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1982: Os 7 filmes do Ano de Ouro do Cinema de Ficção Científica

Imagine um tempo em que os grandes estúdios de cinema não se preocupavam em acertar datas de lançamento dos filmes de forma que o filme de um estúdio não se chocasse com a produção de outro.

CONAN, O BÁRBARO (1982), foi o primeiro sucesso de Arnold Schwarzenegger no Cinema. Ele e Sylvester Stallone se tornaram os grandes nomes do Cinema de Ação a partir de então.

Ou então, um ano em que um filme ficasse em cartaz por meses porque não teve a pressão de bater recorde de bilheteria no fim de semana de sua estréia para garantir maior tempo de exibição.

Devendo seu sucesso ao nome de Steven Spielberg como produtor, POLTERGEIST (1982) ganhou fama de filme maldito e deu início a várias continuações.

Um ano que reunisse vários filmes que marcariam toda uma geração e viriam a exercer influencia até os dias de hoje.

Após estrear 3 filmes como Rocky Balboa, Sylvester Stallone se tornou um ex-soldado em RAMBO (1982), iniciando, junto com Arnold Schwarzenegger, a era dos brutamontes no Cinema.

Assim foi o ano de 1982.

Ainda que esse ano tenha fornecido o cenário para grandes filmes de gêneros diversos, tais como a Fantasia, Horror e Ação, nenhum outro gênero se destacou tanto neste ano quanto a Ficção Científica (FC), assunto do post desta semana.

Dentre os 7 filmes de Ficção Científica de 1982 que causaram impacto quando de seu lançamento pela produção ou roteiro, ou que continuam a exercer influencia 35 anos depois, destacam-se, em ordem de lançamento:

1. Fuga de Nova York

Título original: Escape from New York  

Lançamento nos EUA: 10 de Julho de 1981 

Dados: É o único filme aqui da lista que na verdade foi lançado em 1981.

Ele está aqui por ter marcado toda uma geração no ano seguinte, principalmente no Brasil, quando foi lançado em maio de 1982 (sim, leitores mais novos, os filmes demoravam muito pra chegarem no Brasil).

Enredo: No ano de 1997 Nova York é uma cidade prisão para todos os criminosos de uma decadente América à beira de uma guerra nuclear. Após o presidente do país cair no local, o mercenário Snake Plissken é enviado para salvá-lo  em uma corrida contra o tempo.

Marcou época porque: Produção B do diretor John Carpenter com seu ator predileto – Kurt Russel – Fuga de Nova York serviu de referência para Hideo Kojima criar o personagem Solid Snake da série Metal Gear.

O diretor J. J. Abrams (Star Wars VII – O despertar da Força) é outro fã do filme de John Carpenter e usou a imagem da cabeça quebrada da Estatua da Liberdade no filme Cloverfield (2008). 

2. Mad Max 2

Direção de George Miller

Título original: Mad Max: The Road Warrior 

Lançamento nos EUA: 28 de Abril

Dados: Continuação de Mad Max (1979), Mad Max 2 ou Mad Max: O guerreiro da estrada traz novamente o policial australiano Max Rockatansky, agora conhecido apenas como “O Guerreiro da Estrada”, vivido pelo ator Mel Gibson. Direção de George Miller.

Enredo: Após perder a esposa e o filho no primeiro filme, Max se vê aqui envolvido em meio a uma disputa por gasolina entre uma comunidade no meio do deserto e uma gangue de motoristas sádicos.  

Marcou época porque: Introduziu a estética dos filmes pós-apocalipticos ambientados em desertos e com a presença de gangues degeneradas, algo que se tornaria um recorrente elementos em filmes do tipo nas décadas seguintes. 

3. Star Trek II: A Ira de Khan

Direção de Nicholas Meyer

Título original: Star Trek II: The Wrath of Khan 

Lançamento nos EUA: 04 de Junho

Dados: Como a primeira produção lançada em 1979 rendeu abaixo do esperado, este segundo filme da franquia televisiva Star Trek foi realizado com orçamento menor, mas acabou por render mais que o anterior e foi elogiado por público e crítica.

Enredo: Durante sua missão de exploração do espaço o Capitão James T. Kirk encontra um antigo inimigo cuja sede por vingança ameaça toda a tripulação da Enterprise e a Federação. 

