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Você conhece seu corpo? 5 contos fantásticos sobre partes do corpo.

O século 19 e início do século 20 foram o ápice do fascínio do público e da Medicina com as aberrações do corpo.

A história do Homem Elefante já virou filme e peça de teatro.

Na Inglaterra Vitoriana, por exemplo, Joseph Merrick despertou o interesse do público e da comunidade científica da época com sua gradual deformação física, que o levou a ser conhecido como o Homem Elefante. 

Da Esq. para a Dir.: Annie Jones (“A Mulher Barbada”), Jack Earle (“O Homem mais alto do mundo”) e Myrtle Corbin (“A garota de quatro pernas do Texas”)

Já nos Estados Unidos, espetáculos freaks itinerantes tais como o do circo Ringling Bros.’ corriam o país mostrando corpos que subvertiam as convenções do normal.

Corpo Fantástico (e rebelde)

Na Literatura Fantástica, em suas diferentes vertentes, o corpo humano sempre forneceu histórias sobre partes do corpo que assumem comportamentos insólitos. 

Na Fantasia, apenas para citar um caso dentre tantos, quem não lembra do nariz de Pinóquio? Membro acusador da transgressão da honestidade do boneco de madeira.

No Gótico, o monstro de Frankenstein, composto de membros de cadáveres, denunciava a transgressão da Ciência sobre os mistérios da vida.

Na Ficção Científica, “O estranho caso dos olhos de Davidson”, de H. G. Wells, mostra como após um acidente, os olhos de um homem passam a enxergar não o mundo a sua frente, mas a realidade do outro lado do planeta.

Veja abaixo algumas outras obras em que partes do corpo ocupam papel central na construção do fantástico na Literatura.

1. Mão

Obra: “A mão encantada”

Ano de publicação: 1832

Autor: Gérard de Nerval (1808-1854)

Sinopse: Para conseguir vencer um duelo contra um militar, um comerciante de tecidos recorre a feitiçaria cigana e fica com a mão encantada. Após vencer o duelo ele não consegue controlar a mão e esta acaba agredindo o magistrado que julgaria seu caso. Após ser enforcado, a mão do morto permanece ativa, o que leva o carrasco a cortar a mão do cadáver. Após se libertar do corpo do enforcado, a mão abre caminho entre a multidão estarrecida e alcança o cigano que lhe deu vida.

Curiosidade: Conto marcado pelo simbolismo moral da agressividade que o ser humano carrega dentro de sua natureza. 

2. Nariz

Obra: “O nariz”

Ano de publicação: 1835

Autor: Nicolai Vassilievitch Gogol (1809-1852)

Sinopse: Sentado a mesa para o café da manhã junto com sua esposa o barbeiro Ivan Iákovlevitch descobre dentro de um pão o nariz de seu cliente, o major Kovaliov. Após vários incidentes tentando se livrar do nariz o barbeiro acaba jogando o mesmo em um rio. Ao mesmo tempo o militar procura incessantemente seu nariz, pensando nas consequências de sua imagem sem esta parte do corpo. Após várias ações, o major Kovaliov desperta e percebe que seu nariz está de volta em seu rosto.  

Curiosidade: Sátira feroz de Gogol a burocracia russa. Conto pertencente a fase surrealista do escritor. 

3. Pé 

Obra: “O pé da múmia”

Ano de publicação: 1840

Autor: Théophile Gautier

Sinopse: Homem compra em antiquário um pé de múmia supostamente pertencente a uma princesa egípcia para ser usado como peso de papel. Ao dormir, ele recebe a visita da princesa Heronthis, que explica ao jovem que seu pé foi roubado e o quer de volta. O homem então pede a princesa uma estatueta em troca pelo pé. Heronthis transporta o narrador até o Egito Antigo onde o rapaz pede a mão da princesa em casamento, pedido este que é negado pelo Faraó, pai de Heronthis. Ao ser despertado por um amigo, o jovem percebe que o pé da múmia desapareceu e em seu lugar há uma pequena estátua. 

Curiosidade: Conto que se apoia na recorrente estratégia do conto fantástico do século 19 do sonho como espaço do acontecimento insólito. Reflete também o fascínio da época na França com a cultura egípcia.

4. Dedo

Obra: “O dedo do meio do pé direito”

Ano de publicação: 1890

Autor: Ambrose Bierce

Sinopse: Dez anos após matar os dois filhos e a esposa, e ainda ter decepado o dedo do meio do pé direito da mulher, um homem chamado Manton retorna a sua região com nova aparência. Ele acaba sendo desafiado para um duelo de faca a ser realizado em sua antiga residência, local onde ele cometeu o crime e que tem agora a fama de ser mal assombrado. Na hora do duelo Manton é encontrado morto com o rosto retorcido de medo. A investigação do lugar revela pegadas de alguém que não possuía o dedo do meio do pé direito.

Curiosidade: Considerada umas das melhores histórias sobrenaturais de Ambrose Bierce com o tema da vingança do além.

5. Orelha

Obra: “O inexplicável caso da orelha de Lolô”

Ano de publicação: 1944

Autor: Bernardo Élis

Sinopse: Homem rejeitado pela prima e trocado por empregado negro corta a orelha deste e prende a mulher no porão da casa para lá ela falecer. Anos mais tarde, ao visitar o local com um amigo de juventude os dois testemunham a orelha decepada ganhar vida e patas e sair da caixa onde estava guardada para levar o assassino a morte pelo pavor. 

Curiosidade: Conto escrito pelo brasileiro Bernardo Élis no livro Ermos e Gerais com a intenção de homenagear o escritor norte-americano Edgar Allan Poe em “A queda da Casa de Usher”. 

Listei aqui apenas 5 contos, dentre tantos outros exemplos, desta longa tradição de partes do corpo humano que rendem histórias fantásticas na Fantasia, no Gótico e na Ficção Científica na Literatura de todo o mundo.

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Fontes utilizadas

CALVINO, Ítalo (Org.). Contos fantástico do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ÉLIS, Bernardo. Ermos e gerais. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

GONÇALO JUNIOR. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998.

PAES, José Paulo (Org.) Os buracos da máscara: Antologia de contos fantásticos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

SNODGRASS, Mary Ellen. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, Inc., 2005.

 

 

DARK UNIVERSE: O que os monstros da Universal podem mostrar hoje?

Monstros dos estúdios Universal
Da esq. para dir.: Homem-invisível, Dracula, o Monstro de Frankenstein, a Múmia, o Monstro da Lagoa negra, o Fantasma da Ópera, a Noiva de Frankenstein e o Lobisomem.

Nesta semana os estúdios Universal anunciaram o longamente prometido reboot da sua franquia de monstros, popularmente conhecida como “Os Monstros da Universal”.

A iniciativa, batizada de Dark Universe, vai re-apresentar os monstros do estúdio para a geração de hoje.

Mas, o que esperar deste projeto?

Em 2014 a presidente dos Estúdios Universal falou do assunto no The Hollywood Reporter ao declarar que os novos filmes de seus monstros estariam menos ligados ao Horror e mais vinculados ao gênero Ação e Aventura, além de outros gêneros.

Na ocasião, Donna Langley disse que o propósito é “reimagina-los e reintroduzi-los para um público contemporâneo”

Esta visão pode ser percebida no ritmo do primeiro filme do Dark UniverseA Múmia – lançado em 8 de junho de 2017 nos cinemas. 

Mas, quais medos e ansiedades estes monstros podem representar hoje em relação a sua primeira encarnação entre as décadas de 1920 e 1950?

A primeira encarnação monstruosa

Na sua primeira encarnação, e com base nos planos atuais do estúdio, pode ser estabelecido que a franquia de Monstros da Universal teve seu início nos anos de 1920 com O Fantasma da Ópera (1925).

O único filme da franquia lançado ainda na era dos filmes mudos, esta adaptação do romance O Fantasma da Ópera (1910), do escritor francês Gaston Leroux foi um sucesso de público e foi relançado em versão com som em 1930.

Isso animou o estúdio a dar prosseguimento com sua franquia monstruosa, que seria continuada com Drácula (1931), dirigido por Tod Browning e trazendo Bela Lugosi no papel que o imortalizou como o conde vampiro.  

O sucesso estrondoso da adaptação do livro de Bram Stoker de 1897 consolidou o caminho para outras criaturas, refletindo neste processo o alinhando dos monstros da Universal com os fantasmas da sociedade norte-americana dos anos de 1930 até 1950.

Dentre estes fantasmas, a enorme crise econômica da América, conhecida como A Grande Depressão, que lançou o país em um ambiente de incertezas e temores.   

Desempregados na América durante os anos 30.

Em um tempo em que as pessoas perdiam seus empregos, casas e a esperança no futuro, a crença em forças sobrenaturais além da compreensão humana ganhou espaço, abrindo o terreno para o monstruoso.  

Mas e agora? O que cada monstro da Universal pode mostrar a geração Y e Z?

O que os Monstros da Universal podem mostrar hoje

Da esq. para a dir.: Russel Crowe, Javier Bardem (sentado), Tom Cruise, Johnny Depp e Sofia Boutella. Os novos rostos dos monstros da Universal.

Assim como ocorreu nos anos 40, os monstros da Universal irão se encontrar em filmes.

No entanto, diferente da época em que estes encontros ocorriam em comédias, já sinalizando o cansaço dessas criaturas como agentes do medo, o Dark Universe irá construir um universo compartilhado.

De fato, como o próprio estúdio coloca, esta será a resposta da Universal ao universo compartilhado de heróis da Marvel e da DC.

O eixo central é o personagem Dr. Henry Jekyll, vivido pelo ator Russel Crowe. Ele será o diretor da Prodigium, um local onde diversas criaturas sobrenaturais são mantidas.

Conheça a Prodigium clicando aqui.

Cabe ao Dr. Henry Jekyll, semelhante a Nick Fury na Marvel e Bruce Wayne na DC, reunir ou eliminar essas criaturas.

Até o momento da escrita deste post, seis filmes do Dark Universe foram anunciados em diferentes estágios de produção:

  • A Múmia (lançamento em junho de 2017);
  • A Noiva de Frankenstein (Em pré-produção e previsto para fevereiro de 2019);
  • O Homem Invisível (Em desenvolvimento e estimado para 2020);
  • O Monstro da Lagoa Negra (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • Van Helsing (Em desenvolvimento e sem data prevista de lançamento);
  • O Lobisomem (Em desenvolvimento e sem data prevista em lançamento).

Ainda que seja esperado que a ação supere a reflexão no que se refere a explorar os monstros como símbolos de questões contemporâneas, fica aqui abaixo o que cada monstro pode trazer de debate com base no seu legado literário.

1. A Múmia

Origem: Cultura egípcia 

Obra de estréia: A Múmia (1932)

Melhor filme até aqui: A Múmia (1999)

LegadoA múmia já foi objeto de análise aqui no blog onde eu discuti os problemas que cercam o personagem. Para ler o post, clique aqui.

Basicamente, o personagem guarda semelhança com o vampiro enquanto criatura morta-viva e de passado nobre, mas não tem o forte simbolismo erótico do primeiro. 

Além disso, enquanto monstro que nos leva a refletir sobre a nossa mortalidade e o além-vida, a múmia perdeu seu espaço para o zumbi. 

2. A Noiva de Frankenstein

Origem: Literatura

Obra de estréia: A Noiva de Frankenstein (1935)

Melhor filme até aquiA Noiva de Frankenstein (1935)

LegadoUm dos maiores ícones femininos no Cinema, a noiva de Frankenstein tem seu nascimento no romance Frankenstein (1818), ainda que na obra ela seja apenas mencionada, mas não de fato criada. 

A força simbólica da personagem pode render excelente debate sobre o empoderamento feminino, principalmente pelo fato de ser (literalmente) um produto do discurso masculino.

3. O Homem invisível

Origem: Literatura

Obra de estréia: O Homem Invisível (1897), de H. G. Wells

Melhor filme até aquiO Homem Invisível (1933)

Legado: Como já também analisado aqui, desde sua gênese literária, o personagem é uma releitura do tema do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson.

O tema da invisibilidade permite a discussão sobre nossos limites éticos. O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? 

4. O Monstro da Lagoa Negra

Origem: Cinema

Obra de estréia: A Criatura da Lagoa Negra (1954)

Melhor filme até aquiA Criatura da Lagoa Negra (1954)

Legado: O caçula dos Monstros da Universal e o único sem ligação literária, folclórica ou cultural, este monstro é produto do discurso científico dos anos 50, fascinado com mutações e seres alienígenas.

Ele simboliza os mistérios e perigos escondidos da natureza e o quanto pode ser perigoso ao homem tentar desvendar esses elementos sem demonstrar respeito pelos mesmos. 

