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Jogando luzes nas trevas (Parte 2) A Ciência Gótica chega ao Brasil

No último post, falei de como a Literatura Gótica entrou na Literatura Brasileira no início da segunda metade do século 19 por meio da juventude romântica, focando muito na visão da cidade sobre o interior do país e indo muito mais além do que apenas Noite na taverna (1855), de Álvares de Azevedo.

Assim como na Inglaterra Vitoriana de Jack, o Estripador, a cidade é o espaço central da maioria das narrativas góticas no Brasil dos primeiros anos de 1900.

Hoje vou explicar como a Literatura Gótica se manifestou no cenário urbano brasileiro no início do século 20 em resposta as mesmas questões que também o fizeram ressurgir nos últimos anos da chamada Inglaterra vitoriana (1837-1901) em obras como O médico e o monstro (1886), O retrato de Dorian Gray (1891) e Drácula (1897).

Sombras de uma bela época

No Brasil o Gótico se manifestou durante o período histórico conhecido como a República Velha (1889-1930) e, mais especificamente, na época da Belle Époque carioca, quando a ciência e o progresso mudaram a face do Rio de Janeiro. 

A Belle Époque européia (1890-1914) foi o ponto alto de um processo de fins do século dezenove e início do século vinte caracterizado de um lado pela prosperidade econômica resultante da industrialização rápida e da exploração colonialista, advindas ambas da hegemonia do racionalismo científico, e de outro pela estabilidade política, derivada de uma teia complexa de alianças diplomáticas.

Na Inglaterra, a Belle Époque marcou o auge de um processo ocorrido durante o reinado de sessenta e quatro anos da rainha Vitória (1837-1901).

No entanto, a prosperidade da época contrastava com a situação das classes populares não apenas na Inglaterra, mas na Europa como um todo.

Visão das fábricas de Manchester, por volta dos anos de 1870. 

Com o aumento das fábricas e os demais avanços do progresso, aumentou também a insegurança do povo em relação ao futuro. As fábricas se tornaram cada vez maiores, as profissões cada vez mais especializadas, as máquinas cada vez mais ininteligíveis.

Paris, modelo para o mundo

Sem dúvidas, nenhuma outra cidade européia incorporou de forma tão completa o espírito de seu tempo quanto Paris.

A capital francesa viveu durante a Belle Époque um período extremamente fértil do ponto de vista artístico e cultural.

A Exposição Universal, realizada em 1900, trazia a promessa de que a tecnologia ainda podia ser considerada como um instrumento promotor do progresso social e não exclusivamente como um veículo de desestruturação do modo de vida no campo ou de alienação social para as centenas de desempregados das cidades.

Em virtude desse quadro, não foi surpresa que, como tudo mais que remetesse à França na época, a Belle Époque atravessasse o oceano para aportar na capital federal do Brasil do começo do século vinte: o Rio de Janeiro.

A Belle Époque brasileira

O Rio de Janeiro da Belle Époque

Como salienta o crítico Jeffrey Needell, apesar da influência francesa sobre o Brasil possuir raízes ainda no início da colonização, via Portugal, foi no final do século dezenove, e mais especificamente no Rio de Janeiro do começo do vinte, que ela se ampliou afetando não apenas a vida cultural da metrópole brasileira, mas também a sua própria organização social.

Esse ponto pôde ser observado durante a República Velha no período dos governos dos presidentes Campos Sales (1898-1902) e Rodrigues Alves (1902-1906), quando uma série de projetos foi colocada em prática para transformar o Rio em uma Paris tropical. 

Avenida Central: Um dos símbolos maiores da Belle Époque carioca.

Após a inauguração da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) e a Revolta da Vacina, dois eventos marcantes desta época, o governo pôde mostrar ao mundo um Rio de Janeiro urbanizado, limpo e organizado como os grandes centros europeus.

Pela primeira vez na história do Brasil, portanto, a ciência e o progresso exerceram um impacto profundo e permanente na vida individual e social tanto dos ricos quanto dos pobres.

A Revolta da Vacina de 1904

Como era de se esperar, este novo zeitgeist chamou a atenção de escritores e pensadores brasileiros da mesma forma que havia acontecido no século dezenove com os escritores europeus em relação a Revolução Industrial.

O resultado artístico desse cenário foi o desenvolvimento de duas expressões da Literatura Gótica na época no Brasil: a Ciência gótica e o Gótico decadentista.

