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30 anos depois… você está no mundo cyberpunk dos anos 80?

Em 1987, há exatos trinta anos, Robocop: o policial do futuro estreou no Cinema norte-americano trazendo por trás de seu roteiro de ação e violência extrema um debate sobre a relação Homem x Máquina  na sociedade ocidental de fins de século vinte.

Muito melhor que a refilmagem do século 21.
ROBOCOP (1987)

Essa visão foi compartilhada por outros filmes dos anos 80, tais como Blade runner: o caçador de androides (1982) e Exterminador do futuro (1984).

O tempo só fez o filme ficar melhor
Clássico cult dos anos 80

Essa recorrência ao tema do impacto da tecnologia sobre a humanidade também se fez presente na Literatura e também no mundo das Histórias em Quadrinhos da época.

Clássico dos filmes de viagens no tempo
Exterminador modelo T-100

O ponto em comum a todas essas produções foi a percepção de que um novo subgênero da Ficção Científica ganhava força no período, demonstrando que os avanços da tecnologia não representaram avanços da sociedade como um todo.

Livro cyberpunk que influenciou Matrix (1999)
Neuromancer (1984)

30 anos depois de Robocop, e considerando o impacto da tecnologia no nosso meio, fica a pergunta:

Estaríamos em 2017 no mundo do Cyberpunk

Ghost in the Shell
Ghost in the Shell (1989)

O que é Cyberpunk?

Focando na ideia do High Tech e Low Life, ou seja, Alta Tecnologia e Baixa Qualidade de Vida, o Cyberpunk trata de narrativas onde os avanços e inovações tecnológicas convivem com a deterioração social.

Elysium (2013) mostra bem o contraste entre o High Tech e o Low Life.

Estas duas ideias estão presentes nos termos que compõem a palavra Cyberpunk.

Cyber-

Originado na palavra Cybernetics (Cibernética), Cyber- se refere a um futuro onde forças políticas e econômicas são globais em virtude da tecnologia empregada. 

Frequentemente estes locais de poder se apresentam separados e mesmo isoladas dos segmentos desprivilegiados do mundo cyberpunk.

Cyber- também se refere a manifestação no corpo da ligação entre homem e tecnologia.  

punk

O termo -punk tem origem no cenário musical dos anos 70, marcado pela crítica forte a cultura dominante e as instituições de poder.

O -punk, enquanto postura cultural, é antiautoritário, pessimista, anárquico e igualitário.

O Cyberpunk antes dos punks 

Ainda que o Cyberpunk tenha sua origem ligada as últimas décadas do século vinte, sua presença pode ser traçada já nas décadas de 50 e 60 do século vinte. Antes mesmo de receber esse nome.

A série ainda não foi lançada no Brasil
Capa da primeira edição de 1946

Nos anos da década de 1950 esse momento inicial está na série Gommerghast (1946-1956), de Mervyn Peake, em que Fantasia, Gótico e Ficção Científica se encontram em uma mesma obra.

O livro foi lançado em 1968 e serviu de base para o filme de 1982

Ainda na década de 50 e também ao longo dos anos de 1960, Philip K. Dick também explorou em seus contos e romances as angustias do homem moderno frente as mudanças de uma sociedade cada vez mais amparada na tecnologia e como essas mudanças afetam sua noção da realidade e de ser humano.

Bem-vindo a Matrix

A palavra Cyberpunk surgiu na edição de novembro de 1983 da revista Amazing Science Fiction com o conto “Cyberpunk”, de Bruce Bethke.

O termo foi posteriormente popularizado pelo editor Gardner Dozois para nomear as histórias de Ficção Científica de William Gibson e Bruce Sterling na década de 80, como a Trilogia do Sprawl.

Neuromancer é comumente aceito como o marco inicial deste subgênero da Ficção Científica nos anos 80 e apresenta os elementos que se tornaram padrão desta literatura:  

  • Governos opressores;
  • Mega corporações transnacionais;
  • Sistemas de Inteligência interligados;
  • Anti-heróis moralmente questionáveis e marginalizados. 

A década do Cyberpunk

Mas quais razões, afinal de contas, levaram o Cyberpunk a se tornar a principal vertente da Ficção Científica em fins do século vinte?

A crise do Petróleo nos anos 70 criou uma profunda crise econômica no Ocidente.

O Cyberpunk é o resultado de um série de eventos e fatores das décadas de 70 e 80 que se refletiram na ascensão de uma visão mais pessimista da sociedade.