5. Van Helsing

Origem: Literatura

Obra de estréia: Drácula (1897), de Bram Stoker

Melhor filme até aqui: O Horror de Drácula (1958)

Legado: Desde sua primeira aparição o cientista e investigador do sobrenatural Abraham Van Helsing simboliza o agente responsável pela restauração da ordem em um mundo onde o caos se manifesta por meio do monstro.

Por vezes, subvertendo até mesmo a ética para alcançar esse fim.

6. O Lobisomem

Origem: Mitologia

Obra de estréia: A Lobisomem (1913) (filme perdido da Universal)

Melhor filme até aquiO Lobisomem (1941)

Legado: Assim como o próprio personagem do Dr. Jekyll (e Mr. Hyde), o lobisomem tem sua força enquanto monstro que aborda a dualidade do ser humano. O embate entre nossos impulsos e vontade individuais contra nossas obrigações e deveres sociais. 

Agora é só esperar que façam um bom trabalho com a enorme tradição cultural destes monstros atemporais, sem apelarem apenas para efeitos especiais.

E aí? Quais são as suas expectativas para o Dark Universe

Será que vão respeitar o legado dos Monstros da Universal?

Deixe seu comentário, compartilhe este post com seus amigos monstruosos e assine o blog.

Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LEADBEATER, Alex. The Mummy Director Explains Dr. Jekyll’s Role in the Film. In: SCREENRANT. Acesso em 27 maio de 2017.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Será que você é um canibal? O canibalismo no fantástico (Parte 2)

Na primeira parte do post sobre a relação entre o Canibalismo e o Fantástico, que você pode acessar clicando aqui, apresentei um breve panorama de como a prática de comer carne humana acompanha a história da humanidade antes mesmo dela surgir na mitologia grega passando pela Idade Média e chegando aos contos de fadas que conhecemos.

Cronos versus Zeus: Canibalismo mitológico.

Neste segunda parte do post, você vai ver como o canibalismo se tornou uma linha divisória entre o civilizado e o bárbaro, entre o humano e o monstruoso.

A comédia zumbi SANTA CLARITA DIET permite refletir sobre rotina e acomodação na sociedade moderna.

Vai ver também como ele se tornou um simbolo das ansiedades do ser humano no mundo de hoje, algo visto na série da Netflix Santa Clarita Diet e no filme Grave (Raw, no original em inglês).

A relação do individuo com o corpo nos tempos modernos aparece refletido no filme

Se você quer ler logo sobre como o fantástico interpreta o mundo por meio do canibalismo, antes de conhecer a história da prática de se comer carne humana, clique aqui

O Canibal é americano

Polifemo era filho de Poseidon com uma ninfa da água

Quando os europeus se lançaram ao mar no século 15 e 16 eles levaram em seus navios todo o imaginário herdado dos relatos da Antiguidade sobre criaturas monstruosas e canibais, como o do ciclope Polifemo, que devorou os homens de Ulisses na obra A Odisséia.   

O monstro nos confins do mundo

A Literatura de Viagens da época, seguindo essa crença, era repleta de relatos de criaturas antropofágicas que viviam em regiões da Etiópia e da Índia, como os Cinocéfalos, homens com cabeça de cães.

Os cinocéfalos se alimentavam dos viajantes incautos

A chegada dos europeus as Américas trouxe a revelação de que alguns dos povos indígenas do continente consumiam carne humana em rituais religiosos.

Representação do canibalismo da tribo brasileira dos Tupinambá em 1557, conforme descrição de Hans Staden.

Esse ritual visava adquirir a coragem dos guerreiros inimigos capturados ou como parte de oferenda para os deuses.

Canibal ou Antropófago? 

Foi neste contexto que, ao observarem os índios antropófagos das ilhas do Caribe, os exploradores criaram a palavra “Canibal”

A prática do canibalismo foi um dos motivos alegados pelos europeus para a escravidão indígena, com o pretexto de que eles não eram humanos.

Mas, qual é a diferença entre Canibalismo e Antropofagismo? 

Todo antropófago é canibal, mas nem todo canibal é antropófago.

Explico.

O Canibalismo ocorre quando um individuo de uma espécie come outro representante da mesma espécie. Não é exclusivo do universo humano.

No caso do Louva-a-deus o canibalismo é cometido pela fêmea, que devora o macho depois do ato sexual.

Já a Antropofagia (do grego anthropos, “homem” e phagein, “comer”) ocorre especificamente quando um individuo humano come a carne de outro ser humano.

Canibais brancos e cristãos

Ainda que após o contato entre europeus e os povos indígenas, estes últimos tenham sido associados a antropofagia, os colonos brancos (e cristãos) também não ficaram de fora.

Durante o ano de 1609 na cidade de Jamestown, uma das primeiras experiências colonizadoras na América, os colonos ingleses precisaram recorrer ao canibalismo como forma de sobreviverem ao rigoroso inverno que se abateu sobre o assentamento. 

O canibal é o outro

Sendo um dos principais tabus da humanidade, o canibalismo sempre é associado a alguém pertencente a alguém de outro grupo. Nunca a nós.

O Kindilfresser é um comedor de crianças da Suíça cujas origens podem estar relacionadas ao preconceito contra os judeus.

Judeus, muçulmanos, índios, negros… todos os que não pertenciam ao padrão branco, cristão e europeu eram enxergados como canibais em potencial.

O Papa figo é um negro leproso que coloca as crianças no saco para depois comer o figado delas.

No folclore do Brasil, esse preconceito está expresso em criaturas canibais ligadas ao medo infantil, tais como o Papa figo e o Quibungo.

O Quibungo é negro e tem uma bocarra nas costas por onde ele enfia as crianças que pega.

Para saber mais sobre essas e outra criaturas, leia o post aqui do blog “Você conhece as 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro?”

O canibalismo no Cinema

Depois de passar pela Mitologia e pela História, o canibal encontrou no Cinema o espaço ideal para mostrar seu apetite.  

Os pais dos canibais cinematográficos

Dois filmes da década de 1960 foram os responsáveis por promover uma verdadeira invasão de comedores de carne humana no Cinema dos anos setenta.

Para assistir ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

  1. Mondo Cane (1962)

Produção italiana que inaugurou o gênero Shockumentary, este filme traz vários costumes e práticas de povos e comunidades ao redor do mundo, dentre os quais, o canibalismo.

2. A noite dos mortos-vivos (1968) 

Filme que reinventou o personagem folclórico do zumbi no cinema e introduziu o tema do canibalismo no fantástico. O primeiro zumbi canibal está aqui

Se quiser saber mais sobre zumbi, veja o vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 curiosidades monstruosas: Zumbi”.

Os anos de fartura para o canibal

Os anos setenta foram os anos dourados do canibalismo no Cinema dado o grande número de produções na Itália e nos Estados Unidos com esta temática.

Estes filmes podem ser encontrados no YouTube e para assistir abaixo ao trailer de cada um, basta clicar nas imagens.

Cito abaixo as produções mais relevantes para a Ficção Científica e o Horror:

  1. No mundo de 2020 (Soylent Green / 1973) 

Se A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells é o primeiro romance de ficção cientifica a tratar do canibalismo, No mundo de 2020 é a primeira distopia a tratar do tema no Cinema. 

Vivendo em um mundo onde a ração Soylent Green é distribuída a população faminta, o policial vivido por Charlton Heston inicia uma investigação sobre a morte de um executivo que o leva a descobrir do que a ração é feita.

2. O massacre da serra elétrica (The Texas Chain Saw Massacre / 1974)

Clássico do Horror, o filme de Tobe Hooper ganhou uma refilmagem em 2013 para celebrar os 40 anos do original. 

O filme introduziu o canibal Leatherface, considerado um dos maiores vilões de todos os tempos e que antecipou outros assassinos de adolescentes nos anos seguintes em filmes como Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

3. A montanha dos canibais (La montagna del dio cannibale / 1978)

Trazendo a bela Ursula Andress como protagonista, este filme se insere nas produções do ciclo canibal italiano iniciada em 1972 com The Man from the Deep River e apela para a temática da Literatura de Raças Perdidas como pretexto para cenas de nudez, violência extrema e até zoofilia, por conta da cena de um canibal transando com uma porca!

O canibal no espelho

As últimas décadas do século vinte e o início do século vinte e um forneceram o contexto para uma renovação do canibalismo no Cinema ao subverter a fronteira entre o civilizado e o selvagem, entre o Eu e o Outro. 

A modernidade faz do ser humano um canibal.

Este é o caso dos filmes abaixo. Para assistir aos trailers, basta clicar nas imagens.

1. Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust / 1980)

Ao contrário do que se pode pensar, Bruxa de Blair (1999) não foi o primeiro filme de horror do gênero Found footage e Mockumentary, isto é, produção que simula a descoberta de material de filmagem de um equipe cinematográfica desaparecida durante a realização de pretenso documentário.

Na frente das câmeras, documentaristas idealistas, por trás das câmeras, sádicos urbanos

Este mérito cabe a Holocausto canibal, conhecido como “O filme mais polêmico e controvertido de todos os tempos”.  

Banido de vários países, esta produção italiana levou o diretor Ruggero Deodato aos tribunais por ser acusado de realizar um Snuff Movie, ou seja, um filme em que um assassinato real é realizado para fins lucrativos e de entretenimento.

Na ocasião ele teve de provar que todos os atores estavam vivos e bem.

No filme, a equipe de filmagem agride os indígenas de todas as formas.

O maior impacto de Holocausto canibal foi deslocar a barbárie dos índios canibais para os jovens cineastas, que praticaram todo o tipo de crueldade com os indígenas em busca de um documentário impactante.

A cena da câmera que fica gravando depois da morte do último personagem, foi inventada neste filme.

O resultado foi a vingança dos nativos contra uma nova espécie de monstro: o homem civilizado.

2. O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs / 1991)

Adaptação do segundo romance de 1988 de Thomas Harris, este filme ganhador de vários óscares apresenta no cinema o psiquiatra Hannibal Lecter.

Vencedor de vários prêmios, o filme rendeu o Oscar de Melhor Ator para Sir Anthony Hopkins.

Culto, cortês e elegante, mas também sádico, manipulador e… canibal, Hannibal Lecter é a incorporação do ambiente de fim de século, mostrando que por trás da capa superficial de civilidade do ser urbano existe um monstro pronto a emergir.     

3. Psicopata americano (American phycho / 2000)

Baseado no romance de 1991 de Bret Easton Ellis e adaptado para o cinema em 2000, a obra é ambientada nos anos oitenta e traz como protagonista um Yuppie extremamente competitivo e narcisista.

O filme traz o sempre excelente Christian Bale como o psicopata Patrick Bateman.

Assim como o livro, o filme foi cercado de polêmicas sobre os limites entre a arte e a violência gratuita.

Crítica feroz ao Capitalismo selvagem, Psicopata americano perturba por criticar uma geração que quanto mais tinha menos sentia, quanto mais subia na carreira profissional mais descia na civilidade a ponto de, em uma escalada de violência, se tornar canibal.

4. A estrada (The Road / 2009)

Nesta distopia baseada no romance de 2007 do escritor Cormac McCarthy e premiado com o Pulitzer, pai e filho precisam atravessar uma América pós-Apocalíptica rumo a um local seguro enquanto enfrentam, entre outros perigos, pessoas que aderiram a prática do canibalismo.

Os recentes casos de barbárie e vandalismo presenciados no início de 2017 tanto nos presídios brasileiros por conta da luta entre facções quanto no estado do Espírito Santo em virtude da greve da polícia não deixam duvidas sobre o canibalismo ser uma realidade a se temer quando da decadência da sociedade.  

5. Grave (Raw / 2017)

Justine é uma jovem vegetariana que acaba de ingressar na faculdade de Veterinária seguindo, assim, os passos da família.  

O problema é que, após sofrer um trote no qual precisa comer carne, a menina começa a manifestar impulsos canibais. 

Bullying, distúrbios alimentares, culto ao corpo, relacionamento amoroso nos tempos atuais, tudo passa pela temática do canibalismo neste que promete ser um dos filmes mais polêmicos do ano de 2017.

6. Santa Clarita Diet (2017)

Esta série cômica da Netflix prova que o zumbi ainda pode render boas histórias quando os roteiros ajudam a contar uma boa história.

A série não foca nos motivos que levaram a corretora de imoveis Sheila a ser tornar uma morta-viva, preferindo mostrar as consequências dessa transformação sobre sua família.

Os episódios centram na gradual adaptação da família ao nova condição da mãe e esposa, ao mesmo tempo em que mostra a personagem se sentindo mais viva do que nunca depois que morreu e passou a comer pessoas.

Vale assistir. 

Gostou? Então lembre que o vídeo desta semana do FANTASTICURSOS no YouTube também é sobre Canibalismo. 

