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Fantasmas, Bruxos e Demônios: Conheça o mundo Gótico na Era da Razão

2017 marca os 300 anos de nascimento do escritor inglês Horace Walpole (1717-1797), o fundador da Literatura Gótica com o romance O Castelo de Otranto (1764).

O surgimento do Gótico no fim do século 18, por meio de Walpole, é normalmente entendido como uma reação, uma subversão da imaginação contra a tirania da razão, que dominava a Literatura no período.

Singleton, Henry; The Royal Academicians in General Assembly; Royal Academy of Arts;
A sede pelo saber foi exemplificado nas Academias de Ciência na Europa

Nesta leitura, convencionou-se dizer que as histórias góticas traziam de volta, para a vida do leitor, eventos sobrenaturais em uma sociedade já pautada pelo discurso da ciência. 

Por esta razão, a ideia do passado que vem assombrar o presente é central na Literatura Gótica e vem se manifestando em diferentes formas ao longo dos séculos. 

Mas as coisas não são bem assim.

Onde há luz, há sombra

Um olhar mais detalhado na Inglaterra do século 18, onde e quando nasceu o Gótico, mostra que o sobrenatural era parte integrante da realidade das pessoas da época, em todas as esferas, e não algo distante de seu dia a dia.

Para exemplificar o que estou dizendo, vejamos três manifestações do sobrenatural presentes no próprio O Castelo de Otranto e que constituíam uma realidade nas últimas décadas do século 18.

Fantasmas

Assim como ocorre até os dias de hoje, os fantasmas são uma das manifestações do sobrenatural mais resistentes a explicações científicas, pois se originam em pessoas que já existiram e na própria angústia do homem sobre o além-vida.

Refletindo esta questão, o escritor e jornalista inglês Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoé (1719), apresentou uma interessante narrativa sobre fantasma que mantém a ambiguidade entre ficção e realidade.

O título do panfleto, “Um verdadeiro relato da aparição de uma senhora Veal no dia seguinte a sua morte a uma senhora Bargrave na Cantuária em 8 de setembro de 1705”, dá a ideia da preocupação do escritor na construção da atmosfera de realidade desta história apresentada ao público leitor não como uma obra de ficção, mas sim como parte do que ele chamava de “relatos verdadeiros de fantasmas”.

No caso de “A aparição da senhora Veal”, Defoe alicerçou seu relato no folclore do fantasma que aparece para terminar uma tarefa inacabada no momento de sua morte.

O Fantasma de Cock Lane

Mas, sem duvidas, o mais famoso caso de assombramento do século 18 na Inglaterra é o Fantasma de Cock Lane.

Em 1762, na pequena estrada em Cock Lane, próximo a Catedral de São Paulo em Londres diversas pessoas reportaram ouvir batidas e ver um vulto no quarto de uma Elizabeth Parsons.

Usando um sistema de comunicação por batida semelhante ao que o Espiritismo em seus primeiros momentos viria a adotar em meados do século 19, foi descoberto que o distúrbio era provocado pelo fantasma de Fanny Lynes, amante de William Kent. 

Segundo os relatos, o fantasma teria revelado que, quando viva, ela foi envenenado por Kent.

O caso causou sensação em Londres e atraiu a atenção de pessoas renomadas da época, como o escritor e pensador Samuel Johnson e o próprio Horace Walpole, que dois anos depois escreveria O Castelo de Otranto.

Bruxaria

Talvez a mais representativa lei a mostrar a obsessão do século 18 em acabar com as crenças herdadas da Idade Média tenha sido o Ato de Bruxaria, de 1735.

Se antes da Lei as pessoas eram enforcadas por comungar com espíritos malignos, após a Lei essa prática foi equiparada ao charlatanismo. 

Assim, se alguém fingisse ter o poder de prever o futuro, ou preparar poções milagrosas seria presa ou sujeita a multas. Da mesma forma, o simples ato de acusar alguém de praticar bruxaria levaria o acusador a ficar preso por uma ano. 

A despeito da Lei, a crença na bruxaria continuou forte não apenas no meio popular, mas também entre segmentos do Parlamento.

Prova disso foi a recusa de Lord James Erskine em aprovar a Lei da Bruxaria com o argumento de que a Bruxaria existia e que exercia profunda influencia sobre a vida política e cultural da Escócia.