Dentre estes fatores, destaco:

  • O aprofundamento da contestação do sistema por diferentes grupos sociais minoritários;  
  • A crise do Petróleo, que gerou uma profunda crise econômica ao longo da década de 70;
  • A ascensão de governos neoliberais na Inglaterra (Margaret Thatcher) e nos Estados Unidos (Ronald Reagan) que afetaram a classe trabalhadora e aprofundaram as desigualdades sociais;
Reagan e Thatcher

A Ficção Científica, como sempre, refletiu as grandes questões de seu tempo de forma crítica e esse cenário de pessimismo se aliou aos avanços na área da informática e da cibernética. O resultado desse caldeirão: o Cyberpunk.

O início dos anos 80 foi também o começo de uma era digital que rapidamente se disseminou

Mas até que ponto o mundo de hoje, se tornou o mundo de, por exemplo, Robocop?

O mundo Cyberpunk de agora

Sendo um produto hollywoodiano, vamos pensar, com base no roteiro, como Robocop reflete a realidade dos Estados Unidos de hoje e, mais próximo a nós, a realidade do Brasil.

1. Cenário

Filme: Em Robocop vemos a cidade de Detroit, de um hipotético Estados Unidos da América no futuro, deteriorada pela criminalidade, trafico de drogas e corporações empresariais corruptas e gigantescas.

Realidade: O escritor Ray Bradbury, autor da distopia Fahrenheit 451 (1953) dizia que não escrevia Ficção Científica para prever o futuro, mas sim para evitá-lo.  

Mas, como não pensar que o mundo distópico do filme marcado pela violência extrema, roubos, estupro e trafico de drogas não se assemelhe ao encontrado nas grandes metrópoles brasileiras? 

O mesmo ocorre com as corporações empresariais cyberpunks caracterizadas pela corrupção, como as envolvidas na Operação Lava Jato no Brasil, ou as companhias norte-americanas que agora tem seu raio de ação ampliado com o governo do megaempresário Donald Trump.

2. Mídia

Filme: A mídia do mundo cyberpunk de Robocop é tendenciosa, manipuladora, alienadora e conivente com o sistema opressor.

As propagandas veiculadas refletem o consumismo, a falta de atendimento de saúde para todos, as consequências da agressão ao meio ambiente (veja o vídeo acima).

Um exemplo disso, como se vê abaixo, é o apelo a violência diante da falta de confiança na polícia, como a do sistema anti-furto “Magnavolt”.

Realidade: Se é desnecessário apontar as semelhanças com o Brasil, ainda mais na atual polarização política em que está a nossa sociedade, a mídia tradicional dos Estados Unidos também não fica atrás, como bem mostra a cruzada do Wall Street Journal em minar a audiência do YouTube com a acusação de que a mesma veicula conteúdos racistas e anti-semitas.  

3. Marginalização da população

Filme: Aproveitando da situação de caos, a megacorporação OCP (Omni Consumer Products) assina um acordo com o governo para combater a violência tendo em mente, na verdade, acabar com a parte pobre de Detroit para construir um novo empreendimento, a utópica Delta City.

A OCP passa a controlar a força policial e implementa sua estratégia cibernética para combater o crime: Robocop.

Os policiais, todavia, não gostam da administração da OCP e ameaçam parar suas atividades.

Realidade: A realidade de desemprego em Robocop encontra seu paralelo no Brasil, onde a crise econômica levou até mesmo a Polícia a demonstrar seu descontentamento.

A greve da Polícia no Estado do Espírito Santo, ocorrida em fevereiro de 2017, e a situação de caos vivida pela população nesta situação evidencia o lado -punk do cyberpunk focando na parte da sociedade não agraciada com os benefícios do avanço tecnológico.

Nos Estados Unidos, por sua vez, a eleição de Donald Trump ameaça os avanços sociais da administração de Barack Obama

4. A opressão do sistema

Filme: Robocop ocupa o duplo lugar, comum nas distopias e no Cyberpunk, do agente do sistema dominante ou integrante do sistema, que sai de sua alienação e se revolta contra a opressão.

Ainda que atue contra os bandidos, é perceptível o espaço de Robocop como o lado cyber- que oprime a população -punk do filme.

Enquanto permanece como Robocop, ele a corporificação do sistema, sem emoções e guiado pela lógica fria das estatísticas.

Quando reassume o lado humano Alex Murphy, Robocop se torna o anti-herói marginalizado que usa do seu conhecimento prévio para atacar a mesma sociedade que o criou, em busca de reparar parte do desequilíbrio entre os dois lados da sociedade.     

