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Jogando luzes nas Trevas (Parte 1) Conheça o Gótico Colonial brasileiro.

Na escola (quando se fala disso na escola) falou de Gótico no Brasil falou de Álvares de Azevedo e Noite na Taverna (1855), certo?

A obra de Azevedo utiliza diretamente várias convenções do Gótico europeu

Mas, na verdade, o buraco é mais embaixo (além de mais profundo e assustador).

Aproveitando que lá no canal do FANTASTICURSOS no Youtube estou fazendo a série O QUE É GÓTICO, vou falar brevemente aqui no blog de como está vertente do Fantástico entrou e se manifestou no Brasil em seus primeiros momentos em dois momentos diferentes de nossa Literatura. 

Neste primeiro post, vou falar do Gótico Colonial brasileiro.

O Gótico Colonial brasileiro

Em seu primeiro momento, o Gótico literário se manifestou dentro do Romantismo, quando poetas e escritores pretenderam estabelecer as bases de uma literatura verdadeiramente nacional.

José de Alencar, Álvares de Azevedo e Castro Alves foram os principais nomes do Romantismo.

Duas características do Romantismo ajudaram neste início do Gótico em nossas terras:

  1. Resgate do passado nacional;
  2. Apresentação do país para o seu próprio povo.

José de Alencar e o índio cavaleiro

“A Canção do Velho Marinheiro” foi uma das primeiras manifestações do Romantismo na Inglaterra.

Se na Inglaterra o passado medieval do país fomentou poemas como “A Canção do Velho Marinheiro (1798), de Samuel Taylor Coleridge e nos Estados Unidos o passado puritano inspirou Nathaniel Hawthorne a escrever A Letra Escalarte (1850), no Brasil José de Alencar deixou sua marca a partir da presença dos índios com o Guarani (1857).

Como Daniel Serravalle de Sá discute em Gótico tropical (2010), ainda que não tenha sido concebido como um romance Gótico, o clássico indianista de José de Alencar possui imagens e linguagem semelhante àquelas utilizadas pelos romances góticos ingleses.

Essa presença gótica, muito evidenciada na utilização do Sublime dos espaços da Natureza e na representação do vilão Loredano, dentre outros elementos, se alinha com nosso momento literário quando a obra, ao mesmo tempo que enaltecia ideias progressistas pós-Independência, também refletia a realidade da sociedade brasileira.  

Bernardo Guimarães e o Sertão assombrado

Foi a partir de Bernardo Guimarães que o Gótico brasileiro encontrou seu principal caminho para se infiltrar no Brasil dentro da proposta romântica de apresentar os costumes e crenças do Brasil do interior para os habitantes dos centros urbanos. 

Esse fato pode ser percebido em obras como “Orgia dos duendes” (1865) em que lobisomens, bruxas, demônios e outras criaturas sobrenaturais do folclore brasileiro e europeu se encontram para um sabá ou em Escrava Isaura (1875), em que a temática gótica do século 18 do aristocrata medieval em perseguição a uma donzela é transportada para as senzalas de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.

Já no conto “A Dança dos Ossos” (1871) se pode notar como o Gótico brasileiro refletiu as mesmas preocupações do Gótico inglês no que a crítica Alexandra Warwick chamou de “Gótico Colonial”.

Lidando com a experiência do sujeito da cidade ou do centro colonizador em um espaço estrangeiro, o Gótico Colonial trata como insólitos tanto a paisagem quanto as pessoas que habitam  o lugar do estranhamento.

No conto, que usa a temática dos ossos denunciadores de um crime, um habitante da cidade viajando pela divisa de Goiás com Minas Gerais do século 19 descreve sua incredulidade ao ouvir de um habitante da região sobre a ocorrência de ossos que dançam próximo a um rio do local.