Basta clicar aqui.

Então deixe seu comentário ai embaixo e compartilhe este post com seus amigos carnívoros, vegetarianos, veganos e canibais.

Até a próxima semana.

Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este texto pertence ao blog Fantasticursos e foi publicado no endereço www.fantasticursos.com

 

Festa da carne de verdade é aqui! O canibalismo no fantástico (Parte 1)

Escrevo este post durante o Carnaval, festa popularmente chamada de “A festa da carne”.

Na verdade, a palavra “Carnaval” vem do latim carnem levare (“Afastar-se da carne”), período em as pessoas se despedem dos prazeres terrenos antes do inicio da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e caracterizado pelo jejum de carne.

O Carnaval pode ter suas origens nas Saturnais, celebrações da Roma Antiga dedicadas a Saturno, deus da Agricultura.

No entanto, existe um tipo de pessoa para quem a festa da carne dura o ano todo: o canibal.  

O canibalismo é o tabu mais sagrado da humanidade, estando disseminado entre todas as culturas humanas e em diferentes períodos ao longo da história. 

Ele marca o espaço entre o humano e o monstruoso, entre o Eu e o Outro.

O canibalismo nos horroriza por estar escondido dentro de nós, aguardando um contexto em que a circunstância ou a situação nos leve a considerá-lo. 

A palavra “Canibal” tem sua origem no termo “Caribal”, nome espanhol para o Caribe e faz menção a tribo dos caraíbas, que praticavam a antropofagia em rituais religiosos.

Por conta disso, ele sempre marcou presença em narrativas ligadas a Fantasia, ao Gótico e ao Horror tanto em obras literárias quanto em filmes e séries.

Como o assunto é amplo, e de forma a não cansar sua leitura, dividi este post em duas partes.

Neste primeiro momento mostro brevemente como o canibalismo vem sendo representado desde os primeiros mitos da humanidade até os contos de fadas.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, vou trazer o canibalismo até os dias de hoje em obras, filmes e séries, como Santa Clarita Diet

Santa Clarita Diet

E se você quer ler logo como o canibalismo aparece nos contos de fada, antes de conhecer as bases mitológicas e relatos históricos pavorosos sobre a antropofagia, clique aqui.

Canibalismo mitológico

A sede (ou seria melhor fome?) de poder está por trás do primeiro ato de canibalismo do Ocidente na forma do mito de Cronos (o Saturno dos romanos) contra seus filhos.

Cronos devorou Héstia, Hera, Deméter, Hades e Poseídon, mas o caçula Zeus salvou o dia (e o mundo).

Temendo sofrer o mesmo destino de seu pai e perder o poder para seus descendentes, Cronos devorava seus filhos a medida em que nasciam de sua esposa (e irmã) Réia.

Visando proteger o caçula, Réia, ainda grávida, se refugiou na Ilha de Creta e lá deu à luz ao futuro soberano dos deuses, Zeus. 

Para enganar o marido, Réia enrolou uma pedra nos panos ensanguentados do parto e deu para o marido engolir.

A batalha contra Cronos e os demais Titãs durou dez anos e foi vencida quando Zeus recebeu dos Ciclopes o raio.

Após atingir a idade adulta, Zeus iniciou uma longa guerra contra seu pai e os outros titãs.

Para ser bem sucedido, recebeu do Métis, a Prudência, uma droga que fez Cronos vomitar todos seus irmãos e irmãs e, com a ajuda deles, conseguiu derrotar seu pai e se tornar o novo Senhor dos Deuses. 

O primeiro Lobisomem

A mitologia grega é repleta de narrativas envolvendo personagens que cometeram ou se envolveram em ações ligadas ao canibalismo.

O ponto em comum era o castigo reservado a quem cometesse esse ato abominado pelos deuses.

Exemplos são o do rei Tântalo, que ofereceu a carne de seu filho em um banquete para os deuses e do rei Tereu, que foi levado a comer a carne do filho Ítis como parte de um plano de vingança arquitetado pela esposa e pela cunhada.

Procne e Philomela mostram a cabeça de Ítis para Tereu após ele ter comido a carne do filho.

Na Literatura da época, destaque para o episódio da Odisséia, de Homero em que Ulisses cega o ciclope Polifemo após este ter devorado alguns homens da tripulação do herói.  

Mas vou destacar aqui outro episódio mitológico com a participação de Zeus e que está por trás da origem do primeiro lobisomem.

Zeus costumava andar entre os homens para ver as ações da humanidade e em uma dessas andanças chegou a cidade da Árcadia, governada pelo tirano rei Lycaon.

Duvidando de que o individuo a sua frente fosse de fato o senhor dos deuses Lycaon matou o seu filho mais novo (em outras versões foi um criado) e ofereceu a carne para Zeus.

Indignado pela heresia cometida contra um deus, Zeus transformou Lycaon em um lobo, dando origem ao primeiro lobisomem. 

Canibalismo medieval 

Marcada por guerras, epidemias e fome a Idade Média foi palco de diversos relatos de canibalismo.

Para ilustrar brevemente esta realidade, destaco três casos que mostram como o canibalismo não ficou restrito entre as camadas populares, mas também figurou entre cavaleiros a serviço do Cristianismo e nobres.  

Em 1571, na cidade da Lituânia, a forme extrema levou as pessoas a venderem a carne dos enforcados nas feiras públicas.

1. Canibais em nome de Deus

A Primeira Cruzada na virada do século onze para o século doze teve o objetivo de retomar para os cristãos a cidade de Jerusalém, controlada na época pelos muçulmanos.

Centenas de cavaleiros responderam ao chamado do Papa Urbano II em 1095 para a reconquista da Cidade Santa.

Todavia, por trás da sua celebração como um dos grandes feitos do Cristianismo na Idade Média, a Primeira Cruzada esconde um dos primeiros episódios de canibalismo registrado por diferentes fontes históricas, muitas das quais presentes no local do evento.

Soldados cristãos devorando o inimigo muçulmano

Em 1098, após o bem sucedido cerco a cidade síria de Ma’arra, os cavaleiros cristãos decidiram comer os corpos dos inimigos em banquetes regulares.

Anda há debate entre historiadores se esta ação teve o consentimento dos oficiais militares do local ou se foi uma ação isolada das tropas. 

As atrocidades dos cristãos nas Cruzadas ainda são feridas abertas na relação ente Ocidente e Oriente.

Para alguns estudiosos, todavia, o canibalismo foi incentivado pelos líderes militares como forma de espalhar o terror entre os guerreiros do mundo islâmico. 

2. Ricardo, Coração (e estomago) de Leão

O canibalismo dos “Soldados de Deus” envolvidos nas Cruzadas encontrou seu maior representante no ideal de cavalaria da época: o rei da Inglaterra Ricardo, Coração de Leão.

Ricardo, Coração de Leão foi o principal nome da Cristandade na Terceira Cruzada.

Durante o cerco a cidade de Acre nos anos de 1189 a 1191, durante a Terceira Cruzada, Ricardo estava doente e pediu carne de porco para restaurar sua saúde.

Com base na ideia da época de que os sarracenos (como os muçulmanos eram chamados na época) tinham gosto de porco (de onde saiu essa ideia, gente?!!), o cozinheiro do rei serviu pedaços de carne humana para Ricardo.

Reza a lenda que, satisfeito com a refeição, o rei pediu para ver a cabeça do porco de onde tinha vindo tão deliciosa carne.

Ao ser apresentado a cabeça do muçulmano cujo corpo ele tinha devorado Ricardo, Coração de Leão gargalhou e disse que seus homens jamais passariam fome com tantos “porcos” ao redor deles.

3. O Conde Canibal

Ugolino della Gherardesca foi um conde italiano do século treze cujos repetidos atos de traição terminaram por levá-lo a cadeia no ano de 1289.

Junto com seus dois filhos e dois netos, Ugolino foi sentenciado a morrer de fome na prisão.

Pintura de William Blake de 1826.

A vinculação de Ugolino com o canibalismo foi feita nos Cantos XXXII e XXXIII do poema narrativo A Divina Comédia (1320), de Dante Alighieri.

Na obra, Ugolino está no segundo círculo do inferno e relata que seus filhos imploraram ao pai para terem seus corpos devorados de forma que ele não passasse mais fome.

UGOLINO E SEUS FILHOS (1867), de Jean Baptiste Carpeaux

Enlouquecido pela fome, Ugolino teria suplantado seu pesar pela perda dos filhos e netos e devorou seus corpos, passando a ser conhecido como o Conde Canibal.

Agora que você conheceu um pouco mais da mitologia e da história do canibalismo, veja abaixo como esta herança aparece refletida em 5 contos de fadas clássicos.

Canibais nos contos de fadas

O impacto da prática de canibalismo no imaginário da Idade Média pode ser percebido por meio dos vilões dos contos de fadas.

Pra que mesmo a Rainha má queria o coração da Branca de Neve?

Ironicamente, ainda que o canibalismo tenha sido praticado também por cristãos, o discurso do período medieval associou esta prática a grupos não cristãos, como judeus e muçulmanos.

Dentre alguns dos contos de fada mais conhecidos em que o canibalismo dá as caras, destaque para:

1. “Chapeuzinho vermelho”

Esqueça a menininha lesada que você conhece do conto de fada das versões de Charles Perrault (1697) e dos irmãos Grimm (1812).

Na narrativa folclórica que serviu de base para Charles Perrault elaborar sua versão, o lobo mata a avó e coloca a carne em uma prateleira e o sangue em uma garrafa.

Ao chegar a casa da avó, o lobo, já disfarçado, pede que a Chapeuzinho coma e beba um pouco para recuperar suas forças. Ela então come a carne da avó e bebe o seu sangue.

No entanto, diferente da sua verão literária, esta esperta Chapeuzinho folclórica engana o lobo dizendo que precisa “se aliviar” do lado de fora da cabana e foge para casa.

Para saber mais sobre estes elementos sinistros, assista ao vídeo do FANTASTICURSOS no YouTube “7 Curiosidades Monstruosas: LOBISOMEM”

2. “João e Maria”

O conto dos irmãos Grimm de 1812 sobre duas crianças perdidas na floresta reflete um contexto cultural em que a fome extrema levou crianças a serem comidas ou abandonadas por seus pais.

A bruxa que vive na floresta é apresentada pelos irmãos Grimm como um ser de impulsos canibais:

“As bruxas têm olhos vermelhos e não conseguem enxergar muito longe, mas, como os animais, têm um olfato muito apurado e sempre sabem quando há um ser humano por perto” 

E de fato, o que ela quer é engordar o pequeno João em uma gaiola de forma a render um belo cozido junto com sua irmã Maria.

Anjelica Huston em A CONVENÇÃO DAS BRUXAS (1990)

Chama a atenção neste conto, e em outros que traz a imagem clássica da bruxa como uma velha de nariz torto com verruga na ponta, a utilização de traços caricaturados da mulher judia, de forma a estabelecer a ligação do judeus com a bruxaria e o canibalismo. 

Caricatura da mulher judia. Perceba a semelhança do nariz com a imagem consagrada da bruxa.

3. “Barba Azul”

Movida pela curiosidade a jovem esposa de Barba-Azul se assusta ao descobrir os cadáveres pendurados em ganchos.

Um dos poucos contos de fadas baseados em fontes históricas conhecidas, a história do exótico nobre de aparência oriental com várias esposas já mortas é repleto de elementos góticos.

Um dos mistérios deste conto de 1697 redigido por Charles Perrault é o questionamento sobre o fato do personagem guardar os cadáveres das ex-esposas.

Levando-se em conta as fontes históricas, este fato permite que se interprete a história sob a perspectiva da necrofilia e do canibalismo.   

Desde suas primeiras representações, Barba-Azul é costumeiramente mostrado como um muçulmano.

Para conhecer mais detalhes sobre este conto, e sua ligação com o preconceito contra muçulmanos, leia o post daqui do blog “Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?”

4. “O Pequeno Polegar”

As ilustrações de Gustave Doré tornam as ameaças do conto ainda mais terríveis.

Publicado na obra Contos da mãe gansa (1697), de Charles Perrault, livro que deu origem ao gênero do conto de fadas, a história do Pequeno Polegar trata da temática da esperteza versus a força física.

Semelhante ao ciclope polifemo, o ogro que ameaça Polegar e seus irmãos com o canibalismo representa o vício do orgulho, contra o qual o pequeno herói investe munido apenas por sua astúcia.

Assim como ocorre com “Barba-Azul”, “O pequeno polegar” pode soar visceral demais para as crianças nos dias de hoje por conta das gargantas cortadas das filhas do ogro. 

5. “As crianças famintas”

Publicado na edição de 1815 do Contos de fada para crianças este é um dos contos menos conhecidos dos irmãos Grimm, e não é a toa.

