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Todo negro quer ter o cabelo liso; Ou Yes, nós temos Ficção Científica

Imagine um futuro em que, para se casar e ter filhos, você precisasse provar antes, para uma comissão, que geraria alguém sem problemas físicos ou mentais.

“Você deve ter um Certificado Eugênico”.

Imagine um futuro em que a ordem social foi alcançada por meio da esterilização de alcoólatras, pervertidos sexuais e pessoas portadoras de necessidades especiais.

Propaganda da Alemanha Nazista incentivando a Eutanásia mostrando os custos para o pais do tratamento de deficientes mentais.

Imagine um futuro em que os negros, após terem conseguido embranquecer a pele, também ansiassem por terem os cabelos lisos e sedosos.

A propaganda da empresa de cosméticos L’Oréal causou polêmica por embranquecer o tom da pele de Beyoncé.

E se o processo de alisamento dos cabelos escondesse um segredo mortal para a população negra?

Bem vindo ao futuro de O Presidente Negro, ou O Choque das Raças (1926), de Monteiro Lobato. 

Monteiro Lobato foi o Pai da Literatura Infantil Brasileira e ardente defensor do progresso do Brasil.

Se você quer logo saber como a distopia do criador de O Sítio do Pica-Pau Amarelo exemplifica os momentos iniciais da Ficção Científica no Brasil no começo do século vinte, antes de conhecer as raízes da FC brasileira e sua dificuldade de se estabelecer no país, clique aqui

Da Europa a Hollywood

O impacto da Revolução Industrial na Inglaterra do século dezenove, representada, por exemplo, na invenção de máquinas que tiraram o emprego das pessoas no campo e criaram fábricas na cidades, promoveu o ambiente literário para o nascimento da ficção científica, através do romance gótico Frankenstein (1818), da escritora inglesa Mary Shelley.

Já na era vitoriana (1837-1901), a FC se desenvolveu em uma nova vertente romanesca nas “Viagens Extraordinárias” do francês Julio Verne e nos “Romances Científicos” do inglês H. G. Wells.

O francês Julio Verne e o inglês H. G. Wells. Pais da Ficção Científica.

Será nos Estados Unidos da América que, em 1926, o termo “Ficção Científica” será criado pelo editor tcheco naturalizado norte-americano Hugo Gernsback através das revistas pulp como, dentre outras, Amazing Stories e Science Wonder Stories.

A partir da palavra “Scientifiction” surgiu o termo “Science Fiction”.

Alinhado com o momento de avanço tecnológico e interesse pela ciência presente na sociedade americana das primeiras décadas do século vinte, Hugo Gernsback, ao lado de outros editores e publicações, criaram o ambiente necessário para o desenvolvimento de uma cultura de FC.

Flash Gordon, principal representante dos heróis das Space Operas da FC da época.

Esta base permitiu que temas e ideias fossem criadas, exploradas, reinventadas e disseminadas por escritores e leitores nos anos das décadas de 1920 a 1950, levando a Ficção Científica a se estabelecer na cultura americana e se espalhar para outros veículos, como a TV e o Cinema do país.  

E a Ficção Científica Brasileira?

O Brasil não conheceu uma Pulp Era, como a dos norte-americanos, que ajudou a ficção científica a se estabelecer no mercado.

Uma das causas desse fenômeno, segundo o escritor e crítico Bráulio Tavares, foi o fato de que, diferente do observado na história do nosso país, o papel transformador desempenhado pelo progresso e a tecnologia no processo de formação da sociedade norte-americana permitiu que a ficção científica encontrasse um meio receptivo junto ao grande público daquele país.

A pintura AMERICAN PROGRESS (1872), de John Gast, retrata a importância da educação e do pensamento cientifico no crescimento do país. Por onde o Progresso passa, espalhando a eletricidade e trazendo a locomotiva, as trevas vão se retraindo.

Já para Murilo Garcia Gabrielli, nossa literatura fantástica, e incluo ai a ficção científica, tem seu início no final do século dezenove e começo do vinte via a forte influência da cultura inglesa e francesa na formação da elite literária do país.