Ao considerar a possibilidade do sobrenatural como sinal do atraso e da superstição do sertão e seus habitantes em oposição a um país que se pretendia progressista, o Gótico brasileiro vai se equiparar com contos desenvolvidos durante as últimas décadas do século 19 no Gótico vitoriano que tem como ponto em comum o desprezo dos ingleses com os costumes e crenças de terras estrangeiras.

Esse posicionamento pode ser visto em contos como “A marca da besta” (1890), de Rudyard Kipling, onde o desprezo pelos lugares sagrados leva um inglês na Índia a se transformar em um lobisomem.

Outro exemplo é “O convidado de Drácula” (1914), de Bram Stoker, em que um homem a caminho da Transilvânia não dá ouvidos as advertências dos aldeões do leste europeu e paga o preço pela sua arrogância.

Monteiro lobato e o interior monstruoso

A obsessão das elites brasileiras em transformar as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo em uma nova Paris Tropical, tida como exemplo de civilização no início do século 20, intensificou essa marginalização do interior pelos olhos da cidade e reforçou a disseminação dessa leitura do Gótico colonial em outros obras como “Bocatorta” e “Velha Praga”, de Monteiro Lobato, ambos publicados em Urupês (1918).    

Neste quadro, e guardadas as devidas especificidades culturais entre Inglaterra vitoriana e Brasil da República Velha (1889-1930), o crítico Jeffrey D. Needell observa que o modo de pensar da elite brasileira nas primeiras décadas do século vinte em muito se assemelhou a ideologia imperialista inglesa:

“Com frequência a elite enxergava o Brasil de forma semelhante a dos colonizadores europeus da época, que em outras partes do mundo viam as colônias propriamente ditas como uma área de riquezas potenciais, cuja exploração era dificultada pela presença de raças e culturas inferiores.” 

Dentro deste cenário, a mentalidade neocolonial ou imperialista das elites fomentou uma produção literária marcada pelo preconceito em relação a uma parte do país e/ou a segmentos da população que, pelos parâmetros das grandes cidades do período como Rio de Janeiro e São Paulo, ainda pertenciam a um tempo medieval de atraso, superstição e barbárie; uma visão que perduraria por toda a República Velha (1889-1930). 

Mas não foi apenas por meio do Gótico Colonial brasileiro que a Literatura Gótica assombrou as letras brasileiras.

Na próxima semana, vou falar como o Decadentismo levou o Gótico para dentro das cidades brasileiras, abordando as taras, ansiedades e subversões dos centro urbanos. 

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Fontes utilizadas

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 47ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

BURKE, Edmund. Uma Investigação Filosófica sobre a Origem de nossas Idéias do Sublime e do belo. Trad. Enid Abreu Dobránszky. Campinas, SP: Papirus Editora, 1993.

NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Epoque: Elite Culture and Society in Turn-of-the-century. Rio de Janeiro. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

SILVA, Alexander Meireles. O admirável mundo novo da República Velha. Rio de Janeiro, UFRJ, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Acesso em 16 fev, 2017.

SNODGRASS, Mary Ellen. “Colonial Gothic”. Mary Ellen Snodgrass. Encyclopedia of Gothic Literature. New York: Facts On File, 2005. 61-62.

WARWICK, Alexandra. “Colonial Gothic”. Marie Mulvey-Roberts, ed. The Handbook to Gothic Literature. New York: New York University Press, 1998. 261-262.

Todo negro quer ter o cabelo liso; Ou Yes, nós temos Ficção Científica

Imagine um futuro em que, para se casar e ter filhos, você precisasse provar antes, para uma comissão, que geraria alguém sem problemas físicos ou mentais.

“Você deve ter um Certificado Eugênico”.

Imagine um futuro em que a ordem social foi alcançada por meio da esterilização de alcoólatras, pervertidos sexuais e pessoas portadoras de necessidades especiais.

Propaganda da Alemanha Nazista incentivando a Eutanásia mostrando os custos para o pais do tratamento de deficientes mentais.