Marcou época porque: Estabeleceu dialogo com a história da franquia ao trazer um vilão da série na TV e também por ter dado início a uma tradição de Star Trek no Cinema em que os filmes pares são excelentes enquanto que os ímpares são ruins ou irregulares. Tradição que se mantém até hoje.

4. E.T. O Extraterrestre 

Título original: E.T. The Extraterrestrial 

Lançamento nos EUA: 25 de Junho

Dados: Uma das maiores bilheterias de todos os tempos (em valores atuais é a quarta maior bilheteria mundial), o filme consagrou o diretor Steven Spielberg como o maior nome do Cinema nos anos 80. 

Enredo: Um simpático ser extraterrestre é esquecido em nosso planeta e conta com a ajuda de um menino para voltar ao seu planeta e evitar ser capturado por agentes do governo norte-americano.

Marcou época porque: O interessante aqui é justamente o fato que E.T. não exerceu impacto nas produções posteriores a ele, sendo essencialmente um filme de seu tempo. 

Isso decorre talvez do apelo maior que seres extraterrestres maléficos e ameaçadores causam junto ao grande público, algo que destoa do clima de fantasia dessa produção de Spielberg. 

5. Blade Runner: O caçador de androides 

Direção de Ridley Scott

Título original: Blade Runner 

Lançamento nos EUA: 25 de Junho

Dados: Adaptação do diretor Ridley Scott do livro Os androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick. O filme recebeu críticas mornas da crítica e do público quando de seu lançamento, mas se tornou cult com o tempo.

Enredo: Um caçador de androides é encarregado de eliminar androides (chamados no filme de Replicantes) que estão apresentando um comportamento fora do programado. Enquanto tentar separar o humano do artificial ele se envolve com uma dessas criaturas e tem sua própria identidade questionada.

Marcou época porque: Trouxe para as telas do Cinema toda a estética cyberpunk que marcariam os anos 80 no Cinema e na Literatura de FC. Ao lado de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), Blade Runner é considerado pela crítica como um dos filmes mais icônicos da Ficção Científica. 

 6. O Enigma do Outro Mundo

Direção de John Carpenter

Título original: The Thing 

Lançamento nos EUA: 25 de Junho

Dados: Refilmagem do clássico de 1951, chamado no Brasil de O monstro do Ártico

Tanto o filme de 1951, como este de 1982 e mesmo sua refilmagem em 2011, são baseados no conto “Who Goes There?” (1938), do editor e escritor de Ficção Científica John W. Campbell, O Enigma do Outro Mundo renova a parceira entre John Carpenter na direção e Kurt Russell como protagonista após Fuga de Nova York. 

Enredo: Intrigados tanto pela morte de uma equipe norueguesa de pesquisadores quanto pela destruição de sua base um grupo norte-americano na Antártida eventualmente descobre que uma criatura extraterrestre capaz de assumir a forma humana está entre eles e fará de tudo para sobreviver. 

Marcou época porque: Exemplifica como o cinema de FC dos anos 80 foi a última década em que os efeitos especiais eram obtidos por meio de maquiagem, marionetes e animatônicos, algo que mudaria a partir dos anos 90 com a computação gráfica.

7. Tron 

Título original: Tron

Lançamento nos EUA: 09 de Julho

Dados: Ao lado de Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan, foi um dos primeiros filmes a utilizar efeitos especiais de computação gráfica em uma época em que poucas pessoas tinham computadores em casa. 

Enredo: Jovem engenheiro de Software cai em uma armadilha corporativa e é digitalizado para dentro de um mundo virtual onde precisa lutar por sua vida ao lado de outros programas sencientes. 

Marcou época porque: Antecipa a percepção de que os computadores iriam mudar a sociedade contemporânea em todos os seus níveis. Além de mostrar o potencial da computação gráfica para o Cinema.

O interessante é que o filme não se saiu bem de bilheteria justamente porque muitas pessoas da época não entenderam a linguagem técnica cheia de palavras como “hackers”, “sistema de dados” e “softwares”.

Já assistiu a todos esses filmes?

Qual é o que você mais gostou? 

Gostou de alguma continuação ou refilmagem deles? 

Deixe seu comentário e assine o blog. 

Obrigado pela leitura e até a semana que vem.

Fontes utilizadas 

CLUTE, John. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter; SLEIGHT, Graham (Eds). The Encyclopedia of Science Fiction. Disponível em http://www.sf-encyclopedia.com/. Acesso em 06 de maio de 2017.

