A Vampira de Karnstein, ambas publicadas pela Editora Hedra.

Gostou do texto?

Então deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos vivos e mortos-vivos e assine o Blog.  

Fica a dica

Se você é Doutorando(a), já completou o Doutorado e curte o Fantástico fica aqui também o convite para enviar um artigo para a Revista  Scripta Uniandrade

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 1 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua portuguesa

Submissão: até 31 de maio de 2017.

SCRIPTA UNIANDRADE v. 15, n. 2 (2017)

Eixo temático: Literatura fantástica em língua inglesa

Submissão: até 31 de julho de 2017.

 Para maiores informações, clique aqui.

Fontes utilizadas

BARBER, Paul. Vampires, Burial and Death. New York: Yale University Press, 1988.

FERREIRA, Cid Vale (Org.) Voivode: estudo sobre os vampiros. São Paulo: Pandemonium, 2002.

GUILEY, Rosemary Ellen. The Encyclopedia of Vampires, Werewolves and Other Monsters. New York: Checkmark Books, 2005.

IDRICEANU, Flavia, Bartlett, Waine. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. Trad. Silvia Spada. São Paulo: Madras, 2007.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.). The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: LE FANU, Sheridan. Carmilla. Trad. José Roberto O’Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-37.

SILVA, Alexander Meireles da. Introdução. In: COSTA, Bruno (Org.). Contos clássicos de vampiros: Byron, Stoker e outros. Trad. Marta Chiarelli. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 9-40.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Weird Fiction, New Weird, Interstitial Writing e Slipstream: Os caminhos da Literatura Fantástica hoje

Você gosta de Literatura Fantástica, não é?

Se você assiste a filmes ou lê obras ligadas a Fantasia, Gótico, Horror, Ficção Científica e Realismo Mágico tenho certeza que já percebeu uma certa mistura de gêneros no Fantástico de hoje.

Veja o caso, por exemplo, na Literatura YA (Young Adults), de obras como A Seleção (2012), da escritora norte-americana Kiera Cass, onde a distopia se encontra com o conto de fadas. 

Big Brother encontra Cinderela.

No entanto, essa subversão dos limites entre as narrativas do insólito não é de hoje.

“Tudo o que é solido se desmancha no ar”

O entre-cruzamento de fronteiras literárias no fantástico se tornou mais evidente a partir do fim do século dezenove e início do início do século vinte como reflexo do impacto das ideias de pesquisadores como Charles Darwin, Albert Einstein, Karl Marx e Sigmund Freud sobre o ser humano da época.

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A frase de Karl Marx resume a situação de um mundo cujas certezas ruíam rapidamente.

Dentro de seus campos de atuação, o trabalho desses pesquisadores, e outros mais, colocou em xeque as crenças e convenções religiosas, sociais e políticas que faziam o ser humano do período a entender o mundo e o seu lugar nele.

Gênero fantástico ou Modo fantástico?

No campo da Literatura Fantástica, a forma mais visível deste cenário de profundas e irreversíveis mudanças foi a acentuação da diferença entre dois tipos de Fantástico: gênero e modo

Não é objetivo central aqui apresentar em detalhes as diferenças entre o Gênero fantástico e o Modo fantástico, isso já foi tema no canal do FANTASTICURSOS no YouTube, mas basicamente tenha em mente que:

Gênero fantástico

Refere-se a um gênero literário nascido em fins do século dezoito como resultado da tensão entre o emergente racionalismo iluminista e as crenças religiosas e sobrenaturais herdadas da Idade Média.

O ponto inicial é o romance O diabo enamorado (Le Diable amoureux / 1772), do escritor francês Jacques Cazotte. 

O jovem Alvare invoca o diabo e este se apaixona pelo jovem espanhol. Ele então assume a forma da bela Biondetta e tenta seduzi-lo.

O gênero fantástico se caracteriza por apresentar uma narrativa marcada pela incerteza do protagonista (e, por tabela, de nós leitores) diante do acontecimento fantástico. 

Biondetta assume sua forma diabólica no momento da consumação do amor com Alvare e o jovem desperta como se estivesse em um pesadelo. Foi tudo real ou mero produto da imaginação do rapaz?

O acontecimento fantástico realmente aconteceu ou foi apenas um sonho? Ou foi o resultado do uso de drogas? Ou ocorreu pelo excesso de sono? Ou por causa do sofrimento pela perda da pessoa amada? 

É nesse terreno da incerteza entre o real e o sobrenatural que o gênero fantástico habita .

A metamorfose

Para alguns críticos, o gênero fantástico sofreu uma crise no fim do século dezenove e início do vinte, em decorrência do cenário de mudanças que mencionei acima.

Afinal de contas, o elemento sobrenatural de origem religiosa ou popular não mais provocava incertezas na mente do individuo imerso no mundo da Revolução Industrial.   

Uma das marcas dessa crise é a novela A metamorfose (1915), de Franz Kafka

Por que Gregor Samsa acordou em uma manhã transformado em inseto? 

Não há nenhuma explicação ao longo de toda a história.

Não há nenhum questionamento por parte do personagem das razões que poderiam ter levado ele a sofrer tal metamorfose. 

No entanto, mais importante que a mudança, o que interessa a Kafka é mostrar as consequências da mudança sofrida pelo jovem vendedor sobre a família de Gregor Samsa.

O gênero fantástico morreu?

Não. Assim como Gregor Samsa ele se metamorfoseou em outra coisa, mas a resposta mesmo fica para outro post.

Modo fantástico

Esse é Fantástico que vem a nossa mente quando pensamos nesta palavra.

O ÉPICO DE GILGAMESH (2.700 a.C.) é a obra escrita mais antiga da humanidade e é marcada por vários elementos fantásticos usados até hoje.

Refere-se, de modo geral, a narrativas no qual o manejo e a combinação de temas e elementos da narrativa (narrador, enredo, espaço, tempo e personagens) revelam a presença e influencia do insólito dentro da história.

“Fantástico”, aqui, deve ser entendido como um grande termo guarda-chuva embaixo do qual estão vários subgêneros e vertentes do romance.

A ODISSEIA (Séc. 8 a.C.), de Homero mostra como o Fantástico está na base da literatura ocidental.

Mitos, Lendas, Fábulas, Contos de fada, Romances Góticos, Horror, Terror, Ficção Científica, Realismo Mágico, Cordel, … Tudo está no reino do Modo Fantástico.

Veja agora abaixo algumas das configurações deste Fantástico pouco faladas no Brasil, mas que, desde o início do século vinte, vem apresentando novos olhares sobre as angustias e ansiedades da sociedade contemporânea.

São elas: Weird Fiction, New Weird, Interstitial Fiction e Slipstream.

Literatura Fantástica hoje 

Weird Fiction 

Ainda que esteja muito associada a América do início do século vinte a Weird Fiction possui raízes nas últimas décadas do século 19 no Reino Unido.

As histórias de fantasmas de M. R. James exploraram o terror de elementos do cotidiano.

Lord Dunsany influenciou Lovecraft com suas narrativas marcadas por lugares e criaturas estranhas.

O criador do termo foi o escritor irlandês Sheridan Le Fanu, escritor de, dentre outras obras, Carmilla (1872), novela que influenciou Bram Stoker na criação de Drácula (1897). 

A Weird Fiction, que em uma tradução aproximada para o Português poderia ser algo como “Ficção do Estranho” ou “Ficção do Bizarro”, se caracteriza por apresentar narrativas sobrenaturais cujo elemento macabro vai além do normalmente utilizado na literatura de Horror.  

Lovecraft e o Horror Cósmico 

O escritor norte-americano H. P. Lovecraft foi o grande promotor da Weird Fiction na América, algo ressaltado ainda mais pela sua associação com a revista Weird Tales. 

Lovecraft trouxe o racionalismo científico da América do começo do século vinte para criar histórias que iam além dos fantasmas, vampiros e casas assombradas do gótico e do horror tradicional.

Esta visão está expressa na sua definição de Weird Fiction, sendo que na tradução da Editora Iluminuras de 2008 o termo “Weird Fiction” foi substituída pelo mais genérico “história fantástica”:  

“A história fantástica genuína tem algo mais que um assassinato secreto, ossos ensanguentados, ou algum vulto coberto com um lençol arrastando correntes, conforme a regra. Uma certa atmosfera inexplicável e empolgante de pavor de forças externas desconhecidas precisa estar presente; e deve haver um indício, expresso com seriedade e dignidade condizentes com o tema, daquela mais terrível concepção do cérebro humano – uma suspensão ou derrota maligna e particular daquelas leis fixas da Natureza que são nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios dos espaços insondáveis”.

Obra representativa deste Weird Fiction lovecraftiano é o conto “O Chamado de Cthulhu” (1926), que introduz a temática do “Horror Cósmico”, exemplo da subversão das fronteiras entre o Horror e a Ficção Científica. 

Após Lovecraft, outros escritores de seu círculo, como Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, August Derleth e Robert Bloch  continuaram a explorar o potencial narrativo do Horror Cósmico e da Weird Fiction

Dica de leitura:

A melhor coletânea para compreender as origens e evolução da Weird Fiction.

A Segunda Grande Guerra mostrou horrores que superavam os temas praticados na Weird Fiction da primeira metade do século vinte.

Gradativamente, a partir dos anos 50, um novo modo de ler o bizarro do mundo começou a ganhar forma no New Weird

New Weird

O New Weird busca unificar os três principais gêneros do fantástico em Língua Inglesa: o Horror, a Fantasia e a Ficção Científica.

As primeiras menções ao New Weird se encontram em meados do século passado.

A trilogia Gormenghast, composta por Titus Groan (1946), Gormenghast (1950) e Titus Alone (1959), do escritor inglês Mervyn Peake é considerada um dos marcos iniciais do New Weird.

A relevância desta obra no cenário da Literatura Fantástica nos anos 50 foi ofuscada por outra trilogia lançada na época: O SENHOR DOS ANÉIS (1954-1955).

Misturando Gótico, Fantasia e Ficção Científica (inclusive antecipando elementos do Cyberpunk), Gormenghast anuncia a obsessão do New Weird com a cidade enquanto espaço da ocorrência do insólito.

Outro nome de destaque do New Weird é o do escritor inglês Clive Barker que, no final do século vinte, lançou a coletânea de contos em seis volumes Os Livros de Sangue (1984-1985).

“O futuro do horror”, assim o escritor Stephen King classificou o trabalho de Clive Barker.

A obra de Clive Barker refletiu a ênfase do New Weird nos aspectos grotescos relacionados a transformação, decadência e mutilação do corpo humano.

Clive Barker e o cenobita Pinhead, um dos vários seres bizarros que habitam as narrativas do escritor.

O inglês China Miéville é uma das principais vozes do New Weird no século vinte e um com romances como Estação Perdido (2000) e A cidade & a cidade (2009). 

Além dele, destaque para Hal Duncan, K. J. Bishop e Michael Moorcock.

Dica de leitura:

A coletânea de 2008 traz contos e ensaios sobre esta expressão do fantástico contemporâneo

Interstitial Writing

A proposta da Interstitial Writing encontra paralelo nos Estudos Culturais do crítico Homi Bhaba sobre a liminaridade, expressas em O local da cultura (1998):

“É na emergência dos interstícios – a sobreposição e o deslocamento de domínios da diferença – que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação [nationness] [grifo do autor], o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados”

Ellen Kushner, Delia Sherman, Theodora Goss, Heinz Insu Fenkl e Terri Windling são os nomes por trás do início da Interstitial Writing.

“Melancholia with Demons”
Oil on Copper, 9” x 12”

Em 2002 eles fundaram a ISIS: the Interstitial Studies Institute com o propósito de discutir formas de arte – não apenas literária, mas também visual, musical e de performance – que buscam romper limites tradicionais.

Na Literatura, a Interstitial Writing exemplifica a busca do Pós-Modernismo em debater e subverter as fronteiras entre as expressões da criatividade humana.  

Os contos de O quarto do Barba Azul (1979), de Angela Carter podem ser lidos como exemplos de Interstitial Writing.

Dica de leitura:

INTERFICTIONS (2007) é recomendado como porta de entrada para a escrita intersticial por meio dos contos e da discussão apresentada.

Slipstream

Nascido nos domínios da Ficção Científica, o Slipstream é um termo cunhado pelo escritor norte-americano Bruce Sterling em um ensaio de 1989 publicado no fanzine SF Eye,

Bruce Sterling é também um dos criadores do Cyberpunk com coletânea de contos MIRROWSAHES (1986).

No texto, Bruce Sterling manifestava sua percepção de que algumas obras de fins do século vinte estavam subvertendo as convenções da Ficção Científica, ao trazer elementos da Fantasia e do Horror e cunhou o termo Slipstream, sinalizando que estas narrativas escorregavam (Slip – Escorregar) entre as vertentes do fantástico.

Para ele, a ficção Slipstream é, 

“um tipo de ficção que simplesmente faz você se sentir muito estranho; do jeito que viver no século 20 faz você se sentir, se for uma pessoa de certa sensibilidade”.

O Slipstream faz uso de estratégias literárias pós-modernas tais como a Alegoria, a Metaficção e o Pastiche na sua tentativa de ampliar as possibilidades da Ficção Científica em refletir sobre o mundo de hoje.

O romance O Conto da Aia (1985), da canadense Margaret Atwood, que mescla a estrutura da Distopia com elementos de contos de fada, pode ser entendido como um exemplo de ficção Slipstream.

Ted Chiang (autor do conto que deu origem ao filme A Chegada), Bruce Sterling, Michael Chabon, George Saunders são nomes representativos do Slipstream.

Dica de leitura:

FEELING VERY STRANGE: THE SLIPSTREAM ANTHOLOGY (2006), traz uma variedade de contos que constroem um panorama do que os editores James Patrick Kelly e John Kessel chamaram de modalidade difusa.

Algumas questões:

Uma rápida leitura das expressões do fantástico aqui apresentadas pode deixar a duvida se, de fato, há diferenças substanciais entre elas.

Ao pensar nas particularidades do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream, o escritor e editor Jeff Vandermeer aponta que, diferente das duas últimas, o New Weird não se preocupa em utilizar estratégias literárias pós-modernas que subvertem a realidade do texto ficcional ou chamam a atenção para a sua artificialidade;

Mas, quais seriam os pontos de distinção entre o Slipstream e o Interstitial Writing?

Existiriam na Literatura Brasileira da virada do século dezenove para o vinte e no meio literário nacional de hoje, representantes respectivamente do Weird Fiction, do New Weird, do Interstitial Writing e do Slipstream?

Fica o convite para os pesquisadores do Fantástico.

Gostou do post?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos fantásticos e normais.

Até a semana que vem.

Fontes utilizadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BESSIÈRE, Irène (2009). “O relato fantástico: forma mista do caso e da adivinha”. (Biagio D’Angelo, Trad.). In Revista Fronteiraz, (vol. 3, nº 3, Setembro). São Paulo: USP, pp. 185 – 202.

CESERANI, Remo (2006). O fantástico. Trad. Nilton Cezar Tridapalli. Curitiba: Ed. UFPR.