Imagine um futuro em que os negros, após terem conseguido embranquecer a pele, também ansiassem por terem os cabelos lisos e sedosos.

A propaganda da empresa de cosméticos L’Oréal causou polêmica por embranquecer o tom da pele de Beyoncé.

E se o processo de alisamento dos cabelos escondesse um segredo mortal para a população negra?

Bem vindo ao futuro de O Presidente Negro, ou O Choque das Raças (1926), de Monteiro Lobato. 

Monteiro Lobato foi o Pai da Literatura Infantil Brasileira e ardente defensor do progresso do Brasil.

Se você quer logo saber como a distopia do criador de O Sítio do Pica-Pau Amarelo exemplifica os momentos iniciais da Ficção Científica no Brasil no começo do século vinte, antes de conhecer as raízes da FC brasileira e sua dificuldade de se estabelecer no país, clique aqui

Da Europa a Hollywood

O impacto da Revolução Industrial na Inglaterra do século dezenove, representada, por exemplo, na invenção de máquinas que tiraram o emprego das pessoas no campo e criaram fábricas na cidades, promoveu o ambiente literário para o nascimento da ficção científica, através do romance gótico Frankenstein (1818), da escritora inglesa Mary Shelley.

Já na era vitoriana (1837-1901), a FC se desenvolveu em uma nova vertente romanesca nas “Viagens Extraordinárias” do francês Julio Verne e nos “Romances Científicos” do inglês H. G. Wells.

O francês Julio Verne e o inglês H. G. Wells. Pais da Ficção Científica.

Será nos Estados Unidos da América que, em 1926, o termo “Ficção Científica” será criado pelo editor tcheco naturalizado norte-americano Hugo Gernsback através das revistas pulp como, dentre outras, Amazing Stories e Science Wonder Stories.

A partir da palavra “Scientifiction” surgiu o termo “Science Fiction”.

Alinhado com o momento de avanço tecnológico e interesse pela ciência presente na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte, Hugo Gernsback, ao lado de outros editores e publicações, criaram o ambiente necessário para o desenvolvimento de uma cultura de FC.

Flash Gordon, principal representante dos heróis das Space Operas da FC da época.

Esta base permitiu que temas e ideias fossem criadas, exploradas, reinventadas e disseminadas por escritores e leitores nos anos das décadas de 1920 a 1950, levando a Ficção Científica a se estabelecer na cultura americana e se espalhar para outros veículos, como a TV e o Cinema do país.  

E a Ficção Científica Brasileira?

O Brasil não conheceu uma Pulp Era, como a dos norte-americanos, que ajudou a ficção científica a se estabelecer no mercado.

Uma das causas desse fenômeno, segundo o escritor e crítico Bráulio Tavares, foi o fato de que, diferente do observado na história do nosso país, o papel transformador desempenhado pelo progresso e a tecnologia no processo de formação da sociedade norte-americana permitiu que a ficção científica encontrasse um meio receptivo junto ao grande público daquele país.

A pintura AMERICAN PROGRESS (1872), de John Gast, retrata a importância da educação e do pensamento cientifico no crescimento do país. Por onde o Progresso passa, espalhando a eletricidade e trazendo a locomotiva, as trevas vão se retraindo.

Já para Murilo Garcia Gabrielli, nossa literatura fantástica, e incluo ai a ficção científica, tem seu início no final do século dezenove e começo do vinte via a forte influência da cultura inglesa e francesa na formação da elite literária do país.

Século dezenove: doutores e rainhas

No excelente Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (2003), Roberto de Sousa Causo, defende que a ficção científica começa no Brasil com a obra O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar.

 Visivelmente influenciado pelos romances de Julio Verne, O Doutor Benignus relata uma expedição ao Brasil Central a partir de onde o cientista do título quer provar que o Sol é habitado por criaturas vivas.  