O que a Princesa Leia revela sobre as mulheres na Ficção Científica

Quantas vezes você já viu essa cena?: O casal corre de mãos dadas fugindo do perigo que os ameaça. De repente, a bela jovem cai indefesa e aguarda a morte iminente, mas nada tema! O herói retorna rapidamente e resgata a “mocinha”. 

Flash Gordon, um dos primeiros heróis espaciais, resgata a eterna amada Dale Arden.

Gritar, ser capturada, gritar, correr, gritar e ser resgatada. Esse era o percurso das personagens femininas nas revistas e filmes na primeira metade do século vinte em geral e na Ficção Científica (FC) não era diferente .

O que seriam delas sem eles?

Mas quando é que as mocinhas passaram a ficar com equilíbrio maior e cair menos na FC?

E quando passaram a ficar menos dependentes de heróis machões?

A morte da atriz Carrie Fisher no dia 27 de dezembro, vitima ao 60 anos das consequências de um ataque cardíaco, chocou o universo do entretenimento e em particular o mundo do Fantástico pela importância que sua personagem, a Princesa Leia Organa, tem não apenas para os fãs da série Star Wars, mas também para a representação das mulheres na Ficção Científica.

Caso já queira saber as três razões para isso, sem antes conhecer como as mulheres na FC eram gostosas em perigo, clique aqui.

Pins-up em perigo

Pin-up sendo resgatada pela pistola de raios do herói.

“As mulheres na literatura escrita por homens são na maior parte das vezes vistas como ‘outro’, como objetos, de interesse somente na medida em que elas servem aos ou destoam dos objetivos do protagonista homem” (Josephine Donovan)

A observação da crítica Josephine Donovan sobre a representação literária feminina do início do século vinte até os anos da década de 1970 na Literatura ocidental podem ser exemplificadas na Ficção Científica das revistas pulp norte-americanas do período.

A bela dependente do herói. Imagem recorrente nas capas das revistas de FC entre os anos de 1920 a 1950.

Tanto demonizadas quanto subestimadas por escritores e roteiristas homens, as mulheres das histórias de FC ficavam na maior parte das vezes deslocadas no enredo das histórias impressas e nos flimes.

Afinal de contas, as histórias eram sobre aventura, exploração e penetração no desconhecido, combate, e ciência aplicada. Era esperado, portanto, que os papéis principais pertencessem aos homens.

O explorador (homem e branco caucasiano) chega a um planeta hostil habitado por (selvagens e atrasados) alienígenas.

As ilustrações dessas publicações permitiam imaginar tanto o enredo das histórias quanto o forte apelo erótico junto aos adolescentes: existia na maior parte do tempo uma frágil pin-up que, como tal, estava seminua sendo protegida por um herói espacial caucasiano contra um monstro de olhos esbugalhados ou um robô do mal.

Philip Francis Nowlan, criador de Buck Rogers

Edgar Rice Burroughs, criador de John Carter

Escritores e desenhistas tais como Philip Francis Nowlan, Alex RaymondEdgar Rice Burroughs eram especialistas em descrever e criar mulheres sensuais que lutavam contra ou a favor de heróis como Buck Rogers, Brick Bradford, Flash Gordon e John Carter.

Audaciosamente indo onde todo homem já esteve

Durante os anos das décadas de 1960 e 1970 mudanças políticas e sociais ocorreram na Europa e principalmente na América, marcando o aparecimento de um constante e crescente questionamento das instituições sociais e de políticas de governo.

Discussões sobre política, drogas, religião e sexo foram incorporados aos temas da FC aliados com novos experimentos de linguagem e estilo.

Raça e gênero marcam o enredo do premiado romance de FC de Ursula K. Le Guin

Com as mudanças propostas pelo Feminismo, pelos movimentos por direitos civis dos negros americanos, dos homossexuais e dos jovens, escritores tais como Marion Zimmer Bradley, Ursula K. Le Guin, Joanna Russ e Samuel R. Delany, entre outros, debutaram na FC valorizando experiências de raça e gênero e subvertendo as temáticas da FC como viagens no tempo, distopias e aventuras espaciais.

E como as mulheres se viraram no espaço sideral?

De Star Trek…

Foi na Televisão e no Cinema norte-americano dos anos 60 e 70 que se pode encontrar as mais representativas, ainda que tímidas ou ambíguas, tentativas de mostrar as mulheres  na ficção científica como algo mais que “a gostosa em apuros”.