Para não ficar coisa demais aqui, no post de hoje vou falar apenas da Ciência Gótica.

Ciência Gótica

Um subgênero do fantástico definido pela tensão entre o racional e o irracional, a Ciência Gótica, segundo Bráulio Tavares, apresenta histórias que:

“[…] têm um pé na ficção científica, utilizando muitos dos seus aparatos exteriores (cenários, personagens, artefatos) mas que se recusam a lidar com a lógica, a verossimilhança e a plausibilidade científica que os adeptos de ficção científica usam […] Na ciência gótica, a parafernália tecnológica e a pseudo-racionalização materialista estão a serviço de situações bizarras, grotescas, impressionantes.” 

O exemplo clássico dessa forma literária, como aponta Tavares, é o romance Frankenstein (1818), da escritora inglesa Mary Shelley, por representar um divisor de águas na Literatura Gótica ao apresentar a ciência como um elemento causador da mesma angústia e inquietação antes exclusivamente gerada pelo sobrenatural.

Afetada profundamente pelo racionalismo da época, a população brasileira demonstrou um misto de fascinação e temor em relação ao progresso e a ciência da Belle Époque que se tornou matéria prima para narrativas que muito se assemelharam às praticadas pela ciência gótica britânica, norte-americana e francesa de romancistas e contistas como Mary Shelley, Edgar Allan Poe, Robert Louis Stevenson, Nathaniel Hawthorne, H. G. Wells, Guy de Maupassant e Villiers de L`Isle-Adam.

Esta semelhança demonstra que os escritores nacionais estavam em consonância com as inquietações e angústias de britânicos, americanos e franceses da virada do século.

Estas preocupações se manifestaram na Literatura Gótica brasileira em escritores diversos, tais como, e apenas para citar alguns, Coelho NetoJoão do Rio, Rocha Pombo, Gastão Cruls.

Para exemplificar esse cenário, vou focar hoje aqui apenas no chamado “Príncipe dos Prosadores” e escritor mais conhecido de se tempo, maior até que Machado de Assis: Coelho Neto.

Coelho Neto foi um dos maiores escritores de seu tempo, tendo sido também um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras

Coelho Neto desenvolveu narrativas muito semelhantes às encontradas nas literaturas góticas britânica, norte-americana e francesa que tem a cidade como espaço da trama a partir de um movimento literário e de doutrina religiosa com forte ligação com o sobrenatural: o Simbolismo e o Espiritismo.

A força mística do Simbolismo

Conforme explica Massaud Moisés em O Simbolismo (1973), esta estética literária foi eclipsada, desde a sua chegada, pelas correntes literárias vigentes na virada do século – o Parnasianismo e o Naturalismo.

Simbolismo brasileiro revelava a nítida respiração dos novos ares que começavam a soprar na França em decorrência do advento de As flores do mal (1857), de Baudelaire.

Por esta razão, os postulados em voga na França prevaleceram no Brasil:

  1. a concepção mística do mundo;
  2. interesse pelo mistério e o particular;
  3. a alienação do social;
  4. a criação de neologismos;
  5. adoção de vocábulos preciosos;

Foi através destes elementos simbolistas e decadentistas também que Coelho Neto escreveu, por exemplo, o romance Esfinge (1906).

Causando nas pessoas um senso de desvio sexual e perversão moral, o personagem James Marian de Esfinge em muito lembra Jean Des Esseintes e Dorian Gray, personagens respectivamente de Às avessas (1884), de Jori-Karl Huysmans e O retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde.

Posteriormente se descobre no romance, considerado um exemplo de “Prosa simbolista”, que essa sensação vem do fato de James Marian ser o resultado de um experimento do cientista místico Arhat que, após presenciar um acidente que mutilou um casal de irmãos resolve juntar as partes de seus corpos em um ser andrógino que é trazido a vida.

Percebe-se ai a influencia do romance Frankenstein, principalmente nos experimentos que mesclam ciência e misticismo, um tema característico da Literatura Gótica.

É importante mencionar que, diferentemente da visão propagada em várias adaptações pelo cinema que sempre privilegiaram o conhecimento cientifico da personagem e suas experiências com a eletricidade, Victor Frankenstein estava mais inclinado para a Alquimia do que para o conceito de Ciência que temos hoje, algo que em fins do século dezoito (onde a trama se desenrola) não se configurava uma contradição.