A história descreve como uma mãe fica fora de si por causa da fome e decide comer uma das suas duas filhas.

Após tentarem sem sucesso conseguir comida para evitar seu destino macabro, as esfomeadas crianças decidem deitar na cama e dizem:

“Querida mãe, nós vamos deitar e dormir e não vamos levantar antes que amanheça o mais novo dia”.

E o conto termina da seguinte forma:

“Então elas se deitaram e dormiram um sono profundo do qual ninguém conseguiu acordá-las; já a mãe foi embora e ninguém sabe onde foi parar”.

Ao fim, cabe ao leitor decidir se as meninas também morreram de fome ou se foram devoradas pela mãe.

Tenso, não?

Então é isso. Aguarde nesta semana ainda a segunda parte do post onde vou mostrar como o canibalismo aparece em:

  • Narrativas da Literatura de Viagens, posteriormente transplantadas para o Novo Mundo a partir da descoberta das Américas;
  • Contos do Folclore brasileiro;
  • Obras góticas do século dezenove como Sweeney Todd, O barbeiro de Fleet Street;  
  • Produções de zumbi desde os anos 60 até a série Santa Clarita Diet;
  • Os casos mais assustadores de canibalismo real no século vinte;
  • Filmes como Holocausto Canibal, O Massacre da Serra Elétrica e no mais recente, Raw

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Fontes utilizadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

TATAR, Maria. Contos de fadas. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Epidemias, pestes e doenças: Porquê você deveria gostar delas

A história da humanidade pode ser interpretada por diversos ângulos: as guerras, as religiões, as mudanças da moda, os avanços científicos e também pela eterna presença das pestes, epidemias e doenças

Danse Macabre – Uma dança medieval em que um esqueleto, representando a morte, leva os vivos em procissão para o túmulo. Muito popular durante a epidemia da Peste Negra

Também presente desde que o ser humano começou a narrar o seu mundo, a literatura fantástica sempre teve nas pestilências e enfermidades um rico material para representar de forma simbólica os medos e ansiedades de comunidades ou grupos sociais.

The Dancing Plague. A Epidemia da Dança, de 1518, levou 400 pessoas a dançarem sem parar na região de Estrasburgo, hoje Alemanha. Muitas morreram de ataques cardíaco ou exaustão.

Por muito tempo incapazes de explicar por meios racionais os efeitos de vírus e bactérias sobre o corpo, culturas diversas buscaram no sobrenatural a resposta para as tragédias que atacavam suas comunidades.

As máscaras contra contágio usadas pelos médicos medievais ajudavam a manter o clima sinistro das epidemias.

De fato, mesmo hoje, em plena era digital, muitas doenças e pragas continuam um mistério, e outras ainda se colocam como ameaça para a humanidade, como a Gripe Aviária, a Doença da Vaca Louca e a Zika

O tamanho continental do Brasil, e o descaso do governo e da população com a prevenção, são pratos cheios para diversas doenças tropicais.

Dentro do fantástico, até hoje esta realidade vem ganhando forma nas criaturas e temas da Literatura Gótica e do Horror.

Se você quer logo saber quais pestes, epidemias e doenças influenciaram no desenvolvimento da Literatura Fantástica, antes de conhecer um pouco mais sobre elas na Mitologia grega e na História, clique aqui.

Sobre mulheres curiosas, deuses ratos e faraós

Nosoi

Ao contrário do que se pensa, Pandora abriu um jarro e não uma caixa, deixando escapar todas as pragas e doenças.

Dentro da Mitologia Grega, as moléstias que atormentam a humanidade tem seu momento inicial no mito de Pandora, a primeira mulher.

Concebida como uma punição ao homem por este ter aceitado o fogo roubado dos céus pelo titã Prometeu, Pandora foi entregue a Epimeteu, irmão de Prometeu, como um presente de Zeus pelo trabalho do titã na criação do primeiro homem.

O soberano dos deuses gregos, todavia, sabia de antemão que a mulher seria a desgraça do homem.

Ao andar pela moradia de Epimeteu, Pandora encontrou um jarro no qual o titã guardava todas as coisas ruins que ela não tinha usado na criação do homem.  

Devido a um erro de tradução no século 16, a palavra grega para “jarro” (pithos) foi traduzida como “caixa” (pyxis).

Movida pela curiosidade, a jovem abriu o jarro e todas as pestes, doenças e enfermidades fugiram.

Representante dos NOSOI, conforme interpretação do RPG PATHFINDER.

Ali terminava a Idade de Ouro da humanidade, para começar a Idade de Prata, quando o ser humano passou a ser vitima dos Nosoi, espíritos fugidos do jarro de Pandora e personificações das doenças e pestilências. 

A primeira diarreia

Ainda na mitologia grega, destaque para o primeiro relato de uma praga na Literatura Ocidental, encontrada no episódio inicial de A Ilíada (Séc. 8 a. C.), de Homero.

Na obra, motivado pela ofensa cometida pelo rei grego Agamenon contra um de seus sacerdotes, o deus Apolo lança flechas místicas nos gregos durante o cerco a Troia.

Apolo primeiro atacou os cães e cavalos com a doença e, depois, os soldados gregos.

Logo, as tropas são acometidos de febre intensa e disenteria.

Somente após realizarem sacrifícios a Apolo, também chamado de “O deus-rato” pela sua associação com doenças e pragas, é que os gregos ficaram livres da enfermidade.  

As pragas do Egito

Saindo da Mitologia, mas ainda no campo do divino como agente causador das pragas, destaque na Bíblia para as 10 pragas do Egito quando, segundo o livro do Êxodo, Deus enviou diversas pragas para forçar o faraó a libertar o judeus do cativeiro no Egito.

Tanto na Ilíada quanto na Bíblia vemos que os povos da Antiguidade relacionavam doenças, pragas e pestes como manifestações da ira divina, devido a sua falta de conhecimento dos mecanismos de contágio, disseminação e tratamento. 

Essa leitura permanece nos dias de hoje, visto que doenças ligadas ao contato sexual recebem o nome de Doenças Venéreas (Doenças de Vênus), remetendo a crença de que elas eram um castigo da deusa do Amor em virtude de alguma transgressão sexual. 

A deusa romana do amor Vênus era chamada de Afrodite na mitologia grega.

A Era Dourada das epidemias, pragas e moléstias

Invasões estrangeiras, fome, intolerância religiosa, desastres naturais e guerras: A Idade Média também poderia ser chamada de Era Dourada das epidemias, pragas e moléstias.

Passagem de cometas, ares poluídos, ira divina, alinhamento dos planetas… tudo era tomado como explicação para as epidemias.

É a partir desta época também que começa a ocorrer a vinculação entre determinadas enfermidades, principalmente a Lepra e a Peste Bubônica, e grupos específicos. 

Todo leproso é gay

“Os homens daquele tempo estavam persuadidos de que no corpo reflete-se a podridão da alma. O leproso era, só por sua aparência corporal, um pecador.”

A afirmação do historiador Georges Duby em Ano mil, ano 2000: em busca de nossos medos (1998), vai ao encontro da vinculação de judeus e homossexuais com uma das mais antigas doenças da humanidade: a Lepra.

A Igreja Católica Medieval ora pregava a compaixão para os leprosos ora os marginalizava.

Nos séculos 12 e 13, por exemplo, o termo “leproso” era usado como sinônimo tanto para homossexuais quanto para judeus.

O elo em comum era a crença de que estes três grupos eram pervertidos sexuais.

O poeta Danta colocou os homossexuais no Sétimo Círculo do inferno, na obra A DIVINA COMÉDIA (1304-1321).

Como mostra Jeffrey Richards em Sexo, desvio e danação (1993), pensadores cristãos do século 12 usavam a palavra “lepra” quase como equivalente a “pecado”.

O Papa foi um dos fundadores da Inquisição

Da mesma forma, no século 13, o Papa Gregório IX usou a palavra “lepra” para se referir a “sodomia”, termo empregado na época para designar o homossexualismo.

No mesmo período, outros escritores ligados a Igreja descreveram leprosos como sendo judeus, homossexuais e hereges. 

Judeus são a Peste

A busca por bodes expiatórios na Idade Média para justificar a desordem social provocadas pelas doenças e epidemias encontrou seu ponto alto durante a epidemia de Peste Bubônica no século 14. 

Transmitida pela picada de pulgas de ratos, a doença matava os infectados em 2 a 5 dias de forma lenta e dolorosa.

Chamada de Peste Negra em virtude das bolhas negras que apareciam na pele, a doença matou um terço da população europeia da época, não escolhendo local, classe social ou religião.

A quantidade de corpos era tanta que os cadáveres eram colocados juntos em valas.

Cidades, vilarejos e monastérios inteiros foram dizimados pela peste. A situação chegou a um ponto que faltou madeira para se fabricar caixões. 

Na busca por explicações, os cristãos buscaram culpados.

Judeus eram queimados em praça pública como forma de se parar a epidemia de Peste Negra.

Em 1321, na França, judeus, leprosos e muçulmanos foram acusados de contaminar os poços de água com a peste, o que levou vários deles a serem sentenciados a morte na fogueira. 

Acusações semelhantes contra judeus como agentes da Peste Negra surgiram em toda a Europa, reforçando a crença da ligação entre esse grupo e o Diabo.

A Peste Negra causou um profundo impacto na mentalidade européia, tanto pela sua ferocidade e disseminação quanto pela falta de conhecimento a respeito dos mecanismo de contágio e cura, o que abriu portas para a associação com o sobrenatural.

Esta ligação das epidemias e moléstias com o sobrenatural perduraria nos século seguintes, como você pode ver nas 6 principais doenças, pestes e epidemias que influenciaram a Literatura Fantástica.

As seis principais epidemias, doenças e moléstias da Literatura Fantástica

Ao ler a lista abaixo, perceba que a relação entre o Fantástico e as enfermidades foi mudando de acordo com o contexto histórico e cultural.

À medida que o conhecimento sobre uma doença especifica foi evoluindo, ou a sociedade encontrou meios para vencê-la, ela saiu dos domínios do sobrenatural, e do Fantástico, para dar espaço para outra moléstia ou temas. 

1. Catalepsia

O que é: Doença que ataca o sistema neurológico levando a pessoa a sofrer de paralisia dos músculos e redução das funções vitais. Não há, entretanto, perda dos sentidos. Pode durar de minutos a alguns dias. A Medicina ainda não consegue explicar totalmente o distúrbio.

A Catalepsia pode ser Patológica, que é a versão mais conhecida da doença e a Projetiva, quando a pessoa acorda pela manhã e não consegue momentaneamente se mexer ou esboçar qualquer som.  

A catalepsia era motivo de preocupação ao longo do século 19 e muitas pessoas vitimas de morte sem motivo aparente eram enterradas com pequenos sinos.

Associado no Fantástico a: Vampiros, Zumbis e os personagens insanos de Edgar Allan Poe. 

Principais obras: “A queda da casa de Usher” (1839), de Edgar Allan Poe.

Apontado por séculos como uma das possíveis teorias para a lenda do vampiro, e do zumbi haitiano, a catalepsia tem no mestre do gótico norte-americano Edgar Allan Poe um de seus mais hábeis utilizadores por manter em seus contos a tensão entre o racional e o sobrenatural.

2. Lepra

O que é: Uma das doenças contagiosas mais antigas a serem registradas. A palavra foi criada pelo médico grego Hipocrates para descrever manchas brancas na pele e no cabelo que se assemelhavam a escamas (léprêã).

A ligação deste termo médico com o universo espiritual se deu quando da passagem para o grego dos textos do Antigo Testamento por volta do século 3 a.C. Ao se realizar a tradução do hebraico tsara’ath (“ímpio”, “profano”) para o grego optou-se pela palavra léprêã. passando a designar então a pessoa com a pele de aparência estranha e impura.

É caracterizada pela gradual e profunda deformação da pele e dos membros. Hoje a doença é chamada de Hanseníase e é tratável.

O Brasil foi um dos países em que a Lepra mais demorou para ser combatida.

Associado no Fantástico a: Personagens marcados por maldição, sacerdotes e párias em geral.

Principais obras: “A marca da besta” (1890), de Rudyard Kipling / “Pelo caiapó velho” (1917), de Hugo de Carvalho Ramos / “As morféticas” (1944), de Bernardo Élis. 

Associada a lugares de atraso e superstição, a lepra no conto de Kipling surge na forma de uma maldição lançada sobre um jovem inglês por um sacerdote hindu, levando-o a sofrer uma terrível mudança animalesca.

Já nos contos de Ramos e Élis, vemos a representação do sertão brasileiro como um lugar ameaçador e cercado de mistérios, algo que um jovem perdido constatará ao entrar em uma humilde casa.