Uhura

Frequências de saudação abertas!

Lançada como uma série televisiva em 1966, Star Trek (ou como também é conhecida no Brasil, Jornada nas Estrelas) trouxe a Tenente Uhura, Oficial-chefe de Comunicações da nave exploratória U.S.S. Enterprise como uma das suas personagens principais.

A personagem vivida pela atriz Nichelle Nichols não foi apenas uma das primeiras mulheres na história da FC a ter um papel de destaque como uma oficial feminina em uma ponte de comando dominada por homens, mas também a primeira negra a ter essa posição. 

I Have a Dream

Este fato levou levou o líder negro Martin Luther King a pedir que Nichelle permanecesse no programa quando ela decidiu abandonar o papel por se achar sub aproveitada na trama. Como King argumentou:

“Você não percebe o quão importante sua presença, seu personagem é? […] Você tem o primeiro papel [negro] não estereotipado na televisão, seja masculino ou feminino. Você quebrou barreiras”. 

Felizmente, Nichelle permaneceu.

Barbarella

Direção de Roger Vadim

Produção franco-italiana de 1968 baseado nos quadrinhos franceses de mesmo nome, o filme trouxe a patrulheira espacial Barbarella, enviada em missão para capturar o criminoso Duran Duran (de onde saiu o nome da conhecida banda dos anos 80).

Misto de ficção científica e comédia erótica, a produção tinha a estonteante Jane Fonda como a personagem do título em diferentes situações eróticas nas quais seu corpo nu era exibido. 

A bela espacial

Barbarella fez de Jane Fonda um dos principais símbolos sexuais dos anos 60 e se por um lado foi mais uma obra de FC que explorou o corpo feminino, por outro inovou o gênero ao trazer uma mulher como protagonista da ação e ciente do poder de sua sensualidade.

… a Star Wars

Princesa rebelde na vida real e na ficção

“Uma das últimas mulheres míticas nas telas dos anos 70”

Assim a escritora e jornalista Jennifer K. Stuller define a princesa Leia Organa no livro Ink-stained Amazons and Cinematic Warriors: Superwomen in Modern Mythology (sem tradução para o Brasil).

A obra analisa a representação feminina nos Quadrinhos, Cinema e Televisão norte-americano.

Stuller se refere ao fato de que o fim dos anos setenta testemunhou o crescimento de um movimento conservador nos Estados Unidos que ameaçou as duras conquistas do movimento feminista na mesma década.

De fato, o que a princesa Leia revela sobre as mulheres na Ficção Científica é a necessidade, por parte das mulheres, de uma contínua vigilância sobre sua própria representatividade na ficção. 

E isso se justifica por três razões presentes na trilogia de Star Wars dos anos 70 e 80:

1. Leia começa como um modelo feminista

 

Leia, Princesa da Disney

Contrariando as expectativas do grande público acostumados com as princesas dos contos de fadas e de sua adaptações animadas pelos estúdios Disney, a Princesa Leia Organa em Star Wars IV: Uma nova esperança (1977) tem personalidade para se colocar em pé de igualdade com os homens do enredo, sem depender de um príncipe encantado para protegê-la. 

A mulher encara Darth Vader. Precisa de mais?

Ela empunha a arma (símbolo fálico do poder masculino) e exerce sua força pelo poder da liderança e não pelo uso de trajes sedutores. 

Vestida para matar

Comprometida e racional, foge do estereótipo de que mulheres são guiadas por sentimentos ao não revelar a localização da base rebelde, mesmo sob ameaça de destruição do seu planeta natal, Alderaan.

Além de Princesa, Leia também era líder militar, se mostrando uma estrategista hábil e eficiente.

Leia organizando as ações rebeldes no planeta Hoth.

2. Leia se torna interesse romântico

Love Story

A evolução de Leia Organa se alinha com os próprios desafios do Feminismo no fim dos ano 70 e início dos 80, principalmente pela criação e disseminação por parte da mídia da época do mito da super mulher.

Assobia e chupa cana ao mesmo tempo

Como explica Jennifer K. Stuller, esta ideia tinha o propósito de fazer com que as mulheres acreditassem que o que elas realmente desejavam era cobrir de forma satisfatória todos os aspectos de sua vida: carreira profissional, maternidade, sexualidade, matrimônio e cuidados com a casa e que o Feminismo estava errado ao não aceitar esta possibilidade.