Século dezenove: doutores e rainhas

No excelente Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (2003), Roberto de Sousa Causo, defende que a ficção científica começa no Brasil com a obra O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar.

 Visivelmente influenciado pelos romances de Julio Verne, O Doutor Benignus relata uma expedição ao Brasil Central a partir de onde o cientista do título quer provar que o Sol é habitado por criaturas vivas.  

Outra obra precursora do Fantástico brasileiro, tanto da FC na vertente das Utopias literárias quanto da Fantasia, é A Rainha do Ignoto (1899), da cearense Emília Freitas

Inovador na época por ter sido publicado por uma escritora e também por trazer uma mulher como protagonista, o romance mescla utopia e fantasia ao mostrar como a rainha de uma terra encantada habitada exclusivamente por mulheres percorre o Brasil para libertar mulheres de seu sofrimento físico e mental.

O admirável mundo novo da República Velha

Após as experiências isoladas de Augusto Emilio Zaluar e Emília Freitas, a Ficção Científica brasileira começa a ganhar corpo e regularidade ao longo da República Velha (1889-1930) em duas fases com características distintas:

  1. Durante a Belle Époque (1889-1914);
  2. Durante o período entre-guerras mundiais (1914-1930).

O lado feio da Belle Époque

As narrativas de ficção científica se desenvolvem como reflexo dos efeitos reformadores da Belle Époque (1898-1914) sobre as metrópoles brasileiras, com destaque para o Rio de Janeiro e São Paulo. 

A Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, foi um marco da obsessiva busca das elites brasileira em se aproximar da França, modelo cultural do período.

Nesse período, em que o sujeito urbano se viu alienado e perdido em meio as profundas transformações da cidade carioca levadas a cabo pelo progresso científico, as narrativas de ficção científica brasileira se manifestaram por meio tanto da Ciência Gótica, quanto da postura artística de fim de século chamada Decadentismo.

Para um melhor entendimento da Ciência Gótica e do Decadentismo, recomendo a leitura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado clicando aqui.

Para Bráulio Tavares, a Ciência Gótica é representada por narrativas que mesclam FC e Gótico de forma que a Ciência é usada em situações bizarras, estranhas e grotescas. Como é o caso de FRANKENSTEIN.

Os escritores Coelho Neto e João do Rio são os principais representantes desta ficção científica dark brasileira. 

Dentre os vários romances e contos filiados ao fantástico, destaque em Coelho Neto para o romance Esfinge (1908), no qual Espiritismo e Ciência Gótica se unem para descrever a angústia existencial de um ser andrógino fabricado pela união de um corpo masculino e rosto feminino. 

Jornalista, escritor e cronista da Belle Époque, João do Rio foi responsável por introduzir a obra do também decadentista Oscar Wilde no Brasil.

Já nos contos e crônicas de João do Rio o que se tem são narrativas decadentistas em que o progresso e a ciência ressaltam as taras e psicoses dos habitantes urbanos.

O lugar ruim do entre-guerras

A partir dos anos da década de 1920, a Ficção Científica brasileira se alinhou com o ambiente de incertezas dominante na Europa e Estados Unidos do período entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Grande Guerra.

Este cenário levou a criação de Distopias literárias que refletiram a busca de soluções para o país por parte de pensadores e intelectuais.

NÓS (1922), de Yevgeny Zamyatin é considerada a primeira distopia moderna e serviu de referência para as distopias 1984 e ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.

No Brasil, as elites enxergaram no povo brasileiro, e mais especificamente, na constituição miscigenada do país, o responsável pelo atraso da nação.

O REINO DE KIATO (1922), de Rodolpho Theophilo, publicado pela editora de Monteiro Lobato.

Esta crença ganhou forma em utopias/distopias literárias como O reino de Kiato (1922), de Rodolpho Theophilo, A Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls, e Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500 (1929), de Adalzira Bittencourt. 

Como elemento em comum, estes romances trazem sociedades cujos problemas sociais foram eliminados pela aplicação do pensamento eugenista, ou seja, da crença da superioridade de uma raça sobre outra e o controle de tipos humanos indesejáveis por meio da ciência.