Realidade: O mundo como um todo está tendo uma guinada para a Direita, seja no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. 

Neste processo, como se percebe mais de perto no Brasil, a lógica dos números dos políticos (Cyber-) vem suplantando o lado humano afetado pelas estatísticas e servindo de justificativa para políticas contra a população desfavorecida (-punk).

O mesmo vem ocorrendo nos Estados Unidos, com mais resistência por lá.  

E aí? Quais outros aspectos da sociedade Cyberpunk de Robocop e outras obras na Literatura e no Cinema de 30 anos atrás você percebe em nosso mundo de hoje? 

Deixe seu comentário.   

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Obrigado pela leitura e até a próxima semana! 

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Este post pertente ao blog Fantasticursos.

 

 

WESTWORLD: robôs, androides, ciborgues ou autômatos?

Lançada em 2016 pelo canal norte-americano HBO na ambiciosa posição de sucessora de Game of Thrones, a série Westworld vem recebendo elogios de público e crítica pelos episódios sobre a relação homem X robô e, dentre outros temas, a discussão da liberdade (ou falta) de escolha na tomada de decisões dos envolvidos.  

O sucesso da série, todavia, não é resultado apenas dos roteiristas, mas sim de todo um passado literário envolvendo seres artificiais  que podem ser traçados da mitologia grega até os dias de hoje.  

Sobre gigantes, cavaleiros e escritores: os antepassados dos robôs

Talos

Como quase tudo relacionado ao Fantástico no Ocidente, é na Grécia antiga que se encontra as primeiras menções a serem artificiais criados com o propósito de auxiliar o homem com seus afazeres.

Hefesto era o construtor dos deuses e foi o responsável pela fabricação dos raios utilizados por Zeus

Segundo a mitologia grega, foi o deus Hefesto (o Vesúvio dos Romanos) o responsável pela criação do primeiro ser artificial: o gigante Talos.

Hefesto criou Talos para proteger a ilha de Creta, algo que ele fazia se colocando na entrada da cidade grega como se pode ver acima no filme Jasão e os Argonautas (1963).

O gigante de bronze possuía uma artéria interna que percorria todo o seu corpo metálico através da qual fluía o Ichor, o misterioso fluido da vida que lhe concedia vida e que também estava presente no sangue dos deuses gregos. 

Sendo estruturado como uma criação que possuía elementos orgânicos (Ichor) e não-orgânicos (corpo metálico), Talos foi um antepassado de projetos de hoje que buscam mesclar componentes vivos e artificiais e que deram origem no ano de 1960 a palavra Ciborgue (“Cybernetic organism”).

Assim sendo, o gigante de bronze Talos não foi apenas o primeiro ser mecânico que poderia ser chamado de robô, mas também foi o primeiro ciborgue da história ocidental, sendo seguido séculos depois por outros representantes do tipo, como os Borg (Star Trek), Robocop, Exterminador e o super-herói Cyborg.

O cavaleiro mecânico de Leonardo da Vinci

Antes da criação da palavra “Robô” em 1921, todos os engenhos com aparência de ser humano ou de outros animais que reproduzissem movimentos por meios mecânicos ou eletrônicos eram chamados de autômatos.

Só podia ser Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci pode ser considerado um dos pioneiros da Robótica em fins do século quinze com suas idéias sobre um cavaleiro alemão automatizado

A ideia inicial de Leonardo da Vinci

O gênio renascentista deixou vários estudos em desenho para uma estrutura que seria inserida em uma armadura medieval e que seria movimentada por meio de manivelas e cabos.  

Também conhecido como “Soldado Robô” ou “Robô de Leonardo”, estas anotações foram redescobertas no século vinte e finalizadas em 2002 por Mark Rosheim.

O autômato de Leonardo da Vinci se mostrou funcional e podia sentar, ficar de pé, virar a cabeça, cruzar os braços e até levantar o visor. 

A efetivação do projeto em 2002 atestou ainda mais a genialidade do mestre renascentista

O Escritor e Frankenstein

Como se define a vida?

 Produzidos entre 1768 e 1774 como meio de propaganda para a venda de seus relógios, os três autômatos do relojoeiro suíço Pierre Jaquet-Droz correram a Europa fascinado plateias em todas as suas apresentações.

Compostos  por “O Escritor”, “A Música” e “O Desenhista” e inseridos no contexto do século dezoito de valorização da Ciência em detrimento da Religião, as criações de Jaquet-Droz eram tão sofisticadas que levantaram debates sobre o principio da vida e a definição de humano.