JOSHI, Sunand Tryambak (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, Sunand Tryambak (Eds.). (2001). The Modern Weird Tale. North Carolina: McFarland & Company.

KELLY, James Patrick; KESSEL, John. (Eds.) (2006). Feeling Very Strange: The Slipstream Anthology. Tachyon Publications. San Francisco. 2006

LOVECRAFT, Howard Phillips (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

SHERMAN, Delia; GOSS, Theodora (Eds) (2007). Interfictions: An Anthology of Interestitial Writing. Boston: Interstitial Arts Foundation.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

STERLING, Bruce. “Slipstream”. Disponível em: < https://w2.eff.org/Misc/Publications/Bruce_Sterling/Catscan_columns/catscan.05 > Acesso em: 08 mar. 2017.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2008). The New Weird. San Francisco: Tachyon Publication.

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The Weird: A Compendium of Strange and Dark Stories. New York: Tor Book.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

Gostou? Então assine o blog para ser o primeiro a ler o conteúdo, deixe seu comentário bem nutrido ai e compartilhe o post com seus amigos carnívoros, vegetarianos e veganos.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

10 super-heroínas que combatiam o crime antes da Mulher-Maravilha

A Mulher-Maravilha está em alta!

No post sobre a personagem aqui no blog mostrei os motivos e polêmicas que levaram a princesa amazona a ser a mais importante e representativa super-heroína da cultura de massa, mesmo após 75 anos de sua criação em 1941.

Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, ela não foi a primeira representante feminina do gênero super-heróis das Histórias em Quadrinhos.

Mas quais mulheres defendiam os fracos e oprimidos antes de seu surgimento?

Para responder a esta questão, trago hoje as 10 heroínas e super-heroínas que combatiam o crime antes da Mulher-Maravilha.

E se você que ver logo a lista, sem querer saber antes dos critérios para criá-la, clique aqui.

Mas o que é um super-herói?

Qual é o ponto em comum entre Batman e Superman? Entre Gavião Arqueiro e Homem-Aranha? Super poderes? Identidade secreta? Uso de aparatos tecnológicos? Compromisso com a justiça? Como se define um super-herói?

Para o crítico Peter Coogan, os super-heróis têm como características principais uma Missão, Poderes ou superforça e Identidade secreta (MPI).

Já para a pesquisadora Jennifer Stuller, os super-heróis não são definidos somente pelos superpoderes ou pelas fantasias que usam no intuito de preservarem sua real identidade, mas principalmente pelo compromisso com a luta em defesa dos inocentes.

Em outras palavras, são super-heróis por irem além das suas condições humanas para fazerem o bem aos outros.

Tomando então como base o conceito de Jennifer Stuller, foram selecionadas aqui personagens femininas do gênero aventura e super-heróis, com ou sem poderes, que podem ser tomadas como exemplos de super-heroínas.  

Quem entrou? Quem ficou de fora? E por que?

Entraram na lista a seguir personagens femininas que surgiram antes da primeira aparição da Mulher-Maravilha nos quadrinhos, ocorrida em All Star Comics #8, de dezembro de 1941.

A personagem fez tanto sucesso que ganhou revista própria seis meses após sua criação. Em Wonder Woman #1, de julho de 1942.

No entanto, apesar de terem sido publicadas antes da Mulher-Maravilha, ficaram de fora as seguintes personagens:

1. Heroínas que foram criadas inicialmente como interesse amoroso do super-herói

Caso de Lois Lane, que a despeito de sempre ter sido retratada como uma mulher forte, determinada e destemida, desde sua primeira aparição em 1938, acaba sendo utilizada como suporte para as ações heroicas do Superman. 

No anos 50 a personagem ganhou revista própria, mas perdeu sua força feminina para passar a ser a namorada do Superman

2. Heroínas que foram criadas como versões femininas de super-heróis masculinos

Caso da Mulher-Gavião (Hawkgirl) (Janeiro, 1940), apresentada como a namorada do Homem-Gavião, sendo coadjuvante em suas histórias. 

Exemplo semelhante é o da Bulletgirl (Abril, 1941) namorada, ajudante e esposa (nesta sequencia) do super-herói Bulletman.

Em ambos os casos, assim como ocorreu com outras super-heroínas, as personagens não tinham voz própria, sendo muitas vezes resgatadas por seus equivalentes masculinos.

3. Heroínas cuja criação e motivação estão ligadas direta e exclusivamente a Segunda Guerra Mundial

Aqui se inserem as heroínas criadas na onda da propaganda norte-americana na Segunda Guerra Mundial, tendo seu espaço de atuação regulado pelo conflito.

Estas personagens não exerceram influencia além deste contexto histórico-cultural.

São exemplos deste tipo, Pat Parker, War Nurse, Pat Patriot, Lady Satan, Miss Victory e Black Venus.

O ponto em comum a todas estas combatentes do mal foi a gradual perda de popularidade junto aos leitores e o eventual cancelamento de suas publicações após o fim da guerra.   

Black Venus

4. Heroínas cujas publicações duraram menos de seis meses

Na avalanche de super-heróis e super-heroínas das décadas de 40, algumas personagens não conseguiram se estabelecer no mercado, vindo a desaparecer com menos de seis meses, não deixando influências a serem seguidas. 

Este é o caso de, dentre outras, Amazona, Madame Strange e Spider Queen. 

Para quem quer conhecer em maiores detalhes o nascimento e desenvolvimento das super-heroínas dos quadrinhos, recomendo o trabalho A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha (2016), da pesquisadora brasileira Jaqueline dos Santos Cunha, disponível gratuitamente para leitura, aqui.

Tive o prazer de orientar esta pesquisa que traz um dos mais completos e atuais panoramas da representação feminina nos quadrinhos norte-americanos da primeira metade do século vinte. 

Agora que os critérios foram explicados e sugestões de leitura foram indicadas, vamos a lista:

10 Super-heroínas das HQs que antecederam a Mulher-Maravilha

Conheça abaixo agora, por ordem de publicação, as 10 primeiras (e principais) combatentes do crime dos quadrinhos que prepararam o caminho para a chegada da Mulher-Maravilha em dezembro de 1941.

1. Sheena

Descrição: Sheena se insere em um contexto de popularidade no início do século vinte das chamadas jungle stories (histórias passadas em selvas de regiões dominadas ou influenciadas por países da Europa e Estados Unidos), e que fomentaram a criação, na época, de personagens da ficção pulp e quadrinhos como Tarzan e Fantasma.

As jungle stories refletiram a influência dos romances de aventuras de fins do século dezenove de escritores como H. Rider Haggard e Rudyard Kipling, sempre ambientadas em lugares exóticos na África e na Ásia.

É justamente a partir do romance Ela (1887), de Haggard que Will Eisner e Jerry Iger criaram Sheena, a Rainha das Selvas. O próprio nome da personagem soava como o título do livro de Haggard (She, no original).

Sheena Rivington cresceu como órfã em meio a selva, onde ela aprendeu os segredos da floresta e da comunicação com os animais.

Com o tempo, Sheena se tornou rainha de uma tribo local e, semelhante a Jane em relação a Tarzan, também teve um relacionamento amoroso com o personagem Bob Reynolds.

Em uma inversão de papeis, raras de se ver na época, Sheena costumeiramente salvava Bob de perigos.  

Primeira aparição: Wags #1 (Janeiro, 1938) (Inglaterra) e Jumbo Comics #1 (Setembro, 1938) (EUA) 

Criadores: Will Eisner e Jerry Iger

Editora: Editors Press Service (Inglaterra) e Fiction House (EUA)

Destaque: A primeira heroína dos quadrinhos. 

2. Red Tornado

Descrição: Após ver sua filha ser sequestrada e não poder contar com a ajuda da polícia ou do herói Lanterna Verde, a corpulenta Abigail Mathilda “Ma” Hunkel decide colocar um balde na cabeça, vestir uma roupa que escondia sua identidade feminina e assumir o nome de Tornado Vermelho

Ao contrário da grande maioria das personagens aqui, Abigail Mathilda “Ma” Hunkel sobreviveu até os dias de hoje, se tornando governanta da base de operações da Sociedade da Justiça da América.

Ela, no entanto, ainda não foi vista após o reboot da editora DC Comics de 2011 chamado de Os Novos 52

Primeira aparição: All-American Comics #3 (Junho, 1939), na sua identidade civil e All-American Comics #20 (Novembro, 1940), como Tornado Vermelho.

Criadores: Sheldon Mayer

Editora: All-American Publications

Destaque: A primeira heroína drag king e a primeira paródia de super-herói. 

3. Fantomah

Descrição: Uma das criações mais originais dos quadrinhos, Fantomah também bebe das influências nos romances de aventuras de Haggard, em especial a deusa branca Ayesha do livro She e sua sequencia Ayesha (1905).

Protetora da selva e seus habitantes, Fantomah era uma atraente loira que ao ativar seus poderes se tornava um ser vingativo de pele azul e face de caveira.

Nesta forma ela tinha poderes quase ilimitados, através dos quais punia os invasores de sua terra.

Posteriormente ela foi reapresentada como a reencarnação de uma princesa egípcia, mas isso não salvou a personagem de cair no esquecimento já em 1942. 

Primeira aparição: Jungle Comics #2 (Fevereiro, 1940)

Criadores: Fletcher Hanks

Editora: Fiction House

Destaque: A primeira super-heroína no sentido pleno da palavra, pois tinha superpoderes.

4. The Woman in Red

Descrição: Detetive da policia Peggy Allen assume a identidade secreta da Mulher de Vermelho para combater o crime sem as limitações da lei. 

Atiradora habil e detetive brilhante, a Mulher de Vermelho não hesitava em matar os criminosos quando a situação assim exigia. Lembrando que nessa época até o Batman usava armas de fogo.

Ao lado de outros super-heróis das décadas de 30 e 40 que caíram em domínio público, a personagem foi resgatada do limbo em 2001 pelo escritor inglês Alan Moore para sua série Tom Strong

Nesta releitura, a Mulher de Vermelho possui um rubi que lhe confere superpoderes como voo e projeção de energia.

Primeira aparição: Thrilling Comics #2 (Março, 1940)

Criadores: Richard Hughes e George Mandel

Editora: Nedor Comics

Destaque: A primeira combatente do crime com uniforme e identidade secreta.

 5. Lady Luck

Descrição: Criada apenas três meses depois da Mulher de Vermelho pelo quadrinista e escritor Will Eisner para participar das publicações no jornal do famoso detetive Spirit, Lady Luck é na verdade a rica socialite Brenda Banks que decide combater o crime apenas com suas habilidades de Jiu-Jitsu. 

Perseguida pela policia e protegendo sua identidade civil sob um fino véu, Lady Luck por vezes contava com a ajuda de seu motorista Peecolo.

Nos dias de hoje a personagem teve uma participação inesperada na edição #6 da revista The Phantom Stranger (2013), mas não foi mais vista deste então.

Primeira aparição: The Spirit Section (02 de Junho, 1940).

Criadores: Will Eisner e Chuck Mazoujian

Editora: Register and Tribune Syndicate

Destaque: A primeira socialite rica a combater o crime, abrindo a tendência de personagens semelhantes nos anos seguintes como Miss Fury (1941), Spider Widow (1942) e Miss Masque (1946). 

6. Invisible Scarlet O’Neil

Descrição: 20 anos antes da Mulher-Invisível adquirir seu poder e formar o Quarteto Fantástico, uma jovem repórter encostou o dedo em um raio desenvolvido por seu pai cientista e ganhou o poder da invisibilidade: Scarlet O’Nell. 

Sendo capaz de ativar e desativar sua invisibilidade pressionando um nervo em seu pulso, Invisible Scarlet O’Nell usava seu poder não apenas para conseguir matérias jornalisticas, mas também para resolver pequenos crimes e ajudar as crianças.

Nos anos da década de 1950 a personagem ganhou um interesse amoroso – o xerife Stainless Steel – e as histórias passaram a ser mais sobre o relacionamento dela e menos sobre os seus atos heroicos.

Por fim, com a queda da popularidade, a tira de jornal em que suas histórias eram publicadas foi renomeada para Stainless Steel e a personagem se tornou secundária.  

Primeira aparição: The Chicago Times (03 de junho, 1940)

Criadores: Russell Stamm

Editora: The Chicago Times

Destaque: Ainda que não tenha identidade secreta e uniforme, Invisible Scarlet O’Neil é a primeira super-heroína urbana com super-poderes.

7. Black Widow

Descrição: Após ser vitima de assassinato, Claire Voyant retorna do inferno como uma agente do Diabo para matar criminosos e outros praticantes do mal, pois há almas, segundo o discurso da Viúva Negra, que o Diabo está ansioso por possuir.

Imune a ácido e balas, a Viúva Negra envolve suas vitimas em sua capa e o infeliz cai morto aos seus pés.

Primeira aparição: Mystic Comics #4 (Agosto, 1940)

Criadores: George Kapitan e Harry Sahle

Editora: Timely Comics

Destaque: A primeira super-heroína (ou anti-heroína) urbana a ter uniforme, identidade secreta e superpoderes. 

8. Miss Fury

Descrição: Convidada para uma festa e informada que outra mulher usaria um vestido semelhante ao seu, a socialite Marla Drake decide vestir a pele de pantera negra deixada pelo tio e que tinha pertencido originalmente a uma feiticeira africana. No caminho para a festa, todavia, ela impede um crime e assume a identidade de Miss Fury.

As histórias de Miss Fury, traduzidas no Brasil como Mulher-Pantera, nunca afirmaram categoricamente se a habilidade e força demonstrada pela heroína vinha da pele do animal ou da própria Marla, o que acrescentava um elemento extra de curiosidade a personagem.

Ao contrário da maioria das outras combatentes do crime de vida curta, a Mulher-Pantera foi publicada nas tiras dos jornais americanos até o ano de 1952, algo incomum para personagens do período. 

Primeira aparição: Inicialmente com o nome Black Fury (06 de Abril, 1941) e como Miss Fury a partir de 14 de dezembro de 1941

Criadores: Tarpe Mills

Editora: Jornais ligados ao Bell Syndicate

Destaque: A primeira super-heroína criada, roteirizada e desenhada por uma mulher.

9. Phantom Lady

Descrição: Maior representante da chamada “Good Girl art”, um estilo de desenho focado em representar mulheres voluptuosas e sensuais, Lady Fantasma possui uma arma de luz negra com a qual ela cega momentaneamente seus inimigos.    

Apresentada como Sandra Knight, filha de um senador norte-americano, Lady Fantasma teve seu uniforme alterado em meados dos anos 40 para ficar mais sensual. 

A personagem justificou a mudança dizendo que o novo uniforme distraia seus oponentes, mas pelo visto na imagem abaixo ele também funcionava com os heróis. 

Primeira aparição: Police Comics #1 (Agosto, 1941).

Criadores: Will Eisner e Jerry Iger

Editora: Quality Comics

Destaque: A personagem foi usada como exemplo de má influencia sobre os jovens na década de 50 devido ao seu uniforme revelador, mas é a única daqui da lista que se manteve regularmente ativa até os dias de hoje, fazendo parte do universo da DC Comics. 