No Brasil, os indesejados eram o negro, o índio e o caboclo.

Mas, dentre todas as distopias no Brasil da época, nenhuma superou o romance O Presidente Negro, de Monteiro Lobato devido a influencia do seu autor no meio literário e intelectual da época.

O Presidente Negro, ou O Choque das Raças

Lobato achou que o livro venderia milhões nos Estados Unidos, mas os americanos se recusaram a publicar o romance.

Escrito originalmente em 1926 para o rodapé da revista A Manhã, de Mário Rodrigues, O Presidente negro ou O choque das raças (romance americano do ano 2228) se estrutura em dois planos:

No primeiro, o leitor é posto frente à narrativa do protagonista Ayrton, que é resgatado pelo professor Benson em meio aos destroços de um acidente de carro e é convidado pelo idoso a testemunhar os seus experimentos em sua casa enquanto recupera sua saúde.

Já no segundo plano, o romance mostra como, por meio de um aparelho chamado de “Porviroscópio”, Ayrton e Miss Jane, filha do Dr. Benson, conseguem ver os acontecimentos na América do futuro.

Os elementos que levaram O Presidente negro a ser considerado, na expressão de Fausto Cunha, “um precursor indesejável” da ficção científica brasileira, devido ao seu teor elitista, excludente e racista, estão presentes desde o início do enredo, ambientado no período do entre guerras.

Como reforça o Prefácio dos editores da segunda edição, de 1945, 

[…] [o romance] encerra um quadro do que realmente seria o mundo de amanhã, se fosse Lobato o reformador – e em muitos pontos havemos de concordar que sob aparências brincalhonas brilha um pensamento de grande penetração psicológica e social. O conserto do mundo pela eugenia, […]  

As ideias de reforma social de H. G. Wells, pai da FC inglesa, exerceram grande influencia sobre Monteiro Lobato.

Em O Presidente negro esse projeto social lobatiano tem um alvo direto: o negro.

Considerada um entrave ao pleno desenvolvimento dos Estados Unidos da América, a população negra, dentro do romance, passou a ser objeto de uma série de medidas que visavam controlar a sua expansão.

Para isso foi criado um “Ministério da Seleção Artificial” cujo objetivo era aplicar a Lei Owen de 2031, quando a eugenia se tornou política pública e passou a eliminar os impuros, ou seja, as pessoas com deficiência física e mental, criminosos e prostitutas.

No entanto, os negros não apenas sobreviveram como também aumentaram o seu número.

A expatriação dos negros não é um processo viável devido aos altos custos envolvidos na operação. Outro fator agravante na situação dos negros norte-americanos em O Presidente negro foi a despigmentação a que os mesmos se submeteram para eliminar a cor escura, transformando-os em albinos.

Esse procedimento aumentou o ódio dos brancos por igualar negros e brancos em termos de cor de pele, e isso mostra que o racismo se alicerça em bases invisíveis, se alimentando da intolerância em relação ao Outro.

Diante da resposta de Ayrton de que o Brasil foi mais pragmático por promover a miscigenação entre as raças como solução para o desaparecimento dos negros, a cientista retruca:

A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável peora de caráter, conseqüente a todos os cruzamentos entre raças dispares. Caráter racial é uma cristalização que ás lentas se vai operando através dos séculos. O cruzamento perturba essa cristalização (p. 206).

A tensão entre negros e brancos alcança o seu limite na octogésima oitava eleição presidencial norte-americana, que acaba na vitória do candidato negro Jim Roy.

Jim visita o Presidente Kerlog para propor um novo futuro de convivência pacífica entre brancos e negros. Kerlog, porém, surpreende o líder negro:

“Como homem admiro-te, Jim . Vejo em ti o irmão e sinto o gênio. Mas como branco só vejo em ti o inimigo a esmagar…” (p. 271).

Os brancos não tardam a agir, mesmo que desafiando a Constituição ao não legitimar o vitorioso de uma eleição livre.

O Presidente Kerlog, no entanto, tem resposta para isso:

“Acima da Constituição vejo o Sangue Ariano. O negro nos desafia. Cumpre-nos aceitar a luva e organizar a guerra” (p. 279).