Ronald Reagan governou os Estado Unidos em dois mandatos na década de 1980

Como se refletisse este avanço do pensamento conservador nos anos 80, exemplificado na vida real pelo governo do Presidente Ronald ReaganStar Wars V, muito apropriadamente chamado de O Império Contra-Ataca (1981), mostra o gradual processo de transformação da arredia e espirituosa princesa Leia em par romântico do personagem Han Solo, vivido pelo ator Harrison Ford. 

Esta suavização da personagem fica mais evidente quando descobre-se que há uma conexão entre Leia e o protagonista Luke Skywalker.

Todavia, enquanto o roteiro foca no treinamento de Luke e aprendizado de sua potencialidade como Jedi, Leia tem seu espaço de atuação no filme vinculado ao desenrolar de sua relação com Han Solo, culminando na sua declaração de amor ao herói.

Dentro da ideia da “super mulher”, Leia pode ser rebelde e também par romântico. Por que não?

3.  Leia termina como Pin-up e amiga de bichinhos

Sonho dos adolescentes nos anos 80

Líder rebelde no primeiro filme e par romântico no segundo. 

Quando Star Wars VI: O retorno de Jedi (1983) se inicia vemos que Luke Skywalker já está familiarizado com os segredos dos Jedi enquanto que Leia está empenhada em salvar seu amado Han Solo das garras de Jabba, o Hut.

Capturada por Jabba, Leia se torna sua escrava sexual e assume sua vestimenta Pin-up para a satisfação de Jabba (e da platéia adolescente do período). 

Leia e seu biquíni de metal

Eventualmente  o público descobre que Leia e Luke são irmãos e que ela também tem a conexão com a Força, mas em nenhum momento do filme este fator é explorado ou desenvolvido.

De fato, a medida em que a trilogia Star Wars avança ao longo da década de 70 e 80, percebe-se que, se no primeiro filme Leia começa empoderada e Luke se mostra um jovem frágil, no terceiro temos uma inversão de papeis e Luke se torna um confiante homem enquanto Leia se torna a namoradinha de Han Solo e, assumindo um visual mais “feminino” fica cercada por criatura fofas como os Ewoks, algo que remete as princesas dos contos de fadas cercadas por pequenos animais.

Só falta cantar

O que a Princesa Leia mostra afinal de contas sobre as mulheres na Ficção Científica é que as tentativas de mudanças na representação de personagens femininas dentro da vertente da Ficção Científica sofrem uma pressão ideológica masculina contrária que trabalha para enquadrar a mulher dentro dos estereótipos do imaginário masculino.

Cabe a sociedade como um todo a vigilância quanto a este discurso limitador e a luta para uma sociedade mais igualitária, fazendo valer, desta forma, a luta da rebelde princesa Leia iniciada há 40 anos e hoje continuada nas empoderadas Rey e Jyn Erso.

 

Fontes utilizadas

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

DONOVAN, Josephine. Beyond the net: Feminist criticism as a moral criticism. In: ___. (ed.). Feminist Literary Criticism: explorations in Theory. Kentuchy: Lexington, 1975. p. 221-225

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

STULLER, Jennifer K. Ink-stained Amazons and Cinematic Warriors: Superwomen in Modern Mythology. New York: I.B. Tauris, 2010.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

  

 

WESTWORLD: robôs, androides, ciborgues ou autômatos?

Lançada em 2016 pelo canal norte-americano HBO na ambiciosa posição de sucessora de Game of Thrones, a série Westworld vem recebendo elogios de público e crítica pelos episódios sobre a relação homem X robô e, dentre outros temas, a discussão da liberdade (ou falta) de escolha na tomada de decisões dos envolvidos.  

O sucesso da série, todavia, não é resultado apenas dos roteiristas, mas sim de todo um passado literário envolvendo seres artificiais  que podem ser traçados da mitologia grega até os dias de hoje.  

Sobre gigantes, cavaleiros e escritores: os antepassados dos robôs

Talos

Como quase tudo relacionado ao Fantástico no Ocidente, é na Grécia antiga que se encontra as primeiras menções a serem artificiais criados com o propósito de auxiliar o homem com seus afazeres.

Hefesto era o construtor dos deuses e foi o responsável pela fabricação dos raios utilizados por Zeus

Segundo a mitologia grega, foi o deus Hefesto (o Vesúvio dos Romanos) o responsável pela criação do primeiro ser artificial: o gigante Talos.

