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O que você faria se fosse invisível?

Desde o primeiro minuto de 2017 toda a obra do escritor inglês e pai da Ficção Científica Herbert George Wells está em domínio público.

Este fato certamente fará com que a vasta obra de H. G. Wells se popularize ainda mais em novas edições, interpretações e releituras de seus romances e contos.  

Dentre essas obras, 2017 marca o 120° aniversário de O Homem Invisível (1897), introduzindo a temática da invisibilidade no mundo da Ficção Científica (FC).

Seja como resultado da aquisição ou ingestão de algo,  ou uma condição adquirida de forma voluntária ou não, a invisibilidade possui uma longa tradição no Fantástico.

Veja abaixo como o ato de se tornar invisível tem sido usado para o bem e para o mal ao longo da história da humanidade desde a Grécia Antiga. 

Na Mitologia

Giges e o anel

Em A República (380 a. C.) o filosofo grego Platão narra a lenda do pastor Giges e de seu anel de invisibilidade.

Platão e a alegoria de Giges: “Quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”.

Um dia, ao tentar resgatar seu rebanho que havia caído dentro de uma grande fenda após um terremoto, Giges encontra o cadáver de gigante portando um anel em seu dedo. 

Precioso!!!!!! Giges é corrompido pela invisibilidade do anel.

Percebendo que ao girar o anel em seu dedo ele podia ficar invisível, Giges vai ao palácio real, seduz a Rainha, mata o Rei, usurpa o trono e dá início a uma longa dinastia.  

Através da narrativa de Giges, Platão propõe o debate:

O homem é bom e ético por natureza ou apenas porque teme as consequências de ser descoberto e julgado publicamente pelos seus atos? O que você faria se soubesse que não seria julgado por nenhum de seus atos? 

Perseu e o capacete de Hades

Além do anel de Giges, a invisibilidade por meio de um artefato também pode ser encontrada no Teogonia (700 a. C.), de Hesíodo. 

Teogonia O poeta foi contemporâneo de Homero.

Dentre as diversas narrativas sobre deuses e heróis gregos, destaque aqui para o capacete dado a Perseu pelo deus Hades.

De posse do capacete, Perseu consegue decapitar Medusa. 

Perseu evita o olhar da Medusa e não vira pedra.

Após matar a górgona, Perseu é perseguido pelas irmãs de Medusa, mas com a ajuda do capacete o herói consegue escapar.

Alberich e o Tarnhelm

No Das Rheingold (1869), de Richard Wagner, primeiro de quatro dramas musicais baseados em personagens da mitologia nórdica, também temos um capacete capaz não apenas de conceder invisibilidade, mas também de alterar a forma física de quem o usa.

Mime se desespera com o desaparecimento do irmão Alberich quando este coloca o capacete

Construído pelo anão ferreiro Mime para atender a ganância e ambição de seu irmão Alberich, o Tarnhelm era usado por Alberich para manter o controle sobre os anões Nibelungos.  

O capacete da invisibilidade aparece na adaptação cinematográfica do Anel dos Nibelungos no filme A maldição do anel

Baseado na obra que foi umas das fontes para O SENHOR DOS ANÉIS.

Na Fantasia

Sheila, do inesquecível CAVERNA DO DRAGÃO

Como você já deve ter percebido, a mitologia forneceu muitas ideias sobre a invisibilidade na forma de anéis, capacetes e capas para as histórias de Fantasia de hoje. Apenas para citar duas, temos:  

Bilbo e o Um Anel

Bilbo Baggins encontra o anel de Giges… ops. anel do Gollum.

No romance O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien, o hobbit Bilbo é contratado por um grupo de anões e o mago Gandalf como um ladrão capaz de roubar uma joia no covil do dragão Smaug.

Bilbo usa o anel mágico, encontrado na caverna da criatura Gollum para, semelhante a Perseu em relação a Medusa, se tornar invisível e passar despercebido do perigo, mas neste acaso aqui Smaug sente o cheiro e respiração do hobbit.

Já na obra O Senhor dos Anéis (1954), descobrimos que, da mesma forma que Giges (e da criatura Gollum), Bilbo Baggins se deixou corromper pelo poder do anel.

Harry Potter e a Relíquia da Morte

A capa aparece no livro HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (1997).

Brilhosa e prateada e de tessitura semelhante a fios de água, a capa de invisibilidade de Harry Potter pertenceu a própria Morte e foi entregue a Ignoto Peverell, antepassado de Harry Potter.