A resposta para o Presidente negro vem de uma invenção do cientista Dudley.

Contando com a felicidade dos negros norte-americanos por terem eleito um Presidente dos seus e sabendo do desejo dos negros de terem os cabelos lisos, o cientista oferece uma solução para os cabelos crespos da população através da exposição aos raios Omega:

“Vir agora, e assim de chofre, o resto, o cabelo liso e sedoso, a supressão do teimoso estigma de Cam,” (p. 298).

O que os negros não sabiam, porém, era que o aguardado tratamento voltado para alisar-lhes o cabelo tinha como propósito verdadeiro a completa esterilização da raça negra

Após toda a população negra ser submetida ao tratamento, é Kerlog quem avisa ao negro Jim Roy sobe o fim dos seus semelhantes:

“Tua raça morreu, Jim, […] o branco pôs um ponto final no negro da America” (p. 317).

Jim é o único a saber da armadilha dos brancos e se suicida antes de tomar posse.

Para evitar uma revolta, o governo lança uma boneca dançarina que cativa toda a nação e abafa o debate sobre o suicídio de Jim. 

Um nova eleição é realizada e Kerlog é mais uma vez eleito Presidente.

Eventualmente os negros são informados que eles foram incluídos no rol dos indesejados da Lei Owen e, por isso, tiveram de ser eliminados.

Como vivemos em tempos de intolerância ideológica da Direita e da Esquerda, não apenas no Brasil, mas no mundo, penso ser importante enfatizar aos que sugerem que a obra de Monteiro Lobato seja proibida de circular nas escolas por conter elementos racistas que se lembrem que Monteiro Lobato era um homem de seu tempo e, portanto, inserido nas ideias de seu tempo e é sob tal perspectiva que o educador e o eventual detrator de sua obra deve analisá-lo, reconhecendo também seu talento literário na ficção.

Para e Pensa

Por fim, duas questões:

Primeiro, ainda que eu não tenha abordado a história da FC a partir da década de 30 com autores como Berilo Neves e Jerônýmo Monteiro (assunto para outro post), se pode perceber pelo o que foi mostrado aqui que a Ficção Científica brasileira possui uma significativa produção literária de qualidade.

Então a questão é: Por que a FC brasileira não decola para o infinito e além e se estabelece? 

Por que, ao contrário da Fantasia de um Eduardo Spohr, Raphael Draccon e Carolina Munhoz e do Gótico de um André Vianco, não temos autores e obras relevante da Ficção Científica?

Falta originalidade? Falta o tratamento de temas clássicos por uma perspectiva verde e amarela? Deixe sua opinião

Segundo, destaco a dedicação de escritores e críticos que por mais de trinta anos vem incansavelmente trabalhado para demonstrar a força e valor da FC brasuca.

São eles, dentre outros: Bráulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Marcello Branco e Roberto de Sousa Causo.  

Esta iniciativa também é levada a cabo por blogs variados, dentro os quais destaco:

Fantasticontos

Mensagens do Hiperespaco

Momentum Saga

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Obrigado e até a semana que vem.

Fontes utilizadas

ALLEN, L. David. No mundo da ficção científica. São Paulo: Summus editorial, 1974.

BOOKER, M. Keith. The Dystopian Impulse in Modern Literature. London: Greenwood Press, 1994.

CARVALHO, J. M. de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

CAUSO, Roberto de Souza. Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

CLUTE, John; NICHOLLS, Peter. (eds.). The Encyclopedia of Science Fiction. New York: St. Martin´s Press, 1993.

______. The Encyclopedia of Science Fiction. London: Dorling Kindersley, 1995.

DIWAN, Pietra. Eugenia, a biologia como farsa. In: História viva. São Paulo, Edição 49, ano V, p. 76-81, 2007.

FAUSTO, Boris. O pensamento nacionalista autoritário: 1920-1940. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

GABRIELLI, Murilo Garcia. A obstrução ao fantástico como proscrição da incerteza na literatura brasileira. Rio de Janeiro, UERJ, Instituto de Letras, 2004. 157 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada.