Segundo estudiosos, uma jovem inglesa de nome Mary Shelley teria assistido a uma das apresentações do autômato Escritor e se impressionado com a aparência de vida da criação de Jaquet-Droz.

Quanta imaginação tinha essa menina!

Anos mais tarde, ela mesmo criaria a obra definitiva sobre a tentativa do ser humano em criar vida artificial: Frankenstein (1818).  

De autômatos a replicantes: O robô literário

Além de Frankenstein, os autômatos de Pierre Jaquet-Droz também exerceram influencia em outras obras fantásticas do século dezenove, mostrando que, a partir dali e ao longo do século vinte, fantasmas e vampiros passariam a dividir a atenção dos leitores com os produtos da Ciência e do progresso.   

Dentre diversos romances, contos, peças teatrais e filmes, destaque para:

A Eva futura (1886), de Auguste Villiers de l’Isle-Adam

Romance francês que trouxe para a Literatura o termo “Androide”.

Formado pela junção do grego Andro (Homem) e o sufixo oid (tendo a forma ou semelhança de), a palavra “Androide” surgiu na enciclopédia Cyclopædia (1728), de Ephraim Chambers.   

Androides são seres artificiais fabricados para terem o comportamento e a aparência física externa semelhante a dos humanos

Androide #18. Bonita e poderosa.

Curiosamente, o androide da obra de Auguste Villiers de l’Isle-Adam é feminino e se chama Hadaly. Isto quer dizer que, na verdade, ela é uma Ginoide, do grego Gyné (Mulher) e o sufixo oid. 

Esta palavra surgiu no romance Divine Endurance (1985), de Gwyneyth Jones

“Gynoid”. Uma tentativa de se contemplar a questão dos gêneros na literatura de robôs.

Outros termos usados para designar androides femininos, são Fembot e Feminoide. Todavia, “Androide” é normalmente o termo escolhido para ambos os sexos.

É importante destacar que se Hadaly foi a primeira ginoide na Literatura, a posição de primeira autômata pertence a Olympia, da obra O homem de areia (1817), de E. T. A. Hoffmann.  

Olympia na Ópera Les Contes d’Hoffmann (2010)

“O feitiço e o feiticeiro” (1894), de Ambrose Bierce

“O Rei morreu e você também!”

Jogador de xadrez autômato se revolta contra seu criador e o mata após levar um Xeque-Mate. 

É um dos primeiros contos em Língua Inglesa a trazer a descrição de um autômato.

A fábrica de robôs (1920), de Karel Capek

Um cena da peça mostrando três robôs.

Nesta peça teatral a palavra “Robô” surgiu.

Foi o escritor e pintor Joseph Capek, irmão de Karel Capek, que sugeriu o uso da palavra tcheca robota (“servidão”, “trabalho forçado”) para dar nome aos produtos da fábrica R.U.R. (Rossum’s Universal Robots).

Ironicamente, mesmo aqui na obra que as batizou, as criações mostradas não se encaixam na visão popular de robôs da Ficção Científica como um agrupamento de partes mecânicas e eletrônicas.

Robby, um dos mais famosos robô da FC, destaque do filme O Planeta Proibido (1956).

Sendo produzidos de forma biotecnológica a partir da descoberta de um composto orgânico, os robôs de Capek se enquadram melhor na categoria de Androides

De fato, baseado nos episódios da primeira temporada de Westworld, podemos observar semelhança entre os robôs da obra de Capek e os Anfitriões da série no que se refere a sua fisiologia artificial.

Assim sendo, pode ser dito que os robôs de Westworld, apesar do nome, são na verdade androides.

A principal contribuição da peça de Karel Capek é a introdução do debate tanto sobre a exploração dos robôs pelo ser humano, resultando na rebelião do primeiro, quanto sobre a desumanização do homem diante da tecnologia. 

Metropolis (1927), direção de Fritz Lang

Se o primeiro androide na Literatura foi na verdade a ginoide Hadaly, o mesmo ocorreu com o primeiro androide no Cinema: Maria

Considerado por críticos em geral o primeiro filme de Ficção Científica, a ginoide Maria serviu de base para a criação de C-3PO, da saga Star Wars.

 Eu, Robô (1950), de Isaac Asimov

Nesta coletânea de nove contos Asimov apresenta as bases de sua História de robôs.