10. Nelvana das Luzes do Norte

Descrição: Mulher-Maravilha não é a primeira única super-heroína ligada aos deuses. Nelvana das Luzes do Norte é uma poderosa deusa da mitologia Inuit defensora dos povos do norte do Canadá.

Ela pode voar na velocidade da luz usando as luzes do norte, ficar invisível, mudar de forma e derreter metais.  

Eventualmente ela se disfarçava na identidade secreta da agente Alana North.

Primeira aparição: Triumph Adventure Comics #1 (Agosto, 1941).

Criadores: Adrian Dingle

Editora: Hillborough Studios 

Destaque: A primeira super-heroína canadense e a primeira super-heroína pertencente a um grupo minoritário (os povos indígenas do Canadá). 

 

Gostou das super combatentes do crime pré-Mulher-Maravilha?

Na sua opinião, quais delas ainda poderiam estar sendo publicadas hoje?

Deixe seu super comentário, compartilhe com seus amigos e inimigos mortais e assine o blog.

Fontes utilizadas

CUNHA, Jaqueline dos Santos. A representação feminina em Mulher Pantera e Mulher Maravilha. 2016. 151 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Goiás, Catalão, 2016. Disponível em https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/5890 

DON MARKSTEIN’S Toonpedia. Disponível em http://www.toonopedia.com/. Acesso em 08 fev. 2017.

MADRID, Mike. Divas, Dames and Daredevils: Lost Heroines of Golden Age Comics. New York: Exterminating Angel Press, 2013.

______. The Supergirls: fashion, feminism, fantasy and the history of comic book heroines. New York: Exterminating Angel, 2010.

ROBBINS, Trina. The Great Women Super Heroes. Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

Epidemias, pestes e doenças: Porquê você deveria gostar delas

A história da humanidade pode ser interpretada por diversos ângulos: as guerras, as religiões, as mudanças da moda, os avanços científicos e também pela eterna presença das pestes, epidemias e doenças

Danse Macabre – Uma dança medieval em que um esqueleto, representando a morte, leva os vivos em procissão para o túmulo. Muito popular durante a epidemia da Peste Negra

Também presente desde que o ser humano começou a narrar o seu mundo, a literatura fantástica sempre teve nas pestilências e enfermidades um rico material para representar de forma simbólica os medos e ansiedades de comunidades ou grupos sociais.

The Dancing Plague. A Epidemia da Dança, de 1518, levou 400 pessoas a dançarem sem parar na região de Estrasburgo, hoje Alemanha. Muitas morreram de ataques cardíaco ou exaustão.

Por muito tempo incapazes de explicar por meios racionais os efeitos de vírus e bactérias sobre o corpo, culturas diversas buscaram no sobrenatural a resposta para as tragédias que atacavam suas comunidades.

As máscaras contra contágio usadas pelos médicos medievais ajudavam a manter o clima sinistro das epidemias.

De fato, mesmo hoje, em plena era digital, muitas doenças e pragas continuam um mistério, e outras ainda se colocam como ameaça para a humanidade, como a Gripe Aviária, a Doença da Vaca Louca e a Zika

O tamanho continental do Brasil, e o descaso do governo e da população com a prevenção, são pratos cheios para diversas doenças tropicais.

Dentro do fantástico, até hoje esta realidade vem ganhando forma nas criaturas e temas da Literatura Gótica e do Horror.

Se você quer logo saber quais pestes, epidemias e doenças influenciaram no desenvolvimento da Literatura Fantástica, antes de conhecer um pouco mais sobre elas na Mitologia grega e na História, clique aqui.

Sobre mulheres curiosas, deuses ratos e faraós

Nosoi

Ao contrário do que se pensa, Pandora abriu um jarro e não uma caixa, deixando escapar todas as pragas e doenças.

Dentro da Mitologia Grega, as moléstias que atormentam a humanidade tem seu momento inicial no mito de Pandora, a primeira mulher.

Concebida como uma punição ao homem por este ter aceitado o fogo roubado dos céus pelo titã Prometeu, Pandora foi entregue a Epimeteu, irmão de Prometeu, como um presente de Zeus pelo trabalho do titã na criação do primeiro homem.

O soberano dos deuses gregos, todavia, sabia de antemão que a mulher seria a desgraça do homem.

Ao andar pela moradia de Epimeteu, Pandora encontrou um jarro no qual o titã guardava todas as coisas ruins que ela não tinha usado na criação do homem.  

Devido a um erro de tradução no século 16, a palavra grega para “jarro” (pithos) foi traduzida como “caixa” (pyxis).

Movida pela curiosidade, a jovem abriu o jarro e todas as pestes, doenças e enfermidades fugiram.

Representante dos NOSOI, conforme interpretação do RPG PATHFINDER.

Ali terminava a Idade de Ouro da humanidade, para começar a Idade de Prata, quando o ser humano passou a ser vitima dos Nosoi, espíritos fugidos do jarro de Pandora e personificações das doenças e pestilências. 

A primeira diarreia

Ainda na mitologia grega, destaque para o primeiro relato de uma praga na Literatura Ocidental, encontrada no episódio inicial de A Ilíada (Séc. 8 a. C.), de Homero.

Na obra, motivado pela ofensa cometida pelo rei grego Agamenon contra um de seus sacerdotes, o deus Apolo lança flechas místicas nos gregos durante o cerco a Troia.

Apolo primeiro atacou os cães e cavalos com a doença e, depois, os soldados gregos.

Logo, as tropas são acometidos de febre intensa e disenteria.

Somente após realizarem sacrifícios a Apolo, também chamado de “O deus-rato” pela sua associação com doenças e pragas, é que os gregos ficaram livres da enfermidade.  

As pragas do Egito

Saindo da Mitologia, mas ainda no campo do divino como agente causador das pragas, destaque na Bíblia para as 10 pragas do Egito quando, segundo o livro do Êxodo, Deus enviou diversas pragas para forçar o faraó a libertar o judeus do cativeiro no Egito.

Tanto na Ilíada quanto na Bíblia vemos que os povos da Antiguidade relacionavam doenças, pragas e pestes como manifestações da ira divina, devido a sua falta de conhecimento dos mecanismos de contágio, disseminação e tratamento. 

Essa leitura permanece nos dias de hoje, visto que doenças ligadas ao contato sexual recebem o nome de Doenças Venéreas (Doenças de Vênus), remetendo a crença de que elas eram um castigo da deusa do Amor em virtude de alguma transgressão sexual. 

A deusa romana do amor Vênus era chamada de Afrodite na mitologia grega.

A Era Dourada das epidemias, pragas e moléstias

Invasões estrangeiras, fome, intolerância religiosa, desastres naturais e guerras: A Idade Média também poderia ser chamada de Era Dourada das epidemias, pragas e moléstias.

Passagem de cometas, ares poluídos, ira divina, alinhamento dos planetas… tudo era tomado como explicação para as epidemias.

É a partir desta época também que começa a ocorrer a vinculação entre determinadas enfermidades, principalmente a Lepra e a Peste Bubônica, e grupos específicos. 

Todo leproso é gay

“Os homens daquele tempo estavam persuadidos de que no corpo reflete-se a podridão da alma. O leproso era, só por sua aparência corporal, um pecador.”

A afirmação do historiador Georges Duby em Ano mil, ano 2000: em busca de nossos medos (1998), vai ao encontro da vinculação de judeus e homossexuais com uma das mais antigas doenças da humanidade: a Lepra.

A Igreja Católica Medieval ora pregava a compaixão para os leprosos ora os marginalizava.

Nos séculos 12 e 13, por exemplo, o termo “leproso” era usado como sinônimo tanto para homossexuais quanto para judeus.

O elo em comum era a crença de que estes três grupos eram pervertidos sexuais.

O poeta Danta colocou os homossexuais no Sétimo Círculo do inferno, na obra A DIVINA COMÉDIA (1304-1321).

Como mostra Jeffrey Richards em Sexo, desvio e danação (1993), pensadores cristãos do século 12 usavam a palavra “lepra” quase como equivalente a “pecado”.

O Papa foi um dos fundadores da Inquisição

Da mesma forma, no século 13, o Papa Gregório IX usou a palavra “lepra” para se referir a “sodomia”, termo empregado na época para designar o homossexualismo.

No mesmo período, outros escritores ligados a Igreja descreveram leprosos como sendo judeus, homossexuais e hereges. 

Judeus são a Peste

A busca por bodes expiatórios na Idade Média para justificar a desordem social provocadas pelas doenças e epidemias encontrou seu ponto alto durante a epidemia de Peste Bubônica no século 14. 

Transmitida pela picada de pulgas de ratos, a doença matava os infectados em 2 a 5 dias de forma lenta e dolorosa.

Chamada de Peste Negra em virtude das bolhas negras que apareciam na pele, a doença matou um terço da população europeia da época, não escolhendo local, classe social ou religião.

A quantidade de corpos era tanta que os cadáveres eram colocados juntos em valas.

Cidades, vilarejos e monastérios inteiros foram dizimados pela peste. A situação chegou a um ponto que faltou madeira para se fabricar caixões. 

Na busca por explicações, os cristãos buscaram culpados.

Judeus eram queimados em praça pública como forma de se parar a epidemia de Peste Negra.

Em 1321, na França, judeus, leprosos e muçulmanos foram acusados de contaminar os poços de água com a peste, o que levou vários deles a serem sentenciados a morte na fogueira. 

Acusações semelhantes contra judeus como agentes da Peste Negra surgiram em toda a Europa, reforçando a crença da ligação entre esse grupo e o Diabo.

A Peste Negra causou um profundo impacto na mentalidade européia, tanto pela sua ferocidade e disseminação quanto pela falta de conhecimento a respeito dos mecanismo de contágio e cura, o que abriu portas para a associação com o sobrenatural.

Esta ligação das epidemias e moléstias com o sobrenatural perduraria nos século seguintes, como você pode ver nas 6 principais doenças, pestes e epidemias que influenciaram a Literatura Fantástica.

As seis principais epidemias, doenças e moléstias da Literatura Fantástica

Ao ler a lista abaixo, perceba que a relação entre o Fantástico e as enfermidades foi mudando de acordo com o contexto histórico e cultural.

À medida que o conhecimento sobre uma doença especifica foi evoluindo, ou a sociedade encontrou meios para vencê-la, ela saiu dos domínios do sobrenatural, e do Fantástico, para dar espaço para outra moléstia ou temas. 

1. Catalepsia

O que é: Doença que ataca o sistema neurológico levando a pessoa a sofrer de paralisia dos músculos e redução das funções vitais. Não há, entretanto, perda dos sentidos. Pode durar de minutos a alguns dias. A Medicina ainda não consegue explicar totalmente o distúrbio.

A Catalepsia pode ser Patológica, que é a versão mais conhecida da doença e a Projetiva, quando a pessoa acorda pela manhã e não consegue momentaneamente se mexer ou esboçar qualquer som.  

A catalepsia era motivo de preocupação ao longo do século 19 e muitas pessoas vitimas de morte sem motivo aparente eram enterradas com pequenos sinos.

Associado no Fantástico a: Vampiros, Zumbis e os personagens insanos de Edgar Allan Poe. 

Principais obras: “A queda da casa de Usher” (1839), de Edgar Allan Poe.

Apontado por séculos como uma das possíveis teorias para a lenda do vampiro, e do zumbi haitiano, a catalepsia tem no mestre do gótico norte-americano Edgar Allan Poe um de seus mais hábeis utilizadores por manter em seus contos a tensão entre o racional e o sobrenatural.

2. Lepra

O que é: Uma das doenças contagiosas mais antigas a serem registradas. A palavra foi criada pelo médico grego Hipocrates para descrever manchas brancas na pele e no cabelo que se assemelhavam a escamas (léprêã).

A ligação deste termo médico com o universo espiritual se deu quando da passagem para o grego dos textos do Antigo Testamento por volta do século 3 a.C. Ao se realizar a tradução do hebraico tsara’ath (“ímpio”, “profano”) para o grego optou-se pela palavra léprêã. passando a designar então a pessoa com a pele de aparência estranha e impura.

É caracterizada pela gradual e profunda deformação da pele e dos membros. Hoje a doença é chamada de Hanseníase e é tratável.

O Brasil foi um dos países em que a Lepra mais demorou para ser combatida.

Associado no Fantástico a: Personagens marcados por maldição, sacerdotes e párias em geral.

Principais obras: “A marca da besta” (1890), de Rudyard Kipling / “Pelo caiapó velho” (1917), de Hugo de Carvalho Ramos / “As morféticas” (1944), de Bernardo Élis. 

Associada a lugares de atraso e superstição, a lepra no conto de Kipling surge na forma de uma maldição lançada sobre um jovem inglês por um sacerdote hindu, levando-o a sofrer uma terrível mudança animalesca.

Já nos contos de Ramos e Élis, vemos a representação do sertão brasileiro como um lugar ameaçador e cercado de mistérios, algo que um jovem perdido constatará ao entrar em uma humilde casa.

Há de se destacar também a influencia da lepra na criação da doença  Escamagris (Greyscale, no original em inglês) na série literária As Crônicas de Gelo e Fogo (2011- ), de George R. R. Martin, base para a série televisiva Game of Thrones

3. Porfiria

O que é: Na verdade a porfiria é um grupo de doenças genéticas que podem ser herdadas ou adquiridas e caracterizada pela deficiência de enzimas no organismo, que em casos mais graves podem provocar sensibilidade à luz, alterações da cor da pele, distúrbios mentais e convulsões. O nome vem do grego porphýra (“pigmento roxo”)

A doença causa uma profunda deformação em casos extremos

Associado no Fantástico a: Vampiros e Lobisomens

Principais obras: Drácula (1897), de Bram Stoker

A Porfiria foi por muito tempo apontada como uma das principais responsáveis pela crença em vampiros, em virtude das características da doença.

No entanto, no fim do século vinte, o pesquisador Paul Barber demonstrou no livro Vampires, Burial and Death (1988) que, ao ser examinada de perto, essa ligação da doença com o vampiro não se sustentava.

A origem do vampiro folclórico europeu permanece como o resultado da falta de conhecimento das populações do século 18 sobre o processo de decomposição dos cadáveres.   

4. Raiva

O que é: Doença transmitida para humanos pela saliva de algum animal infectado, geralmente por meio de mordida. O vírus no ferimento se desloca rapidamente para o cérebro provocando inchaço e inflamação aguda e letal.

Quase sempre leva a morte se a pessoa começar a demonstrar sinais da doença, tais como confusão, salivação em excesso e convulsões. Dai a importância da vacina preventiva. 

A Raiva é uma ameaça real a humanidade.

Associado no Fantástico a: Vampiros e Zumbis

Principais obras: Extermínio (2002), direção de Danny Boyle  / Guerra mundial Z (2006), de Max Brooks / trilogia Apocalipse Z (2010-2011), de Manel Loureiro

Ainda que também tenha sido apontada como uma das doenças por trás da lenda do vampiro, por conta das mordidas que os vitimados pela doença podem proferir, é com o zumbis que a Raiva encontra a maior associação hoje.

Esta ligação é reforçada pela ameaça real da doença na nossa sociedade em que há a proximidade com animais domésticos que são portadores naturais da doença.