LOBATO, Monteiro. O presidente negro. In: ___. A onda verde e O presidente negro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1966. (Obras completas de Monteiro Lobato – vol 5).

SILVA, Alexander Meireles. Literatura inglesa para brasileiros: curso completo de cultura e literatura inglesa para estudantes brasileiros. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

SILVA, Alexander Meireles. O admirável mundo novo da república velha. Rio de Janeiro, UFRJ, 2008. 193 fl. digitadas. Tese de Doutorado em Literatura Comparada. Disponível em http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/pos/trabalhos/2008/alexandermeireles_oadmiravel.pdf . Acesso em 16 fev, 2017.

TAVARES, Bráulio. Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2003.

Escrito por Alexander Meireles da Silva

Contato: fantasticursos@gmail.com

Como você pode sobreviver a Distopia de Donald Trump

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Tem jeito não: Donald Trump é o 45° Presidente dos Estados Unidos da América.

E agora? Como sobreviver a Era Donald Trump? O que ela pode representar para o Fantástico?

A eleição de Trump traz a mente outro momento em que o mundo deu uma guinada para a direita com as eleições da Primeira-Ministra Margaret Thatcher na Inglaterra em 1979 e do Presidente Ronald Reagan nos EUA em 1981.

Estes dois eventos representaram o início de uma ideologia conservadora que se estenderia por toda a década de oitenta do século passado, motivando a criação de obras e produções vinculadas ao Fantástico na Literatura, Cinema e Quadrinhos, principalmente na forma das distopias.

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Na Inglaterra de 1982 e 1983, por exemplo, Alan Moore publicou na revista britânica Warrior sua crítica ao governo da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher na forma de V de Vingança, que seria depois finalizada em 1988 dentro do selo Vertigo da DC Comics

O lado negro do sonho

É interessante destacar aqui como outros termos para a palavra “Distopia”, tais como “Utopias negativa”, “Contra-utopia” e “Utopia devolucionária” reforçam a estreita relação entre as distopias e as utopias, e isso não é a toa. Afinal de contas, dependendo de qual lado você está, o sonho para uns é o pesadelo para outros.

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A sombra da distopia já estava presente, na verdade, desde o primeiro projeto utópico do Ocidente: A República (380 a. C), de Platão, visto que para o filosofo grego poetas e artistas em geral deveriam ser banidos por não considerarem a razão como seu guia de vida.

Ao longo dos séculos, a medida em que a Ciência avançou e, por tabela, o Racionalismo, as utopias deixaram transparecer cada vez mais suas contradições distópicas.  

Novas distopias, velhos pesadelos

 

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A distopia moderna nasce no início do século vinte na hoje extinta União Soviética por meio de um romance novamente escrito sob o temor da ameaça as liberdades individuais e conquistas sociais: Nós (1922), de Yevgeny Zamiatin.  

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Muito pouco lido atualmente, esta obra exerceu influencia direta sobre 1984 (1949), de George Orwell e Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, dois romances que ainda hoje são referências para outras produções do gênero.

Se você assistiu a Matrix (1999), por exemplo, saiba que a ideia de seres humanos fabricados em tubos de ensaio saiu do livro de Huxley, como mostra a imagem acima.

    

No Cinema, a Distopia tem sua origem no filme alemão Metropólis (1927), dirigida por Fritz Lang, estabelecendo muito da fotografia usada em outras produções cinematográficas sobre o tema, principalmente durante o mandato da presidência de Ronald Reagan de 1981 a 1989. 