De fato, até o fim do século 19, em algumas comunidades da Inglaterra pessoas eram perseguidas e mortas por serem consideradas praticantes da bruxaria.

Saem as bruxas entram os bruxos

Em O Castelo de Otranto Teodoro é acusado inicialmente de ser um feiticeiro, responsável pelas ocorrências sobrenaturais no castelo.

Esse fato reflete uma mudança na percepção dos praticantes da bruxaria, pois, se na Idade Média as mulheres eram as acólitas do Diabo, no Iluminismo o papel de praticantes de bruxaria coube ao masculino.

O Diabo

No romance de Walpole, Manfredo indaga se os eventos sobrenaturais por ele vivenciados não seriam trabalhos do Diabo. 

A mudança das bruxas pelos bruxos no imaginário do século 18 se vincula a mudança do status do diabo na época.

A medida em que o racionalismo avançou, a crença no diabo foi se esvaziando no meio popular e religioso para prosperar em outro território: o das seitas e crenças secretas.

Formadas geralmente por jovens eruditos interessados em Alquimia, Astrologia e assuntos ligados ao misticismo enxergados pela Igreja e o Estados como marginais, estes intelectuais acabaram enxergando no Diabo um símbolo de contestação ao discurso dominante, algo que se desenvolveria posteriormente no Romantismo.

Esta aproximação entre o Diabo e os eruditos-bruxos está bem representado na Literatura em O Diabo Enamorado (1772), de Jacques Cazotte, obra inauguradora do gênero Fantástico.

Neste romance, após uma cerimônia de invocação, o diabo surge diante do jovem Alvaro e tenta seduzi-lo assumindo a forma da bela Biondetta.

Ao fim da obra, Alvaro consegue afastar o Diabo e duvida se os fatos vividos por ele realmente aconteceram.

Revisando o Gótico

Conforme visto, diferente da visão consagrada de que o Gótico faz um resgate do sobrenatural em uma sociedade pautada pelo racionalismo, o que O Castelo de Otranto faz é reconhecer a existência de uma realidade em que o sobrenatural e a razão vivem em um tenso equilíbrio.

Neste sentido, o romance de Horace Walpole com sua ambientação medieval pode ser lido como um representação simbólica da Inglaterra no século 18.

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Fontes utilizadas 

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997.

COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro: Rosa dos ventos, 1996.

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

MACK, Carol K., MACK Dinah. A Field Guide to Demons, Fairies, Fallen Angels, and Other Subversive Spirits. New York: Henry Bolt and Company, 1999.

MUCHEMBLED, Robert. Uma história do Diabo: séculos XII-XX. Trad. Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bom Texto, 2001. 

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. Bauru, SP: EDUSC, 2000.

Escrito por: Alexander Meireles da Silva

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Fantasia, Gótico e Ficção Científica: Quando elas se cruzaram?

Hoje em dia, livros, histórias em quadrinhos e séries como A Seleção, de Kiera Cass; Fábulas, de Bill Willingham e Grimm, dentre tantas outras, exploram os tênues limites entre os reinos da Fantasia, do Gótico e da Ficção Científica. 

Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.
Partindo dos contos de fadas dos irmãos Grimm, a série mistura elementos de Histórias de Detetives, Gótico e Fantasia.

Estas obras subvertem o senso comum de que a presença de personagens específicos, ou espaços determinados definem a que gênero aquela narrativa pertence.

Ou seja, não é porque a história tem zumbi, que ela tem de ser de Horror, assim como também uma história ambientada em uma nava espacial necessariamente será de Ficção Científica. 

ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.
ALIEN: O oitavo passageiro (1979), de Ridley Scott, utiliza convenções da Literatura Gótica para criar um Survival Horror da melhor qualidade.

O Fantástico nos anos de contestação 

As experimentações na Literatura, Cinema e Quadrinhos nas produções ligadas ao Fantástico de hoje podem ser traçadas até as décadas de 60 e 70 quando se percebeu o surgimento de uma nova atmosfera no campo cultural.

Esta situação foi consequência da contestação feita por grupos minoritários diversos que também promoveram o debate sobre a validade da distância entre Baixa e Alta Cultura

O interessante a se observar, no caso do Fantástico, é que no processo de contestar as divisões entre os gêneros literários, o Pós-Modernismo resgatou a estreita ligação existente entre a Fantasia, o Gótico e a Ficção Científica.