Hefesto criou Talos para proteger a ilha de Creta, algo que ele fazia se colocando na entrada da cidade grega como se pode ver acima no filme Jasão e os Argonautas (1963).

O gigante de bronze possuía uma artéria interna que percorria todo o seu corpo metálico através da qual fluía o Ichor, o misterioso fluido da vida que lhe concedia vida e que também estava presente no sangue dos deuses gregos. 

Sendo estruturado como uma criação que possuía elementos orgânicos (Ichor) e não-orgânicos (corpo metálico), Talos foi um antepassado de projetos de hoje que buscam mesclar componentes vivos e artificiais e que deram origem no ano de 1960 a palavra Ciborgue (“Cybernetic organism”).

Assim sendo, o gigante de bronze Talos não foi apenas o primeiro ser mecânico que poderia ser chamado de robô, mas também foi o primeiro ciborgue da história ocidental, sendo seguido séculos depois por outros representantes do tipo, como os Borg (Star Trek), Robocop, Exterminador e o super-herói Cyborg.

O cavaleiro mecânico de Leonardo da Vinci

Antes da criação da palavra “Robô” em 1921, todos os engenhos com aparência de ser humano ou de outros animais que reproduzissem movimentos por meios mecânicos ou eletrônicos eram chamados de autômatos.

Só podia ser Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci pode ser considerado um dos pioneiros da Robótica em fins do século quinze com suas idéias sobre um cavaleiro alemão automatizado

A ideia inicial de Leonardo da Vinci

O gênio renascentista deixou vários estudos em desenho para uma estrutura que seria inserida em uma armadura medieval e que seria movimentada por meio de manivelas e cabos.  

Também conhecido como “Soldado Robô” ou “Robô de Leonardo”, estas anotações foram redescobertas no século vinte e finalizadas em 2002 por Mark Rosheim.

O autômato de Leonardo da Vinci se mostrou funcional e podia sentar, ficar de pé, virar a cabeça, cruzar os braços e até levantar o visor. 

A efetivação do projeto em 2002 atestou ainda mais a genialidade do mestre renascentista

O Escritor e Frankenstein

Como se define a vida?

 Produzidos entre 1768 e 1774 como meio de propaganda para a venda de seus relógios, os três autômatos do relojoeiro suíço Pierre Jaquet-Droz correram a Europa fascinado plateias em todas as suas apresentações.

Compostos  por “O Escritor”, “A Música” e “O Desenhista” e inseridos no contexto do século dezoito de valorização da Ciência em detrimento da Religião, as criações de Jaquet-Droz eram tão sofisticadas que levantaram debates sobre o principio da vida e a definição de humano.

Segundo estudiosos, uma jovem inglesa de nome Mary Shelley teria assistido a uma das apresentações do autômato Escritor e se impressionado com a aparência de vida da criação de Jaquet-Droz.

Quanta imaginação tinha essa menina!

Anos mais tarde, ela mesmo criaria a obra definitiva sobre a tentativa do ser humano em criar vida artificial: Frankenstein (1818).  

De autômatos a replicantes: O robô literário

Além de Frankenstein, os autômatos de Pierre Jaquet-Droz também exerceram influencia em outras obras fantásticas do século dezenove, mostrando que, a partir dali e ao longo do século vinte, fantasmas e vampiros passariam a dividir a atenção dos leitores com os produtos da Ciência e do progresso.   

Dentre diversos romances, contos, peças teatrais e filmes, destaque para:

A Eva futura (1886), de Auguste Villiers de l’Isle-Adam

Romance francês que trouxe para a Literatura o termo “Androide”.

Formado pela junção do grego Andro (Homem) e o sufixo oid (tendo a forma ou semelhança de), a palavra “Androide” surgiu na enciclopédia Cyclopædia (1728), de Ephraim Chambers.   

Androides são seres artificiais fabricados para terem o comportamento e a aparência física externa semelhante a dos humanos

Androide #18. Bonita e poderosa.

Curiosamente, o androide da obra de Auguste Villiers de l’Isle-Adam é feminino e se chama Hadaly. Isto quer dizer que, na verdade, ela é uma Ginoide, do grego Gyné (Mulher) e o sufixo oid. 

Esta palavra surgiu no romance Divine Endurance (1985), de Gwyneyth Jones

“Gynoid”. Uma tentativa de se contemplar a questão dos gêneros na literatura de robôs.