Esta história pode ser lida tanto no livro Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007) quanto no contos “Os três irmãos”, presente na obra Os contos de Beedle, o Bardo (2007)

Surge (ou desaparece?) o Homem Invisível

Inicialmente publicado ao longo de 1897 como um folhetim na revista PEARSON’S WEEKLY, a história saiu na forma de romance no mesmo ano.

Nada de anéis, capas ou qualquer outra coisa ligada a magia: assim como em outros romances e contos de H. G. Wells a fonte das maravilhas é a Ciência.  

A obra mostra como um estudante universitário de nome Griffin abandona a Medicina para se dedicar a Física e mais especificamente aos estudos na área da Ótica.

Eventualmente, ele descobre uma formula capaz de tornar tecidos invisíveis e decide aplicar em seu corpo, pensando em todas as coisas que poderia fazer sem ser visto, mas não consegue reverter a invisibilidade.

Anti-social, recluso e arrogante, ele acaba despertando a curiosidade e depois as suspeitas dos moradores do pequeno vilarejo de Iping, onde se refugia para tentar encontrar um antidoto para sua condição.

Querendo criar um “Reino de Terror”, o Homem invisível é denunciado as autoridades pela sua assistente e por seu professor e, na sua sede de vingança, é morto pelos moradores de Iping.

Ainda que repita a formula literária do homem da ciência que subverte os limites éticos em sua busca de conhecimento e paga o preço por seus atos, presente no Fantástico desde Frankenstein (1818), de Mary Shelley e O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson, O Homem Invisível se destaca pela releitura da alegoria do anel de Giges e pela introdução do tema da invisibilidade na Ficção Científica.

No Cinema

O personagem é considerado um dos oito monstros clássicos da Universal Studios, a partir de seu filme em 1933, com uma continuação em 1940 de título The Invisible Man Returns.

Nos Quadrinhos

O personagem aparece na série A Liga Extraordinária (1999), escrita por Alan Moore e desenhada por Kevin O’Neill, ao lado de outros personagens da Literatura Inglesa do século dezenove.

Assim como seu equivalente literário, o Homem Invisível dos quadrinhos é amoral, egocêntrico e ambicioso.

Outros invisíveis

Uma vez introduzido no universo da FC, outros homens invisíveis marcaram presença no Cinema e na Televisão, sempre tendo a Ciência como promotor da invisibilidade. Dentre estas aparições (ou desaparecimentos), destaque para: 

O Homem Invisível (1975)

Gemini Man (1976)

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O Homem Invisível (2000)

O Homem sem Sombra (2000)

Invisíveis pelo preconceito

A temática da invisibilidade também permite analisar como determinados grupos são marginalizados na sociedade.

O Negro

No romance Homem invisível (1952), de Ralph Ellison, clássico da Literatura Americana, temos a narração, por parte de um negro, da descoberta de sua invisibilidade social na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte.

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.

Este narrador sem nome (o que reforça ainda mais sua invisibilidade) descreve sua trajetória desde a alienação no Sul dos Estados Unidos como um negro passivo até o seu despertar crítico na cidade de Nova York tempos depois.

Ralph Ellison

Abordando a questão das desigualdades sociais no contexto da sociedade capitalista, Homem invisível é leitura obrigatória para se entender a problemática da identidade e da individualidade no mundo de hoje.

A Mulher

As Histórias em Quadrinhos norte-americanas de super-heróis é o lugar ideal para se observar o espaço marginalizado da mulher no século vinte.

Não é a toa que dentre as primeiras super-heroínas criadas temos uma mulher cujo superpoder é: sumir. O que ia ao encontro do espaço de invisibilidade da mulher em meio a sociedade machista da época.

Suma da minha frente mulher!

Invisible Scarlet O’Neil foi a primeira vigilante urbana com superpoderes na história dos quadrinhos e foi publicada entre os anos de 1940 e 1956 no Chicago Times

Outra super-heroína de destaque cujo poder é a invisibilidade é a Mulher-Invisível, integrante do Quarteto Fantástico da editora Marvel.

Irmã, Namorada, Noiva, Esposa e Mãe, antes de ser Super-Heroína.

Ainda que tenha sido a primeira super-heroína da fase moderna da Marvel, iniciada em 1961, Susan “Sue” Storm foi por muito tempo relegada a mera coadjuvante dentro de seu próprio grupo, sendo frequentemente salva por seus companheiros e considerada uma inútil em algumas histórias do Quarteto Fantástico.   