Outra obra precursora do Fantástico brasileiro, tanto da FC na vertente das Utopias literárias quanto da Fantasia, é A Rainha do Ignoto (1899), da cearense Emília Freitas

Inovador na época por ter sido publicado por uma escritora e também por trazer uma mulher como protagonista, o romance mescla utopia e fantasia ao mostrar como a rainha de uma terra encantada habitada exclusivamente por mulheres percorre o Brasil para libertar mulheres de seu sofrimento físico e mental.

O admirável mundo novo da República Velha

Após as experiências isoladas de Augusto Emilio Zaluar e Emília Freitas, a Ficção Científica brasileira começa a ganhar corpo e regularidade ao longo da República Velha (1889-1930) em duas fases com características distintas:

  1. Durante a Belle Époque (1889-1914);
  2. Durante o período entre-guerras mundiais (1914-1930).

O lado feio da Belle Époque

As narrativas de ficção científica se desenvolvem como reflexo dos efeitos reformadores da Belle Époque (1898-1914) sobre as metrópoles brasileiras, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo. 

A Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, foi um marco da obsessiva busca das elites brasileira em se aproximar da França, modelo cultural do período.

Nesse período, em que o sujeito urbano se viu alienado e perdido em meio as profundas transformações da cidade carioca levadas a cabo pelo progresso científico, as narrativas de ficção científica brasileira se manifestaram por meio tanto da Ciência Gótica, quanto da postura artística de fim de século chamada Decadentismo.

Para um melhor entendimento da Ciência Gótica e do Decadentismo, recomendo a leitura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado clicando aqui.

Para Bráulio Tavares, a Ciência Gótica é representada por narrativas que mesclam FC e Gótico de forma que a Ciência é usada em situações bizarras, estranhas e grotescas. Como é o caso de FRANKENSTEIN.

Os escritores Coelho Neto e João do Rio são os principais representantes desta ficção científica dark brasileira. 

Dentre os vários romances e contos filiados ao fantástico, destaque em Coelho Neto para o romance Esfinge (1908), no qual Espiritismo e Ciência Gótica se unem para descrever a angústia existencial de um ser andrógino fabricado pela união de um corpo masculino e rosto feminino. 

Jornalista, escritor e cronista da Belle Époque, João do Rio foi responsável por introduzir a obra do também decadentista Oscar Wilde no Brasil.

Já nos contos e crônicas de João do Rio o que se tem são narrativas decadentistas em que o progresso e a ciência ressaltam as taras e psicoses dos habitantes urbanos.

O lugar ruim do entre-guerras

A partir dos anos da década de 1920, a Ficção Científica brasileira se alinhou com o ambiente de incertezas dominante na Europa e Estados Unidos do período entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Grande Guerra.

Este cenário levou a criação de Distopias literárias que refletiram a busca de soluções para o país por parte de pensadores e intelectuais.

NÓS (1922), de Yevgeny Zamyatin é considerada a primeira distopia moderna e serviu de referência para as distopias 1984 e ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.

No Brasil, as elites enxergaram no povo brasileiro, e mais especificamente, na constituição miscigenada do país, o responsável pelo atraso da nação.

O REINO DE KIATO (1922), de Rodolpho Theophilo, publicado pela editora de Monteiro Lobato.

Esta crença ganhou forma em utopias/distopias literárias como O reino de Kiato (1922), de Rodolpho Theophilo, A Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls, e Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500 (1929), de Adalzira Bittencourt. 

Como elemento em comum, estes romances trazem sociedades cujos problemas sociais foram eliminados pela aplicação do pensamento eugenista, ou seja, da crença da superioridade de uma raça sobre outra e o controle de tipos humanos indesejáveis por meio da ciência.

No Brasil, os indesejados eram o negro, o índio e o caboclo.

Mas, dentre todas as distopias no Brasil da época, nenhuma superou o romance O Presidente Negro, de Monteiro Lobato devido a influencia do seu autor no meio literário e intelectual da época.