Esta proximidade, aliada ao desequilíbrio da natureza provocada pelo homem, pode gerar uma possível mudança adaptativa na Raiva, levando a mesma a se tornar ainda mais agressiva e contagiosa para o homem.

Se outras doenças listadas aqui pertencem ao passado pelo combate as condições de higiene e fabricação de vacinas, o mesmo não aconteceu com a raiva. 

Esta ameaça paira no filme de Danny Boyle, no romance reportagem de Max Brooks e na trilogia de Manel Loureiro

5. Sífilis

O que é: Infecção sexualmente transmissível caracterizada por uma ferida indolor no local da entrada da doença que desaparece após 4 ou 5 semanas do contágio.

Também chamada de “Cancro duro” pelo eventual surgimento de gânglios em partes do corpo. É um inimigo silencioso que pode levar anos e décadas para se manifestar de forma violenta.

Possui diferentes fases, sendo a terciária e a congênita as mais agressivas, levando a lesões na pele, convulsões, danos nos órgãos internos, reflexos exagerados, perda auditiva, insônia e AVC.

A Sífilis era uma dos grandes fantasmas da rígida (e hipócrita) sociedade inglesa da segunda metade do século 19.

Associado no Fantástico a: Vampiros e Duplos 

Principais obras: O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson / O retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde / Drácula (1897), de Bram Stoker 

Vinculada a práticas sexuais proibidas pelas normas de conduta, a Sífilis é a doença que aparece nas entrelinhas dos romances góticos de fim do século 19.

Mas, não se engane: Ela está lá, nos atos indizíveis do Sr. Hyde, no retrato da imoralidade de Dorian Gray e na vinculação de Drácula com a sujeira e impureza.

6. Tuberculose

O que é: Doença até hoje cercada de mitos e preconceitos, a “TB”, como também é chamada a Tuberculose, é infecciosa, transmissível e afeta principalmente os pulmões.

A principal manifestação da doença é um tosse seca e persistente que dura meses. Outros sintomas são febre baixa, emagrecimento, palidez, suor noturno e falta de apetite.

Pode vir acompanhada de acesso de tosses e catarro com sangue. O tratamento usa antibióticos e dura cerca de seis meses.  

A TB alternava períodos de calmaria com acessos violentos.

Associado no Fantástico a: mulheres mortas

Principais obras:  Todos os contos de Edgar Allan Poe com personagens femininos / Noite na Taverna (1855), de Álvares de Azevedo.

Por vias tortas, a Tuberculose foi a principal musa inspiradora de poetas e escritores românticos na Inglaterra, Estados Unidos e Brasil no século 19.

Doença que vitimou muitos artistas em plena juventude, a TB encontrou em Edgar Allan Poe um de seus principais promotores.

Poe perdeu a mãe biológica, a mãe adotiva e a esposa para a Tuberculose.

Como consequência, as mulheres de seus contos e poemas sempre são cercadas por uma aura sobrenatural, vivendo no plano físico e espiritual. São seres além do alcance dos homens que as veneram. 

Esta mesma visão do ser feminino está retratada na obra do ultra-romântico Álvares de Azevedo, onde as mulheres complementam as taras dos personagens transviados. 

Ao responder, portanto, a pergunta que dá título a este post, lembro da frase “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

Se as epidemias, pestes e doenças são um tormento para a humanidade elas tem, como ponto positivo, o fato de proporcionarem matéria prima para grandes obras e produções ligadas ao mundo do Fantástico, na Literatura, Cinema, Quadrinhos e Games.

E por isso devemos gostar delas.

Gostou da matéria?

Então deixe seu saudável comentário ai embaixo e compartilhe o post com os amigos que você deseja bem.

Obrigado e até a semana que vem! 

Fontes utilizadas

BARBER, Paul. Vampires, Burial and Death. New York: Yale University Press, 1988.

BARING-GOULD, Sabine. Lobisomem: um tratado sobre casos de licantropia. Trad. Fernanda M. V. de Azevedo Rossi. São Paulo: Madras, 2003.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1986. 

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 3. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

FARRELL, Jeanette. A assustadora história das epidemias: pestes e epidemias. Trad. Mauro Silva. São Paulo: Ediouro, 2002.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Trad. Marco Antônio Esteves da Rocha e Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

RUSSELL, Jamie. Zumbis: o livro dos mortos. Trad. Érico Assis, Marcelo Andreani de Almeida. São Paulo: Leya Cult, 2010. 

SILVA, Alexander Meireles da. SOLETRAS. N. 27 (jan. – jun. 2014) Disponível em http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/view/1119. Acesso em 02, fev. 2017.

UJVARI, Stefan Cunha. A história e suas epidemias: a convivência do homem com os microorganismos. Rio de Janeiro: SENAC Rio, 2003.

ZUMBIS: a ciência, a história e a cultura pop por trás do fenômeno. São Paulo: Abril, 2012 (Superinteressante Coleções).

Contato: Alexander Meireles da Silva

Email: fantasticursos@gmail.com

 

  

5 contos de fadas dos irmãos Grimm para as crianças chorarem

Os contos de fadas dos irmãos Grimm vem encantando crianças de todo o mundo por gerações, já tendo sido traduzidos para mais de 160 línguas.

Os contos dos irmãos Grimm se tornaram Patrimônio da Humanidade em 2005 pela UNESCO, braço da ONU para a preservação da Cultura.

É importante destacar, todavia, que Jacob e Wilhelm Grimm não foram os autores de contos como “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Cinderela” e “João e Maria”. 

O livro CONTOS DA MÃE GANSA (1697), de Charles Perrault, marca o início dos contos de fadas como gênero literário.

Assim como aconteceu com Charles Perrault na França de fins do século dezessete, os irmãos Grimm desenvolveram suas histórias a partir dos registros de narrativas alemãs coletados em meio a camponeses, pequenos comerciantes e outras pessoas de origem simples no campo e na cidade.

Muitos destes contos, porém já circulavam não apenas na Alemanha, mas em toda a Europa e até mesmo em outros continentes. 

A primeira Cinderela que se tem registro, por exemplo, se encontra na história “Yeh-hsien”, datada do ano de 850 d.C. na China.

A Cinderela chinesa tinha um vestido feito de plumas de martim-pescador e pequenos sapatos de ouro.

No caso específico dos Grimms, enquanto pesquisadores do campo da Lingüística Histórica, os contos que conhecemos hoje foram a consequência do trabalho de investigação e análise da Língua Alemã do início do século dezenove.

A intenção era o registro e preservação da cultura alemã frente a um contexto de rápidas mudanças culturais em curso com a modernidade.    

Capa da edição de 1819

O resultado foi a publicação inicial em 1812 do volume 1 com 86 contos na obra Kinder- und Hausmärchen

Volume 1 do CONTOS MARAVILHOSOS INFANTIS E DOMÉSTICOS (2012), da editora Cosac Naify.

Em 1815, mais 70 contos foram publicados no volume 2, contabilizando 156 contos

Volume 2 do CONTOS MARAVILHOSOS INFANTIS E DOMÉSTICOS (2012), da editora Cosac Naify.

Inicialmente a obra era voltada para o público adulto em virtude da presença de elementos grotescos, violentos e de forte teor sexual, remetendo a sua origem no meio popular.

Ainda assim, o maravilhoso da obra atraiu a atenção das crianças e, nas edições seguintes, as narrativas foram adaptadas pelos irmãos para o público infantil.

Outras edições se seguiram ao longo do século dezenove culminando na edição de 1857 com 211 contos, sendo destes 11 lendas.  

Mas quanto destes contos você conhece?

Veja agora abaixo 5 contos de fadas dos irmãos Grimm que certamente fariam as crianças chorarem na hora de dormir.

1. “O judeu entre os espinhos”

Um conto que reflete bem o histórico antissemitismo alemão.

Conto n°. 24 do Volume 2 da edição de 1815.

Dono de uma rabeca mágica que obriga a todos que a ouvem a dançarem sem parar, um jovem servo força um velho judeu que cruzou por seu caminho a se embrenhar dentro de arbustos de espinhos a despeito dos pedidos desesperados do homem:

“Pelo amor de Deus”, gritou o judeu, “pare de tocar a rabeca, o que foi que eu fiz de errado?”

Liberado do encanto apenas após entregar 100 moedas para o rapaz, o judeu consegue se desvencilhar do espinheiro e, com a roupa em frangalhos e o corpo todo ensanguentado, procura as autoridades que acabam por levar o jovem a julgamento e o condenam a morte.

Músico e pilantra.

No momento da execução, porém, o servo pede como último desejo que ele possa tocar a rabeca e o juiz concede, levando a todos da corte a dançarem sem parar.

Esgotado fisicamente de tanto dançar, o juiz permite que o jovem fique com o dinheiro e culpa o judeu pela situação. O velho judeu é enforcado e o rapaz fica livre. Fim.  

2. “Quando as crianças brincaram de açougueiro”

Por razões óbvias, este conto só apareceu na edição de 1815, sendo cortada das publicações seguintes.

Conto n°. 22 do Volume 1 da edição de 1812.

Este conto possui duas versões.

Na primeira, um grupo de crianças de 6 anos de idade decidem brincar de cozinha. Um menino seria o açougueiro, um menino e uma menina seriam os cozinheiros, outra menina seria a assistente de cozinha e, por fim, um menino seria o leitão. 

O “açougueiro” então se aproximou do “leitão” e cortou sua goela e a “assistente” recolheu o sangue na vasilha para fazer salsichas.

Um senhor viu a cena e levou o menino açougueiro ao conselho da cidade, mas após intensa discussão não se sabia o que fazer, pois o assassinato tinha acontecido como uma brincadeira de crianças.

Por fim, seguindo o conselho de um velho conselheiro e afim de testar se o menino ainda era puro, uma maça foi colocada em uma das mãos do menino e na outra uma moeda reluzente. O menino, sorrindo, escolhe a maça e é inocentado. 

Na segunda versão do conto, após verem o pai matar um porco, dois irmãos decidem repetir a ação e o mais velho enfia a faca na garganta do mais novo.

Ao ouvir o grito de seu filho, a mãe larga seu bebê na banheira e, tomada pelo desespero ao ver a cena sangrenta, arranca a faca da garganta do filho e a crava no coração do mais velho.

Este caso passava fácil no programa do Datena

Retornando correndo para casa, a mãe constata que o bebê havia se afogado na banheira e, enlouquecida, se enforca. Ao retornar do campo, o marido percebe tudo o que havia acontecido e morre logo depois de depressão. Fim

3. “A mão com a faca”

Abuso infantil e inveja marcam este conto

Conto n°. 08 do Volume 1 da edição de 1812.

Uma mãe tinha uma filha e três filhos, mas demonstrava amor apenas pelos rapazes, enquanto sua filha era submetida a trabalho pesado.

Todos os dias a mãe dava uma faca cega e sem ponta para a menina com a qual ela tinha de cortar lenha para a casa.

Um elfo se apaixonou pela jovem e todos os dias lhe emprestava uma faca encantada que fazia o trabalho da menina ficar mais fácil. Assim ela conseguia realizar a pesada tarefa de forma rápida.

Na volta, ela batia duas vezes na rocha, e a mão do bondoso elfo aparecia para pegar a faca até o dia seguinte. 

Desconfiada da eficiência da filha, a mãe manda os filhos vigiarem a irmã e eles veem o elfo entregando a faca a menina.

Os irmãos tomam a faca da jovem à força e batem duas vez na rocha. Quando o elfo estende sua mão os rapazes decepam a mão da criatura com sua própria faca.

Ensanguentado e pensando ter sido traído pela sua amada, o elfo nunca mais foi visto e a menina continuou sendo explorada. Fim.

4. “As moedas roubadas”

Conto n°. 07 do Volume 1 da edição de 1812.

Um homem estava almoçando na casa do amigo quando, ao meio dia, a porta se abriu e entrou uma menina muito pálida vestida de branco

Sem nada dizer e sem olhar para o visitante, a menina se dirigiu para a sala ao lado. Após algum tempo ela retornou e saiu da casa. A mesma cena se repetiu nos dois dias seguintes no mesmo horário.

Ao indagar seu amigo e sua esposa sobre a menina o casal disse que nada vira ou ouvira. 

No dia seguinte, quando novamente surgiu, a menina foi seguida pelo homem até a sala ao lado e lá ele viu a menina sentada ao chão arranhando avidamente as frestas do assoalho e cavando algo sem ter sucesso.

O conto apela para a tradição sobrenatural do tesouro escondido.

Quando o visitante descreveu em detalhes a garota, a esposa do dono da casa a reconheceu como sendo a filha que havia morrido há quatro semanas.

Ao levantarem as tábuas do piso, eles encontraram 2 moedas que a mãe tinha pedido a menina para dar aos pobres, mas ela resolveu esconder a quantia para comprar biscoitos em outra oportunidade.

Ao falecer seu espirito não conseguiu descanso e assim, sempre ao meio dia, ela surgia para tentar pegar as moedas e cumprir o pedido da mãe.

A família então pegou as moedas, entregou a um pobre e o fantasma nunca mais apareceu.

5. “As crianças famintas”

A fome e o tema do canibalismo são temas recorrentes nos contos de fadas

Conto n°. 57 do Volume 2 da edição de 1815.

Era uma vez uma velha que se viu em tamanha pobreza e com a fome tão insuportável que ficou fora de si e decidiu comer uma de suas duas filhas.

Ela foi até a filha mais velha e disse:

“Tenho de matá-la, para que eu tenha algo para comer”.

A filha mais velha, porém, conseguiu convencê-la a tentar achar comida em algum lugar e, pouco tempo depois, a menina retornou com um pedacinho de pão que foi prontamente dividido entre as três.

Como a fome persistia ela se dirigiu a filha mais nova: 

“Então agora é a sua vez!”

Assim como sua irmã, a caçula convenceu a mãe a tentar conseguir comida em algum lugar e, logo depois, a menina retornou com dois pedacinhos de pão que foram devorados pelas três.

A realidade da família do conto reflete a situação camponesa na Idade Média na Europa.

Ainda assim, algumas horas depois a mãe se dirigiu as duas e falou: 

“Vocês terão de morrer, senão iremos morrer de fome”, ao que elas responderam:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

As crianças morreram de fome, ou a mãe as matou para não morrerem de fome? Você decide.

E aí? Qual é conto de fada, destes acima, que você vai contar para as crianças na hora de dormir hoje?

Deixe seu comentário e compartilhe o post.

Assine o blog para receber semanalmente uma nova postagem como essa e bons sonhos! 

Fontes utilizadas

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São Paulo: Ática, 1998.

GRIMM, Jacob, GRIMM Wilhelm. Contos maravilhosos infantis e domésticos. Trad. Christine Röhrig. Vol. 1 & 2. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

Gostou?

Então deixe o seu comentário e compartilhe com seus amigo visíveis ou invisíveis. 

Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

,   

 

 

   

WESTWORLD: robôs, androides, ciborgues ou autômatos?

Lançada em 2016 pelo canal norte-americano HBO na ambiciosa posição de sucessora de Game of Thrones, a série Westworld vem recebendo elogios de público e crítica pelos episódios sobre a relação homem X robô e, dentre outros temas, a discussão da liberdade (ou falta) de escolha na tomada de decisões dos envolvidos.  