De fato, não apenas Frankenstein, mas outras obras como O retrato de Dorian Gray e mesmo Drácula podem ser percebidos na leitura de A Esfinge

Sendo um livro em domínio público, fica o convite para conhece essa obra, clicando aqui.

Fé e Ciência espírita

Além da presença de um misticismo oriental característico do Simbolismo, chama a atenção também nesta passagem e em todo o romance Esfinge, a utilização de um vocabulário marcado por idéias ligadas à crença da reencarnação.

Eram idéias que, segundo Roberto de Sousa Causo, estavam em consonância com uma doutrina religiosa muito em voga no Brasil da Belle Époque e na obra de Coelho Neto: o Espiritismo.

De fato, a presença do Espiritismo no contexto cultural brasileiro no tempo de Coelho Neto pode ser observada em diferentes contos do escritor brasileiro.

Um desses casos é o conto “A conversão” (1926), que vemos as idéias espíritas sendo usadas de forma a mostrar que os produtos da ciência e do progresso tecnológico na Belle Époque poderiam, até mesmo, estreitar as fronteiras entre o nosso mundo e o sobrenatural. 

Neste conto, dois amigos conversam sobre a inesperada conversão de um deles ao Espiritismo. A conversão ocorre quando testemunha a conversa da filha Julia com a neta morta Esther através do telefone:

“Ouvi toda a conversa e compreendi que nos estamos aproximando da grande Era, que os Tempos se atraem – o finito defronta o infinito e, das fronteiras que os separam, as almas já se comunicam.” 

Percebe-se ai que a incompreensão e o fascínio dos princípios científicos por trás do telefone abrem espaço para a interpretação do sobrenatural.

Outro conto de Coelho Neto, onde os limites entre a ciência e o sobrenatural se interpõe, é “A sombra” (1926).

Nesta narrativa, estruturada da mesma forma que “O conto do coração denunciador”, de Poe, o protagonista Avella relata como o ciúme que sentia pela esposa, de nome Celuta, o levou a matá-la por envenenamento.

Porém, ao invés de terminar neste ponto, a trama do conto toma uma nova direção ao mostrar a perseguição da sombra de Celuta a Avelar até que este confesse o seu ato (mais um evidente traço da influência do Espiritismo).

Mas, o que chama a atenção na narrativa, é que, ao invés de assumir responsabilidade pelos seus atos, Avellar coloca a culpa na ciência, como se esta fosse uma entidade que fomentou a sua desconfiança em relação à esposa para, assim, poder incorporar o cientista de forma plena e exclusiva.

Esta posição presente em “A sombra” atesta a maneira como a Literatura Gótica, em sua expressão da Ciência Gótica, vem desde Frankenstein apresentando um relacionamento ambíguo em relação à ciência e aos seus produtos, e o mesmo pode ser observado no Brasil do início do século 20.

E na próxima semana, a última parte sobre os primeiros momentos do Gótico no Brasil quando vou escrever sobre a influência do Decadentismo na Belle Époque em narrativas marcadas por perversão, taras e obsessões.

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Uma ótima semana!

Fontes utilizadas

BROCA, Brito. A vida literária no Brasil: 1900. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1960.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

COELHO NETO. A sombra. In: ___. Contos da vida e da morte. Porto: Livraria Chardron, 1926, p. 201-206

_______. Conversão. In: ___. Contos da vida e da morte. Porto: Livraria Chardron, 1926, p. 19-24.

______. Esfinge. Porto: Livraria Chardron, 1906.

EL FAR, Alessandra. Páginas de sensação: literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924). São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

LEVIN, Orna Messer. As figurações do dândi: um estudo sobre a obra de João do Rio. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996.

LIMA, Luiz Costa. Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1986.

MIGUEL-PEREIRA, Lucia. Prosa de ficção (1870 a 1920). 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1957. (História da Literatura Brasileira. Vol. XII)

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NEEDELL, Jeffrey D. A Tropical Belle Epoque: Elite Culture and Society in Turn-of-thecentury Rio de Janeiro. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

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SILVA, Alexander Meireles da. O admirável mundo novo da República Velha: o nascimento da ficção científica brasileira. Rio de Janeiro, UFRJ, Faculdade de Letras, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

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