Fantasia & Gótico

A ligação primeira entre a Fantasia, na sua manifestação do Conto de Fadas, e o Gótico, ocorre justamente na Idade Média, quando a relação entre o ser humano e o mundo ao seu redor era regulado pelo sobrenatural.

De um lado, dentre tantos exemplos possíveis, as crenças e narrativas populares ligadas a criaturas fantásticas de origem pré-cristã, como as fadas celtas, o deus Pã romano e os anões e elfos teutônicos.

Apesar da hegemonia da Igreja Católica Medieval, vários rituais praticados no meio popular, principalmente relacionadas as colheitas e plantações, mantiveram estas criaturas do Maravilhoso, recorrentes na Fantasia, vivas no imaginário da Idade Média. 

Do outro lado, o discurso cristão na vinculação destas mesmas criaturas, e seus habitats, ao demoníaco e na instituição de toda uma cultura regulada pelo medo, pecado e punição.

Essa marginalização do imaginário popular medieval, e a perseguição promovida pela Igreja, contribuiu para a associação da Idade Média como uma época marcada por fanatismo, superstições, barbarismo e paganismo.

Estando associados aos povos bárbaros que, ao derrubarem o Império Romano, deram início a Idade Média, os Godos logo se tornaram sinônimo da época e Idade Média e Gótico passaram a ser termos que se confundiam.  

Contos de fadas ou Contos Góticos?

Aqui mesmo no blog e no canal do Youtube já postei artigos sobre contos de fadas cujas estruturas se assemelham as encontradas nas narrativas góticas.

Isso mostra que durante a Idade Média, Fantasia e Gótico dialogavam ativamente refletindo um contexto em que as criaturas maravilhosas, muito apropriadamente os vilões, eram apresentados por meio de uma visão gótica criada pelo Cristianismo. 

Citar aqui apenas três exemplos.

O lobo como disfarce do diabo

Em “Chapeuzinho Vermelho”, onde o folclore do lobisomem fornece a estrutura da narrativa, temos a criatura de origem mitológica grega e nórdica habitando o espaço da floresta, enxergado pelo Cristianismo da época como o lócus do demônio.

O pagão muçulmano

“Barba Azul” mescla o maravilho de chaves encantadas com convenções do romance gótico, como câmaras secretas, corredores estreitos, perseguição da figura feminina e vilões aristocráticos.

O diabo em pessoa

“Rumpelstiltskin” talvez seja o conto em que o vilão mais se coloca como a incorporação da convergência entre o maravilhoso da Fantasia e o demoníaco do Gótico.

Essa ligação se revela no duende, ligado ao maravilhoso teutônico, que, dentro da narrativa, realiza um pacto diabólico ao condicionar a riqueza concedida a uma moça a entrega do filho da protagonista.  

Gótico & Ficção Científica 

Nascido como gênero literário no ano de 1764 com O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, o Gótico buscou no sobrenatural ligado ao demoníaco a matéria prima para suas histórias. 

Isso pelo menos até o início do século 19 quando a Revolução Industrial, iniciada ainda nas últimas décadas do século 18, já tinha deixado claro para escritores e pensadores que ela iria mudar a percepção do ser humanos quanto ao seu lugar no mundo.

Neste contexto, mais do que o demônio e fantasmas, o que começava a causar angustia no individuo da época eram as rápidas e profundas mudanças trazidas pela Ciência.

A filha do Gótico: Nasce a Ficção Científica

Foi Frankenstein, ou O moderno Prometeus (1818), de Mary Shelley a obra que capturou esse ambiente em que a Ciência começou também a ser vista como um fenômeno sobrenatural que ameaçava a integridade humana.

De um lado, a ambientação de cemitérios e laboratórios escondidos, além da exploração do Sublime marca Frankenstein como um continuador da tradição gótica vigente desde o século 18. 

Todavia, por ser a primeira obra literária em que a Ciência exerce papel decisivo no desenvolvimento do enredo, a obra de Mary Shelley também inaugura a vertente romanesca da Ficção Científica.

Horror + FC = Horror Cósmico

O dialogo entre Gótico e Ficção Científica se desenvolveu ao longo do século 19 na Literatura Vitoriana e alcançou um novo patamar na América do início do século 20.

Foi por meio de H. P. Lovecraft e suas impressões sobre a Modernidade da América da época que o Horror Cósmico surgiu.