O sucesso da série, todavia, não é resultado apenas dos roteiristas, mas sim de todo um passado literário envolvendo seres artificiais  que podem ser traçados da mitologia grega até os dias de hoje.  

Sobre gigantes, cavaleiros e escritores: os antepassados dos robôs

Talos

Como quase tudo relacionado ao Fantástico no Ocidente, é na Grécia antiga que se encontra as primeiras menções a serem artificiais criados com o propósito de auxiliar o homem com seus afazeres.

Hefesto era o construtor dos deuses e foi o responsável pela fabricação dos raios utilizados por Zeus

Segundo a mitologia grega, foi o deus Hefesto (o Vesúvio dos Romanos) o responsável pela criação do primeiro ser artificial: o gigante Talos.

Hefesto criou Talos para proteger a ilha de Creta, algo que ele fazia se colocando na entrada da cidade grega como se pode ver acima no filme Jasão e os Argonautas (1963).

O gigante de bronze possuía uma artéria interna que percorria todo o seu corpo metálico através da qual fluía o Ichor, o misterioso fluido da vida que lhe concedia vida e que também estava presente no sangue dos deuses gregos. 

Sendo estruturado como uma criação que possuía elementos orgânicos (Ichor) e não-orgânicos (corpo metálico), Talos foi um antepassado de projetos de hoje que buscam mesclar componentes vivos e artificiais e que deram origem no ano de 1960 a palavra Ciborgue (“Cybernetic organism”).

Assim sendo, o gigante de bronze Talos não foi apenas o primeiro ser mecânico que poderia ser chamado de robô, mas também foi o primeiro ciborgue da história ocidental, sendo seguido séculos depois por outros representantes do tipo, como os Borg (Star Trek), Robocop, Exterminador e o super-herói Cyborg.

O cavaleiro mecânico de Leonardo da Vinci

Antes da criação da palavra “Robô” em 1921, todos os engenhos com aparência de ser humano ou de outros animais que reproduzissem movimentos por meios mecânicos ou eletrônicos eram chamados de autômatos.

Só podia ser Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci pode ser considerado um dos pioneiros da Robótica em fins do século quinze com suas idéias sobre um cavaleiro alemão automatizado

A ideia inicial de Leonardo da Vinci

O gênio renascentista deixou vários estudos em desenho para uma estrutura que seria inserida em uma armadura medieval e que seria movimentada por meio de manivelas e cabos.  

Também conhecido como “Soldado Robô” ou “Robô de Leonardo”, estas anotações foram redescobertas no século vinte e finalizadas em 2002 por Mark Rosheim.

O autômato de Leonardo da Vinci se mostrou funcional e podia sentar, ficar de pé, virar a cabeça, cruzar os braços e até levantar o visor. 

A efetivação do projeto em 2002 atestou ainda mais a genialidade do mestre renascentista

O Escritor e Frankenstein

Como se define a vida?

 Produzidos entre 1768 e 1774 como meio de propaganda para a venda de seus relógios, os três autômatos do relojoeiro suíço Pierre Jaquet-Droz correram a Europa fascinado plateias em todas as suas apresentações.

Compostos  por “O Escritor”, “A Música” e “O Desenhista” e inseridos no contexto do século dezoito de valorização da Ciência em detrimento da Religião, as criações de Jaquet-Droz eram tão sofisticadas que levantaram debates sobre o principio da vida e a definição de humano.

Segundo estudiosos, uma jovem inglesa de nome Mary Shelley teria assistido a uma das apresentações do autômato Escritor e se impressionado com a aparência de vida da criação de Jaquet-Droz.

Quanta imaginação tinha essa menina!

Anos mais tarde, ela mesmo criaria a obra definitiva sobre a tentativa do ser humano em criar vida artificial: Frankenstein (1818).  

De autômatos a replicantes: O robô literário

Além de Frankenstein, os autômatos de Pierre Jaquet-Droz também exerceram influencia em outras obras fantásticas do século dezenove, mostrando que, a partir dali e ao longo do século vinte, fantasmas e vampiros passariam a dividir a atenção dos leitores com os produtos da Ciência e do progresso.   

Dentre diversos romances, contos, peças teatrais e filmes, destaque para:

A Eva futura (1886), de Auguste Villiers de l’Isle-Adam

Romance francês que trouxe para a Literatura o termo “Androide”.

Formado pela junção do grego Andro (Homem) e o sufixo oid (tendo a forma ou semelhança de), a palavra “Androide” surgiu na enciclopédia Cyclopædia (1728), de Ephraim Chambers.   

Androides são seres artificiais fabricados para terem o comportamento e a aparência física externa semelhante a dos humanos

Androide #18. Bonita e poderosa.

Curiosamente, o androide da obra de Auguste Villiers de l’Isle-Adam é feminino e se chama Hadaly. Isto quer dizer que, na verdade, ela é uma Ginoide, do grego Gyné (Mulher) e o sufixo oid. 

Esta palavra surgiu no romance Divine Endurance (1985), de Gwyneyth Jones

“Gynoid”. Uma tentativa de se contemplar a questão dos gêneros na literatura de robôs.

Outros termos usados para designar androides femininos, são Fembot e Feminoide. Todavia, “Androide” é normalmente o termo escolhido para ambos os sexos.

É importante destacar que se Hadaly foi a primeira ginoide na Literatura, a posição de primeira autômata pertence a Olympia, da obra O homem de areia (1817), de E. T. A. Hoffmann.  

Olympia na Ópera Les Contes d’Hoffmann (2010)

“O feitiço e o feiticeiro” (1894), de Ambrose Bierce

“O Rei morreu e você também!”

Jogador de xadrez autômato se revolta contra seu criador e o mata após levar um Xeque-Mate. 

É um dos primeiros contos em Língua Inglesa a trazer a descrição de um autômato.

A fábrica de robôs (1920), de Karel Capek

Um cena da peça mostrando três robôs.

Nesta peça teatral a palavra “Robô” surgiu.

Foi o escritor e pintor Joseph Capek, irmão de Karel Capek, que sugeriu o uso da palavra tcheca robota (“servidão”, “trabalho forçado”) para dar nome aos produtos da fábrica R.U.R. (Rossum’s Universal Robots).

Ironicamente, mesmo aqui na obra que as batizou, as criações mostradas não se encaixam na visão popular de robôs da Ficção Científica como um agrupamento de partes mecânicas e eletrônicas.

Robby, um dos mais famosos robô da FC, destaque do filme O Planeta Proibido (1956).

Sendo produzidos de forma biotecnológica a partir da descoberta de um composto orgânico, os robôs de Capek se enquadram melhor na categoria de Androides

De fato, baseado nos episódios da primeira temporada de Westworld, podemos observar semelhança entre os robôs da obra de Capek e os Anfitriões da série no que se refere a sua fisiologia artificial.

Assim sendo, pode ser dito que os robôs de Westworld, apesar do nome, são na verdade androides.

A principal contribuição da peça de Karel Capek é a introdução do debate tanto sobre a exploração dos robôs pelo ser humano, resultando na rebelião do primeiro, quanto sobre a desumanização do homem diante da tecnologia. 

Metropolis (1927), direção de Fritz Lang

Se o primeiro androide na Literatura foi na verdade a ginoide Hadaly, o mesmo ocorreu com o primeiro androide no Cinema: Maria

Considerado por críticos em geral o primeiro filme de Ficção Científica, a ginoide Maria serviu de base para a criação de C-3PO, da saga Star Wars.

 Eu, Robô (1950), de Isaac Asimov

Nesta coletânea de nove contos Asimov apresenta as bases de sua História de robôs.

Listado entre as obras mais importantes do século vinte, o livro de Isaac Asimov trouxe uma nova abordagem para os robôs, afastando-os da imagem de seres ameaçadores e malignos veiculadas nas revistas de ficção científica das primeiras décadas do século vinte.

Destrua todos os humanos!

O robô de Asimov, este sim um ser metálico como a cultura pop costuma representar, tem sua existência regulada pelas chamadas Três Leis da Robótica, princípios que ultrapassaram o campo da Literatura e ainda servem de base para os estudos dos robôs atuais.

Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick

Publicação da Editora Aleph

Clássico cyberpunk de Philip K. Dick, apresenta o termo pejorativo Andys para se referir aos androides perseguidos pelo caçador de recompensas Rick Deckard.

Na adaptação para o Cinema, em 1982, o diretor Ridley Scott adotou o termo “Replicante” para reiterar a capacidade dos androides em replicar a natureza humana, levando os caçadores a aplicar um teste para identificá-los enquanto seres artificiais.   

O filme não teve bom desempenho de público e crítica nos anos oitenta, mas se tornou um clássico cult com o passar dos anos.

O romance se alinha com o efervescente contexto politico-cultural dos anos de 1960 nos Estados Unidos e traz temas recorrentes do autor, como o debate sobre os limites entre o real e o virtual, o impacto da tecnologia na relação do ser humano com seu meio, e o questionamento sobre as definições de humano. 

Gostou?

Então deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos cibernéticos.

Fontes utilizadas

ASIMOV, Isaac, GREENBERG, Martin H., WARRICK, Patricia S. (Ed.). Máquinas que pensam: Obras primas da ficção científica. Porto Alegre: L&PM Editores,1985.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?

“A Bela Adormecida”, “Chapeuzinho Vermelho”, “O Gato de Botas”, “A Gata Borralheira”, “O Pequeno Polegar” e… “O Barba Azul”

Todos estas histórias ajudaram ao compor o Histórias ou contos do tempo passado, com suas moralidades – Contos da Mãe Gansa (1697), de Charles Perrault, livro este que deu origem ao gênero literário do “Conto de Fadas”.

Versão inglesa da obra de Charles Perrault

No entanto, por que mesmo tendo estado ao lado dos contos clássicos mencionados anteriormente “O Barba Azul” seja uma das histórias menos conhecidas e presentes em coletâneas infantis?

Você lê este conto para seu filho ou sua filha na hora de dormir? Provavelmente não. Por que?

Talvez porque ele não seja um conto de fada tradicional.

Como afirma Bruno Bettelheim em A Psicanálise dos Contos de Fadas (1992): 

“…na verdade esta estória não é um conto de fadas porque à exceção do indelével sangue na chave, /…/ não há nada de mágico ou de sobrenatural na estória.”

Então talvez “O Barba Azul” seja um conto gótico.

E se você quiser saber logo sobre os elementos tenebrosos deste conto, antes de conhecer brevemente sobre o Gótico, clique aqui.

Das sombras da razão, surge o monstro gótico

De forma geral, o surgimento do gótico durante o século dezoito, ou como você e eu aprendemos na escola, durante o Iluminismo (cujo nome vem da associação da Luz como um simbolo da Razão), tem sido associada como uma rebelião da imaginação e da necessidade humana na crença do sagrado contra a tirania do racionalismo. 

A luz do saber

De fato, várias descobertas e inovações da época como as leis fundamentais de Isaac Newton, a invenção da vacina, a classificação do ser humano pela Biologia e a criação da Enciclopédia criaram uma atmosfera de fé na Ciência como solucionadora dos problemas da humanidade e seus produtos que veio a influenciar profundamente a Literatura.

Buscando na Grécia e na Roma antiga um modelo de perfeição a ser seguido, os artistas iluministas criaram obras que tinham como base os padrões, métricas e estruturas consagrados por nomes da Antiguidade como Horácio, Longino e Aristóteles.

Aristóteles foi um dos nomes seguidos pelos escritores do século dezoito

Aos poucos, porém, a excessiva preocupação no atendimento a estes princípios começou a provocar uma reação de escritores, que se viam limitados no seu processo de criação.

A qualidade de uma obra muitas vezes dependia mais do quanto ela seguia os modelos clássicos do que seu conteúdo propriamente dito. Começou então a revolta da imaginação contra a razão.

Estava pronto o terreno para o  surgimento do monstro gótico.

O Gótico surgiu a partir das sombras do Iluminismo

Do castelo a casa

A obra  que deu origem a Literatura Gótica foi O Castelo de Otranto (1764) do inglês Horace Walpole.

Imagem da primeira edição

Walpole era fascinado pela Idade Média e em suas viagens pela Europa recolhia objetos e documentos sobre esta época.

Horace Walpole também era membro do Parlamento Inglês

O interesse dele pelo período medieval era tanto que ele transformou a própria residência em um mini castelo gótico batizado de Strawberry Hill.

Strawberry Hill depois da reforma em 2012

Em uma época em que a chamada Arquitetura Neoclássica dominava, como a do Museu Britânico abaixo, a residência de Horace Walpole se destacava das demais. Com o tempo ela se tornou atração turística em Londres. 

Museu Britânico, fundado em 1753.

Em Strawberry Hill, Walpole construiu uma pequena gráfica onde começou a dar vazão a sua paixão pelos tempos medievais, resultando em O Castelo de Otranto.

Apresentado como um texto que ele teria encontrado nas ruínas de uma igreja na Itália (um predecessor do famoso “Baseado em fatos reais”), O castelo de Otranto foi um enorme sucesso, o que levou Walpole a assumir a autoria na segunda edição e acrescentar o subtítulo: “Uma história Gótica”.

Saque do Império Romano pelos Visigodos em 24 de agosto de 410.

Pronto! A menção aos Godos, povo responsável pela queda do Império Romano e início da Idade Média, era o que faltava para destacar o romance dos seus pares literários do século dezoito e fundou uma nova vertente literária: o Gótico.

Gótico urbano

Da mesma forma que acontece até hoje, o sucesso de uma obra leva outras semelhantes a surgirem e nas décadas e séculos seguintes, diversos escritores e escritoras buscaram criar obras góticas que refletissem as angustias e ansiedades de seu tempo.

O símbolo maior do gótico no século dezoito: o castelo

Assim, os fantasmas, profecias, castelos medievais decadentes e vilões aristocráticos do século dezoito deram lugar no século dezenove aos medos científicos. Como explica o crítico Fred Botting:

“A lista [de convenções] cresceu, no século XIX, com a adição de cientistas, pais, maridos, loucos, criminosos e os monstruosos duplos significando duplicidade e natureza maligna.”

Em plena era da Revolução Industrial, a violência e a ameaça do castelo gótico e da floresta negra foram substituídos pelas labirínticas ruas estreitas das metrópoles europeias, enegrecidas pela fuligem das chaminés e pelas casas onde mulheres e crianças sofrem a tirania de maridos e pais opressores.

Era o tempo em que a realidade de um Jack, o Estripador se encontrava com a ficção de um Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

As ruas de Londres

Horrores modernos

O desespero do mundo de hoje

No século vinte, a velocidade e tamanho dos grandes centros urbanos, ampliados no século vinte e um, tem gerado tal angústia, ansiedade e sentimento de opressão no homem moderno que Angela Carter, uma das escritoras que mais utilizaram a linguagem dos contos de fadas e da literatura gótica em sua obra, comentou: “Nós vivemos em tempos góticos”.

Não é a toa, alias, que Angela Carter batizou sua coletânea de contos Bloody Chamber (1978) (no Brasil, O quarto do Barba Azul) em alusão a um dos contos do livro, baseado em “O Barba Azul”, de Charles Perrault.