Há de se destacar também a influencia da lepra na criação da doença  Escamagris (Greyscale, no original em inglês) na série literária As Crônicas de Gelo e Fogo (2011- ), de George R. R. Martin, base para a série televisiva Game of Thrones

3. Porfiria

O que é: Na verdade a porfiria é um grupo de doenças genéticas que podem ser herdadas ou adquiridas e caracterizada pela deficiência de enzimas no organismo, que em casos mais graves podem provocar sensibilidade à luz, alterações da cor da pele, distúrbios mentais e convulsões. O nome vem do grego porphýra (“pigmento roxo”)

A doença causa uma profunda deformação em casos extremos

Associado no Fantástico a: Vampiros e Lobisomens

Principais obras: Drácula (1897), de Bram Stoker

A Porfiria foi por muito tempo apontada como uma das principais responsáveis pela crença em vampiros, em virtude das características da doença.

No entanto, no fim do século vinte, o pesquisador Paul Barber demonstrou no livro Vampires, Burial and Death (1988) que, ao ser examinada de perto, essa ligação da doença com o vampiro não se sustentava.

A origem do vampiro folclórico europeu permanece como o resultado da falta de conhecimento das populações do século 18 sobre o processo de decomposição dos cadáveres.   

4. Raiva

O que é: Doença transmitida para humanos pela saliva de algum animal infectado, geralmente por meio de mordida. O vírus no ferimento se desloca rapidamente para o cérebro provocando inchaço e inflamação aguda e letal.

Quase sempre leva a morte se a pessoa começar a demonstrar sinais da doença, tais como confusão, salivação em excesso e convulsões. Dai a importância da vacina preventiva. 

A Raiva é uma ameaça real a humanidade.

Associado no Fantástico a: Vampiros e Zumbis

Principais obras: Extermínio (2002), direção de Danny Boyle  / Guerra mundial Z (2006), de Max Brooks / trilogia Apocalipse Z (2010-2011), de Manel Loureiro

Ainda que também tenha sido apontada como uma das doenças por trás da lenda do vampiro, por conta das mordidas que os vitimados pela doença podem proferir, é com o zumbis que a Raiva encontra a maior associação hoje.

Esta ligação é reforçada pela ameaça real da doença na nossa sociedade em que há a proximidade com animais domésticos que são portadores naturais da doença.

Esta proximidade, aliada ao desequilíbrio da natureza provocada pelo homem, pode gerar uma possível mudança adaptativa na Raiva, levando a mesma a se tornar ainda mais agressiva e contagiosa para o homem.

Se outras doenças listadas aqui pertencem ao passado pelo combate as condições de higiene e fabricação de vacinas, o mesmo não aconteceu com a raiva. 

Esta ameaça paira no filme de Danny Boyle, no romance reportagem de Max Brooks e na trilogia de Manel Loureiro

5. Sífilis

O que é: Infecção sexualmente transmissível caracterizada por uma ferida indolor no local da entrada da doença que desaparece após 4 ou 5 semanas do contágio.

Também chamada de “Cancro duro” pelo eventual surgimento de gânglios em partes do corpo. É um inimigo silencioso que pode levar anos e décadas para se manifestar de forma violenta.

Possui diferentes fases, sendo a terciária e a congênita as mais agressivas, levando a lesões na pele, convulsões, danos nos órgãos internos, reflexos exagerados, perda auditiva, insônia e AVC.

A Sífilis era uma dos grandes fantasmas da rígida (e hipócrita) sociedade inglesa da segunda metade do século 19.

Associado no Fantástico a: Vampiros e Duplos 

Principais obras: O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson / O retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde / Drácula (1897), de Bram Stoker 

Vinculada a práticas sexuais proibidas pelas normas de conduta, a Sífilis é a doença que aparece nas entrelinhas dos romances góticos de fim do século 19.

Mas, não se engane: Ela está lá, nos atos indizíveis do Sr. Hyde, no retrato da imoralidade de Dorian Gray e na vinculação de Drácula com a sujeira e impureza.

6. Tuberculose

O que é: Doença até hoje cercada de mitos e preconceitos, a “TB”, como também é chamada a Tuberculose, é infecciosa, transmissível e afeta principalmente os pulmões.

A principal manifestação da doença é um tosse seca e persistente que dura meses. Outros sintomas são febre baixa, emagrecimento, palidez, suor noturno e falta de apetite.

Pode vir acompanhada de acesso de tosses e catarro com sangue. O tratamento usa antibióticos e dura cerca de seis meses.  

A TB alternava períodos de calmaria com acessos violentos.

Associado no Fantástico a: mulheres mortas

Principais obras:  Todos os contos de Edgar Allan Poe com personagens femininos / Noite na Taverna (1855), de Álvares de Azevedo.

Por vias tortas, a Tuberculose foi a principal musa inspiradora de poetas e escritores românticos na Inglaterra, Estados Unidos e Brasil no século 19.

Doença que vitimou muitos artistas em plena juventude, a TB encontrou em Edgar Allan Poe um de seus principais promotores.

Poe perdeu a mãe biológica, a mãe adotiva e a esposa para a Tuberculose.

Como consequência, as mulheres de seus contos e poemas sempre são cercadas por uma aura sobrenatural, vivendo no plano físico e espiritual. São seres além do alcance dos homens que as veneram. 

Esta mesma visão do ser feminino está retratada na obra do ultra-romântico Álvares de Azevedo, onde as mulheres complementam as taras dos personagens transviados. 

Ao responder, portanto, a pergunta que dá título a este post, lembro da frase “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

Se as epidemias, pestes e doenças são um tormento para a humanidade elas tem, como ponto positivo, o fato de proporcionarem matéria prima para grandes obras e produções ligadas ao mundo do Fantástico, na Literatura, Cinema, Quadrinhos e Games.

E por isso devemos gostar delas.

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Obrigado e até a semana que vem! 

Fontes utilizadas

BARBER, Paul. Vampires, Burial and Death. New York: Yale University Press, 1988.

BARING-GOULD, Sabine. Lobisomem: um tratado sobre casos de licantropia. Trad. Fernanda M. V. de Azevedo Rossi. São Paulo: Madras, 2003.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1986. 

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 3. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1987. 

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

FARRELL, Jeanette. A assustadora história das epidemias: pestes e epidemias. Trad. Mauro Silva. São Paulo: Ediouro, 2002.

MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros: a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M.Books do Brasil Editora, 2003.

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Trad. Marco Antônio Esteves da Rocha e Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

RUSSELL, Jamie. Zumbis: o livro dos mortos. Trad. Érico Assis, Marcelo Andreani de Almeida. São Paulo: Leya Cult, 2010. 

SILVA, Alexander Meireles da. SOLETRAS. N. 27 (jan. – jun. 2014) Disponível em http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/view/1119. Acesso em 02, fev. 2017.

UJVARI, Stefan Cunha. A história e suas epidemias: a convivência do homem com os microorganismos. Rio de Janeiro: SENAC Rio, 2003.

ZUMBIS: a ciência, a história e a cultura pop por trás do fenômeno. São Paulo: Abril, 2012 (Superinteressante Coleções).

Contato: Alexander Meireles da Silva

Email: fantasticursos@gmail.com

 

  

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Todavia, se por um lado essa exposição apresentou Saci-Pererê, Cuca, Mula-sem-cabeçaCurupira e Iara, dentre outros, para os moradores das cidades, por outro ela provocou uma diluição e infantilização destes seres enquanto agentes do medo.       

Chico Bento com os 5 personagens mais lembrados do folclore brasileiro. Mas, e os outros?

O fato, porém, é que o folclore brasileiro é repleto de seres que poderiam (e deveriam) ser explorados em produções além das relacionadas ao público infantil.

Como o Terror e o Horror, por exemplo.

Se você quer conhecer logo 10 monstros do folclore brasileiro, que não fariam feio em filmes do Guillermo del Toro ou de terror asiático, antes de saber porque os monstros existem, clique aqui.

O que o monstro mostra

A origem da palavra “monstro” se encontra no latim monstrare, que quer dizer “mostrar”.

Mas o que o monstro mostra?

Esta pergunta vem sendo objeto do interesse da humanidade desde que o homem começou a explorar o mundo ao seu redor levando-o a encontrar criaturas que refletiam as suas ansiedades, medos e até mesmo desejos.

“O SONO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS ” (1799), do espanhol Francisco de Goya, mostra o homem como fabricante dos monstros.

Maravilhas orientais

Especificamente no Ocidente, as criaturas monstruosas das mitologias greco-romana serviram de base para que, na Antiguidade, estudiosos  como Ctésias de Cnido (398 a. C.) e Plínio, o Velho (77 d. C.) desenvolvessem os primeiros registros sobre as monstruosidades que habitavam a Índia.

Já na época a Índia fascinava a mentalidade ocidental e ela passou a ser acessível a partir das campanhas de Alexandre, O Grande (326 a. C) no Oriente.

A partir dai os ocidentais passaram a ter conhecimento de criaturas que, de acordo com os relatos do período, habitavam a região.

Seres como os Blêmias, cujo rosto se localizava no peito,

Os Cinocéfalos, seres com cabeça de cão,

E ainda os Ciápodes, que se protegiam do sol com seu único pé enorme,

Essa multidão de seres sobrenaturais ganhou outra leitura quando passaram a ser objeto do interesse de Santo Agostinho (354-430 d. C), um dos principais pensadores da Igreja Católica medieval.

Criaturas de Deus

Agostinho foi o primeiro filosofo a considerar o lugar do monstro dentro dos planos de Deus.

Para ele, os monstros tinham algo a mostrar sobre tudo o que Deus anunciava realizar de forma ameaçadora no corpo dos seres humanos.

Considerados expressões da vontade de Deus, e portanto benéficos, os monstros levavam o homem a refletir como ele seria se não seguisse os preceitos de Deus. 

Após Agostinho, outros pensadores religiosos como Isidoro de Sevilha (576-636) e Thomas de Cantimpré (1201-1272) desenvolveram escritos que explicavam a anatomia e simbolismo dos monstros:

  • Os Pigmeus simbolizavam a humildade;
  • Os Gigantes, o orgulho;
  • Os Cinocéfalos, a discórdia;
  • Os Homens com beiços pendurados, a mentira;
  • Os Blêmios, a ganância.

A partir das reflexões religiosas do período, o monstro penetra nos romances medievais, se disseminando pela Europa e penetrando na memória do povo até os dias de hoje, sempre tendo algo a ensinar. 

Pedagogia dos monstros

No ensaio, “A Cultura dos Monstros: sete teses”, presente na obra Pedagogia dos monstros (2000), o crítico Jeffrey Jerome Cohen propõe sete maneiras de se entender os monstros que fascinam o homem. São elas:

  1. O corpo do monstro é um corpo cultural: As criaturas monstruosas refletem a cultura da época em que estão inseridas;
  2. O monstro sempre escapa: Os monstros se deslocam pela cultura, mantendo suas existências ao surgir em outras formas;
  3.  O monstro é o arauto da crise das categorias: O monstro existe porque ele reflete um momento de mudança de crenças, pensamentos e convenções de sua sociedade;
  4. O monstro mora nos portões da diferença: As criaturas monstruosas trazem em seu corpo o impacto que as diferenças cultural, política, racial, econômica e sexual tem sua sociedade;
  5. O monstro policia as fronteiras do possível: O monstro é um símbolo das consequências em se transgredir normas e convenções sociais, religiosas, políticas e sexuais;
  6. O medo do monstro é realmente uma espécie de desejo: O monstro desperta o medo, mas também a curiosidade, a atração pela sua forma que desafia o único e o heterogêneo;
  7. O monstro está situado no limiar… do tornar-se: Os seres monstruosos nos ensinam sobre nosso lugar no mundo. Nos força a refletirmos sobre nossas verdades, valores e nossa percepção e aceitação do diferente.

Agora que você conhece um pouco mais sobre o monstro, vamos a lista.

Como não existe nada mais assustador que o ser humano, selecionei para este post apenas as criaturas que tem forma humana, deixando de fora animais encantados como a Mula-sem-cabeça, a Onça Maneta, a Anta-Cachorro e outros.

As 10 criaturas mais assustadoras do folclore brasileiro

1. Bradador

Região:  São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina

Imagina você na madruga dormindo e de repente começa a ouvir gritos assustadores!

O Bradador é um espectro que solta gritos e uivos tenebrosos ao redor das casas ou nos caminhos frequentados por ele/ela. 

Apesar de não possuir uma forma definida, o que distingue este fantasma da noite dos demais espíritos são os berros de lamúria pela sua penitência, que deixam os ouvintes da região assombrada de cabelos em pé.