Como expliquei em um post específico sobre Lovecraft, a visão do autor de “O Chamado de Cthulhu” de que alguns grupos de imigrantes atraídos para a América pela Modernidade representavam um mundo de caos que o homem civilizado não podia controlar ou compreender foi traduzido em uma cosmologia monstruosa que unia o Horror e a Ficção Científica.

Percebe-se então que o medo em relação ao Outro, ao diferente, assim como também a ansiedade provocada pelas mudanças na sociedade, foram grandes motivadores para a conexão da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica e do Horror Cósmico.

E ai? Você gosta mais da Fantasia, do Gótico, da Ficção Científica ou de tudo junto e misturado?

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Obrigado pela leitura.

Fontes utilizadas

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

SILVA, Alexander Meireles da. “O Barba Azul”: conto de fadas ou conto gótico?. Disponível em Revista de Letras do Instituto de Humanidades.

STABLEFORD, Brian (2007). “The Cosmic Horror”. In: JOSHI, Sunand Tryambak (Ed.). Icons of Horror and the Supernatural: An Encyclopedia of Our Worst Nightmares. (Vol. 1 & 2). London: Greenwood Press, p.65-96. 

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Por que você não lê “O Barba Azul” para as crianças na hora de dormir?

“A Bela Adormecida”, “Chapeuzinho Vermelho”, “O Gato de Botas”, “A Gata Borralheira”, “O Pequeno Polegar” e… “O Barba Azul”

Todos estas histórias ajudaram ao compor o Histórias ou contos do tempo passado, com suas moralidades – Contos da Mãe Gansa (1697), de Charles Perrault, livro este que deu origem ao gênero literário do “Conto de Fadas”.

Versão inglesa da obra de Charles Perrault

No entanto, por que mesmo tendo estado ao lado dos contos clássicos mencionados anteriormente “O Barba Azul” seja uma das histórias menos conhecidas e presentes em coletâneas infantis?

Você lê este conto para seu filho ou sua filha na hora de dormir? Provavelmente não. Por que?

Talvez porque ele não seja um conto de fada tradicional.

Como afirma Bruno Bettelheim em A Psicanálise dos Contos de Fadas (1992): 

“…na verdade esta estória não é um conto de fadas porque à exceção do indelével sangue na chave, /…/ não há nada de mágico ou de sobrenatural na estória.”

Então talvez “O Barba Azul” seja um conto gótico.

E se você quiser saber logo sobre os elementos tenebrosos deste conto, antes de conhecer brevemente sobre o Gótico, clique aqui.

Das sombras da razão, surge o monstro gótico

De forma geral, o surgimento do gótico durante o século dezoito, ou como você e eu aprendemos na escola, durante o Iluminismo (cujo nome vem da associação da Luz como um simbolo da Razão), tem sido associada como uma rebelião da imaginação e da necessidade humana na crença do sagrado contra a tirania do racionalismo. 

A luz do saber

De fato, várias descobertas e inovações da época como as leis fundamentais de Isaac Newton, a invenção da vacina, a classificação do ser humano pela Biologia e a criação da Enciclopédia criaram uma atmosfera de fé na Ciência como solucionadora dos problemas da humanidade e seus produtos que veio a influenciar profundamente a Literatura.

Buscando na Grécia e na Roma antiga um modelo de perfeição a ser seguido, os artistas iluministas criaram obras que tinham como base os padrões, métricas e estruturas consagrados por nomes da Antiguidade como Horácio, Longino e Aristóteles.

Aristóteles foi um dos nomes seguidos pelos escritores do século dezoito

Aos poucos, porém, a excessiva preocupação no atendimento a estes princípios começou a provocar uma reação de escritores, que se viam limitados no seu processo de criação.

A qualidade de uma obra muitas vezes dependia mais do quanto ela seguia os modelos clássicos do que seu conteúdo propriamente dito. Começou então a revolta da imaginação contra a razão.

Estava pronto o terreno para o  surgimento do monstro gótico.

O Gótico surgiu a partir das sombras do Iluminismo

Do castelo a casa

A obra  que deu origem a Literatura Gótica foi O Castelo de Otranto (1764) do inglês Horace Walpole.

Imagem da primeira edição

Walpole era fascinado pela Idade Média e em suas viagens pela Europa recolhia objetos e documentos sobre esta época.