Lançado no Brasil no ano 2000

Mas, afinal de contas, o que este conto de fada tem a ver com o gótico a ponto de ser inapropriado para as crianças?

Veja os pontos de contato do conto com a tradição gótica, quase um século antes de O castelo de Otranto

1. Origem em dois personagens reais malditos

Diferente das outras narrativas de Contos da Mãe Gansa, “Barba Azul” não tem antecedentes nas narrativas folclóricas de onde Perrault retirou seus contos. Ele tem base histórica em dois assassinos que muito se assemelham aos vilões aristocratas dos primeiros romances góticos.

Viúvo assassino

Há um certo consenso entre estudiosos de contos de fada que o personagem Barba Azul foi inspirado em duas figuras históricas da região noroeste da França conhecida como Bretanha:Be

Conomor, o Amaldiçoado

Conomor (“Cão do Mar”) no dialeto da época, se tornou governante da Bretanha em meados do século seis após depor o príncipe legitimo e se tornou o flagelo do clero local.

Por causa de seus atos ele foi excomungado pelos bispos da Bretanha. Na lenda local ele sobreviveu a todos os seus inimigos e tornou-se um bisclavret, ou lobisomem.

Sua ligação com Barba Azul ocorre devido a um episódio de sua vida registrada na obra Vita de São Gildas, publicada cinco séculos após a morte do santo bretão Gildas, o Sábio e desde então se tornou uma lenda britânica.

Reza a lenda que quando Conomor, O Amaldiçoado, se casou com a jovem Tryphine, ele já havia matado várias de suas esposas anteriores.

Um dia, a caminho de fazer suas orações na tumba de sua família, Tryphine foi avisada pelos próprios fantasmas das esposas mortas de que ela seria a próxima vitima assim que estivesse grávida.

Como já esperava uma criança de Conomor, ela foge, mas acaba sendo pega pelo marido no meio da floresta negra e é decapitada. Todavia, graças a São Gildas, Tryphine e seu bebê são trazidos de volta à vida. 

Tryphine e seu filhos foram canonizados.

Gilles de Rais, o Marechal da França

Companheiro de armas de Joana D’Arc, Gilles de Montmorency-Laval foi enforcado em 1440 por Satanismo e pelo assassinato de dezenas de crianças.

Assassino confesso, ele relatou que usava de sua posição social para levar as crianças de vilarejos próximo para o seu castelo com a promessa de lhes oferecer melhor condição de vida.

Lá ele os estuprava, pendurava em ganchos e cortava suas gargantas. 

Heróis nacional e Serial Killer

Mais de quarenta corpos nus de crianças foram encontrados em seu castelo.

A associação entre a criação de Perrault e este nobre europeu tem sido tão longamente explorada que na peça Santa Joana (1923), do dramaturgo irlandês Bernard Shaw esse personagem histórico é chamado de Barba Azul, com direito até mesmo a uma barba dessa cor.

2. O Bárbaro Louco

O Oriente exerceu profundo impacto na Literatura Gótica desde os seus primeiros momentos no século dezoito como uma região de mistérios além do conhecimento da cristandade e dona de uma cultura exótica e sensual.

Publicado em 1786 o romance de William Beckford é um exemplo do fascínio de escritores góticos pelo Oriente.

Já em 1697, todavia, o conto de fada de Perrault estabelecia esta conexão com o Oriente a partir das próprias palavras que compõem o nome do personagem.

Barba…

Perrault escreveu seu conto durante o reinado do Rei Luis XIV, chamado também de “O Rei Sol”. O fato é que este regente também poderia ser chamado de o Rei da Alta Costura, dada a importância dada a moda durante o seu reinado.   

Luís XIV – Poderoso e vaidoso

E a barba definitivamente não estava na moda durante o reinado do Rei Sol.

De fato, na França do século dezessete este adereço masculino era associado a falta de modos ou costumes civilizados, algo comumente relacionado a povos bárbaros.

Os muçulmanos usam barba para se sentirem mais próximos dos ensinamentos do profeta Maomé.

E dentro da lógica radical da Europa cristã, os muçulmanos se encaixavam perfeitamente tanto na imagem de bárbaro quanto na de adoradores do Diabo.

Por esta razão, em muitas ilustrações de “O Barba Azul” o personagem é representado como um muçulmano de posse de sua cimitarra pronto a matar a esposa.

Tais ilustrações ajudaram a criar uma imagem negativa do Islã.

Reforça esta leitura a permissão muçulmana a prática da Poligamia, vinculado dentro do conto com a prática de Barba Azul em manter guardados os cadáveres das ex-esposas penduradas em ganchos, como uma versão macabra de um harém.  

Ao entrar no quarto proibido, a jovem esposa dá de cara com os corpos das ex-esposas de seu marido pendurados em gancho.

… Azul

Associamos tanto a cor azul a paz e a tranquilidade que esquecemos de lembrar que ela também simboliza a Loucura, a Monotonia e a Depressão.

Esta leitura ganha força pelos atos do personagem principal contra as mulheres e mais uma vez reforça a imagem preconceituosa do Islamismo como um desvio da normalidade cristã. 

Dentro deste contexto, o azul se coloca como um indicativo de sua libertinagem sexual, estabelecendo uma ponte com sua origem histórica nos abusos sexuais de Gilles de Rais e sua vinculação a uma religião que permite a Poligamia.

Gravura de Gustave Dore (1862)

Afinal de contas, por que Barba Azul guarda os corpos de suas ex-esposas? A prática da necrofilia é uma possibilidade a ser considerada na interpretação do conto. 

O amor nunca morre

A transgressão sexual é parte integrante da tradição gótica desde o início em O Castelo de Otranto, quando após a morte do seu filho no dia de seu casamento com a princesa Isabella, Manfred decide, ele mesmo, se casar com a jovem para assim não ver o fim de sua linhagem.

Ou então em O Monge (1796), de Matthew Lewis em que por meio de artimanhas do Diabo um religioso faz sexo com a própria irmã.    

3. O casamento acaba com a mulher (literalmente)

Qual é o final de todos os contos de fadas?

Até mesmo “A Bela e a Fera” em que a mulher sofre encarceramento, maus tratos físicos e psicológicos a mensagem no fim é de que o amor transforma e tome-lhe casamento e “Felizes para sempre”.

Felizes para sempre, ou até a chegadas das contas, crianças, sogra…

“O Barba Azul”, ao contrário, parte do casamento para mostrar, talvez, o que acontece as princesas depois do fim dos contos de fadas. Ainda mais em tempos passados.

Se muitas vezes se diz hoje que o casamento acaba com a mulher, “O Barba Azul” difere dos demais contos de fada por mostrar que isso não fica apenas no plano metafórico.

Na Literatura Gótica, além do já mencionado O Castelo de Otranto, outras obras mostram o casamento como uma instituição opressora do ser feminino, como em O Morro dos Ventos Uivantes (1847), da escritora inglesa Emily Brontë, em que a heroína se vê dividida entre o coração e sua obrigação como mulher casada.

Um dos precursores da Literatura YA (Young Adults).

Isso explica porque este conto foi por muito tempo excluído de coletâneas voltadas para as crianças. Faça você um teste: olhe ai em sua casa se em alguma coletânea de contos de fadas, voltada exclusivamente para o público infantil, tem “O Barba Azul”.

Vamos lembrar que, principalmente desde o século dezenove, os contos de fadas foram usados para educar as meninas sobre o comportamento social esperado delas: aguardar sentadas (as vezes até adormecidas) o príncipe encantado que finalmente as levaria para o único reino encantado reservado ao feminino: o casamento.

Como então incluir para as meninas um conto em que a esposa é morta e pendurada em um gancho, sabe-se lá Deus pra que, se ficar bisbilhotando as coisas do marido? 

Tenso…

Afinal de contas, por que você não lê o “Barba Azul” para as crianças?

Charles Perrault não criou os contos de fadas clássicos que conhecemos.

Ele apenas recolheu as narrativas folclóricas de seu tempo e as editou para que ficassem adequadas para serem narradas nos sofisticados salões franceses de fim do século dezessete.

Todavia, em “O Barba Azul” a violência é parte tão integrante da história que não houve como suavizar os elementos que constituem a história, resultando em um conto de horror em meio aos demais.

Uma noite tranquila

Por fim, se você quiser um conto que faça o seu filho ou filha ficar agarradinho a você a noite toda, recomendo que leia a história do excêntrico viúvo aristocrata, possuidor de uma grande barba azul, que em seu novo casamento levou a jovem esposa para um castelo isolado e lá a advertiu a não abrir um quarto específico no labiríntico lugar, mas uma vez desobedecendo ao marido ela descobriu neste aposento os cadáveres das esposas anteriores do marido pendurados em ganchos, o que quase a levou a morte por decapitação se não fosse pela providencial chegada dos irmãos.

Mais uma vez, salva pelo patriarcado

E tenha um boa noite.

Se gostou, deixe seu comentário e assine o blog para receber notificações de novas postagens

Fontes utilizadas

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. 9ed. São Paulo: Paz e Terra, 1992

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997

CARTER, Angela. Burning your boats: collected short stories. London: Vintage Random House, 1996

FRANKLIN, Michael. Orientalism. In: MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998, p. 168-171

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

SILVA, Alexander Meireles da. “O Barba Azul”: conto de fadas ou conto gótico?. Disponível em Revista de Letras do Instituto de Humanidades.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

 

5 razões pelas quais você não tem medo de Múmia

Semelhante ao seu primo sobrenatural sugador de sangue, ele habita a fronteira entre os vivos e os mortos, dorme em um caixão, possui raízes nobres em terras exóticas e tem poderes sobre-humanos. Sendo assim, por que a múmia não possui o mesmo status junto ao público, escritores e roteiristas que o vampiro ou outros ícones do horror, como a criatura de Frankenstein e o lobisomem? 

universal-monsters
Monstros clássicos do Universal Studios

Se você quiser pular direto para as 5 razões, clique aqui.

Mas se quiser descobrir brevemente os mistérios que criaram a mítica desta criatura no Egito e sua representação na Literatura e no Cinema continue a leitura abaixo.

Terra imortal

Ainda que em todos os continentes ao longo da história da humanidade tenham existido culturas que praticaram a mumificação, foi no Egito antigo que esta técnica se aprimorou, tendo seu início no ano 2950 a. C. e alcançando seu ponto alto no ano 1100 a. C.

Empacotado para a viagem ao outro mundo
Empacotado para a viagem ao outro mundo

O propósito da múmia era a conservação do corpo em virtude da crença na imortalidade do indivíduo. A morte, para o egípcios, era passageira e a alma da pessoa poderia retornar ao corpo caso este estivesse conservado

Hórus X Jesus

Os mistérios do Egito começaram a ser moldados no século 4, quando o Cristianismo foi implantado no país por meio do Império Romano e os tempos dedicados ao deuses egípcios foram fechados por ordem do imperador Teodósio I.

horus
Muitos mitólogos apontam os pontos de contato entre Hórus e Jesus Cristo.

Com a morte dos sacerdotes e escribas egípcios, o conhecimento pala ler e escrever os hieróglifos (do grego, “escrita sagrada”) se perdeu e os mortos pararam de ser mumificados, dando início aos mistérios sobre seus significados.

hieroglifo
Apenas membros da realeza, possuidores de altos cargos, escribas e sacerdotes tinham o conhecimento para ler os hieróglifos.

Nasce a alquimia da múmia

Os árabes tiveram papel chave na criação do imaginário que temos hoje da múmia e do Egito como um todo quando a região do Nilo se tornou parte do mundo árabe na primeira invasão islâmica em 639.

Intrigados com os hieróglifos, construções e os corpos embalsamados daquela civilização, os árabes chamavam o Egito de Al Keme (“A Terra”), que fazia menção tanto ao fértil solo nas margens do Rio Nilo, quanto a magia oculta naquele local que eles não compreendiam.

Para alguns historiadores, vem dai a palavra “Alquimia”, ou seja, a utilização e manipulação de palavras específicas e elementos para a transformação de uma substância em outra. 

Além de “Alquimia”, a própria palavra “Múmia” nasceu entre os árabes através do termo mumiya (“corpo embalsamado”).

A múmia invade a Europa

Ansioso por se comparar ao grandes conquistadores do passado em suas campanhas na Ásia e na África, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito em 1798 levando junto com sua tropa centenas de biólogos, linguistas, matemáticos, químicos, botânicos, zoólogos, economistas, poetas e outros especialistas.

Napoleão diante da Esfinge
Napoleão diante da Esfinge

 O resultado foi o começo de uma Egiptomania que trouxe para a França diversos tesouros, monumentos e documentos, muitos dos quais ainda fazem parte do cenário parisiense de hoje, como o Obelisco de Luxor na Place de La Concorde, que originalmente ficava na entrada do Templo de Luxor, no Egito.   

obelisco-place-concorde
Até hoje o Egito cobra a devolução de suas propriedades levadas por Napoleão.

Neste clima, estava pronto o terreno para a estréia literária da múmia como criatura sobrenatural  evocadora do horror.

A múmia gótica

Para o crítico S. T. Joshi, autor de Icons of Horror and the Supernatural (2007), Mary Shelley (sempre ela), autora de Frankenstein (1818), pode ter sido a primeira escritora na ficção inglesa a evocar a múmia como uma criatura do horror.

Quanta imaginação tinha essa menina!
Quanta imaginação tinha essa menina!

Na obra, quando Victor Frankenstein vê sua hedionda criação, diz: “Oh! Nenhum mortal poderia suportar o pavor daquela visão. Uma múmia que voltasse a vida não seria tão assustadora.”

Frankenstein ainda pode ter exercido influencia no primeiro romance estrelado por um múmia: A múmia! Um conto do século vinte e dois (1827), da jovem Jane Loudon. Aqui, no entanto, a múmia não é apresentada de forma monstruosa, evocando empatia e não horror.  

Múmia no mundo da FC
Múmia no mundo da FC

Chama a atenção aqui o fato também que a primeira obra protagonizado por uma múmia tenha sido na verdade uma Ficção Científica.  

Aguardando um bestseller

Após sua estréia por vias tortas na Literatura Inglesa, a múmia foi personagem nos trabalhos de vários nomes do gótico francês, inglês e norte-americano ao longo do século dezenove e vinte, nunca sendo plenamente estabelecida como um ícone do horror. Dentre estas obras que ajudaram a estabelecer características das histórias da múmia destacam-se:

  • “O pé da múmia” (1840), do francês Theóphile Gautier – Introduz o elemento romântico na qual um personagem se apaixona pela múmia. Ainda que fale dos aspectos mágicos da criatura, o tratamento do tema é de comédia.  
  • “Algumas palavras com uma múmia (1845), de Edgar Allan Poe – Primeiro conto em Língua Inglesa a trazer a criatura do Egito. O tom que o mestre do gótico norte-americano imprime, todavia, é de sátira ao invés do horror;
  • O romance da múmia (1856), de Theophile Gautier – Primeiro romance a ser ambientado de forma historicamente precisa no Egito.  
  • “Lot No. 249” (1892), de Arthur Conan Doyle – Este conto do criador do detetive Sherlock Holmes traz pela primeira vez uma múmia revivida como promotora do medo, sendo utilizada como instrumento de vingança contra outras pessoas.   
  • A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker – O romance do escritor de Drácula, traz a estréia do tema da princesa egípcia revivida que tem semelhanças físicas com heroína dos tempos atuais. A mesma abordagem usada no filme A múmia (1999). 