É uma distopia se…

  • A história já começa dentro da realidade distópica (narrativa em media res);
  • A história é ambientada no futuro;
  • O(s) orgão(s) de controle se apoia(m) em um discurso que privilegia a razão em detrimento da emoção ou da imaginação;
  • Inicialmente o protagonista não tem consciência ou se aliena de sua condição de oprimido;
  • As instituições de poder controlam os meios de comunicação omitindo ou manipulando informações;
  • Há um incetivo a atividades coletivas por meio de esportes, rituais e celebrações enquanto que ações individuais, como a leitura, são marginalizadas;
  • O protagonista desperta de sua condição de alienado a partir do contato e interesse com alguém do sexo oposto;
  • Há a presença de um representante da ordem dominante que explica ao protagonista como o mundo se tornou uma distopia;

Distopias do século XX com ameaças do século XXI

Durante os anos Reagan as políticas adotadas encontraram reflexo em diversas publicações e produções distópicas da época. Cito abaixo apenas um exemplo de cada na Literatura, no Cinema e nas Histórias em Quadrinhos:

Literatura

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A História da Aia (1985), de Margaret Atwood

O romance da canadense Margaret Atwood situa-se em um futuro especulativo onde os assassinatos do Presidente e de congressistas americanos atribuídos a terroristas muçulmanos resultaram na dissolução dos Estados Unidos da América e na implantação de um Estado totalitário por militares cristãos fundamentalistas. Ou seja, é o perfil e muitos dos eleitores republicanos que votaram em Trump.

Nesta distopia as guerras quimicas, abortos e o uso indiscriminado de medicamentos levaram a maioria das mulheres a se tornarem inferteis ou gerarem crianças com malformações. Por conta disso, as que ainda são supostamente férteis e são solteiras, viúvas, divorciadas e provenientes de casamentos não legalizados foram aprisionadas pelo novo governo para exercerem a única função social de gerarem crianças saudáveis para a sociedade. 

Considerando a visão de Donald Trump sobre as mulheres… fica a dica.

Cinema

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O sobrevivente (1987), direção de Paul Michael Glaser 

Falar de distopia no Cinema norte-americano dos anos oitenta é falar de Blade Runner (1982), clássico cult do diretor Ridley Scott baseado no romance Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), do escritor Philip K. Dick. 

Mas, como Donald Trump será com certeza um presidente midiático, indico uma distopia com Arnold Schwarzenegger, e que não é O Exterminador do Futuro (1984).

O Sobrevivente é baseado no romance O concorrente (1982), de Stephen King e  mostra como no ano de 2017 (profecia?), os Estados Unidos estarão sob o comando de um governo totalitário que retirou a liberdade individual de toda a população. Livros são queimados e instituições de ensino são fechadas.

A única diversão do povo é a TV, e o programa mais popular é um reality show  em que sobreviver é a única recompensa. Neste cenário um homem é culpado de um crime que não cometeu e sua sentença é para a cadeia ou entrar para o jogo. 

Imagine uma mistura de Jogos Vorazes com Schwarzenegger e o resultado é O sobrevivente

Histórias em quadrinhos

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O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller 

Esta graphic novel, que ao lado de Watchmen (1986), de Alan Moore redefiniu o gênero de histórias em quadrinhos de super-heróis, mostra um Batman amargo e envelhecido que anos depois de ter abandonado a carreira de vigilante mascarado decide retornar ao combate ao crime em meio a uma decadente Gotham City do futuro tomada pela violência e a alienação da mídia.

Indico esta obra pela ácida crítica de Frank Miller a sociedade americana e a alienação da Mídia, tendo como pano de fundo a política de governo dos anos Reagan. Ou seja, a mesma coisa a se esperar de Donald Trump.

E agora?

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Lendo e assistindo as sugestões aqui de livros, filmes e quadrinhos você não será pego de surpresa pelas possíveis ações do novo Presidente dos Estados Unidos pelos próximos quatro anos.

Considerando a influencia norte-americana sobre a cultura e a disseminação de um pensamento de direita pelo mundo, especulo que nos próximos anos veremos uma nova onda de obras distópicas mais tradicionais, com tom mais sério que distopias adolescentes como Divergente e Jogos Vorazes e com foco no poder da mídia (algo que já se pode ver na série Black Mirror), além do questionamento de conquistas sociais de grupos minoritários.    

É esperar pra ver, mas espero que não!

Que livros, filmes e quadrinhos as promessas de governo de Donald Trump te lembra?

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E acompanhe novos posts toda quarta-feira às 9h.

Escritor por: Alexander Meireles da Silva

Contatos: fantasticursos@gmail.com