Horace Walpole também era membro do Parlamento Inglês

O interesse dele pelo período medieval era tanto que ele transformou a própria residência em um mini castelo gótico batizado de Strawberry Hill.

Strawberry Hill depois da reforma em 2012

Em uma época em que a chamada Arquitetura Neoclássica dominava, como a do Museu Britânico abaixo, a residência de Horace Walpole se destacava das demais. Com o tempo ela se tornou atração turística em Londres. 

Museu Britânico, fundado em 1753.

Em Strawberry Hill, Walpole construiu uma pequena gráfica onde começou a dar vazão a sua paixão pelos tempos medievais, resultando em O Castelo de Otranto.

Apresentado como um texto que ele teria encontrado nas ruínas de uma igreja na Itália (um predecessor do famoso “Baseado em fatos reais”), O castelo de Otranto foi um enorme sucesso, o que levou Walpole a assumir a autoria na segunda edição e acrescentar o subtítulo: “Uma história Gótica”.

Saque do Império Romano pelos Visigodos em 24 de agosto de 410.

Pronto! A menção aos Godos, povo responsável pela queda do Império Romano e início da Idade Média, era o que faltava para destacar o romance dos seus pares literários do século dezoito e fundou uma nova vertente literária: o Gótico.

Gótico urbano

Da mesma forma que acontece até hoje, o sucesso de uma obra leva outras semelhantes a surgirem e nas décadas e séculos seguintes, diversos escritores e escritoras buscaram criar obras góticas que refletissem as angustias e ansiedades de seu tempo.

O símbolo maior do gótico no século dezoito: o castelo

Assim, os fantasmas, profecias, castelos medievais decadentes e vilões aristocráticos do século dezoito deram lugar no século dezenove aos medos científicos. Como explica o crítico Fred Botting:

“A lista [de convenções] cresceu, no século XIX, com a adição de cientistas, pais, maridos, loucos, criminosos e os monstruosos duplos significando duplicidade e natureza maligna.”

Em plena era da Revolução Industrial, a violência e a ameaça do castelo gótico e da floresta negra foram substituídos pelas labirínticas ruas estreitas das metrópoles europeias, enegrecidas pela fuligem das chaminés e pelas casas onde mulheres e crianças sofrem a tirania de maridos e pais opressores.

Era o tempo em que a realidade de um Jack, o Estripador se encontrava com a ficção de um Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

As ruas de Londres

Horrores modernos

O desespero do mundo de hoje

No século vinte, a velocidade e tamanho dos grandes centros urbanos, ampliados no século vinte e um, tem gerado tal angústia, ansiedade e sentimento de opressão no homem moderno que Angela Carter, uma das escritoras que mais utilizaram a linguagem dos contos de fadas e da literatura gótica em sua obra, comentou: “Nós vivemos em tempos góticos”.

Não é a toa, alias, que Angela Carter batizou sua coletânea de contos Bloody Chamber (1978) (no Brasil, O quarto do Barba Azul) em alusão a um dos contos do livro, baseado em “O Barba Azul”, de Charles Perrault.

Lançado no Brasil no ano 2000

Mas, afinal de contas, o que este conto de fada tem a ver com o gótico a ponto de ser inapropriado para as crianças?

Veja os pontos de contato do conto com a tradição gótica, quase um século antes de O castelo de Otranto

1. Origem em dois personagens reais malditos

Diferente das outras narrativas de Contos da Mãe Gansa, “Barba Azul” não tem antecedentes nas narrativas folclóricas de onde Perrault retirou seus contos. Ele tem base histórica em dois assassinos que muito se assemelham aos vilões aristocratas dos primeiros romances góticos.

Viúvo assassino

Há um certo consenso entre estudiosos de contos de fada que o personagem Barba Azul foi inspirado em duas figuras históricas da região noroeste da França conhecida como Bretanha:Be

Conomor, o Amaldiçoado

Conomor (“Cão do Mar”) no dialeto da época, se tornou governante da Bretanha em meados do século seis após depor o príncipe legitimo e se tornou o flagelo do clero local.

Por causa de seus atos ele foi excomungado pelos bispos da Bretanha. Na lenda local ele sobreviveu a todos os seus inimigos e tornou-se um bisclavret, ou lobisomem.

Sua ligação com Barba Azul ocorre devido a um episódio de sua vida registrada na obra Vita de São Gildas, publicada cinco séculos após a morte do santo bretão Gildas, o Sábio e desde então se tornou uma lenda britânica.