O Presidente Negro, ou O Choque das Raças

Lobato achou que o livro venderia milhões nos Estados Unidos, mas os americanos se recusaram a publicar o romance.

Escrito originalmente em 1926 para o rodapé da revista A Manhã, de Mário Rodrigues, O Presidente negro ou O choque das raças (romance americano do ano 2228) se estrutura em dois planos:

No primeiro, o leitor é posto frente à narrativa do protagonista Ayrton, que é resgatado pelo professor Benson em meio aos destroços de um acidente de carro e é convidado pelo idoso a testemunhar os seus experimentos em sua casa enquanto recupera sua saúde.

Já no segundo plano, o romance mostra como, por meio de um aparelho chamado de “Porviroscópio”, Ayrton e Miss Jane, filha do Dr. Benson, conseguem ver os acontecimentos na América do futuro.

Os elementos que levaram O Presidente negro a ser considerado, na expressão de Fausto Cunha, “um precursor indesejável” da ficção científica brasileira, devido ao seu teor elitista, excludente e racista, estão presentes desde o início do enredo, ambientado no período do entre guerras.

Como reforça o Prefácio dos editores da segunda edição, de 1945, 

[…] [o romance] encerra um quadro do que realmente seria o mundo de amanhã, se fosse Lobato o reformador – e em muitos pontos havemos de concordar que sob aparências brincalhonas brilha um pensamento de grande penetração psicológica e social. O conserto do mundo pela eugenia, […]  

As ideias de reforma social de H. G. Wells, pai da FC inglesa, exerceram grande influencia sobre Monteiro Lobato.

Em O Presidente negro esse projeto social lobatiano tem um alvo direto: o negro.

Considerada um entrave ao pleno desenvolvimento dos Estados Unidos da América, a população negra, dentro do romance, passou a ser objeto de uma série de medidas que visavam controlar a sua expansão.

Para isso foi criado um “Ministério da Seleção Artificial” cujo objetivo era aplicar a Lei Owen de 2031, quando a eugenia se tornou política pública e passou a eliminar os impuros, ou seja, as pessoas com deficiência física e mental, criminosos e prostitutas.

No entanto, os negros não apenas sobreviveram como também aumentaram o seu número.

A expatriação dos negros não é um processo viável devido aos altos custos envolvidos na operação. Outro fator agravante na situação dos negros norte-americanos em O Presidente negro foi a despigmentação a que os mesmos se submeteram para eliminar a cor escura, transformando-os em albinos.

Esse procedimento aumentou o ódio dos brancos por igualar negros e brancos em termos de cor de pele, e isso mostra que o racismo se alicerça em bases invisíveis, se alimentando da intolerância em relação ao Outro.

Diante da resposta de Ayrton de que o Brasil foi mais pragmático por promover a miscigenação entre as raças como solução para o desaparecimento dos negros, a cientista retruca:

A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável peora de caráter, conseqüente a todos os cruzamentos entre raças dispares. Caráter racial é uma cristalização que ás lentas se vai operando através dos séculos. O cruzamento perturba essa cristalização (p. 206).

A tensão entre negros e brancos alcança o seu limite na octogésima oitava eleição presidencial norte-americana, que acaba na vitória do candidato negro Jim Roy.

Jim visita o Presidente Kerlog para propor um novo futuro de convivência pacífica entre brancos e negros. Kerlog, porém, surpreende o líder negro:

“Como homem admiro-te, Jim . Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar…” (p. 271).

Os brancos não tardam a agir, mesmo que desafiando a Constituição ao não legitimar o vitorioso de uma eleição livre.

O Presidente Kerlog, no entanto, tem resposta para isso:

“Acima da Constituição vejo o Sangue Ariano. O negro nos desafia. Cumpre-nos aceitar a luva e organizar a guerra” (p. 279).

A resposta para o Presidente negro vem de uma invenção do cientista Dudley.