Sua origem está ligada a criatura Zorra Berradeira, que assusta os casais adormecidos com os seus gritos horríveis na região portuguesa de Trás-os-Montes.

Assim como na variante portuguesa, o Bradador é uma alma que cometeu pecados em demasia e não encontra o descanso divino.

2. Capelobo

Região: Pará, Maranhão

No Maranhão a criatura é chamada de Cupelobo.

Habitando a região do rio Xingu, o Capelobo causa muito medo nas populações indígenas. 

Possuindo forma humana coberta de pelos negros e patas redondas, esta criatura é apresentada possuindo ora cabeça de anta, ora cabeça de tamanduá. 

O Capelobo sai a noite, sempre anunciando sua chegada por meio de urros e gritos, e percorre barracões e acampamentos carregando cães, gatos e crianças recém-nascidas com ele.

O Capelobo também é chamado de “Lobisomem dos índios”.

Quando pega um homem ou animal a criatura aperta a vitima em um abraço mortal, abre um orifício em sua cabeça para enfiar a ponta de seu focinho nela e suga toda a massa encefálica do infeliz. 

Enquanto agente do medo, o Capelobo só perde em popularidade na região do Pará para o Mapinguari e, semelhante a ele, só pode ser morto com um tiro no umbigo. 

3. Corpo-seco

Região: São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Nordeste do Brasil

Esse aí nem o Diabo quis.

Quando a pessoa passa pela vida semeando o mal, principalmente contra o pai e a mãe, pratica incesto e é avarenta, ao morrer a sua alma não é acolhida nem pelo céu e nem pelo inferno, levando a terra a jogar o corpo para fora do túmulo. 

O Corpo-seco tem o corpo magro, ressequido, semelhante a uma múmia e seu corpo é um aviso da perdição da alma.

Repousando em seu tumulo de dia, esse esqueleto coberto de pele percorre, durante a noite, os lugares que frequentou em vida.

O Corpo-seco é nosso zumbi brazuca

É costume que a família da criatura tente acabar com sua penitência promovendo missas e distribuindo esmolas, além de encher o caixão com cal, na esperança de que o corpo se dissolva. 

4. Curacanga

Região: Maranhão e Pará

Este ser também é conhecido como Cumacanga

Quando qualquer mulher tem sete filhas, a última vira Curacanga, ou seja, a cabeça solta do corpo e, em forma de bola de fogo, percorre os campos e caminhos apavorando os viajantes.

Esta criatura tem sua origem na Europa medieval na crença de que a sétima filha seria uma seguidora de Satanás.

Não apenas na Europa, mas também na Ásia, há a tradição de cabeças humanas que voam destacadas do corpo espalhando o terror.

5. Labatut

Região: Rio Grande do Norte, Ceará

O Labatut é um ser enorme, de pés redondos, corpo coberto de pelos ásperos, dentes que saem da boca com aparência de presas de elefante e dono de um só olho no meio da testa.

Monstro canibal, guardando semelhança com os ciclopes da mitologia grega, ele prefere comer meninos porque são menos duros que os adultos.

Tô te vendo!

Costuma parar nas portas das casas para ouvir quem está falando alto ou cantando. Essas são as suas vitimas preferidas.

Sua origem está relacionada a um general francês do século dezenove de nome Pedro Labatut, cuja violência e crueldade deixaram marcas nas lembranças dos moradores do Ceará na década de 1830, levando-o a assumir forma monstruosa nos relatos do povo.

6. Mapinguari

Região: Acre, Amazonas, Pará

Esta é a criatura folclórica com mais registros de avistamentos na região amazônica.

O mais popular monstro da Amazônia, o Mapinguari é o terror de caçadores e trabalhadores que atuam na floresta, pois ele mata e devora quem encontrar pela frente.

É descrito por testemunhas como um homem agigantado, coberto de pelos negros, unhas em garras, apenas um olho e com uma gigantesca boca vertical que vai do nariz até o estomago.

O ponto fraco da criatura é o umbigo.

Ao pegar um homem, enfia a cabeça da pessoa na bocarra e masca a cabeça de forma lenta, depois arranca a carne da vitima em pedaços.

Diferente de outras criaturas fantásticas, o mapinguari dorme a noite e anda de dia, sempre anunciando sua chegada com gritos e uivos.

Tendo o nome derivado possivelmente de mbaé-pi-guari (a coisa que tem o pé torto) o mapinguari é considerado uma possibilidade real por alguns estudiosos.

David Oren, ornitólogo americano naturalizado brasileiro, acredita que o monstro possa ser um exemplar sobrevivente de um megatério – uma preguiça gigante que habitou a região há 10.000 anos.  

7. Mão de cabelo

Região: Minas Gerais 

Vai um mãozinha aí?

Espantalho das crianças, este espectro vai até a cama dessas para verificar se elas urinaram no leito.

Para isso, o Mão de Cabelo usa suas mãos macias, sedosas e feita de pelos para tocar o sexo dos meninos e meninas.  

Fantasma pedófilo

É um fantasma magro, de forma humana e roupa branca. 

O folclorista Luiz Camara Cascudo registra em Geografia dos mitos brasileiros que no Sul de Minas é comum a frase caipira: 

“Oia, si nêném mijá na cama, Mão de Cabelo vem ti pegá e corta a minhoquinha de nêném…”

Ainda que não tenha relação direta, o Mão de cabelo guarda semelhança com o Mãos-peludas inglês, que ataca os que passam na estrada de Datmoor, Inglaterra.

Trata-se de duas mãos sem corpo que aterrorizam a região ao atacar motoristas agarrando o volante do carro e jogando o veículo pra fora da pista.

Sem ter uma razão definida para os ataques, além da simples prática do mal, o Mãos-peludas também bate na janela dos carros parados para assustar os seus ocupantes.  

8. Papa-figo

Região: Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte

Camara Cascudo chama o Papa-figo de “O lobisomem das cidades”.

É um negro velho, alto, sujo, pálido, vestindo farrapos e com um saco nas costas no qual coloca crianças raptadas para comer-lhes o fígado ou vender o órgão para leprosos ricos. 

A imagem do Papa-figo parte de um episódio real ocorrido em Natal no ano de 1938 quando dois negros adoentados foram presos após levarem duas crianças com eles.

A repetição da ocorrência no Ceará e em Pernambuco acabou criando a imagem do ser folclórico.  

Quando crianças cristãs desapareciam na Idade Média, eram costume acusar leprosos e judeus pelo sumiço.

Percebe-se nesta lenda a sobrevivência da crença, ligada a Grécia e a Roma antiga, no simbolismo do fígado como responsável absoluto pelo equilíbrio da saúde humana. 

A partir dai, já na Idade Média, ocorriam relatos de leprosos que, para se livrarem do sofrimento da doença, matavam crianças para beber o sangue e comer o fígado.

Hoje a Hanseníase, nome que substituiu a Lepra, é uma doença perfeitamente tratável, o que ajuda a diminuir a crença nesta lenda e o preconceito contra as pessoas acometidas pela doença. 

A relação entre doenças e  o fantástico será tema de um post exclusivo aqui no blog.

9. Pisadeira

Região: São Paulo, fronteira de Minas Gerais

Criatura de presença universal que assume faces diferentes.

Ela é descrita como uma velha muito magra, cabelos compridos e secos, unhas grandes semelhantes a garras, pernas curtas, nariz fino e olhos vermelhos.

Pisadeira chegou ao Brasil via Portugal, onde a criatura ataca durante o sono descendo pelas chaminés e pisando no peito das pessoas para provocar pesadelos.

Em português e espanhol (pesadilla) deriva de “peso”, “pesado”. 

ALPDRÜCKEN, o pesadelo alemão.

Todas as culturas tem em um íncubo, demônio ou outro espírito maléfico a explicação para os pesadelos noturnos.

BAKHTAK, o pesadelo iraniano.

Em outras culturas a criatura assume formas variadas: gigante, anão, mulher ou homem horrendo que, aproveitando o sono, senta-se sobre o estomago da vitima e lhe aperta o peito, dificultando a respiração.

10. Quibungo

Região: Bahia

Ele é o Bicho Papão negro.

Devorador de crianças, o Quibungo pertence aos pavores noturnos infantis e traz elementos do Papa-figo pela cor negra do personagem e pela grande boca nas costas onde ele enfia as crianças descuidadas.

É apresentado como um ser meio homem, meio animal que tem uma cabeça muito grande e uma bocarra nas costas, que se abre quando ele abaixa a cabeça e se fecha quando ele levanta.

O monstro pode ser morto por tiro, faca e paulada.

Pertencente a tradição oral afro-brasileira, ele come as crianças abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando dentro os pequenos. 

Seu nome está ligado ao Congo e Angola, onde a palavra n’bundo significa “Lobo”. Posteriormente o termo virou qui-n’bungo.

Já ouviu histórias sobre algum desses monstros? Seus avós já viram algum deles?

Deixe seu comentário, compartilhe se gostou e assine o blog.

Obrigado. 

Fontes utilizadas

CASCUDO, Luís da Camara. Dicionário do folclore brasileiro. 6ed. São Paulo: Editora Itatiaia, 1988.

CASCUDO, Luís da Camara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Editora Itatiaia, 1983.

COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomas Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60.

GONÇALO, Junior. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

PRIORE, Mary Del. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano (Séculos XVI-XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

2017 marca os 80 anos de morte do escritor norte-americano Howard Philips Lovecraft e os 100 anos de criação de sua primeira obra na fase adulta: “Dagon”.

Stephen King e Neil Gaiman consideram H. P. Lovecraft como o Mestre do Horror moderno

Este conto é o marco inicial do conjunto de contos e romances marcados pela presença de criaturas monstruosas e aterrorizantes com origem em outros planetas e dimensões. 

“Dagon” foi publicado pela primeira vez em 1919 na revista VAGRANT e foi republicado na revista WEIRD TALES em 1923.

Conhecidos posteriormente como integrantes dos “Mitos de Cthulhu”, em menção a divindade apresentada no conto “O chamado de Cthulhu”, publicado em 1928, estes monstros são apresentados como entidades cósmicas que não apenas já estiveram em nosso plano terrestre, mas também já governaram a humanidade em tempos remotos, esquecidos pela história. 

Primeira publicação de “O chamado de Cthulhu” na edição de fevereiro de 1928 da revista WEIRD TALES.

Se nas narrativas de H. P. Lovecraft os Antigos, como são chamadas algumas destas criaturas, ainda aguardam o seu retorno a nossa realidade, na vida real eles estão prontos para invadirem, em 2017, o nosso plano como parte dos eventos, publicações e lançamentos na merecida (e tardia) celebração dos 80 anos da obra de seu criador.

“Feliz Aniversário post-mortem pai!”

Se você quer conhecer logo os 7 monstros de H. P. Lovecraft que vão te encontrar em 2017, antes de conhecer a polêmica racista e xenófoba por trás de sua criação, clique aqui.

América, pais do futuro

As primeiras décadas do século vinte na América foram marcadas por rápidas e profundas mudanças na sociedade norte-americana promovidas pela fé depositada no progresso.

Charles Chaplin em TEMPOS MODERNOS (1936).

Esta situação forneceu a base para a ascensão da Ficção Científica, como vertente do fantástico mais alinhada com os desafios postos pela modernidade, assim definida por Marshall Berman no livro Tudo que é sólido desmancha no ar (1986):

“Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. /…/ ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia”.  

É a partir deste quadro de ameaça a permanente desintegração, de mudança e angústia do sujeito moderno, também caracterizada pela crescente presença de imigrantes na sociedade americana, que Lovecraft formulou os monstros híbridos de seu panteão.

Asiáticos, Irlandeses e habitantes do leste europeu eram os principais interessados em desfrutar do “American Dream”.

O cavalheiro de Providence contra os monstros

Pertencente a uma das famílias mais tradicionais de Providence, cidade do Estado de Rhode Island fundada nos primórdios da colonização puritana na América, Lovecraft já demonstrava, em seus primeiros contos como “A tumba” e “Dagon”, sua natureza conservadora e anglófila, refletindo sua resistência ao grande número de estrangeiros na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte. 

A Estátua da Liberdade dá as boas vindas aos imigrantes.

Posição esta que, de fato, era compartilhada por setores conservadores da sociedade branca dos Estados Unidos da época.

Para Caio Alexandre Bezarias em Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft (2006), essa presença de grupos étnicos e culturais diversos e o choque com a tradição dos norte-americanos representou uma das facetas mais expressivas da modernização do país:

“A presença dos mestiços e imigrantes que tinham tomado de assalto os espaços abertos das cidades – despreparadas para recebê-los em tamanha quantidade, o que gerou inúmeras tensões e conflitos entre eles e os norte-americanos nascidos em solo local – foi uma das manifestações mais visíveis, tensas e vivas da expansão da economia industrial Estados Unidos afora…”  

Dentro da obra lovecraftiana em geral percebe-se esse temor ao estrangeiro, sua cultura e constituição física destoantes do padrão branco, anglo-saxônico e protestante vinculado à cultura norte-americana e celebrado nos heróis espaciais da FC do período.