Listado entre as obras mais importantes do século vinte, o livro de Isaac Asimov trouxe uma nova abordagem para os robôs, afastando-os da imagem de seres ameaçadores e malignos veiculadas nas revistas de ficção científica das primeiras décadas do século vinte.

Destrua todos os humanos!

O robô de Asimov, este sim um ser metálico como a cultura pop costuma representar, tem sua existência regulada pelas chamadas Três Leis da Robótica, princípios que ultrapassaram o campo da Literatura e ainda servem de base para os estudos dos robôs atuais.

Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick

Publicação da Editora Aleph

Clássico cyberpunk de Philip K. Dick, apresenta o termo pejorativo Andys para se referir aos androides perseguidos pelo caçador de recompensas Rick Deckard.

Na adaptação para o Cinema, em 1982, o diretor Ridley Scott adotou o termo “Replicante” para reiterar a capacidade dos androides em replicar a natureza humana, levando os caçadores a aplicar um teste para identificá-los enquanto seres artificiais.   

O filme não teve bom desempenho de público e crítica nos anos oitenta, mas se tornou um clássico cult com o passar dos anos.

O romance se alinha com o efervescente contexto politico-cultural dos anos de 1960 nos Estados Unidos e traz temas recorrentes do autor, como o debate sobre os limites entre o real e o virtual, o impacto da tecnologia na relação do ser humano com seu meio, e o questionamento sobre as definições de humano. 

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Fontes utilizadas

ASIMOV, Isaac, GREENBERG, Martin H., WARRICK, Patricia S. (Ed.). Máquinas que pensam: Obras primas da ficção científica. Porto Alegre: L&PM Editores,1985.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

Escrito por Alexander Meireles da Silva

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Como você pode sobreviver a Distopia de Donald Trump

trump

Tem jeito não: Donald Trump é o 45° Presidente dos Estados Unidos da América.

E agora? Como sobreviver a Era Donald Trump? O que ela pode representar para o Fantástico?

A eleição de Trump traz a mente outro momento em que o mundo deu uma guinada para a direita com as eleições da Primeira-Ministra Margaret Thatcher na Inglaterra em 1979 e do Presidente Ronald Reagan nos EUA em 1981.

Estes dois eventos representaram o início de uma ideologia conservadora que se estenderia por toda a década de oitenta do século passado, motivando a criação de obras e produções vinculadas ao Fantástico na Literatura, Cinema e Quadrinhos, principalmente na forma das distopias.

warrior

Na Inglaterra de 1982 e 1983, por exemplo, Alan Moore publicou na revista britânica Warrior sua crítica ao governo da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher na forma de V de Vingança, que seria depois finalizada em 1988 dentro do selo Vertigo da DC Comics

O lado negro do sonho

É interessante destacar aqui como outros termos para a palavra “Distopia”, tais como “Utopias negativa”, “Contra-utopia” e “Utopia devolucionária” reforçam a estreita relação entre as distopias e as utopias, e isso não é a toa. Afinal de contas, dependendo de qual lado você está, o sonho para uns é o pesadelo para outros.

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A sombra da distopia já estava presente, na verdade, desde o primeiro projeto utópico do Ocidente: A República (380 a. C), de Platão, visto que para o filosofo grego poetas e artistas em geral deveriam ser banidos por não considerarem a razão como seu guia de vida.

Ao longo dos séculos, a medida em que a Ciência avançou e, por tabela, o Racionalismo, as utopias deixaram transparecer cada vez mais suas contradições distópicas.  

Novas distopias, velhos pesadelos

 

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A distopia moderna nasce no início do século vinte na hoje extinta União Soviética por meio de um romance novamente escrito sob o temor da ameaça as liberdades individuais e conquistas sociais: Nós (1922), de Yevgeny Zamiatin.  

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Muito pouco lido atualmente, esta obra exerceu influencia direta sobre 1984 (1949), de George Orwell e Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, dois romances que ainda hoje são referências para outras produções do gênero.

Se você assistiu a Matrix (1999), por exemplo, saiba que a ideia de seres humanos fabricados em tubos de ensaio saiu do livro de Huxley, como mostra a imagem acima.

    

No Cinema, a Distopia tem sua origem no filme alemão Metropólis (1927), dirigida por Fritz Lang, estabelecendo muito da fotografia usada em outras produções cinematográficas sobre o tema, principalmente durante o mandato da presidência de Ronald Reagan de 1981 a 1989. 