Edição em que os leitores escrevem reclamando da inutilidade da personagem.

Ai fica a questão: Será que a personagem teria sofrido esta discriminação por tanto tempo se outros aspectos de seus poderes, como a projeção de poderosos campos de força, fosse melhor explorada pelos roteiristas?

Com o passar das décadas, na mesma medida em que a mulher conquistava seus direitos na sociedade, a personagem foi sendo explorada de forma mais relevante nas histórias e hoje é uma das mais poderosas da Marvel.

Tomando posição na série GUERRA CIVIL.

Seja resultado de magia ou ciência, seja usada para o bem ou como meio de expressão dos desejos mais íntimos, a invisibilidade acompanha a história da humanidade sendo usada para o debate da natureza humana ou o apagamento social a que grupos específicos são submetidos.

E você? O que faria se fosse invisível?

Gostou?

Então deixe o seu comentário e compartilhe com seus amigo visíveis ou invisíveis. 

Fontes consultadas

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vol. 1. São Paulo: Editora Vozes, 1986.

ROBBINS, Trina. The great women superheroes. Northampton/Massachusetts: Kitchen Sink Press, 1996.

SHERMAN, Josepha (Ed.). Storytelling: An Encyclopedia of mythology and Folklore. Vol. 1,2,3. New York: Sharpe Reference, 2011. 

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

      

 

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Como você pode sobreviver a Distopia de Donald Trump

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Tem jeito não: Donald Trump é o 45° Presidente dos Estados Unidos da América.

E agora? Como sobreviver a Era Donald Trump? O que ela pode representar para o Fantástico?

A eleição de Trump traz a mente outro momento em que o mundo deu uma guinada para a direita com as eleições da Primeira-Ministra Margaret Thatcher na Inglaterra em 1979 e do Presidente Ronald Reagan nos EUA em 1981.

Estes dois eventos representaram o início de uma ideologia conservadora que se estenderia por toda a década de oitenta do século passado, motivando a criação de obras e produções vinculadas ao Fantástico na Literatura, Cinema e Quadrinhos, principalmente na forma das distopias.

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Na Inglaterra de 1982 e 1983, por exemplo, Alan Moore publicou na revista britânica Warrior sua crítica ao governo da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher na forma de V de Vingança, que seria depois finalizada em 1988 dentro do selo Vertigo da DC Comics

O lado negro do sonho

É interessante destacar aqui como outros termos para a palavra “Distopia”, tais como “Utopias negativa”, “Contra-utopia” e “Utopia devolucionária” reforçam a estreita relação entre as distopias e as utopias, e isso não é a toa. Afinal de contas, dependendo de qual lado você está, o sonho para uns é o pesadelo para outros.

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A sombra da distopia já estava presente, na verdade, desde o primeiro projeto utópico do Ocidente: A República (380 a. C), de Platão, visto que para o filosofo grego poetas e artistas em geral deveriam ser banidos por não considerarem a razão como seu guia de vida.

Ao longo dos séculos, a medida em que a Ciência avançou e, por tabela, o Racionalismo, as utopias deixaram transparecer cada vez mais suas contradições distópicas.  

Novas distopias, velhos pesadelos

 

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A distopia moderna nasce no início do século vinte na hoje extinta União Soviética por meio de um romance novamente escrito sob o temor da ameaça as liberdades individuais e conquistas sociais: Nós (1922), de Yevgeny Zamiatin.  

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Muito pouco lido atualmente, esta obra exerceu influencia direta sobre 1984 (1949), de George Orwell e Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, dois romances que ainda hoje são referências para outras produções do gênero.

Se você assistiu a Matrix (1999), por exemplo, saiba que a ideia de seres humanos fabricados em tubos de ensaio saiu do livro de Huxley, como mostra a imagem acima.

    

No Cinema, a Distopia tem sua origem no filme alemão Metropólis (1927), dirigida por Fritz Lang, estabelecendo muito da fotografia usada em outras produções cinematográficas sobre o tema, principalmente durante o mandato da presidência de Ronald Reagan de 1981 a 1989. 