Branco caucasiano, alto e forte. Padrão heroico nas revistas pulp do começo do século vinte.

Tudo junto e misturado

Localizando em seus corpos um espaço do diferente, os monstros híbridos de Lovecraft trazem à mente as considerações de Mary Douglas em Pureza e perigo (1966) sobre as criaturas que subvertem as suas categorias culturais ligados a Terra, a Água e o Ar.

A partir desta obra Julia Kristeva desenvolveu o conceito do Abjeto.

A partir da análise do Levítico – Livro sagrado para o Judaísmo e de caráter legislativo pelo detalhamento dos comportamentos a serem observados pelos judeus para manter sua santidade – Douglas sistematiza os seres que eram considerados puros e impuros, abrangendo animais aquáticos, terrestres até aqueles que são do ar:

“A santidade requer que os indivíduos se conformem à classe à qual pertencem. E a santidade requer que diferentes classes de coisas não se confundam”.

No caso dos seres lovecraftianos esta subversão categorial ocorre pelo fato destas criaturas estarem no interstício animal/humano e terrestre/aquático/aéreo.

Corpo humano, tentáculos de lula e asas de morcego. Cthulhu: um ícone da subversão das categorias.

O medo do desconhecido

A edição em Português está esgotada, mas vale a pena futucar os sebos físicos e virtuais

Para Noël Carroll em A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração (1990), esta ambiguidade cultural existente nos termos de Mary Douglas se coloca como um dos elementos constituintes do horror artístico explorado na Literatura e no Cinema:

“O que horroriza é o que fica fora das categorias sociais e é forçosamente desconhecido”.

Nesta obra o autor explora sua visão do Horror Cósmico explorado na ficção Weird e fala de suas influencias.

Dentro desta leitura, enquanto corporificação do desconhecido, os monstros de Lovecraft se tornam o medo encarnado, visto que, como afirma o escritor em O Horror Sobrenatural na Literatura:

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

Assim, além de fantasmas internos resultados de sua infância e adolescência atribuladas e de suas leituras de Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce, Lord Dunsany, Robert W. Chambers, Arthur Machen e outros, as divindades monstruosas de Lovecraft refletem o temor não apenas do escritor, mas também de setores conservadores da sociedade norte-americana quanto as profundas e rápidas mudanças levadas a cabo pela inexorável industrialização e que se refletiu, por exemplo, na entrada de imigrantes compostos por grupos étnicos e raciais não-nórdicos e não-saxões.

Imigrantes chegando na Ilha Ellis, Nova York, no início do século vinte.

É importante destacar, todavia, que H. P. Lovecraft era, antes de tudo, um homem de seu tempo alinhado com o pensamento eugenista vigente de sua época.

Críticos e leitores de hoje, que acusam o escritor de racista e xenófobo, devem enxergá-lo dentro desta perspectiva histórica.

Veja agora abaixo, em ordem alfabética, 7 monstros de H. P. Lovecraft que estão a sua espera neste ano.

7 monstros de Lovecraft que vão encontrar você em 2017

1. Azathoth

A mais poderosa das divindades lovecraftianas, Azathoth é o Caos Nuclear da criação, sendo retratado normalmente como uma massa amorfa de tentáculos, olhos e dentes. É também chamado de O Deus Idiota pelo fato de não ter consciência de seu inominável poder. Vive primordialmente no centro do universo.

Obras: A busca onírica por Kadath, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

2 . Cthulhu

A divindade-monstro mais conhecida dentre os leitores. Oriundo de outra dimensão, Cthulhu chegou a terra em tempos imemoriais e construiu a gigantesca cidade de R’lyeh, hoje submersa, de onde governou o mundo até que um alinhamento de estrelas o levou a um estado letárgico que dura até hoje. Vive nas profundezas de R’lyeh e se comunica com os seus adoradores por meio de sonhos. 

Obras: “O chamado de Cthulhu”

3. Dagon

Baseado diretamente em um deus da fertilidade Assírio-babilônico de mesmo nome, Dagon é a mais famosa criatura de Lovecraft depois de Cthulhu. Do tamanho de uma baleia, ele apresenta forma humanoide-aquática e é o deus de seres abissais com a aparência de homens-peixes.   

Obras: “Dagon” e “A sombra em Innsmouth”

4. Nyarlathotep

Assim como Dagon, Nyarlathotep também possui raízes em culturas antigas, neste caso aqui, a mitologia egípcia. Também apresentado como a alma de Azathoth ele pode assumir forma humana e já foi faraó do Egito. Quando caminha entre os humanos costuma disseminar pesadelos nas pessoas ao seu redor.

Obras: “O habitante das trevas”, “Sonhos na casa da bruxa”, A busca onírica por Kadath, “Nyarlathotep”

5. Shoggoths

Apresentados como a primeira espécie extraterrestre em nosso planeta, os Shoggoths são uma massa protoplásmica criada originalmente como servos de outros deuses para construírem edificações no mar ártico. Eventualmente eles se rebelaram contra seus criadores, algo surpreendente considerando que foram concebidos como seres sem inteligência.  

Obras: Nas montanhas da loucura, “A sombra em Innsmouth” 

6. Shub-Niggurath

Deusa da fertilidade, a “cabra negra de mil filhotes”, como também é conhecida, não apresenta uma descrição específica, o que provoca várias interpretações de sua figura. Sendo apresentada também como deusa da criação ela por vezes é retratada como possuidora do masculino e do feminino dentro do mesmo ser. 

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, “Um sussurro na escuridão”, “Sonhos na casa da bruxa”

7. Yog-Sothoth

Ainda que exista fora de nossa realidade material, Yog-Sothoth é capaz de influenciá-la diretamente, podendo inclusive, engravidar mulheres. Umas das divindades mais poderosas do Deuses Exteriores, controlador do tempo e espaço, ele habita outra dimensão de onde observa nosso planeta.    

Obras: “O Horror de Dunwich”, “O horror no museu”, O caso de Charles Dexter Ward

Celebrando o monstruoso

Eventos acadêmicos, Games, Literatura, Publicações acadêmicas e RPG.

2017 tem H. P. Lovecraft e seus monstros pra todo lado e mídia:

IV Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional

Em fase de planejamento na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a edição deste ano celebra os 80 anos de morte do escritor e os 100 anos de seus primeiros escritos profissionais. Acompanhe as informações favoritando o site do SePel. [ATUALIZADO 26/02/2017] O evento foi cancelado devido a crise financeira do Rio de Janeiro e a falta de repasse de verba para a UERJ 

Games

Está previsto para 2017 o lançamento de Call of Cthulhu para as plataformas Xbox One, PlayStation 4 e PC, cobrindo assim, uma lacuna de mais de uma década do último bom jogo ligado a Lovecraft – Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth (2006).

Literatura

Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico é a ousada iniciativa para este ano da Editora Ex-Machina, projeto sob a coordenação do editor Bruno Costa.

Fruto de uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo, a obra promete ser a mais completa e abrangente publicação sobre H. P. Lovecraft já lançada no Brasil.  

Outra iniciativa de financiamento coletivo para este ano ligado a Lovecraft é o livro Arthur Machen: Mestre do Oculto, da Editora Clock Tower

A editora tem se destacado pela produção de obras de qualidade e divulgação de conteúdo sobre H.P. Lovecraft e demais autores que influenciaram o escritor, como Robert W. Chambers (O Rei de Amarelo), e Arthur Machen (Arthur Machen: O Mestre do Oculto) e que foram influenciados por ele, como Robert E. Howard (O Mundo Sombrio: histórias dos Mitos de Cthulhu).

Publicações acadêmicas

A Revista Abusões, ligada a UERJ, está com chamada para publicações de artigos até o dia 05 de março de 2017 para compor a edição 4 (Janeiro/Junho 2017).

Para esta edição a revista aceita artigos que tratem da produção artística e crítica do escritor norte-americano, sobre Horror Cósmico, ou, em uma perspectiva comparatista, sobre obras ficcionais e ensaísticas que estabeleçam diálogos com a obra lovecraftiana.

RPG

A RetroPunk Publicações lançará em 2017 a edição revisada do RPG Rastro de Cthulhu, lançado inicialmente no Brasil em 2010.

Para esta nova publicação, também resultado de financiamento coletivo, a editora trará um livro com 248 páginas e tamanho 21×28 com capa dura e miolo em sépia rodado em 4 cores.

Fica a dica

Com base na qualidade do trabalho de edição e tradução e fornecimento de informações extras para leitores e pesquisadores, o FANTASTICURSOS recomenda as seguintes antologias de contos de H. P. Lovecraft publicado no Brasil:

O mundo fantástico de H. P. Lovecraft (Editora Clock Tower).

Livro esgotado no site da Editora Clock Tower, mas que vale ser pesquisado nos sebos.

Os melhores contos de H. P. Lovecraft (Editora Hedra).

A melhor antologia de contos do escritor disponível no momento no Brasil. Você pode comprar diretamente no site da Editora Hedra.

Qual outro monstro você acrescentaria a lista?

E qual é o seu conto ou romance favorito de H. P. Lovecraft? 

Deixe seu comentário, compartilhe o post com seus amigos tenebrosos e celebre o ano de Cthulhu e seus companheiros.

Tamo junto!

 Fontes consultadas

BERMAN, Marshall (1986). Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. (Carlos Felipe Moisés, Ana Maria L. Ioriatti, Trads.). São Paulo: Companhia das Letras.

BEZARIAS, Caio Alexandre (2006). Funções do mito na obra de H. P. Lovecraft. Dissertação de Mestrado em Letras. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

CARROLL, Noël (1999). A filosofia do horror ou paradoxos do coração. (Roberto Leal Ferreira, Trad.). Campinas, SP: Papirus, 1999. (Coleção campo imagético).

DOUGLAS, Mary (2012). Pureza e perigo. (Mônica Siqueira Leite de Barros e Zilda Zakia Pinto, Trads.). São Paulo: Perspectiva (Debates; 120).

JOSHI, S. T (2007). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press. 

JOSHI, S. T (2001). The modern weird tale. North Carolina: McFarland & Company.

LOVECRAFT, H. P (2008). O horror sobrenatural em literatura. (Celso M. Paciornik, Trad.). São Paulo: Iluminuras.

RICCI, Denílson Earhart (2014). Biografia de H. P. Lovecraft. In RICCI, Denílson Earhart (Org.). O mundo fantástico de H. P. Lovecraft: Antologia – contos, poesias e ensaios. 2ed. (Mario Jorge Lailla Vargas, Trad.). Jundiaí, SP: Clock Tower, pp. xix-xxxvii. 

VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff (Eds.) (2011). The weird: A compendium of strange and dark stories. New York: Tor Book.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

5 razões pelas quais você não tem medo de Múmia

Semelhante ao seu primo sobrenatural sugador de sangue, ele habita a fronteira entre os vivos e os mortos, dorme em um caixão, possui raízes nobres em terras exóticas e tem poderes sobre-humanos. Sendo assim, por que a múmia não possui o mesmo status junto ao público, escritores e roteiristas que o vampiro ou outros ícones do horror, como a criatura de Frankenstein e o lobisomem? 

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Monstros clássicos do Universal Studios

Se você quiser pular direto para as 5 razões, clique aqui.

Mas se quiser descobrir brevemente os mistérios que criaram a mítica desta criatura no Egito e sua representação na Literatura e no Cinema continue a leitura abaixo.

Terra imortal

Ainda que em todos os continentes ao longo da história da humanidade tenham existido culturas que praticaram a mumificação, foi no Egito antigo que esta técnica se aprimorou, tendo seu início no ano 2950 a. C. e alcançando seu ponto alto no ano 1100 a. C.

Empacotado para a viagem ao outro mundo
Empacotado para a viagem ao outro mundo

O propósito da múmia era a conservação do corpo em virtude da crença na imortalidade do indivíduo. A morte, para o egípcios, era passageira e a alma da pessoa poderia retornar ao corpo caso este estivesse conservado

Hórus X Jesus

Os mistérios do Egito começaram a ser moldados no século 4, quando o Cristianismo foi implantado no país por meio do Império Romano e os tempos dedicados ao deuses egípcios foram fechados por ordem do imperador Teodósio I.

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Muitos mitólogos apontam os pontos de contato entre Hórus e Jesus Cristo.