Reza a lenda que quando Conomor, O Amaldiçoado, se casou com a jovem Tryphine, ele já havia matado várias de suas esposas anteriores.

Um dia, a caminho de fazer suas orações na tumba de sua família, Tryphine foi avisada pelos próprios fantasmas das esposas mortas de que ela seria a próxima vitima assim que estivesse grávida.

Como já esperava uma criança de Conomor, ela foge, mas acaba sendo pega pelo marido no meio da floresta negra e é decapitada. Todavia, graças a São Gildas, Tryphine e seu bebê são trazidos de volta à vida. 

Tryphine e seu filhos foram canonizados.

Gilles de Rais, o Marechal da França

Companheiro de armas de Joana D’Arc, Gilles de Montmorency-Laval foi enforcado em 1440 por Satanismo e pelo assassinato de dezenas de crianças.

Assassino confesso, ele relatou que usava de sua posição social para levar as crianças de vilarejos próximo para o seu castelo com a promessa de lhes oferecer melhor condição de vida.

Lá ele os estuprava, pendurava em ganchos e cortava suas gargantas. 

Heróis nacional e Serial Killer

Mais de quarenta corpos nus de crianças foram encontrados em seu castelo.

A associação entre a criação de Perrault e este nobre europeu tem sido tão longamente explorada que na peça Santa Joana (1923), do dramaturgo irlandês Bernard Shaw esse personagem histórico é chamado de Barba Azul, com direito até mesmo a uma barba dessa cor.

2. O Bárbaro Louco

O Oriente exerceu profundo impacto na Literatura Gótica desde os seus primeiros momentos no século dezoito como uma região de mistérios além do conhecimento da cristandade e dona de uma cultura exótica e sensual.

Publicado em 1786 o romance de William Beckford é um exemplo do fascínio de escritores góticos pelo Oriente.

Já em 1697, todavia, o conto de fada de Perrault estabelecia esta conexão com o Oriente a partir das próprias palavras que compõem o nome do personagem.

Barba…

Perrault escreveu seu conto durante o reinado do Rei Luis XIV, chamado também de “O Rei Sol”. O fato é que este regente também poderia ser chamado de o Rei da Alta Costura, dada a importância dada a moda durante o seu reinado.   

Luís XIV – Poderoso e vaidoso

E a barba definitivamente não estava na moda durante o reinado do Rei Sol.

De fato, na França do século dezessete este adereço masculino era associado a falta de modos ou costumes civilizados, algo comumente relacionado a povos bárbaros.

Os muçulmanos usam barba para se sentirem mais próximos dos ensinamentos do profeta Maomé.

E dentro da lógica radical da Europa cristã, os muçulmanos se encaixavam perfeitamente tanto na imagem de bárbaro quanto na de adoradores do Diabo.

Por esta razão, em muitas ilustrações de “O Barba Azul” o personagem é representado como um muçulmano de posse de sua cimitarra pronto a matar a esposa.

Tais ilustrações ajudaram a criar uma imagem negativa do Islã.

Reforça esta leitura a permissão muçulmana a prática da Poligamia, vinculado dentro do conto com a prática de Barba Azul em manter guardados os cadáveres das ex-esposas penduradas em ganchos, como uma versão macabra de um harém.  

Ao entrar no quarto proibido, a jovem esposa dá de cara com os corpos das ex-esposas de seu marido pendurados em gancho.

… Azul

Associamos tanto a cor azul a paz e a tranquilidade que esquecemos de lembrar que ela também simboliza a Loucura, a Monotonia e a Depressão.

Esta leitura ganha força pelos atos do personagem principal contra as mulheres e mais uma vez reforça a imagem preconceituosa do Islamismo como um desvio da normalidade cristã. 

Dentro deste contexto, o azul se coloca como um indicativo de sua libertinagem sexual, estabelecendo uma ponte com sua origem histórica nos abusos sexuais de Gilles de Rais e sua vinculação a uma religião que permite a Poligamia.

Gravura de Gustave Dore (1862)

Afinal de contas, por que Barba Azul guarda os corpos de suas ex-esposas? A prática da necrofilia é uma possibilidade a ser considerada na interpretação do conto. 

O amor nunca morre

A transgressão sexual é parte integrante da tradição gótica desde o início em O Castelo de Otranto, quando após a morte do seu filho no dia de seu casamento com a princesa Isabella, Manfred decide, ele mesmo, se casar com a jovem para assim não ver o fim de sua linhagem.