A múmia também saiu do sarcófago nas seguintes obras literárias dignas de nota:

  • “The Nemesis of Fire” (1908), de Algernon Blackwood;
  • “Smith and the Pharaohs” (1912), de H. Rider Haggard;
  • “Imprisoned with Pharaohs” (1924) e “Out of the Aeons” (1935), de H. P. Lovecraft;  
  • “The Empire of the Necromancers” (1932), de Clark Ashton Smith;
  • The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice;

No Cinema

Antes de Drácula, o monstro de Frankenstein e o Lobisomem, a Múmia esteve lá, nos primeiros anos do Cinema, sendo esta o principal veículo no qual esta criatura vem se propagando na cultura pop. As produções mais representativas são:

Cleopatre (1899), direção de George Méliès – Foi com este filme que o pioneiro do Cinema se tornou conhecido nos EUA. Na trama, um homem (o próprio Méliès) picota a múmia de uma rainha e produz uma nova mulher no fogo.

melies-georges-02-g
O pioneiro do Cinema é mais conhecido do público pelo filme Le Voyage dan la Lune (1902).

A múmia (1932), direção de Karl Freund – Clássico dos Estúdios Universal que consagrou a múmia no Cinema norte-americano ao lado de Drácula (1931) e Frankenstein (1931). Estrelado por Boris Karloff.

A múmia (1959), direção de Terence Fisher – Produção dos estúdios ingleses Hammer Films e estrelado pela dupla dinâmica Peter Cushing e Christopher Lee. 

A múmia (1999), direção de Stephen Sommers – Filme que teve o mérito de apresentar de maneira competente o monstro para as novas gerações. O sucesso rendeu duas continuações em 2001 e 2008 sem o mesmo impacto. 

A múmia (2017), direção de Alex Kurtzman – Próxima reencarnação cinematográfica do ser mumificado no Cinema. Estrelado por Tom Cruise o filme traz uma princesa múmia (para aproveitar a onda do empoderamento feminino no Cinema, será?) cujo destino lhe foi tirado injustamente. 

Agora que você tem mais informações, veja as 5 razões pelas quais esta criatura sobrenatural não consegue se igualar a outros monstros do universo do Horror, e que leva você a não ter  medo da múmia:

1. A múmia existe

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

A afirmação do escritor de Horror H. P. Lovecraft em O horror sobrenatural em literatura (1927) ajuda a entender o pouco impacto da múmia como agente do medo.

As múmias existem e você pode visitá-las a qualquer momento em um museu. O conforto desta realidade se alia as pesquisas da ciência que dissecam a múmia aos olhos do público, expondo seu interior, sua humanidade e, indiretamente, eliminando sua aura sobrenatural.

Assim, diferente das outras criaturas que, assim como ela, estão ligadas ao folclore ou a crenças religiosas de um povo, como o vampiro, o lobisomem, o demônio e o fantasma, a múmia está ao alcance da nossa racionalização e, portanto, longe de nossas duvidas (e medos) sobre sua possível existência. 

2. A múmia não possui relevância literária

Pensou em vampiro, lembrou do romance Drácula, de Bram Stoker. Pensou em Duplo, lembrou da novela O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson ou no conto “William Wilson”, de Edgar Allan Poe. Pensou em homem brincando de Deus, lembrou do romance Frankenstein, de Mary Shelley. 

Diga aí uma obra literária famosa sobre a múmia

Um obra literária reflete as expectativas e angustias de seu tempo, incorporadas nos monstros citados acima. Este fato permite uma dimensão de identificação entre leitor (ou expectador) e obra conferindo a esta última uma importância validade pelo público e pelo mundo acadêmico que a leva a estar presente em diferentes mídias e veículos ao longo de anos.

O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas
O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas

A obra mais representativa sobre a múmia é o romance The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice, mas mesmo neste livro Rice não conseguiu o mesmo efeito que tinha conseguido com os vampiros e acaba incorrendo na repetida trama do amor imortal já visto em outas leituras da lenda.

Alguém pode argumentar que o lobisomem também não possui uma obra canônica que justifique sua fama nos dias de hoje, mas a resposta para isso nos leva a terceira razão.

3. A múmia não instiga nosso inconsciente

A múmia certamente chama a atenção por levar você a refletir sobre a sua própria mortalidade. Mas é só.

A fascinação pelo vampiro, por exemplo, passa pelo simbolismo do sangue enquanto elemento ligado a vida, ao sexo e ao sagrado. Inconscientemente você é fascinado e sente repulsa por uma criatura que em seu ataque carregado de tensão erótica realiza, em apenas um ato, dois impulsos básicos do ser humano: comer e copular.

Christopher Lee como Drácula
Christopher Lee como Drácula

Além disso, o estilo de vida do vampiro causa admiração pelo fato de que, na sua existência como morto-vivo, ele está além das convenções morais, religiosas e sexuais que inibem a vida dos vivos.   

Já o lobisomem e o Duplo, por sua vez, tem seu apelo junto ao imaginário sustentado pelo lado bestial e instintivo do ser humano, mantido escondido e reprimido por meio das instituições familiares, religiosas e governamentais e que, de vez em quando, quer emergir e se libertar. É o Id contra o Superego. 

Lembre-se de quando você teve o seu Dia de Fúria.

werewolf-in-london
Transformação no filme Um Lobisomem americano em Londres (1981)

Dr. Jekyll e Mr. Hyde
Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1941)

Por fim, o monstro de Frankenstein nos horroriza por ser a lembrança da transgressão maior: contra a vida. Independente de sua religião, a criatura de Mary Shelley evoca reflexões sobre a Natureza (e o feminino) ser a única responsável pela geração da vida, algo que Victor Frankenstein viola e paga o preço por isso. 

Além disso, o romance de Shelley tem raízes míticas, em narrativas sobre a violação de conhecimentos proibidos e as consequências desse ato. 

prometheus3
A punição do titã Prometeus por ter entregue aos homens o fogo roubado dos deuses foi ser acorrentado em uma pedra e ter seu figado devorado eternamente por um abutre.

4. A múmia não se sustenta enquanto imagem do medo

Desde suas primeiras aparições literárias e cinematográficas a abordagem prevalecente das histórias sobre múmias não provocam o horror, mas sim a compaixão ou empatia pela criatura. 

Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).
Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).

Isso é o resultado de enredos e roteiros que recorrentemente usam o tema da reincarnação da pessoa amada e da possessão espiritual de algum amante pelo espírito ancestral. Assim, o que era pra ser de Horror vira Amor e mesmo os assassinatos da criatura ganham a justificativa na linha do “No amor e na guerra vale tudo”. 

Se você lembrar que o significado da palavra “múmia” é “corpo embalsamado” ai terá outro problema: em muitas histórias na literatura e no cinema a múmia perde suas mortalhas e assume a aparência dos vivos mas dotado de super poderes.

É igual a um lobisomem que não se transforma em lobo ou um vampiro sem caninos salientes. 

 5. A múmia foi substituída pelo zumbi

Cadáver ambulante por cadáver ambulante, o zumbi é mais eficiente hoje na provocação do horror do que a múmia e permite maior reflexão sobre a mortalidade do ser humano. 

zombies-05
Ei, me dá uma mãozinha aqui.

O zumbi supera a múmia, e vem superando outros monstros clássicos da Literatura e do Cinema, por lidar com um dos tabus da humanidade: o canibalismo.

Este canibalismo, e o comportamento dopado do zumbi tradicional (e não aqueles zumbis atletas do filme Guerra Mundial Z) reflete a alienação do ser humano na atualidade dentro da cultura do consumismo desenfreado e da dependência da tecnologia.

 

Ilustração de Steve Cutts
Ilustração de Steve Cutts

E ai? Concorda com as razões pelas quais você não tem medo de múmia, ou não?

Se gostou, deixe seu comentário e compartilhe este texto com seus amigos monstruosos.

Até a quarta que vem!

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LOVECRAFT. H. P. O horror sobrenatural na literatura. Trad. Celso M. Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2007.

   

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

  

     

BLACK MIRROR: Por que você se incomoda tanto?

A série de ficção científica Black Mirror vem despertando comentários variados do público e uma sensação de incômodo pelas possibilidades (ou ameaças?) evocadas em seus episódios. Mas por que você se incomoda tanto?  

Bem vindo ao lado negro

Pra começo de conversa, o que é o “black mirror”?

Smartphones, tablets, notebooks, televisores, computadores… todos eles possuem uma tela negra capaz de refletir coisas ou pessoas (muitas mulheres usam para dar aquela checada básica no look), mas o que a série propõe é levar o expectador a refletir o que exatamente este “espelho negro” reflete, não tanto da aparência física da pessoa, mas de sua alma e, indiretamente, do mundo ao seu redor.

E o reflexo fica cada vez mais perturbador.

Black Mirror e outros espelhos

as
As promessas da tecnologia para o início do século 20

Como você já descobriu com Black Mirror, a Ficção Científica (FC) não tem como propósito principal celebrar os avanços da Ciência e da tecnologia, como na imagem acima, mas sim promover uma crítica sobre os efeitos destes avanços na sociedade e no individuo.

frank
A representação da criatura de Frankenstein no filme FRANKENSTEIN (1931).

Isso vem desde o nascimento do gênero com Frankenstein (1818), da inglesa Mary Shelley.

Em 1816, quando teve a ideia do livro, ela era uma jovem de 19 anos que, assim como os que assistem Black Mirror hoje, também tinha sua cabeça explodida pelas várias inovações científicas da época. 

No caso de Frankenstein, a história do jovem cientista que se deixa seduzir pelo poder de criar a vida por meios artificiais, Shelley queria criticar os avanços da Revolução Industrial na Inglaterra do início do século 19, alertando que os produtos da Ciência e da tecnologia poderiam se voltar contra o ser humano.

451
Distopia Fahrenheit 451

Mais de um século depois do romance de Mary Shelley, e de várias outras obras de FC questionando o uso dado a tecnologia, o norte-americano Ray Bradbury publicou a distopia Fahrenheit 451 (1953).

Neste romance, que se passa em uma América do futuro, os bombeiros queimam livros como parte da política do sistema opressor de fazer com que as pessoas fiquem alienadas em frente a aparelhos de televisão.

tv
Cena do filme FAHRENHEIT 451 (1966), direção François Truffault.

Importante destacar que quando Ray Bradbury escreveu sua distopia a televisão ainda era uma novidade tecnológica nos lares americanos, mas ele percebeu que em pouco tempo aquele produto se tornaria o centro das atenções nas casas.

Não deu outra. Com a TV as famílias passaram a interagir menos, para ficarem hipnotizadas em frente aquele primeiro espelho negro.  

Pelo menos até a chegada da internet e de Black Mirror.  

4 motivos pelos quais você se incomoda com Black Mirror

Nosedive
“Queda livre” (1° episódio da 3° temporada )

1. Você não é feliz

Já teve a impressão que todo mundo no Facebook, no Instagram e no Snapchat é feliz? Todos viajam, todos estão amando e sendo amados, todos estão comprando coisas novas, mas e você? 

Pesquisa da Universidade do Missouri e publicado na edição de fevereiro de 2015 da revista Computer in Human Behavior mostra que as centenas de “Likes” e “Compartilhamentos” de usuários do Facebook podem provocar não apenas inveja, mas também desencadear um processo de depressão em algumas pessoas.

Semelhante ao episódio “Queda livre” (Episódio 1 da 3° temporada), em que sua posição social depende da avaliação de outros cidadãos, as redes sociais acabam fomentando a perpetuação de uma “Cultura da Felicidade” em que as pessoas  precisam mostrar (ou fingir?) que são felizes para não se sentirem marginalizados dentro de seus grupos. A pressão sobre os jovens é maior.

Isso pode explicar o resultado de outra pesquisa, a das universidades de San Diego, California e Florida Atlantic de que jovens com menos de 30 anos se declaram mais felizes do que as pessoas de outras faixas etárias.  

2. Você é falso

Black Mirror
“Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada)

Você é um Hater? Você aproveita o sigilo da internet para insultar e destilar preconceitos? Ou simplesmente falar mal de outras pessoas? O que aconteceria se, semelhante ao protagonista do episódio “Manda quem pode” (3° episódio da 3° temporada), você fosse pego?

Mas e na vida real? Você tem coragem de dizer tudo o que escreveu por trás de um avatar?

O anonimato da rede incentiva o surgimento de uma persona diferente da real, caracterizada pela:

  1. Ausência da individualidade em favor da adoção do comportamento do grupo virtual ao qual a pessoa pertence. O que Michel Maffesoli chama em Tempo das tribos (1998) de “Tribalismo pós-moderno”;
  2. Surgimento de uma máscara virtual governada pelo Id, ou seja, sem controle pela moral e normas sociais e tomada pelos impulsos e desejos. Escreve o que quer contra tudo e todos sem se preocupar com repreensões reais ao seu Eu real por parte de grupos atingidos. 

O incômodo que Black Mirror causa é que a internet pode não vir a ser tão segura para sua segunda identidade quanto você pensa.

O que pensariam os seus pais e amigos se descobrissem quem você é?  

3. Você sabe que Black Mirror vai se tornar realidade (ou já é?)

É perceptível o aprofundamento da questão da tecnologia na terceira temporada da série, lançada em 2016, em relação a primeira, de 2011.

Isso se deve ao ritmo de criação e disseminação de novas tecnologias dentro do espaço que separa 2011 de 2016.

O Instagram e Snapchat, por exemplo, foram lançados respectivamente em 2010 e 2011 e hoje aparecem como rivais do Facebook, criado em 2004.

Isso mostra que a inquietação que você sente com o mundo de Black Mirror pode ser uma percepção de que, quando você menos esperar, ele se tornará real. Não é uma questão de SE, mas de QUANDO.

  1. Aplicativo que permite a você avaliar serviços e atendimento, influenciando na vida profissional da pessoa, como em “Queda livre”?  Uber. Além disso, o Governo da China vem estudando a implantação de um crédito social nos mesmos moldes do episódio da série.
  2. Transferir a consciência humana para as nuvens de informação, como em “San Junipero” (4° episódio da 3° temporada)? O cientista e engenheiro do Google Ray Kurzweil prevê essa possibilidade para 2045.
  3. Realidade alterada pela tecnologia, como em “Engenharia reversa” (5° episódio da 3° temporada)? Face Swap do Snapchat.
  4. Realidade aumentada, como em “Versão de testes” (2° episódio da 3° temporada)? Pokémon Go 

É só esperar pelos demais

4. Você não sabe como (e se quer) se opor ao mundo de Black Mirror

15
“Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada)

Comentários no YouTube sobre a série descrevem pessoas que tiveram pesadelos, passaram mal, choraram ou mesmo vomitaram por causa de alguns episódios.

Outros disseram que pensaram em apagar contas no Facebook e Snapchat. E por que não o fizeram?