Com a morte dos sacerdotes e escribas egípcios, o conhecimento pala ler e escrever os hieróglifos (do grego, “escrita sagrada”) se perdeu e os mortos pararam de ser mumificados, dando início aos mistérios sobre seus significados.

hieroglifo
Apenas membros da realeza, possuidores de altos cargos, escribas e sacerdotes tinham o conhecimento para ler os hieróglifos.

Nasce a alquimia da múmia

Os árabes tiveram papel chave na criação do imaginário que temos hoje da múmia e do Egito como um todo quando a região do Nilo se tornou parte do mundo árabe na primeira invasão islâmica em 639.

Intrigados com os hieróglifos, construções e os corpos embalsamados daquela civilização, os árabes chamavam o Egito de Al Keme (“A Terra”), que fazia menção tanto ao fértil solo nas margens do Rio Nilo, quanto a magia oculta naquele local que eles não compreendiam.

Para alguns historiadores, vem dai a palavra “Alquimia”, ou seja, a utilização e manipulação de palavras específicas e elementos para a transformação de uma substância em outra. 

Além de “Alquimia”, a própria palavra “Múmia” nasceu entre os árabes através do termo mumiya (“corpo embalsamado”).

A múmia invade a Europa

Ansioso por se comparar ao grandes conquistadores do passado em suas campanhas na Ásia e na África, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito em 1798 levando junto com sua tropa centenas de biólogos, linguistas, matemáticos, químicos, botânicos, zoólogos, economistas, poetas e outros especialistas.

Napoleão diante da Esfinge
Napoleão diante da Esfinge

 O resultado foi o começo de uma Egiptomania que trouxe para a França diversos tesouros, monumentos e documentos, muitos dos quais ainda fazem parte do cenário parisiense de hoje, como o Obelisco de Luxor na Place de La Concorde, que originalmente ficava na entrada do Templo de Luxor, no Egito.   

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Até hoje o Egito cobra a devolução de suas propriedades levadas por Napoleão.

Neste clima, estava pronto o terreno para a estréia literária da múmia como criatura sobrenatural  evocadora do horror.

A múmia gótica

Para o crítico S. T. Joshi, autor de Icons of Horror and the Supernatural (2007), Mary Shelley (sempre ela), autora de Frankenstein (1818), pode ter sido a primeira escritora na ficção inglesa a evocar a múmia como uma criatura do horror.

Quanta imaginação tinha essa menina!
Quanta imaginação tinha essa menina!

Na obra, quando Victor Frankenstein vê sua hedionda criação, diz: “Oh! Nenhum mortal poderia suportar o pavor daquela visão. Uma múmia que voltasse a vida não seria tão assustadora.”

Frankenstein ainda pode ter exercido influencia no primeiro romance estrelado por um múmia: A múmia! Um conto do século vinte e dois (1827), da jovem Jane Loudon. Aqui, no entanto, a múmia não é apresentada de forma monstruosa, evocando empatia e não horror.  

Múmia no mundo da FC
Múmia no mundo da FC

Chama a atenção aqui o fato também que a primeira obra protagonizado por uma múmia tenha sido na verdade uma Ficção Científica.  

Aguardando um bestseller

Após sua estréia por vias tortas na Literatura Inglesa, a múmia foi personagem nos trabalhos de vários nomes do gótico francês, inglês e norte-americano ao longo do século dezenove e vinte, nunca sendo plenamente estabelecida como um ícone do horror. Dentre estas obras que ajudaram a estabelecer características das histórias da múmia destacam-se:

  • “O pé da múmia” (1840), do francês Theóphile Gautier – Introduz o elemento romântico na qual um personagem se apaixona pela múmia. Ainda que fale dos aspectos mágicos da criatura, o tratamento do tema é de comédia.  
  • “Algumas palavras com uma múmia (1845), de Edgar Allan Poe – Primeiro conto em Língua Inglesa a trazer a criatura do Egito. O tom que o mestre do gótico norte-americano imprime, todavia, é de sátira ao invés do horror;
  • O romance da múmia (1856), de Theophile Gautier – Primeiro romance a ser ambientado de forma historicamente precisa no Egito.  
  • “Lot No. 249” (1892), de Arthur Conan Doyle – Este conto do criador do detetive Sherlock Holmes traz pela primeira vez uma múmia revivida como promotora do medo, sendo utilizada como instrumento de vingança contra outras pessoas.   
  • A joia das sete estrelas (1903), de Bram Stoker – O romance do escritor de Drácula, traz a estréia do tema da princesa egípcia revivida que tem semelhanças físicas com heroína dos tempos atuais. A mesma abordagem usada no filme A múmia (1999). 

A múmia também saiu do sarcófago nas seguintes obras literárias dignas de nota:

  • “The Nemesis of Fire” (1908), de Algernon Blackwood;
  • “Smith and the Pharaohs” (1912), de H. Rider Haggard;
  • “Imprisoned with Pharaohs” (1924) e “Out of the Aeons” (1935), de H. P. Lovecraft;  
  • “The Empire of the Necromancers” (1932), de Clark Ashton Smith;
  • The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice;

No Cinema

Antes de Drácula, o monstro de Frankenstein e o Lobisomem, a Múmia esteve lá, nos primeiros anos do Cinema, sendo esta o principal veículo no qual esta criatura vem se propagando na cultura pop. As produções mais representativas são:

Cleopatre (1899), direção de George Méliès – Foi com este filme que o pioneiro do Cinema se tornou conhecido nos EUA. Na trama, um homem (o próprio Méliès) picota a múmia de uma rainha e produz uma nova mulher no fogo.

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O pioneiro do Cinema é mais conhecido do público pelo filme Le Voyage dan la Lune (1902).

A múmia (1932), direção de Karl Freund – Clássico dos Estúdios Universal que consagrou a múmia no Cinema norte-americano ao lado de Drácula (1931) e Frankenstein (1931). Estrelado por Boris Karloff.

A múmia (1959), direção de Terence Fisher – Produção dos estúdios ingleses Hammer Films e estrelado pela dupla dinâmica Peter Cushing e Christopher Lee. 

A múmia (1999), direção de Stephen Sommers – Filme que teve o mérito de apresentar de maneira competente o monstro para as novas gerações. O sucesso rendeu duas continuações em 2001 e 2008 sem o mesmo impacto. 

A múmia (2017), direção de Alex Kurtzman – Próxima reencarnação cinematográfica do ser mumificado no Cinema. Estrelado por Tom Cruise o filme traz uma princesa múmia (para aproveitar a onda do empoderamento feminino no Cinema, será?) cujo destino lhe foi tirado injustamente. 

Agora que você tem mais informações, veja as 5 razões pelas quais esta criatura sobrenatural não consegue se igualar a outros monstros do universo do Horror, e que leva você a não ter  medo da múmia:

1. A múmia existe

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo de medo mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido”.

A afirmação do escritor de Horror H. P. Lovecraft em O horror sobrenatural em literatura (1927) ajuda a entender o pouco impacto da múmia como agente do medo.

As múmias existem e você pode visitá-las a qualquer momento em um museu. O conforto desta realidade se alia as pesquisas da ciência que dissecam a múmia aos olhos do público, expondo seu interior, sua humanidade e, indiretamente, eliminando sua aura sobrenatural.

Assim, diferente das outras criaturas que, assim como ela, estão ligadas ao folclore ou a crenças religiosas de um povo, como o vampiro, o lobisomem, o demônio e o fantasma, a múmia está ao alcance da nossa racionalização e, portanto, longe de nossas duvidas (e medos) sobre sua possível existência. 

2. A múmia não possui relevância literária

Pensou em vampiro, lembrou do romance Drácula, de Bram Stoker. Pensou em Duplo, lembrou da novela O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson ou no conto “William Wilson”, de Edgar Allan Poe. Pensou em homem brincando de Deus, lembrou do romance Frankenstein, de Mary Shelley. 

Diga aí uma obra literária famosa sobre a múmia

Um obra literária reflete as expectativas e angustias de seu tempo, incorporadas nos monstros citados acima. Este fato permite uma dimensão de identificação entre leitor (ou expectador) e obra conferindo a esta última uma importância validade pelo público e pelo mundo acadêmico que a leva a estar presente em diferentes mídias e veículos ao longo de anos.

O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas
O romance não conseguiu repetir o sucesso da série As crônicas vampirescas

A obra mais representativa sobre a múmia é o romance The Mummy, or Ramses the Damned (1989), de Anne Rice, mas mesmo neste livro Rice não conseguiu o mesmo efeito que tinha conseguido com os vampiros e acaba incorrendo na repetida trama do amor imortal já visto em outas leituras da lenda.

Alguém pode argumentar que o lobisomem também não possui uma obra canônica que justifique sua fama nos dias de hoje, mas a resposta para isso nos leva a terceira razão.

3. A múmia não instiga nosso inconsciente

A múmia certamente chama a atenção por levar você a refletir sobre a sua própria mortalidade. Mas é só.

A fascinação pelo vampiro, por exemplo, passa pelo simbolismo do sangue enquanto elemento ligado a vida, ao sexo e ao sagrado. Inconscientemente você é fascinado e sente repulsa por uma criatura que em seu ataque carregado de tensão erótica realiza, em apenas um ato, dois impulsos básicos do ser humano: comer e copular.

Christopher Lee como Drácula
Christopher Lee como Drácula

Além disso, o estilo de vida do vampiro causa admiração pelo fato de que, na sua existência como morto-vivo, ele está além das convenções morais, religiosas e sexuais que inibem a vida dos vivos.   

Já o lobisomem e o Duplo, por sua vez, tem seu apelo junto ao imaginário sustentado pelo lado bestial e instintivo do ser humano, mantido escondido e reprimido por meio das instituições familiares, religiosas e governamentais e que, de vez em quando, quer emergir e se libertar. É o Id contra o Superego. 

Lembre-se de quando você teve o seu Dia de Fúria.

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Transformação no filme Um Lobisomem americano em Londres (1981)

Dr. Jekyll e Mr. Hyde
Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1941)

Por fim, o monstro de Frankenstein nos horroriza por ser a lembrança da transgressão maior: contra a vida. Independente de sua religião, a criatura de Mary Shelley evoca reflexões sobre a Natureza (e o feminino) ser a única responsável pela geração da vida, algo que Victor Frankenstein viola e paga o preço por isso. 

Além disso, o romance de Shelley tem raízes míticas, em narrativas sobre a violação de conhecimentos proibidos e as consequências desse ato. 

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A punição do titã Prometeus por ter entregue aos homens o fogo roubado dos deuses foi ser acorrentado em uma pedra e ter seu figado devorado eternamente por um abutre.

4. A múmia não se sustenta enquanto imagem do medo

Desde suas primeiras aparições literárias e cinematográficas a abordagem prevalecente das histórias sobre múmias não provocam o horror, mas sim a compaixão ou empatia pela criatura. 

Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).
Imhotep e Anck su namun no filme A múmia (1999).

Isso é o resultado de enredos e roteiros que recorrentemente usam o tema da reincarnação da pessoa amada e da possessão espiritual de algum amante pelo espírito ancestral. Assim, o que era pra ser de Horror vira Amor e mesmo os assassinatos da criatura ganham a justificativa na linha do “No amor e na guerra vale tudo”. 

Se você lembrar que o significado da palavra “múmia” é “corpo embalsamado” ai terá outro problema: em muitas histórias na literatura e no cinema a múmia perde suas mortalhas e assume a aparência dos vivos mas dotado de super poderes.

É igual a um lobisomem que não se transforma em lobo ou um vampiro sem caninos salientes. 

 5. A múmia foi substituída pelo zumbi

Cadáver ambulante por cadáver ambulante, o zumbi é mais eficiente hoje na provocação do horror do que a múmia e permite maior reflexão sobre a mortalidade do ser humano. 

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Ei, me dá uma mãozinha aqui.

O zumbi supera a múmia, e vem superando outros monstros clássicos da Literatura e do Cinema, por lidar com um dos tabus da humanidade: o canibalismo.

Este canibalismo, e o comportamento dopado do zumbi tradicional (e não aqueles zumbis atletas do filme Guerra Mundial Z) reflete a alienação do ser humano na atualidade dentro da cultura do consumismo desenfreado e da dependência da tecnologia.

 

Ilustração de Steve Cutts
Ilustração de Steve Cutts

E ai? Concorda com as razões pelas quais você não tem medo de múmia, ou não?

Se gostou, deixe seu comentário e compartilhe este texto com seus amigos monstruosos.

Até a quarta que vem!

Fontes utilizadas

JOSHI, S. T. (Ed). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of our worst Nightmares, Vols. 1 & 2. London: Greenwood Icons, 2007.

JUNIOR, Gonçalo. Enciclopédia dos monstros. São Paulo: Ediouro, 2008.

LOVECRAFT. H. P. O horror sobrenatural na literatura. Trad. Celso M. Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2007.

   

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com