Contando com a felicidade dos negros norte-americanos por terem eleito um Presidente dos seus e sabendo do desejo dos negros de terem os cabelos lisos, o cientista oferece uma solução para os cabelos crespos da população através da exposição aos raios Omega:

“Vir agora, e assim de chofre, o resto, o cabelo liso e sedoso, a supressão do teimoso estigma de Cam,” (p. 298).

O que os negros não sabiam, porém, era que o aguardado tratamento voltado para alisar-lhes o cabelo tinha como propósito verdadeiro a completa esterilização da raça negra

Após toda a população negra ser submetida ao tratamento, é Kerlog quem avisa ao negro Jim Roy sobe o fim dos seus semelhantes:

“Tua raça morreu, Jim, […] o branco pôs um ponto final no negro da America” (p. 317).

Jim é o único a saber da armadilha dos brancos e se suicida antes de tomar posse.

Para evitar uma revolta, o governo lança uma boneca dançarina que cativa toda a nação e abafa o debate sobre o suicídio de Jim. 

Um nova eleição é realizada e Kerlog é mais uma vez eleito Presidente.

Eventualmente os negros são informados que eles foram incluídos no rol dos indesejados da Lei Owen e, por isso, tiveram de ser eliminados.

Como vivemos em tempos de intolerância ideológica da Direita e da Esquerda, não apenas no Brasil, mas no mundo, penso ser importante enfatizar aos que sugerem que a obra de Monteiro Lobato seja proibida de circular nas escolas por conter elementos racistas que se lembrem que Monteiro Lobato era um homem de seu tempo e, portanto, inserido nas ideias de seu tempo e é sob tal perspectiva que o educador e o eventual detrator de sua obra deve analisá-lo, reconhecendo também seu talento literário na ficção.

Para e Pensa

Por fim, duas questões:

Primeiro, ainda que eu não tenha abordado a história da FC a partir da década de 30 com autores como Berilo Neves e Jerônýmo Monteiro (assunto para outro post), se pode perceber pelo o que foi mostrado aqui que a Ficção Científica brasileira possui uma significativa produção literária de qualidade.

Então a questão é: Por que a FC brasileira não decola para o infinito e além e se estabelece? 

Por que, ao contrário da Fantasia de um Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhoz e do Gótico de um André Vianco, não temos autores e obras relevante da Ficção Científica?

Falta originalidade? Falta o tratamento de temas clássicos por uma perspectiva verde e amarela? Deixe sua opinião

Segundo, destaco a dedicação de escritores e críticos que por mais de trinta anos vem incansavelmente trabalhado para demonstrar a força e valor da FC brasuca.

São eles, dentre outros: Bráulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Marcello Branco e Roberto de Sousa Causo.  

Esta iniciativa também é levada a cabo por blogs variados, dentro os quais destaco:

Fantasticontos

Mensagens do Hiperespaco

Momentum Saga

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Obrigado e até a semana que vem.

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CARVALHO, J. M. de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DIWAN, Pietra. Eugenia, a biologia como farsa. In: História viva. São Paulo, Edição 49, ano V, p. 76-81, 2007.

FAUSTO, Boris. O pensamento nacionalista autoritário: 1920-1940. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

GABRIELLI, Murilo Garcia. A obstrução ao fantástico como proscrição da incerteza na literatura brasileira. Rio de Janeiro, UERJ, Instituto de Letras, 2004. 157 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

LOBATO, Monteiro. O presidente negro. In: ___. A onda verde e O presidente negro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1966. (Obras completas de Monteiro Lobato – vol 5).

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

SILVA, Alexander Meireles. O admirável mundo novo da república velha. Rio de Janeiro, UFRJ, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Disponível em http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/pos/trabalhos/2008/alexandermeireles_oadmiravel.pdf . Acesso em 16 fev, 2017.

TAVARES, Bráulio. Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com