Outros termos usados para designar androides femininos, são Fembot e Feminoide. Todavia, “Androide” é normalmente o termo escolhido para ambos os sexos.

É importante destacar que se Hadaly foi a primeira ginoide na Literatura, a posição de primeira autômata pertence a Olympia, da obra O homem de areia (1817), de E. T. A. Hoffmann.  

Olympia na Ópera Les Contes d’Hoffmann (2010)

“O feitiço e o feiticeiro” (1894), de Ambrose Bierce

“O Rei morreu e você também!”

Jogador de xadrez autômato se revolta contra seu criador e o mata após levar um Xeque-Mate. 

É um dos primeiros contos em Língua Inglesa a trazer a descrição de um autômato.

A fábrica de robôs (1920), de Karel Capek

Um cena da peça mostrando três robôs.

Nesta peça teatral a palavra “Robô” surgiu.

Foi o escritor e pintor Joseph Capek, irmão de Karel Capek, que sugeriu o uso da palavra tcheca robota (“servidão”, “trabalho forçado”) para dar nome aos produtos da fábrica R.U.R. (Rossum’s Universal Robots).

Ironicamente, mesmo aqui na obra que as batizou, as criações mostradas não se encaixam na visão popular de robôs da Ficção Científica como um agrupamento de partes mecânicas e eletrônicas.

Robby, um dos mais famosos robô da FC, destaque do filme O Planeta Proibido (1956).

Sendo produzidos de forma biotecnológica a partir da descoberta de um composto orgânico, os robôs de Capek se enquadram melhor na categoria de Androides

De fato, baseado nos episódios da primeira temporada de Westworld, podemos observar semelhança entre os robôs da obra de Capek e os Anfitriões da série no que se refere a sua fisiologia artificial.

Assim sendo, pode ser dito que os robôs de Westworld, apesar do nome, são na verdade androides.

A principal contribuição da peça de Karel Capek é a introdução do debate tanto sobre a exploração dos robôs pelo ser humano, resultando na rebelião do primeiro, quanto sobre a desumanização do homem diante da tecnologia. 

Metropolis (1927), direção de Fritz Lang

Se o primeiro androide na Literatura foi na verdade a ginoide Hadaly, o mesmo ocorreu com o primeiro androide no Cinema: Maria

Considerado por críticos em geral o primeiro filme de Ficção Científica, a ginoide Maria serviu de base para a criação de C-3PO, da saga Star Wars.

 Eu, Robô (1950), de Isaac Asimov

Nesta coletânea de nove contos Asimov apresenta as bases de sua História de robôs.

Listado entre as obras mais importantes do século vinte, o livro de Isaac Asimov trouxe uma nova abordagem para os robôs, afastando-os da imagem de seres ameaçadores e malignos veiculadas nas revistas de ficção científica das primeiras décadas do século vinte.

Destrua todos os humanos!

O robô de Asimov, este sim um ser metálico como a cultura pop costuma representar, tem sua existência regulada pelas chamadas Três Leis da Robótica, princípios que ultrapassaram o campo da Literatura e ainda servem de base para os estudos dos robôs atuais.

Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), de Philip K. Dick

Publicação da Editora Aleph

Clássico cyberpunk de Philip K. Dick, apresenta o termo pejorativo Andys para se referir aos androides perseguidos pelo caçador de recompensas Rick Deckard.

Na adaptação para o Cinema, em 1982, o diretor Ridley Scott adotou o termo “Replicante” para reiterar a capacidade dos androides em replicar a natureza humana, levando os caçadores a aplicar um teste para identificá-los enquanto seres artificiais.   

O filme não teve bom desempenho de público e crítica nos anos oitenta, mas se tornou um clássico cult com o passar dos anos.

O romance se alinha com o efervescente contexto politico-cultural dos anos de 1960 nos Estados Unidos e traz temas recorrentes do autor, como o debate sobre os limites entre o real e o virtual, o impacto da tecnologia na relação do ser humano com seu meio, e o questionamento sobre as definições de humano. 

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Fontes utilizadas

ASIMOV, Isaac, GREENBERG, Martin H., WARRICK, Patricia S. (Ed.). Máquinas que pensam: Obras primas da ficção científica. Porto Alegre: L&PM Editores,1985.

CLUTE, John. Science Fiction: The Illustrated Encyclopedia. London: Dorling Kindersley, 1995.

ROBERTS, Adam. Science Fiction. London: Routledge, 2000. (The New Critical Idiom).

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com