É uma distopia se…

  • A história já começa dentro da realidade distópica (narrativa em media res);
  • A história é ambientada no futuro;
  • O(s) orgão(s) de controle se apoia(m) em um discurso que privilegia a razão em detrimento da emoção ou da imaginação;
  • Inicialmente o protagonista não tem consciência ou se aliena de sua condição de oprimido;
  • As instituições de poder controlam os meios de comunicação omitindo ou manipulando informações;
  • Há um incetivo a atividades coletivas por meio de esportes, rituais e celebrações enquanto que ações individuais, como a leitura, são marginalizadas;
  • O protagonista desperta de sua condição de alienado a partir do contato e interesse com alguém do sexo oposto;
  • Há a presença de um representante da ordem dominante que explica ao protagonista como o mundo se tornou uma distopia;

Distopias do século XX com ameaças do século XXI

Durante os anos Reagan as políticas adotadas encontraram reflexo em diversas publicações e produções distópicas da época. Cito abaixo apenas um exemplo de cada na Literatura, no Cinema e nas Histórias em Quadrinhos:

Literatura

 aia

A História da Aia (1985), de Margaret Atwood

O romance da canadense Margaret Atwood situa-se em um futuro especulativo onde os assassinatos do Presidente e de congressistas americanos atribuídos a terroristas muçulmanos resultaram na dissolução dos Estados Unidos da América e na implantação de um Estado totalitário por militares cristãos fundamentalistas. Ou seja, é o perfil e muitos dos eleitores republicanos que votaram em Trump.

Nesta distopia as guerras quimicas, abortos e o uso indiscriminado de medicamentos levaram a maioria das mulheres a se tornarem inferteis ou gerarem crianças com malformações. Por conta disso, as que ainda são supostamente férteis e são solteiras, viúvas, divorciadas e provenientes de casamentos não legalizados foram aprisionadas pelo novo governo para exercerem a única função social de gerarem crianças saudáveis para a sociedade. 

Considerando a visão de Donald Trump sobre as mulheres… fica a dica.

Cinema

sobrevivente

O sobrevivente (1987), direção de Paul Michael Glaser 

Falar de distopia no Cinema norte-americano dos anos oitenta é falar de Blade Runner (1982), clássico cult do diretor Ridley Scott baseado no romance Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), do escritor Philip K. Dick. 

Mas, como Donald Trump será com certeza um presidente midiático, indico uma distopia com Arnold Schwarzenegger, e que não é O Exterminador do Futuro (1984).

O Sobrevivente é baseado no romance O concorrente (1982), de Stephen King e  mostra como no ano de 2017 (profecia?), os Estados Unidos estarão sob o comando de um governo totalitário que retirou a liberdade individual de toda a população. Livros são queimados e instituições de ensino são fechadas.

A única diversão do povo é a TV, e o programa mais popular é um reality show  em que sobreviver é a única recompensa. Neste cenário um homem é culpado de um crime que não cometeu e sua sentença é para a cadeia ou entrar para o jogo. 

Imagine uma mistura de Jogos Vorazes com Schwarzenegger e o resultado é O sobrevivente

Histórias em quadrinhos

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O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller 

Esta graphic novel, que ao lado de Watchmen (1986), de Alan Moore redefiniu o gênero de histórias em quadrinhos de super-heróis, mostra um Batman amargo e envelhecido que anos depois de ter abandonado a carreira de vigilante mascarado decide retornar ao combate ao crime em meio a uma decadente Gotham City do futuro tomada pela violência e a alienação da mídia.

Indico esta obra pela ácida crítica de Frank Miller a sociedade americana e a alienação da Mídia, tendo como pano de fundo a política de governo dos anos Reagan. Ou seja, a mesma coisa a se esperar de Donald Trump.

E agora?

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Lendo e assistindo as sugestões aqui de livros, filmes e quadrinhos você não será pego de surpresa pelas possíveis ações do novo Presidente dos Estados Unidos pelos próximos quatro anos.

Considerando a influencia norte-americana sobre a cultura e a disseminação de um pensamento de direita pelo mundo, especulo que nos próximos anos veremos uma nova onda de obras distópicas mais tradicionais, com tom mais sério que distopias adolescentes como Divergente e Jogos Vorazes e com foco no poder da mídia (algo que já se pode ver na série Black Mirror), além do questionamento de conquistas sociais de grupos minoritários.    

É esperar pra ver, mas espero que não!

Que livros, filmes e quadrinhos as promessas de governo de Donald Trump te lembra?

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E acompanhe novos posts toda quarta-feira às 9h.

Escritor por: Alexander Meireles da Silva

Contatos: fantasticursos@gmail.com