O fato é as redes sociais servem como um alivio para a realidade cotidiana de todos.

Por isso você continua pedalando sua bicicleta que alimenta a sociedade da informação de hoje e recebe como recompensa pequenos e constantes consolos, utensílios e implementos. Você confia que eles permitirão a você expressar sua individualidade, mostrar seu talento, quando na realidade (que você não quer reconhecer) irá apenas alimentar o coletivo.

Episódios como “Hino nacional” (1° episódio da 1° temporada), “Quinze milhões de méritos” (2° episódio da 1° temporada), “Toda a sua história” (3° episódio da 1° temporada)  e “Queda livre” refletem essa dependência que o ser humano cibernético de hoje tem da tecnologia. 

Somos Victor Frankenstein e seu monstro em um único ser.

Talvez, no fundo (ou nem tão fundo assim) o incômodo de Black Mirror é uma espécie de desejo pela promessa de tecnologia da série, pois afinal de contas, as inovações tecnológicas não são boas ou más, depende apenas de quem usa. E você quer confiar nisso que está lendo. 

Já que o assunto é esse, alimente o sistema comentando seus episódios favoritos e o que impressionou você nesta série.

E compartilhe. 

Próxima quarta tem mais post. Assine o Blog para ser notificado.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

7 curiosidades sobre “A Bela e a Fera” que você provavelmente não sabia (e a 4° pode até te chocar)

O novo filme da Disney sobre “A Bela e a Fera” para 2017 reforça a vitalidade deste conto de fadas mesmo após 260 anos de sua estréia literária como o conhecemos. Mas há curiosidades sobre esta história que você provavelmente não conhece e algumas podem até te chocar. Veja abaixo:

1. “A Bela e a Fera” não foi criado pela Disney e nem por quem você acha que foi

Quando se fala do gênero contos de fadas, 3 nomes vem a sua mente:

  • Charles Perrault (“Bela Adormecida”, “Cinderela”, “O Gato de Botas”);
  • Irmãos Grimm (“Chapeuzinho Vermelho”, “Branca de Neve”, “João e Maria”;
  • Hans Christian Andersen (“Patinho feio”, “A Pequena Sereia”, “O Soldadinho de Chumbo”

“A Bela e a Fera”, no entanto, foi criado por uma mulher, Madame de Villeneuve (Gabrielle-Suzanne Barbot), e publicado na França em 1740 no La Jeune Ameriquaine et les Contes Marins.

A versão que você conhece hoje foi elaborada por Madame de Beaumont (Jeanne-Marie Leprince de Beaumont) (Figura abaixo) para a obra francesa Le magasin des enfants (1756) e é uma versão reduzida do original de 1740.   

beaumont

Com o conto, Beaumont queria ensinar as meninas e moças a importância das boas maneiras e do bom comportamento. 

Girl Power #SQN

2. Cupido foi a primeira Fera

eros-e-psique

Ainda que Madame de Villeneuve tenha criado o conto no século 18, praticamente todas as culturas possuem uma história em que o amor tem de superar as aparências físicas.

Neste sentido, “Eros e Psique” é mais antiga versão de “A Bela e a Fera” conhecida.

Publicada no século 2 d.C. em Metamorfoses de Lúcio (também conhecido como O asno de ouro), de Apuleio de Madaura, “Eros e Psique” mostra como a jovem Psique se envolveu com o deus Eros (Cupido, como chamavam os romanos) por várias noites em um quarto escuro sem nunca conseguir ver a forma do amado.

Convencida pelas invejosas irmãs de que Eros era um monstro que queria devorá-la, Psique iluminou o rosto do amado quando este dormia e descobriu um ser belíssimo. Eros ficou profundamente magoado com a ação da jovem e desapareceu. Somente após Psique realizar várias tarefas impostas por Afrodite (mãe de Eros) o casal se reconciliou em matrimônio.  

Mexeu com o filho, a sogra se meteu.

3. A Fera não tem uma forma definida

Diferente do personagem da Disney tanto na animação de 1991 quanto na nova versão de 2017 (e que é até simpático), a criatura do conto de fadas não tem descrição física definida.

Ele já foi representado como um javali, urso, cobra, porco-espinho, leão, touro, ou uma mistura de vários animais. Veja abaixo algumas dessas formas:

fera_1 fera_2
fera_3 fera_4

4. “A Bela e a Fera” ensina as mulheres a suportarem a violência doméstica

Partindo de sua experiência lidando com vitimas de abuso doméstico, Laura Beres afirma no artigo “The Romanticization of Abuse in Popular Culture” (1999), que muitas mulheres enxergaram em “A Bela e a Fera”, principalmente ao assistirem a animação da Disney de 1991, um consolo romântico para sua realidade de violência em casa

film

No mesmo artigo, Robin Norwood, autor de Women Who Love Too Much (1985), reforça esta ideia ao dizer que “A Bela e a Fera” parte de uma tradição histórica no qual as mulheres deveriam aceitar um homem independente de sua personalidade, amando-o a despeito de seu comportamento.  

Concordam com a ideia meninas?

5. O vilão Gaston e os objetos mágicos falantes são invenções da Disney

gaston-beauty-and-the-beast beautybeastcharacters

Ao contrário da versão da Disney, não existe um personagem chamado Gaston no conto de fadas de Madame de Beaumont.

Da mesma forma, não há nenhuma menção a objetos encantados falantes, que seriam na verdade os serviçais humanos da Fera.  

A ausência de outros personagens dentro do castelo descrito no conto de fada tem como objetivo reforçar a solidão vivenciada pela Fera até o momento da chegada de Bela.

Por outro lado, as versões da Disney omitem as irmãs de Bela, que por terem sentindo inveja da irmã são transformadas em estátuas ao fim do conto e colocadas em frente ao palácio de Fera para assistirem, eternamente, a felicidade da irmã. 

Inveja é uma m….

6. “A Bela e a Fera” já foi Romance Policial e até Ficção Científica

Dentre as várias adaptações do conto de fadas para outras mídias, formatos e gêneros, destaque para a série de TV A Bela e a Fera (1987-1989), que apresentava o relacionamento entre a advogada Catherine, vivida por Linda Hamilton (a Sarah Connor dos filmes Exterminador do Futuro 1 e 2) e o ser do subterrâneo Vincent, interpretado por Ron Perlman (que interpretou o super herói Hellboy nos dois filmes da série).

Na série o bestial Vincent protegia Catherine dos perigos do crime na cidade de Nova York.

beauty_and_the_beast_1987_tv_seriesJá em Red as Blood, or Tales from the Sisters Grimmer (1983), ficção científica da escritora britânica Tanith Lee, “A Bela e a Fera” aparece na forma do conto “Beauty-Earth”.

red_as_blood

7. A Bela e a Fera e a Fera e a Bela: Releituras atuais

Na literatura de hoje, “A Bela e a Fera” aparece em releituras variadas, mas que, como ponto em comum, trazem personagens femininas que abraçam o lado selvagem e sensual da sua natureza, subvertendo os papeis sociais normalmente reservados as mulheres. Como exemplo você tem:

  • Literatura pós-moderna, como os contos “A corte do Sr. Lyon” e “A noiva do tigre”, de Angela Carter, ambos publicados na coletânea de contos O quarto do Barba Azul (1999)

barba

  • Romances da categoria Novos Adultos, tais como Beleza perdida (2013), de Amy Harmon;

beleza-perdida

beleza-cruel capa

E ai? Já conhecia essas curiosidades? Quais são suas expectativas para o novo filme da Disney? Comente e compartilhe!

E acompanhe novos posts toda quarta-feira às 9h.

Fontes utilizadas

TATAR, Maria. (Ed.). Contos de fadas: edição comentada e ilustrada. Trad. X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

WARNER, Marina. From the Beast to the Blonde: on Fairy Tales and Their Tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When Dreams Come True: Classical Fairy Tales and Their Tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Como você pode sobreviver a Distopia de Donald Trump

trump

Tem jeito não: Donald Trump é o 45° Presidente dos Estados Unidos da América.

E agora? Como sobreviver a Era Donald Trump? O que ela pode representar para o Fantástico?

A eleição de Trump traz a mente outro momento em que o mundo deu uma guinada para a direita com as eleições da Primeira-Ministra Margaret Thatcher na Inglaterra em 1979 e do Presidente Ronald Reagan nos EUA em 1981.

Estes dois eventos representaram o início de uma ideologia conservadora que se estenderia por toda a década de oitenta do século passado, motivando a criação de obras e produções vinculadas ao Fantástico na Literatura, Cinema e Quadrinhos, principalmente na forma das distopias.

warrior

Na Inglaterra de 1982 e 1983, por exemplo, Alan Moore publicou na revista britânica Warrior sua crítica ao governo da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher na forma de V de Vingança, que seria depois finalizada em 1988 dentro do selo Vertigo da DC Comics

O lado negro do sonho

É interessante destacar aqui como outros termos para a palavra “Distopia”, tais como “Utopias negativa”, “Contra-utopia” e “Utopia devolucionária” reforçam a estreita relação entre as distopias e as utopias, e isso não é a toa. Afinal de contas, dependendo de qual lado você está, o sonho para uns é o pesadelo para outros.

a-escola-de-atenas2

A sombra da distopia já estava presente, na verdade, desde o primeiro projeto utópico do Ocidente: A República (380 a. C), de Platão, visto que para o filosofo grego poetas e artistas em geral deveriam ser banidos por não considerarem a razão como seu guia de vida.

Ao longo dos séculos, a medida em que a Ciência avançou e, por tabela, o Racionalismo, as utopias deixaram transparecer cada vez mais suas contradições distópicas.  

Novas distopias, velhos pesadelos

 

we

A distopia moderna nasce no início do século vinte na hoje extinta União Soviética por meio de um romance novamente escrito sob o temor da ameaça as liberdades individuais e conquistas sociais: Nós (1922), de Yevgeny Zamiatin.  

utero_artificial_admiravel_novo_mundo

Muito pouco lido atualmente, esta obra exerceu influencia direta sobre 1984 (1949), de George Orwell e Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, dois romances que ainda hoje são referências para outras produções do gênero.

Se você assistiu a Matrix (1999), por exemplo, saiba que a ideia de seres humanos fabricados em tubos de ensaio saiu do livro de Huxley, como mostra a imagem acima.

    

No Cinema, a Distopia tem sua origem no filme alemão Metropólis (1927), dirigida por Fritz Lang, estabelecendo muito da fotografia usada em outras produções cinematográficas sobre o tema, principalmente durante o mandato da presidência de Ronald Reagan de 1981 a 1989. 

É uma distopia se…

  • A história já começa dentro da realidade distópica (narrativa em media res);
  • A história é ambientada no futuro;
  • O(s) orgão(s) de controle se apoia(m) em um discurso que privilegia a razão em detrimento da emoção ou da imaginação;
  • Inicialmente o protagonista não tem consciência ou se aliena de sua condição de oprimido;
  • As instituições de poder controlam os meios de comunicação omitindo ou manipulando informações;
  • Há um incetivo a atividades coletivas por meio de esportes, rituais e celebrações enquanto que ações individuais, como a leitura, são marginalizadas;
  • O protagonista desperta de sua condição de alienado a partir do contato e interesse com alguém do sexo oposto;
  • Há a presença de um representante da ordem dominante que explica ao protagonista como o mundo se tornou uma distopia;

Distopias do século XX com ameaças do século XXI

Durante os anos Reagan as políticas adotadas encontraram reflexo em diversas publicações e produções distópicas da época. Cito abaixo apenas um exemplo de cada na Literatura, no Cinema e nas Histórias em Quadrinhos:

Literatura

 aia

A História da Aia (1985), de Margaret Atwood

O romance da canadense Margaret Atwood situa-se em um futuro especulativo onde os assassinatos do Presidente e de congressistas americanos atribuídos a terroristas muçulmanos resultaram na dissolução dos Estados Unidos da América e na implantação de um Estado totalitário por militares cristãos fundamentalistas. Ou seja, é o perfil e muitos dos eleitores republicanos que votaram em Trump.

Nesta distopia as guerras quimicas, abortos e o uso indiscriminado de medicamentos levaram a maioria das mulheres a se tornarem inferteis ou gerarem crianças com malformações. Por conta disso, as que ainda são supostamente férteis e são solteiras, viúvas, divorciadas e provenientes de casamentos não legalizados foram aprisionadas pelo novo governo para exercerem a única função social de gerarem crianças saudáveis para a sociedade. 

Considerando a visão de Donald Trump sobre as mulheres… fica a dica.

Cinema

sobrevivente

O sobrevivente (1987), direção de Paul Michael Glaser 

Falar de distopia no Cinema norte-americano dos anos oitenta é falar de Blade Runner (1982), clássico cult do diretor Ridley Scott baseado no romance Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), do escritor Philip K. Dick. 

Mas, como Donald Trump será com certeza um presidente midiático, indico uma distopia com Arnold Schwarzenegger, e que não é O Exterminador do Futuro (1984).

O Sobrevivente é baseado no romance O concorrente (1982), de Stephen King e  mostra como no ano de 2017 (profecia?), os Estados Unidos estarão sob o comando de um governo totalitário que retirou a liberdade individual de toda a população. Livros são queimados e instituições de ensino são fechadas.

A única diversão do povo é a TV, e o programa mais popular é um reality show  em que sobreviver é a única recompensa. Neste cenário um homem é culpado de um crime que não cometeu e sua sentença é para a cadeia ou entrar para o jogo. 

Imagine uma mistura de Jogos Vorazes com Schwarzenegger e o resultado é O sobrevivente

Histórias em quadrinhos

bat

O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller 

Esta graphic novel, que ao lado de Watchmen (1986), de Alan Moore redefiniu o gênero de histórias em quadrinhos de super-heróis, mostra um Batman amargo e envelhecido que anos depois de ter abandonado a carreira de vigilante mascarado decide retornar ao combate ao crime em meio a uma decadente Gotham City do futuro tomada pela violência e a alienação da mídia.

Indico esta obra pela ácida crítica de Frank Miller a sociedade americana e a alienação da Mídia, tendo como pano de fundo a política de governo dos anos Reagan. Ou seja, a mesma coisa a se esperar de Donald Trump.

E agora?

donald-trump-bankruptcy-lies-r

Lendo e assistindo as sugestões aqui de livros, filmes e quadrinhos você não será pego de surpresa pelas possíveis ações do novo Presidente dos Estados Unidos pelos próximos quatro anos.

Considerando a influencia norte-americana sobre a cultura e a disseminação de um pensamento de direita pelo mundo, especulo que nos próximos anos veremos uma nova onda de obras distópicas mais tradicionais, com tom mais sério que distopias adolescentes como Divergente e Jogos Vorazes e com foco no poder da mídia (algo que já se pode ver na série Black Mirror), além do questionamento de conquistas sociais de grupos minoritários.    

É esperar pra ver, mas espero que não!

Que livros, filmes e quadrinhos as promessas de governo de Donald Trump te lembra?

Comente e compartilhe!

E acompanhe novos posts toda quarta-feira às 9h.

Escritor por: Alexander Meireles da Silva

Contatos: fantasticursos@gmail.com