Ou então em O Monge (1796), de Matthew Lewis em que por meio de artimanhas do Diabo um religioso faz sexo com a própria irmã.    

3. O casamento acaba com a mulher (literalmente)

Qual é o final de todos os contos de fadas?

Até mesmo “A Bela e a Fera” em que a mulher sofre encarceramento, maus tratos físicos e psicológicos a mensagem no fim é de que o amor transforma e tome-lhe casamento e “Felizes para sempre”.

Felizes para sempre, ou até a chegadas das contas, crianças, sogra…

“O Barba Azul”, ao contrário, parte do casamento para mostrar, talvez, o que acontece as princesas depois do fim dos contos de fadas. Ainda mais em tempos passados.

Se muitas vezes se diz hoje que o casamento acaba com a mulher, “O Barba Azul” difere dos demais contos de fada por mostrar que isso não fica apenas no plano metafórico.

Na Literatura Gótica, além do já mencionado O Castelo de Otranto, outras obras mostram o casamento como uma instituição opressora do ser feminino, como em O Morro dos Ventos Uivantes (1847), da escritora inglesa Emily Brontë, em que a heroína se vê dividida entre o coração e sua obrigação como mulher casada.

Um dos precursores da Literatura YA (Young Adults).

Isso explica porque este conto foi por muito tempo excluído de coletâneas voltadas para as crianças. Faça você um teste: olhe ai em sua casa se em alguma coletânea de contos de fadas, voltada exclusivamente para o público infantil, tem “O Barba Azul”.

Vamos lembrar que, principalmente desde o século dezenove, os contos de fadas foram usados para educar as meninas sobre o comportamento social esperado delas: aguardar sentadas (as vezes até adormecidas) o príncipe encantado que finalmente as levaria para o único reino encantado reservado ao feminino: o casamento.

Como então incluir para as meninas um conto em que a esposa é morta e pendurada em um gancho, sabe-se lá Deus pra que, se ficar bisbilhotando as coisas do marido? 

Tenso…

Afinal de contas, por que você não lê o “Barba Azul” para as crianças?

Charles Perrault não criou os contos de fadas clássicos que conhecemos.

Ele apenas recolheu as narrativas folclóricas de seu tempo e as editou para que ficassem adequadas para serem narradas nos sofisticados salões franceses de fim do século dezessete.

Todavia, em “O Barba Azul” a violência é parte tão integrante da história que não houve como suavizar os elementos que constituem a história, resultando em um conto de horror em meio aos demais.

Uma noite tranquila

Por fim, se você quiser um conto que faça o seu filho ou filha ficar agarradinho a você a noite toda, recomendo que leia a história do excêntrico viúvo aristocrata, possuidor de uma grande barba azul, que em seu novo casamento levou a jovem esposa para um castelo isolado e lá a advertiu a não abrir um quarto específico no labiríntico lugar, mas uma vez desobedecendo ao marido ela descobriu neste aposento os cadáveres das esposas anteriores do marido pendurados em ganchos, o que quase a levou a morte por decapitação se não fosse pela providencial chegada dos irmãos.

Mais uma vez, salva pelo patriarcado

E tenha um boa noite.

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Fontes utilizadas

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. 9ed. São Paulo: Paz e Terra, 1992

BOTTING, Fred. Gothic: the new critical idiom. London: Routledge, 1997

CARTER, Angela. Burning your boats: collected short stories. London: Vintage Random House, 1996

FRANKLIN, Michael. Orientalism. In: MULVEY-ROBERTS, Marie. The Handbook to Gothic Literature. New York: NY University Press, 1998, p. 168-171

KILGOUR, Maggie. The rise of the gothic novel. London: Routledge, 1997.

SILVA, Alexander Meireles da. “O Barba Azul”: conto de fadas ou conto gótico?. Disponível em Revista de Letras do Instituto de Humanidades.

TATAR, Maria. (ed.) The Classic Fairy Tales: a Norton critical edition. New York: W. W. Norton & Company Inc, 1999

WARNER, Marina. From the beast to the blonde: on fairy tales and their tellers. New York: The Noonday Press, 1999.

ZIPES, Jack. When dreams come true: classical fairy tales and their tradition. New York: Routledge, 1999.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

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