É uma distopia se…

  • A história já começa dentro da realidade distópica (narrativa em media res);
  • A história é ambientada no futuro;
  • O(s) orgão(s) de controle se apoia(m) em um discurso que privilegia a razão em detrimento da emoção ou da imaginação;
  • Inicialmente o protagonista não tem consciência ou se aliena de sua condição de oprimido;
  • As instituições de poder controlam os meios de comunicação omitindo ou manipulando informações;
  • Há um incetivo a atividades coletivas por meio de esportes, rituais e celebrações enquanto que ações individuais, como a leitura, são marginalizadas;
  • O protagonista desperta de sua condição de alienado a partir do contato e interesse com alguém do sexo oposto;
  • Há a presença de um representante da ordem dominante que explica ao protagonista como o mundo se tornou uma distopia;

Distopias do século XX com ameaças do século XXI

Durante os anos Reagan as políticas adotadas encontraram reflexo em diversas publicações e produções distópicas da época. Cito abaixo apenas um exemplo de cada na Literatura, no Cinema e nas Histórias em Quadrinhos:

Literatura

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A História da Aia (1985), de Margaret Atwood

O romance da canadense Margaret Atwood situa-se em um futuro especulativo onde os assassinatos do Presidente e de congressistas americanos atribuídos a terroristas muçulmanos resultaram na dissolução dos Estados Unidos da América e na implantação de um Estado totalitário por militares cristãos fundamentalistas. Ou seja, é o perfil e muitos dos eleitores republicanos que votaram em Trump.

Nesta distopia as guerras quimicas, abortos e o uso indiscriminado de medicamentos levaram a maioria das mulheres a se tornarem inferteis ou gerarem crianças com malformações. Por conta disso, as que ainda são supostamente férteis e são solteiras, viúvas, divorciadas e provenientes de casamentos não legalizados foram aprisionadas pelo novo governo para exercerem a única função social de gerarem crianças saudáveis para a sociedade. 

Considerando a visão de Donald Trump sobre as mulheres… fica a dica.

Cinema

sobrevivente

O sobrevivente (1987), direção de Paul Michael Glaser 

Falar de distopia no Cinema norte-americano dos anos oitenta é falar de Blade Runner (1982), clássico cult do diretor Ridley Scott baseado no romance Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), do escritor Philip K. Dick. 

Mas, como Donald Trump será com certeza um presidente midiático, indico uma distopia com Arnold Schwarzenegger, e que não é O Exterminador do Futuro (1984).

O Sobrevivente é baseado no romance O concorrente (1982), de Stephen King e  mostra como no ano de 2017 (profecia?), os Estados Unidos estarão sob o comando de um governo totalitário que retirou a liberdade individual de toda a população. Livros são queimados e instituições de ensino são fechadas.

A única diversão do povo é a TV, e o programa mais popular é um reality show  em que sobreviver é a única recompensa. Neste cenário um homem é culpado de um crime que não cometeu e sua sentença é para a cadeia ou entrar para o jogo. 

Imagine uma mistura de Jogos Vorazes com Schwarzenegger e o resultado é O sobrevivente

Histórias em quadrinhos

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O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller 

Esta graphic novel, que ao lado de Watchmen (1986), de Alan Moore redefiniu o gênero de histórias em quadrinhos de super-heróis, mostra um Batman amargo e envelhecido que anos depois de ter abandonado a carreira de vigilante mascarado decide retornar ao combate ao crime em meio a uma decadente Gotham City do futuro tomada pela violência e a alienação da mídia.

Indico esta obra pela ácida crítica de Frank Miller a sociedade americana e a alienação da Mídia, tendo como pano de fundo a política de governo dos anos Reagan. Ou seja, a mesma coisa a se esperar de Donald Trump.

E agora?

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Lendo e assistindo as sugestões aqui de livros, filmes e quadrinhos você não será pego de surpresa pelas possíveis ações do novo Presidente dos Estados Unidos pelos próximos quatro anos.

Considerando a influencia norte-americana sobre a cultura e a disseminação de um pensamento de direita pelo mundo, especulo que nos próximos anos veremos uma nova onda de obras distópicas mais tradicionais, com tom mais sério que distopias adolescentes como Divergente e Jogos Vorazes e com foco no poder da mídia (algo que já se pode ver na série Black Mirror), além do questionamento de conquistas sociais de grupos minoritários.    

É esperar pra ver, mas espero que não!

Que livros, filmes e quadrinhos as promessas de governo de Donald Trump te lembra?

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E acompanhe novos posts toda quarta-feira às 9h.

Escritor por: Alexander Meireles da Silva

Contatos: fantasticursos@gmail.com